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As práticas amorosas na contemporaneidade
Beth Muller
Esse texto versa sobre o tema das práticas amorosas na contemporaneidade.
No entanto, ele não pretende defini-las nem listá-las,
mas trazer algumas reflexões sobre as possibilidades do amor
na atualidade, a partir de uma obra de ficção.
Para abordar essa questão, faz-se necessário em primeiro
lugar situar o que estamos considerando como contemporaneidade,
quais as linhas que delineiam o seu perfil, para depois pensarmos
como o amor se insere aí, e, em caso positivo, que tipo de
amor.
Uma das coisas que caracteriza a contemporaneidade, também
chamada pós-modernidade, é um estado de permanente
crise na sociedade e nos laços entre e dentro de seus segmentos.
Essa crise permanente em sua cronicidade parece mesmo ter descaracterizado
o sentido tradicional do crítico, retirando dela, crise,
a possibilidade de se pensar um futuro fora da crise.
Mas na verdade a pós-modernidade não gerou essa crise;
ela a herdou da Modernidade e a explicita em cores cada vez mais
fortes, tipo acrílico. Ou seja, ela demarca os furos de um
projeto moderno que já há algum tempo começou
a fazer água.
Historicamente a pós-modernidade, gestada nos anos 50, surge
nos anos 60 com a pílula, o rock, a mini-saia e a cultura
de massa. Simbolicamente ela surgiu com a bomba de Hiroshima ---
momento histórico em que o homem ousou além de seus
limites e entronizou o mal nas raízes de uma nova era.
A pós-modernidade se constitui como uma crítica à
modernidade, sem substitui-la contudo. Nela convivem elementos do
classicismo, da modernidade e da própria pós-modernidade,
com sua dimensão de crise permanente, sem que se forme um
todo, sem que se integrem. Predomina aí o ecletismo. Se a
modernidade já havia decretado senão a morte, pelo
menos o afastamento de Deus com a secularização do
mundo, a pós-modernidade acrescenta a isto a morte dos ideais
e do futuro, realizando a desconstrução do projeto
iluminista da modernidade. Por esta vertente se instala-se a filosofia
do niilismo, do nada, do vazio, da ausência de valores e de
sentido para a vida. Vale o prazer hedonista do aqui-e-agora, absolutamente
fundamental para a manutenção e implementação
do mercado. O ideal comunitário se faz não mais pelas
idéias ou princípios, ou pela tradição,
e sim pelo estilo e pela imagem.
Do ponto de vista econômico, a pós-modernidade acompanhou
e favoreceu um radical empobrecimento dos povos e um aumento gritante
do número de excluídos dos bens e do bem viver em
todo o mundo. O Relatório da ONU para o Desenvolvimento já
em 1996 alertou para o fato de que, àquela época,
"os 358 bilionários existentes no mundo -trata-se de
pessoas físicas- tinham uma renda combinada maior que o Produto
Interno Bruto somado de países que abrigavam 45% da população
mundial".
Mercado é a palavra-comando desta nova era. Os grupos sociais
passam a ser definidos enquanto faixas de mercado, e não
mais enquanto segmentos do processo de produção, como
acontecia na modernidade. O sistema tende a absorver tudo, e a tudo
transformar em mercadoria, mesmo as idéias anti-sistema.
Os sujeitos também se transformam: em consumidores, de preferência
insaciáveis, como interessa ao mercado, soberano pretensamente
único nesta nova forma de apresentação do real.
A pós-modernidade também adentrou o cotidiano da
vida das pessoas através da tecnologia eletrônica de
massa. Trata-se aqui de uma segunda revolução industrial,
onde o que se produz são informações, diversões
e serviços até o ponto da saturação.
Um refinamento do capitalismo em sua busca de maximização
do lucro?
A economia, multinacionalizada e desmaterializada pela informação,
baseada no consumo personalizado, necessita seduzir o indivíduo
isolado para que ele consuma além, muito além de suas
necessidades. Aliás ele consome, antes de qualquer coisa,
informação. Assim, os meios de comunicação
aderem à função de recriar o mundo, a realidade,
fabricando uma hiper-realidade, embelezada e intensificada no simulacro.
O mundo é super-recriado pelos signos, acarretando uma des-referencialização
do real, degradado em fantasmagoria, e uma de-subjetivação
do sujeito, esvaziado de sua condição singular e reduzido
à imagem que os espelhos da sociedade pós-moderna
desenham de si. O controle social se exerce através do circuito
informação - estetização - erotização
- personalização do cotidiano - consumidores isolados.
Do ponto de vista social, assistimos a uma desintegração
dos padrões apregoados pela Modernidade, que atingiam e mesmo
cunhavam a noção de indivíduo aí cultivada
segundo preceitos Iluministas. Fala-se da ruptura dos ideais, mas
não se menciona com frequência a que serviam esses
ideais quando preconizavam uma renúncia ao prazer em nome
de um futuro, de um bem a ser alcançado num lugar e tempo
nem sempre palpáveis ou previsíveis, pelo menos para
a maioria dos seres humanos. Esta ruptura adentrou também
o cotidiano da vida das pessoas, que se viram obrigadas a uma super-adaptação
a uma tecnologia a qual não escolheram e nem lhes foi dado
o tempo de refletir sobre. Fenômeno da pós-modernidade!
Nessa sociedade programada haveria lugar para o sujeito em sua
singularidade? Se a modernidade sugeria a individualidade como um
de seus vetores, a pós-modernidade exagerou esse ideal ao
limite da caricatura --- surge o chamado sujeito narcísico3
. Trata-se do neo-indidualismo pós-moderno: um sujeito sem
projetos, sem ideais a não ser o de consumir, cultuador de
sua auto-imagem. "Narcisista e vazio, desenvolto e apático,
ele -sujeito pós-moderno- está no centro da crise
de valores pós-moderna."4
Quanto aos afetos, estes eram, na modernidade, mantidos por repressão
em estado de quietude frente aos ideais. Isto, no entanto, não
quer dizer que a modernidade tornava os afetos não úteis
ao seu projeto, inúteis ou neutralizados. Na verdade eles
continuaram a existir e a operar por trás da cena proposta,
e foi esse o alerta de Freud com a Psicanálise, ainda que
pouco escutado por seus contemporâneos.
Afeto, na verdade, é aquilo que nos afeta em nosso eu, aquilo
que nos toma, frente a que não estamos na posição
de sujeitos, e sim de assujeitados. Mas quem direciona e destina
os afetos ou aquilo em que eles nos afetam? O próprio eu.
Portanto, há aí uma posição ética
a ser pensada e considerada. O que vamos destinar de nossos afetos
ou afetações a um trabalho (psíquico) e o que
vamos denegar, reprimir, inibir, operações defensivas
tão bem localizadas por Freud, na ilusão de que os
aniquilamos e que não voltarão a importunar-nos? E
em nome de que?
Os amores não estão fora desta questão.
"Cada terra com seu uso; cada roca com seu fuso." Cada
época, com as suas modalidades de amor.
A pós-modernidade explicitou e, nesse sentido, desvelou
o que estava escondido nos propósitos da modernidade. Ela
não se resumiu a isto, mas contém isto em sua movimentação.
No que diz respeito ao amor, a modernidade preconiza o amor romântico.
E o que caracterizava - e caracteriza, posto que não deixou
de existir- o amor romântico? Trata-se de um amor do eu pelo
outro eu, tomado à imagem e semelhança de si. Lacan
não cansou de nos dizer da face narcísica deste amor.
Aí tudo é feito em nome do outro-eu, devidamente idealizado.
O amor romântico também se põe num lugar de
verdade e de absoluto. Ele seria eterno, exclusivo e excludente.
Posto que ali estava o outro-eu, objeto mais que completo do meu
amor, com isso ele se apresentaria também com a estabilidade
necessária à perpetuação de laços
sociais que protegeriam propriedade e preservariam o poder.
Parece que esse projeto também naufragou junto com os ideais
da modernidade, o que não é o mesmo que dizer que
o amor naufragou.
A pós-modernidade, no plano dos estados afetivos, parece
ter favorecido o isolamento e a atuação em separado
de elementos até então fusionados pela libido. Isso
pode ser observado nas manifestações múltiplas
do ódio à diferença, presente nas explosões
de violência contra o diferente -genuino outro, e na indiferença
narcísica, produto de um trabalho de luto não realizado
em torno do amor romântico.
Mas por que não pensar em outras formas de amor, com outros
parâmetros e valorização de outros elementos
que não aqueles da modernidade: amor eterno, amor que levaria
naturalmente à constituição de uma família,
à produção de descendentes e à manutenção
patrimonial? Por que, por exemplo, não pensar um amor feito
de menos renúncias e mais satisfações; com
maior valorização do vivido no aqui-e-agora do que
de promessas; mais hedonista, mas incluindo o outro na partilha
do prazer; fundamentalmente um amor ao outro, aqui não mais
como outro-eu, e sim como outro-outro5 que se manifestaria na dimensão
da solidariedade e na inclusão do Bem como terceiro termo,
para além dos dois em questão?
Para pensar essas questões vou me utilizar aqui de um filme
que me parece ilustrar com muita mestria essa nova possibilidade
no amor contemporâneo. Trata-se de ‘Smoke’ (‘Cortina
de Fumaça’). Este filme de 1995 foi dirigido por Wayne
Wang a partir de um roteiro extraído do conto do escritor
novaiorquino Paul Auster6.
‘Smoke’ se passa no verão de 1990 e nos mostra
não uma história, mas cenas, fragmentos cotidianos
de um grupo de personagens que tem em seu centro o gerente de uma
tabacaria no Brooklin, Auggie Wren.
Auggie seria, a meu ver, o protótipo de uma síntese
possível na pós-modernidade. Suas ambições
não são grandiosas; almeja passar seu patrimônio
de $5.000 para $10.000 vendendo charutos cubanos Montecristo, coisa
proibida nos EUA. Passa seus dias na tabacaria, escutando fragmentos
de conversas de tipos que ali se reúnem. Na verdade, a tabacaria
e Auggie funcionam como ponto de referência para o pessoal
do bairro. Mas Auggie não se restringe a isso. Ele gosta
de ler e fica atento ao mundo para além de sua pequena loja.
Foi assim que pode reconhecer Paul Benjamin, morador do bairro e
comprador assíduo de cigarros na sua tabacaria. Paul Benjamin
é um escritor que há três anos não escreve,
desde que sua mulher grávida faleceu vítima de uma
bala perdida num assalto que ocorreu no bairro. Preso a seu luto
interminável, Paul se recolheu em sua própria dor.
É o personagem moderno do filme, nostálgico de sua
realidade perdida, incapaz de se engajar em um novo projeto. Quanto
a Auggie, percebemos nele elementos de um ideário tanto clássico,
quanto moderno, quanto pós-moderno. É capaz de sair
em desabalada carreira para salvar a bolsa de uma jovem furtada
por um garoto, como um cavaleiro medieval. Mas também é
capaz de algumas falcatruas, como vender contrabando, sem, no entanto,
deixar de se sentir culpado. Mas a culpa aqui não o impede
de fazê-lo. Não é um herói romântico,
um ‘white character’, que tudo faz em nome do amor à
dama e do cumprimento dos ideais. Auggie é herói pós-moderno.
Paul e Auggie costumam conversar na tabacaria e eles conversam se
contando pequenas histórias, como a do peso da fumaça,
que dá origem ao título do filme.
Aliás o próprio título se marca como crítica
a alguns aspectos da contemporaneidade e possibilita um dos diálogos
mais interessantes, travado entre Auggie e o dono da tabacaria,
seu amigo Vinnie. Discutem sobre o fumar e o não fumar:
A - "A lei vai nos tirar do ramo."
V - "Daqui a pouco, quando o pegarem fumando, vão fuzilá-lo."
A - "Hoje tabaco, amanhã sexo. Logo proibirão
sorrisos para estranhos."
Aos poucos vão sendo introduzidos, sempre numa linha de roteiro
descontínua e entrecruzada, outros personagens: Rashid, o
jovem negro que salva Paul de ser atropelado e que é convidado
por este para ficar alguns dias em seu apartamento. Rashid está
com problemas. Criado pela tia e abandonado pelo pai, Rashid está
fugindo de dois assaltantes do bairro pois por descuido destes,
ficou com o produto de seu roubo -$7.000. Nessa fuga, empreende
também a busca de seu pai, dono de um decadente posto de
gasolina. Essa história terá um final feliz.
Há também a atual namorada de Auggie, com quem ele
se diverte, e a ex-mulher, para quem ao final ele dará seu
dinheiro longamente poupado, que o procura com problemas graves
com a filha, que ele não sabe se é dele ou não
[ e ela não o confirma].
Enfim, há todo um conjunto de personagens com suas histórias,
que vão sendo apresentadas aos poucos, e que se cruzarão
em torno de Auggie. Porque ele tem mesmo esta função
no filme. Em sua busca do correto e em sua doação
amorosa ao outro, fazendo o que pode, renunciando a seus sonhos
em algum momento porque percebe que o outro é mais importante
que eles, Auggie nos ensina algumas lições que podem
tornar a vida rica neste cenário pós-moderno.
Há duas cenas no filme que me parecem a síntese do
que acabei de dizer.
A primeira é a do dia em que Paul vai ao apartamento de
Auggie depois de passar pela tabacaria para ver algo que Auggie
quer lhe mostrar. Trata-se de 14 álbuns de fotos de 1977
a 1990. São fotos tiradas desde o mesmo lugar numa esquina
do Brooklin, na mesma hora, cotidianamente ao longo dos anos. A
reação de Paul é imediata:
P - "Mas são todas iguais!"
A - (sorrindo com orgulho) "Isso mesmo. Mais de quatro mil
fotos do mesmo lugar. A esquina da Rua 3 com a Sétima Avenida
às oito da manhã. Quatro mil dias seguidos, com todo
tipo de clima. (Pausa) É por isso que nunca posso tirar férias.
Tenho de estar no meu lugar todas as manhãs. Toda manhã,
no mesmo lugar, na mesma hora. (...) "É o meu projeto.
O que se poderia chamar obra da minha vida."
A um questionamento de Paul sobre como teve esta idéia,
responde:
A - "Não sei, a idéia simplesmente me surgiu.
É a minha esquina, afinal. É apenas uma pequena parte
do mundo, mas as coisas também acontecem ali, assim como
em qualquer outro lugar. É um registro do meu cantinho."
Como Paul vira as páginas com rapidez, Auggie o adverte:
A - "Você não vai entender nada se não
olhar mais devagar, meu amigo."
P - "Mas são todas iguais."
A - "São todas iguais mas cada uma é diferente
de todas as outras." Passa então a descrever essas diferenças
que vão desde diferentes pessoas a diferentes tonalidades
de luz.
De repente Paul reconhece numa das fotos o rosto de sua mulher
morta e cai em prantos. Auggie o abraça. Missão cumprida.
Na cena seguinte vemos Paul em seu apartamento, sentado em sua máquina,
voltando a escrever.
A outra cena é a cena final. Mais uma doação
solidária e sem orgulho, como vamos ver.
Paul procura Auggie pois tem que enviar um conto de Natal para
o New York Times e não sabe o que escrever. Ele não
tem nenhuma história, segundo sua própria afirmação.
Auggie diz que conhece centenas delas e que pode lhe fornecer uma.
Marcam um almoço.
Sentados numa lanchonete, Auggie começa a contar a mais
comovedora das histórias do filme. Uma história que
começa em 1976, no momento em que ele foi roubado na tabacaria
e sai correndo pela rua a perseguir o garoto que o roubou. Desiste
de apanhá-lo mas recolhe sua carteira que caiu, onde encontra
seu nome, duas fotos e um endereço. No Natal desse mesmo
ano, sem nada para fazer, resolve devolver a carteira a seu dono
e se dirige ao tal endereço, um conjunto de prédios
feios e pobres de Nova York. Ao chegar lá quem lhe abre a
porta depois de algum tempo é uma mulher velha, negra e cega.
Ao anunciar que veio para falar com Roger Goodwin [o dono da carteira],
ela lhe responde ainda antes de abrir a porta:
Vovó Ethel - "É você, Roger?" Abrindo
a porta e abraçando Auggie : "Sabia que você não
esqueceria sua vovó Ethel no Natal."
Auggie hesita por um instante e a abraça, confirmando sua
fala e se fazendo passar pelo neto. Percebe também sua cegueira.
E diz mais adiante para Paul:
A - "... Foi como se a gente tivesse começado um jogo,
mas sem ter combinado as regras. Quer dizer, aquela mulher sabia
que eu não era o neto dela. Ela era velha e meio lelé,
mas não estava louca que não distinguisse entre um
estranho e seu próprio neto. Mas ela estava contente de fingir,
e como de qualquer forma eu não tinha nada melhor para fazer,
fiquei feliz de estar ali com ela."
Auggie passa o Natal com vovó Ethel. Sai para comprar comida;
ela abre um vinho. Se fazem companhia, se distraem juntos. Ela adormece.
Ele lava a louça e arruma a mesa. Quando vai ao banheiro,
antes de ir embora, vê lá dentro uma pilha de caixas
de máquinas fotográficas novas, certamente produto
de roubo. Não resiste e, apesar da culpa que sentirá
depois, se apossa de uma. Coloca a carteira do neto sobre a mesa
e sai.
Volta-se para Paul e diz:
A - "E aqui acaba a história."
Durante toda esta cena do relato da história, a câmera
para no rosto de Auggie quase o tempo todo e, seguindo uma estética
de todo o filme, vai aos poucos fazendo planos cada vez mais fechados
sobre seu rosto, até focalizar apenas sua boca de narrador.
A expressão de Paul ao final da história não
é de espanto, mas de agradecimento/reconhecimento do jogo.
Ele se dirige a Auggie:
P - "Você é um ás, Auggie. Obrigado por
ter me ajudado tanto."
A - "Disponha. Afinal, se a gente não puder contar
os segredos a um amigo, que espécie de amigo ele é?"
P - "Estou-lhe devendo um favor."
A - "Não, não está. Apenas escreva do
jeito que eu lhe contei, e não me deve nada."
P - "A não ser o almoço."
A - "Isso. A não ser o almoço."
A história do Natal com vovó Ethel, filmada em preto-e-branco,
é apresentada ao final do filme, como um filme no filme.
Depois disso, surgem os créditos finais ao som de ‘Smoke
gets in your eyes’. O filme é um barato, como se dizia
nos anos 70!
Beth Muller é psicanalista, mestre em psicologia clínica
e professora do curso de pós-graduação em teoria
psicanalítica do IBMR.
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