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Esperando a alma chegar
Paulo Sternick
Num bar em Paris durante o dia, uma jovem mulher se aproxima de
um homem de meia-idade e diz que tinha lido uma coisa fantástica
numa revista e precisava falar disso com alguém. Era o seguinte:
no México, cientistas contrataram carregadores para leva-los
ao cume da montanha de uma cidade inca. A certa altura, os carregadores
não quiseram mais prosseguir. Os cientistas, irritados, não
sabiam mais como faze-los seguir adiante. Não entendiam os
motivos de uma parada tão prolongada. Após algumas
horas, os carregadores recomeçaram a andar e, finalmente,
o chefe deles deu uma explicação: eles tinham corrido
muito e estavam esperando suas almas chegarem. A moça que
contou esta história - uma personagem de “Além
das nuvens”, filme do diretor Michelangelo Antonioni, que,
doente, foi ajudado por Wim Wenders – comentou: “É
fantástico, porque também corremos atrás de
nossas coisas e perdemos nossas almas. Devíamos esperar”.
Ao assistir ao último filme de Pedro Almodóvar,
“Fale com ela”, em exibição no Rio, a
experiência que se tem é a de sermos transportados,
lentamente, cena a cena – desde o balé inicial de Pina
Bausch – de volta às nossas almas, à subjetividade
dos seres humanos, das quais hoje sofremos pressão para a
esquecermos. Corremos feito autômatos, pensamos como robôs,
esquecemos do ser e valorizamos o fazer e o possuir. “Agora
trabalho com o coração inteiramente aberto, disse
Almodóvar, prosseguindo: "Não foi algo que decidi.
Parece imposto sobre mim por minha própria vida e experiência.
Suponho que venha com a idade. Realmente, não parece estar
relacionado com uma posição intelectual. Prefiro não
tomar consciência das razões. Acho que pode ter a ver
com a mudança de visão. Hoje, tenho uma visão,
que não diria pessimista, mas triste diante da vida. Quando
penso sobre minha vida, penso mais sobre sofrimento do que sobre
a alegria".
O filme de Almodóvar pode ter muitas significações,
mas eu vejo as personagens que estão em coma representando
a inconsciência de todos nós e a necessidade de ouvirmos
boas histórias a fim de que possamos recuperar nossas almas.
Metáfora do trabalho da psicanálise? Não é
por acaso que um crítico do “New York Times”,
A. Scott, vê a tristeza do diretor transformada em doçura
e beleza: “Há algo profundamente consolador na visão
madura de Almodóvar, e o consolo vem de uma profunda fé
no poder da arte.” Fé no poder da arte, mas também
no pensamento de maneira geral, na linguagem. Talvez por isso, o
crítico literário italiano Roberto Calasso tenha dito
que não é mais preciso buscar os deuses no cosmos,
porque eles se refugiaram na linguagem”.
Os deuses se refugiaram na linguagem, mas nas suas revelações
de sentido, significações e espiritualidades, e também
nas canções, em seus versos e tonalidades mágicas.
Em “Fale com ela”, a trilha sonora é belíssima,
incluindo a presença de Caetano Veloso, que canta ao vivo,
numa cena do filme, a música Paloma, de Tomás Mendez
(Dicen que por las noches/ No más se le iba em puro llorar/
Juran que el mismo cielo/ Se estremecia ao oir su llanto/ Como sufria
por ella/ Que hasta em su muerte la fue llamando/ Ay, ay, ay, ay,
ay/ Cantaba/ Ay, ay, ay, ay/ Gemia). O crítico do “New
York Times”, que assisitu à pré-estréia
em N. York, recebeu de presente de Almodóvar um CD com as
músicas do filme, autografado por ele: “Quando me levantei
para partir, Almodóvar ofereceu-me uma cópia autografada
do CD das músicas do filme, que inclui a canção
de Caetano, assim como a trilha orquestral melancólica e
exuberante de Alberto Iglesias. Quando as portas do elevador se
fecharam, olhei para a capa e vi que Almodóvar tinha escrito
algo, acima de sua assinatura. Era uma comunicação
privada, que tenho prazer em passar adiante. "Chore",
dizia.
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Paulo Sternick é psicanalista no Rio de Janeiro e em Teresópolis.
Editor-científico de “Gradiva”; membro da Sociedade
Internacional de História da “Psiquiatria e da Psicanálise”
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