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CREPÚSCULO DAS UTOPIAS E ANÁLISE GRUPAL

Wilson de Lyra Chebabi

Apresentação de Luiz Querolim

Existe análise de grupo ou será ela uma forma de psicoterapia? E o que temos a dizer da análise individual - existirá? Análise em grupo ou de grupo? Terá sido uma doce utopia o que se deu com os analistas que tiveram a intenção de existência da análise de grupo? Não será toda análise uma utopia?

Wilson de Lyra Chebabi irá nos conduzir a estas instigantes questões a partir do trabalho que segue. Não almeja o autor uma resposta, mas colocar em foco uma questão que é regularmente deixada de lado no meio psicanalítico: por um lado, desde os que refutam a existência da análise de grupo e, por outro, os que se apegam a crença de sua existência..

Chebabi possui inúmeros trabalhos publicados no Brasil e no exterior e quase meio século de experiência como clínico e teórico da psicanálise individual e de/em grupo. Foi um dos fundadores do CESAC - Centro de Estudos em Antropologia Clínica - juntamente com Joel Birman, Inês Besouchet, Emanuel Carneiro Leão e outros.

Sempre teve participação ativa nos empreendimentos da SPAG.RJ e da SPRJ.

O trabalho que vamos ler foi tema da última aula de Módulo de Acesso da SPAG.RJ de 1997. Dada a envergadura do mesmo e o momento que vive a análise de grupo no Brasil, percebemos que se revestia de importância colocarmos a dispoção de um número maior de pessoas este artigo.

Por intermédio do Gradiva on-line trazemos a baila o artigo para o seu exame. Em breve efetuaremos entrevista com o autor sobre o trabalho "CREPÚSCULO DAS UTOPIAS - E ANÁLISE DE/EM GRUPO".

Propositadamente colocamos este trabalho à sua disposição antes da entrevista, para que você possa enviar perguntas sobre o proposto. Comprometomo-nos em fazê-la chegar ao autor quando da entrevista.

Todos que acessam Gradiva estão convidados a participar de tal discussão. Bom proveito. A seguir, o texto de Chebabi:

A primeira reação que se tem à palavra utopia, neste final do século XX é negativa. Isto é uma utopia - é uma expressão para desacreditar propostas que se encaminhem para um projeto teórico, pragmático, conceitual ou artístico a ser implementado.

Uma rápida passagem pelos estágios da história humana revela, contudo, que jamais a humanidade dispensou a constituição de utopias que funcionam como forças motrizes do desenvolvimento. Um estudo do papel da análise de/em grupo neste século que desemboca em seu crepúsculo não precisa ser proposto numa alocução como esta. Isto é uma maneira de dizer que precisaremos perseguir o que a proposta de análise de/em grupo acionou nas práticas clínicas, nos gerenciamentos empresariais, na prática da sociabilidade, na prática política, na prática institucional e mesmo nos processos gerados pelas associações psicanalíticas e associações, como a SPAG, de estudo e formação em análise de/em grupo.

Temos de começar pelo conceito de utopia. O conceito é renascentista e como tal produto e vetor propulsor do Renascimento. É pois um conceito que brota de uma configuração de mudanças estruturais em busca de algo que ainda é projeto.

O Renascimento vai sacudir o estabelecido e consagrado pela Idade Média e propõe trazer um tempo novo. Para tornar possível o surgimento desse tempo novo faz-se premente vir de novo à luz o pensamento da antiguidade, cuidadosamente guardada - com muitos sacrifícios - nos mosteiros, Muitos foram os seus artífices, desde os místicos que reabrem o entendimento da religião e e sua interpretação, passando por Giordano Bruno, pelos fundadores da moderna física, por Galileu, Newton, Francis Bacon, os pensadores de um novo homem e um novo estado, como Maquiavel chegando a Thomas Morus (1480 -1535), o nobre chanceler que tombou vítima da brutalidade de Henrique VIII, ao qual devemos o conceito de utopia. Refinado humanista, discípulo de Erasmo de Rotterdam, erudito em Direito e político experiente, escreveu em 1515 um romance estatal « UTOPIA ». A palavra foi criada a partir do grego OU TOPOS. - o país que não existe em lugar nenhum. Em princípio é uma crítica das condições da sua terra natal, a Inglaterra e de seu tempo. Cheio de ironia e caricatura, o livro expõe uma série de pensamentos que podiam ser sentidos como grotescos em virtude do estilo. Além da crítica da sociedade do seu tempo, o livro também é um sintoma do sentimento novo que estava surgindo incitando novas tarefas para a vida do estado que hoje denominamos sociais e libertárias.

A esperança de favorecer a criação de uma comunidade de bens que pudesse reger a sociedade, a igualdade tomaria o lugar da ambição de conseguir sempre novas conquistas. Em vez disto distribuir melhor o que já se tem e favorecer a satisfação de todos, tornando as guerras absolutamente dispensáveis.

As bases da economia popular seriam a lavoura e as reservas naturais. Não precisaria haver o dinheiro pois o comércio se faria somente de trocas e portanto não haveria lugar para a avareza nem para a ganância. Ninguém precisaria ser escravo de suas posses. Bastaria trabalhar seis horas por dia e dedicar o resto do tempo poderia ser dedicado ao cultivo do espírito e da ciência. O trabalho pesado seria executado por escravos e por criminosos. As guerras só ocorreriam para proteger as próprias fronteiras, para ajudar um país amigo assaltado ou para liberar o povo de um tirano.

Com respeito à religião reinaria uma liberdade plena. Só aqueles que renegassem a imortalidade da alma, a recompensa e o castigo no além, a existência de Deus e o domínio da providência, deveriam ser encarados como pessoas de ordem inferior. Pode pensar o que quiser, mas não poderá ter nenhum cargo oficial.

Para a prática religiosa haveriam à disposição grandes templos cheios de obscuridade, pois a alma se recolhe melhor na escuridão para considerar o eterno. A crítica negativa e destrutiva do pensamento dos outros devem deixar de existir. Todos os combatentes intolerantes devem ser banidos ou feitos de escravos.

Morus encarnou não somente o humanismo mas também o idealismo. Foi condenado à morte enquanto Maquiavel não foi atingido.

Não será possível, certamente, acompanhar a evolução da noção de utopia nos séculos que se seguiram. Poderemos, isso sim, mencionar as grandes revoluções que tiveram lugar desde o século XVIII e que incontestavelmente foram acionadas por utopias nas quais não é difícil encontrar os rastros das aspirações de Morus.

As mais importantes são sem dúvida a revolução francesa, a revolução industrial e as revoluções comunistas no poder durante algum tempo. Não se tem elucidado suficientemente o conceito de êxito. O que é ser bem sucedido? A decepção de ter a Revolução Francesa se seguido do Império Napoleônico, de ter a Revolução Industrial não sido capaz de tornar os bens fabricados em grande quantidade acessíveis a todos e das revoluções comunistas acabarem caindo em capitalismos de estado sob a ditadura de um déspota ou de um grupo despótico exige o exame da questão, mas não torna absolutamente inútil as utopias. Isto porque, sem dúvida, todas essas revoluções movidas por utopias deixaram as suas marcas indeléveis e irreversíveis no processo da História.

O desprezo pela utopia que tem marcado o pensamento marxista sustenta-se do escrito de Engels: "O desenvolvimento do socialismo da utopia à ciência." Quem vai resgatar, em nosso século, a importância da utopia é Ernst Bloch. As utopias se formam de sonhos de olhos abertos, sonhos diurnos. Diferenciam-se dos sonhos que buscam satisfazer magicamente desejos eróticos. São muito mais da ordem dos projetos acionados pela intenção de criar uma vida ou um mundo melhor. Neste sentido têm como princípio básico a esperança, título do famoso livro de Bloch. Sua proposta é a de um pensamento antecipador, voltado para o futuro. O que propõe é um estado de pré-consciência daquilo que ainda não se tornou.

As revoluções a que nos referimos foram de algum modo antecipadas pelas utopias que as acionaram e o enxugamento da história tornaram-nas anacrônicas em suas propostas imaginárias em colisão com a dureza do REAL. Mas nenhuma delas ficou em vão. Ao esbarrarem em seus limites, trouxeram nova necessidade de propiciar novas utopias para acionar o esforço de preenchimento das lacunas.

Uma vez inseridas na sociedade as marcas das revoluções francesa e industrial nos séculos anteriores, o século que agora termina foi marcado por um lado pelo incremento inusitado do consumo e com ele do capitalismo e por outro pela concretização aparente e transitória da utopia socialista em poucos países. O insucesso do sistema soviético na Rússia e da socialização chinesa assim como o conhecimento mais minucioso das condições em que tais ensaios chegaram a ter um tempo de êxito, fez desabar a utopia socialista nos termos compactos em que era pretendida.

Da dialética entre o adensamento do capitalismo e dos regimes ditatoriais a seu serviço e a utopia comunitária desenvolveram-se inúmeras experiências sociais que necessariamente implicaram a psicanálise. A chamada inicialmente "psicoterapia analítica de grupo" surgiu como uma demanda de socialização da psicanálise.

A interpretação é o meio central com o qual o psicanalista tenta conseguir uma modificação estrutural no grupo e em cada indivíduo. Como se pode caracterizar a interpretação psicanalítica? Ela visa restabelecer conexões afetivas sucumbidas ou mutiladas. Com isso o sentido que a interpretação psicanalítica tem é reconstruir a história de vida. Ela persegue não somente apreender o sentido do comportamento manifesto deformado como também o sentido da própria deformação . A análise em grupo incita no indivíduo - por isto ela também é individual - e no grupo um reconhecimento das conexões de sentido - Sinnzusammenhänge - do próprio comportamento manifesto e latente e uma reflexão sobre as relações mútuas concretas entre si mesmo e os outros. Esta proposta se fundamenta na obra de Freud e vamos encontrar na "Psicologia das Massas e análise do Eu" a seguinte asserção :

Na vida da alma do ser humano singular, com bastante regularidade ,o outro é levado em consideração como modelo, como objeto, como auxiliar e como adversário e a psicologia individual é portanto desde o início também ao mesmo tempo psicologia social neste sentido mais amplo, inteiramente justificado.

Neste sentido, a psicoterapia analítica de grupo, que hoje chamaríamos análise em/de grupo, surgiu em torno dos anos 60 em nosso meio e se ampliou enormemente durante os anos da ditadura militar, sustentada e sustentando uma utopia: A utopia da socialização do acesso ao inconsciente e da libertação dos emperramentos do fluxo da vida da alma.

O que determina a força motriz dos processos interacionais do grupo? Para o enfoque psicanalítico é a sensibilização para o entendimento de que estes processos interacionais são determinados por relações transferenciais. Habermas em seu livro "Conhecimento e Interesse" esclarece :

O paciente se acha sob a compulsão de repetir o conflito originário, condicionado pela censura; ele age nos trilhos das posições patológicas e das formações substitutivas que foram fixadas na infância como um compromisso entre a satisfação desejante e a defesa.

Para que isso venha à luz, é necessário que se favoreça a emergência de processos grupais afetivos nos quais poderão surgir fantasias e conflitos, conscientes e inconscientes dos participantes, tendo, como fundo, os relacionamentos que surgem no grupo, entre os seus membros. Cada participante tem então a sua experiência própria e é neste sentido que cada um empreende a sua análise individual, chegando a entender melhor sua própria pessoa, no processo grupal analítico. Deste modo é que se pode falar muito mais de análise em grupo, do que em análise de grupo, como se fazia nos anos setenta sob a influência da técnica kleiniana de interpretação sistemática da transferência só dirigida ao analista e tomando o grupo como um indivíduo.

De qualquer modo, além a situação singular de cada participante do grupo, forma-se também uma "alma grupal" em cada grupo e que se torna extremamente sensível tanto à saída quanto à entrada de membros. Por este motivo a análise é em grupo, pois cada um se analisa no contexto que o grupo oferece, mas também é de grupo pois é impossível ficar de fora do conjunto, sem se deixar afetar pelo que ocorre globalmente. É em grupo na medida em que o que é especificamente analítico é aquilo que surge de dentro de cada pessoa pela instigação do que está circulando no conjunto, mas é também de grupo pelo fato de estarem sempre ocorrendo interações entre o que vem de dentro de cada um e do que vem de dentro dos outros. Isso que surge resulta precisamente da emergência das relações transferenciais entre os membros de grupo.

Para facilitar a emergência de relações transferenciais no grupo psicanalítico, são dadas regras mínimas das maneiras interpessoais de comportamento. É proposta a expressão falada sem restrição e sem omissão do que quer que ocorra. A postura neutra e discreta da pessoa do analista favorece que para com ele a transferência se realize sobretudo do lado infantil. A problemática edípica da rivalidade surge em geral com o analista do grupo e a ambivalência precoce dos sentimentos: inveja, ódio, inclinação e repúdio concomitantes costumam se achar no centro das fantasias transferenciais do grupo. Correspondentes a todas estas fantasias transferenciais acham-se os comportamentos defensivos. Em grupo, pois cumpre atentar, como Freud mostrou nos trabalhos de técnica, para as resistências.

O que move a enfrentar a resistência é justamente uma utopia. Isto significa que é a esperança como princípio que reúne forças para tentar abrir aquilo que é vivido como intolerável.. O que é essa esperança? É antecipar um estado melhor de coisas numa época em que ele ainda não existe. Sem utopias não se iniciaria nenhum processo para se viver melhor. Neste sentido, as resistências são defesas contra a esperança. O medo de investir e se decepcionar leva a reprimir a esperança, portanto sonegar a criação de utopias. Os pacientes dizem-se desanimados, pessimistas, não acreditando mais que possam viver melhor. Constitui-se o que se chama de reação terapêutica negativa.

Os mecanismos de defesa, que são acionados pela resistência, servem ao Eu para excluir da consciência os acessos aos impulsos proibidos e perigosos. Para que esses acessos sejam possíveis é necessário que se invista na esperança de que trabalhando-os se vai viver melhor. Estes impulsos não podem ser, nem reconhecidos, nem pensados, tanto por cada indivíduo quanto pelos demais membros do grupo. São pois fenômenos sem lugar (utópicos) que o processo da análise vai tentar atualizar.

Isto é uma maneira de dizer que vivemos movidos por utopias porque somos seres desgarrados do paraíso, em função do pecado original, isto é da inconformação com o estabelecido, com a natureza, com o instinto, com o imposto, e para protestar criamos utopias que são endereços dos nossos desejos. Trabalhar os impulsos proibidos e perigosos significa reconhecer-lhes as origens na história emocional do sujeito e da humanidade para poder gerenciá-los por meio da simbolização. Simbolizar é justamente criar um horizonte que não existe em lugar nenhum, mas que revela o feixe de desejos do ser humano. As utopias não se objetivam no plano concreto, mas revelam o nosso universo desejante.

A análise de/em grupo, assim como a psicanálise individual são utopias que visam desentranhar as utopias recalcadas. No curso do século XX, constituíram forças motrizes poderosas de interesse pelo humano, assim como o marxismo. Numa sociedade crescentemente tecnológica e fascinada pela eficácia, os instrumentos que se oferecem como propiciadores de crescimento em função de sua utilização pelos sujeitos, não se prestam a servir de bens de consumo. A utopia é procurada como um bem em si e não como aquilo que se pode utilizar para auferir os bens de que somos capazes de gerar. Quer dizer, as utopias são fontes constantes de decepção quando se descobre que o que se consegue não é fornecido por elas e sim por nós mesmos. Somos pois confrontados com o fato de que só se consegue aquilo que já se tinha, embora estivesse inacessível.

O esquecimento de que tanto a análise de/em grupo e a psicanálise individual são utopias, neste sentido que se está usando, trouxe como conseqüência o abuso das mesmas, no sentido de que se as utilizou em grande escala como panacéia e como produto a ser consumido. E como tal, decepcionante, pois tal como o marxismo, não dispensa o bom senso e o cuidado do sujeito para empregá-lo em benefício de todos.

Com a derrocada dos sistemas socialistas e com a inchação desmesurada da utilização da psicanálise como profissão cobiçada, caiu-se numa desilusão saudável. A desilusão é a de constatar que as utopias são endereços e não lugares estabelecidos.

No crespúsculo do século XX, assistimos à coisificação das utopias arrastando consigo a esperança.

Temos de esperar, num mundo que se marca brutalmente pela violência e pelo cinismo, a ressurreição da ética, que também por definição é gerada pela utopia de um ser humano que supere corajosamente as suas indignidades.

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