O ATO DE LIBERAÇÃO
DO ANALISTA COMO

AGENTE DE MUDANÇA
TERAPÊUTICA
* [1]

Neville Symington



Nota do editor: Este trabalho, discutido na Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, no último dia 10 de junho, consta do livro “A escola britânica de Psicanálise – a tradição independente”, organizado por Gregório Kohon e traduzido no Brasil pela “Editora Artes Médicas”

Neste artigo pretendo explorar um fenômeno com o qual todos os analistas se acham familiarizados. Primeiro o descreverei e, a seguir, examinarei quais são as suas implicações para a teoria. Referir-me-ei a ele como "fenômeno X" e começarei por alguns exemplos clínicos.

Eu estava cobrando da Srta. M. pouco mais da metade do que os meus outros pacientes estavam pagando. Ela fora uma paciente de clínica, e eu costumava suspirar e dizer para mim mesmo: — Pobre Srta. M., x libras é o máximo que lhe posso cobrar .

Na realidade, eu não o expressava de modo assim tão claro. Em minha mente, assemelhava-se a um fato dado que todo mundo conhece, tal como a inconfiabilidade do tempo na Inglaterra. Fazia parte do meu mobiliário mental e eu me resignara a ele da mesma maneira como, relutantemente, me resigno ao tempo inglês. De maneira que a análise continuava, com tal pressuposição como sua concomitante inquestionada; até que um dia, um pensamento surpreendente me ocorreu. — Por que a Srta. M. não pode pagar o mesmo que todos os meus outros pacientes?

Lembrei-me então do ressentimento que ela freqüentemente expressava com relação ao seu chefe, que a chamava sempre de "Pequena Mary". Começou a crescer em mim uma certeza de que era prisioneiro de uma ilusão a respeito das capacidades da paciente: Eu havia sido apanhado a laço na percepção que a paciente tinha de si mesma e estava apenas começando a desenredar-me dela. Levantei então a questão dos honorários que lhe cobrava e, no curso de um debate, ela disse: — Se eu tivesse de pagar mais, acho que pagaria. Ela havia agora me dito claramente que tinha em si a capacidade de pagar mais e que esta seria mobilizada se eu mudasse minha atitude interior para com ela. Algumas sessões depois, disse-lhe: — Estive pensando em nosso debate a respeito dos honorários. Cobro da maioria de meus outros pacientes x libras e, em nosso debate, não ouvi nada que me faça pensar que não lhe deva cobrar o mesmo.

Durante duas sessões ela chorou de modo bastante pungente mas, depois, tomou a resolução de enfrentar o desafio e logo encontrou um emprego que lhe pagava 1/3 a mais que o seu salário anterior. Mudando de emprego, ela se desambaraçara da condescendente tutela do chefe que a chamava de "Pequena Mary", e fora capaz de fazê-lo porque havia primeiro se libertado da atitude condescendente de seu analista. Pouco depois, finalmente deu o fora num namorado parasítico e, mais uma vez, creio que foi capaz de fazê-lo porque pudera dar o fora num analista parasítico. Estes dois acontecimentos foram logo seguidos por outros acontecimentos favoráveis e acredito que a fonte de tais mudanças benéficas foi aquele momento de liberação interior em que ocorreu-me o inesperado pensamento: — "Por que a Srta. M. não pode pagar o mesmo que os meus outros pacientes?" A este ato de liberação interior estou dando o nome de "fenômeno X".

Quero agora dar outro exemplo. O paciente era um homem obsessivo que costumava hesitar, às vezes, no meio de algo que estava me contando, geralmente quando estava a ponto de me relatar algum pensamento que havia tido a partir da sessão anterior. Como ele amiúde expressava sua apreensão de que eu o achasse patético, eu costumava dizer-lhe algo mais ou menos como: — Acho que está com medo de que, se me falar a respeito do incidente que tem em sua mente, eu pensarei que está sendo patético.

Naturalmente, eu estava assim claramente insinuando que não o acharia patético, e, com essa garantia, ele obsequiosamente me contava o incidente que nesse momento tinha em mente. Um dia, porém, eu estava lendo a seguinte passagem das Four Discussions with W R. Bion:

P. (...) Ela não seria dissuadida pelo o que o senhor sugere; ficaria irritada com a sua resposta e insistiria em que o senhor a chamasse pelo primeiro nome.

B. Por que não o segundo? Por que não puta? Ou prostituta? Se ela não era, qual o problema, então? Está querendo ser chamada de prostituta ou puta? Se não, qual é o sentido da história? O que a convenceu de que o pai estava certo?

P. Ela quer fazer sexo com outros homens, além do marido, de maneira que, na opinião dela, deve ser uma puta. Tem medo de que, se conseguir um divórcio do marido, andará por aí e fará sexo com todos os tipos de homens — se comportará como uma puta livre.

B. Em vista do que você está dizendo, acho que eu tentaria chamar a atenção dela para a forma pela, qual deseja limitar minha liberdade a respeito de como vou chamá-la. É uma limitação, se a paciente quer que você lhe dê a interpretação correta. Por que não deveria eu ser livre para formar minha própria opinião de que ela é uma puta ou de que é algo inteiramente diferente? Por que ficar zangada comigo porque, na realidade, tenho a liberdade de chegar às minhas próprias conclusões?

P. O medo dela é de que a sua própria conclusão seja a de que ela é uma puta.

B. Mas por que não me seria permitido chegar a essa conclusão?

P. De maneira que o senhor conclui que ela é uma puta. E, agora, onde é que o senhor fica?

B. Mas eu não disse que concluo isso. O ponto que quero demonstrar é que há um desejo de limitar a minha liberdade de pensamento (...)

(Bion, 1978, pp. 15-16).

Enquanto lia isto, tive um momento de iluminação a respeito de meu paciente obsessivo. Eu fora um prisioneiro das tendências controladoras deste paciente e, no momento em que li esta passagem de Bion, tive uma nova compreensão, na qual me senti interiormente livre (embora isso tivesse concomitantes externas). Na vez seguinte em que ele expressou sua apreensão de que eu o achasse patético, tranqüilamente lhe respondi: — Mas sou inteiramente livre para pensar isso.

Ele ficou muito surpreendido. Foi então possível perceber o quanto ele operava através do controle dos meus pensamentos e dos pensamentos de outras pessoas. Um grande temor era que, se ele me permitisse pensar meus próprios pensamentos, poderia ocorrer-me o seguinte: — Que bom seria livrar-me do Sr. X.

Depois, passamos à sua impressão de que ninguém jamais quisera ficar com ele. Isto se achava ligado a experiências de infância em que os pais nunca queriam estar com ele, mas o deixavam com encarregados contratados, enquanto continuavam com seus interesses comerciais em diversas partes do mundo.

Conseguimos examinar sua necessidade de enrolar-se em torno de mim como uma jibóia e tentar substituir o meu pensamento e o meu sentimento pelos seus, transformar-me em seu ego, por assim dizer. Foi então possível vincular seu fracasso em poder pensar e sentir com a ausência de uma mãe ou analista que quisesse realmente estar com ele. A fundação da capacidade de pensar parece residir na internalização deste desejo materno. Mais uma vez a fonte de todo este trabalho e insight interpretativos começou a partir do momento de meu próprio ato interno de liberação, de maneira que este foi outro caso do "fenômeno X". Os exemplos restantes que quero fornecer originam-se de uma paciente de quem precisarei dar maiores antecedentes.

Esta paciente me foi encaminhada após um episódio de psicose alucinatória. Aceitei-a em grande parte por causa de sua forte motivação a melhorar. Ela alucinava habitualmente nas sessões e comunicava-se pelo que chamarei de "fragmentos telegráficos". Pode ter sido uma regressão à fala holofrásica. Após longo silêncio, ela dizia apenas "crocodilo" e, depois, alguns minutos mais tarde, olhava para algum ponto da sala e dizia "círculo azul". Descobri-me lendo Alice no País das Maravilhas para ajudar-me a engrenar a marcha certa e abandonei-me à fantasia maluca através da qual vinculei esses elementos separados. Esta fase do tratamento progrediu satisfatoriamente, as alucinações acabaram por desaparecer e ela tornou-se capaz de dirigir-se a mim, senão como uma pessoa, pelo menos como uma entidade distinta. Soube mais tarde que, até aquele ponto, ela não fora capaz de fazer distinção entre mim e o seu namorado, e, na realidade, achava que eu era ele. A partir do momento em que me viu como distinto, o período de lua-de-mel do tratamento acabou para mim.

Na entrevista inicial, ela me havia contado o conteúdo das alucinações que a haviam levado a buscar tratamento. Nelas, estava fundida com a mãe e atacava selvagemente o namorado. Tornou-se claro, e só lentamente, que uma das principais razões pelas quais ela desejava o tratamento era para superar suas fantasias e atos sádicos em relação a qualquer objeto de seu amor. O período de lua-de-mel acabou, quando me tornei o alvo de seu sadismo. Seus ataques sádicos eram sutis, implacáveis e, certamente, faziam-me perder o equilíbrio. Ela os dirigia a certas áreas da minha própria vulnerabilidade com devastadora precisão e de modo inexorável. Exemplificando, durante longo período disse achar que eu não era a pessoa certa para ela e começou a pesquisar outros possíveis terapeutas. Duas vezes buscou o conselho de uma colega minha. Em tudo isso, reiterava com freqüência que, em minhas atitudes, tons de voz, gestos e maneira de vestir, eu transmitia atitudes masculinas chauvinistas e não tinha simpatia pelas necessidades e problemas das mulheres. Isto não era expresso de modo assim bem arranjado, mas insinuado em algumas ocasiões, vociferado em outras, e apenas de modo muito lento foi possível decifrar o que ela estava dizendo. Em outras ocasiões ela gritava exasperadamente comigo, e de modo tão intenso que eu me tornava incapaz de pensar. Censurava-me com fúria por não me dedicar a questões que ela havia insistentemente trazido à minha atenção. Eu geralmente me encontrava inteiramente no escuro, e dei-me conta de que ela provavelmente supunha que me havia perguntado algo ou me contado a respeito de algum pensamento ou evento, mas de fato não perguntara, ou me havia falado de modo tão elíptico que o próprio fenômeno ou a sua importância me haviam escapado.

Agora, em sua persistente acusação de eu ser dominante para com ela, por ser uma mulher e eu um homem, eu me achava ciente de duas coisas. Em primeiro lugar, sabia que ela estava sadicamente me atacando e, em segundo, que, por operar em um nível psicótico de percepção, era mais sensível às minhas próprias atitudes inconscientes do que um paciente com uma neurose clássica de transferência. Meu problema, portanto, era, por um lado, não permitir de modo masoquista tornar-me uma vítima de seu sadismo, e, não obstante, não pôr de lado o conteúdo do que ela estava dizendo. Naturalmente, porém, nesse hesitante e dividido estado mental, eu era a vítima perfeita. O tratamento continuou através de um período particularmente ruim que durou mais ou menos um ano.

Pensei comigo que talvez eu não fosse a pessoa certa para ela, que talvez ela precisasse de uma mulher, que talvez minhas atitudes masculinas chauvinistas estivessem se intrometendo no caminho da interpretação clara, e assim por diante. E quanto mais eu vacilava internamente, mais furiosa e agressiva ela se tornava. Durante esta época, também se queixava regularmente a respeito de minha rigidez, que eu precisava ser mais flexível, considerar outras abordagens ou, então, eu mesmo necessitava de mais análise. Durante longo tempo balancei internamente, como se pisasse em terreno pantanoso.

Então, após cerca de três anos de tratamento, ela adotou uma nova maneira de comportar-se nas sessões. Em vez de sentar-se em sua cadeira normal (não usava o divã), passava por mim e sentava-se em uma cadeira às minhas costas.

Resolutamente, eu permanecia em minha poltrona. Às vezes, ela puxava a cadeira até bem atrás da minha e, em determinada ocasião, cutucou-me o braço com o dedo. Depois, ao invés de sentar-se às minhas costas, passou a ficar de pé atrás de mim e eu continuei determinadamente sentado em minha poltrona, interpretando, prosseguindo com isto por cerca de oito sessões. Um dia, então, senti-me inconfortável com este procedimento. Não me sentia à vontade e não conseguia reagir de modo espontâneo. Embora estivesse interpretando, a interpretação não provinha de uma liberdade interior, mas era de caráter defensivo. Decidi que na próxima vez em que ela passasse caminhando por mim e se postasse atrás de minha poltrona, eu me mudaria para o outro lado da sala. Não poderia dizer inteiramente por que decidi fazer isso, mas sabia que não poderia interpretar livremente enquanto sentisse tal desconforto. Assim, na vez seguinte em que ela assumiu a sua rotina de ficar de pé, levantei-me calmamente e passei para um sofá situado do outro lado do consultório. Ao me ver fazer isto, ela virou-se e indagou furiosa: — Por que foi que você mudou de lugar? (num tom que denotava que eu não tinha o direito de deslocar-me como havia feito) — e, ao mesmo tempo, retornou à sua própria cadeira e eu retomei à minha. — Que idéia você tem a respeito da razão pela qual mudei de lugar? — perguntei-lhe. — Apenas pura dominância masculina — respondeu ela, com raiva desafiante.

Ora, neste ponto eu tinha uma convicção interna de que não se tratava disso, e senti uma certeza íntima que não havia tido antes. Sentia-me tranqüilamente confiante de que não havia agido por causa de qualquer motivo desse tipo e de que não estava reagindo de modo sádico em relação a ela.

— Não consegue pensar em nenhuma outra interpretação possível para a minha ação? — perguntei-lhe. — Não — replicou ela — é apenas pura dominância masculina. Após isso, disse-lhe que parecia que havíamos chegado a um impasse e então houve um silêncio tenso e uma atmosfera carregada de fúria.

Depois, ao final de uns 20 minutos, a atmosfera começou a ficar mais fácil e senti que nós dois havíamos atravessado uma crise, tal como dois nadadores que acabam de cruzar um rio turbulento e atingem terra firme. Cerca de 10 minutos depois, ela falou: —Você eu não sei, mas eu estou me sentindo melhor — e sorriu ligeiramente. Aquele momento composto em que agi e, depois, quando em reação a ela experiêncei uma certeza interna que não havia tido antes, é outro exemplo do "fenômeno X". A partir daí, ela ficou mais capaz de escutar e, de certa maneira, a comunicação tornou-se mais fácil e houve maior clareza, embora muita coisa ainda permanecesse obscura e a comunicação ainda se achasse seriamente prejudicada.

Com a mesma paciente houve outro exemplo, menos fácil de ser descrito, mas ainda assim tentarei fazê-lo. Eu tinha uma noção muito clara de que meu papel como analista era interpretar à paciente o meu entendimento da importância inconsciente do que jazia por trás de suas comunicações manifestas, mas chegou-se a um estágio em que ela não podia suportar nenhuma interpretação.

Gritava que não podia separar nada, a menos que eu aceitasse o significado nominal do que ela dizia e também a menos que eu aceitasse a responsabilidade pelo que pertencia a mim no processo. Ela não podia separar o que era ela, não podia conseguir insight de si própria, até que lhe estivesse claro quem era ela e quem foi eu. Em outras palavras, precisava separar os dois elementos que éramos ela própria e eu da massa aglutinada que constituíamos para ela, na ocasião.

Neste estágio, a única maneira pela qual lhe era possível fazer isso foi, em diversas ocasiões, que eu expressasse quais eram os meus sentimentos. Era-lhe importante saber que eram realmente meus; diversas vezes me perguntava se esses eram os meus sentimentos ou os de todos os analistas. Respondia-lhe que eram meus. Às vezes perguntava se se tratava de sentimentos partilhados por todos os analistas, e eu, com veracidade, dizia-lhe que não sabia.

Após um período com este tipo de comunicação, tornou-se-lhe possível expressar uma certa separação e, então, ficou também possível interpretar de novo da maneira normal. (Digo "da maneira normal" porque acho que as comunicações feitas a respeito de meus sentimentos eram interpretações, interpretações a respeito da maneira como ela se achava fundida comigo através da estrutura do superego de Sua personalidade. Retornarei a isto mais tarde, neste artigo.) Houve um estágio de transição em que eu enunciava as interpretações da maneira seguinte: — Quero expressar a você o pensamento que tenho em mente... — e então prosseguia com o substancial da interpretação.

Finalmente, consegui interpretar o que eu supunha que estava em Sua mente. Entendi isto como uma transição de um objeto fundido para outro separado, na transferência, e também que as interpretações tinham de ser feitas de um modo que fosse aceitável aos diferentes estados psicológicos que acompanhavam essas fases. Mais uma vez, quando agi baseado na liberdade pessoal, antes que acompanhando algum regulamento técnico específico que se imagina que tenha de ser seguido na análise, mudanças terapêuticas ocorreram e, poderia acrescentar, muitos insights e muita aprendizagem por parte do analista. (Espero que não se infira disto que estou desprezando a técnica analítica, o que seria o verdadeiro oposto do que estou pretendendo dizer. Afinal de contas, a alma da técnica analítica é liberar tanto analista quanto paciente das coerções sociais normais e, assim, favorecer o desenvolvimento do mundo interior. O problema se dá quando a "técnica clássica" se torna agente de uma nova coerção social.)

Espero que estas ilustrações do "fenômeno X" sejam suficientes para transmitir o que quero dizer.

Minha asserção é de que o ato interno de liberação no analista produz no paciente uma mudança terapêutica e, no analista, novos insights, aprendizagem e desenvolvimento. A interpretação é essencial por dar expressão à mudança que já ocorreu e torná-la acessível à consciência [consciousness]. O importante, contudo, é que o agente essencial da mudança é o ato interior do analista, e que este ato interno é percebido pelo paciente e provoca mudança. Mesmo o ato mental mais interior possui algum correlato manifesto que é perceptível, embora esta perceptibilidade possa ser inconscienre e provavelmente o seja. O psicótico é particularmente sensível a estas mudanças minúsculas. Darei dois exemplos disto, tirados da última paciente de quem retirei meu material clínico. No primeiro exemplo, foi um estado emocional interno e, no segundo, um ato mental interno específico.  Determinado dia, pouco antes de ver minha paciente, recebi a notícia de que outro paciente meu havia se suicidado e, para colocá-lo brandamente, fiquei perturbado. Houve um silêncio durante os primeiros 20 minutos da sessão; ela olhou então para a minha escrivaninha e eu fiz uma interpretação que não posso me lembrar agora qual foi, mas não esquecerei a resposta dela: — Eu não Vou pagar por sua experiência ruim. Ela se achava sintonizada com o meu estado emocional, em relação ao qual minha interpretação tinha pouca importância, e sentiu isso, percebeu-o na atmosfera. Estou absolutamente seguro de que ela não tinha conhecimento externo do que havia ocorrido.

A outra ocasião foi quando eu estava tentando decidir em que dia interromper a análise antes do Natal e estava pensando a respeito disso durante um silêncio. No momento em que eu disse internamente a mim mesmo que daria a última sessão na terça-feira, ela falou, nesse exato instante: — Você interrompeu meus pensamentos, você acabou de roubar alguma coisa de mim. Eu o havia feito, naturalmente. Em vez de encontrar-me em rêverie com ela, eu lhe havia furtado um pedaço do pensamento partilhado em favor de uma decisão administrativa. Até onde lhe concernia, eu bem poderia ter expresso meus pensamentos em voz alta, porque ela sentiu o meu ato interno, de maneira que até mesmo um juízo interno possui algum correlato externo perceptível. Não acho que as esferas mental, emocional e sensorial se encontrem em isolamento. O ato mental mais interno reverbera através das esferas perceptiva e sensorial. O paciente psicótico acha-se sintonizado com essas esferas internas de uma maneira que não é a dos neuróticos ou a das pessoas normais. Ele não se encontra apartado da realidade, mas, antes, um aspecto minúsculo da realidade é ampliado, de maneira que o restante do campo mental ou emocional fica abarrotado. O fenômeno assemelha-se à lente de zoom de uma câmera de televisão, que mergulha na direção de determinado objeto de interesse e esse objeto, então, cobre toda a tela do aparelho de televisão. Estou insistindo em que o ato interno do analista afeta o paciente e que isto acontece especialmente nos pacientes psicóticos e fronteiriços. O enfoque deste artigo, contudo, é o de que o ato interno de libertação do analista provoca uma mudança terapêutica no paciente. Parece que algumas trincheiras teóricas são necessárias para apoiar a explicação desta nova assertiva.

Acredito que, em determinado nível, analista e paciente, juntos, constituem um sistema único. Juntos, eles formam uma entidade que poderíamos chamar de personalidade combinada. A partir do momento em que paciente e analista se engajam no que chamamos de análise, ambos, conjuntamente, fazem parte de um sistema ilusório, ambos se acham apanhados nele. A literatura técnica recente acentua que o analista não é apenas um espelho, mas isto não é mais que uma grosseira atenuação da verdade. O analista é laçado para dentro do mundo ilusório do paciente. Acha-se mas envolvido nele, é mais vítima dele, do que acontece no contato social médio. À medida que o trabalho analítico progride, o analista lentamente se desvencilha desse mundo, e, assim, a transferência e a contratransferência constituem duas partes de um sistema único; juntas, elas formam uma unidade. Elas são as ilusões partilhadas que o trabalho da análise lentamente desfaz. A psicanálise é um processo que catalisa o contato ego a ego: aquela parte da personalidade que não é combinada, que é pessoal e individual.

Desta maneira, a psicanálise opera no sentido oposto ao da religião, cuja função social central é unir pessoas em entidades combinadas. Precisamos examinar esta qualidade combinada como pertencendo a uma parte da personalidade onde a fusão se dá, e a maneira pela qual podemos assimilar isto à teoria psicanalítica.

Em todos os exemplos de fenômeno X que forneci, os sentimentos pessoais do analista estiveram envolvidos por sentimentos ilusórios, que emanavam do superego inconsciente do paciente. Isto poderia ser formulado dizendo-se que os sentimentos pertencentes ao superego desfiguraram os sentimentos pertencentes ao ego. Entretanto, a expressão superego precisa ser ampliada, tal qual o sociólogo Talcott Parsons (1952) o fez:

o lugar do superego como parte da estrutura da personalidade deve ser entendido em termos da relação existente entre a personalidade e a cultura comum total, em virtude da qual um sistema estável de interação social, em níveis humanos, se torna possível. O insight de Freud estava profundamente .correto quando ele enfocou o elemento dos padrões morais. Isto, em verdade, é central e decisivo, mas parece que a visão de Freud foi estreita demais. A conclusão inescapável é que não apenas os padrões morais mas todos os componentes da cultura comum são internalizados como parte da personalidade. Os padrões morais, em verdade, com respeito a isto, não podem ser dissociados do conteúdo das configurações orientadoras que eles regulam (p. 23).

Estes sentimentos ilusórios no paciente são, em parte, os valores internalizados da família de origem, de suas lealdades de classe e valores nacionais, juntamente com os impulsos, em especial os destrutivos, provenientes de seu interior. Estes últimos são fortalecidos e apoiados pelos valores culturais. No começo da análise (e, amiúde, por longo tempo), paciente e analista são mantidos em servidão pelo poder desta ilusão pessoal-cultural, e isto é possível porque um e outro se tomam parte de um sistema através do qual a comunicação se dá. Em seu papel passivo onde não afirma a sua própria visão do mundo o analista permite-se ser varrido para dentro dos conteúdos pessoais-culturais do superego do paciente e interpreta dentro desse arcabouço. O analista e o paciente fazem parte de um sistema e se juntam através de partes do superego de suas personalidades. E através dos superegos que a personalidade combinada se efetua.

Quando o paciente chega pela primeira vez ao consultório do analista, é provável que ocorra uma fusão analista paciente, por via dos superegos de cada um deles. A transferência e a contratransferência são expressões emocionais dessa fusão.

Se este modelo for aceito, dele decorre então que, dentro da personalidade combinada, há um processo de resistência e transferência que ocorre dentro da entidade total, ou seja, em outras palavras, no paciente e no analista. Contudo, há também um processo de análise a ocorrer em ambas as pessoas que compõem a entidade total. O processo de análise é a garantia de que se pode sair de uma situação trancada. Uma paciente um dia me perguntou: — Que garantia tenho eu de que algo em seu inconsciente não bloqueará o meu progresso? Você pode inconscientemente invejar o meu desejo de ter um bebê, a minha capacidade de tê-lo e, dessa maneira, bloquear-me sutilmente. Observei-lhe que parecia que ela presumia que todo o poder analítico se encontrava dentro de mim. Ela imediatamente retorquiu que não"estava dentro dela. Apontei-lhe que ela parecia, achar que se não se encontrava nela nem em mim, então não existia de modo algum.

Isto se achava ligado à opinião dela de que eu tinha a posse do processo. Quando ela começou a se dar conta de que isso não era assim, sentiu remorso e compreendeu que nem ela nem eu tínhamos controle sobre a velocidade do desenvolvimento. Ela com freqüência dizia que não podia mexer-se até que eu me mexesse primeiro.

Durante longo tempo, não entendi isto. Somente após três anos de tratamento subitamente me dei conta de que ela queria dizer que só podia mexer-se quando um ato interno de libertação houvesse ocorrido dentro de mim. Não havia compreendido, neste estágio, que ela fosse capaz de "saber" quando esses atos ocorriam. Ela se apoiava no fenômeno X, mas, por longo tempo, teve a fantasia de que estava dentro do meu poder invocá-lo à vontade, e ficou triste quando começou a perceber que eu tinha de esperar; tal como acontecia com ela.

Assim, na entidade combinada há uma ilusão ou delírio partilhado (transferência/ contratransferência) e uma resistência partilhada, bem como um processo, que damos o nome de psicanálise, que trava uma lenta mas persistente batalha contra a resistência e a ilusão partilhadas. O processo analítico catalisa o indivíduo à realidade individual existente. O fenômeno X é um produto do processo analítico. Este último opera em nível mais profundo, em um nível pré-verbal de processo primário, e encontra a sua expressão verbal na interpretação. A interpretação expressa esta mudança profunda, e efetua a sua consumação final em nível consciente e manifesto. O acesso repentino de um sentimento pessoal, no analista, que rompe um outro vínculo de estrangulamento ilusório em que paciente e analista são mantidos em servidão é experienciado de imediato pelo paciente e preexiste ao insight. Ele implica uma forma de comunicação entre analista e paciente que suplanta os métodos que o homem tem para perceber o mundo não-humano. O procedimento analítico capitaliza esta forma especial de comunicação humana.

Poder-se-ia argumentar que o que estou descrevendo constitui um caso particular de identificação projetiva, mas não acredito que isto faça justiça aos eventos psicológicos que, por falta de melhor termo, chamei de fenômeno X. A identificação projetiva significa que sentimentos que pertencem ao paciente são projetados para dentro do analista e lá se alojam, como um corpo estranho. O que estou descrevendo é um processo conjunto em que os sentimentos reais de analista e paciente são despertados pelo processo resistencial. Os sentimentos do analista são seus, ainda que possam ter sido suscitados pelo paciente. Este e o analista são responsáveis pelos sentimentos gerados na situação. Com freqüência o paciente "recebe a culpa" de sentimentos experienciados pelo analista e isto é chamado de identificação projetiva. Este tipo de descrição implica existirem apenas dois objetos culpáveis no consultório, paciente e analista, mas há um terceiro termo: o processo em que ambos se acham envolvidos.

O que eu disse até agora pode parecer contradizer a opinião de Freud de que o nosso único conhecimento do mundo externo se dá através da percepção, mediada conscientemente pelo ego. Em quase todos os textos de Freud ele seguiu a visão científica de sua época, que era a de que o conhecimento que o homem tem de seu semelhante se dá por via dos sentidos e não difere essencialmente do conhecimento que tem do mundo não-humano. Antes de formular a teoria estrutural, Freud atribuiu este tipo de conhecimento à consciência [consciousness] e pensou que o inconsciente não tinha acesso direto ao mundo externo.

Quando veio a formular o modelo estrutural, achou que a instância cujo papel é mediar entre o mundo externo e o organismo fosse o ego, e que o superego e o id não tinham contato direto com aquele. Ora, ele não diz especificamente se considera que este papel mediador do ego refere-se apenas à parte consciente do ego, mas existem duas passagens que contradizem todas as suas outras asserções sobre esta questão:

Tive boas razões para asseverar que todos possuem em seus próprios inconscientes um instrumento com que podem interpretar os enunciados dos inconscientes de outras pessoas (1913, p. 320).

É algo muito notável que o Ic. de um ser humano possa reagir sobre o de outro, sem passar através do C. Isso merece uma investigação mais atenta, especialmente com vistas a descobrir se a atividade pré-consciente pode ser excluída como desempenhando papel nisso, mas, descritivamente falando, o fato é incontestável (1915c, p. 194).

Ele está falando aqui a respeito de um tipo especial de conhecimento que existe entre os seres humanos e que não passa através dos órgãos sensórios normais ou através daquela parte consciente da personalidade habitada pelas representações verbais. Este tipo particular de conhecimento, portanto, antecede qualquer interpretação que o analista possa dar.

O fato de existir um tipo especial de conhecimento pelo qual os seres humanos se conhecem mutuamente e que é inteiramente diferente, em espécie, da maneira pela qual os homens conhecem o universo físico foi, acredito eu, expresso pela primeira vez por Giambattista Vico. Até Vico, todo o conhecimento tinha sido dividido em três tipos diferentes: meta físico ou teológico, dedutivo e perceptual. Nesta última categoria achavam-se incluídas as observações e as experiências empíricas. A esses tipos de conhecimento, Vico adicionou outro: o conhecimento que temos de nós mesmos e dos outros seres humanos. No caso dos seres humanos, disse ele, não somos apenas observadores passivos, porque temos um conhecimento especial “desde dentro” e temos o direito de perguntar por que é que os seres humanos agem da maneira como o fazem. Este tipo de conhecimento é ativo e não passivo, porque só podemos conhecer algo desde dentro se foram seres humanos que o criaram. Deus é, portanto, de acordo com Vico, o único que tem conhecimento perfeito, por ser o criador de tudo, mas, no caso do conhecimento especial que os seres humanos podem ter uns dos outros, trata-se de um tipo semelhante de conhecimento: um conhecimento per causas. Mas Vico não teve muitos seguidores entre os pensadores das ciências humanas. O que ele asseverou foi tomado como certo por todos os grandes escritores de prosa ou poesia, mas não foi estudado seriamente dentro das ciências sociais. E provável que Max Weber, o sociólogo, seja o seguidor mais conhecido do ponto de vista de Vico. Ele faz distinção entre o conhecimento ordinário, através do qual conhecemos o universo físico e que chamou de Wissen [saber], e aquele tipo especial de conhecimento que é apropriado apenas ao conhecimento dos seres humanos por outros seres humanos, e a que deu o nome de Verstehen [compreensão]. Embora este tipo especial de conhecimento tenha sido central ao trabalho clínico na prática psicanalítica, não parece haver uma metapsicologia para explicá-lo. A idéia de que um cientista possa tomar a sério este tipo de conhecimento é também desprezada por quase todas as escolas de pensamento dentro da psicologia acadêmica.

Vico disse que era possível ingressar-se no mundo das culturas passadas "desde dentro", estudando-se a poesia e os mitos que lhes eram próprios. Para conquistar este tipo especial de conhecimento, o homem precisa achar-se equipado com fantasia [em italiano, no original]. Vico considerava que este tipo de conhecimento era superior ao que temos do mundo não-humano, e isto porque a cultura humana foi criada, podendo assim ser conhecida desde dentro. Ora, esta idéia de que a cultura é uma criação humana e pode assim ser conhecida desde dentro pode, creio eu, ser aplicada ao tipo de conhecimento que temos de um paciente na situação psicanalítica. Uma vez tenhamos aceito com clareza que existe o "fator constitucional", ou seja, os dados biológicos com suas pulsões associadas, então o restante daquilo em que estamos interessados é produto da criação humana. O que analisamos é um produto da vida interior de fantasia, em interação primeiro com a mãe, depois com a mãe e o pai e os irmãos, e, finalmente, com todo o meio ambiente social. Teoricamente, seria possível que todos esses elementos fossem analisados e entendidos. Este entendimento é de um tipo especial e surge mediante um ato de insight que foi gerado e tornado possível pelo processo analítico. Temos de obter algumas pistas a respeito da maneira pela qual este ato de insight ocorre.

Digamos que eu pegue a Crítica da Razão Pura, de Kant, e leia esta afirmação: "Se temos uma proposição que contém a idéia de necessidade em sua própria concepção, ela é um julgamento a priori" (1781, p. 26). Posso entendê-la imediatamente, mas, por outro lado, isso pode não acontecer. Se não a entendo, é porque tenho uma idéia falsa, e isso cega o intelecto. Serei capaz de entender quando puder banir a idéia falsa e permitir que a idéia que Kant está propondo seja apreendida por meu intelecto. Posso ser bastante resistente a fazê-lo, porque ela pode significar que terei de abandonar muitas idéias de que gosto e que são confortáveis para a minha maneira de viver ou os meus hábitos mentais. Para entender Kant, preciso adotar uma atitude passiva, de maneira a que possa tornar-me receptivo às idéias dele, mas tenho de ativamente estar preparado para banir as minhas. No momento da compreensão, torno-me Kant, por assim dizer, através de uma ação do ego, pela qual dissipo meus conteúdos de superego e, por causa disto, permaneço separado e torno-me ligeiramente mais um indivíduo. No momento da compreensão, atividade e passividade se reúnem e formam um acontecimento psicológico único.

Ora, na situação psicanalítica acontece algo muito semelhante. As comunicações do paciente e os sentimentos e pensamentos do analista tornam-se a matéria-prima da qual a compreensão surge. O analista não apenas tem as suas próprias idéias falsas a dissipar, mas precisa ser passivo ao processo analítico e combater a resistência em que ele e o paciente se acham trancados. A tentativa de compreender é constantemente sabotada por um processo paralelo que estimula e fomenta idéias falsas. Posições teóricas recebidas podem ser usadas pelo processo resistente, tal como podem ser utilizadas pelo processo psicanalítico benigno. O paciente e o analista, como entidade combinada, acham-se envolvidos nesses dois processos. A crença no processo psicanalítico parece ser o ingrediente essencial para ambas as partes; entretanto, parece também possível que o papel especial do analista seja o de conduzir esta crença, tanto pelo paciente quanto por si próprio, sobretudo no início do tratamento.

O ato de compreender acha-se enraizado naquilo que é mais pessoal, no ego, mas as idéias falsas estão localizadas no superego. No momento do insight, expresso na interpretação, as ilusões ou idéias falsas são banidas, tanto no analista quanto no paciente. Um contato pessoal, de ego a ego, se estabelece e substitui uma ilusão ou crença falsa que manteve os dois juntos até essa ocasião. Esta crença que os manteve reunidos é aquele adesivo social, em microcosmo, que reúne as numerosas comunidades e grupamentos da sociedade. Este tipo de reunião é inteiramente diferente do contato ego a ego que ocorre em momentos particulares da análise. Esse tipo de contato é uma revolução, pois uma nova realidade, um novo crescimento, começa. Na verdade, trata-se da única revolução verdadeira que acontece dentro dos assuntos humanos, porque, subseqüentemente a este ato pessoal de compreensão, novos conceitos têm de ser importados para o superego, a fim de que esta última instância possa refletir agora as novas mudanças que se deram no ego.

A fim de se separar, o paciente precisa obter acesso aos sentimentos centrais do analista. As interpretações deste precisam fluir daí para uma extensão tão grande quanto possível, se se quer que o paciente seja capaz de efetivamente separar-se. Isto se aplica em especial ao paciente psicótico, cuja fusão no nível do superego é maior e cuja necessidade de contato ego a ego é também maior.

Preocupava grandemente a determinado paciente se o que eu lhe dizia era o que eu pensava ou sentia ou se se tratava apenas de um dito recebido da tradição psicanalítica e, portanto, apenas um conteúdo de superego. A cada vez que uma resistência era superada tornava-se então possível ir mais além no que eu verdadeiramente pensava ou sentia e, então, ele era capaz de separar-se um pouco mais dessa adesividade materna. Ele tornou-se mais capaz de separar-se do analista e, intrapsiquicamente, de seu objeto materno. O meu maior problema, na sua análise, foi chegar àqueles sentimentos que eram mais verdadeiramente meus. No caso desse paciente, o problema era particularmente agudo, mas, refletindo, penso que isso pode ser um problema central em todas as análises.

O setting psicanalítico está interessado em fomentar um tipo específico de comunicação que se demonstra mais claramente naqueles momentos que chamei de "fenômeno X". Este nível de comunicação ocorre desde o primeiríssimo momento em que o paciente entra no consultório e, com ele, uma certa configuração de conhecimento inconsciente. O Objetivo do trabalho interpretativo é tornar isto consciente. Ao mesmo tempo, há um outro processo em ação (tanto no analista quanto no paciente) cuja meta é sabotar a análise. Este processo se acha localizado no superego e faz uso de ilusões e mitos culturais como instrumentos. Damos a este processo o nome de resistência, mas quis enfatizar que se trata de um sistema em que o analista e o paciente se acham envolvidos, não algo que se ache localizado apenas no último. O "fenômeno X" implica a existência de um conhecimento que é pré-verbal e anterior à fala, e, portanto, à interpretação. Neste nível de conhecimento, o paciente conhece, inconscientemente, as atitudes internas do analista. Se, por exemplo, o analista acha-se inconscientemente invejoso do paciente de alguma maneira específica, o paciente o percebe e somente uma mudança na atitude interna do primeiro capacitará o segundo a progredir psiquicamente. No momento em que o analista se dá conta de sua atitude e se libera dela, o paciente o percebe, o que equivale a dizer que ele percebe uma mudança dentro do self e pode efetuar comentários nesse sentido, sem conhecer-lhes a causa. As interpretações que seguem o fenômeno X tornam-se articulações conscientes de uma mudança que já ocorreu, inconscientemente, no nível de ego a ego. Elas ajudam a restabelecer o superego de maneira a que os mitos e os valores se alterem e tornem-se sintonizados com as mudanças que ocorreram dentro do ego.

Com a exceção de Winnicott, penso que a maioria dos analistas opera baseada na presunção de que as pessoas constituem entidades separadas. Penso que o fenômeno X e a forma particular de conhecimento que ele deve implicar significam que as pessoas são indivíduos, mas, apesar disso, partes de uma entidade combinada. Por sermos partes de uma entidade desse tipo é que assim que analista e paciente se reúnem na mesma sala existe urna imediata adaptação e fusão. A entidade combinada estabelece-se instantaneamente. Socialmente, isto também ocorre quando duas pessoas se encontram, mas, neste caso, o contato de ego a ego é mantido num mínimo, de maneira que a ilusão conjunta é também mantida num mínimo. Na psicanálise, a última é realçada, mas apenas, por assim dizer, de forma a que seja investida e elaborada, e ceda lugar ao que é pessoal.

 

 



[1]* Trabalho publicado no livro “A Escola Britânica de Psicanálise – The Middle Group – A Tradição Independente.  Gregório Kohon – organizador. P.185-197