| |
<
voltar
EXCLUSIVO
Livro de Allouch é delirante e obscuro
Elisabeth Roudinesco
É difícil dizer que Jean Allouch toma partido em
favor da tortura, pois seu livro(nota do editor brasileiro: "A
Etificação da Psicanálise", Companhia
de Freud Editora) é delirante, obscuro, muito difícil
de ler. Em alguns momentos, perguntei-me se ele mesmo compreendia
o significado do que escrevia. O que se depreende deste livro é
um ódio sistemático ao que já é reconhecido
e com autoridade: os ataques contra Jacques Derrida e René
Major provêem de um ciúme persecutório. Eu conheço
bem Jean Allouch, pois durante vinte anos mantivemos relações
amigáveis. Infelizmente, desde alguns anos, ele "resvalou",
ele se perdeu em uma forma de loucura de palavriado e seus textos
parecem escritos paranóicos. Não têm muito audiência
na França. Outrora, Allouch já teve talento e generosidade.
Fundou uma revista e uma escola com amigos de sua geração
que já o deixaram devido às suas violências
e à sua pulsão destrutiva. Tal um "guru",
ele é rodeado por uma pequena corte de admiradores e eu confesso
não ter entendido bem porque seu livro foi traduzido no Brasil.
É claro, que Allouch parece fascinado pelos torturadores,
mas este fascínio não significa que ele estaria ao
lado deles nas condições reais do exercício
da ditadura. Este fascínio reenvia a uma visão apocalíptica
do mundo: tudo é podre e abjeto, todos vão ao encontro
do que é visível. É, portanto, suficiente,
que falemos de um livro que toca nas obsessões de Allouch
, para que Allouch escreva um livro hostil a este livro, como se
ele se sentisse permanentemente perseguido, torturado por inimigos
imaginários. Penso que não se deve dar grande audiência
a tudo isto. Ninguém na França apóia tal discurso.
E este discurso é o sintoma de um deslocamento do campo lacaniano,
de um radicalismo extremo com relação a certos aspectos
da conceituação lacaniana, tornando-se louco por querer
formalizar em termos de vínculos e de topologia a própria
essência da psicose. Por favor, esqueçamos Allouch.
É preciso que, para o ano 2000, a psicanálise saia
de seu jargão, de sua esclerose, de seus dogmas e de sua
loucura para retornar a ser a grande aventura de uma exploração
do psiquismo. É preciso que a psicanálise saiba responder
a todos os sofrimentos provindos da globalização,
da tecnologia medicamentosa e da redução dos homens
a simples mercadorias.
(Este texto, cedido a "Gradiva" por Elisabeth Roudinesco,
foi feito em resposta a perguntas feitas por O Globo em 8 de junho
último, e que não foi publicado.)
|
|