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A utopia borderline

Uma conversa com Nahman Armony

Convidamos o psicanalista Nahman Armony para um debate, via e-mails, sobre seu livro “Borderline – uma outra normalidade” (Editora Revinter), baseado em sua tese de doutorado apresentada e aprovada na Escola de Comunicação da Ufrj (Eco-Ufrj). A conversa, exclusiva para “Gradiva”, teve como palco a lista de discussão sobre “terapia on line” , lista esta coordenada pela psicanalista Thaís de Oliveira. Participaram do debate, além dela, o analista Paulo Sternick (editor-científico de “Gradiva”), e, fazendo algumas “pontas”, Isidoro Americano, Wilson Chebabi e Luiz Alberto Py, que freqüentam a referida lista. Nahman Armony é psicanalista clínico no Rio de Janeiro, coordena grupos de estudos sobre o pensamento de Donald Winnicott, sendo professor do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro e na Spid. Pertence ainda à Federação Internacional das Sociedades Psicanalíticas.

Paulo Sternick – Nahman, vamos iniciar nossa conversa tendo em mente que há, entre os leitores de Gradiva, vários jovens, alguns ainda na Universidade. Então, minha primeira indagação é sobre o que te levou a construir uma tese sobre o tema “borderline”. Antes, você podia dar a definição clássica de borderline, e sua própria idéia a respeito.

Nahman Armony - Minha tese é sobre aquilo que se poderia chamar de "borderline normal" - nome que não gosto. Preferi borderline brando, borderline "light", nomes nessa linha. Os escritos psicanalíticos dizem que somos todos neuróticos, ou melhor, que usamos, primordialmente, o mecanismo do recalque. Ninguém no mundo estaria livre de manifestações de neurose. Quando elas não produzem um sofrimento que chegue a incomodar, e não atrapalham a vida da pessoa, estamos diante de um neurótico "normal". Já o mecanismo ou dinamismo primordial do borderline é a cisão, a onipotência mitigada, a permeabilização das fronteiras do eu. Vou aqui citar um trecho de meu artigo "Borderline e espaço potencial": "A normalidade perfeita é sempre um ideal inalcançável, pois não se conhecem homens sem traços neuróticos, já que aquilo que produz neurose, estrutura o caráter; não se conhecem também homens sem traços psicóticos, pois a criatividade, intuição e comunicação não-verbal bebem na mesma fonte da psicose".

Bem, o que me levou a escrever o livro não foram os borderlines de consultório. Tive uma situação de vida em que convivi intimamente com uma pessoa que apresentava, primordialmente, um modo borderline de estar no mundo. Apesar da predominante forma de ser borderline, ela mantinha as suas atividades com algumas limitações, mas que não chegavam a chamar a atenção de quem a conhecia mais superficialmente. Passei a ficar atento à conduta de outras pessoas e percebi que uma parte delas tinha também um modo borderline de conhecimento/relação/comunicação, embora usando também, em maior ou menor grau, o mecanismo do recalque. No consultório, o número de borderlines proliferava. Estas duas circunstâncias levaram-me a um estudo mais aprofundado do borderline e ao reconhecimento da existência de um borderline brando. Grinker em seu livro “The borderline syndrome” estabeleceu 4 graus de gravidade da síndrome borderline, colocando em um extremo o borderline próximo da psicose e no outro o borderline próximo da neurose. Eu fui um pouco mais adiante nessa gradação, falando de um borderline brando. O que é o borderline? É um saco de gatos. Cada autor, ou cada grupo, dá a sua própria versão. Mas há coisas em comum nessas versões: flutuações afetivas, impulsividade, tendência à atuação, sentimentos crônicos de vazio, busca frenética por identificações, problemas de identidade, uso de mecanismos primitivos de defesa, etc. (Nota do editor: em anexo, ao fim da entrevista, há um trecho longo do artigo acima que fala das características do borderline patológico e "normal")


Thais Sá Pereira e Oliveira – Algumas idéias me ocorreram a partir do que você disse. E se pensarmos que o inconsciente é sempre incognoscível e só chegamos a ele através de suas ressonâncias (as formações do inconsciente), a permeabilidade não fica difícil de ser explicada a partir do que você diz? Tive uma paciente, usando sua terminologia, borderline pesada, que sintonizava com coisas que eu pensara fora das sessões e que nada tinham a ver com ela. Bem, ela falou de uma determinada situação que vivera em certo País, em relação a compras de objetos de primeira necessidade, muito caros naquele lugar, tanto quanto em outro País onde trabalhara. E dizia o que fazia para lidar com isso, que era exatamente o que eu estava pensando em fazer, antes de ir para a sessão (algo bastante insólito e, portanto, difícil de ser pensado assim, sem mais nem menos). De outras vezes, tive a impressão que ela tinha um espião dentro de minha casa, pois falava de situações que eu estava vivendo com meus filhos etc. Outra vez, dizia que sonhara com minha casa, que tinha uma grande pedra na frente e uma samambaia no meu banheiro,o que era verdade... Uma outra, neurótica, quando eu cheguei de férias, me disse: “Sonhei com você numa Vila Romana”. E eu vinha da Bahia e tinha ficado num hotel chamado Vila Romana. Penso que esses fenômenos aparecem em qualquer análise e com qualquer paciente, não importa o diagnóstico, e sim, com um momento de fusão que está sendo vivido, algo da ordem da telepatia, ou coisa parecida. A capacidade de empatia também entraria na relação “dual-porosa”? Penso também em pessoas que têm um histórico de muita leitura, cujo interesse pode ser herdado até geneticamente. O interesse pelo saber e o gosto pelo belo, e o desejo de conhecer-se, de prestar atenção em seus meandros emocionais, poderiam advir desse refinamento adquirido através da educação ou de herança genética (contato com personagens de livros, com a arte em geral), que também poderia tomar outro rumo, tornando-as mais atentas ao que se passa no interior do seu corpo, que poderia ser um desvio patológico, incluindo-as no rol dos hipocondríacos (aprendi que o hipocondríaco sempre está às voltas com perseguidores internos, alternando com perseguidores externos a ele.) O sentido estético não poderia, a meu ver, estar ligado a uma patologia branda ou pesada. Entramos, aqui, na capacidade de sublimação, que Freud teve dificuldade de entender em Leonardo. A constante interseção entre nature e nurture. Veja o que se passa hoje dentro do contexto da globalização. A arte descambando para a imbecilidade. Ainda em relação ao que você disse, excluindo a pessoa do analista, eu acrescentaria aqui que existem pessoas certas que despertam e se prestam mais a serem utilizadas por esse tipo de borderline como alvo de suas identificações. Há pessoas para quem você diz algo original e ela repete algum tempo depois como se fosse idéia dela. Sem nenhuma intenção de blefar. Houve uma identificação com o "autor" da idéia, ou o "autor" disse o que ela já pensara e não tinha conseguido formular por si mesma? E a pessoa escolhida para alvo da identificação não teria algo daquele que se identifica com ela, mas que se encontra embaralhada dentro dela?

Nahman – Quando falo dos conteúdos do Inconsciente, penso não só nos conteúdos originais, praticamente inacessíveis, como também penso naqueles derivados que, de tão próximos dos conteúdos originais, têm dificuldade de circular através dos limites que bordejam Cs. e Ic. É a esses conteúdos, nos estados borderlines e psicóticos, que as pessoas têm mais acesso. O psicótico pode querer atuar seu desejo sexual pela mãe; o borderline pode perceber e falar do desejo; já o neurótico recalca seu desejo e dele não tem conhecimento. Penso ainda que a modalidade da realização de desejo é diferente nos estados borderlines quando cotejados ao neurótico. E aqui penso mais no desejo de completude e de onipotência. O desejo de onipotência neuroticamente trabalhado se dilui na quantidade de passos necessários à sua realização simbólica. Já o desejo de onipotência do borderline, embora seja um desejo mitigado em confronto com o do psicótico, exige uma realização mais imediata e quase concreta. Podemos colocar esse pensamento como uma relação entre princípio do prazer e o princípio da realidade. No borderline, a realidade deve imediatamente, ou quase imediatamente, atender ao prazer, enquanto que no neurótico o prazer pode ser adiado. Quando falo de borderline e neurótico, refiro-me a estados borderlines e neuróticos de uma mesma pessoa. Acredito que todos nós tenhamos, potencialmente, os três modos de funcionamento: psicótico, neurótico e borderline. Funcionamos, predominantemente, em um desses modos, mas os outros podem surgir a qualquer momento. Quando a predominância de um dos modos de funcionamento é quase absoluta (se é que isso existe), então, ao invés de estado neurótico ou borderline, podemos, economicamente, usar a palavra neurótico e borderline. Conheço pessoas que, em certas situações, agem como neuróticos e, em outras, como borderlines. A necessidade de eficiência ligada à sobrevivência faz com que os aspectos borderlines sejam dissociados, só sendo-lhes permitido surgir em ambiente e momento propício. Mas isso é, geralmente, um aprendizado.


Sternick - Nahman, lendo seu complexo, inquietante e generoso livro, tive a inclinação de situa-lo numa linhagem na qual estão incluídos, por exemplo, "O Elogio da Loucura", de Erasmo, aquele livro de Machado de Assis, “O Alienista”, ou "Em defesa de uma certa anormalidade", de Joyce McDougall. Será sua tese um louvor ao "borderline", uma reabilitação dos fronteiriços, na medida em que eles têm capacidade de se comunicar com o outro, com seu potencial de criatividade e afetos, e sua abertura para a subjetividade de seu tempo?

Nahman - É dessa linhagem sim, e inclusive da linhagem freudiana que estabeleceu uma continuidade entre neuroses, perversões e normalidade. A palavra "louvor" me parece um tanto forte, mas talvez ela tenha sido depreendida de meu texto. Acho que na época de Freud (final de século 19 e inícios do século 20), a repressão era usada para lidar com as diversas situações de vida, inclusive, e principalmente, na educação infantil. A repressão era, então, vista como a maneira de educar e socializar a criança e o adulto. Associada a ela tínhamos a punição e a culpa. No decorrer do século 20, e agora no século 21, questiona-se a repressão como modo de lidar com as diversas situações de vida. A ênfase agora recai na criatividade, e não mais na repressão. Os limites são colocados de uma forma mais amorosa do que autoritária. Com isso, a subjetividade entrou em transformação. O sujeito, já não acossado por uma repressão autoritária, pode conservar aspectos de sua relação mais primitiva com a mãe, que já não precisa ser recalcada. Com isso, passam para o primeiro plano a intuição, a espontaneidade, a capacidade de identificação, a amorosidade, as manifestações afetivas, maior valorização do corpo e do atuar, maior aceitação das pulsões. O aspecto positivo do borderline é a sua capacidade de empatia, de “identificação dual-porosa”, assim como o aspecto positivo do neurótico é a organização, a disciplina, a persistência. Aquilo que chamamos de normalidade é um ideal. O ideal neurótico era a vida controlada e prevista, uma carreira a ser seguida linearmente, uma família a ser conservada. O ideal borderline está colocado na criatividade e na capacidade de acompanhar as velozes mudanças que ocorrem no mundo. Mas, como disse acima, a normalidade é um ideal. Todos nós temos problemas, conflitos, fantasmas, com os quais lidamos seja neuroticamente, seja de modo borderline. Podemos traçar duas linhas, ambas indo da patologia máxima à normalidade ideal: uma das
linhas é a linha neurótica e a outra é a borderline, ou, como prefere
Winnicott, psicótica. Cada uma das linhas apropriada à sua época. É
também importante dizer que coexistem na mesma pessoa dinamismos neuróticos, borderlines e psicóticos.

Thaís - Nahman, quando você fala em limites colocados de uma forma mais amorosa do que autoritária, não estaria falando a partir de um enfoque também adaptado à nossa época, em que os pais, tendo sido vítimas da repressão, tentam resgatá-la através dos filhos, relutando em fazer uso da lei, sempre vista como autoritária, e lançando mão de uma amorosidade falsa, porque narcísica, em busca de uma reparação impossível? E a gente sabe que o que é falso é captado em nível inconsciente, provocando o surgimento exatamente do tipo borderline, aquele que não encontra uma referência consistente nos transmissores - os pais - naquilo que lhe passam? A criatividade, por exemplo, pode descambar para algo igualmente sem referência consistente, como a "criatividade" do pichador, dos grandes mentores e organizadores de crimes e de diversos tipos de corrupção tão em voga em nossos dias. Porque não podemos negar que todos esses indivíduos possuem uma grande dose de criatividade...Pensando no que você diz, me ocorre que o borderline, representante de um outro tipo de normalidade, navegaria contra a corrente do establishment, de encontro ao apropriado à sua época; não como o pichador ou o delinqüente de colarinho branco, nem como o narcísico possuído pela ânsia de ser reconhecido, de gritar para todo mundo que "eu existo", mas como alguém em permanente oposição, recriando caminhos onde estão inseridos, ou melhor, onde seriam engolfados. Alguém como a psicanálise, à margem da lei para transformá-la.

Nahman - Suas duas observações permitem que pensemos e façamos uma diferenciação entre sentimentalismo amoroso e compreensão/respeito amoroso. Sua primeira observação nos remete ao sentimentalismo e a segunda à compreensão/respeito. Na amorosidade, os genitores têm a convicção de que é necessário dar limites coerentes à criança; só que esses limites são dados respeitando-se amorosamente a individualidade da criança. No sentimentalismo, os pais deixam-se dominar pela criança, não lhe dando limites. E isso, como você observou, pode ter a ver com um comportamento reativo de quem passou por uma colocação de limites autoritária.

Thaís - Não seria, Nahman, "no sentimentalismo os pais deixam-se dominar pela criança" (insatisfeita que existe em cada genitor), não lhe dando limites"? Os genitores aos quais se refere, os que dão limites por compreensão/respeito, infelizmente são muito poucos, na prática. É quase impossível dissociar a própria experiência como criança educada por determinados pais, da experiência de educar o próprio filho, a não ser quando esta educação é reativa àquela dada pelos genitores. Em “Introdução ao Narcisismo”, Freud se refere às reações estereotipadas de encantamento dos pais diante de seus bebês/crianças. M.Klein se refere à oportunidade de reparação do que cada um "sofreu" em suas relações mais primitivas, tanto através do próprio desempenho com os filhos, como através de uma boa relação com a parceira/o, quando estes ocupam bem diversos papeis (pai, mãe, irmã, etc.). Como o neurótico tende à repetição, fica difícil encontrar parceiros "curativos", ou que ajudem a reparar o que se passou na realidade ou na fantasia do adulto, em criança. Enfim, você acha que o aspecto positivo do borderline, que se manifestaria por meio de uma maior capacidade de empatia, de “identificação dual-porosa” facilitaria a escolha ou a procura de relações na base de compreensão/respeito com pessoas "curativas", que desempenhariam, de uma certa maneira, o papel reparatório ao qual se refere M. Klein?

Nahman - Encontrar uma pessoa curativa para companheira é uma verdadeira bênção. Pode ser que, por sorte, ela seja encontrada nas primeiras tentativas de relação amorosa. Mas, o mais comum, é fazer-se escolhas com base em imponderáveis, em projeções e fantasias, em idealizações. A conquista de um parceiro dual-poroso necessitado e disponível para trocas afetivas, geralmente, requer tempo e experiência. Requer também, como você assinalou, que se escape da compulsão à repetição. Sendo o borderline um dual-poroso, ele, mais que o neurótico, necessitará realizar trocas afetivas íntimas, sendo difícil que se adapte a uma relação onde barreiras egóicas preservem, além de um mínimo, a intimidade de cada um. Não poderia, anedoticamente falando, ser um matrimônio inglês. Mas, ironicamente, foi um inglês que muito falou do tipo de comunicação/relação básica que o borderline necessita. Susan Isaacs conta a seguinte história (não me lembro de onde tirei isto; creio que da biografia de Winnicott): os filhos de um colega escandinavo, que não falavam inglês, haviam estado com Winnicott quando tinham seus dois e quatro anos; anos depois, ao saberem que o veriam de novo, ficaram entusiasmados. Confrontados com o fato de que não tinham falado a mesma língua, não puderam acreditar neste fato, tão viva e intensa tinha sido a comunicação entre eles. Essa é a comunicação basal necessitada pelos borderlines; é claro, que, sendo o borderline um adulto, não é suficiente. Mas é condição “sine qua non” para uma afortunada relação amorosa.

Sternick – Nahman, você se referiu à “identificação dual-porosa”, que é um dos conceitos-chave de seu livro, quase um pilar de sua argumentação, conceito este que, na verdade, se não "explode" com
concepções clássicas de identificação, pelo menos, vem flexibiliza-las, ou "pós-moderniza-las" (se assim podíamos falar), o que o torna capaz de
abarcar um espectro mais amplo dos fenômenos psíquicos e relacionais...

Nahman - Você pegou muito bem o espírito da coisa. O aspecto do borderline "light" que mais valorizo é sua capacidade de “identificação dual-porosa”, que é uma identificação contínua com tudo que o cerca e que lhe permite surfar nas ondas do devir. Mas esse conceito não pretende substituir os outros conceitos de identificação. Apenas ponho em jogo um outro conceito de identificação que pretende dar conta do modo de vida da atualidade. Se examinarmos a história do conceito de identificação, veremos que ele adquire vários significados. No capítulo "Identificação" da "Psicologia das Massas e análise do eu", Freud lista pelo menos três modos de identificação que não se excluem. Melanie Klein vai falar de identificação de um modo diferente de Freud, e assim por diante, até chegarmos ao conceito de identificação em devir, ou dual-porosa, ou contínua de Nahman (ah, ah, ah)... É claro que estou brincando...


Isidoro Americano – Nahman, poderíamos ter com clareza maior a origem de sua idéia de 'porosidade' e como é articulada com os conceitos fundamentais freudianos? O mesmo para a idéia de dualidade? E mais ainda o 'quase-conceito' para seu texto de 'dualidade-porosa'? Acho que é importante para mim saber estes princípios para alinhavar melhor o diálogo.

Nahman - Na minha formulação, porosidade está intimamente ligada à palavra identificação, formando a expressão identificação dual-porosa, nome que não acho muito simpático, mas que foi o primeiro que usei. Mais tarde, pensei em usar alternativamente as expressões "identificação contínua" e "identificação em devir". Mas, de qualquer forma, acho que porosidade pode ser usada como um conceito, uma noção, um quase-conceito (estou falando das várias possibilidades epistemológicas), apesar de ser uma palavra de uso comum. Bem, isso é apenas uma introdução. No seu artigo sobre narcisismo, Freud fala de introversão da libido até os objetos imaginários do psiquismo (neurose) e de introversão da libido ao ego (psicose). Para que a libido ultrapasse as fronteiras do ego, é preciso que elas sejam permeáveis. Freud fala que o superego masculino se constitui ao se resolver o complexo de Édipo, e que, a partir daí, praticamente não sofre modificações, diferentemente do superego feminino, que realiza identificações em cada relação amorosa vivida. Poderíamos, aqui, dizer que o superego (o ego) feminino é, para Freud, bem mais permeável que o masculino. Freud fala ainda que toda identificação que altera o ego necessita de uma regressão até a situação pré-objetal, onde identificação e relação de objeto são a mesma coisa, ou, dito de uma maneira diferente, a identificação se dá previamente à relação de objeto, ou dito ainda de outra maneira, a identificação é o mais primitivo laço objetal. Portanto, a identificação secundária freudiana que altera o ego sempre passa pela primária. E na primária não há uma linha de fronteira separando sujeito de objeto, o eu do tu.

Falemos agora de M.Klein. Ela cria o conceito de identificação projetiva, um conceito muito usado pelos kleinianos na situação clínica. Segundo Klein, o analisando projeta dentro de psiquismo do analista partes suas visando controlá-lo, atacá-lo, etc. O analista pode, ou não, receber essa identificação projetiva. Poderá fazer aquilo que se chama uma contra-identificação projetiva, ou não. A contra-identificação projetiva pode ser usada para perceber a identificação projetiva, e isso é útil na clínica. Então, há aqueles que não realizam a contra-identificação, que se fecham à identificação projetiva e outras que se abrem para ela. Ou, em outros termos, alguns deixam que as fantasias e desejos dos analisandos os afetem, e outros não. Os que se deixam afetar são permeáveis aos sentimentos, fantasias e desejos do outro. É claro que o grau de permeabilidade pode variar desde a idealmente máxima à idealmente mínima. Então, o analista poderá estar mais ou menos permeável à identificação projetiva de seu analisando. Bion vai além de M.Klein, dizendo que o esquizofrênico, através da identificação projetiva, consegue fazer com que o analista se comporte segundo seus desejos (do analisando). É claro que se o analista se endurece e se fecha de uma forma absoluta diante de seu cliente, talvez nem o mais habilidoso dos esquizofrênicos consiga dele uma contra-identificação projetiva. Bem, quando falo de permeabilidade, penso justamente na permeabilidade do analista aos desejos, fantasias de seu analisando. Penso também na permeabilidade, semi-permeabilidade ou impermeabilidade aos sentimentos dissociados ou recalcados de cada um. Na “identificação dual-porosa”, as trocas fantasmáticas, afetivas e desejantes são teoricamente contínuas. Falo de dual porque a “identificação dual-porosa” refere-se a pessoas capazes de se relacionar com um outro e que, portanto, sairam do estado pré-objetal, fusional, para atingir, pelo menos, o estágio simbiótico. Dual nem sempre significa duas pessoas; pode também significar uma pessoa e um grupo ou uma pessoa e a subjetividade circulante. A pessoa dual-porosa deixa-se penetrar pelo ambiente à sua volta, podendo senti-lo, percebe-lo e entende-lo mais plenamente.

Nahman (posteriormente) - Andei matutando sobre a questão da porosidade e pensei em acrescentar algo ao já falado. Como sei, Isidoro, que você gosta de Lacan, vou-me atrever a usar um pouco de sua teoria. Devo dizer que fico inseguro quando falo de Lacan, pois não tenho uma visão geral de sua obra. Se eu disser alguma besteira, por favor, corrija-me. Lacan fala em "sujeito barrado". Entendo que o sujeito barrado refere-se à divisão, ao sujeito do inconsciente. Esse sujeito do inconsciente aparece nas frestas do discurso: atos falhos, etc. Há discursos mais permeáveis, mais porosos - e outros menos - ao aparecimento do sujeito do inconsciente. O discurso do obsessivo é menos propício ao surgimento do sujeito do inconsciente do que o discurso histérico. O histérico é, pois, mais poroso que o obsessivo. Temos aqui a porosidade empregada no sentido das relações entre o ego e o sujeito do inconsciente. Mas, como já disse anteriormente, emprego o termo porosidade também como acesso ao inconsciente do outro, do grupo, e da subjetividade circulante.

Wilson de Lyra Chebabi - De tudo que tenho lido em nossa lista, verifico a importância da onipresença da nosologia psiquiátrica em nosso vocabulário psicanalítico. "Borderline" quer dizer estar na fronteira entre a lucidez e a loucura. Entre a "normalidade" e a "psicose

Nahman - "Borderline é estar na fronteira entre a lucidez e a loucura. Entre a normalidade e a psicose". Perfeito. Essa fronteira tem sido vista, através da história da psiquiatria e da psicanálise, de diferentes maneiras: 1- como estar na corda bamba, podendo descambar para a psicose ou para a neurose. Nesse caso, o borderline não é considerado como uma categoria, mas como um estado provisório, prelúdio de algum outro estado definitivo 2- como saco de gatos para onde eram enviados todos os casos que não podiam ser definidos, ou como neurose, ou como psicose 3- como uma entidade de direito próprio, que inclui aspectos psicóticos e neuróticos e que apresenta, na sua instabilidade, uma estabilidade. 4- Winnicott pode ser colocado na formulação 3. Eu o estou destacando pela sua originalidade em estabelecer que o desenvolvimento falso self é um desenvolvimento borderline. Na verdade, o que ele diz é que o falso self encobre uma angústia primitiva de aniquilamento psicótico. O borderline seria, em essência, um psicótico oculto por um falso self.

Sternick - Na hipótese de que "borderline" seja como um "saco de gatos para onde eram enviados todos os casos que não podiam ser definidos como neurose ou psicose", lembrei-me de minha antiga reserva quanto a estruturas muito fixas e rígidas para avaliar a personalidade humana. Entendo que não podemos dispensar completamente os quadros clínicos tradicionais da clínica psicanalítica, eles mantêm sua validade de trabalho até hoje, mas também contêm um grave risco de abafamento da riqueza da personalidade humana, incapaz de ser abrangida por quadros psicopatológicos limitados, tais como os que nós dispomos em nossos dispositivos conceituais. Enfim, nada melhor do que 30 anos de trabalho para fundamentar nossas suspeitas de que há mais coisas no meio da mente do que supõe nosso vão freudismo ou lacanismo. Enfim, o que você acha da contribuição das Artes para nos ajudar no entendimento da personalidade humana? Refiro-me, por exemplo, à Literatura, à Filosofia e à Pintura? Sabe, às vezes estou na escuta de uma analisando, e me vem à mente um quadro, uma pintura de seu estado mental...Mas podia ser uma música, ou um sistema filosófico, ou religioso particular...

Nahman - Concordo inteiramente com você. Você formulou muito bem a questão. Está ótimo e eu não o diria melhor. Quanto à arte, acho que a literatura, ainda antes da psicanálise, falava das motivações profundas do ser humano. Lembro-me, por exemplo do livro "A Letra Escarlate" (não sei se é anterior à Freud; alguém sabe?) que me impressionou pela penetração psicológica. Aldous Huxley é, para mim, um mestre do desvelamento daquilo que se passa sob a superfície das palavras, no âmago das relações humanas. O primeiro livro que dele li - "Contraponto" - foi uma verdadeira revelação, um banquete de iguarias que eu nunca tinha saboreado e que me encheram de admiração e alegria. A filosofia também me ajuda na relação com meu analisando, pois eu não o vejo apenas como um ser humano em interação com os outros e consigo mesmo - o que já é muito -, interação essa pontilhada de dificuldades, obstáculos, mal-entendidos, problemas; mas também como um ser situado em um mundo shakespeariano - "há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a sua vã filosofia" (parafraseando, eu diria "sua vã psicanálise"), uma pessoa tentando se encontrar no tempo, no espaço, na cultura, no seu ser e no seu fazer. Quanto à pintura, no que toca a mim, quase sempre tento fazer um quadro mental pictórico, cinematográfico daquilo que o analisando vai me contando. Tento transformar palavras em imagens e quando consigo - o que é freqüente - sinto-me muito melhor situado em relação aos acontecimentos e sentimentos narrados. Quanto à música, não me lembro de ter vindo à minha mente uma melodia ou uma composição musical a partir de minha relação com o paciente. Mas, como gosto muito de música, quem sabe se depois dessa sugestão isso não venha a acontecer?

Sternick - Numa das palestras para estudantes em Harvard, em 1967, Jorge Luis Borges falou sobre "Música da palavra e tradução", apontando para a magia da palavra, do sentido e do som na poesia. Alguém me disse - agora não me lembro quem - que no final de sua vida, Bion estava preocupado em reunir uma coletânea de poemas para psicanalistas...

Luiz Alberto Py – Fui eu quem te disse...

Sternick – Claro, agora me lembro...O Py fez análise com Bion, ele deve ter-lhe dito isso pessoalmente...Mas, prosseguindo, muitos cientistas exaltam a importância da beleza na formulação científica. Freud comentou que através do humor o recalque poderia ser suspenso com menos dificuldade, e eu me pergunto se a estética não agiria na mesma direção. Arte (mais do que "técnica") e bom-humor na sessão de análise favorecem o encontro, as associações de idéias, a emergência dos sentidos. Mesmo considerando que nem sempre uma sessão de análise possa ser bem-humorada, ou bela, na verdade, muitas das interpretações que a gente conhece através da Literatura especializada são simplesmente de um mau-gosto indiscutível. Eu poderia até fazer uma conjetura exagerada e imaginar que, mesmo sem ter consciência disso, o analisando às vezes sai chorando da sessão por causa da desilusão com as bobagens que ele ouve do analista, e, portanto, com a perda de sua última esperança de ser ajudado. De uma certa maneira, estas considerações por acaso vão em direção a certas críticas que você levanta em seu livro? Por exemplo, em sua crítica ao estruturalismo, o apagamento do sujeito e sua transformação em significante, enfim, uma indisposição com um certo lacanismo parece bastante explícita no livro, não?

Nahman - Mais uma vez estou de acordo com você. Um terapeuta que tenha sensibilidade para as artes, e que exerça essa sensibilidade, aguçando-a cada vez mais, estará mais apto não só a perceber as sutilezas do humano, como também a se colocar de uma forma delicada e estética. Acho também, como você percebeu, que transformar o sujeito vivo em significante linguístico dificulta o exercício dessa sensibilidade e estética. E por falar em música, quero acrescentar que a voz do terapeuta pode ser usada como instrumento musical capaz de transmitir sentimentos ao analisando, da mesma maneira que a música o faz. É algo semelhante ao que acontece no diálogo sonoro entre mãe e bebê, em que a mãe usa a voz para transmitir afetos e o faz de uma maneira admirável. Querendo ou não, a música das palavras estará sempre falando alguma coisa ao paciente, paralelamente, ou solidariamente ao significado delas. Por vezes, a música da voz se torna mais importante que o significado da palavra. Em outros termos, a expressão afetiva do analista, que também se manifesta na música das palavras, pode vir a dizer mais que as próprias palavras.

Sternick - Em seu livro você faz articulações interessantes sobre
as características do "homem pós-moderno" com as descrições da condição borderline. Passado algum tempo da publicação do livro, creio que você deva ter feito alguma elaboração posterior sobre a questão. Como você a veria hoje?

Nahman - Gostei muito da sua pergunta, pois ela me obriga a repensar a questão do borderline e do homem pós-moderno. O que posso dizer? Vejamos: da época vitoriana até meados do século passado, a subjetividade do homem passava fortemente pela repressão. Outro dia, um colega deu um exemplo dessa repressão extremada, dizendo que, à mesa, as crianças tinham medo até de
tossir; era proibido tossir na hora das refeições, diante de um pai que tinha um lugar cativo à cabeceira da mesa. Esse binômio autoridade/repressão impregnava toda a subjetividade da época. Conseqüência da repressão, o recalque era a principal forma de estruturação e de defesa do psíquico. Na subjetividade atual, a repressão (e, portanto, o recalque secundário) perdeu sua proeminência. As pessoas têm uma atitude e um comportamento muito mais
permissivo. De uma maneira geral, os autores confrontam os mecanismos de defesa primários aos secundários, a cisão e onipotência à repressão. Eu penso da mesma maneira, porém, colocando a ênfase na onipotência. A permissividade facilita o exercício da onipotência. A frustração da onipotência não conduz ao recalque, mas a uma retração do psiquismo, à depressão, ao desespero, a um sentimento de impotência, que é uma forma de resguardar a onipotência.
Esta virá a se manifestar uma vez passado o período de retração, e a pessoa acabará por se acostumar à seqüência onipotência /impotência/ onipotência (é claro que falo de uma onipotência mitigada, aquela capaz de se realizar de maneira no social). Teremos, então, ao invés de um recalque do desejo
de onipotência com as conseqüentes formações sintomáticas e de caráter, a cisão da personalidade entre onipotência e impotência,
preservando-se todo o vigor que a onipotência proporciona. Eu diria, portanto, que o homem atual usa, predominantemente, a onipotência e a cisão para lidar com o mundo interno/externo. No mais, o que se observa é uma enorme dispersão no modo de lidar com as modificações aceleradas, a incerteza, a instabilidade, a fragmentação, a imponderabilidade, a instabilidade identitária, a pluralidade, etc. do mundo atual. Continuo achando a "identificação em devir" como a melhor utopia para lidar com a subjetividade contemporânea; identificação em devir é, nesse contexto, uma expressão mais conveniente do que identificação dual-porosa. Em suma: assim como não chamávamos o homem "normal" vitoriano de neurótico, o termo borderline para caracterizar o homem contemporâneo provavelmente não será usado. Mas, podemos dizer que, no século passado, o dinamismo predominante que produzia tanto o "normal" quanto o "patológico" era a repressão/recalque, levando ao conflito e à ansiedade;
já neste século, o dinamismo predominante tanto do "normal" quanto do
"patológico" é o da onipotência/impotência mitigadas e a cisão, conduzindo à depressão e a uma certa forma de negação, que é mais um "não prestar atenção" que uma "declaração de inexistência". Encontramos ainda na nossa pós-modernidade uma tendência ao exibicionismo. Além dos fatores econômicos (a pessoa tem
de se vender ao mercado), sociais (programas televisivos contribuindo para criar novas subjetividades; programas em que as pessoas expõem sua intimidade) e, certamente, outros que no momento me escapam, o exibicionismo tem a ver com a necessidade de reconhecimento externo que aumentou na medida da diminuição de um reconhecimento interno. Estou falando de um superego frouxo (tão frouxo que talvez fosse melhor chamá-lo de infra-ego), e um ideal- de-ego de grande instabilidade. O aspecto positivo desses enunciados é o enunciado da flexibilidade. E flexibilidade tem tudo a ver com ”identificação dual-porosa”, e, portanto, com minha utopia borderline. Fui obrigado, pela caráter mesmo de entrevista, a passar rapidamente por assuntos complexos, que talvez necessitassem de mais explanação.

Paulo Sternick- Diante deste cenário que você esboçou sobre a atualidade pós-moderna, e os tipos que produz, com suas características psicopatológicas, enfim, esta subjetividade predominante nos grandes centros urbanos, então, diante disso, como se situa o psicanalista e sua técnica oriunda do século XIX, no tempo em que a
modernidade dominante encontrava-se entre o esclarecimento das luzes e o obscurantismo de tudo saber e poder? Nesses tempos atuais de incertezas e dúvidas, de valores nem sempre definidos e cambiantes, de referências que não se sustentam e novos paradigmas em aberto, como você vê o destino da prática psicanalítica: clínica, teórica e institucional? O rigor - eu diria um mínimo de rigor psicanalítico e suas peças chaves - pode ser sustentado em meio às novas exigências do mercado clínico?

Nahman - A psicanálise tem sofrido muitas transformações em sua teoria e em sua técnica. Essas transformações se originam de uma experiência e reflexão acumuladas, mas, principalmente, das transformações da subjetividade. O homem de hoje não é o homem de ontem e não será o homem de amanhã. Em sendo assim, o que sobrou da antiga psicanálise, de uma psicanálise que podemos de chamar originária? Antes de prosseguir, gostaria de fazer um paralelo entre a psicanálise e a filosofia. Um tanto ou quanto arbitrariamente, podemos dizer que a filosofia começou com Platão. Digo arbitrariamente, pois podemos já considerar Parmênides, Tales de Mileto, os pré-socráticos em geral, como filósofos. Mas isso não importa para a minha argumentação, até, ao contrário, a reforça, pois embora chamemos a todos esses de filósofos, assim como chamamos de filósofos a Spinoza, Nietzsche, Deleuze e muitos outros, há diferenças marcantes entre eles. Acredito que Platão/Sócrates pode ser considerado o primeiro filósofo, pois toda a filosofia tem como referência, implícita ou explícita, o seu pensamento. Mesmo aquela filosofia que se contrapõe a Platão - a de Nietzsche e a de Deleuze - é chamada de "reversão do platonismo". O que vemos na filosofia, podemos pensar também em relação à psicanálise. Freud é, e sempre será, aquele que descobriu um novo continente e todos os desenvolvimentos teóricos e clínicos, e mesmo, todas as rupturas, terão como referência a obra de Freud. Mas, sem dúvida, a
psicanálise se modificou e continuará se modificando. Na minha opinião, dos pilares teóricos da psicanálise, continua vigendo o conceito de
inconsciente, de resistência (que passou a ser tanto do analisando quanto do analista), mas não mais uma resistência a um material reprimido, mas uma resistência a modificar os modos de relacionamento intersubjetivo. Isso porque o recalque, na atualidade, perdeu sua primazia tendo sido seu lugar ocupado pela onipotência e cisão. Isso não quer dizer que desapareceu o recalque; apenas ele perdeu sua anterior importância. Com tudo isso, a técnica também mudou. Hoje em dia, mais que interpretar, é preciso viver com o analisandouma relação terapêutica onde a palavra e a interpretação têm o seu lugar, mas dentro de um contexto vivencial, que passa ao primeiro plano. A idéia de trocas afetivas e interações fantasmáticas ganhou relevo, e o analista deverá
estar permanentemente atento à relação transferencial / contratransferencial. Estou pensando em reeditar o meu livro de 1989, "Psicanálise: da interpretação à vivência compartilhada", que, em seu título, resume as modificações da teoria e, principalmente, da técnica psicanalítica. Essas modificações incluem um envolvimento maior do analista, uma quebra da hierarquia, uma renúncia ao poder psicanalítico, o exercício da empatia e da capacidade de identificação, um respeito à ideologia e à intuição do analisando, assim como à sua capacidade de progredir sem a necessidade de uma interferência cerrada do analista, o que permite diminuir a freqüência das sessões. Uma outra idéia é a de integrar a terapia psicanalítica propriamente dita com outras atividades também terapêuticas e que são recursos complementares de tratamento.

ANEXO ESCRITO POR NAHMAN ARMONY

"Encontra-se a palavra borderline, na forma de "borderland", já em 1884 em Hughes, significando que o paciente vivia próximo a uma fronteira que separava a psicose da neurose, "as vezes de um lado, às vezes de outro"(apud Armony, p.91). O que em Hughes aparece na forma de alternância, logo será proferido como mistura de neurose e psicose, uma idéia que perdurará por muito tempo na literatura tanto psiquiátrica quanto psicanalítica. Em 1938, um autor chamado Stern já faz uso de conceitos psicanalíticos para falar do borderline. É a psicanálise se apropriando da palavra, o que vai acontecer com maior intensidade a partir da década de 50. Aos poucos o borderline deixa de ser visto como uma mistura que pode ser decomposta em psicótico e neurótico e passa a se constituir em uma entidade de direito próprio, com uma dinâmica específica que tanto difere da dinâmica do psicótico quanto do neurótico. O borderline passa a ocupar um terceiro território, o que, para orelhas predispostas, lembra o espaço potencial winnicottiano, criando uma esperança de poder articular esse terceiro território com o terceiro espaço winnicottiano - o espaço potencial.

Ainda hoje há bastante controvérsia sobre o que seja um borderline. Não estou aqui falando do borderline brando, que é uma bolação minha, mas do borderline, digamos assim, patológico. Como acontece com quase todos os termos da psicanálise, borderline é também uma palavra polissêmica, permitindo diversas visões, que, de alguma maneira, se aproximam e se suplementam. Tentando fazer um resumo direi que o borderline pesado (ou patológico) é polissintomático, ambulatório, com dificuldades nas relações interpessoais por suas susceptibilidades narcísicas exacerbadas, com problemas na área afetiva, impulsivo, usuário do dinamismo da divisão, com tendência à atuação, com questões nas áreas das identificações e da identidade, necessitando de uma circunvizinhança humana para atuar os seus fantasmas, com labilidade de humor, com tendência à exacerbada dependência afetiva muitas vezes negada reativamente, com extrema sensibilidade e susceptibilidade, incomumente e seletivamente permeável ao próprio inconsciente, ao inconsciente do outro e à subjetividade circulante.

Se peneirarmos o borderline acima de maneira tal que reste na peneira a farinha do borderline brando, sobrará a tendência à atuação, a necessidade afetivo/dinâmica de uma circunvizinhança humana para nela atuar seus fantasmas e realizar seus desejos infantis, o uso da divisão/compartimentação e da onipotência mitigada de forma não incompatível com o social, a extrema sensibilidade, a incomum permeabilidade ao próprio inconsciente, ao inconsciente do outro e à subjetividade circulante; tal permeabilidade permite-lhe identificar-se continuamente, em devir, com o que o rodeia. A essa identificação dei o nome de "identificação dual-porosa", "identificação transital", "identificação contínua", e, posso agora acrescentar, "identificação em devir".

O borderline brando tende mais à multiplicidade do que ao polissintomático, o que significa que ele não inibe os vários aspectos de sua personalidade em favor de um único aspecto, mantendo as suas várias potencialidades disponíveis para serem usadas. No que diz respeito à sensibilidade/susceptibilidade narcísica ela apresenta-se menos como uma ferida e mais como um instrumento de conhecimento do outro; a permeabilidade das fronteiras do eu, que poderia torná-lo vulnerável às afetações do outro mantém-se como sensibilidade que permite conhecer o outro, propiciando o desenvolvimento de afetos e sentimentos pertinentes à relação em curso. Assim, ao invés de um fechamento nas próprias fantasias, há uma abertura para o conhecimento das fantasias do outro. A permeabilidade das fronteiras, que no borderline pesado pode ser usada contra o outro ou pode dar lugar a um excesso de identificação projetiva e introjetiva, no borderline brando muda de qualidade, transformando-se em identificação dual-porosa, uma identificação que permite um regime de trocas fantasmáticas e afetivas contínuas entre os seres humanos entre si e com o mundo rodeante. A porosidade tanto funciona em relação ao mundo externo (a um outro humano, sim, mas também em relação à cultura, à natureza, ao planeta), quanto ao mundo interno, isto é, na percepção do próprio inconsciente. Em se tratando do borderline brando, as trocas fantasmáticas e afetivas ocorrem - e aqui adianto a minha tese - em um espaço potencial ou a ele equivalente, o que significa que ao objeto subjetivo superpõe-se o mesmo objeto objetivamente percebido. A identificação dual-porosa mostra-se um precioso instrumento de conhecimento, relação e comunicação, permitindo surfar nas ondas do devir, possibilitando ao borderline deslizar e se enlear nas sutis e infindas variações de um mundo em constante mutação. A tendência à dependência do borderline pesado, traduz-se no borderline brando pelo reconhecimento da necessidade afetiva de um outro também dual-poroso, de tal maneira que um regime de trocas, onde vigore tanto o subjetivo quanto o objetivamente percebido, possa ser estabelecido.

O borderline, tanto o brando quanto o pesado trazem como restos/relíquias da infância mais arcaica uma insuficiência de identificações. Isso conduz a uma busca de identificações alimentadoras que o mantêm aberto e poroso ao seu ambiente e/ou às pessoas à sua volta. O borderline pesado tenta tapar o seu vazio através de relações simbióticas e fusionais; suas carências, embora eventualmente preenchidas, permanecem atuantes, podendo criar cegas exigências excessivas nos relacionamentos afetivos, sociais e profissionais, o que certamente causará transtornos. Já o borderline brando sobreleva seu vazio através de uma identificação dual-porosa com os seres humanos e com o mundo. Aquilo que no borderline pesado se apresenta como fome de identificações por fantasmas parentais, aparece no borderline brando como uma identificação contínua em devir com os acontecimentos. É justamente esse modo de utilização de sua capacidade de identificação dual-porosa que lhe permitirá tornar-se inovador, criativo, socialmente produtivo”.

Gradiva , Junho de 2002

E-mails dos participantes:

Nahman Armony: nahman@uol.com.br
Thaís de Oliveira: tspo@domain.com.br
Wilson de Lyra Chebabi: wchebabi@alternex.com.br
Isidoro Americano: isi@ism.com.br
Luiz Alberto Py: albertopy@uol.com.br
Paulo Sternick: paulosternick@montreal.com.br

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