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Apresentação parcial da Tese de Doutoramento
em Teoria Psicanalítica –IP/UFRJ
Deglutindo Freud:
Histórias da digestão do discurso psicanalítico
no Brasil
Cristiana Facchinetti
1.0. Introdução
“Nada há mais original, nada mais intrínseco
a si que se alimentar dos outros. É preciso, porém,
digeri-los. O leão é feito de carneiros assimilados.”
Paul Valéry (Apud: SANTIAGO, S., 2000)
Nesta tese busquei puxar algumas linhas do novelo do discurso psicanalítico
no momento de sua chegada no Brasil, nas primeiras décadas
do século XX, a fim de identificar a distinção
dos lugares a partir dos quais suas enunciações foram
feitas e a história oficial da psicanálise, construída.
O primeiro fio representou a idéia de construção
da memória nacional, forjada no século XIX por meio
da elaboração da figura do índio como herói
e mito de origem, da produção de documentos históricos
e geográficos como provas de identidade e da valorização
do exotismo da natureza, aos quais se aliaram os esforços
anteriores de imposição de língua portuguesa
e de absorção da erudição jesuítica.
Tal imagem, criada pelos pensadores da cultura, em especial pelo
homem de letras[1], tinha como propósito forjar a pátria
através da construção de uma narrativa que
privilegiava a unidade nacional e sua potência. Com este objetivo,
buscou-se silenciar os movimentos de fragmentação
e de resistência à unidade territorial, bem como afastar
o perigo que os índios (tal como eles se apresentavam e não
seu modelo idealizado) e os escravos africanos e seus descendentes
representavam para a construção de uma nação
nos moldes europeus.
Todavia, para que um discurso se constitua como discurso de filiação
é necessário que ele seja compartilhado pela cultura
na qual busca se inserir. No Brasil, o discurso da identidade nacional
precisava superar alguns obstáculos para que pudesse ganhar
representatividade e se estabelecer de fato: a presença maciça
dos africanos e de sua cultura, a concepção de uma
natureza do excesso sexual referida aos índios e aos negros,
a concomitante oposição entre trabalho e sexualidade,
bem como a mistura dos corpos que resultaram na miscigenação,
eram fortes demais para serem caladas, marcando um impasse em relação
ao projeto nacional tal como ele fora desenhado a partir de um ideal
que, ao final do século XIX, apontava para a eugenia, a ordem
e a civilização européia como referências
exclusivas. Para superar tal estorvo, era necessário mais
que silenciar as resistências políticas, civis e militares
à unidade nacional e dizimar as tribos indígenas e
os quilombos. Sem este a-mais, o projeto de constituição
da identidade nacional não teria forças para deixar
o papel, porque a parte do povo excluída do projeto resistia,
inviabilizando a efetivação da crença na unidade
nacional.
A busca em dar credibilidade ao projeto identitário, conjunta
à entrada dos discursos modernizantes, representa o segundo
fio da meada deslindada. O impasse enfrentado por esse projeto civilizatório
e o empuxo modernizador geraram a busca de novas formas de domesticação
daquilo que não se deixava docilizar; de fato, no início
do século XX, vislumbramos o fortalecimento do discurso higienista,
colorido de tons favoráveis ao embranquecimento da raça
e à homogeneização das massas.
Para os higienistas e outros grupos afins, a busca de definição
do Brasil continuava a ser marcada pela exigência, advinda
do século XIX, da modificação do padrão
racial e da aculturação do brasileiro ao modelo de
cultura ocidental. O diálogo construído através
de Monteiro Lobato com o Jeca-Tatu (1959) assinala a compreensão
das elites do Brasil a respeito do que é a nação
e de seus anseios reformistas que, incessantemente, buscaram salvar
o Brasil, isto é, refazer o homem e a nação
brasileira pela ação histórica da purgação
dos vestígios dos jecas-tatus.
Como contraponto, em meio à busca ideológica de constituir
o brasileiro, surgiu, no início do século XX, uma
consciência estética crítica que romperia com
a memória nacional tornada oficial[2] e buscaria a reformulação
da história, de modo a incluir o que vinha sendo excluído
desde o século XIX; tal movimento abriria fendas nos ideais,
tornando possível ao pensamento sobre a cultura dialetizar
com o Outro europeu através de uma comilança que se
esperava capaz de poder produzir a absorção do Outro
não por estoque (LIMA, L. C., 1991:27), em uma só
via, mas numa digestão feita a partir de seus próprios
significados, estabelecendo identidades e diferenças.
Estabeleceram-se então duas modalidades opostas de diagnóstico
e terapêutica para um mesmo questionamento, não apenas
no campo social, mas também na concepção do
sujeito que se quer brasileiro. Lembremos que tal questionamento
já estava vinculado ao processo de modernização
e urbanização das cidades e, portanto, à quebra
da tradição herdada decorrente de tal processo.
O divisor de águas implantado no fim do século XIX
acabou por estabelecer visões completamente distintas sobre
o que era nacionalidade, nação e, mesmo, o que significava
ser um intelectual. De um lado, aqueles que defenderiam a causa
patriótica, sonhando salvaguardar as massas incultas, a pátria,
libertando-a dos entraves que estivessem no caminho da modernização
e do capitalismo nascente. Do outro, os que faziam resistência
ao processo acrítico de modernização a qualquer
custo. Para estes últimos, a sociedade que desejavam forjar
só poderia ser criada a partir de uma revolução
interna que pusesse em questão os valores tanto culturais
quanto individuais.
Apesar das divergências que se tornavam cada vez mais agudas,
todos estavam de acordo com o fato de que se revelavam falidos os
moldes de um pensamento colonialista, que não mais correspondiam
à realidade em ebulição. A base onde haviam
sido apoiadas as certezas sobre quem era o brasileiro ou sobre como
ele deveria advir estava irremediavelmente abalada.
É nesse caldo efervescente que a psicanálise surge
como nova possibilidade de instrumento diagnóstico e terapêutico.
O terceiro fio puxado do novelo se liga àquilo que permaneceu
fora do campo da história oficial da psicanálise no/do
Brasil. Inscrever tais fragmentos implica, ao meu ver, a ruptura
de antigas Bahnungen, antigas visões-de-mundo, e a construção
de novas trilhas para a psicanálise no/do país.
O percurso histórico nos faz testemunhas de que o discurso
da psicanálise no Brasil não aponta para uma unidade
coesa, origem única ou objetivos idênticos. Em vez
disso, encontramos oscilações, divisões discursivas,
que apontam para a história singular das filiações
estabelecidas concomitantemente à difusão desse saber
e às resistências a ele. Mais ainda: o acompanhamento
da inserção da psicanálise pelas vias do modernismo
e do higienismo torna claro o embate entre os dois discursos pela
hegemonia de suas verdades e, paulatinamente, pela definição
dos rumos que desembocariam nas instituições psicanalíticas
no país, tal como as conhecemos hoje.
A abertura para o discurso psicanalítico no pensamento sobre
o Brasil é concomitante ao rompimento com os valores tradicionais
europeus e ao surgimento de um universo aberto e mutável
que traria novos valores para a sociedade e procuraria responder
uma pergunta que não cessava, “Quem sou eu?”.
Há, de fato, uma identidade profunda entre a rápida
modernização e urbanização da sociedade
brasileira no início do século XX e a entrada da psicanálise
no país.
Tal hipótese não é desconhecida: analisando
a entrada da psicanálise, Durval Marcondes, organizador da
primeira Sociedade de Psicanálise da América do Sul,
afirmou que as mudanças ocorridas no final da Primeira Guerra
Mundial constituíram um fator importante para uma nova “compreensão
do papel das pessoas na vida social”. Para ele, a participação
social da mulher, a liberdade moral do teatro e a arte modernista
propiciaram um clima favorável à difusão da
psicanálise no Brasil (apud MOKREJS, 1993: 47) [3]. Pode-se,
inclusive, estender a observação de Marcondes e afirmar
que pelo menos quatro áreas da vida cotidiana foram significativamente
abaladas pelo processo de modernização e urbanização
das principais cidades do país – a higiene, a sexualidade,
o casamento/a família e a educação.
Assim, a psicanálise introduz-se como uma possibilidade
de resposta a uma sociedade que buscava modernizar-se e ganhar o
domínio de si mesma, mas que, nessa busca, perdeu suas referências.
Freud atraiu o interesse nesse campo discursivo de dois modos opostos:
como instrumento para a crítica à civilização
- realizada nos moldes europeus - e para a valorização
de culturas periféricas, como a brasileira; ao mesmo tempo,
serviu como justificativa para a manutenção, pelo
modelo conservador, de controles sociais há muito estabelecidos,
ainda que sob nova roupagem.
A proposição de análise da entrada do discurso
psicanalítico no pensamento do/sobre o Brasil não
tem, portanto, a teoria psicanalítica como interesse primordial,
mas antes recai sobre sua representação sociocultural,
uma vez que foi a partir de tal configuração que os
conceitos psicanalíticos seriam posteriormente chamados a
interpretar a sociedade e suas formas de subjetivação.
Da mesma forma que a entrada do discurso psicanalítico depende
de seu reconhecimento como um discurso que pode responder de forma
nova às questões que circundam os processos sociais,
sua permanência e plausibilidade no campo de uma cultura dependem
também de processos sociais de confirmação
de sua validade.
“Com Freud (...) é preciso considerar além
do sistema teórico a existência de uma forma de prática,
ou de práticas, por onde se transmite e se reproduz socialmente
o discurso psicanalítico, que tem efeitos incisivos sobre
a subjetividade dos agentes sociais, transformando a natureza de
sua presença no campo da representação. (...)
Assim, como contraponto desta presença de Freud e o impacto
da psicanálise na subjetividade de cada um, existiria também
uma representação social do que seja o discurso psicanalítico,
que define mesmo a demanda social para seu consumo no plano clínico”.
(BIRMAN, 1989: 25)
O que se revelou essencial para a validação das respostas
advindas do campo da psicanálise na sociedade urbana brasileira
do início do século XX foi o fato de seus membros
passarem a experimentar uma dicotomia radical. Por um lado, manteve-se
o discurso homogeneizador e globalizante, identificado aos processos
de produção industrial, à marcação
do tempo de trabalho, à interferência do Estado no
controle das doenças, à ideologia de ordem e progresso,
ao pensamento positivista, racionalista e eugênico. Por outro,
o surgimento de um discurso encorpante, produtor de singularidade
e densidade subjetiva, relacionado à perda das certezas a
respeito dos valores, da verdade e do si mesmo, e que acabaria por
dar origem a um sujeito com uma crise de identidade crônica
(BERGER, 1975), resultante da conseqüente escassez de referências
externas capazes de servirem de modelo. Os afetos e emoções,
libertos dos ritos e das crenças e instituições
religiosas e convertidos em doutrinas filosóficas e instituições
leigas (FREUD, 1917), traziam agora sua faceta do Unheimliche.
Como conseqüência da introdução da psicanálise,
a intelectualidade [4] brasileira passou a operar a partir de novos
enunciados na busca de compreensão e, principalmente, de
soluções para o país. Embora utilizassem muitas
vezes vocábulos idênticos advindos da leitura dos textos
de Freud, produziram as mais variadas significações,
em consonância com o discurso que visavam legitimar. Como
um bom exemplo deste fato, Sérvulo Figueira observa:
“Em 1927, o Dr. Porto Carrero escreve “O caráter
do escolar segundo a psicanálise” (tese apresentada
na 1ª. Conferência Nacional de Educação,
em Curitiba) e, em 1928, “Bases da educação
moral do Brasileiro”, enquanto neste mesmo ano, Oswald de
Andrade, no “Manifesto Antropofágico”, faz a
psicanálise dizer coisas bastante diferentes, com base em
ilações principalmente a partir do Totem e Tabu de
Freud.” (FIGUEIRA, 1980a: 162).
Assim, ainda que consideremos a variação de sentido,
como veremos nos capítulos seguintes, ganha espaço
no campo dos estudos sobre a realidade social e sobre a subjetividade,
a idéia de que somente alguns segmentos psíquicos
estão presentes na consciência já que a atividade
egóica opera em termos de recalque[5] e de projeção;
tal fato está relacionado ao desconhecimento pelo sujeito
das motivações de suas ações e à
sua incapacidade de interpretar suas próprias simbolizações.
(BERGER, 1980: 19).
Desta forma, o que é desconhecido pelo sujeito, passa a
ser experimentado como referente ao inconsciente (ou subconsciente,
como era também nomeado), matriz de processos mentais decisivos.
A pulsão (o instinto, segundo a tradução da
época) é também agora valorizada na constituição
da subjetividade por estar intimamente vinculada a conteúdos
inconscientes: a criatividade, o primitivo, a sexualidade e a infância.
Finalmente, e isso é algo que não deve ser desconsiderado,
a cultura passaria a ser assimilada em termos de um embate irreversível
entre a civilização, relacionada intimamente às
regras, à razão e, portanto à consciência
e ao sujeito, no qual a sexualidade, o primitivo e o caos resistem
e então se estabelecem como relativos ao inconsciente e à
irracionalidade.
2. O novo é o Brasil de novo
Em meio à urbanização da estrutura social
do país e à modernização tecnológica
informada pela razão científica como princípio
de verdade, uma parte dos intelectuais das décadas de 1920
e 1930, entre eles Mário e Oswald de Andrade, apropriou-se
dos conceitos de primitivo, inconsciente, divisão subjetiva
e pulsão como lugares centrais de regulação
do sentido. Na proposta modernista, os conceitos psicanalíticos
foram apreendidos como instrumento para a revolução
subjetiva e social, desempenhando papel bastante distinto daquele
relacionado ao discurso construído pelos higienistas. Em
vez de reformar, embranquecer, formatar e sujeitar-se à ordem,
desejava-se a possibilidade de criar algo novo a partir do diálogo
com as singularidades culturais colocadas no campo da alteridade.
Neste caso, a pergunta quem somos nós transforma-se em um
“não sou nada, mas posso vir a ser” (BIRMAN,
J., 1996: 89-120), em uma visada que se apropria da psicanálise
pelo discurso da cultura, percebida como um campo dominado pelas
intensidades e irredutível à generalização.
Esse tipo de encaminhamento, vale dizer, abre portas para múltiplas
identificações por meio da busca de um novo que se
quer singular e não se limita às severas restrições
impostas pelo universalismo e pela generalidade.
A passagem do exame histórico para além dos limites
cronológico-lineares é um dos traços da cultura
da modernidade. A idéia de descontinuidade impõe a
consideração da coexistência de personagens
e objetivos semelhantes situados em tempos distintos. Do mesmo modo,
personagens contemporâneos, habitantes de uma mesma paisagem,
podem vincular-se a objetivos bastante diversos. Diante de nós,
a dificuldade de transpor linearmente – uma característica
da escrita acadêmica – tanto os movimentos artísticos
que, por suas características e elementos podem ser considerados
modernistas, ainda que anteriores à Semana de Arte Moderna
de 1922, quanto outros acontecimentos ocorridos na cultura brasileira
da década de 1920, que indicam o transbordamento do modernismo
para outros campos que não apenas os literários e
artísticos.
O modernismo foi um movimento crítico da modernidade que
transpôs o universo ficcional e lírico da literatura,
ecoando em áreas que, a partir da década de 1930 e,
especialmente, nos anos 1940, seriam compartimentadas, levando à
especialização das profissões e à conseqüente
delimitação de suas áreas. Vejamos como Mário
de Andrade, julgando não a Semana, mas o movimento em seu
processo e amplitude, indica tal fato:
"Manifestado especialmente pela arte, mas manchando também
com violência os costumes sociais e políticos, o movimento
modernista foi o prenunciador, o preparador e por muitas partes
o criador de um estado de espírito nacional”. (ANDRADE,
M. 1980c: 23.)
A hipótese inicial desta pesquisa propunha a existência
de duas leituras antagônicas da psicanálise: aquela
advinda do discurso científico e aquela surgida no discurso
literário da década de 20. A investigação
inicial propunha a hipótese de uma dicotomia bem delineada
e esperava-se, através da pesquisa das fontes primárias,
mostrar que a difusão inicial da psicanálise deveu-se
muito mais ao movimento modernista literário brasileiro do
que ao discurso médico, inicialmente mais refratário
a ela. O decorrer da pesquisa, entretanto, mostrou que ao contrário
do ocorrido na França entre a vanguarda histórica,
a psiquiatria e a psicanálise, em que as posições
e os objetivos se marcaram de forma claramente antagônicas[6],
no Brasil os limites entre ciência social, ciência natural
e literatura não se fizeram muito bem delineados.
De fato, no Brasil o século XIX caracterizou-se pela centralidade
da literatura e das formas literárias[7], mesmo nos campos
que se pretendiam científicos. Apesar da existência
de grandes discussões a respeito das questões sociais,
do ritmo acelerado da cultura, do arremedo de divisão do
trabalho intelectual, no início do século XX, mesmo
com o estabelecimento da vida científica, a literatura ainda
permanecia em uma posição-chave. Em conseqüência
da fragilidade da fundamentação teórica e técnica,
havia se desenvolvido no país uma cultura de ostentação
da erudição marcada pela literatura e pela retórica
que se antepunha à ciência, à técnica
e à organização racional. Essa tendência,
presente como estratégia de ampliação da profissão
na cultura geral, na poética e na retórica, procurava
realizar os objetivos da tradição erudita presente
na formação da nação desde o Império.
Tal disposição tradicionalista, todavia, terminou
produzindo, em seus próprios labirintos internos, uma antinomia:
a reação contra as demarcações das fronteiras
de um processo de profissionalização ou especialização,
que delimitava e separava a intelectualidade em diferentes grupos,
ou seja, a própria radicalização do desejo
de tradição acabou criando, à revelia de seus
intuitos, uma reação contrária à direção
que pretendia promover. Dessa forma, é possível defender
que a ausência de limites do dizer provocada pela não-especialização
das profissões causou um estreitamento das relações
entre os diversos profissionais que ultrapassaria o campo do savoir-faire
propriamente dito, fixando-se no plano de um aprendizado sobre o
savoir-vivre brasileiro. (Cândido, 2000)
É fato que, paulatinamente, o prestígio das profissões
ganhava força. A importância adquirida pelos engenheiros
com as modernizações promovidas na administração
de Pereira Passos e o processo de higienização levado
a cabo por Oswaldo Cruz na cidade do Rio de Janeiro repercutiram
em todo país. Ainda assim, a literatura não foi deixada
de lado, servindo de instrumento para aumentar a autoridade desses
profissionais para além de suas profissões.
“Alexandre Dumas entrou para a Academia Francesa, tendo como
credencial o seu romance Os três mosqueteiros. Por que, então,
não ser eleito o Oswaldo, que tem, não três,
mas milhares de mosquiteiros, toda uma legião de mata-mosquitos?”
(LEITE, F., s.d.:24) [8]
A pressão do eruditismo e a sedução pelo bem-escrever
foram fortes o suficiente para comprometer as diversas profissões
com os campos da poética e da retórica. Nas primeiras
décadas do século XX, a idéia da missão
do homem de letras – compreendido como o profissional de qualquer
área que escrevesse e pensasse as questões brasileiras
– manteve-se, continuando a literatura a centralizar os esforços
de formação da nacionalidade.[9] Assim, a pesquisa
pôde indicar que demarcar uma divisão entre literatura
e ciência seria um ato artificial que acabaria por esconder
uma característica importante de nossa cultura no início
do século XX e que possivelmente traçou influências
significativas no modo inicial de recepção da psicanálise:
a ausência de limites claros entre os diversos campos de saber.
Além disso, o modernismo não foi homogêneo,
nem dominou toda a literatura da época – como se poderia
pensar numa leitura mais superficial do movimento –, mas apresentou
a mistura de uma série de tendências diferenciadas,
às vezes opostas, que se apropriaram quer de elementos distintos
da vanguarda européia, quer de características locais.
O estudo dos periódicos da época é o elemento
que mais tem servido para demonstrar a junção dessas
diferenças, já que, apesar das críticas que
um determinado grupo fazia aos demais, seus órgãos
de divulgação faziam a propaganda de todas as obras
publicadas, não importando o grupo a que pertenciam seus
autores.[10] As revistas estavam abertas às mais variadas
contribuições literárias, bem como àquelas
oriundas de outros campos, tais como as de médicos, filósofos
e cientistas sociais. (GUELFI, 1987: 39-43). Um segundo ponto, portanto,
diz respeito à reunião desses elementos. A unificação
dessa babel de tendências parece resultar do questionamento
acerca do caráter dependente da cultura brasileira ou mesmo
da própria existência ou não de uma “cultura
brasileira”.
Pode-se dizer então que, na criação da literatura
modernista, mesclam-se elementos passadistas e de vanguarda, ou
seja, o Modernismo constituiu-se no sentido tanto horizontal quanto
vertical em um amplo movimento de renovação que não
excluiu os dados locais nem os elementos de permanência de
outras estéticas, cuja atuação ultrapassaria
as atividades ocorridas na década de 1920.
“A matização é bem maior do que se supõe,
ou que se deseja ver, nos anos 20, mesmo em relação
às figuras mais marcantes do movimento”. (LARA, 1987:
9).
Na literatura, o modernismo não surgiu apenas do contato
com as vanguardas européias, mas (ainda que não o
reconheça necessariamente) seguiu rastros de um movimento
crítico que atravessam, por exemplo, Machado de Assis, Lima
Barreto e mesmo de Graça Aranha. Em Machado de Assis já
é possível ver delinear-se características
retomadas pelo modernismo através da leitura da obra freudiana.
Apesar de não ter sido leitor de Freud, Machado de Assis
buscava a interioridade e os mistérios da alma, apontando
para fenômenos semelhantes aos lapsos, ao chiste, à
condensação e ao deslocamento. Além da visão
dotada de interioridade para seus personagens, Machado trouxe a
marca de uma nova forma de pensar a nacionalidade (1873), que seria
retomada pelos modernistas. Dom Casmurro escrito em 1900, mesmo
ano de A Interpretação dos Sonhos, é um bom
exemplo disso. Deste modo, é necessário alargar a
noção de modernismo e buscar seus elementos que se
configuram desde o fim do século XIX. Partindo deste princípio,
podemos vislumbrar o delineamento das propostas modernistas em um
grupo do Rio de Janeiro, formado por alguns artistas boêmios
como Bastos Tigre, Kalixto, Sinhô, Patrocínio Filho
e Lima Barreto.
Em cada um desses autores aponta-se uma nítida modificação
na postura do intelectual. Este já não se identifica
com o erudito, portador de um saber consagrado, estabelecido sobre
teorias e modelos importados. Há certa abertura para o social
e a história como fontes do saber e da ação.
O escritor torna-se mais suscetível à cultura local
e começa a questionar não só o papel do darwinismo
social, como também a importação acrítica
das culturas alheias. (GUELFI, 1987: 122)
É neste caldo cultural que acaba por brotar o grupo que
seria posteriormente reverenciado o Modernismo, em sua primeira
fase [11]. O conjunto opositor de idéias e a busca do encontro
com o excluído, que vinham se firmando desde o final do século
XIX, ganharam, no início do século XX, um colorido
relacionado ao novo. Todavia, a nítida oposição
entre as novas idéias e o passadismo[12] ainda tardaria um
pouco. Embora seja possível encontrar críticas ao
movimento futurista e uso de seus termos desde 1914, assim como
as respectivas polêmicas em torno de sua apropriação
entre os tradicionalistas e leitores médios dos jornais da
época[13], é apenas, em 1917, com a severa crítica
de Monteiro Lobato à exposição de Anita Malfatti
que o antagonismo entre os estilos começa, de fato, a chamar
a atenção.
“(...) São produtos do cansaço e do sadismo
de todos os períodos da decadência: são frutos
de fins de estação, bichados ao nascedouro. (...)
Embora eles se dêem como novos, precursores de uma arte a
vir, nada é mais velho que a arte anormal ou teratológica:
nasceu com a paranóia e com a mistificação.
(...) A fisionomia de quem sai de uma dessas exposições
é das mais angustiantes. Nenhuma impressão de prazer
ou de beleza (...) em todas (as caras) (...) se lê o desapontamento
de quem está incerto.(...) Arte moderna, eis o escudo, a
suprema justificação. Na poesia também surgem,
às vezes, furúnculos desta ordem, provenientes da
cegueira nata de certos poetas elegantes, apesar de gordos [referência
à Oswald], e a justificativa é sempre a mesma: arte
moderna”. (LOBATO, J. R. M., 20/12/1917 , Apud BRITO, M. S.,
1997: 45-9).[14]
Encabeçados por Oswald de Andrade, os adeptos e apreciadores
da arte de Malfatti revidaram, conquistando o interesse público.
Esse revide ganharia o reforço do prêmio internacional
de escultura em Paris, conquistado por Victor Brecheret, em 1921.
O fato de ter vencido quatro mil concorrentes fez com que ele tivesse
grande publicidade local e internacional e ajudou na fermentação
para a Semana.
“(...) tudo já estava preparado. A coesão do
grupo paulista [Mário e Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia,
Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo, Cândido da Mota Filho,
Sérgio Buarque de Holanda, entre outros], os contatos deste
com alguns intelectuais do Rio (Ribeiro Couto, Manuel Bandeira,
Renato de Almeida, Villa-Lobos, Ronald de Carvalho) e a adesão
do prestigioso Graça Aranha significavam que o modernismo
poderia lançar-se como movimento”.
(BOSI, A., 1983: 381)
Tal como os “modernistas cariocas” e outros que os
antecederam, os modernistas de 1920 não buscavam postulados
ou uma escola em comum; o que os unificava era o desejo de uma expressão
livre e as oportunidades para manifestar, sem as enunciações
academicistas, “aquilo que o inconsciente grita[va]”
(ANDRADE, M., 1980). Portanto, a recusa ao academicismo, ao gabinetismo,
à erudição vazia, constituiu a marca dessa
primeira geração, cujo interesse era explodir as convenções
e destruir os temas poéticos e as formas tradicionais do
dizer; as discussões e contradições davam forma
aos gestos estéticos e afirmavam a vontade rebelde como movimento
de negação da ordem estabelecida.
“O modernismo, no Brasil, foi uma ruptura, foi um abandono
de princípios e de técnicas conseqüentes, foi
uma revolta contra o que era a Inteligência nacional. É
muito mais exato imaginar que o estado de guerra da Europa tivesse
preparado em nós um espírito de guerra, eminentemente
destruidor (...)”. (ANDRADE, M., 1980c : 235).
A anarquia dos anos 1920 desnudava o país, desmascarava
a idealização da literatura representante das oligarquias
e das estruturas tradicionais. Ela instaurou uma visão e
uma linguagem muito diferentes do "ufanismo”[15], ainda
que abarcasse o que seus integrantes denominavam de alegria; de
fato, o chiste era utilizado como arma nesse primeiro momento modernista;
a boca aberta, escancarada, era um princípio relacionado
à tentativa de dissolver o havia muito seqüestrado[16],
emancipando o homem de toda a lógica da razão. Neste
compasso, passariam a ser explorados o inconsciente, a narração
dos sonhos, os “causos”, o folclore local, o humor e
também, com Marx, a atividade revolucionária e o protesto
contra as instituições alienantes.[17]
De fato, a escrita modernista da primeira fase tem um traço
revolucionário. Se mesmo hoje podemos admirar e enxergar
uma certa novidade hieroglífica, fotográfica e antropofágica
da nova escrita, o estranhamento produzido na época de seu
surgimento mostrou-se ainda mais radical. A literatura que os modernistas
de então propunham como programa não era passível
de classificação; era sequer reconhecida como arte,
algo que já pudemos verificar com Monteiro Lobato (1917).
Em outras palavras, era um enigma em busca de sentido: uma escrita
ávida de leitores abertos à novidade, cujas moções
pulsantes exigiam ser lidas a partir de um lugar diferente, isto
é, exigiam a reinvenção também do leitor.
Exemplificam essas propostas Paulicéia Desvairada, de Mário
de Andrade (1980) e o estilo-fragmento de Oswald de Andrade, que
o faz representar ”(...): o ‘corte’ contra a ‘corte’.
” (SEPÚLVEDA, 1995:10)
“Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto
expediente protocolo e manifestações de apreço
ao Sr. Diretor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos do amante exemplar
com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às
mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo do clown de Shakespeare
Não quero mais saber do lirismo que não é
libertação”.
(BANDEIRA, M. 1981: 62)
A uma concepção anterior de mundo unívoca
superpôs-se a plurivocidade: mundo e linguagem em transformação
incessante. Na ruptura com a estabilidade do mundo natural dado
de antemão, os modernistas rejeitaram os ideais de raça
e de fixidez das características. Eles recusaram ao mesmo
tempo a literatura romântica referida à tristeza, o
darwinismo, o positivismo, o evolucionismo e a psicologia da alma
dos povos e das multidões, contra os quais brandiu a bandeira
de um novo homem marcado por desejos e intensidades.
Nesse contexto, a guerra declarada contra a fraseologia gramatical
pode ser compreendida como estratégia para a realização
de uma nova estética expressa pelas idéias de impulso,
pontualidade e simultaneidade:
“Tínhamos que quebrar tudo, destruir, matar, enterrar,
cremar. Foi o que fizemos de 1921 até 1932, mais ou menos”.
(MILLIET, S., 1981: 241)
A destruição das antigas barreiras da linguagem e
do bom-tom aliada à intensidade ampliadora e libertadora
do folclore e da literatura popular romperiam o bloqueio imposto
pela ideologia oficial e promoveriam o fluir de forças até
então recalcadas. A experimentação de novas
linguagens, com suas exigências de novos léxicos, novos
torneios sintáticos, imagens surpreendentes e temas diferentes,
permitiria – ou mesmo imporia –uma aproximação
com o material da terra. (LAFETÁ, 1974: 11-2)
“O desajuste não é encarado como vexame, e
sim com otimismo – aí a novidade – como indício
de inocência nacional e da possibilidade de um rumo histórico
alternativo, quer dizer, não burguês”.
(SCHWARZ, R., 1987: 37)
De fato, como Lafetá propõe em A Crítica e
o Modernismo (1974: 11), a busca de uma nova linguagem que deságua
na pesquisa do que o brasileiro fala e pensa já contém
em si própria seu projeto revolucionário. A escolha
de um modo distinto de dizer implica novos modos de ver um objeto;
se é a linguagem que permite dizer sobre o mundo e sobre
a visão que se tem dele, investir num novo modo de falar
significa também investir num novo modo de ser.
“(...) Estamos matando a literatura. Estamos acabando com
o domínio espiritual da França sobre nós. Estamos
acabando com o domínio gramatical de Portugal. Estamos esquecendo
a pátria-amada-salve-salve em favor dessa terra de verdade
que vai enriquecer com o seu contingente característico a
imagem multiface da humanidade”. (ANDRADE, M., 1925b: 333-5)
Vista sob este ângulo, a primeira fase do modernismo foi
rica em experimentos no campo poético e ficcional. São
aventuras que se aproximam das rupturas européias levadas
a cabo por Mallarmé, Rimbaud e Laforgue, todos esses responsáveis
por uma nova estruturação dos modos de conceber o
texto literário. Além disso, a revivescência
dos mitos indígenas, africanos e sertanejos, bem como da
arte primitiva numa roupagem transfigurada pelas novas moções
lingüísticas, está no cerne de muitas dessas
obras, impedindo dissociá-las de suas raízes. Como
diz a máxima: Só é nacional o que é
popular. Dito de outro modo, a própria estrutura dessa linguagem
experimental – suas exigências de léxico, de
sintaxe, de temas e imagens originais – criou as condições
não só para a ruptura com a literatura culturalmente
colonizada, como também para a busca de uma nova concepção
sobre a identidade nacional.
A tentativa de romper com a imitação acrítica
estava no cerne da preocupação dos artistas como modo
de construção do que eles entendiam por nação
independente. A identidade nacional foi concebida pelo Modernismo
no sentido de sua dessacralização e equivaleu a uma
abertura para a diferença, para um território em que
uma cultura pode se relacionar com outras de modo não-excludente.
“O fato de que, segundo Oswald, ‘a poesia existe nos
fatos’ (Manifesto pau-brasil) apenas confirma a hipótese
de que o movimento modernista de 22 buscava uma identidade entre
a poesia e a realidade tomada em seu sentido pragmático,
isto é, da compreensão do Brasil dentro de uma perspectiva
de uma história social e não mais de uma história
‘natural’ das relações sociais que excluía,
mais que incluía, a discussão da identidade”.
(SEPÚLVEDA, 1995: 10)
2.1. Psicanálise: instrumento para subversão
“Vocês nos crêem loucos. Nós somos, ao
invés, os primitivos de uma nova sensibilidade, completamente
transformada”.
BOCCIONI et alii 1980: 41”
Para o discurso estético, que buscava romper com os valores
tradicionais em prol do estilo e da singularidade, a psicanálise
serviu como modo de viabilizar a valorização de elementos
periféricos, sendo utilizada para a crítica ao passadismo
e também como instrumento para o questionamento dos valores
de mercado e do trabalho que impunham severos limites para o prazer
e “para a vida”. Em seu estudo sobre Mário de
Andrade, Telê Porto Ancona Lopez entendeu o período
modernista de 1922 e 1945 como um período em que foram absorvidas
teorias estéticas e filosóficas, tendo como centro
principal de indagações o binômio psicanálise–marxismo
(1972: 195-6). Esta fundamentação havia sido sugerida
por Oswald em 1929:
“E aqui chegamos a uma terceira figura que ligada a Nietzsche
e Marx vem escancarando os abismos apocalípticos que engulirão
o mundo do patriarcado (...) – Freud. (...) Os três
homens (gênios) poderão indicar o verdadeiro caminho
da (...) autenticidade e (da...) derrocada da exploração
patriarcal”. (ANDRADE, O. 1992)
A psicanálise, portanto, foi uma das molas mestras para
que o pensamento modernista atingisse a ruptura desejada em relação
à tradição portuguesa. Na verdade, o pensamento
psicanalítico circulava no meio intelectual do país
desde a década de 1910.
As propostas freudianas desembarcaram no país não
apenas pela via da medicina psiquiátrica, mas, muitas vezes,
por intermédio dos que viajavam para a Europa – como
Oswald, que travou contato com a Paris futurista (a partir de 1909),
Graça Aranha (de 1900 a 1920), Manuel Bandeira (1912), Ronald
de Carvalho, além de Tristão de Athayde, Sérgio
Milliet, Paulo Prado –, assimiladas a partir de uma leitura
enviesada das vanguardas européias, que já propunham
uma releitura de Freud. Aqueles que não viajaram para Europa
buscaram conhecer a psicanálise principalmente através
de traduções francesas de Freud e de outros psicanalistas,
como L Charles Badouin (1924), figurinha fácil nas estantes
dos modernistas da época.
“Dom Lirismo, ao desembarcar do Eldorado do inconsciente
no cais da terra do consciente é inspecionado pela visita
médica, a Inteligência, que o alimpa dos macaquinhos
e de toda e qualquer doença que possa espalhar confusão,
obscuridade na terrinha progressista. Dom Lirismo sofre uma visita
alfandegária, descoberta por Freud, que a denominou censura.
Sou contrabandista! E contrário à lei da vacina obrigatória!”
(ANDRADE, M., 1980a: 27-8).
A pesquisa de Lopez (1972) na biblioteca de Mário de Andrade,
por exemplo, acompanha as datas de edição e de composição
de seus trabalhos, relacionando-os aos conceitos psicanalíticos
por ele estudados, e apresenta a hipótese de que suas leituras
sobre esse tema teriam ocorrido principalmente durante a primeira
parte da década de 1920. Na biblioteca de Mário, que
está centralizada no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP),
existem sete livros das obras completas de Freud, além de
dezenas de outros autores de psicanálise. Entre eles, o livro
Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade de Freud (1905b),
que lhe foi dado por Paulo Prado, com dedicatória de 1923.
Os modernistas encontraram na obra freudiana uma fonte fundamental
de pesquisa e de instrumento de reflexão e crítica
em relação às idéias de raça,
evolução e sobretudo à concepção
da subjetividade (com a apropriação do discurso do
inconsciente e da centralidade da sexualidade e do primitivo em
sua produção), influenciando a construção
dos personagens e o próprio ato da escrita.
“Hoje, mais do que nunca, toda arte poética há
de ser principalmente (...) uma declaração dos direitos
dos Sonhos. (...) temos de procurar o paraíso nas regiões
ainda inexploradas. Só a noite se fica claro”. (HOLANDA,
S. B., In: Estética, nº3, 1925)
Para dar consistência a tal posicionamento, eles buscaram
destacar os conceitos freudianos que lhes poderiam servir de auxílio
na crítica da civilização ocidental e na positivação
do pulsional, da intensidade e do excesso. A substituição
do idealismo decadente pelo inconsciente servia à proposta
de libertar os mais diferentes recalques históricos, sociais,
estéticos e étnicos do país. Dito de outro
modo, considerava-se como diferença positivada o que tivera
valor de menos, ou seja, de incompetência racial, genética,
cultural ou causada pela fome e pelos vermes.
Foi assim que as expressões populares que haviam sido emudecidas
e descartadas da memória da intelectualidade brasileira puderam
ser positivadas no contexto cultural. E com elas, outras questões
ligadas ao excesso e à fragmentação passavam
a “existir” como elementos da cultura: a sexualidade,
a sensualidade, a sedução, a alegria e a embriaguez
dos sentidos, atribuídas à herança índia
e negra, que não apenas perderam a mordaça secular
como expressão subjetiva, como também tornaram-se
parte integrante da brasilidade.
Na literatura, configurou-se um povo à margem da ideologia
do trabalho, fortemente sexualizado, preguiçoso, irresponsável,
com traços que indicavam o predomínio do pulsional
sobre o racional e o tornavam inadequado à construção
e à participação do progresso nos parâmetros
do chamado Primeiro Mundo. Mas era hora de questionar os valores:
“A preguiça teve sempre, conforme o sentido em que
foi tomada, modulações várias. Cada época
e cada religião, aceitando e compreendendo a preguiça
segundo o seu modo de ver, decantara-a ou a repulsara. Na Grécia
e na Roma de apogeus incontestáveis, apesar de terem sido
estádios de profunda atividade, onde mais se acentuava o
prurido dos ideais, as ânsias de perfeição,
ela foi apreciada, divinizada quase. (...) A arte nasceu porventura
dum bocejo sublime (...)”. (ANDRADE, M. 1972b:182)
Não se almejava o racional, nem o afã de produzir
capital, mas sim a alegria de outros poderes.
“(...) E como se fosse possível esquecer justamente
da técnica da arte de viver! (...) Mas em vez de voltar as
costas ao mundo externo, ela prende-se aos objetos desse mundo e
consegue a sorte de estabelecer com eles um relacionamento emocional”.
(FREUD: 1930: 213). “(...) O programa de nos tornarmos felizes,
que o princípio do prazer nos impõe (...) não
pode ser satisfeito; entretanto, não devemos — na verdade,
não podemos — abrir mão de nossos esforços
de trazê-lo para perto, de uma maneira ou de outra”.
(Idem: 214) (tradução minha.)
A invenção do país que se desejava e o intuito
de libertação dos grilhões do colonialismo
cultural e do passadismo abriam espaço para a criação
do novo, enchendo o artista de alegria. Assim, para saber se estava
no caminho certo, o poeta passava a ‘escutar’ o que
produzia: “a alegria é a prova dos nove”. (ANDRADE,
O., In: A Revista de Antropofagia (1), 1928:7, reed. fac-símile,
1975).
Pode-se dizer, portanto, que a psicanálise serviu também
como meio para uma nova linguagem, no que diz respeito tanto à
formação de novos vocábulos (falava-se em inconsciente,
sonho, sexualidade, associação livre, recalque, sublimação,
regressão, fixação, etc.) e ao ato de escrever,
quanto ao conteúdo, ou seja, seu desenvolvimento imbricou-se
com a arte modernista, sendo meio de suporte e da expressão
dos afetos.
“O seu noturno é o que gosto mais. Assombração,
analogia, a mesma idéia. Após lê-lo me seqüestrei.
Esqueci do assunto. O poeta está triste; o psicólogo
em mim, encantado”.
(ANDRADE, M., 1958, 11/09/1934: )
As mais diversas revistas modernistas trouxeram Freud à
baila, quer seja nas citações e traduções,
quer seja na pena de seus poetas e escritores. O Homem e a Morte,
de Menotti Del Picchia (In: Klaxon, (1), 1922:6 in fac-símile,
1972), é tão fortemente marcado por sua relação
com a psicanálise, que Mário de Andrade, ao estabelecer-lhe
sua crítica, escreveu que “quanto ao Homem poderá
dizer-se que é filho legítimo de Freud” (In:
Klaxon, nos 8-9,1923: 27-9, in: fac-símile, 1972). No terceiro
número de Terra Roxa e outras Terras (21/2/1926: 4), há
uma nota chamada “A Conversão de Freund” (sic
– “Freund” significa amigo em alemão),
um comentário sobre a revista de psicanálise Psyche,
de Londres, que trata da adesão de Freud à telepatia.
Além disso, em todos os números da revista, há
o romance Naturezas Mortas, de Sérgio Milliet, impregnado
de referências à psicanálise e a Freud. Do mesmo
modo, a concepção de Mário de Andrade sobre
o processo de criação em “Prefácio Interessantíssimo”:
“Ribot disse algures que inspiração é
telegrama cifrado transmitido pela atividade inconsciente à
atividade consciente que o traduz. Essa atividade é que pode
ser repartida entre poeta e leitor... “
(ANDRADE, M., 1980a: 27)
Confirmando essa tendência, Oswald escreveu o romance “Serafim
Ponte Grande”, no qual Freud é chamado a falar:
“Prezado e grandíssimo Sr. Sigismundo.
De regresso a Paris encontrei minha ex-amante, Dona Branca Clara,
inteiramente nervosa.
Vive sonhando que tem relações sexuais com Jesus
Cristo e outros deuses. Isto é demais.
Peço socorro à psicanálise (...)”. (ANDRADE,
O., 1972: 218)
No conto “O Peru de Natal” (ANDRADE, M., 1993b), uma
paródia ao Édipo de Sófocles expressa o dilema
freudiano entre a morte do pai e a morte do peru, e se liga às
considerações feitas em Totem e Tabu (1913). O gozo
dos vivos depende da luta entre os dois mortos, vencendo afinal
o peru, que é comido com alegria pelos vivos.
Os exemplos são intermináveis e demonstram que a
interação entre o chamado modernismo de 1922 e a psicanálise
não se limitou ao plano intelectual, sendo encontrada também
nas relações dos artistas com seus próprios
processos de criação e produção, bem
como em seus posicionamentos pessoais e políticos para com
o país.
“Os futuros historiadores chamarão, talvez, à
nossa época: o SÉCULO DO SUBCONSCIENTE.” (CARPEAUX,
O. M., 1976: 347)
2.2. O tupi e o antropófago deglutindo Freud
“Freud explica (...)”.
(ALCÂNTARA MACHADO, 1936)
O modernismo em sua primeira fase – não custa lembrar
que valorizei neste trabalho a primeira fase modernista como sendo
aquela referida principalmente à busca de ruptura com a colonização
cultural – foi, decerto, um movimento de subversão,
embora as obras, abundantes e irregulares, tenham permanecido envoltas
nos processos de contradição inerentes à crise
que (as) produziram. Assim como a mentalidade senhorial que nos
regeu não terminou com o fim da escravatura, o conservadorismo
do pensamento contaminou os modernistas. Mas não do mesmo
modo: os modernistas travaram uma luta com o lugar de colonizado,
tornando-se conscientes do que isso representava dentro deles mesmos,
bem como na cultura de repetição-do-mesmo que os banhava
e que procuraram implodir. Em outras palavras, travava-se uma luta
entre colonizado e colonizador no interior de cada sujeito.
Assim, se por um lado podemos ver no percurso desses autores as
contradições e ambivalências entre o que propunham
e faziam, há outros aspectos em suas obras que apresentam
um sentido de radicalidade e ruptura fortíssimo e que se
referem a um processo de análise crítica ao mundo
e de si mesmo. Manuel Bandeira, por exemplo, embora mantivesse alguns
traços do que chamava de ”alma ruim”, e que ele
remontava a um certo registro romântico das emoções,
relativizava ou mesmo neutralizava tais tendências por meio
da tomada de consciência dessa marca na sua escrita e por
meio da busca de síntese e da leveza de ser modernista.
Através das obras, infiltrava-se uma apropriação
singular da psicanálise que trazia um novo olhar sobre o
ato da escrita e sobre o si-mesmo, que estava voltado para o Brasil.
Tratava-se de analisar o brasileiro não mais pela via da
raça, da cor, da geografia, e sim pela via da cultura e de
sua singularidade. À pergunta “Quem sou eu?”,
que fervilhava no pensamento intelectual da época, se juntou
a psicanálise com seus conceitos de divisão, inconsciente
e enigma, que assim passaria a representar um novo discurso, um
novo caminho de leitura do si-mesmo e do mundo.
“Assim incapaz e frágil diante da vida (...) era natural
que a poesia de Carlos Drummond de Andrade se alargasse em uma maior
detalhação individual. De fato: a caracterização
psicológica de Alguma Poesia não assume apenas as
verdades totais do indivíduo (...). Dois seqüestros
tem no livro, pelo menos dois, que me parecem muito curiosos: o
sexual e o que chamarei “da vida besta”. Ao seqüestro
da vida besta, Carlos Drummond de Andrade conseguiu sublimar melhor.
Ao sexual não; não o transformou liricamente: preferiu
romper adestro contra a preocupação e lutas interiores,
mentindo e se escondendo. (...) onde o seqüestro explode com
abundância provante é no livro estar cheio de coxas
e especialmente de pernas (...)”. (ANDRADE, M. 1980c: 35)
Os exemplos desse novo modo de interpretar são muitos, mas
Mário e Oswald talvez tenham sido aqueles que mais buscaram
a construção de uma nova estética como crítica
à modernidade com maior conseqüência. Ademais,
influenciaram os modernistas de todo o país.
A partir de análises baseadas principalmente nas obras de
Interpretação dos Sonhos (1900), Sobre a Psicopatologia
da Vida Cotidiana (1901) Três Ensaios para a Teoria da Sexualidade
(1905b), O Chiste e sua Relação com o Inconsciente
(1905c), A Moral Sexual Civilizada e a Doença Nervosa Moderna
(1908), Cinco Lições de Psicanálise (1909-10b),
Totem e Tabu (1912-3b), Contribuição à História
do Movimento Psicanalítico (1914), Reflexões para
os Tempos de Guerra e a Morte (1915), Conferências Introdutórias
para a Introdução na Psicanálise (1915-1917),
Alguns Tipos de Caráter encontrados no Trabalho Psicanalítico(1916),
Além do Princípio do Prazer (1920), Psicologia Coletiva
e Análise do Eu (1923), O Eu e o Isso (1923) de Freud[18],
esses dois autores compreenderam a civilização ocidental
como responsável por uma série de mazelas do país.[19]
Ainda mais: sua leitura deixa transparecer que acreditavam na idéia
de que a memória brasileira foi forjada a partir de um recalque
primordial. (LAFETÁ, 1974: 11-2)
Com Freud, apesar de reconhecerem os avanços técnicos
que facilitam a vida do homem moderno, tomaram consciência
do ônus das exigências civilizatórias ocidentais
na vida libidinal e no campo das subjetividades singulares, ao mesmo
tempo em que denunciaram a fragilidade dos códigos fundamentados
na ciência e na razão.
“Será decisivo saber se, e até que ponto, é
possível diminuir o ônus dos sacrifícios pulsionais
imposto às pessoas, reconciliá-las com aquelas moções
pulsionais que necessariamente devem permanecer e fornecer-lhes
uma compensação”.
(FREUD, 1927:141) (tradução minha.)
Mário e Oswald queriam dar voz às formas subjetivas
que o racionalismo, o cientificismo e a moral católica sacrificaram:
por isso, de um lado, valorizaram o inconsciente do sujeito na busca
do sonho (“A interpretação de sonhos é
na realidade a estrada real para o conhecimento do inconsciente”
- FREUD, S., 1909/1910: 29-37) e, com ele, o lírico, a associação
livre, a mínima palavra-coisa que pudesse oferecer o estranhamento
capaz de fazer eclodir o novo.
E do outro, no campo da cultura, o que se relacionava com o inconsciente.
O primitivo, considerado excluído de influência ocidental,
foi metaforizado no homem dos afetos, dos desejos, dos sentidos
e das sensações, referido ao brasileiro e à
sua sexualidade; a idéia de que a infância e a pré-história
seriam pontos fundamentais na genealogia do sujeito, transformada
na consideração da pré-história do Brasil,
logicamente anterior ou externa à cultura imposta, como fonte
de descobertas a serem feitas para que se constituísse o
brasileiro apropriado de si mesmo.
Entretanto, muito embora o caminho traçado por ambos tenha
tido momentos de grande afinidade em conseqüência da
compreensão de que a cultura era um vir-a-ser, podemos vislumbrar
diferenças estruturais e fundamentais em suas obras. Vejamos
agora como as diferenças na compreensão da missão
do poeta e nos modos de construção da crítica
e da estética se refletiram em diferenças pessoais
e políticas.
2.2.1. “Sou um Tupi tangendo um Alaúde”
Nos poemas de Mário, encontramos muitas vezes a busca e o
sentimento de uma transformação e mobilidade incessantes:
“Minhas obras todas (...). São procuras. Consagram
e perpetuam esta inquietação gostosa de procurar.
Eis o que é, o que imagino será minha obra: uma curiosidade
em via de satisfação”.
(ANDRADE, M., “Advertência”, 1980a: 67) (grifo
meu.)
Fazer arte moderna era satisfazer uma de suas curiosidades, o que
parece ser uma leitura do si-mesmo já marcada pelo texto
freudiano.
“A contrapartida dessa inclinação tida como
perversa — a curiosidade de ver a genitália de outras
pessoas — provavelmente só se torna manifesta um pouco
mais tarde na infância, quando o obstáculo do sentimento
de vergonha já atingiu certo desenvolvimento. (...) Ao mesmo
tempo em que a vida sexual da criança chega a sua primeira
florescência, (...) inicia nela a atividade que se inscreve
na pulsão de saber ou de investigar. (...) Sua atividade
corresponde, de um lado, a uma forma sublimada de dominação
e, de outro, trabalha com a energia escopofílica”.
(FREUD, 1905: 97-100)
Numa confidência a Fernando Góes (ANDRADE, M., 1946:91),
Mário de Andrade revelou como seu processo de criação
da poesia modernista começou influenciado pela poesia de
Verhaeren (não nos esqueçamos de que o livro de Charles
Badouin sobre Verhaeren (1924) freqüentaria as revistas e estantes
modernistas!). Segundo eles, ao ler os poemas de Verhaeren, foi
tomado por uma angústia tremenda que o emudeceu até
que, numa noite, de um só golpe, transpusesse para o papel
poemas que lhe corriam pelos dedos desenfreadamente. Sem controle,
sem sentido, palavras novas, frases truncadas ou interrompidas derramavam-se
num discurso desarticulado, sem métrica ou rima: nascia Paulicéia.
Desatinou ou, como o verso quis, atingiu o desvairismo.
“Leitor:/ Está fundado o Desvairismo./Este prefácio,
apesar de interessante, inútil (...)
Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem/ Pensar
tudo o que meu inconsciente me grita./ Penso depois: não
só para corrigir, como para/ Justificar o que escrevi. Daí
a razão deste/ Prefácio Interessantíssimo(...)”
(ANDRADE, M., 1980a: 27)
No dizer de Mário, o desvario é um dos elementos
positivados como estratégia de quem se propôs ir além
das aparências do bom comportamento para tornar-se o primitivo
de uma nova era. Tal visão de antiescrita e anticonvencionalismo
advém não só do processo de associação
livre e da ação do inconsciente, mas também
da abertura para o popular/”bárbaro”, fonte da
impulsão lírica.
Há poemas em que ele produz sua escrita em dois planos simultâneos:
consciente e inconsciente, como, por exemplo, em “A Escalada”
(1980a: 33). Em outros, apenas descreve suas ‘alucinações-livres’.
“(...) sem nenhuma seleção deverá expor
tudo que lhe vier ao pensamento, mesmo que lhe pareça errôneo,
despropositado ou absurdo e, especialmente, se lhe for desagradável
a vinda dessas idéias à mente. Pela observância
dessa regra garantimo-nos o material que nos conduz ao roteiro do
complexo reprimido (sic)”.
(FREUD, 1909-10: 31).
Tal desvario, portanto, é a nova força motriz para
o ato de escrever, que foge aos padrões estabelecidos e denuncia,
com a ironia daquele que enxerga o antes seqüestrado, a urgência
da mudança:
“Oh! minhas alucinações!
Vi os deputados, chapéus altos, (...)
Mudavam-se pouco a pouco em cabras! (...)
se punham a pastar
rente do palácio do senhor presidente...
Oh! Minhas alucinações!”
(ANDRADE, M., “O Rebanho”, 1980a: 36)
Em “o Trovador” (ANDRADE, M., 1980a: 32), há
a colocação da profissão de fé do poeta:
a brasilidade e a assimilação crítica de aspectos
das diferentes vanguardas da Europa, passando o último verso
a valer como síntese de seu processo de criação:
“Sou um tupi tangendo um alaúde!”.
“Esse verso é fundamental na medida em que caracteriza
o papel de Mário de Andrade em nosso modernismo. O poeta
reconhece aí sua dupla condição de primitivo:
aquele que cria e difunde uma estética nova e particular
e o que descobre sua condição de ser brasileiro, diferente
do europeu e portador de seu modo próprio de ver o mundo”.
(LOPEZ, T. A., 1979: 98)
Assim, o tupi, o ser colonizado, faz uso do instrumento europeu
colonizador, tocando-o; à sua maneira, entretanto, modifica
seus sons e seus objetivos. Sem dúvidas, uma boa metáfora
para responder àqueles que criticavam o modernismo como pura
cópia.
Mário privilegiou a ingenuidade, o infantil como primitivo
para romper com os limites do tabu ocidental. O caminho para “saber
saber” passava pelo modo de harmonizar o popular, o prazer
mental e o corporal numa comunhão marcada por Eros, em que,
supunha, as barreiras entre a língua falada e a escrita,
o povo e o escritor, o nacional e o universal desapareceriam. Nessa
perspectiva, a alegria harmoniza-se com a blague e com a seriedade.
Embora essa concepção mais tarde fosse questionada
pelo autor, em Prefácio Interessantíssimo ela define
sua posição singular:
”Aliás muito difícil nesta prosa saber onde
termina a blague, onde principia a seriedade. Nem eu sei”.
(ANDRADE, M., 1980a:14)
De todo modo, sua tentativa de reinterpretar o legado europeu alia-se
a novas proposições. Em Losango Caqui (1980a), Mário
de Andrade diz que procura “realizar a poesia mais psicológica
possível (...) Não há verbo, palavra, pontuação
que não se justifique pela psicologia.” (Andrade, M.,
1958:16). A produção transborda pela via da alegria,
na fruição de si e na expansão para o mundo
que ultrapassam dissabores:
“Ela não veio com certeza...
Que bem me importa!
Saiba a cidade de S. Paulo
Que nela vive um homem feliz!”
(ANDRADE, M., 1980a: 97)
De fato, um dos elementos centrais da obra de Mário é
a alegria posta em questão: ela deriva da consciência
de liberdade de uma servidão moral milenar, da busca de novamente
promover a junção entre corpo, alma, vida, morte,
dor, prazer e poesia. Um savoir vivre que suporta positividades
e negatividades, contradições e tensões inerentes
à existência: “a própria dor é
uma felicidade” (1980a: 82), dizia sob os empuxos do “espírito
livre” nitzscheano.
Em Clã do Jaboti (1980a), mergulha no experimentalismo da
fala brasileira, buscando “reachar a (...) ingenuidade”
(ANDRADE, M., 1958: 123) Com esse intuito, “empobrec[eu]”
seus meios de expressão (ANDRADE, M., 1958: 90), escrev[eu]
“língua imbecil”, pens[ou] “ingênuo”
(ANDRADE, M., s.d.: 71) construindo uma linguagem em que se fez
primitivo, irônico, carnavalizado.
“Brasil amado não porque seja minha pátria,
Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso
onde Deus der...
Brasil que eu amo porque é ritmo do meu braço aventuroso,
O gosto dos meus descansos,
O balanço das minhas cantigas amores e danças. Brasil
que eu sou porque é minha expressão muito engraçada,
Porque é o meu sentimento pachorrento,
Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir”.
(ANDRADE, M., 1980a: 109)
O pulsional que lhe toma os olhos e impulsiona seu corpo na polifonia
poética de “Carnaval Carioca”:
“Os negros sambando em cadência.
Tão sublime, tão áfrica!
A mais moça bulcão polido ondulações
lentas lentamente
Com as arrecadas chispando raios glaucos oiro na luz peluda
Só as ancas ventre dissolvendo-se em vaivens de ondas em
cio.
Termina se benzendo religiosa talqualmente num ritual”. (ANDRADE,
M.,1980a:110)
Em “Amar, Verbo Intransitivo” (s.d.b), a narrativa
baseada na iniciação sexual de um jovem revela grande
liberdade de escrita, num estado atemporal em que presente, passado
e futuro se embaralham em planos que se confundem. Nela interrompe
o narrador aqui e acolá, que medita sobre as cenas que se
desenrolam.
A influência da psicanálise pode ser percebida não
só no modo de escrita e na simultaneidade temporal, como
também na personalidade dos personagens e na mistura entre
fantasia e realidade.[20] Freud é citado quer diretamente
(s.d.b:50, 123), quer na invocação de seus conceitos,
quando libido (s.d.b: 46) e complexo edípico (s.d.b:144)
surgem nas divagações do narrador. Em outras passagens,
notam-se atos falhos: por exemplo, Carlos não consegue lembrar
do (significado de) Geheimniss – segredo (s.d.b: 89), e troca
pérolas por péloras (s.d.b: 43).
Mas é Macunaíma (1993), escrito de um só fôlego
e revisitado algumas vezes antes de sua publicação,
que imprime ao texto de Mário um corpo distinto de tudo o
que havia produzido até então, e é a obra que
melhor representa o modo como compreendia a escrita modernista e
seu outro elemento: a brasilidade.
No texto, carregado de primitivismo, o agenciamento entre o material
folclórico e o tratamento literário também
se dá via Freud. Aliás, ao retomarmos Mário
em sua leitura, podemos reconhecer que o uso do popular e do folclórico
como material de construção do discurso foi elaborado
a partir da idéia de uma leitura do inconsciente e do funcionamento
do processo primário nos mitos e costumes. Para tanto, ele
baseou-se no automatismo psíquico, na associação
livre e nos elementos do primitivismo.
Em Macunaíma, tempo, realidade, espaço externo e
interno misturam-se na valorização da fantasia. A
narrativa mágica importa mais do que o aprofundamento dos
personagens. Ainda assim, transborda dessa escrita um “novo
mundo”, sem o verniz das caravelas européias; um “novo
mundo” que está sempre por se fazer, num eterno trabalho
de elaboração, sempre aquém das intensidades
que o invadem.[21]
A exigência de trabalho, porém, não é
apenas daquele que escreve. Macunaíma demarca a construção
de um discurso em que os processos do narrar devem ser reconstituídos
a cada momento nas duas pontas do traçado: escritor e leitor.
O texto abre novas Bahnungen (trilhamentos) a partir de presenças
riscadas dos mapas da história do Brasil e essas presenças
são superpostas e justapostas em planos que impelem o leitor
ao trabalho contínuo de dar novos sentidos, e de certo modo
contam com sua cumplicidade para construir as novas histórias
do texto.
“(...) si você já teve por acaso na vida um
acontecimento forte, imprevisto (já teve, naturalmente) recorde-se
do tumulto desordenado das idéias que neste momento tumultuaram
no cérebro. Essas idéias, reduzidas ao mínimo
telegráfico da palavra, não se continuavam, porque
não faziam parte de frase alguma, não tinham resposta,
amontoavam-se, sobrepunham-se. Sem ligação, sem concordância
aparente – embora nascidas do mesmo acontecimento –
formavam, pela sucessão, rapidíssima, verdadeira simultaneidade,
verdadeiras harmonias acompanhando a melodia enérgica do
acontecimento”. (ANDRADE, M., 1980a: 25)
Vale dizer, a história a ser escrita não é
pura reconstituição do passado, já que, a partir
de Freud, que aponta a viagem de um trem sempre desviante, Mário
“nega o passado como exigência do presente” (Fonseca,
M. A., 1994: 68). Afinal, “O passado é lição
para meditar, não para reproduzir”. (Andrade, M., 1980a:
29) A meditação que Mário propõe, portanto,
não recupera a memória dos fatos como eles aconteceram.
Para ele, o que é passível de recuperação
são as “assombrações[22] daquilo que
chamamos de ‘passado”.
“Quando permito que o passado se lembre de mim, às
vezes sinto esses pés huitotas andando na minha memória.
E à medida que o tempo me afasta deles, vão ficando
cada vez mais passos e cada vez mais memória. (...) Só
eu os posso identificar com a minha memória e só pelo
que está neste papel é que os homens podem saber o
que foram esses passos”. (ANDRADE, M., in: 1976 10/5/1929)
Esse movimento em muitas direções, curiosidade de
conhecer a si e aos outros, impõe novos sentidos, desaguando,
em seu extremo, na análise de seu próprio modo de
criar, expansivo e multiplicador.
E para além da novidade radical de sua escrita e da abertura
para novos sentidos, há uma importante análise a respeito
do brasileiro sintetizada na figura de Macunaíma: o retrato
trágico do homem sem qualidade, sem qualquer referência
de saber, que Mário posteriormente veria com certo horror
e estranhamento, como se pode verificar nesta carta a Augusto Meyer:
“(...) Se foi escrito brincando, ou melhor, divertidamente,
por causa da graça que eu achara no momento entre a coincidência
dum herói ameríndio tão sem caráter
e a convicção a que eu chegara de que o brasileiro
não tinha caráter moral, além do incaracterístico
físico duma raça em formação, se foi
escrito divertidamente, a releitura do livro me principiou doendo
fundo em seguida. Hoje ele me parece uma sátira perversa.
Tanto mais perversa que eu não acredito que se corrija os
costumes por meio da sátira”. (ANDRADE, M., 1968:58)
O retrato do horror que Mário pinta é o do brasileiro
que rejeita a si mesmo e aos seus, não mais se reconhecendo
nesse jogo de espelhos, sendo levado a submeter-se ao poder do outro.
O reconhecimento desse outro, por sua vez, não implica um
retorno para um novo reconhecimento de si, mas aponta para a negação
ou mutilação de si mesmo, equacionada em transplantação
e colonização culturais, eternizadas pelo deslumbramento
especular e pela perda das próprias referências.
O horror de Mário também fala das mudanças
fundamentais nos movimentos do autor, que aos poucos retornava de
suas muitas viagens de ruptura. Com o fim da década de 1930,
vemos um Mário cada vez mais engajado na ação
social e na idealização da síntese do brasileiro
e, com isso, próximo do universalismo e da utopia de trocas
harmônicas, igualitárias, em que desapareceriam as
fronteiras entre nações e raças.
A psicanálise, principalmente na década de 1920,
foi um instrumento fundamental para Mário. Ele a utilizou-o
para a libertação de si, para a investigação
dos motivos inconscientes e dos caminhos percorridos pela colonização
cultural. Foi como se tivesse deitado o Brasil no divã, para
descristalizar a tradição aprendida de cor. Mário,
contudo, não abriu mão da razão completamente;
seu programa de topar consigo mesmo (1980a:157) mostra que a busca
de coerência e unidade persistiu. A pesquisa da psicanálise,
portanto, serviu-lhe para tornar consciente o inconsciente, para
aceitar o material inconsciente junto à consciência,
reconstituindo as pegadas do que havia sido seqüestrado (segundo
sua tradução para refoulement), a fim de tornar possível
a assimilação de nossas origens e a construção
de nossa identidade como resultado de uma síntese. Se há
alguns momentos em que Mário parece alçar outros vôos,
como o que aparece fulgurante em Macunaíma, ele não
deixa de retornar à busca pela felicidade traduzida em ação
social. O desejo afirmado de transformar palavra em ação,
capaz de reformular tanto o mundo quanto à vinculação
entre o artista e a humanidade, impeliu Mário rumo à
universalidade.
2.2.2. Psicanálise aos Nacos
“Eu não escrevo ficção, isso é
para fingidor. Faço fricção – é
preciso do suor do outro para existir”.
Oswald de Andrade Apud Mário Chamie, 2000
Como falar de Oswald, enfant terrible do modernismo, Oswald, o
subversivo, e obedecer aos parâmetros acadêmicos, às
regras comportadas do bem-escrever? José Oswald de Sousa
Andrade (Oswáld, e não Ôswald, como nossa influência
norte-americana nos faz chamá-lo) tem sido, por muitos, e
por muito tempo, desvalorizado como um sujeito pouco conseqüente,
um autor cheio de altos e baixos, um leitor de oitiva.
A ideologia burguesa, guardiã da moral, dos bons costumes,
da seriedade e do trabalho fez com que a postura dionisíaca
do homem-escritor-pensador Oswald via de regra tenha sido interpretada
como inconseqüente e destrutiva, uma função vazia
de sentido educativo e moral, algo irracional e sem método.
Os ecos desse modo de vê-lo persistem. Foi a partir da ótica
de seu estilo singular, distinto de um modo de existência
convencionado como única via, que Oswald arrancou o riso
de muitos: “Viajei, fiquei pobre, fiquei rico, divorciei,
viajei, casei... Já disse que sou conjugal, gremial e ordeiro”.
(Apud Mendonça Teles, G., 1995b: 3)
“Nossa civilização baseia-se, falando de modo
geral, na supressão dos instintos. Cada um renuncia a uma
parte do que possui, de seu sentimento de onipotência, das
tendências vingativas e agressivas de sua personalidade; o
acervo cultural comum de bens materiais e ideais resulta de tais
contribuições. Além das necessidades da vida,
foram provavelmente os sentimentos familiares derivados do erotismo
que levaram os indivíduos a fazerem essa renúncia.
Tal renúncia foi progressivamente aumentada com o passar
do desenvolvimento da civilização; cada novo passo
foi sancionado pela religião; cada renúncia da satisfação
pulsional que se fez foi oferecida à divindade como sacrifício;
foi declarado ‘santo’ o proveito obtido assim pela comunidade.
Aquele que, por força de sua constituição indomável,
não pode concordar com a repressão das forças
pulsionais, é concebido pela sociedade como um ‘criminoso’,
um ‘outlaw ‘,— a menos que sua posição
social ou suas capacidades excepcionais lhe permitam impor-se como
um grande homem, um ‘herói’ ”. (FREUD,
1908: 18) (tradução minha.)
De fato, a postura agressiva, antagonista e rebelde de Oswald que
se impunha contra o modelo estatuído, fez com que perdesse
os amigos, os elos sociais que o sustentavam numa sociedade marcada
pela pessoalidade. Seu estilo singular, caracterizado por traços
agressivos e polêmicos, incomodava a muita gente.
"Mas esse Oswald lendário e anedótico tem razão
de ser: a sua elaboração pelo público manifesta
o que o mundo burguês de uma cidade provinciana enxergava
de perigoso e negativo para os seus valores artísticos e
sociais. Ele escandalizava pelo fato de existir, porque a sua personalidade
excepcionalmente poderosa atulhava o meio com a simples presença.
Conheci muito senhor bem posto que se irritava só de vê-lo
– como se andando pela rua Barão de Itapetininga ele
pusesse em risco a normalidade dos negócios ou o decoro do
finado chá-das-cinco." (CÂNDIDO, 1972:74)
Raul Bopp, (1968) participante do grupo de Oswald e testemunha
dos acontecimentos em volta do poeta, disse a seu respeito: “Oswald,
como se sabe, adorava a pequena polêmica de salão (...)”.
Cassiano Ricardo corroborou: “(ele) gostava de briga e nos
insultava com uma alegria pantagruélica que dava gosto”
(RICARDO, C., 1970: 38). Mas este sentido profundo de destruição
do instituído, que se reflete em todos os espaços
que transitava, fez com que Mário, a essa altura rompido
com Oswald, dissesse: “(...) Osvaldo de Andrade, a meu ver
[foi] a figura mais característica e dinâmica do movimento
(...)”. (ANDRADE, M., 1972c: 237)
“Oswald conseguiu, em sua obra, dramatizar o novo saber cotidiano,
onde o lugar do outro é decidido na relação
e não há nada previsto”. (SEPÚLVEDA,
C., 1995:15)
Homem concreto, programa e estética se complementaram e
se misturaram na criação em Oswald, na qual ficção
e realidade são termos sempre instáveis. Rudá,
filho de Oswald, em carta ao crítico Antônio Cândido,
aponta: "Creio que a obra de Oswald não pode ser estudada
desvinculada de sua vida". O próprio Antônio Cândido
diria:
“(...) tudo se mistura; o eu e o mundo fundem-se num ritmo
de impressão pessoal muito peculiar, em que se perde, por
assim dizer, a independência de ambos”. (CÂNDIDO,
in: ANDRADE, O. 1976: XII)
O que importa especialmente para nós neste trabalho é
que, em seu ideário subversivo, a totalidade e a harmonização
dos opostos idealizados em Mário são impossíveis.
Oswald flagrou o instantâneo e a diferença que pretendem
renunciar à erudição e à civilização
ocidental, buscando como contraponto a esse todo institucionalizado
o riso e o chiste, a desconstrução de Thanatos. Em
vez da busca pela ingenuidade proposta por Mário, Oswald
escolhe a noção de ignorância.
Como vimos, em A Moral Sexual Civilizada e a Doença Nervosa
Moderna (1908), Freud apresentou uma análise dos malefícios
oriundos do processo civilizatório fundados na repressão
sexual, explicitando sua relação com a formação
de neuroses:
“a sociedade paga pela obediência a suas normas severas
com o incremento de doenças nervosas. (...) Além disso,
a abstinência sexual não parece contribuir para “produzir
homens de ação enérgicos e autoconfiantes,
nem pensadores originais ou libertadores e reformistas audazes”.
(FREUD, S., 1908: 25-6)
Na visão anárquica de Oswald, só a desconstrução
absoluta do saber poderia romper com a imitação, com
a repetição, abrindo caminho para a ignorância
que resulta do encontro com o novo. A crítica de Mário
– de que lhe faltava um projeto de reconstrução[23]
– não era um problema para Oswald, para quem parecia
estar claro que a construção era um processo natural,
compulsivo. O importante era o esforço constante de destruição,
a fim de abrir a possibilidade de novos trilhamentos nunca assegurados.
“Podemos supor que, desde o momento em que uma situação
já alcançada sofre um desarranjo, surge uma pulsão
para criá-la novamente e produz fenômenos que podemos
descrever como uma ‘compulsão à repetição’.”(FREUD,
1933: 539) (tradução minha.)
Para Oswald, não era necessário preocupar-se com
a construção – que ocorreria por uma compulsão
do ego – mas sim fazer o esforço contínuo de
promover o desarranjo do caminho dado de antemão, fragmentando-o
a ponto de desnaturalizá-lo, desequilibrá-lo, fazê-lo
outro. Era imbuído desse intuito que sua prosa-poesia-poética
experimental apontava para a linguagem cinematográfica –
marca supermoderna – e sua ruptura no âmbito do discurso,
com o uso sincopado da frase em movimentos de planos que se confrontam
e se entretêm como parte de um cinema de montagem, sucessão
de imagens-fragmento satíricas da mentalidade e sociedade
de São Paulo, num quadro expressionista-cubista. "Recorte,
colagem, montagem", como resume o crítico Décio
Pignatari (24/10/1964). Foi no processo da colagem muitas vezes
antitética de imagens e símbolos lírico-míticos
– como nos sonhos – que Oswald fez uso da paródia
para a própria construção/desconstrução
do texto que produzia.
“(...) ao fazer ironia dos valores do passado, [a paródia]
faz com que o presente rompa as amarras com o passado, cortando
a linha da tradição”. (SANTIAGO, S., 1989: 127).
Em “Um caminho percorrido” (1995: 24), por exemplo,
Lúcia Helena atenta para a outra ponta do processo de paródia.
Como ela mostra, o processo digestivo não tritura apenas
o texto numa ruptura com o passadismo; ao se apropriar do passado,
ele paradoxalmente o resgata numa nova construção.
De fato, a paródia, articulada à ironia e ao escárnio,
marcou seu estilo, estando presente em quase todos os seus textos.
Oswald apropriou-se de textos coloniais como os de Claude D’Abbeville,
Frei Manoel Calado, Frei Vicente do Salvador, Gândavo, Pêro
Vaz Caminha, bem como dos versos de Gonçalves Dias em “Canto
de regresso à pátria” (1998: 139) ou os de Casimiro
de Abreu em “Meus oito anos” (1972b: 100). Além
disso, transformou os textos ou mesmo os nomes dos modernistas conservadores,
denunciando neles sua visão pessoal, como se pode ver em
“Cristão de Ataúde” ou “Pinóquio
Del Michia” (ambos na Revista da Antropofagia).
Essa intertextualidade permitia a inclusão de discursos
estranhos, palavras tupis, afros, coloquiais, francesas, russas
e neologias no espaço do poema ou o aproveitamento da modulação
do texto anterior, como no conhecido “Meninas da Gare”:
“Eram três ou quatro moças bem moças
e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem fitarmos
Não tínhamos nenhuma vergonha”.
(ANDRADE, O., 1998: 69-70)
Como na obra de outros modernistas, o primitivo foi retomado por
Oswald na recuperação do que tinha sido seqüestrado
pela civilização considerada do ponto de vista eurocêntrico.
Em seus textos, porém, o seqüestro não apresenta
apenas algo que foi escondido da consciência, marca de um
passado à espera de um resgate: o primitivo, o “matriarcado
de Pindorama”, é algo a advir, a ser produzido a partir
do agora, do tempo presente, e desde que não se abra mão
do pulsional relacionado à violência, ao caos, à
sexualidade e à perversidade polimorfa.
Essa revolução da linguagem não se restringiu
aos poemas, mais facilmente digeríveis. Em “Os Condenados”
(1990), prosa do início da obra de Oswald, este selo já
está presente, conforme atesta A. C. Couto de Barros:
“O livro inaugura em nosso meio técnica absolutamente
nova, imprecisa, cinematográfica”. (In: Klaxon, n.6,
out. 1922:15)
Mário, por sua vez, chamou a atenção para
a simultaneidade e o expressionismo em Oswald.
“O realismo é de todos os tempos, sabemos bem, mas
realizá-lo com simultaneidade, cinematicamente, fazendo coisas
e fatos se refletirem todos num só plano, como que se isentando
do que se poderia chamar a perspectiva intelectual é construir
obra modernista (...)”.
(In: Klaxon, n.6, 15/10/22:15, ed. fac-símile, 1972)
A obra de Oswald delineia-se, portanto, em seu modo inesperado
de articular o arcaico e o moderno, seja através de um “congelamento
órfico”[24], (Andrade,1978), seja pela síntese[25];
para isso, o recurso à ironia, à paródia e
à técnica do fragmento são seus instrumentos
de trabalho.
No aspecto formal, Oswald renovou a poesia com seus pequenos poemas,
em que sempre havia forte apelo visual, criando o que Paulo Prado
propõe no prefácio de seu primeiro livro de poemas:
"Obter, em comprimidos, minutos de poesia" (Prado, P.,
in: Andrade, O., 1998: 59). Os poemas-comprimidos de Oswald da década
de 1920 produzem o mesmo Verfremdungseffekt (efeito de estranhamento)
descrito por Brecht (apud Rosenfeld, A., 1964:114-5) a respeito
de seu teatro, funcionando como apelo ao estabelecimento de nexo.
Em “Das Unheimliche” (1919), Freud mostra que os temas
que provocam medo e estranhamento podem se ligar àquilo que
é conhecido e familiar ao sujeito, um familiar (Heimliche)
tornado estrangeiro (verfremdet) pelo recalque. Seria justamente
o recalque, que conserva com todo cuidado esse material como algo
incompreensível, enigmático e estranho, que promoveria
a sensação de que essa diferença demarca um
perigo. Desse processo em que “o pensamento se comporta em
relação ao pensamento recalcado como uma alusão,
como uma representação do mesmo por meio de palavras
indiretas” (FREUD, 1909/10: 30) ou então em que a presença
intensa do signo se faz, participam “Agente” (1998:103),
“Reclame”(1998:122), “Anúncio de São
Paulo” (1998: 145) e muitos outros. Talvez fosse por isso
que Oswald provocava tanta resistência, como esta de Mário
referindo-se a ele numa carta: “invenções desumanas
por desumanas não podem ir pra diante” (ANDRADE, M.,
s.d.: 210-1).
De fato, não estamos no terreno do humano, se este é
compreendido como sentimento humanista ou humanitário. A
escrita de Oswald aponta, isso sim, para um lugar em que um novo
modo de existência pode advir. Suas destruições
ou desconstruções levam-no, bem como ao seu leitor,
para o registro da instantaneidade e da fugacidade, marcado por
aquilo que Freud denominou como fenômenos da consciência-percepção.
Ela promove uma afetação no instante da apresentação
de seus signos de percepção, que se associam por simultaneidade,
acompanhada de intensidade. A frase poética perde seu valor
de representação, passando a inscrever-se como coisa,
como diria mais tarde Adélia Prado, tributária desse
modernismo inicial:
“(...) A palavra é disfarce de uma coisa mais grave,
surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos (...) infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror”. (PRADO, A., 1991: 22)
Em Memórias Sentimentais de João Miramar, de 1923
(1972), chamado por Oswald de romance memorialístico, a ordenação
dos episódios importa muito pouco. Em vez da linaridade temporal,
o texto traz o simultaneísmo, a sincronia, as ordens do inconsciente,
os neologismos. A própria composição do romance
é revolucionária: seus capítulos-relâmpago
apontam para a colagem rápida de sinais, “sem comparações
de apoio”, como diria no “Manifesto Pau-Brasil”
(1978).
Em 1929, surge o romance “Serafim Ponte Grande” (1929),
uma crítica, a partir de Marx e Freud, à elite intelectual
de São Paulo, que era, segundo ele, ao mesmo tempo cosmopolita
e provinciana. Nesse texto, o movimento subversivo da linguagem
de Miramar é radicalizado, e se inscreve em uma descontinuidade
e falta de nexo cronológicas aliadas a uma paródia
‘faminta’, que mastiga toda a linguagem dada de bandeja,
digerindo-a em múltiplos fragmentos sem pontos de fixação
perspectiva.
Após a quebra da Bolsa de Nova Iorque e a Revolução
de 1930, Oswald atravessa um período de crise financeira.
Dividido entre uma formação anárquico-boêmia
e o espírito crítico ao capitalismo, ele adere ao
Partido Comunista. Assim, as obras da década de 1930, em
especial suas peças de teatro, consideradas por muito tempo
impossíveis de serem encenadas (encenaram a primeira apenas
trinta e um anos depois), traziam intensas críticas à
burguesia. Ainda que estabeleça uma crítica à
obra freudiana – “A senhora não conhece Freud?
O último grande romancista da burguesia?” (1937: 93)
–, suas peças são fortemente marcadas pela presença
da psicanálise, como é o caso de O Rei da Vela (1976).
No terreno da crítica à burguesia e utilizando Freud
com o intuito de analisar o mundo burguês, mais uma vez vislumbra-se
um modo bastante singular de escrita. Oswald novamente se apropria
de diversos pensamentos e os utiliza em sua salada antropofágica.
Benedito Nunes, por exemplo, encontra, mesmo nos escritos engajados
de Oswald, a transformação antropófaga no sentido
de que submetem o marxismo a uma interpretação própria.
(Nunes, B., 1978).
Em O Rei da Vela (1976), há uma análise dos mecanismos
de exploração econômica e cultural no país
e de como as relações sociais mantêm o poder
no outro estrangeiro ou no continuísmo imobilizador entre
a oligarquia rural e a classe dirigente de 1930. A história
desenrola-se em meio a subversões da ordem constituída
e retomadas de poder, a conchavos e pactos que denunciam o contragolpe
dos valores da tradição por trás das aparentes
conquistas populistas.
Os personagens são esquemáticos e fragmentários;
caricaturas sociais sem profundidade psíquica própria,
mas representantes do momento sócio-político do Brasil
dos anos 1930, através de quem Oswald de Andrade denuncia
a farsa por trás das cortinas das cenas sociais. Nesta denúncia,
como não poderia deixar de ser, Oswald bate novamente na
tecla dos costumes sexuais e na moralidade dúbia.
Escrito inicialmente a lápis entre 1936 e 1950, a peça
O Santeiro do Mangue (1991), dedicada “às Senhoras
Católicas, ao Exército da Salvação e
aos Michês da Eternidade”, segundo Mário Chamie
em palestra realizada por ocasião do simpósio Brasil
– Psicanálise & Modernismo (out. 2000), tem seu
texto estruturado de maneira multiforme, fragmentária, paródica,
mosaica, com poemas curtos, vinhetas, cenas e diálogos. O
discurso transgressor realiza a paródia do discurso religioso
com a poesia pornô e situações bíblicas.
Eduléia, desvirginada sob o Cristo Redentor, segue para o
Mangue e reza para Jesus das Comidas: “Senhor, dai-nos o pau
nosso de cada noite”. A religião é gozada e
se mostra às avessas na junção do comércio
do corpo promovido pela família católica burguesa.
O negócio associa-se ao patriarcado, à moral do servo
e da obediência, ligado ao capitalismo e à burguesia.
“Essa moral sexual ‘dupla’ que é válida
em nossa sociedade para os homens é a melhor confissão
de que a sociedade, que construiu suas próprias prescrições,
não acredita em sua obediência. (...) Nas presentes
condições culturais, o casamento há muito deixou
de ser uma panacéia para os distúrbios nervosos femininos;
(...) a cura das doenças nervosas decorrentes do casamento
estaria na infidelidade conjugal; porém, quanto mais severa
houver sido a educação da jovem e mais seriamente
ela tiver se submetido às exigências da civilização,
mais receará recorrer a essa saída; no conflito entre
seus desejos e seu sentimento de dever, mais uma vez se refugiará
na neurose. Nada protegerá sua virtude tão eficazmente
quanto uma doença (...)”. (FREUD, 1908: 24-5) (tradução
minha.)
Na estrutura dos poemas, prosas e teatro, a obra de Oswald está
pautada por um programa de dessacralização do lugar
da poética para a deglutição do estrangeiro.
Sua proposta-chave é a de que o sujeito, ao se defrontar
com o outro, possa suportar a angústia de examiná-lo
de perto, brincar e provar sua carne para, quem sabe, desconstruí-lo,
desconstruindo a si mesmo:
“Para desmistificar o opressor, você tem que trepar
com ele, você tem que se dar inteiramente a ele”.
(MARTINEZ CORRÊA, J. C., 1995: 208)
Em outras palavras, a singularidade do sujeito oswaldiano, em oposição
ao sujeito de correntes modernistas como a do verdeamarelismo e
do Grupo Anta, que idealizaram a construção da identidade
do brasileiro pela construção do amor à pátria
identificando-a com o Estado, baseia-se na "devoração
crítica" de todas as influências estranhas para
que, em conseqüência, se possa criar outras histórias,
capazes de engendrar novas formas de subjetividade no contexto local
e singular do país: história e cultura “sem
nenhum caráter” (Andrade, M., 1993), primitivistas,
repletas de liberdade e alegria, que Oswald pretendia exportar para
a triste Europa.
Os manifestos oswaldianos condensam seu programa. Por exemplo,
a primeira frase do “Manifesto Pau-Brasil”, de 1924
, é: “a poesia existe nos fatos” (1978). No campo
da instantaneidade e da fragmentação, os objetos perdem
a representação compartilhada e ganham nova presentificação.
É a palavra viva, “brasileira em sua época”.
A língua sem arcaísmos. Sem erudição.
Natural e neológica. A contribuição milionária
de todos os erros”. (ANDRADE, O., 1995:66)
Tratava-se de uma pesquisa da singularidade e não do patriótico:
o Manifesto Pau-Brasil é transpassado por um primitivismo
anarquista que impede pensarmos seu projeto como busca do nacional
engajado politicamente:
“Contra a argúcia naturalista, a síntese. Contra
a cópia, a invenção e a surpresa”. “É
a sábia preguiça solar. A reza. A energia silenciosa.
A hospitalidade”. (ANDRADE, O., 1995: 66)
Em defesa de sua proposta, Pau-Brasil (1995) transmutou-se no “Manifesto
Antropófago” (1978), tornando maiores as diferenças
entre ele e Mário: em vez da ação social, a
anarquia; em vez do desejo de alcançar uma síntese
do que seria o brasileiro, a insistência na divisão,
nas contradições e na desordem.
Os postulados do Manifesto denunciaram o país colonizado
que se curvara ao saber ocidental, pondo a nu a estrutura empedernida
da sociedade patriarcal, avessa a qualquer tipo de mudança.
“Deglutir tudo. Construir de novo.
Destrói, pois toda a criação vem da destruição”.
(Rev. de Antropofagia, 1929, 13:5)
Vale lembrar que a noção da antropofagia não
é criação sua; muito antes de Oswald, o Boca
de Inferno já brincara com ela:
“Que é fidalgo nos ossos, cremos nós
Que nisto consistia o mor brasão
Daqueles que comiam seus avós.
E com isto lhe vem por geração
Tem tomado por timbre em seus teirós.
Morder, aos que provêm de outra Nação”.
(MATOS E GUERRA, G., ”Soneto”, 1981: 40-1)
Oswald de Andrade retoma o tema da antropofagia de Montaigne, Hans
Staden, dos antropólogos culturais e, quiçá,
de Gregório de Matos, transposto pela leitura desviante de
Cendrars e Apollinaire, misturando a todos e radicalizando-os.
“Após a carnificina, a esperança de uma humanidade
purificada.” (Manifesto Dadá, 1918, in MENDONÇA
TELES, G., 1983:137-46)
O Manifesto Antropófago (1978) apresenta uma proposta de
devoração e mobilidade permanentes, extensiva à
lógica da composição de fragmentos, cinematográfica.
Para alcançá-la, requer-se senso crítico e
agressividade. Comer o que é estranho ao si-mesmo, eis a
estratégia; entretanto, é bom que se diga, o objeto
de devoração é muito mais o que se produz no
embate, na fricção dos corpos, cujas fronteiras entre
a interioridade e a exterioridade apresentam-se sempre fluidas e
precárias. Assim, se a antropofagia propõe a deglutição
daquilo que lhe é diferente, o bárbaro é sujeito
e objeto da ação, e sai, de cada uma dessas experiências,
um outro ele próprio. Como se pode depreender, tal movimento
configura-se de modo bastante distinto da proposta de Mário,
que pretendia um movimento passivo, em que as diferenças
entre o externo e o interno poderiam ser abrandadas, de um lado
ou de outro, pela reconstrução reformista.
A terapêutica da Antropofagia serve ao intuito de combater
a colonização do desejo, doença contagiosa
que Oswald procura tratar pela terapêutica da comida estrangeira.[26]
“O antropófago se opõe ao homem natural de
modo agressivo e radical. (...) A natureza, pensada por Oswald é
algo a ser inventado e por isso pode-se falar da ida ao homem natural
e não de um retorno”. (MUNIZ F., 1995: 109)
No Manifesto Antropófago (1978), Oswald cita Freud três
vezes e o deixa como um dos pontos de sustentação
do corpo disperso de seu texto. "Tupy or not tupy, that is
the question." (Manifesto Antropófago, 1978). O bárbaro
oswaldiano não é membro de nenhuma raça, mas
o primitivo pertencente à horda freudiana, margem da sociedade
que a tritura com os dentes da estranheza. E tal como manda sua
receita, Oswald usa de elementos com texturas diversas na colagem
que faz a partir da psicanálise. Seu Freud traz marcas dadaístas,
nietzscheanas e até socialistas. Com efeito, a devoração
foi tão radical que se diz até que ele pôs em
sua casa um divã e analisava seus convidados (ARAÚJO,
O. T., 2000: 24-5). Se é verídico ou não, aqui
pouco importa. O certo é que, tal qual os surrealistas, Oswald
de Andrade achava que a psicanálise devia ser instrumento
exclusivo dos poetas.
Pesquisadores do modernismo afirmam ocasionalmente que o conhecimento
de psicanálise de Oswald é, se tanto, superficial;
afinal ninguém sabe se realmente ele foi um leitor de Freud
ou se apenas ouviu falar de seus textos. Em geral, o que se vê
é uma crítica bastante freqüente de que não
lia autor algum, que nunca teve uma biblioteca que o comprovasse
– seus poucos livros estão dispersos, boa parte na
UNICAMP. Diz-se que aprendia através do relato de outros:
toda vez que queria saber sobre algum livro, procurava quem o conhecesse
e passava a noite ouvindo e discutindo sobre o assunto. “Só
podemos atender o mundo orecular”, costumava dizer numa deglutição,
quem sabe, da tradição oral popular. (Manifesto Antropófago,
1978). Transgressor que lida com o imediato, o talvez leitor de
oitiva de Freud, se o transformou, produziu bom suco.
“Viva Freud e nosso Padrinho Padre Cícero!”
(in: Revista de Antropofagia, 15, 2a. dentição, 08/1929,
Reedição fac-símile, 1975)
Luiz Tenório de Oliveira Lima[27] entendeu a Antropofagia
como o modernismo em sua versão mais militante e radical,
em que a História do Brasil e Totem e Tabu (Freud, 1913)
dão nova fundamentação à questão
da identidade no modernismo dos anos 1920, e também à
criação de condições para nosso auto-reconhecimento.
“A Antropofagia de Oswald de Andrade foi o momento em que
o Brasil percebeu que essa não era a História de um
país, era a História de um Recalque”. (CARNEIRO,
G., 1995: 61)
A antropofagia teve ligações estratégicas
com a psicanálise e buscou, com Freud, a crítica ao
catolicismo. Segundo ela, acabaríamos por encher a pança
de nossa herança cultural ambígua, recheada de seu
imaginário poético inconsciente e misterioso, e também
de seu poder recal(citrante)cante que aliou a catequese aos Governos,
o jesuíta ao militar.
“Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos
postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos
da psicologia impressa”. (ANDRADE, O., Manifesto Antropófago,
1978)
É fundamental que se observe, contudo, que, para Oswald,
o inconsciente está atrelado à sexualidade recalcada,
enquanto o processo antropofágico constitui o ser do antropófago
como uma consciência primitiva, resultado da luta com as forças
do estranho que selam um novo signo no corpo antropófago.
“Considerando essa história da evolução
da pulsão sexual, poderíamos também distinguir
três fases culturais: uma primeira, na qual a atividade da
pulsão sexual é livre, também para além
dos limites da reprodução; uma segunda em que tudo
da pulsão sexual é reprimido, exceto quando serve
ao objetivo da reprodução; e um terceiro no qual só
a reprodução legítima é admitida como
meta sexual. A esse terceiro estádio corresponde a moral
sexual ‘civilizada’ da atualidade”. (FREUD, 1908:19-20)
(tradução minha.)
A operação de devoração do pai totêmico
concebida por Freud e que precede à formação
do ideal de ego, assemelha-se ao trabalho de luto: é a substituição
do objeto perdido pela identificação com seu traço.
Ao fazer a análise do Manifesto Antropófago de Oswald
(1978), Otávio Souza indica a impossibilidade de se constituir
um significante de reconhecimento que constitua a identidade de
um povo através de uma estratégia que produz sempre
a diferença, ainda mais quando a produção da
antropofagia oswaldiana, em vez de representação,
apresenta-se como pura atividade pulsional:
“O caso da antropofagia se apresenta como uma variante do
quadro que acaba de ser descrito: o traço do canibalismo
simbólico não é produto da devoração,
mas é, ele mesmo, devorador. Enquanto o modo de operação
do ideal de ego é o da representação para um
conjunto de significantes em relação ao qual permanece
em posição de exterioridade, o modo de operação
do canibalismo simbólico é o de só se relacionar
com a exterioridade para devorá-la e incluí-Ia. Além
disso, é de se notar ainda que enquanto o primeiro é
produto da atividade pulsional, o segundo é atividade pulsional
em si mesmo. (...)” (SOUZA, O., 1994: 185) [28]
A antropofagia como traço cultural, associada apenas a um
modus operandis, de fato propõe uma solução
radical. Nesse espaço literário se evidenciaria um
primitivismo que, mais do que o sujeito do inconsciente ou ego,
apontaria para o que Foucault chama de pensamento de fora (Foucault,
1990), uma dimensão autônoma e primitiva, oração-sem-sujeito
da ordem da produção pontual e instantânea,
capaz de manter uma mobilidade que confere às formas de subjetivação
um devir múltiplo e plural. Em vez do significante, a permanente
devoração refere-se à lógica do signo
e da pulsionalidade; refere-se, em especial, ao registro erótico
primordial, território anterior às fronteiras em que
a separação entre os registros internos e externos
se fazem apenas na instantaneidade.
“[O] convite à Antropofagia de Oswald requer (...)
[que] ao invés de se exteriorizar o interior, se interiorizar
o exterior”. (SANTOS, R. C., 1995: 100). ”(...) É
preciso mesmo exteriorizar o exterior, o exterior estruturante.
(...) É necessário romper com a antinomia entre dentro
e fora exprimindo, difundindo, espalhando o conhecimento para criar
a necessidade, da qual nascerá a ação forte:
a fome”. (idem: 106)
No ato antropofágico, o corpo disperso nos órgãos
iluminados pela pulsão móvel e instantânea é
o lugar de onde formas de subjetivação podem construir-se.
“Encontrar o corpo é a devoração pura”.
A alta antropofagia é o contraponto da devoração
acrítica e da domesticação do desejo, apresentando-se
como filosofia da diferença, da dispersão, do estranho
e da mobilidade intermitente.
Além disso, a escolha do índio antropofágico
revela a idéia básica do manifesto: transformar o
tabu – o excesso, a virulência, o sexo, esse outro saber
seqüestrado – em totem, isto é, marca mítica,
selo de entrada e possibilidade de criação. Para a
Antropofagia, pegar a marca primeira, proibida pelos dogmas e degluti-la,
poderia promover o brasileiro novo, moderno-modernista. A proposta
oswaldiana seria, pois, que a mobilidade e a desconstrução
incessantes pudessem ser nossas características, para não
sermos pegos novamente pelo servilismo. Um mito, talvez, da eterna
reinvenção: "Só me interessa o que não
é meu. Lei do homem. Lei do antropófago" (Andrade,
O., 1978:13).
O Manifesto Antropófago e Le Collège de Sociologie,
na verdade, como inúmeros outros movimentos e autores contemporâneos,
começam a considerar a ruptura, a descontinuidade, não
só como ferramenta mental e uma categoria intelectual, mas
também como uma exigência histórica. Desde esse
ponto, a tradição pode significar duas coisas distintas:
ou uma transmissão regular de valores ou o contato problemático
com um solo rugoso. A partir de então, essas duas maneiras
de experimentar a tradição emblematizarão,
respectivamente, o pensamento conservador e o transformador. A opção
de Oswald e Bataille é indiscutível. (COSTA LIMA,
1991: 31)
2.3. Outros campos modernistas
“O modernismo dá o primeiro passo para a interdisciplinaridade;
o segundo é dado pelo tropicalismo”. (ANCONA LOPEZ,
T., em comunicação pessoal no IEB-USP, 24.11.2000)
2.3.1. As Ciências Sociais
Como apontamos anteriormente, no início do século
XX, o entrelaçamento entre literatura, brasilidade e ciência
manteve-se alinhado à tradição de ensaios sobre
o Brasil, principalmente de base sociológica[29]. A permanência
na década de 1920 das relações da medicina,
do direito e das ciências sociais com a literatura acabaria
acarretando diferentes visões a respeito da subjetividade
humana e dos movimentos sociais.
Embora a maioria dos membros dos grupos científicos continuasse
reafirmando a escrita rebuscada e retórica, a mudança
de postura de uma literatura específica em relação
ao que era local e a ruptura que isso promoveria no nível
da linguagem ganharia algumas adesões. Enquanto que a idéia
de trazer a modernidade para iluminar o país representara
centrar o sujeito na consciência e na cultura ocidentais,
isto é, na linearidade e no indivíduo, localizando
a Europa como seu ponto convergente, o movimento modernista promoveu
“uma inversão dos eixos”, “onde os reinos
do eu e da razão são postos em questão”
e a dispersão se instaura. (BIRMAN, 2000: 113-7).
Iniciou-se, portanto, um movimento para questionar a consciência
e a unificação nacionais, sendo denunciados os seqüestros
que mantinham o pensamento brasileiro colonizado e imóvel.
Tal processo produziria a abertura para uma visão sobre o
país marcada por forças econômicas, políticas
e sexuais como produtoras de verdades em um universo de possibilidades
referidas ao trio indicado por Oswald (1992): Marx, Nietzsche e
Freud.
Vale frisar que essa visão não se limitou ao campo
da literatura brasileira, abrindo-se para todos os campos da interpretação
sobre o Brasil e/ou o brasileiro.
“mais do que uma escola literária ou mesmo um período
de vida intelectual, o modernismo foi, no meu entender, toda uma
época da vida brasileira, inscrito num largo processo social
e histórico, fonte e resultado de transformações
que extravasaram largamente seus limites estéticos”.
(MARTINS, W. 1967:9)
A busca de uma verdade do momento, desgarrada dos modelos de verdade
do passado, abriria uma nova via para parte dos intelectuais da
época: tratava-se, antes de tudo, de descrever a fluidez
dos acontecimentos que repercutiam na realidade social do país
tendo o desejo como direção. Ora, vimos que a literatura
havia se ligado a diversas profissões. Naturalmente, portanto,
o surgimento de um novo modo de fazer falar a partir do presente
ocorrido em seus domínios implicaria uma espécie de
contágio em diferentes campos de interpretação
do país. Assim, é bastante plausível a hipótese
de que alguns intérpretes de nossa realidade tenham sido
pegos pelo sarampo modernista.
Assim, os intérpretes modernistas passaram a pensar a cultura
e sua história não mais como um quadro definido por
características geográficas e biológicas, mas
sim como processos sociais. Vale dizer, o retorno ao passado era
regido principalmente pelo vislumbre de outros presentes, de novos
futuros, isto é, o tempo era percebido muito mais como intensidade
e irradiação que como cronologia linear, ampliando
as discussões em torno das tradições culturais
e das várias tendências que serviram de matéria-prima
para as interpretações sobre o país. Assim,
surgiriam obras com interpretações inéditas
e que soariam revolucionárias: entre elas, as de Caio Prado
Jr. (1942), Gilberto Freyre (1999), Sérgio Buarque de Holanda
(1994) e Roberto Simonsen (1978).
Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo, tinha um estilo
singular, um “ritmo despreocupado e às vezes sutilmente
digressivo” (DIAS, M.O.S., 1988: 63), que se tornou presente
em uma obra de difícil classificação, combinando
elementos de literatura, história social, psicologia, psicanálise,
sociologia, etnologia e antropologia. O “grandioso e desordeiro
Povo Brasileiro” (ANDRADE, O., 1972c: 111), sempre seqüestrado,
expulso da memória nacional, torna-se o principal personagem
das interpretações do historiador-sociólogo-escritor-modernista,
que tinha como princípio
“(...) romper com todas as diplomacias nocivas, mandar pro
diabo qualquer forma de hipocrisia, suprimir as políticas
literárias e conquistar uma profunda sinceridade pra com
os outros e pra comigo mesmo”. (HOLANDA, S. B., 1996: 224)
O compromisso levou Sérgio a abandonar o movimento modernista
literário e suas idéias de construção
de uma literatura brasileira, encaminhando-se para as ciências
sociais.
“nossa arte não surgirá, é mais que
evidente, de nossa vontade, nascerá muito mais provavelmente
de nossa indiferença”. (HOLANDA, S. B., 1996: 226)
O perigo era a idéia “abominável” de
construção como “panacéia” para
o país. Para os modernistas primitivistas como Oswald, Prudente
de Moraes Neto, Couto de Barros, Antônio Alcântara Machado
e o próprio Sérgio, o projeto de construção
que se desenhava no horizonte literário significava o (r)estabelecimento
de uma ordem importada do Velho Mundo que “escamotearia”
a liberdade, emudecendo a estranheza da novidade modernista. Sérgio
acreditava que tal panacéia nos estava sendo oferecida em
bandeja de prata pelos “acadêmicos modernizantes”
(Holanda, S. B., 1996: 226-8), como Tristão, Ronald, Graça
Aranha e Guilherme de Almeida. Afastando-se da literatura, ele então
denuncia a existência de modernistas da ordem em meio aos
modernistas fora da ordem (idem).
“O fato é que há de um lado os que representam
um espírito de liberdade avesso às limitações.
E há os do lado oposto. (...) Ora, nós precisamos
de homens mal-educados”.
(MORAES NETO, P, In: A Manhã, 30/10/1926).
Sérgio não foi um caso isolado de modernismo em outros
campos de saber. A obra de Gilberto Freyre também assinala
interpretações modernistas: suas propostas foram perpassadas
pelo desejo de descontrução do conhecimento tradicional
a respeito da realidade local. Em vez do determinismo geográfico,
Freyre apresentou uma atitude irreverente e a demolição
dos tabus formais. Um autor como Freyre, visto freqüentemente
como conservador, apresentou uma crítica social radical por
meio do atrevimento de suas interpretações. De fato,
Freyre realizou, em sua época, uma importante desconstrução
da formação social brasileira oficial, passando a
analisar o branco, o índio e o negro através de categorias
não mais biológicas, mas sociológicas e antropológicas,
carregadas de virtualidades anarquizantes e democratizantes. (GOMES,
N. L. In: Schwarcz, L. K., M. & Gomes, N. L. (orgs.), 2000:
149-172)
Como em Sérgio, podemos verificar que o método de
pesquisa e a escolha de interpretação de Freyre foram
resultantes da perda dos limites entre a sociologia, a antropologia,
a história e a literatura, e refletiram seu interesse por
uma interpretação do cotidiano do brasileiro, de maneira
inteiramente nova para os parâmetros da época.
“Em verdade, pode-se arriscar a idéia de que a interpretação
modernista de Gilberto Freyre constrói não uma metáfora
sobre a cultura brasileira, mas uma alegoria, isto é, uma
totalidade aberta a múltiplos sentidos”. (VELOSO, Mariza,
12/08/2000)
2.3.2. Psicanalistas modernistas
“Onde era o Id, será o Ego.
Onde era sertão, será Brasília”.
Durval Marcondes
(apud Lobo, R., 1994)
Entre os primeiros médicos interessados no pensamento psicanalítico
havia um grupo importante interessado na sua aplicação
para a análise da literatura.
“O doutor Luís Ribeiro do Vale, na sua tese de doutoramento
em 1918 (ano letivo de 1917) refere-se ao meu livro – Policarpo
Quaresma. O título é ‘Psicologia Mórbida
na Obra de Machado de Assis.’ ”. (BARRETO, L., 1998:b
138)
Nessa área, os estudos foram numerosos. Entre eles, destacam-se
os de Luís Ribeiro do Vale (Certos Escritores Brasileiros
Psico-Patologistas - 1934), os de Américo Valério
(Machado de Assis e a Psicanálise - 1930), os de Durval Marcondes
(O Símbolo Estético na Literatura - 1952) e os de
Osório César, (Contribuição ao estudo
do simbolismo místico dos alienados - 1927).
O uso da psicanálise para novos fins afastava esses médicos
da perspectiva organicista, apesar da utilização de
técnicas advindas dessa escola continuarem a ser bastante
difundidas nas práticas da época. Tratava-se então
de uma apropriação da psicanálise que, apesar
de advinda do meio médico promoveu uma certa ruptura com
suas práticas. Neves-Manta foi um dos pioneiros que buscavam
a psicanálise como meio de ruptura:
“(...) eu me permito (...) trazer Freud à baila. E
jogá-lo, renovacionário, de encontro a Kraepelin.
E concluir afinal mais inclinado aos aforismos sintéticos
do mago vienense do que a avalanche atravancada da velha sabedoria
conservadora”.
(NEVES-MANTA, I. de L., 1932: 72)
Além dele, outros médicos se apoiaram na psicanálise
para buscar modos mais eficientes no auxílio à população
mais desvalorizada socialmente e à sua fala:
“(...) Odilon Galotti no Rio, James Ferraz Alvim em São
Paulo e Ulysses Pernambuco, em Recife (para citar alguns nomes,
reconhecidos pela própria LBHM como representantes da psiquiatria
brasileira) orientavam suas pesquisas numa direção
totalmente oposta (...)”. (COSTA, J. F., 1989: 109) [30]
O novo instrumento de trabalho, aliado à busca de ruptura
com a tradição e o interesse pela produção
artística marcaram um forte laço entre os campos:
enquanto os médicos liam os textos de Badouin, os modernistas
reproduziam em suas revistas os trabalhos desses autores. É
assim que podemos encontrar Iago Pimentel traduzindo As Cinco Lições
de Psicanálise de Freud numa revista modernista (In: A Revista,
(3) 1925:14) e Ascânio Lopes escrevendo sobre “O papel
do instinto no mundo” em outra (revista Verde 1925, Apud:
Exposição BRASIL, Modernismo & Psicanálise,
MASP, 2000).
Mas o discurso desses estudiosos permanecia sem a aceitação
necessária para expandir-se, quer seja dentro da comunidade
médica, quer seja na intelectualidade local. Franco da Rocha[31]
serve como um bom exemplo das dificuldades enfrentadas para driblar
as resistências contra a implantação da psicanálise
no meio médico. Ele sofreu fortes retaliações
por causa da ousadia de suas exposições sobre a sexualidade,
chegando a gerar na congregação da Faculdade de Medicina
uma certa apreensão em relação a sua sanidade
mental. Havia, de fato, uma forte resistência à psicanálise
na sociedade médica da época.
Durval Marcondes foi aluno de Franco da Rocha e já em 1919,
ainda estudante, encantara-se pela psicanálise. Através
do contato com outro antigo professor, Raul Briquet, conheceu em
1924 o International Journal of Psychoanalysis e resolveu aventurar-se
pela psicanálise, passando a exercê-la autodidaticamente,
quando Franco da Rocha já estava aposentado.
“Comecei então a ouvir (...) os pacientes do hospital
(...) (In: SAGAWA, 1980: 113)”. “(...) eu me colocava
diante dos pacientes numa situação receptiva. Os pacientes
não estavam acostumados a serem recebidos com (...) suas
queixas“. (In: SAGAWA, 1981: 87)
Durval também sofreu resistências ao seu trabalho,
sendo continuamente desencorajado por seus colegas de hospital a
analisar os pacientes internados pela psicanálise, porque
para a maioria dos médicos conversar com os pacientes era
uma perda de tempo. (MARCONDES, D., In: SAGAWA, 1981: 86)
Em 1926 ele redigiu o livro O simbolismo estético na Literatura
– ensaio de uma orientação para a crítica
literária baseada nos conhecimentos fornecidos pela psycho-analyse
(1952), tese de concurso para a cátedra de literatura no
ginásio do estado, onde destacou a importância do simbolismo
na obra literária, por este levar às últimas
conseqüências o “pensamento simbólico primitivo”(MOKREYS,
1993:14), e apontou o valor da interpretação psicanalítica
para dar à crítica literária profundeza e valor
científico (idem: 33). Naquele trabalho, Marcondes ressaltou
que o estudo analítico do simbolismo estético teria
o mesmo valor psicológico da interpretação
dos sonhos e que caberia à psicanálise:
“analisar a imagem estética e procurar o complexo
inconsciente a que ela está ligada, desvendar as verdades
latentes a que ela se prende na psique do artista”. (MARCONDES,
D., 1952: 13)
Durval Marcondes não foi apenas médico, mas também
escritor e poeta modernista, comprometido com o projeto dos artistas
e intelectuais paulistas, empenhados numa revolução
estética e cultural. As relações de Durval
Marcondes com o grupo de poetas e escritores do modernismo eram
muito próximas, tendo inclusive publicado o poema “Sinfonia
em Branco e Preto” no primeiro número da Revista Klaxon
de agosto de 22 (1972), famosa revista literária modernista,
ao lado de poetas como Mário de Andrade, Oswald de Andrade,
Luiz Aranha e de Sérgio Buarque de Holanda.
Tal disposição nos leva a supor que a abertura de
Durval Marcondes para a psicanálise foi facilitada por sua
relação com a literatura em geral e, em especial,
pela sua inserção na estética modernista, o
que nos leva a hipótese desta ter sido uma grande incentivadora
para o aprofundamento nos temas psicanalíticos e, por conseguinte,
para seu contato com Franco da Rocha. De qualquer modo, seu interesse
encontrava-se fortemente entrelaçado pelas letras e pela
psicanálise.
Mas Durval expandiu-se para além do campo da crítica
literária, indo experimentar a psicanálise em sua
prática, “o que lhe valeu a alcunha de excêntrico
e esquizóide”(Apud. MOKREJS, 1993:51). Os resultados
de sua clínica foram apresentados nas reuniões da
Associação Paulista de Medicina e os casos publicados
na Revista da Associação Paulista de Medicina (de
1932 a 1940), o que representou uma novidade para o campo de psicanálise
da época. Diversas vezes, ainda segundo Mokrejs (1993: 250),
Durval teve sua palavra cassada nas reuniões para que não
falasse de suas “tolices”.
É do entrelace entre os movimentos de resistência
e a afirmação da psicanálise na cultura e na
arte que, em 1927, instituiu-se a primeira Sociedade Psicanalítica,
em torno de escritores, artistas plásticos, jornalistas,
escultores, médicos e professores, que buscavam, a partir
de referências bastante distintas entre si, novos modos de
compreensão da realidade social. Para que se tenha uma idéia
da amplitude da proposta, segue abaixo uma lista dos que se inscreveram
como sócios na primeira reunião.
1927 – 1a. Sociedade Psicanalítica da América
Latina – .Ata da Seção de Fundação:
Presença dos seguintes: Antônio Ferreira de Almeida
Jr. [médico, advogado, educador], A. de Sampaio Dória,
Antônio Roldão Lopes de Barros [médico, advogado,
educador] Antônio Paim Vieira [médico, artista plástico],
Cândido Motta Filho [jornalista, juiz de paz, advogado do
PRP, preenchendo as fileiras do verde-amarelismo], César
Martinez, Durval Marcondes [psiquiatra, escritor, pintor], Fausto
Guerner, Flamínio Fávero [prof. de medicina legal],
F. Marcondes Vieira, Franco da Rocha [psiquiatra], Getúlio
de Paula Santos, James Ferraz Alvim [psiquiatra], José Lopez
Ferraz, Lourenço Filho [educador], Maurício Pereira
Lima, Menotti Del Picchia [escritor], Nestor Solano Pereira, Osório
César,[psiquiatra e crítico de arte, médico
do hospital do Juqueri, trabalhou com psicanálise para a
interpretação de alienados do hospital através
de sua arte] Pedro de Alcântara, Raul Briquet [prof. de obstetrícia,
ensaísta], Samuel L. Ribeiro, Thomé Alvarenga, Wladimir
Kehl. (Noticiário da Sociedade Brasileira de Psicanálise,
Sessão de Fundação, São Paulo, 24.11.1927).
Sua inauguração aconteceu no Lyceu Nacional Rio Branco
de São Paulo e era constituído pelo grupo paulista
– criado em novembro de 1927 – e pelo grupo do Rio de
Janeiro – criado em junho de 1928. O centro paulista tinha
Franco da Rocha como diretor e Durval Marcondes como secretário,
enquanto que o do Rio tinha como presidente Juliano Moreira e como
secretário Júlio Porto-Carrero. Assim, foi apenas
em 1927, com pelo menos dez anos de Modernismo já em plena
difusão nas letras e na cultura e sua íntima relação
com a psicanálise, que se formou a primeira Sociedade de
Psicanálise em São Paulo. O estabelecimento da sociedade
de 1927 teve como objetivo primeiro compreender e explicar o psiquismo
humano, bem como o de difundir a psicanálise na cultura,
sem que necessariamente estivesse envolvida a psicanálise
como uma prática terapêutica (Revista Brasileira de
Psicanálise. I[1], 1928: 109).
Havia um interessante intercâmbio entre os temas da psicanálise
e professores universitários, médicos e artistas,
como o poeta Menotti del Picchia, o jurista Cândido Motta
Filho e o educador Lourenço Filho. A variedade de profissionais
e perfis marcou um pensamento pluralista que torna bem plausível
a suposição de que o projeto dessa sociedade incluísse
um outro, ainda mais amplo, relacionado à questão
central da época: o Brasil (re)descoberto pelo modernismo.
Além dos membros que foram citados na primeira reunião,
a Sociedade Psicanalítica foi ponto de encontro de muitos
intelectuais e socialites. A alta posição social dos
que a freqüentavam auxiliou na continuidade do processo de
implantação e difusão da psicanálise.
As palestras dessa sociedade eram consideradas como um verdadeiro
acontecimento social, saindo em diversas revistas de moda e jornais,
e, sendo freqüentadas, por Olívia Guedes Penteado, que
foi quem criou o Salão de Artistas de Arte Moderna, Tarsila
do Amaral (artista plástica e uma das mulheres de Oswald),
Paulo José de Toledo (Academia Brasileira de Letras), Renato
Jardim (educador), entre outros.
Nascia, desse modo, uma inserção singular da psicanálise
no Brasil. É preciso, entretanto ressaltar uma certa rivalidade
entre alguns modernistas e a nova sociedade psicanalítica[32].
Os conflitos com os modernistas da literatura permite a suposição
de que seu modelo de psicanálise não estivesse produzindo
uma ruptura tão radical quanto aquela que propunham.
De fato, os primeiros psicanalistas, ao invés de seguirem
a via freudiana que buscava o estatuto da criação
poética nos textos, freqüentemente escolheram referências
que os encaminharam para o uso da técnica terapêutica
às obras literárias, o que direcionou seus trabalhos
teóricos para a psicobiografia, isto é, para um “tratamento”
da história dos escritores como caso clínico. Tal
encaminhamento implicava o entendimento de que a obra expressava
a patologia do autor, ao invés de se abrir para outros universos
acerca do processo de criação e de produção
de subjetividade, temas caros aos grupos que mais fortemente buscaram
romper com os modelos do escrever e, principalmente, do pensar.
O desacordo, então, dizia respeito ao sentimento de ameaça
à novidade que a psicanálise poderia fornecer, na
medida em que as bases de uma crítica literária como
aquelas propostas pelo grupo psicanalítico, levavam o intérprete
a pensar a loucura criadora a partir de um saber racional que substituía
a estranheza da obra. Assim, é de se pensar que o higienismo,
impregnado em muitos dos que se propunham romper com a tradição
psiquiátrica, conservou os restos de uma configuração
hereditarista transposta para a psicobiografia.
Aqui, entretanto, vale uma ressalva: do mesmo modo como os modernistas
das artes, os primeiros psicanalistas da Sociedade eram sujeitos
de sua época, expostos a um movimento inconstante de idas
e vindas na busca pela ruptura com o passadismo. Se nem sempre apresentaram
um trabalho de ruptura com o saber médico e com o pensamento
mais tradicional, há, todavia, uma radicalidade na busca
de trazer a psicanálise e difundi-la no âmbito social,
bem como na sua aventura de auto-conhecimento. Sob este ângulo,
poder-se-ia dizer que ambos traziam a postura crítica e de
vanguarda.
De fato, neste primeiro momento de entrada na cultura, a psicanálise
– quer vindo pelas mãos de um Oswald, quer advinda
das discussões da sociedade fundada por Durval Marcondes,
vinha fornecer ao pensamento brasileiro um novo modo de explicar
a categoria de sujeito que se aliou aos sistemas até então
existentes de busca de respostas para as questões sobre a
identidade brasileira, distanciadas dos muros das ciências
reconhecidas.
Alguns dos membros da Sociedade Psicanalítica buscavam claramente
uma ruptura com as maneiras tradicionais do pensamento médico:
Osório César, por exemplo, implantou um trabalho importante
de análise da expressão artística dos alienados
do Juqueri. Escreveu Contribuição ao Estado do Simbolismo
Místico nos Alienados (1927) e muitos artigos. Aqui, irei
privilegiar o livro A Arte nos Loucos e Vanguardistas (1934), onde
examina o futurismo como resultado dos anseios por novas emoções
que todos temos, o que se explica
“(...) porque somos constantemente despertados por nossas
influências ancestrais. Assim, vemos os nossos primeiros desejos,
recalcados na infância pelos preconceitos morais, se deslocarem
agora do subconsciente, para se manifestarem nas produções
dos artistas de vanguarda”. (CÉSAR, O., 1934: 12) [33]
Em 1928, Durval fundou a primeira Revista Brasileira de Psicanálise
(de apenas um número) onde nos oferece o testemunho de que,
nessa época, muito se falava de psicanálise no país,
embora poucos houvessem que a estudassem e a utilizassem na prática,
havendo contra ela uma grande resistência. (Revista Brasileira
de Psicanálise, 1928: 109)
Neste volume, Durval publicou, ainda, o artigo “Um Sonho
de Exame – Considerações sobre A Casa de Pensão,
de Aluísio de Azevedo” (Revista Brasileira de Psicanálise,
1(1), 1928: 89-100), onde analisou o sonho de Amâncio sobre
o medo dos exames como relacionado à angústia infantil
de castração advinda do complexo edípico.(idem
:98)
Esse grupo de psicanalistas participa, portanto, de um movimento
dinâmico contemporâneo ao modernismo, sem deixar transparecer
claramente que o modernismo pertence ao mesmo movimento de ruptura
com a psiquiatria. Será que em algum momento essa ligação
foi reconhecida? Ao contrário, a história da psicanálise
oficialmente contada parece apontar duas vias: ou a contribuição
dos modernistas fica de fora, ou então – num máximo
de concessão – apresenta-se a contribuição
da psicanálise para a literatura. Fica assim seqüestrada,
improdutiva, essa terceira via: toda uma contribuição
importante nos primórdios da história do movimento,
cujo desaparecimento será passado em revista adiante.
3.0. A Especialização
"Autodidata, no Brasil, é sinônimo de amador.
Eis por que emprego essa palavra com certa temeridade, pois estamos
atravessando uma época em que tudo se está profissionalizando,
até mesmo o exercício das letras."
(CORRÊA,N., 1981: 82.)
A década de 1930 foi o cenário de uma incorporação
passiva. Em meio a uma série de acontecimentos que pareciam
reorientar o país no sentido de um desenvolvimento voltado
para nossa autonomia, os norte-americanos furtivamente se tornariam
o modelo de modernização, reafirmando o caráter
dependente da cultura no Brasil.
As profundas mudanças estruturais na política e o
importante incremento industrial se juntaram a um novo tipo de pensamento:
a valorização do especialista e da técnica.
A crença no lema “how-to-do” americano sobreposto
à divisão do trabalho, com que o sistema educacional
brasileiro se identificava, produziria uma universidade de cunho
exclusivista e autoritário que perderia seu caráter
generalista. Segundo Djacir Menezes (1969b), tal proposta trazia
em seu bojo a meta de formar intelectuais sem cultura geral e sem
consciência do processo educacional, privilegiando o aspecto
quantitativo da cultura em detrimento de seu caráter qualitativo.
Nessa perspectiva, pode-se considerar que a USP não foi
fundada nos anos 1930 por acaso: ainda que inicialmente ela tenha
surgido sob as promessas de incremento da pesquisa e desenvolvimento
do pensamento crítico, e que seu motor buscasse modificar
a representatividade dos tradicionais padrões de ensino francês,
ela pouco a pouco correspondeu à criação de
uma instituição em que se pretendeu ensinar técnicas
e adotar regras específicas, de modo a criar um espaço
que desse suporte ao discurso tecnicista como estratégia
de ascensão social. O caráter quantitativo identificado
por Menezes foi o resultado de um pensamento que entendeu a modernização
como um processo de ordenação, homogeneização
e progresso material.[34]
No âmbito da literatura, essa divisão de trabalho
significou a perda de espaço em relação não
apenas ao objeto de seu campo, mas também ao prestígio
cultural que possuía. Vale dizer, a literatura passou a ser
alijada dos campos que até então eram considerados
como seus. A ficção, que no século XIX e início
do século XX era tida como índice de conhecimento
da realidade do país e centralizava os diversos universos
profissionais pelo apelo à forma e pela missão que
lhe cabia, sofreu a retração de seus domínios,
perdendo espaço para a ciência. Mudou de status: de
“literatura de incorporação” passou a
ser “literatura de depuração”. (CÂNDIDO,
2000:120)
3.1. ... e o Feitiço virou contra a Feiticeira
Com o incremento do processo de industrialização
e a ligação crescente ao modelo americano (parece
que ouvimos dizer: “já que o modelo europeu não
serviu porque era o do colonizador, quem sabe se copiarmos agora
a colônia que ‘deu certo’?”), houve uma
separação, cada vez mais radical, entre os campos
da ciência e da estética. Enquanto a ciência
ganhou terreno através de processos de especialização
técnica e tecnologia, a estética passou a ser vista
como parte integrante do terreno ficcional/ilusório, não
lhe sendo mais reconhecida a participação na criação
de uma nova realidade: o processo estava agora nas mãos do
deus da ciência, do sonho do progresso e do populismo[35].
A psicanálise não teve dias melhores. A segunda fase
do modernismo no Brasil se acompanha da psicanálise apropriada
pela medicina, pela psiquiatria e pela Liga Brasileira de Higiene
Mental: em nome da ordem e do progresso do povo e da nação,
base do projeto nacional, a legitimidade do discurso psicanalítico
ganhou contornos cientificistas em detrimento da versão mais
anárquica e subversiva difundida pelos artistas da primeira
fase modernista e pela primeira sociedade psicanalítica.
Esse percurso, por sua vez, pareceu incentivar e fundamentar a especialização
da psicanálise como prática científica universal,
que deveria ser estudada e aprendida/copiada em função
do “verdadeiro” discurso psicanalítico, o que
promoveu, paradoxalmente, uma transformação radical
das interpretações do texto freudiano.
Se a difusão da psicanálise na medicina foi bastante
limitada inicialmente, apresentando muita resistência ao seu
reconhecimento, paulatinamente, a psicanálise foi utilizada
como terapêutica pelos higienistas e psiquiatras, que, entre
outras utilidades, descobriram nessa disciplina um novo meio de
subsistência fora dos hospitais psiquiátricos. A psicanálise
passaria a ser dirigida para um público-alvo de grande poder
socioeconômico, levando a uma melhoria do status quo dos psiquiatras
no país. Em outras palavras, o poder econômico e o
reconhecimento social adquiridos pelos psiquiatras por meio desse
novo instrumento terapêutico foram um dos motores da difusão
da psicanálise no meio médico brasileiro.
O viés de um discurso que, pela via do inconsciente, possibilitou
a transformação do homem natural referido à
terra, ao clima e à geografia do século XIX em um
homem-animal-adestrável justifica o uso da psicanálise
como meio de controle social e de educação preventiva.
Ele ingressa com destaque em amplos estratos sociais, incorporando-se
a diversas disciplinas como a medicina, (parte da) literatura, educação
e o direito, e também à regulação dos
costumes que buscava reformar a sociedade a partir das idéias
positivistas de ordem e progresso.
O assentamento da psicanálise em sua versão adaptativa
já se entremeara nas reuniões da 1a. Sociedade de
Psicanálise promovendo ruídos na comunicação
entre o movimento psicanalítico de 1927 e o pensamento modernista
radical, uma vez que a apologia estética do primado soberano
do inconsciente deste último opunha-se francamente aos ideais
da Liga Brasileira de Higiene Mental.
Durval Marcondes deu o segundo passo, decisivo, em 1930, afastando
ainda mais o movimento psicanalítico da estética:
apagou as luzes da primeira sociedade de psicanálise porque,
segundo ele, “a maioria dos membros não estava interessada
em se tornar psicanalista” (MOKREJS, 1993: 54, 57), ou seja,
fez valer a suposição de que o empreendimento inicial
da Sociedade marcado pelo interesse na troca transdisciplinar de
conhecimentos era produto de uma sociedade sem fins objetivos.
“Após funcionar por muito tempo, promovendo sessões
científicas e conferências públicas, deixou,
afinal, de reunir-se, o que não significava ter desapparecido,
mas apenas ter entrado num período de inactividade. Ella
poderá, em qualquer momento, reorganizar-se, uma vez que
os estudiosos assim o queiram (sic)”.
(MARCONDES, D., 1936:8)[36]
Suas justificativas também se apoiavam em sua correspondência
com Freud[37]. Segundo Durval Marcondes, Freud fizera “um
apelo para que nós, daquele primeiro grupo brasileiro por
mim organizado, nos interessássemos pelo seu reconhecimento
pela Internacional[38] ” (MARCONDES, D. in: SAGAWA, R., 1994:
15-28). De fato, esse reconhecimento consta na revista oficial da
IPA nas edições de 1929 (v. 10 :515) e 1931 (v.12:
510). O contato com Max Eitington em 1930 culminaria na tentativa
de trazer didatas europeus da IPA para formar os psicanalistas no
Brasil.
Pouco a pouco, os artigos de Durval Marcondes demarcam um novo
campo de interesse. Se em 1928 seu artigo para a primeira Revista
de Psicanálise enaltecia a contribuição da
literatura para desvendar o mecanismo do inconsciente, seus textos
posteriores estão centrados na apresentação
de resultados psicoterápicos (1930), fenômenos experimentais
(1932), progressos “definitivos e confiáveis”
(1935), bem como reflexões para o emprego da psicanálise
na medicina e na higiene mental (1933).[39]
Simultaneamente, o movimento psicanalítico dirige-se rumo
à institucionalização. Os membros que se mantiveram
unidos a Marcondes após o fechamento da primeira sociedade
buscaram na especialização científica as bases
para uma prática regulada pelas lógicas de adaptação;
um discurso de cunho moral e controle social que se apoiou não
só na psiquiatria, como também na pedagogia, nas ligas
de higiene e saúde públicas e na universidade.
Virgínia Bicudo é um nome importante na delimitação
dessas transformações porque, sem ser médica,
participou do movimento psicanalítico desde muito cedo. Seu
percurso pessoal é bastante elucidativo das marcas ideológicas
que atravessavam o país vincando o modo de entender a psicanálise.
Ela formou-se professora normalista em 1930, educadora sanitária
pelo Instituto de Higiene da Universidade de São Paulo em
1932, e bacharel em Ciências Sociais pela Escola de Sociologia
e Política em 1945.
Seu percurso torna relativa a idéia contada pela história
oficial da psicanálise de São Paulo que enfatiza a
proposta de uma nova abertura do grupo organizado em torno de Adelheid
Koch para outros campos de saber. Tal relativização
ancora-se igualmente na postura de Durval Marcondes que, compondo
com a postura freudiana em relação a psicanalistas
não-médicos, tentou afirmar a possibilidade de sua
prática, desde que o leigo conhecesse ciências afins,
tendo passado por cursos relacionados à higiene, ao trabalho
social, à educação ou ainda, no nível
universitário, oriundo da Escola Livre de Sociologia e Política,
da Faculdade de Filosofia, cursos de Sociologia, Pedagogia ou Serviço
Social. Ainda assim, Durval fazia a ressalva de que esse “leigo”
só poderia ser analista se tivesse ao seu lado a presença
de um médico para o diagnóstico.[40]
Seu cargo de diretor da Seção de Higiene Mental Escolar
em 1929 é outra referência importante. Abrangendo o
ensino para crianças especiais e a assistência de crianças
com problemas adaptativos, seu trabalho foi ampliado em 1938 com
a criação da Seção de Higiene Mental,
junto ao Serviço de Saúde Escolar, no qual permaneceria
até sua extinção, em 1974. (MOKREJS, 1993:
254)
No Rio de Janeiro, o grupo da primeira sociedade se reunia e trabalhava
no Hospital dos Alienados e alguns de seus integrantes, mais rapidamente
do que em São Paulo, aproximaram a psicanálise do
discurso médico com grande naturalidade: em 1926, foi criada
a primeira clínica psicanalítica no Rio de Janeiro,
constituída pela Liga Brasileira de Higiene Mental.
Há, portanto, uma apropriação do texto psicanalítico
pelo discurso médico que se exerce direcionando o pensamento
freudiano para o projeto de higienização mental e
pedagogia e que autoriza uma leitura mais próxima da medicina
e da moral vigente.[41] Vejamos como Artur Ramos manifesta essa
marca ideológica que tento demonstrar:
“Acho que somos felizes porque nosso destino é brando,
nossa natureza não tem vulcões, nossa história
é uma página aberta de tolerância. A nossa cultura
é, portanto, uma cultura ‘apolínea’, a
nossa filosofia humanística, de uma cordialidade singular.”
(RAMOS, A., 1944:74)
Nessa perspectiva, o discurso psicanalítico que procurava
a decomposição e o questionamento do que estava articulado
e eternizado foi substituído pela preocupação
com a adaptação e com as questões coletivas,
que visavam fornecer fundamentos teóricos para as novas formas
de intervenção no campo social, em sua vinculação
essencial às temáticas da “correção”
e da “salvação”.[42]
Neste sentido, é importante não esquecer os modos
como a obra freudiana entrou em circulação nesses
meios acadêmicos. A influência francesa na medicina
e na literatura era muito grande: a elite lia em francês e
muitos livros de medicina reproduziam longos trechos de autores
franceses no original. Além disso, no fim do século
XIX, muitos médicos passaram a seguir a escola alemã
de medicina, aprendendo a língua ou mesmo completando seus
estudos naquele país. De fato, nas primeiras duas décadas
do século XX, quando se iniciaram as traduções
de Freud, estas sempre eram feitas a partir das edições
alemã e francesa. A tradução das Obras Completas
de Freud, todavia, seria feita a partir de sua versão inglesa.[43]
Se traduções já haviam sido feitas[44]; se
circulavam nos meios psicanalíticos aqueles que tinham condições
de traduzir os textos do original ou do francês; e se entre
os didatas que chegaram ao país, a maioria – se não
todos – dominava a língua alemã, por que motivos
foi feita a escolha da tradução do texto a partir
do inglês? A que estratégia política essa escolha
estaria referida, senão para acenar à IPA seus plenos
poderes e nossa obediência servil e encantada?
Com a escolha da tradução inglesa, medicalizada,
embutida do empirismo e experimentalismo ingleses, não só
o texto tornou-se mais hermético, como também o discurso.
Afinal, ciência que se preza tem linguagem específica...
Não é essa uma das regras básicas do método
científico-positivista? E à linguagem, acrescenta-se
a neutralidade, a objetividade, enfim, a possibilidade de crermo-nos
isentos num paradoxo estabelecido entre a obediência servil
e o desejo de construção de um Brasil-nação
independente.
Assim, tal difusão discursiva mostrou-se acoplada à
ideologia nacionalista e totalizante, que almejava criar uma nação
rica e independente, objetivos claramente relacionados aos da Liga
Brasileira de Higiene Mental. Novamente de maneira paradoxal, o
processo de institucionalização definiu-se pela imitação.
Ainda, a interpretação da cultura como oposição
entre os interesses do sujeito e os da civilização
justificaria a inserção da sexualidade, do primitivo
e do desejo na busca de gratificações rápidas
e fáceis para as necessárias frustrações
da civilização, enlaçadas ao projeto de desenvolvimento
capitalista. A visão-de-mundo presente nesse recorte do texto
freudiano pôde, entre outros motivos, justificar o afastamento
de muitos intelectuais que se tornaram stalinistas.
“Ultimamente, dei para achar paupérrima a psicanálise.
Não acho errada, não, acho paupérrima. Esse
mundo imenso do ser humano ficou reduzido a meia dúzia de
noções gerais e genéricas, que não esclarecem
nada, são mesquinhas, tipo de generalizações
conformistas e acomodatícias da pequena burguesia”.
(ANDRADE, M. 1983: 66) (grifo meu.).
Outro dado biográfico de Durval parece-nos muito importante
para fundamentar a hipótese de que a fundação
do movimento psicanalítico nas décadas de 1940 e 1950
está imbuída da ideologia de modernização
que se constitui no país a partir do Estado Novo: seu empenho
na formação da Universidade de São Paulo como
universidade modelo, na qual criaria as primeiras cátedras
brasileiras de psicologia, de psicanálise e de higiene mental,
via Instituto de Higiene Mental.
Vale ressaltar, entretanto, que a psicanálise afastou-se
do establishment acadêmico pela via da medicina, apesar de
seu desejo de fazer parte dele: as portas da Faculdade de Medicina
e da Escola Paulista de Medicina, nas mãos de Pacheco e Silva,
que antagonizava com a Psicanálise, mantiveram-se seladas.
Por isso, a psicanálise entraria para a academia conduzida
pelas mãos da higiene mental. Em 1934, Durval passou a dar
aula no curso de Higiene Mental no Instituto de Higiene.
Por sua vez, em 1937 deu-se a partida para a formação
teórica e prática sistematizada segundo os critérios
da IPA, sob a orientação da psicanalista alemã
Adelheid Koch.[45]. Logo após sua chegada, em julho de 1938,
durante o 1o. Congresso Paulista de Psicologia, Neurologia, Psiquiatria,
Endocrinologia, Identificação, Medicina Legal e Criminologia,
após tecer considerações sobre o id, o ego
e o superego, Durval Marcondes deteve-se na explanação
dos critérios para a formação de psicanalistas,
afirmando o terceiro passo do movimento: a institucionalização,
que cristalizava o movimento com suas normas rígidas e seus
padrões para a profissionalização de acordo
com os moldes da IPA.
“a obra que se impõe à psicanálise no
Brasil, não é mais a de propaganda teórica,
que boa ou má, já está feita de sobejo, mas
a formação de técnicos competentes”.
(MARCONDES, D.,1939) (grifo meu.)
Daí em diante, esse discurso predominaria no país,
impondo um tratamento globalizante à psicanálise e
difundindo conceitos e práticas que, via de regra, seriam
considerados como verdadeiros e únicos. Para ser psicanalista
o interessado tinha de assegurar sua formação técnica
nas regras outorgadas pela IPA.
Tal comprometimento pode ser bem avaliado, por exemplo, na entrevista
concedida por Durval Marcondes a Roberto Sagawa, quando relatou
as modificações de sua técnica a partir da
chegada de Adelheid Koch:
“Eu me colocava diante dos pacientes de modo que não
me parecia mais adequado para obter os resultados pretendidos”.
(MARCONDES. D., in: SAGAWA, R. Y. 1981: 87) (grifo meu.)
Com a oficialização da formação técnica,
o saber “científico” tomou posse exclusiva das
instituições psicanalíticas, afastando-as das
pesquisas artística e leiga. A estas passou a ser oferecida
apenas a margem do universo das sociedades psicanalíticas,
cuja legitimidade tornou-se caucionada pela internacionalidade da
IPA e de seus integrantes. Definiram-se padrões para diferenciar
a psicanálise de outras terapêuticas e promoveu-se
uma espécie de saber desdobrado apenas para os iniciados,
como modo de afirmaçäo do profissional no mercado. A
partir do fim da década de 1940 em São Paulo (e fim
de 1950 no Rio de Janeiro), se oficializaria o modelo europeu como
verdadeiro, objetivo, científico, neutro e universal. (BIRMAN,
1997b: 28).
A partir de então, o analista passou a ser o detentor de
um saber soberano em relação ao psiquismo e seus desvios
e o analisando, o objeto de cura em seu poder. Mas vale lembrar
que aquele foi um soberano de compromisso: estando vinculado às
normas e hierarquias da nova instituição construída
a partir do modelo da IPA, o rei era servo de outros senhores (FREUD,
1923).
Quando a IPA passou a ser o referente exclusivo do que era e do
que não era psicanálise entre as práticas terapêuticas
no país e definiu os valores para o psicanalista deste país,
produziu-se o fechamento e uma concomitante alienação
na relação com o Outro que limitou e restringiu severamente
o campo de ação e de criação dentro
da relação transferencial.
As regras se interpuseram então como um terceiro que ordena.
Isso implica pensar em que medida, o profissional, para retomar
a terminologia utilizada por Djacir Menezes (1969b), se tornou um
tecnocrata, que perdeu “a consciência do processo”,
distanciando-se da realidade que o cercava.
“(...) criamos representações da nossa psicanálise
que trazem a marca inconfundível do nosso desejo de identificação
com os modelos das matrizes psicanalíticas internacionais.
Este desejo é também o desejo de ser desejado, querido,
aplaudido e aprovado pelas autoridades psicanalíticas estrangeiras,
ou por aqueles que aqui as representam, num processo que parece
denotar a nossa relação simbiótica com as matrizes
que nos deram origem e em relação às quais
temos dificuldade de nos diferenciar.” (FIGUEIRA, S. A., 1991b:
114)
Assim, do mesmo modo que a literatura assistira a extinção
de seu reconhecimento como produtora de um projeto de definição
das subjetividades e da identidade brasileiras, marcando seu campo
com uma sintomática volta para o campo fechado da forma –
ao mesmo tempo em que a realidade do país se rendera aos
encantos modernizantes dos EUA – o campo da psicanálise
no Brasil conheceu o ocaso de seu lugar de peste, de estranheza
e novidade. A partir de então, passaram a valer apenas as
regras e as leis do europeu e sua tendência homogeneizante.
A psicanálise que chegara subvertendo os códigos,
causando escândalo e estranhamento nas experimentações
de linguagem modernistas seria incorporada por um discurso conservador,
repressivo e acrítico. Submetida a um tratamento globalizante,
cujos conceitos e práticas são considerados como verdadeiros
e únicos, a “psicanálise brasileira” passaria
a gerar então um discurso divorciado das questões
nacionais.
Deste modo, nos anos de 1940 e 1950, a instituição
psicanalítica terá tomado o caminho técnico-científico.
A especificidade da psicanálise no Brasil e seu vínculo
com a cultura que a cercava não se mostrariam mais como objeto
de estudo; ao contrário, buscar-se-ia neutralizar o que pudesse
advir de diferente do discurso psicanalítico percebido como
verdadeiro, privilegiando-se a psicanálise como ciência.
O modelo de psicanálise que passou a ser contado pela história
oficial como a entrada e fixação da psicanálise
no país apenas na década de 1940 e 1950 foram, portanto,
um recorte específico do discurso modernizante que se fez
vigorar a partir de então. Tal modelo é hierarquizado,
especialista, de incorporação colonizada, com critérios
de territorialidade e afiliação – signo de pertencimento.
As teorias foram sacralizadas e os discursos perderam a possibilidade
de questionamento.
“(...) a institucionalização da psicanálise
corresponde ao silenciamento teórico e ético desta
articulação fundamental [a articulação
entre o discurso teórico e o movimento psicanalítico]
(...) Neste contexto, a institucionalização psicanalítica
visaria antes de mais nada o reconhecimento social da psicanálise
a qualquer custo, mesmo que isso implique na perda de sua especificidade
por sua articulação ao saber psiquiátrico”.
(BIRMAN. J., 1989: 17)
Assim, tal difusão discursiva mostrou-se acoplada à
ideologia nacionalista e totalizante, que almejava criar uma nação
rica e independente, objetivos claramente relacionados aos da Liga
Brasileira de Higiene Mental. Novamente de maneira paradoxal, o
processo de institucionalização definiu-se pela imitação.
Esse discurso torna-se hegemônico, destituindo a proposta
modernista de uma leitura da psicanálise a favor da positivação
dos afetos, da desordem e de nossas origens não ocidentalizadas,
em busca da produção de nossas especificidades. Constitui-se,
portanto, o interesse em preservar e ampliar um mercado potencial,
aumentando o poder de abrangência das instituições
psicanalíticas em suas relações com os interesses
ideológicos.
Tal direcionamento coincide, nas décadas de 1940 e 1950,
com a formalização e o reconhecimento da IPA das segundas
sociedades carioca e paulista de psicanálise e com a chegada
dos psicanalistas europeus que vieram ocupar o lugar de Freud em
nossas praias, isto é, aqueles que supostamente conheciam
a “Verdadeira Psicanálise”. Seus métodos,
costumes e regras foram abarcados como referentes psicanalíticos.
A psicanálise, que tinha sido tomada por esse viés
discursivo como suporte para a criação de uma nação
independente através da reforma social, transitaria, através
dessa própria ordem que visava a ritualização
e a institucionalização das regras civilizatórias
pela IPA, rumo ao reencontro com o Outro europeu.
A mudança de direção do movimento psicanalítico
no Brasil apontava para a escolha reiterada do papel passivo diante
do saber do Outro, que passava agora a determinar não só
a verdade, como também os usos, costumes e rituais, que confundiam
os ensinamentos freudianos com as influências culturais e
pessoais das sociedades psicanalíticas e de seus professores.
“O Brasil importou a cultura psicanalítica que se
veiculava na Europa sem questionamento, ainda mais ao se deparar
com o grupo de psis argentinos, mais identificados com a cultura
européia fazendo o ‘certo’.”[aperto de
mãos proibidos , etc... usos e costumes: ritual]. (...) Não
havia o mínimo de possibilidade de se saber o que era da
psicanálise e o que era da influência cultural européia.
(VICTER, R., 1995: 655)
Sendo os analistas didatas europeus considerados pelos psicanalistas
brasileiros como os “representantes onipresentes da forte
teoria psicanalítica vinda da Europa”, resta-nos questionar
vivamente até que ponto o que foi copiado dizia realmente
respeito à proposta freudiana ou à identidade pessoal
dos representantes da “Verdade”. (VICTER, R., 1995:
656-7).
Se o movimento de retraimento da literatura não foi eternizado
– a literatura, afinal, só é passível
de ser literatura se puder produzir movimentos de auto-ruptura e
estranhamento, na psicanálise o modelo copiado de Koch, Kemper,
Burke pelos primeiros grupos foi tomado como referido à “verdadeira”
psicanálise e petrificou-se de tal forma que seus ecos não
cessaram.
Como exemplo da cristalização teórica acima
descrita, podemos revisitar os textos psicanalíticos dos
anos posteriores através da Revista Brasileira de Psicanálise,
que voltou a ser editada no final da década de 1960 pelo
Órgão Oficial da Associação Brasileira
de Psicanálise, ligado à IPA. Muitos dos textos publicados
nessa revista apresentam uma leitura da psicanálise que vê
em Freud o iluminista e o positivista, silenciando sua faceta especulativa
e ficcional, bem como as ligações com suas raízes
judaicas. Em concordância com essa leitura de Freud, muitos
psicanalistas irão defender a universalidade, a cientificidade,
a objetividade e a neutralidade da psicanálise[46].
Nesse recorte, o texto que apresento a seguir é bastante
elucidativo. Refutando as críticas estabelecidas em relação
ao período da ditadura no Brasil, segundo as quais as instituições
psicanalíticas teriam sido cúmplices do regime ditatorial
pelo fato de seus analistas não terem denunciado os torturadores
por eles analisados e por continuarem a recebê-los em seus
consultórios, Prado nega o comprometimento político-ideológico
a que todos de uma mesma cultura e Zeitgeist estariam banhados.
O descompromisso estaria vinculado ao fato de que, segundo ele,
o projeto psicanalítico estaria fortemente enlaçado
à perda dos traços locais, bem como ao desligamento
dos acontecimentos ocorridos no campo social. Apenas assim, pensava
o autor, o analisando poderia alçar a universalidade almejada
para todos os que passavam pelo processo analítico. Ao seu
entender, no decorrer de uma análise o analisando deveria
afastar-se das questões locais e do sentimento de pertencimento.
O analista, por sua vez, deveria também manter a neutralidade
e a desvinculação das questões sociais ao seu
redor.
“(...) As distorções a que estou explicitamente
me referindo nesse momento dizem respeito à tentativa de
se introduzir no setting analítico, dentro da mente do analista,
que ele é um ser político, carregado de ideologia
política. (...) “ Sendo os impulsos e as angústias
a eles ligados funções de relações,
não se compreende a acusação de que os analistas
estejam em uma torre de marfim, por formularem interpretações
baseadas na psicanálise e se conduzirem de acordo com os
princípios da investigação psicanalítica.
Afirmações e argumentações como esta
ou aquelas já referidas atrás, chocam-se com tudo
o que a psicanálise tem (...) conseguido estabelecer do mais
absoluto rigor científico possível em matéria
tão difícil quanto o é a mente humana.”
(PRADO, M. P. A., 1976 :267-8)
Contra o argumento de que não haveria neutralidade possível
neste saber, e sim um posicionamento em que sempre estaria implícita
a participação do analista nos valores éticos,
sociais e políticos vigentes em cada época, o autor
afirma com veemência:
“(...) É vital ter em mente que estamos considerando
um relacionamento verbal entre dois indivíduos e não
o de um grupo. O objetivo da pesquisa analítica é
o de apresentar o paciente a si mesmo.” (PRADO, M. P. A.,
1976 :268)
Assim, a neutralidade e a assepsia do psicanalista frente ao paciente
e à cultura seriam necessárias para garantir a manutenção
da singularidade do sujeito em análise. Tal posicionamento
baseia-se no caráter universal da psicanálise firmado
num método que busca captar a dinâmica que se dá
entre o consciente e o inconsciente, sem levar em conta o contexto
local a sua volta.
A psicanálise, independente do local para onde fosse transplantada,
apresentava-se nesse discurso como sendo aquela onde o sujeito –
seja este o analista ou o analisando – ousaria abrir mão
de suas identificações, o que se revelaria essencial
para o direito ao exercício de sua singularidade.
Esta posição é reiterada por outro autor,
ainda mais recente. Em “O ponto de vista do ‘nacional’
e a psicanálise”, Paulo César Sandler defendeu
a universalidade da psicanálise partindo do pressuposto de
que o inconsciente apreende apenas uma linguagem universal e que
é isso que garante seu enraizamento em diferentes países
e em épocas distintas. Assim, aquele autor argumenta:
“Existe uma hemácia norueguesa, um hepatócito
neo-zelandês? (...) O amor, a bestialidade, a sublimidade,
a maternidade são assuntos que possam ser abordados segundo
o ponto de vista das nações ou variam conforme o país?
Pode-se perguntar: faz-se Psicanálise no Brasil? Mas falar
‘Psicanálise no Brasil’ parece ter tanto sentido
quanto dizer ‘Maternidade no Brasil’ ”.(SANDLER,
1993: 130-1)
A universalidade é também defendida por Rouanet (1997:
9-30) , que vê em Freud um cientista do Iluminismo. Para esse
autor, Freud teria sido francamente iluminista e a psicanálise
teria um pacto com a modernidade não podendo, por isso mesmo,
prescindir do Iluminismo, ainda que conheça a indomesticável
natureza humana, sendo por isso pessimista. Ainda segundo o autor,
toda a obra de Freud seria “cosmopolita” como ele próprio,
desconhecendo a relatividade e a particularidade.
Tais exemplos servem para apontar a valorização de
uma leitura bastante específica dos textos freudianos e de
uma compreensão da psicanálise que envolve pôr
entre parênteses a dimensão da psicanálise que
outrora servira àqueles que buscavam desvendar a si mesmos
e, com isso, seu país. O que passou a ser silenciado nessa
versão da prática psicanalítica foi a experiência
de resistência em relação às identificações
do próprio analista com o modelo da IPA, de modo a possibilitar
uma digestão que viabilizasse um encontro aberto para as
singularidades. Os valores do Estado Novo impregnaram a psicanálise,
remanejando-a nas novas condições sócio-históricas.
Pretendo com isso reafirmar que a força da ordem autoritária
não se colocou apenas no silenciamento compulsório
– talvez isso permitisse à resistência se colocar
-, mas principalmente pelo filtro ideológico que impôs
uma leitura específica da psicanálise como possibilidade
única, convertendo, para retomar a fala de Peter Fry, o que
era “originalmente perigoso em algo ‘limpo’, ‘seguro’
e ‘domesticado’ “. (FRY, 1982: 53)
4.0. Por que contar histórias
“Toda vez que o cadáver de Oswald bóia, ele
assusta”.
(PIGNATARI, D., 1971)
Em “O Antropófago”, crônica publicada
logo após a morte de Oswald, Drummond (ANDRADE, C. D., 1988:
1535) afirmou que “a grande queixa de Oswald com relação
a seus companheiros de aventura literária era que o omitiam
sempre.” Sua interpretação de que Oswald era
“um menino sentimental, que queria ser mimado apesar de suas
inconseqüências” (ANDRADE, C. D., 1988: 1535),
dá mostras de um pensamento generalizado que se ouvia na
época (e se ouve até hoje), e o qual Oswald passaria
grande parte da sua vida denunciando como um processo de desvalorização
e silenciamento propositadamente instituído e que valorizou
em sua conduta os elementos de “palhaço da burguesia”.
"Quando, depois de uma fase brilhante em que realizei os salões
do modernismo e mantive contato com a Paris de Cocteau e de Picasso,
quando num só dia da débâcle do café,
em 29, perdi tudo – os que se sentavam à minha mesa
iniciaram uma tenaz campanha de desmoralização contra
meus dias. Fecharam então num cochicho beiçudo o diz-que-diz
que havia de isolar minha perseguida pobreza nas prisões
e nas fugas. Criou-se então a fábula de que eu só
fazia piada e irreverência, e uma cortina de silêncio
tentou encobrir a ação pioneira que dera o Pau-Brasil
e a prosa renovada de 22.".
(ANDRADE, O., 1972c: 30-1)
De fato, o meio sorriso de desdém ou de condescendência
presente no rosto de muitos daqueles que falam de Oswald, foi algo
que chamou atenção durante toda a pesquisa. Um sorriso
cordial, como aquele de alguém que conta uma boa piada a
respeito de um moleque de vida incoerente: “Ora espiritualista,
ora marxista, criando um dia pau-brasil, e logo buscando universalizá-lo
em antropofagia (...)”(ANDRADE, C. D., , C., 1988:1536). Oswald
manteve intacto seu descompromisso com a descontinuidade e pagou
caro por isso:
“Continuo a viver uma vida acanalhada. Só vejo um
remédio para me moralizar – cortar a incômoda
mandioca que Deus me deu!” (ANDRADE, O., 1972: 152)
Aparentemente, foi ouvido: a anarquia dos costumes provincianos,
o erotismo e a histeria que o representavam muito bem foram podados,
devidamente esvaziados e substituídos pela melancolia presente
em uma ideologia marcada pela moral e pelo conservadorismo.
“Houve mesmo, durante muito tempo – e com reflexos
até nossos dias -, uma campanha sistemática de silêncio
contra Oswald, que resultou na minimização, senão
na voluntária obliteração, da importância
da bagagem literária oswaldiana”. (CAMPOS, 1972: xiv)
Pois bem: o conservadorismo seqüestrou Oswald de Andrade.
Não lhe deu trégua. Quando não o silenciou,
procurou falar de sua obra de maneiras que se afastavam do que lhe
era essencial. Mas quais teriam sido as razões da persistência
das críticas a Oswald? Podemos lê-la como a continuidade
de uma prática bastante difundida no país: a pessoalidade
e a amizade travestidas de critério intelectual[47] . Como
vimos no capítulo anterior, Oswald inúmeras vezes
rompeu com os laços que garantiriam tal segurança,
sendo razoável supor que ele tenha sofrido a força
do silêncio como modo de afirmação de sua (in)existência.
Nessa leitura, Oswald se aproximaria de diversos exemplos conhecidos
na literatura brasileira em que apenas idéias apoiadas em
uma grande rede de amizades tornam-se reconhecidas.
Entretanto a imagem lendária e anedótica de Oswald
pode não ser apenas produto de sua personalidade irascível
que o afastou de seus aliados, mas deve ser relacionada à
criação de uma sociedade que o tomou como arauto dos
perigos e das negatividades que desejava destruir. Sob essa ótica,
o esforço de se aproximar de Cassiano Ricardo nos anos 1940
e 1950, suas tentativas de ingressar na universidade e sua rigidez
em relação às obras da nova geração
podem ser consideradas, para além das idas e vindas referidas
ao caráter contraditório de Oswald, como tentativas
de romper com as barreiras que o silenciavam.
“(...) inseguro quanto ao destino de sua obra literária,
Oswald quis afirmar-se perante os novos intelectuais paulistas da
década de 40.”
(NUNES, B., 1979:54)
Por fim, o que o seqüestro de Oswald tem a ver com as mudanças
de rumo em nossa sociedade e, mais particularmente, nas sociedades
psicanalíticas?
Luiz Costa Lima destaca como base do “Manifesto Antropofágico”
a questão existencial de "ajustar a experiência
brasileira da vida com a tradição que herdamos"
(COSTA LIMA, 1991: 26). No fortalecimento adquirido no contato com
sua singularidade, o brasileiro se tornaria apto a enriquecer sua
cultura e não temer o contato com as demais. Para tanto,
uma de suas armas foi a utilização da psicanálise
tanto na abertura para novos valores quanto na crítica ao
eurocentrismo e à sensação de desvalorização
do nacional. A subversão psicanalítica da noção
de individualidade como um todo integrado e constante, ajudou a
compreender o processo destrutivo como um processo de descoberta
e criação do novo.
Mas, como vimos, não foi esse o rumo tomado pela psicanálise
nas décadas de 1920, 1930 e 1940. Ela sofreria revezes, desviando-se
do conjunto de uma intelligentsia literária julgada perigosa
e transformando-se em uma técnica terapêutica distante
das questões sociais que a cercavam. Como Oswald, o elemento
subversivo, a pulsão, o excesso, o descentramento do sujeito
e a fragmentação da idéia de unidade seriam
substituídos.
A construção da psicanálise pela via da IPA
representou o fim da participação do modernismo na
psicanálise. A instituição psicanalítica,
tal como mantida pela memória oficial, é tributária
do que se estruturou a partir do Estado Novo. Assim, com a hegemonia
do discurso ‘reformista’, a atitude estética
proposta por parte dos grupos modernistas foi paulatinamente submetida
a um trabalho de descrédito e desautorização,
que afastou com desdém aqueles que tentaram insistir em mantê-la
como meio de acesso à verdade.
Deste modo, a importância do movimento modernista para a
difusão da psicanálise na cultura seria esquecida
daí em diante, ou seja, se poria entre parênteses o
fato de que a psicanálise não é apenas uma
terapêutica que visa a cura, não se constituindo tampouco
em uma racionalidade científica, como o processo de institucionalização
nos levaria a crer. Tal crença sobretudo desviaria o olhar
da ética e da estética de um lugar em que a psicanálise
funciona como “abertura de possibilidades” para o sujeito
e como crítica dos valores constituídos, incidindo
“no plano político”. (BIRMAN, J., 1993b: 717-9)
“(...) a questão da contextualização
do pensamento e da prática psicanalíticos foi recalcada,
e a sua consideração então impedida, por uma
série de ocorrências no desenvolvimento e na estruturação
da psicanálise.” (FIGUEIRA, S. A., 1991: 115)
Sob a égide do primado supostamente neutro do cientificismo,
as forças da ordem parecem ter-se sobrepujado às da
desordem, passando a impedir seu retorno por meio do estabelecimento
de um campo de silêncio. Mas a busca da assepsia e da ordem
estão necessariamente referidas ao seu contraponto. A insistência
de um “Não quero saber disso” não destitui
o lugar da desordem, tal como se desejara, apenas impede que a desordem
possa ser utilizada criticamente como elemento de transformação
do estabelecido. A permanência da subserviência à
IPA como modelo inquestionável ajudou a perpetuar as dificuldades
de uma auto-crítica capaz de produzir a necessária
reinvenção da psicanálise no país.
“(...) paralela e dissociadamente, como que em um outro plano
da realidade que escapa à nossa consciência, estamos
alterando e pragmaticamente adaptando conceitos e procedimentos
de modo a torná-los mais funcionais na nossa realidade cultural
cotidiana e profissional.” (FIGUEIRA, S. A.,1991b: 118)
Sintomaticamente, as pesquisas antropológicas e sociológicas
a respeito da psicanálise brasileira não se fizeram
acompanhar de muitos psicanalistas interessados por sua história
nas décadas seguintes:
“No caso de Kemper-Cabernite-Lobo, que me pedem para não
contar a ninguém, pode-se constatar a sucessão de
três gerações em que acontecimentos peculiares
a cada um deles, mantidos em segredo, terminam por se revelar e
ressurgir ‘com barulhos’ inquietantes e desastrosos”.
(VIANNA, H. B., 1994: 166)
Do mesmo modo, a entrada de Lacan no circuito das instituições
psicanalíticas brasileiras como crítica ao saber instituído
e que pretendeu a ampliação do campo do olhar da psicanálise,
pode ser pensada como uma forma de resistência ao modelo de
baixa antropofagia da IPA.
É preciso, entretanto, considerar que se a entrada do discurso
lacaniano no país impôs uma desconstrução
institucional, esta foi rapidamente reorganizada em torno de nova
burocratização, apagadora do efeito de estranhamento
e pulsionalidade, cristalizando um novo padrão normativo
e silenciando os elementos fora-da-ordem. Nesta medida, é
possível a constatação de que no “lacanismo”
e no “ipaísmo” as diferenças pouco importam;
na consideração da institucionalização
de seus campos podemos vislumbrar os efeitos de um pensamento que
se cristaliza em norma e demanda de imitação. Seguir
seus ditames, letra por letra, se opõe ao trabalho psicanalítico
em sua dimensão de subversão da ordem estabelecida,
propiciadora de diferentes sentidos e reinvenções.
Nessa configuração, as diversas instituições
psicanalíticas, via de regra acabariam por disputar espaço
e posse da “verdadeira” e “melhor” psicanálise,
destituindo seu poder irradiador de subversão. (BIRMAN, J.
1991).
De fato, como Freud enunciou em Prefácio a uma Juventude
Desorientada (1925), a psicanálise inaugura um saber referido
ao impossível; aqueles que a apreendem – estejam nas
poltronas ou nos divãs – sempre podem recorrer às
garantias como modo de escapar da força de sua subversão.
Afinal, parodiando Décio Pignatari (1971): toda vez que o
cadáver da desordem bóia, ele assusta.
“Na história da arte, o sentido de ruptura provocado
pelas vanguardas não consiste na destruição
da arte enquanto instituição, mas a destruição
da possibilidade de impor normas estéticas como válidas
à priori.” (BÜRGER, 1984: 87)
A importância da proposta que coloca Oswald de Andrade como
seu modelo paradigmático não reside em sua retomada
ao pé-da-letra, em considerar sua proposta estética
como norma cristalizada. Se ele e mesmo Mário podem ser considerados
vanguardistas, é justamente porque buscam um movimento pessoal
de ruptura com suas crenças que se reflete em suas obras
produtoras de um estilo inscrito na não-adequação
e não-eternização de normas.
“A questão é a seguinte: de que maneira a estética
do romance modernista [o modelo cientificista da psicanálise]
gera hoje, para o jovem escritor [psicanalista] brasileiro, armadilhas
(...) ideológicas de que deve se liberar, para que corte
de uma vez por todas o cordão umbilical que ainda o prenderia
a esses "mestres do passado", para usar a gloriosa expressão
de Mário de Andrade em contexto passado e semelhante. Não
se pode continuar soprando as velas de um bolo – ontem com
cinqüenta e hoje com sessenta – e acreditar que se está
comemorando o batismo de um bebê.” (SANTIAGO, 1989:
76)
O afastamento da psicanálise da dimensão estética
e a preocupação com a dimensão técnica
e formal, afastada do critério social, acabaram por construir
uma disciplina que se isolou das demandas sociais e subjetivas a
que se refere, trazendo como produtos finais o individualismo exacerbado
e o narcisismo voltado para um pretenso universalismo, girando em
torno de nossos próprios umbigos, mas mantendo-se com o cordão
umbilical da alienação, em um diálogo fechado
com o Outro europeu.
A alienação cultural implica a desvalorização
do saber do analista que está em carne e osso nos trópicos,
diante de seu paciente.. O que conta é a voz divina Daquele
que sabe todas as respostas e não o que se produz no espaço
dialógico. Subentende-se aí uma dificuldade de interlocução,
que nos impele a pensar que tipo de subjetividade pode ser produzido
através de uma análise, em que se mantém como
horizonte de garantia a alienação especular. Como
enfrentar o desamparo de não ser para poder constituir-se
de outros modos, se o analista permanece fixado na obediência
servil, impondo as normas e regras do Senhor que o analisando não
pode deixar de seguir sob a pena de ser julgado como culpado de
resistência?
Dentro de tal ótica, é necessário repensar
o conceito de resistência como oposição “às
forças econômicas e políticas que entravam a
liberdade” (PLON, M., 2000), como resistência à
perda dos traços locais que a psicanálise em seu modelo
universalizante propõe. Numa ideologia em que predominam
o pragmatismo e o empirismo, é preciso resistir para não
ser devorado pelo Outro; só assim é possível
manter a fluidez subjetiva e a igualdade de valores voltadas para
um movimento de descolonização.
Hoje, quando se discute o que a babel psicanalítica em que
nos transformamos pode reconhecer de elemento comum, qual o lugar
que a psicanálise deve ocupar formalmente como profissão
neste país, e em que podemos diferenciá-la de outras
práticas psicoterápicas, neuro-lingüísticas,
religiosas, médicas, de modo a fazer frente às questões
a que agora somos convocados para não desaparecermos, as
histórias desse saber podem representar um caminho possível
de análise, e não apenas do que aconteceu, mas sobretudo
do que está por vir.
Como lembra Silviano Santiago, estamos longe de poder desfrutar
a ruptura com o Outro, vivendo novas formas de submissão
e empobrecimento psíquico:
”(...) nada nos distancia mais das estéticas do século
20 que o célebre trocadilho de Oswald de Andrade: "A
massa ainda comerá do biscoito fino que fabrico". (...)
Para falar de cultura hoje e amanhã, nada como inverter os
termos do trocadilho: artistas e críticos ainda se regalarão,
se já não estiverem se regalando, com o biscoito banal
que a massa fabrica. (...)Na ágora do próximo milênio,
o consumo em si, seu silêncio cúmplice, regala os comensais(...).”
(SANTIAGO, S., 2000: 7)
Num mundo em que a globalização e o consumo impuseram-se
como referência, num país em que ainda se luta para
“transformar o tabu em totem”, para aceitar a morte
do pai e suportar a criação de referências próprias,
as forças da ordem parecem, de fato, ter obtido um espaço
hegemônico.
Entretanto, se retomamos o conceito político de resistência,
podemos apostar que quanto maior e mais clara a ação
das forças da ordem no poder, quanto maior a determinação
de seus seqüestros e silenciamentos, maior a falibilidade de
seu controle, maior a possibilidade de uma reação
que desconstrua o discurso hegemônico, pondo a nu, pelo estranhamento
daí resultante, as relações culturais, políticas,
econômicas e históricas, na produção
daquilo que nos captura, nos submete ou nos mobiliza para pensar
e agir sobre os efeitos das formas de submissão da subjetividade.
Retomar o texto literário e sua leitura da psicanálise,
portanto, podem servir para engendrar formas e reflexões
"seqüestradas" pela tradição pensante,
destruindo o essencialismo das verdades instituídas.
“(...) é bastante possível que a escrita literária
no período moderno seja mais do que um exemplo entre outros,
representando, isso sim, uma trilha privilegiada de orientação
para que se acesse a estrutura geral da textualidade (...). A literatura
nos ensina mais, e mesmo o essencial sobre a escrita em geral, sobre
os limites filosóficos ou científicos (…) da
interpretação (...).”
(DERRIDA, 1992: 71-2) (tradução minha)
Contar histórias, retomar o veio da estética, funciona
como arma na guerra contra a massificação que nos
hipnotiza, ou seja, funciona como resistência e abertura a
novos caminhos do dizer em cada nova edição da “Verdade”
instituída, num processo de deglutição mais
lento e profícuo, capaz de promover a negociação
entre as diferenças-limite, entre o excluído “próximo”
e o Outro “estrangeiro”. Parece plausível supor
que, para que tal devir se instale na psicanálise do/no Brasil,
importa, entre outros fatores, que sejam restituídas leituras
como as de Mário e Oswald, com força para fazer pensar,
desconstruir e demonstrar a artificialidade dos dogmas da tradição
cultural. Tal destruição vale lembrar, não
significa a abjuração de todo e qualquer saber, mas
sim a abertura, no discurso, para a construção compulsiva
de novos arranjos, de discursos e práticas diferenciais que
permitam “(...) pensar o impensável. Não simplesmente
o impensado, ou seja, o esquecido e o reprimido, ou o recalcado
(...)” (Nascimento E., 1999:272). Assim, acessar esta via,
para além de promover a presença de certos elementos
que permaneceram nas entrelinhas da história, serve para
viabilizar o reconhecimento simbólico de nossas singularidades,
possibilitando que o que quer que tenha sido criado em ato possa
ser (re)apropriado pelo corpo da psicanálise no Brasil, e,
dessa maneira, sirva de começo para novos caminhos ainda
inexistentes; sirva, enfim, para que possamos nos reconhecer como
centro de produção, e não apenas colonizados
que imitam e lêem bem – ou melhor – a verdadeira
bíblia psicanalítica. Talvez os biscoitos finos não
estejam para sempre perdidos...
“la promesse au futur, vaut pour une autre réalité,
pour une réalité où les mirois ne produiraient
pas un simulacre dégradé, blessé et blessant,
mais un éclat sans défault. Tel est le rêve”.
(STAROBINSKI, J., 1990: 86)
Esta tese aposta na descoberta e na criação de nós
mesmos, movimento que vem caracterizando o processo de apropriação-de-si
das nações novas. A desconstrução da
memória serve como mais um elemento do processo de deglutição,
para que deixemos de engolir a carne aos nacos, sem prazer, sem
preferência ou crítica, e passemos a degustar a carne
estranha, transformando-a em um lento processo da digestão,
para que ela, em vez de encher-nos a pança e nos fazer sobreviver
para o paladar de quem nos sufoca/engorda, possa servir de alimento
estranho e nutriz, capaz de promover uma série de descaminhos
típicos de uma digestão que transforma.
Sabemos que o encontro com o novo é sempre pontual; sendo
assim, vale dar sentidos infinitos à história, que
não cessa de se inscrever. Contada de modo múltiplo,
deixando vir à tona a ausência de essência dos
diversos modelos que estão hoje em ação e se
pensam irredutíveis, ela pode recuperar os elementos de resistência
anárquica, sem literalidade, que entremeiam nossas juras
à obediência servil, pela via do jeitinho brasileiro.
Ah, meu amor,
Não é minha amplidão que me desencaminha,
Mas a virtuosidade!
(ANDRADE, M., 1980: 189)
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--------------------------------------------------------------------------------
[1] É importante ressaltar que a tarefa ideológica
de forjar uma nação, na maioria das vezes, foi feita
a serviço dos interesses do Estado monárquico e, posteriormente,
do Estado republicano.
[2] Optei por estabelecer a diferença entre memória
nacional e história, considerando a primeira como a história
construída de modo a embasar a formação da
identidade nacional que seqüestra partes da história
que não servem a tal intuito.
[3] Do mesmo modo, o modernismo é também tributário
de tal mudança. É Oswald quem afirma: “O Modernismo
é um diagrama da alta do café, da quebra e da revolução
brasileira”. (Andrade, O. 1972: 95)
[4] “O fenômeno realmente importante e decisivo de
nosso realismo foi a fixação consciente do intelectual...
Nós hoje nos debatemos (...) ante os problemas do homem e
da sociedade, com uma consciência, com um desejo de solucionar,
de conquistar finalidade, com um desespero pela posição
de fora-da-lei inerente ao intelectual de verdade (...) Enfim todos
nós estamos conscientes de nossa amarga posição
de intelectuais e movidos pelos fantasmas que nascem desse medo.
Uma situação maldita”. (Andrade, M., 1976: 49-52)
[5] Traduzido inicialmente por Mário de Andrade e depois,
sob sua influência, por Carlos Drummond de Andrade e Sérgio
Milliet como seqüestro e pela medicina psiquiátrica
da época de repressão. A diferença de nomeação
já contém em si sinais da diferença de interpretação.
Enquanto que a repressão aponta para a ordem do Estado e
de seus mecanismos de controle, o seqüestro aponta para modos
de operação limitados que impossibilitam a produção
de novas formas de subjetividade.
[6] Sobre esse assunto, vale ler o primeiro capítulo do
segundo volume da História da Psicanálise na França
(1925-1985) de Elisabeth Roudinesco.
[7] Para os interessados neste assunto, ver capítulo 2 da
tese completa.
[8] Nota sobre a entrada de Oswaldo Cruz para a Academia Brasileira
de Letras.
[9] Essa é, por exemplo, a constatação presente
em Ensaios Brasilianos (1935-40), de Roquette-Pinto, para quem a
nacionalidade e a literatura formaram, no Brasil, “um sistema
interessantíssimo”. Neste livro, ele afirma que, especialmente
no século XIX, o problema da formação da literatura
brasileira estava intimamente relacionado à discussão
sobre a construção da identidade nacional e se entrelaçava
com as novas disciplinas em consolidação: psicologia,
antropologia, sociologia, história etc.
[10] Assim, Terra Roxa e outras Terras, por exemplo, anunciava
as principais obras do verdeamarelismo; Oswald de Andrade era um
dos colaboradores mais assíduos de Novíssima (revista
carioca cunhada por ele mesmo muitas vezes de Velhíssima);
e o próprio Plínio Salgado, com quem o grupo de Oswald
brigava abertamente, deixou também suas colaborações
nas páginas de Antropofagia.
[11] No interesse de uma linearidade formal, inicialmente propôs-se,
neste trabalho, o início da década de 30 como limite
da primeira fase modernista, o que dificilmente pode continuar a
fazer sentido a partir da abrangência do contexto histórico.
Assim, toma-se tal referência datada apenas como uma região
de fronteira; os fatos nem sempre obedecem às datas pré-estabelecidas.
Parece mais proveitosa a proposição de valer-se do
projeto modernista como a sua primeira fase quando consideramos
sua novidade radical, com os conceitos de ruptura e explosão
das tradições e a concomitante positivação
do local. Para a delimitação da segunda fase, optou-se
por fazer valer o interlace entre literatura e ideologia do estado,
a partir do Estado Novo, quando se retoma, através da busca
do nacionalismo, do homem universal, da seriedade, da análise,
da ordem, o veio da dependência cultural.
[12] Para o modernismo que se delineava, o passadismo designava
uma polifonia de sentidos, referindo-se aos mais diversos processos
, quer àqueles utilizados pela arte, como o excesso de ornamento
na linguagem e o descritivismo, quer ao apego a fórmulas
e modelos que correspondiam a uma postura de alheamento e superficialidade
do artista com relação ao meio em que vivia.
[13] Ver, por exemplo, a crítica de José Veríssimo
a Marinetti e seus amigos como “mais uma extravagância
literária” (O Imparcial, 5/09/1913), em resposta à
primeira tentativa de Oswald de escrever um poema futurista –
“O último passeio de um tuberculoso, pela cidade, de
bonde”(Andrade, O., 1954).
[14] Não consegui encontrar o referido artigo no jornal,
nem mesmo dando uma margem de erro de 20/11/1917 a 11/02/1918. A
margem de busca foi até 11 de fevereiro porque ouvi dizer
que em 11 de janeiro de 1918 Oswald rebateu às críticas
de Lobato no mesmo jornal... também não consegui localizar.
Mais tarde fui informada de que este artigo está no Jornal
do Comércio. Será que Monteiro Lobato escreveu para
o Jornal da Tarde, também pertencente a O Estado? Ou então,
seqüestrei o artigo...
[15] Por exemplo, na poesia Pau-Brasil, em João Miramar,
na Paulicéia Desvairada e em Macunaíma.
[16] Sobre a importância do humor na emergência do
recalcado e na criação de novos sentidos, refiro o
leitor ao projeto de qualificação de Daniel Kupperman
"O humor: paradigma da sublimação em Freud",
defendido no Rio de Janeiro, Doutorado em Teoria Psicanalítica,
UFRJ, 2000.
[17] Eduardo Jardim de Moraes (1978) mostra que as categorias de
intuição e integração se encontram na
base dos projetos brasilianistas do Modernismo, o que os difere
de modo importante do pensamento nacionalista da ordem e da razão.
[18] Grande parte destes textos está na Biblioteca de Mário
de Andrade, situada no IEB-USP, hoje com sete obras de Freud: Introduction
à la Psychanalyse (1922), La Psychopathologie de la Vie Quotidienne
(1922); Totem et Tabou (1923), Trois Essais sur la Théorie
de la Sexualité (1923), Cinq Leçons sur la Psychanalyse
(1924), Essais de Psychanalyse (1927), Le Mot d’Esprit et
ses Rapports avec l’Inconscient (1930).
[19] De fato, em 25/3/1928, numa carta para Tristão de Athayde,
Mário (s.d.:23-5) afirmava que sempre que estava tratando
de questões psíquicas em sua obra, estava referido
a Freud.
[20] O uso do jargão e dos conceitos psicanalíticos
não passaria despercebido: As críticas foram tantas
que Mário acabou por tirar de seus textos alguns termos psicanalíticos
nas edições seguintes. No IEB/USP – São
Paulo, há a edição revista por Mário,
toda riscada e assinalada. A edição de 1930 viria
com vários seqüestros.
[21] Tal modo de escrita coaduna-se com o movimento pulsional incessante
que não permite a escrita fechar-se. “Freud [1926]
trata da questão da angústia do real como aquilo que
(...) advém do encontro com essa intensidade traumática
para o psiquismo, o que mostra claramente a necessidade do aparato
de manter um processo de elaboração constante na tentativa
de absorver o impacto traumático da pulsão”.
(FACCHINETTI, 1996:91)
[22] Sobre o modo como Mário compreende a questão
da memória, o texto “Memória e Assombração”
de 10/5/29 (1976), é bastante esclarecedor.
[23] Sobre este assunto, vide carta de Mário a Alceu de
Amoroso Lima de 23/12/1927, no qual este diz que tudo o que fazia
era tentar tirar do erro uma coisa “séria e organizada”,
fruto do documento e da pesquisa, enquanto Oswald, ao contrário,
buscava apenas o riso e a pilhéria. (in: Andrade, M., s.d.:
21-2).
[24] Vale lembrar que o orfismo, assim batizado por Guillaume Apollinaire,
é uma dissidência do cubismo que propunha a criação
de uma “pintura pura” – na acepção
fenomenológica de disposição inaugural –
através do contraste simultâneo dos valores luminosos
na pintura que constituiriam a estrutura dinâmica do quadro.
[25] A síntese oswaldiana parece estar referida à
fusão de uma tese e de uma antítese numa noção
ou numa proposição nova que retém o que elas
têm de legítimo e as combina mediante a introdução
de um novo ponto de vista
[26] Vale frisar que não estou falando aqui de um retorno
ao primitivo natural.
[27] Em palestra no Simpósio BRASIL Psicanálise &
Modernismo, São Paulo, MASP, outubro de 2000.
[28] Ressalta-se que, ao repudiar o discurso oswaldiano por considerá-lo
incapaz de instaurar o um, Otávio Souza alinha-se aos que
repudiam o Manifesto por seu caráter demolidor, estabelecendo
como necessária uma totalidade que pudesse assentar a identidade
dos brasileiros.
[29] Sílvio Romero é um desses ensaístas que
vê a literatura como capaz de revelar a sociedade, devendo
estar associada ao processo social do qual se originava (Cândido
1988). Para esse autor, a literatura, como toda a arte, não
passaria de um “capítulo da sociologia” (Romero,
1888: 257). Entretanto, assim como podemos pensar a crítica
de Romero pautada pela sociologia, “(...) a sociologia de
Romero é também marcada por uma questão estética.
O olhar que o autor lança sobre a sociedade como um todo
é influenciado e matizado pelo viés de seus critérios
literários”. (Campos, apud Cândido, 2000: 139-40).
[30] Esses primeiros psicanalistas tomaram parte ativa na difusão
da psicanálise no país, utilizando a psicanálise
em sua clínica, como Ulisses Pernambuco a partir de 1931,
fazendo traduções da obra de Freud (Galotti) e tomando
parte da primeira Sociedade de Psicanálise de São
Paulo (James Alvim).
[31] Idealizador e fundador do Hospital Psiquiátrico do
Juqueri, foi o primeiro professor de Clínica Neuropsiquiátrica
da Faculdade de Medicina de São Paulo, para o qual foi nomeado
em 1918. Sua aula inaugural foi sobre “A Doutrina de Freud”
e ganhou espaço no Jornal O Estado de São Paulo, sendo
publicada como artigo, em 1919. Além de sua obra mais conhecida,
O Pansexualismo na Doutrina de Freud (1920), ele publicou dois artigos
no jornal O Estado de São Paulo em 1919, discorrendo sobre
temas que incluíam questões psicanalíticas.
Na mesma época, incluiu os temas psicanalíticos nas
suas aulas de psiquiatria.
[32] Em especial em relação ao grupo de Oswald e
de Andrade, segundo depoimento de Antônio Paim, que freqüentava
a sociedade psicanalítica (in: Sagawa, 1985:15-34),
[33] O texto segue com análises de trabalhos de Marinetti,
Braque, Duchamps e de Chagall, onde aponta para o conteúdo
manifesto que expressa o latente pela via do simbolismo. Vale dizer,
o conteúdo latente do material dos vanguardistas e dos alienados,
nos diz Osório, contém o mesmo significado que os
das obras dos alienados.
[34] Naturalmente, tal processo, ao mesmo tempo em que produziu
especialistas, trouxe as sementes de uma massificação
contrária às diferenças e singularidades características
de um espaço de criação.
[35] Embora esta tese não trate dos anos posteriores à
Segunda Guerra Mundial, gostaria de relativizar o afastamento da
arte das questões sociais, porque se isso representou a tendência
dominante nos anos 40, a Novíssima Geração,
nos anos 1950 e 1960, rearticulou-se a favor de um processo de modernização
que buscava coadunar-se ao projeto social e trabalhista. Assim,
a arte voltava a fazer um movimento de resistência, lutando
dessa vez contra o projeto modernizante na sua dimensão individualista,
e acusando a geração de 1920 de traição
de um ideal, uma vez que teriam permitido a entrada desse novo modelo
sem criar resistência a ele. Entretanto, vale dizer, a separação
dos terrenos profissionais já impregnava os campos de saber.
Além disso, a resistência, como bem o sabemos, foi
golpeada em 1964, resultando numa mudança do projeto nacional.
Apesar da radicalidade do discurso nacionalista reimplantado e do
projeto de ordem e progresso, a solução militar-direitista
foi a de esvaziamento político, desbaratamento de grupos,
e afastamento da produção intelectual crítica,
marcando-se pela ideologia “Ame-o ou Deixe-o”, que levaria
adiante o “cada um por si”. O individualismo marcaria,
posteriormente, uma certa naturalidade ante a entrada do discurso
da globalização, excluindo aquele ligado à
identidade nacional.
[36] Sua atitude revela uma mudança de interesses: não
se desejava mais uma sociedade aberta que buscasse a discussão
sobre a psicanálise por todo o campo cultural; a ideologia
reinante encaminhara a psicanálise para o seu viés
de ciência especializada e técnica terapêutica
específica.
[37] em carta datada de 11 de agosto de 1928
[38] International Psychoanalytical Association - IPA
[39] Os resultados positivos do tratamento psicanalítico
foram também mencionados em Aspectos da Apresentação
Prática da Psicanálise (1939).
[40] Sobre este assunto ver seus textos de 1939 e 1952.
[41] Com Foucault (1979) tornou-se possível apreender que
o discurso médico, apesar de tentar se mostrar um discurso
neutro e objetivo, é extremamente rígido e moralista.
[42] Sua contraparte foi o silenciamento da linguagem e do sentido
que aproximavam o discurso psicanalítico do discurso estético.
[43] Vale lembrar que os textos de Freud foram escritos num alemão
muitas vezes coloquial, que proporcionam a facilidade da compreensão
e o prazer da leitura do material pelo leitor, aspecto este muito
prejudicado na versão inglesa.
[44] Ressalta-se aqui as traduções feitas do alemão
por Durval Marcondes (entre outros), das quais apenas a tradução
das Cinco Lições de Psicanálise continua a
fazer parte da coleção em português, com algumas
modificações feitas por Jayme Salomão: além
dessa obra, consta que Durval traduziu A história do movimento
psicanalítico (1914), O futuro de uma ilusão (1920),
O mal-estar na civilização (1930) e Esboço
de Psicanálise (1938).
[45] Sua chegada organizaria o grupo ligado a Durval como Grupo
Psicanalítico de São Paulo em junho de 1944. Em 1951,
após a vinda de Spanudis para São Paulo, o grupo obteria,
no Congresso Internacional de Amsterdã, o reconhecimento
definitivo como filial da IPA, passando a ser denominado de Sociedade
Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Em
1959, seria a vez das sociedades do Rio de Janeiro No Rio de Janeiro,
todavia, o processo foi mais lento, entre outros motivos, em razão
dos conflitos entre os analisandos de Burke e do grupo de Kemper.
No excelente livro de Helena Bessermann Vianna, o processo está
muito bem detalhado (VIANNA, H.B., 1994: 137-167). Aqui vale ressaltar
a formação do Centro de Estudos Juliano Moreira em
1944, grupo este que seguiu para Buenos Aires com vistas a formação
aos moldes da IPA. Em 1947 fundou-se o Instituto Brasileiro de Psicanálise
que receberia, em fevereiro de 1948, Mark Burke como didata, que
chegou ao Rio de Janeiro após uma troca de correspondência
com Ernst Jones que o recomendou calorosamente (VIANNA, H.B., 1994::141).
Ao final daquele ano, chegou também Werner Kemper. Dois grupos
vão se constituir culminando na separação e
no reconhecimento posterior de duas entidades psicanalíticas
distintas. Vale dizer que, enquanto Burke veio fugido do nazismo,
Kemper fez parte da Sociedade Psicanalítica alemã
durante a Guerra, tendo por várias vezes se declarado, implicitamente,
de acordo com as teses nacional-socialistas (VIANNA, H.B., 1994:154);
além disso, Jones se pronunciara dizendo não garantir
a qualidade de seu trabalho depois da ocupação nazista
(VIANNA, H.B.,1994: 157). O aspecto do silêncio levantado
pela autora nos auxilia no sentido de corroborar minha hipótese
a respeito da influência da ideologia do Estado Novo para
a psicanálise que se instituía no país como
modelo neutro e verdadeiro.
[46] Em um próximo trabalho, pretendo cotejar toda a Revista
Brasileira de Psicanálise e comparar os textos de Freud escolhidos
pelos autores às leituras da primeira Revista e do movimento
modernista. Acredito que as escolhas poderiam oferecer uma melhor
visão da ideologia que aí se faz presente.
[47] Sobre este assunto, vale a pena conferir o texto de Edmilson
Rodrigues (1994).
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