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A utopia borderline
Uma conversa com Nahman Armony
Convidamos o psicanalista Nahman Armony para um debate, via e-mails,
sobre seu livro “Borderline – uma outra normalidade”
(Editora Revinter), baseado em sua tese de doutorado apresentada
e aprovada na Escola de Comunicação da Ufrj (Eco-Ufrj).
A conversa, exclusiva para “Gradiva”, teve como palco
a lista de discussão sobre “terapia on line”
, lista esta coordenada pela psicanalista Thaís de Oliveira.
Participaram do debate, além dela, o analista Paulo Sternick
(editor-científico de “Gradiva”), e, fazendo
algumas “pontas”, Isidoro Americano, Wilson Chebabi
e Luiz Alberto Py, que freqüentam a referida lista. Nahman
Armony é psicanalista clínico no Rio de Janeiro, coordena
grupos de estudos sobre o pensamento de Donald Winnicott, sendo
professor do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro
e na Spid. Pertence ainda à Federação Internacional
das Sociedades Psicanalíticas.
Paulo Sternick – Nahman, vamos iniciar nossa conversa tendo
em mente que há, entre os leitores de Gradiva, vários
jovens, alguns ainda na Universidade. Então, minha primeira
indagação é sobre o que te levou a construir
uma tese sobre o tema “borderline”. Antes, você
podia dar a definição clássica de borderline,
e sua própria idéia a respeito.
Nahman Armony - Minha tese é sobre aquilo que se poderia
chamar de "borderline normal" - nome que não gosto.
Preferi borderline brando, borderline "light", nomes nessa
linha. Os escritos psicanalíticos dizem que somos todos neuróticos,
ou melhor, que usamos, primordialmente, o mecanismo do recalque.
Ninguém no mundo estaria livre de manifestações
de neurose. Quando elas não produzem um sofrimento que chegue
a incomodar, e não atrapalham a vida da pessoa, estamos diante
de um neurótico "normal". Já o mecanismo
ou dinamismo primordial do borderline é a cisão, a
onipotência mitigada, a permeabilização das
fronteiras do eu. Vou aqui citar um trecho de meu artigo "Borderline
e espaço potencial": "A normalidade perfeita é
sempre um ideal inalcançável, pois não se conhecem
homens sem traços neuróticos, já que aquilo
que produz neurose, estrutura o caráter; não se conhecem
também homens sem traços psicóticos, pois a
criatividade, intuição e comunicação
não-verbal bebem na mesma fonte da psicose".
Bem, o que me levou a escrever o livro não foram os borderlines
de consultório. Tive uma situação de vida em
que convivi intimamente com uma pessoa que apresentava, primordialmente,
um modo borderline de estar no mundo. Apesar da predominante forma
de ser borderline, ela mantinha as suas atividades com algumas limitações,
mas que não chegavam a chamar a atenção de
quem a conhecia mais superficialmente. Passei a ficar atento à
conduta de outras pessoas e percebi que uma parte delas tinha também
um modo borderline de conhecimento/relação/comunicação,
embora usando também, em maior ou menor grau, o mecanismo
do recalque. No consultório, o número de borderlines
proliferava. Estas duas circunstâncias levaram-me a um estudo
mais aprofundado do borderline e ao reconhecimento da existência
de um borderline brando. Grinker em seu livro “The borderline
syndrome” estabeleceu 4 graus de gravidade da síndrome
borderline, colocando em um extremo o borderline próximo
da psicose e no outro o borderline próximo da neurose. Eu
fui um pouco mais adiante nessa gradação, falando
de um borderline brando. O que é o borderline? É um
saco de gatos. Cada autor, ou cada grupo, dá a sua própria
versão. Mas há coisas em comum nessas versões:
flutuações afetivas, impulsividade, tendência
à atuação, sentimentos crônicos de vazio,
busca frenética por identificações, problemas
de identidade, uso de mecanismos primitivos de defesa, etc. (Nota
do editor: em anexo, ao fim da entrevista, há um trecho longo
do artigo acima que fala das características do borderline
patológico e "normal")
Thais Sá Pereira e Oliveira – Algumas idéias
me ocorreram a partir do que você disse. E se pensarmos que
o inconsciente é sempre incognoscível e só
chegamos a ele através de suas ressonâncias (as formações
do inconsciente), a permeabilidade não fica difícil
de ser explicada a partir do que você diz? Tive uma paciente,
usando sua terminologia, borderline pesada, que sintonizava com
coisas que eu pensara fora das sessões e que nada tinham
a ver com ela. Bem, ela falou de uma determinada situação
que vivera em certo País, em relação a compras
de objetos de primeira necessidade, muito caros naquele lugar, tanto
quanto em outro País onde trabalhara. E dizia o que fazia
para lidar com isso, que era exatamente o que eu estava pensando
em fazer, antes de ir para a sessão (algo bastante insólito
e, portanto, difícil de ser pensado assim, sem mais nem menos).
De outras vezes, tive a impressão que ela tinha um espião
dentro de minha casa, pois falava de situações que
eu estava vivendo com meus filhos etc. Outra vez, dizia que sonhara
com minha casa, que tinha uma grande pedra na frente e uma samambaia
no meu banheiro,o que era verdade... Uma outra, neurótica,
quando eu cheguei de férias, me disse: “Sonhei com
você numa Vila Romana”. E eu vinha da Bahia e tinha
ficado num hotel chamado Vila Romana. Penso que esses fenômenos
aparecem em qualquer análise e com qualquer paciente, não
importa o diagnóstico, e sim, com um momento de fusão
que está sendo vivido, algo da ordem da telepatia, ou coisa
parecida. A capacidade de empatia também entraria na relação
“dual-porosa”? Penso também em pessoas que têm
um histórico de muita leitura, cujo interesse pode ser herdado
até geneticamente. O interesse pelo saber e o gosto pelo
belo, e o desejo de conhecer-se, de prestar atenção
em seus meandros emocionais, poderiam advir desse refinamento adquirido
através da educação ou de herança genética
(contato com personagens de livros, com a arte em geral), que também
poderia tomar outro rumo, tornando-as mais atentas ao que se passa
no interior do seu corpo, que poderia ser um desvio patológico,
incluindo-as no rol dos hipocondríacos (aprendi que o hipocondríaco
sempre está às voltas com perseguidores internos,
alternando com perseguidores externos a ele.) O sentido estético
não poderia, a meu ver, estar ligado a uma patologia branda
ou pesada. Entramos, aqui, na capacidade de sublimação,
que Freud teve dificuldade de entender em Leonardo. A constante
interseção entre nature e nurture. Veja o que se passa
hoje dentro do contexto da globalização. A arte descambando
para a imbecilidade. Ainda em relação ao que você
disse, excluindo a pessoa do analista, eu acrescentaria aqui que
existem pessoas certas que despertam e se prestam mais a serem utilizadas
por esse tipo de borderline como alvo de suas identificações.
Há pessoas para quem você diz algo original e ela repete
algum tempo depois como se fosse idéia dela. Sem nenhuma
intenção de blefar. Houve uma identificação
com o "autor" da idéia, ou o "autor"
disse o que ela já pensara e não tinha conseguido
formular por si mesma? E a pessoa escolhida para alvo da identificação
não teria algo daquele que se identifica com ela, mas que
se encontra embaralhada dentro dela?
Nahman – Quando falo dos conteúdos do Inconsciente,
penso não só nos conteúdos originais, praticamente
inacessíveis, como também penso naqueles derivados
que, de tão próximos dos conteúdos originais,
têm dificuldade de circular através dos limites que
bordejam Cs. e Ic. É a esses conteúdos, nos estados
borderlines e psicóticos, que as pessoas têm mais acesso.
O psicótico pode querer atuar seu desejo sexual pela mãe;
o borderline pode perceber e falar do desejo; já o neurótico
recalca seu desejo e dele não tem conhecimento. Penso ainda
que a modalidade da realização de desejo é
diferente nos estados borderlines quando cotejados ao neurótico.
E aqui penso mais no desejo de completude e de onipotência.
O desejo de onipotência neuroticamente trabalhado se dilui
na quantidade de passos necessários à sua realização
simbólica. Já o desejo de onipotência do borderline,
embora seja um desejo mitigado em confronto com o do psicótico,
exige uma realização mais imediata e quase concreta.
Podemos colocar esse pensamento como uma relação entre
princípio do prazer e o princípio da realidade. No
borderline, a realidade deve imediatamente, ou quase imediatamente,
atender ao prazer, enquanto que no neurótico o prazer pode
ser adiado. Quando falo de borderline e neurótico, refiro-me
a estados borderlines e neuróticos de uma mesma pessoa. Acredito
que todos nós tenhamos, potencialmente, os três modos
de funcionamento: psicótico, neurótico e borderline.
Funcionamos, predominantemente, em um desses modos, mas os outros
podem surgir a qualquer momento. Quando a predominância de
um dos modos de funcionamento é quase absoluta (se é
que isso existe), então, ao invés de estado neurótico
ou borderline, podemos, economicamente, usar a palavra neurótico
e borderline. Conheço pessoas que, em certas situações,
agem como neuróticos e, em outras, como borderlines. A necessidade
de eficiência ligada à sobrevivência faz com
que os aspectos borderlines sejam dissociados, só sendo-lhes
permitido surgir em ambiente e momento propício. Mas isso
é, geralmente, um aprendizado.
Sternick - Nahman, lendo seu complexo, inquietante e generoso livro,
tive a inclinação de situa-lo numa linhagem na qual
estão incluídos, por exemplo, "O Elogio da Loucura",
de Erasmo, aquele livro de Machado de Assis, “O Alienista”,
ou "Em defesa de uma certa anormalidade", de Joyce McDougall.
Será sua tese um louvor ao "borderline", uma reabilitação
dos fronteiriços, na medida em que eles têm capacidade
de se comunicar com o outro, com seu potencial de criatividade e
afetos, e sua abertura para a subjetividade de seu tempo?
Nahman - É dessa linhagem sim, e inclusive da linhagem
freudiana que estabeleceu uma continuidade entre neuroses, perversões
e normalidade. A palavra "louvor" me parece um tanto forte,
mas talvez ela tenha sido depreendida de meu texto. Acho que na
época de Freud (final de século 19 e inícios
do século 20), a repressão era usada para lidar com
as diversas situações de vida, inclusive, e principalmente,
na educação infantil. A repressão era, então,
vista como a maneira de educar e socializar a criança e o
adulto. Associada a ela tínhamos a punição
e a culpa. No decorrer do século 20, e agora no século
21, questiona-se a repressão como modo de lidar com as diversas
situações de vida. A ênfase agora recai na criatividade,
e não mais na repressão. Os limites são colocados
de uma forma mais amorosa do que autoritária. Com isso, a
subjetividade entrou em transformação. O sujeito,
já não acossado por uma repressão autoritária,
pode conservar aspectos de sua relação mais primitiva
com a mãe, que já não precisa ser recalcada.
Com isso, passam para o primeiro plano a intuição,
a espontaneidade, a capacidade de identificação, a
amorosidade, as manifestações afetivas, maior valorização
do corpo e do atuar, maior aceitação das pulsões.
O aspecto positivo do borderline é a sua capacidade de empatia,
de “identificação dual-porosa”, assim
como o aspecto positivo do neurótico é a organização,
a disciplina, a persistência. Aquilo que chamamos de normalidade
é um ideal. O ideal neurótico era a vida controlada
e prevista, uma carreira a ser seguida linearmente, uma família
a ser conservada. O ideal borderline está colocado na criatividade
e na capacidade de acompanhar as velozes mudanças que ocorrem
no mundo. Mas, como disse acima, a normalidade é um ideal.
Todos nós temos problemas, conflitos, fantasmas, com os quais
lidamos seja neuroticamente, seja de modo borderline. Podemos traçar
duas linhas, ambas indo da patologia máxima à normalidade
ideal: uma das
linhas é a linha neurótica e a outra é a borderline,
ou, como prefere
Winnicott, psicótica. Cada uma das linhas apropriada à
sua época. É
também importante dizer que coexistem na mesma pessoa dinamismos
neuróticos, borderlines e psicóticos.
Thaís - Nahman, quando você fala em limites colocados
de uma forma mais amorosa do que autoritária, não
estaria falando a partir de um enfoque também adaptado à
nossa época, em que os pais, tendo sido vítimas da
repressão, tentam resgatá-la através dos filhos,
relutando em fazer uso da lei, sempre vista como autoritária,
e lançando mão de uma amorosidade falsa, porque narcísica,
em busca de uma reparação impossível? E a gente
sabe que o que é falso é captado em nível inconsciente,
provocando o surgimento exatamente do tipo borderline, aquele que
não encontra uma referência consistente nos transmissores
- os pais - naquilo que lhe passam? A criatividade, por exemplo,
pode descambar para algo igualmente sem referência consistente,
como a "criatividade" do pichador, dos grandes mentores
e organizadores de crimes e de diversos tipos de corrupção
tão em voga em nossos dias. Porque não podemos negar
que todos esses indivíduos possuem uma grande dose de criatividade...Pensando
no que você diz, me ocorre que o borderline, representante
de um outro tipo de normalidade, navegaria contra a corrente do
establishment, de encontro ao apropriado à sua época;
não como o pichador ou o delinqüente de colarinho branco,
nem como o narcísico possuído pela ânsia de
ser reconhecido, de gritar para todo mundo que "eu existo",
mas como alguém em permanente oposição, recriando
caminhos onde estão inseridos, ou melhor, onde seriam engolfados.
Alguém como a psicanálise, à margem da lei
para transformá-la.
Nahman - Suas duas observações permitem que pensemos
e façamos uma diferenciação entre sentimentalismo
amoroso e compreensão/respeito amoroso. Sua primeira observação
nos remete ao sentimentalismo e a segunda à compreensão/respeito.
Na amorosidade, os genitores têm a convicção
de que é necessário dar limites coerentes à
criança; só que esses limites são dados respeitando-se
amorosamente a individualidade da criança. No sentimentalismo,
os pais deixam-se dominar pela criança, não lhe dando
limites. E isso, como você observou, pode ter a ver com um
comportamento reativo de quem passou por uma colocação
de limites autoritária.
Thaís - Não seria, Nahman, "no sentimentalismo
os pais deixam-se dominar pela criança" (insatisfeita
que existe em cada genitor), não lhe dando limites"?
Os genitores aos quais se refere, os que dão limites por
compreensão/respeito, infelizmente são muito poucos,
na prática. É quase impossível dissociar a
própria experiência como criança educada por
determinados pais, da experiência de educar o próprio
filho, a não ser quando esta educação é
reativa àquela dada pelos genitores. Em “Introdução
ao Narcisismo”, Freud se refere às reações
estereotipadas de encantamento dos pais diante de seus bebês/crianças.
M.Klein se refere à oportunidade de reparação
do que cada um "sofreu" em suas relações
mais primitivas, tanto através do próprio desempenho
com os filhos, como através de uma boa relação
com a parceira/o, quando estes ocupam bem diversos papeis (pai,
mãe, irmã, etc.). Como o neurótico tende à
repetição, fica difícil encontrar parceiros
"curativos", ou que ajudem a reparar o que se passou na
realidade ou na fantasia do adulto, em criança. Enfim, você
acha que o aspecto positivo do borderline, que se manifestaria por
meio de uma maior capacidade de empatia, de “identificação
dual-porosa” facilitaria a escolha ou a procura de relações
na base de compreensão/respeito com pessoas "curativas",
que desempenhariam, de uma certa maneira, o papel reparatório
ao qual se refere M. Klein?
Nahman - Encontrar uma pessoa curativa para companheira é
uma verdadeira bênção. Pode ser que, por sorte,
ela seja encontrada nas primeiras tentativas de relação
amorosa. Mas, o mais comum, é fazer-se escolhas com base
em imponderáveis, em projeções e fantasias,
em idealizações. A conquista de um parceiro dual-poroso
necessitado e disponível para trocas afetivas, geralmente,
requer tempo e experiência. Requer também, como você
assinalou, que se escape da compulsão à repetição.
Sendo o borderline um dual-poroso, ele, mais que o neurótico,
necessitará realizar trocas afetivas íntimas, sendo
difícil que se adapte a uma relação onde barreiras
egóicas preservem, além de um mínimo, a intimidade
de cada um. Não poderia, anedoticamente falando, ser um matrimônio
inglês. Mas, ironicamente, foi um inglês que muito falou
do tipo de comunicação/relação básica
que o borderline necessita. Susan Isaacs conta a seguinte história
(não me lembro de onde tirei isto; creio que da biografia
de Winnicott): os filhos de um colega escandinavo, que não
falavam inglês, haviam estado com Winnicott quando tinham
seus dois e quatro anos; anos depois, ao saberem que o veriam de
novo, ficaram entusiasmados. Confrontados com o fato de que não
tinham falado a mesma língua, não puderam acreditar
neste fato, tão viva e intensa tinha sido a comunicação
entre eles. Essa é a comunicação basal necessitada
pelos borderlines; é claro, que, sendo o borderline um adulto,
não é suficiente. Mas é condição
“sine qua non” para uma afortunada relação
amorosa.
Sternick – Nahman, você se referiu à “identificação
dual-porosa”, que é um dos conceitos-chave de seu livro,
quase um pilar de sua argumentação, conceito este
que, na verdade, se não "explode" com
concepções clássicas de identificação,
pelo menos, vem flexibiliza-las, ou "pós-moderniza-las"
(se assim podíamos falar), o que o torna capaz de
abarcar um espectro mais amplo dos fenômenos psíquicos
e relacionais...
Nahman - Você pegou muito bem o espírito da coisa.
O aspecto do borderline "light" que mais valorizo é
sua capacidade de “identificação dual-porosa”,
que é uma identificação contínua com
tudo que o cerca e que lhe permite surfar nas ondas do devir. Mas
esse conceito não pretende substituir os outros conceitos
de identificação. Apenas ponho em jogo um outro conceito
de identificação que pretende dar conta do modo de
vida da atualidade. Se examinarmos a história do conceito
de identificação, veremos que ele adquire vários
significados. No capítulo "Identificação"
da "Psicologia das Massas e análise do eu", Freud
lista pelo menos três modos de identificação
que não se excluem. Melanie Klein vai falar de identificação
de um modo diferente de Freud, e assim por diante, até chegarmos
ao conceito de identificação em devir, ou dual-porosa,
ou contínua de Nahman (ah, ah, ah)... É claro que
estou brincando...
Isidoro Americano – Nahman, poderíamos ter com clareza
maior a origem de sua idéia de 'porosidade' e como é
articulada com os conceitos fundamentais freudianos? O mesmo para
a idéia de dualidade? E mais ainda o 'quase-conceito' para
seu texto de 'dualidade-porosa'? Acho que é importante para
mim saber estes princípios para alinhavar melhor o diálogo.
Nahman - Na minha formulação, porosidade está
intimamente ligada à palavra identificação,
formando a expressão identificação dual-porosa,
nome que não acho muito simpático, mas que foi o primeiro
que usei. Mais tarde, pensei em usar alternativamente as expressões
"identificação contínua" e "identificação
em devir". Mas, de qualquer forma, acho que porosidade pode
ser usada como um conceito, uma noção, um quase-conceito
(estou falando das várias possibilidades epistemológicas),
apesar de ser uma palavra de uso comum. Bem, isso é apenas
uma introdução. No seu artigo sobre narcisismo, Freud
fala de introversão da libido até os objetos imaginários
do psiquismo (neurose) e de introversão da libido ao ego
(psicose). Para que a libido ultrapasse as fronteiras do ego, é
preciso que elas sejam permeáveis. Freud fala que o superego
masculino se constitui ao se resolver o complexo de Édipo,
e que, a partir daí, praticamente não sofre modificações,
diferentemente do superego feminino, que realiza identificações
em cada relação amorosa vivida. Poderíamos,
aqui, dizer que o superego (o ego) feminino é, para Freud,
bem mais permeável que o masculino. Freud fala ainda que
toda identificação que altera o ego necessita de uma
regressão até a situação pré-objetal,
onde identificação e relação de objeto
são a mesma coisa, ou, dito de uma maneira diferente, a identificação
se dá previamente à relação de objeto,
ou dito ainda de outra maneira, a identificação é
o mais primitivo laço objetal. Portanto, a identificação
secundária freudiana que altera o ego sempre passa pela primária.
E na primária não há uma linha de fronteira
separando sujeito de objeto, o eu do tu.
Falemos agora de M.Klein. Ela cria o conceito de identificação
projetiva, um conceito muito usado pelos kleinianos na situação
clínica. Segundo Klein, o analisando projeta dentro de psiquismo
do analista partes suas visando controlá-lo, atacá-lo,
etc. O analista pode, ou não, receber essa identificação
projetiva. Poderá fazer aquilo que se chama uma contra-identificação
projetiva, ou não. A contra-identificação projetiva
pode ser usada para perceber a identificação projetiva,
e isso é útil na clínica. Então, há
aqueles que não realizam a contra-identificação,
que se fecham à identificação projetiva e outras
que se abrem para ela. Ou, em outros termos, alguns deixam que as
fantasias e desejos dos analisandos os afetem, e outros não.
Os que se deixam afetar são permeáveis aos sentimentos,
fantasias e desejos do outro. É claro que o grau de permeabilidade
pode variar desde a idealmente máxima à idealmente
mínima. Então, o analista poderá estar mais
ou menos permeável à identificação projetiva
de seu analisando. Bion vai além de M.Klein, dizendo que
o esquizofrênico, através da identificação
projetiva, consegue fazer com que o analista se comporte segundo
seus desejos (do analisando). É claro que se o analista se
endurece e se fecha de uma forma absoluta diante de seu cliente,
talvez nem o mais habilidoso dos esquizofrênicos consiga dele
uma contra-identificação projetiva. Bem, quando falo
de permeabilidade, penso justamente na permeabilidade do analista
aos desejos, fantasias de seu analisando. Penso também na
permeabilidade, semi-permeabilidade ou impermeabilidade aos sentimentos
dissociados ou recalcados de cada um. Na “identificação
dual-porosa”, as trocas fantasmáticas, afetivas e desejantes
são teoricamente contínuas. Falo de dual porque a
“identificação dual-porosa” refere-se
a pessoas capazes de se relacionar com um outro e que, portanto,
sairam do estado pré-objetal, fusional, para atingir, pelo
menos, o estágio simbiótico. Dual nem sempre significa
duas pessoas; pode também significar uma pessoa e um grupo
ou uma pessoa e a subjetividade circulante. A pessoa dual-porosa
deixa-se penetrar pelo ambiente à sua volta, podendo senti-lo,
percebe-lo e entende-lo mais plenamente.
Nahman (posteriormente) - Andei matutando sobre a questão
da porosidade e pensei em acrescentar algo ao já falado.
Como sei, Isidoro, que você gosta de Lacan, vou-me atrever
a usar um pouco de sua teoria. Devo dizer que fico inseguro quando
falo de Lacan, pois não tenho uma visão geral de sua
obra. Se eu disser alguma besteira, por favor, corrija-me. Lacan
fala em "sujeito barrado". Entendo que o sujeito barrado
refere-se à divisão, ao sujeito do inconsciente. Esse
sujeito do inconsciente aparece nas frestas do discurso: atos falhos,
etc. Há discursos mais permeáveis, mais porosos -
e outros menos - ao aparecimento do sujeito do inconsciente. O discurso
do obsessivo é menos propício ao surgimento do sujeito
do inconsciente do que o discurso histérico. O histérico
é, pois, mais poroso que o obsessivo. Temos aqui a porosidade
empregada no sentido das relações entre o ego e o
sujeito do inconsciente. Mas, como já disse anteriormente,
emprego o termo porosidade também como acesso ao inconsciente
do outro, do grupo, e da subjetividade circulante.
Wilson de Lyra Chebabi - De tudo que tenho lido em nossa lista,
verifico a importância da onipresença da nosologia
psiquiátrica em nosso vocabulário psicanalítico.
"Borderline" quer dizer estar na fronteira entre a lucidez
e a loucura. Entre a "normalidade" e a "psicose
Nahman - "Borderline é estar na fronteira entre a lucidez
e a loucura. Entre a normalidade e a psicose". Perfeito. Essa
fronteira tem sido vista, através da história da psiquiatria
e da psicanálise, de diferentes maneiras: 1- como estar na
corda bamba, podendo descambar para a psicose ou para a neurose.
Nesse caso, o borderline não é considerado como uma
categoria, mas como um estado provisório, prelúdio
de algum outro estado definitivo 2- como saco de gatos para onde
eram enviados todos os casos que não podiam ser definidos,
ou como neurose, ou como psicose 3- como uma entidade de direito
próprio, que inclui aspectos psicóticos e neuróticos
e que apresenta, na sua instabilidade, uma estabilidade. 4- Winnicott
pode ser colocado na formulação 3. Eu o estou destacando
pela sua originalidade em estabelecer que o desenvolvimento falso
self é um desenvolvimento borderline. Na verdade, o que ele
diz é que o falso self encobre uma angústia primitiva
de aniquilamento psicótico. O borderline seria, em essência,
um psicótico oculto por um falso self.
Sternick - Na hipótese de que "borderline" seja
como um "saco de gatos para onde eram enviados todos os casos
que não podiam ser definidos como neurose ou psicose",
lembrei-me de minha antiga reserva quanto a estruturas muito fixas
e rígidas para avaliar a personalidade humana. Entendo que
não podemos dispensar completamente os quadros clínicos
tradicionais da clínica psicanalítica, eles mantêm
sua validade de trabalho até hoje, mas também contêm
um grave risco de abafamento da riqueza da personalidade humana,
incapaz de ser abrangida por quadros psicopatológicos limitados,
tais como os que nós dispomos em nossos dispositivos conceituais.
Enfim, nada melhor do que 30 anos de trabalho para fundamentar nossas
suspeitas de que há mais coisas no meio da mente do que supõe
nosso vão freudismo ou lacanismo. Enfim, o que você
acha da contribuição das Artes para nos ajudar no
entendimento da personalidade humana? Refiro-me, por exemplo, à
Literatura, à Filosofia e à Pintura? Sabe, às
vezes estou na escuta de uma analisando, e me vem à mente
um quadro, uma pintura de seu estado mental...Mas podia ser uma
música, ou um sistema filosófico, ou religioso particular...
Nahman - Concordo inteiramente com você. Você formulou
muito bem a questão. Está ótimo e eu não
o diria melhor. Quanto à arte, acho que a literatura, ainda
antes da psicanálise, falava das motivações
profundas do ser humano. Lembro-me, por exemplo do livro "A
Letra Escarlate" (não sei se é anterior à
Freud; alguém sabe?) que me impressionou pela penetração
psicológica. Aldous Huxley é, para mim, um mestre
do desvelamento daquilo que se passa sob a superfície das
palavras, no âmago das relações humanas. O primeiro
livro que dele li - "Contraponto" - foi uma verdadeira
revelação, um banquete de iguarias que eu nunca tinha
saboreado e que me encheram de admiração e alegria.
A filosofia também me ajuda na relação com
meu analisando, pois eu não o vejo apenas como um ser humano
em interação com os outros e consigo mesmo - o que
já é muito -, interação essa pontilhada
de dificuldades, obstáculos, mal-entendidos, problemas; mas
também como um ser situado em um mundo shakespeariano - "há
mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a sua vã
filosofia" (parafraseando, eu diria "sua vã psicanálise"),
uma pessoa tentando se encontrar no tempo, no espaço, na
cultura, no seu ser e no seu fazer. Quanto à pintura, no
que toca a mim, quase sempre tento fazer um quadro mental pictórico,
cinematográfico daquilo que o analisando vai me contando.
Tento transformar palavras em imagens e quando consigo - o que é
freqüente - sinto-me muito melhor situado em relação
aos acontecimentos e sentimentos narrados. Quanto à música,
não me lembro de ter vindo à minha mente uma melodia
ou uma composição musical a partir de minha relação
com o paciente. Mas, como gosto muito de música, quem sabe
se depois dessa sugestão isso não venha a acontecer?
Sternick - Numa das palestras para estudantes em Harvard, em 1967,
Jorge Luis Borges falou sobre "Música da palavra e tradução",
apontando para a magia da palavra, do sentido e do som na poesia.
Alguém me disse - agora não me lembro quem - que no
final de sua vida, Bion estava preocupado em reunir uma coletânea
de poemas para psicanalistas...
Luiz Alberto Py – Fui eu quem te disse...
Sternick – Claro, agora me lembro...O Py fez análise
com Bion, ele deve ter-lhe dito isso pessoalmente...Mas, prosseguindo,
muitos cientistas exaltam a importância da beleza na formulação
científica. Freud comentou que através do humor o
recalque poderia ser suspenso com menos dificuldade, e eu me pergunto
se a estética não agiria na mesma direção.
Arte (mais do que "técnica") e bom-humor na sessão
de análise favorecem o encontro, as associações
de idéias, a emergência dos sentidos. Mesmo considerando
que nem sempre uma sessão de análise possa ser bem-humorada,
ou bela, na verdade, muitas das interpretações que
a gente conhece através da Literatura especializada são
simplesmente de um mau-gosto indiscutível. Eu poderia até
fazer uma conjetura exagerada e imaginar que, mesmo sem ter consciência
disso, o analisando às vezes sai chorando da sessão
por causa da desilusão com as bobagens que ele ouve do analista,
e, portanto, com a perda de sua última esperança de
ser ajudado. De uma certa maneira, estas considerações
por acaso vão em direção a certas críticas
que você levanta em seu livro? Por exemplo, em sua crítica
ao estruturalismo, o apagamento do sujeito e sua transformação
em significante, enfim, uma indisposição com um certo
lacanismo parece bastante explícita no livro, não?
Nahman - Mais uma vez estou de acordo com você. Um terapeuta
que tenha sensibilidade para as artes, e que exerça essa
sensibilidade, aguçando-a cada vez mais, estará mais
apto não só a perceber as sutilezas do humano, como
também a se colocar de uma forma delicada e estética.
Acho também, como você percebeu, que transformar o
sujeito vivo em significante linguístico dificulta o exercício
dessa sensibilidade e estética. E por falar em música,
quero acrescentar que a voz do terapeuta pode ser usada como instrumento
musical capaz de transmitir sentimentos ao analisando, da mesma
maneira que a música o faz. É algo semelhante ao que
acontece no diálogo sonoro entre mãe e bebê,
em que a mãe usa a voz para transmitir afetos e o faz de
uma maneira admirável. Querendo ou não, a música
das palavras estará sempre falando alguma coisa ao paciente,
paralelamente, ou solidariamente ao significado delas. Por vezes,
a música da voz se torna mais importante que o significado
da palavra. Em outros termos, a expressão afetiva do analista,
que também se manifesta na música das palavras, pode
vir a dizer mais que as próprias palavras.
Sternick - Em seu livro você faz articulações
interessantes sobre
as características do "homem pós-moderno"
com as descrições da condição borderline.
Passado algum tempo da publicação do livro, creio
que você deva ter feito alguma elaboração posterior
sobre a questão. Como você a veria hoje?
Nahman - Gostei muito da sua pergunta, pois ela me obriga a repensar
a questão do borderline e do homem pós-moderno. O
que posso dizer? Vejamos: da época vitoriana até meados
do século passado, a subjetividade do homem passava fortemente
pela repressão. Outro dia, um colega deu um exemplo dessa
repressão extremada, dizendo que, à mesa, as crianças
tinham medo até de
tossir; era proibido tossir na hora das refeições,
diante de um pai que tinha um lugar cativo à cabeceira da
mesa. Esse binômio autoridade/repressão impregnava
toda a subjetividade da época. Conseqüência da
repressão, o recalque era a principal forma de estruturação
e de defesa do psíquico. Na subjetividade atual, a repressão
(e, portanto, o recalque secundário) perdeu sua proeminência.
As pessoas têm uma atitude e um comportamento muito mais
permissivo. De uma maneira geral, os autores confrontam os mecanismos
de defesa primários aos secundários, a cisão
e onipotência à repressão. Eu penso da mesma
maneira, porém, colocando a ênfase na onipotência.
A permissividade facilita o exercício da onipotência.
A frustração da onipotência não conduz
ao recalque, mas a uma retração do psiquismo, à
depressão, ao desespero, a um sentimento de impotência,
que é uma forma de resguardar a onipotência.
Esta virá a se manifestar uma vez passado o período
de retração, e a pessoa acabará por se acostumar
à seqüência onipotência /impotência/
onipotência (é claro que falo de uma onipotência
mitigada, aquela capaz de se realizar de maneira no social). Teremos,
então, ao invés de um recalque do desejo
de onipotência com as conseqüentes formações
sintomáticas e de caráter, a cisão da personalidade
entre onipotência e impotência,
preservando-se todo o vigor que a onipotência proporciona.
Eu diria, portanto, que o homem atual usa, predominantemente, a
onipotência e a cisão para lidar com o mundo interno/externo.
No mais, o que se observa é uma enorme dispersão no
modo de lidar com as modificações aceleradas, a incerteza,
a instabilidade, a fragmentação, a imponderabilidade,
a instabilidade identitária, a pluralidade, etc. do mundo
atual. Continuo achando a "identificação em devir"
como a melhor utopia para lidar com a subjetividade contemporânea;
identificação em devir é, nesse contexto, uma
expressão mais conveniente do que identificação
dual-porosa. Em suma: assim como não chamávamos o
homem "normal" vitoriano de neurótico, o termo
borderline para caracterizar o homem contemporâneo provavelmente
não será usado. Mas, podemos dizer que, no século
passado, o dinamismo predominante que produzia tanto o "normal"
quanto o "patológico" era a repressão/recalque,
levando ao conflito e à ansiedade;
já neste século, o dinamismo predominante tanto do
"normal" quanto do
"patológico" é o da onipotência/impotência
mitigadas e a cisão, conduzindo à depressão
e a uma certa forma de negação, que é mais
um "não prestar atenção" que uma
"declaração de inexistência". Encontramos
ainda na nossa pós-modernidade uma tendência ao exibicionismo.
Além dos fatores econômicos (a pessoa tem
de se vender ao mercado), sociais (programas televisivos contribuindo
para criar novas subjetividades; programas em que as pessoas expõem
sua intimidade) e, certamente, outros que no momento me escapam,
o exibicionismo tem a ver com a necessidade de reconhecimento externo
que aumentou na medida da diminuição de um reconhecimento
interno. Estou falando de um superego frouxo (tão frouxo
que talvez fosse melhor chamá-lo de infra-ego), e um ideal-
de-ego de grande instabilidade. O aspecto positivo desses enunciados
é o enunciado da flexibilidade. E flexibilidade tem tudo
a ver com ”identificação dual-porosa”,
e, portanto, com minha utopia borderline. Fui obrigado, pela caráter
mesmo de entrevista, a passar rapidamente por assuntos complexos,
que talvez necessitassem de mais explanação.
Paulo Sternick- Diante deste cenário que você esboçou
sobre a atualidade pós-moderna, e os tipos que produz, com
suas características psicopatológicas, enfim, esta
subjetividade predominante nos grandes centros urbanos, então,
diante disso, como se situa o psicanalista e sua técnica
oriunda do século XIX, no tempo em que a
modernidade dominante encontrava-se entre o esclarecimento das luzes
e o obscurantismo de tudo saber e poder? Nesses tempos atuais de
incertezas e dúvidas, de valores nem sempre definidos e cambiantes,
de referências que não se sustentam e novos paradigmas
em aberto, como você vê o destino da prática
psicanalítica: clínica, teórica e institucional?
O rigor - eu diria um mínimo de rigor psicanalítico
e suas peças chaves - pode ser sustentado em meio às
novas exigências do mercado clínico?
Nahman - A psicanálise tem sofrido muitas transformações
em sua teoria e em sua técnica. Essas transformações
se originam de uma experiência e reflexão acumuladas,
mas, principalmente, das transformações da subjetividade.
O homem de hoje não é o homem de ontem e não
será o homem de amanhã. Em sendo assim, o que sobrou
da antiga psicanálise, de uma psicanálise que podemos
de chamar originária? Antes de prosseguir, gostaria de fazer
um paralelo entre a psicanálise e a filosofia. Um tanto ou
quanto arbitrariamente, podemos dizer que a filosofia começou
com Platão. Digo arbitrariamente, pois podemos já
considerar Parmênides, Tales de Mileto, os pré-socráticos
em geral, como filósofos. Mas isso não importa para
a minha argumentação, até, ao contrário,
a reforça, pois embora chamemos a todos esses de filósofos,
assim como chamamos de filósofos a Spinoza, Nietzsche, Deleuze
e muitos outros, há diferenças marcantes entre eles.
Acredito que Platão/Sócrates pode ser considerado
o primeiro filósofo, pois toda a filosofia tem como referência,
implícita ou explícita, o seu pensamento. Mesmo aquela
filosofia que se contrapõe a Platão - a de Nietzsche
e a de Deleuze - é chamada de "reversão do platonismo".
O que vemos na filosofia, podemos pensar também em relação
à psicanálise. Freud é, e sempre será,
aquele que descobriu um novo continente e todos os desenvolvimentos
teóricos e clínicos, e mesmo, todas as rupturas, terão
como referência a obra de Freud. Mas, sem dúvida, a
psicanálise se modificou e continuará se modificando.
Na minha opinião, dos pilares teóricos da psicanálise,
continua vigendo o conceito de
inconsciente, de resistência (que passou a ser tanto do analisando
quanto do analista), mas não mais uma resistência a
um material reprimido, mas uma resistência a modificar os
modos de relacionamento intersubjetivo. Isso porque o recalque,
na atualidade, perdeu sua primazia tendo sido seu lugar ocupado
pela onipotência e cisão. Isso não quer dizer
que desapareceu o recalque; apenas ele perdeu sua anterior importância.
Com tudo isso, a técnica também mudou. Hoje em dia,
mais que interpretar, é preciso viver com o analisandouma
relação terapêutica onde a palavra e a interpretação
têm o seu lugar, mas dentro de um contexto vivencial, que
passa ao primeiro plano. A idéia de trocas afetivas e interações
fantasmáticas ganhou relevo, e o analista deverá
estar permanentemente atento à relação transferencial
/ contratransferencial. Estou pensando em reeditar o meu livro de
1989, "Psicanálise: da interpretação à
vivência compartilhada", que, em seu título, resume
as modificações da teoria e, principalmente, da técnica
psicanalítica. Essas modificações incluem um
envolvimento maior do analista, uma quebra da hierarquia, uma renúncia
ao poder psicanalítico, o exercício da empatia e da
capacidade de identificação, um respeito à
ideologia e à intuição do analisando, assim
como à sua capacidade de progredir sem a necessidade de uma
interferência cerrada do analista, o que permite diminuir
a freqüência das sessões. Uma outra idéia
é a de integrar a terapia psicanalítica propriamente
dita com outras atividades também terapêuticas e que
são recursos complementares de tratamento.
ANEXO ESCRITO POR NAHMAN ARMONY
"Encontra-se a palavra borderline, na forma de "borderland",
já em 1884 em Hughes, significando que o paciente vivia próximo
a uma fronteira que separava a psicose da neurose, "as vezes
de um lado, às vezes de outro"(apud Armony, p.91). O
que em Hughes aparece na forma de alternância, logo será
proferido como mistura de neurose e psicose, uma idéia que
perdurará por muito tempo na literatura tanto psiquiátrica
quanto psicanalítica. Em 1938, um autor chamado Stern já
faz uso de conceitos psicanalíticos para falar do borderline.
É a psicanálise se apropriando da palavra, o que vai
acontecer com maior intensidade a partir da década de 50.
Aos poucos o borderline deixa de ser visto como uma mistura que
pode ser decomposta em psicótico e neurótico e passa
a se constituir em uma entidade de direito próprio, com uma
dinâmica específica que tanto difere da dinâmica
do psicótico quanto do neurótico. O borderline passa
a ocupar um terceiro território, o que, para orelhas predispostas,
lembra o espaço potencial winnicottiano, criando uma esperança
de poder articular esse terceiro território com o terceiro
espaço winnicottiano - o espaço potencial.
Ainda hoje há bastante controvérsia sobre o que seja
um borderline. Não estou aqui falando do borderline brando,
que é uma bolação minha, mas do borderline,
digamos assim, patológico. Como acontece com quase todos
os termos da psicanálise, borderline é também
uma palavra polissêmica, permitindo diversas visões,
que, de alguma maneira, se aproximam e se suplementam. Tentando
fazer um resumo direi que o borderline pesado (ou patológico)
é polissintomático, ambulatório, com dificuldades
nas relações interpessoais por suas susceptibilidades
narcísicas exacerbadas, com problemas na área afetiva,
impulsivo, usuário do dinamismo da divisão, com tendência
à atuação, com questões nas áreas
das identificações e da identidade, necessitando de
uma circunvizinhança humana para atuar os seus fantasmas,
com labilidade de humor, com tendência à exacerbada
dependência afetiva muitas vezes negada reativamente, com
extrema sensibilidade e susceptibilidade, incomumente e seletivamente
permeável ao próprio inconsciente, ao inconsciente
do outro e à subjetividade circulante.
Se peneirarmos o borderline acima de maneira tal que reste na peneira
a farinha do borderline brando, sobrará a tendência
à atuação, a necessidade afetivo/dinâmica
de uma circunvizinhança humana para nela atuar seus fantasmas
e realizar seus desejos infantis, o uso da divisão/compartimentação
e da onipotência mitigada de forma não incompatível
com o social, a extrema sensibilidade, a incomum permeabilidade
ao próprio inconsciente, ao inconsciente do outro e à
subjetividade circulante; tal permeabilidade permite-lhe identificar-se
continuamente, em devir, com o que o rodeia. A essa identificação
dei o nome de "identificação dual-porosa",
"identificação transital", "identificação
contínua", e, posso agora acrescentar, "identificação
em devir".
O borderline brando tende mais à multiplicidade do que ao
polissintomático, o que significa que ele não inibe
os vários aspectos de sua personalidade em favor de um único
aspecto, mantendo as suas várias potencialidades disponíveis
para serem usadas. No que diz respeito à sensibilidade/susceptibilidade
narcísica ela apresenta-se menos como uma ferida e mais como
um instrumento de conhecimento do outro; a permeabilidade das fronteiras
do eu, que poderia torná-lo vulnerável às afetações
do outro mantém-se como sensibilidade que permite conhecer
o outro, propiciando o desenvolvimento de afetos e sentimentos pertinentes
à relação em curso. Assim, ao invés
de um fechamento nas próprias fantasias, há uma abertura
para o conhecimento das fantasias do outro. A permeabilidade das
fronteiras, que no borderline pesado pode ser usada contra o outro
ou pode dar lugar a um excesso de identificação projetiva
e introjetiva, no borderline brando muda de qualidade, transformando-se
em identificação dual-porosa, uma identificação
que permite um regime de trocas fantasmáticas e afetivas
contínuas entre os seres humanos entre si e com o mundo rodeante.
A porosidade tanto funciona em relação ao mundo externo
(a um outro humano, sim, mas também em relação
à cultura, à natureza, ao planeta), quanto ao mundo
interno, isto é, na percepção do próprio
inconsciente. Em se tratando do borderline brando, as trocas fantasmáticas
e afetivas ocorrem - e aqui adianto a minha tese - em um espaço
potencial ou a ele equivalente, o que significa que ao objeto subjetivo
superpõe-se o mesmo objeto objetivamente percebido. A identificação
dual-porosa mostra-se um precioso instrumento de conhecimento, relação
e comunicação, permitindo surfar nas ondas do devir,
possibilitando ao borderline deslizar e se enlear nas sutis e infindas
variações de um mundo em constante mutação.
A tendência à dependência do borderline pesado,
traduz-se no borderline brando pelo reconhecimento da necessidade
afetiva de um outro também dual-poroso, de tal maneira que
um regime de trocas, onde vigore tanto o subjetivo quanto o objetivamente
percebido, possa ser estabelecido.
O borderline, tanto o brando quanto o pesado trazem como restos/relíquias
da infância mais arcaica uma insuficiência de identificações.
Isso conduz a uma busca de identificações alimentadoras
que o mantêm aberto e poroso ao seu ambiente e/ou às
pessoas à sua volta. O borderline pesado tenta tapar o seu
vazio através de relações simbióticas
e fusionais; suas carências, embora eventualmente preenchidas,
permanecem atuantes, podendo criar cegas exigências excessivas
nos relacionamentos afetivos, sociais e profissionais, o que certamente
causará transtornos. Já o borderline brando sobreleva
seu vazio através de uma identificação dual-porosa
com os seres humanos e com o mundo. Aquilo que no borderline pesado
se apresenta como fome de identificações por fantasmas
parentais, aparece no borderline brando como uma identificação
contínua em devir com os acontecimentos. É justamente
esse modo de utilização de sua capacidade de identificação
dual-porosa que lhe permitirá tornar-se inovador, criativo,
socialmente produtivo”.
Gradiva , Junho de 2002
E-mails dos participantes:
Nahman Armony: nahman@uol.com.br
Thaís de Oliveira: tspo@domain.com.br
Wilson de Lyra Chebabi: wchebabi@alternex.com.br
Isidoro Americano: isi@ism.com.br
Luiz Alberto Py: albertopy@uol.com.br
Paulo Sternick: paulosternick@montreal.com.br
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