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Apresentação parcial da Tese de Doutoramento
em Teoria Psicanalítica –IP/UFRJ
Deglutindo Freud:
Histórias da digestão do discurso psicanalítico
no Brasil
Cristiana Facchinetti
1.0. Introdução
“Nada há mais original, nada mais intrínseco
a si que se alimentar dos outros. É preciso, porém,
digeri-los. O leão é feito de carneiros assimilados.”
Paul Valéry (Apud: SANTIAGO, S., 2000)
Nesta tese busquei puxar algumas linhas do novelo do discurso psicanalítico
no momento de sua chegada no Brasil, nas primeiras décadas
do século XX, a fim de identificar a distinção
dos lugares a partir dos quais suas enunciações foram
feitas e a história oficial da psicanálise, construída.
O primeiro fio representou a idéia de construção
da memória nacional, forjada no século XIX por meio
da elaboração da figura do índio como herói
e mito de origem, da produção de documentos históricos
e geográficos como provas de identidade e da valorização
do exotismo da natureza, aos quais se aliaram os esforços
anteriores de imposição de língua portuguesa
e de absorção da erudição jesuítica.
Tal imagem, criada pelos pensadores da cultura, em especial pelo
homem de letras[1], tinha como propósito forjar a pátria
através da construção de uma narrativa que
privilegiava a unidade nacional e sua potência. Com este objetivo,
buscou-se silenciar os movimentos de fragmentação
e de resistência à unidade territorial, bem como afastar
o perigo que os índios (tal como eles se apresentavam e não
seu modelo idealizado) e os escravos africanos e seus descendentes
representavam para a construção de uma nação
nos moldes europeus.
Todavia, para que um discurso se constitua como discurso de filiação
é necessário que ele seja compartilhado pela cultura
na qual busca se inserir. No Brasil, o discurso da identidade nacional
precisava superar alguns obstáculos para que pudesse ganhar
representatividade e se estabelecer de fato: a presença maciça
dos africanos e de sua cultura, a concepção de uma
natureza do excesso sexual referida aos índios e aos negros,
a concomitante oposição entre trabalho e sexualidade,
bem como a mistura dos corpos que resultaram na miscigenação,
eram fortes demais para serem caladas, marcando um impasse em relação
ao projeto nacional tal como ele fora desenhado a partir de um ideal
que, ao final do século XIX, apontava para a eugenia, a ordem
e a civilização européia como referências
exclusivas. Para superar tal estorvo, era necessário mais
que silenciar as resistências políticas, civis e militares
à unidade nacional e dizimar as tribos indígenas e
os quilombos. Sem este a-mais, o projeto de constituição
da identidade nacional não teria forças para deixar
o papel, porque a parte do povo excluída do projeto resistia,
inviabilizando a efetivação da crença na unidade
nacional.
A busca em dar credibilidade ao projeto identitário, conjunta
à entrada dos discursos modernizantes, representa o segundo
fio da meada deslindada. O impasse enfrentado por esse projeto civilizatório
e o empuxo modernizador geraram a busca de novas formas de domesticação
daquilo que não se deixava docilizar; de fato, no início
do século XX, vislumbramos o fortalecimento do discurso higienista,
colorido de tons favoráveis ao embranquecimento da raça
e à homogeneização das massas.
Para os higienistas e outros grupos afins, a busca de definição
do Brasil continuava a ser marcada pela exigência, advinda
do século XIX, da modificação do padrão
racial e da aculturação do brasileiro ao modelo de
cultura ocidental. O diálogo construído através
de Monteiro Lobato com o Jeca-Tatu (1959) assinala a compreensão
das elites do Brasil a respeito do que é a nação
e de seus anseios reformistas que, incessantemente, buscaram salvar
o Brasil, isto é, refazer o homem e a nação
brasileira pela ação histórica da purgação
dos vestígios dos jecas-tatus.
Como contraponto, em meio à busca ideológica de constituir
o brasileiro, surgiu, no início do século XX, uma
consciência estética crítica que romperia com
a memória nacional tornada oficial[2] e buscaria a reformulação
da história, de modo a incluir o que vinha sendo excluído
desde o século XIX; tal movimento abriria fendas nos ideais,
tornando possível ao pensamento sobre a cultura dialetizar
com o Outro europeu através de uma comilança que se
esperava capaz de poder produzir a absorção do Outro
não por estoque (LIMA, L. C., 1991:27), em uma só
via, mas numa digestão feita a partir de seus próprios
significados, estabelecendo identidades e diferenças.
Estabeleceram-se então duas modalidades opostas de diagnóstico
e terapêutica para um mesmo questionamento, não apenas
no campo social, mas também na concepção do
sujeito que se quer brasileiro. Lembremos que tal questionamento
já estava vinculado ao processo de modernização
e urbanização das cidades e, portanto, à quebra
da tradição herdada decorrente de tal processo.
O divisor de águas implantado no fim do século XIX
acabou por estabelecer visões completamente distintas sobre
o que era nacionalidade, nação e, mesmo, o que significava
ser um intelectual. De um lado, aqueles que defenderiam a causa
patriótica, sonhando salvaguardar as massas incultas, a pátria,
libertando-a dos entraves que estivessem no caminho da modernização
e do capitalismo nascente. Do outro, os que faziam resistência
ao processo acrítico de modernização a qualquer
custo. Para estes últimos, a sociedade que desejavam forjar
só poderia ser criada a partir de uma revolução
interna que pusesse em questão os valores tanto culturais
quanto individuais.
Apesar das divergências que se tornavam cada vez mais agudas,
todos estavam de acordo com o fato de que se revelavam falidos os
moldes de um pensamento colonialista, que não mais correspondiam
à realidade em ebulição. A base onde haviam
sido apoiadas as certezas sobre quem era o brasileiro ou sobre como
ele deveria advir estava irremediavelmente abalada.
É nesse caldo efervescente que a psicanálise surge
como nova possibilidade de instrumento diagnóstico e terapêutico.
O terceiro fio puxado do novelo se liga àquilo que permaneceu
fora do campo da história oficial da psicanálise no/do
Brasil. Inscrever tais fragmentos implica, ao meu ver, a ruptura
de antigas Bahnungen, antigas visões-de-mundo, e a construção
de novas trilhas para a psicanálise no/do país.
O percurso histórico nos faz testemunhas de que o discurso
da psicanálise no Brasil não aponta para uma unidade
coesa, origem única ou objetivos idênticos. Em vez
disso, encontramos oscilações, divisões discursivas,
que apontam para a história singular das filiações
estabelecidas concomitantemente à difusão desse saber
e às resistências a ele. Mais ainda: o acompanhamento
da inserção da psicanálise pelas vias do modernismo
e do higienismo torna claro o embate entre os dois discursos pela
hegemonia de suas verdades e, paulatinamente, pela definição
dos rumos que desembocariam nas instituições psicanalíticas
no país, tal como as conhecemos hoje.
A abertura para o discurso psicanalítico no pensamento sobre
o Brasil é concomitante ao rompimento com os valores tradicionais
europeus e ao surgimento de um universo aberto e mutável
que traria novos valores para a sociedade e procuraria responder
uma pergunta que não cessava, “Quem sou eu?”.
Há, de fato, uma identidade profunda entre a rápida
modernização e urbanização da sociedade
brasileira no início do século XX e a entrada da psicanálise
no país.
Tal hipótese não é desconhecida: analisando
a entrada da psicanálise, Durval Marcondes, organizador da
primeira Sociedade de Psicanálise da América do Sul,
afirmou que as mudanças ocorridas no final da Primeira Guerra
Mundial constituíram um fator importante para uma nova “compreensão
do papel das pessoas na vida social”. Para ele, a participação
social da mulher, a liberdade moral do teatro e a arte modernista
propiciaram um clima favorável à difusão da
psicanálise no Brasil (apud MOKREJS, 1993: 47) [3]. Pode-se,
inclusive, estender a observação de Marcondes e afirmar
que pelo menos quatro áreas da vida cotidiana foram significativamente
abaladas pelo processo de modernização e urbanização
das principais cidades do país – a higiene, a sexualidade,
o casamento/a família e a educação.
Assim, a psicanálise introduz-se como uma possibilidade
de resposta a uma sociedade que buscava modernizar-se e ganhar o
domínio de si mesma, mas que, nessa busca, perdeu suas referências.
Freud atraiu o interesse nesse campo discursivo de dois modos opostos:
como instrumento para a crítica à civilização
- realizada nos moldes europeus - e para a valorização
de culturas periféricas, como a brasileira; ao mesmo tempo,
serviu como justificativa para a manutenção, pelo
modelo conservador, de controles sociais há muito estabelecidos,
ainda que sob nova roupagem.
A proposição de análise da entrada do discurso
psicanalítico no pensamento do/sobre o Brasil não
tem, portanto, a teoria psicanalítica como interesse primordial,
mas antes recai sobre sua representação sociocultural,
uma vez que foi a partir de tal configuração que os
conceitos psicanalíticos seriam posteriormente chamados a
interpretar a sociedade e suas formas de subjetivação.
Da mesma forma que a entrada do discurso psicanalítico depende
de seu reconhecimento como um discurso que pode responder de forma
nova às questões que circundam os processos sociais,
sua permanência e plausibilidade no campo de uma cultura dependem
também de processos sociais de confirmação
de sua validade.
“Com Freud (...) é preciso considerar além
do sistema teórico a existência de uma forma de prática,
ou de práticas, por onde se transmite e se reproduz socialmente
o discurso psicanalítico, que tem efeitos incisivos sobre
a subjetividade dos agentes sociais, transformando a natureza de
sua presença no campo da representação. (...)
Assim, como contraponto desta presença de Freud e o impacto
da psicanálise na subjetividade de cada um, existiria também
uma representação social do que seja o discurso psicanalítico,
que define mesmo a demanda social para seu consumo no plano clínico”.
(BIRMAN, 1989: 25)
O que se revelou essencial para a validação das respostas
advindas do campo da psicanálise na sociedade urbana brasileira
do início do século XX foi o fato de seus membros
passarem a experimentar uma dicotomia radical. Por um lado, manteve-se
o discurso homogeneizador e globalizante, identificado aos processos
de produção industrial, à marcação
do tempo de trabalho, à interferência do Estado no
controle das doenças, à ideologia de ordem e progresso,
ao pensamento positivista, racionalista e eugênico. Por outro,
o surgimento de um discurso encorpante, produtor de singularidade
e densidade subjetiva, relacionado à perda das certezas a
respeito dos valores, da verdade e do si mesmo, e que acabaria por
dar origem a um sujeito com uma crise de identidade crônica
(BERGER, 1975), resultante da conseqüente escassez de referências
externas capazes de servirem de modelo. Os afetos e emoções,
libertos dos ritos e das crenças e instituições
religiosas e convertidos em doutrinas filosóficas e instituições
leigas (FREUD, 1917), traziam agora sua faceta do Unheimliche.
Como conseqüência da introdução da psicanálise,
a intelectualidade [4] brasileira passou a operar a partir de novos
enunciados na busca de compreensão e, principalmente, de
soluções para o país. Embora utilizassem muitas
vezes vocábulos idênticos advindos da leitura dos textos
de Freud, produziram as mais variadas significações,
em consonância com o discurso que visavam legitimar. Como
um bom exemplo deste fato, Sérvulo Figueira observa:
“Em 1927, o Dr. Porto Carrero escreve “O caráter
do escolar segundo a psicanálise” (tese apresentada
na 1ª. Conferência Nacional de Educação,
em Curitiba) e, em 1928, “Bases da educação
moral do Brasileiro”, enquanto neste mesmo ano, Oswald de
Andrade, no “Manifesto Antropofágico”, faz a
psicanálise dizer coisas bastante diferentes, com base em
ilações principalmente a partir do Totem e Tabu de
Freud.” (FIGUEIRA, 1980a: 162).
Assim, ainda que consideremos a variação de sentido,
como veremos nos capítulos seguintes, ganha espaço
no campo dos estudos sobre a realidade social e sobre a subjetividade,
a idéia de que somente alguns segmentos psíquicos
estão presentes na consciência já que a atividade
egóica opera em termos de recalque[5] e de projeção;
tal fato está relacionado ao desconhecimento pelo sujeito
das motivações de suas ações e à
sua incapacidade de interpretar suas próprias simbolizações.
(BERGER, 1980: 19).
Desta forma, o que é desconhecido pelo sujeito, passa a
ser experimentado como referente ao inconsciente (ou subconsciente,
como era também nomeado), matriz de processos mentais decisivos.
A pulsão (o instinto, segundo a tradução da
época) é também agora valorizada na constituição
da subjetividade por estar intimamente vinculada a conteúdos
inconscientes: a criatividade, o primitivo, a sexualidade e a infância.
Finalmente, e isso é algo que não deve ser desconsiderado,
a cultura passaria a ser assimilada em termos de um embate irreversível
entre a civilização, relacionada intimamente às
regras, à razão e, portanto à consciência
e ao sujeito, no qual a sexualidade, o primitivo e o caos resistem
e então se estabelecem como relativos ao inconsciente e à
irracionalidade.
2. O novo é o Brasil de novo
Em meio à urbanização da estrutura social
do país e à modernização tecnológica
informada pela razão científica como princípio
de verdade, uma parte dos intelectuais das décadas de 1920
e 1930, entre eles Mário e Oswald de Andrade, apropriou-se
dos conceitos de primitivo, inconsciente, divisão subjetiva
e pulsão como lugares centrais de regulação
do sentido. Na proposta modernista, os conceitos psicanalíticos
foram apreendidos como instrumento para a revolução
subjetiva e social, desempenhando papel bastante distinto daquele
relacionado ao discurso construído pelos higienistas. Em
vez de reformar, embranquecer, formatar e sujeitar-se à ordem,
desejava-se a possibilidade de criar algo novo a partir do diálogo
com as singularidades culturais colocadas no campo da alteridade.
Neste caso, a pergunta quem somos nós transforma-se em um
“não sou nada, mas posso vir a ser” (BIRMAN,
J., 1996: 89-120), em uma visada que se apropria da psicanálise
pelo discurso da cultura, percebida como um campo dominado pelas
intensidades e irredutível à generalização.
Esse tipo de encaminhamento, vale dizer, abre portas para múltiplas
identificações por meio da busca de um novo que se
quer singular e não se limita às severas restrições
impostas pelo universalismo e pela generalidade.
A passagem do exame histórico para além dos limites
cronológico-lineares é um dos traços da cultura
da modernidade. A idéia de descontinuidade impõe a
consideração da coexistência de personagens
e objetivos semelhantes situados em tempos distintos. Do mesmo modo,
personagens contemporâneos, habitantes de uma mesma paisagem,
podem vincular-se a objetivos bastante diversos. Diante de nós,
a dificuldade de transpor linearmente – uma característica
da escrita acadêmica – tanto os movimentos artísticos
que, por suas características e elementos podem ser considerados
modernistas, ainda que anteriores à Semana de Arte Moderna
de 1922, quanto outros acontecimentos ocorridos na cultura brasileira
da década de 1920, que indicam o transbordamento do modernismo
para outros campos que não apenas os literários e
artísticos.
O modernismo foi um movimento crítico da modernidade que
transpôs o universo ficcional e lírico da literatura,
ecoando em áreas que, a partir da década de 1930 e,
especialmente, nos anos 1940, seriam compartimentadas, levando à
especialização das profissões e à conseqüente
delimitação de suas áreas. Vejamos como Mário
de Andrade, julgando não a Semana, mas o movimento em seu
processo e amplitude, indica tal fato:
"Manifestado especialmente pela arte, mas manchando também
com violência os costumes sociais e políticos, o movimento
modernista foi o prenunciador, o preparador e por muitas partes
o criador de um estado de espírito nacional”. (ANDRADE,
M. 1980c: 23.)
A hipótese inicial desta pesquisa propunha a existência
de duas leituras antagônicas da psicanálise: aquela
advinda do discurso científico e aquela surgida no discurso
literário da década de 20. A investigação
inicial propunha a hipótese de uma dicotomia bem delineada
e esperava-se, através da pesquisa das fontes primárias,
mostrar que a difusão inicial da psicanálise deveu-se
muito mais ao movimento modernista literário brasileiro do
que ao discurso médico, inicialmente mais refratário
a ela. O decorrer da pesquisa, entretanto, mostrou que ao contrário
do ocorrido na França entre a vanguarda histórica,
a psiquiatria e a psicanálise, em que as posições
e os objetivos se marcaram de forma claramente antagônicas[6],
no Brasil os limites entre ciência social, ciência natural
e literatura não se fizeram muito bem delineados.
De fato, no Brasil o século XIX caracterizou-se pela centralidade
da literatura e das formas literárias[7], mesmo nos campos
que se pretendiam científicos. Apesar da existência
de grandes discussões a respeito das questões sociais,
do ritmo acelerado da cultura, do arremedo de divisão do
trabalho intelectual, no início do século XX, mesmo
com o estabelecimento da vida científica, a literatura ainda
permanecia em uma posição-chave. Em conseqüência
da fragilidade da fundamentação teórica e técnica,
havia se desenvolvido no país uma cultura de ostentação
da erudição marcada pela literatura e pela retórica
que se antepunha à ciência, à técnica
e à organização racional. Essa tendência,
presente como estratégia de ampliação da profissão
na cultura geral, na poética e na retórica, procurava
realizar os objetivos da tradição erudita presente
na formação da nação desde o Império.
Tal disposição tradicionalista, todavia, terminou
produzindo, em seus próprios labirintos internos, uma antinomia:
a reação contra as demarcações das fronteiras
de um processo de profissionalização ou especialização,
que delimitava e separava a intelectualidade em diferentes grupos,
ou seja, a própria radicalização do desejo
de tradição acabou criando, à revelia de seus
intuitos, uma reação contrária à direção
que pretendia promover. Dessa forma, é possível defender
que a ausência de limites do dizer provocada pela não-especialização
das profissões causou um estreitamento das relações
entre os diversos profissionais que ultrapassaria o campo do savoir-faire
propriamente dito, fixando-se no plano de um aprendizado sobre o
savoir-vivre brasileiro. (Cândido, 2000)
É fato que, paulatinamente, o prestígio das profissões
ganhava força. A importância adquirida pelos engenheiros
com as modernizações promovidas na administração
de Pereira Passos e o processo de higienização levado
a cabo por Oswaldo Cruz na cidade do Rio de Janeiro repercutiram
em todo país. Ainda assim, a literatura não foi deixada
de lado, servindo de instrumento para aumentar a autoridade desses
profissionais para além de suas profissões.
“Alexandre Dumas entrou para a Academia Francesa, tendo como
credencial o seu romance Os três mosqueteiros. Por que, então,
não ser eleito o Oswaldo, que tem, não três,
mas milhares de mosquiteiros, toda uma legião de mata-mosquitos?”
(LEITE, F., s.d.:24) [8]
A pressão do eruditismo e a sedução pelo bem-escrever
foram fortes o suficiente para comprometer as diversas profissões
com os campos da poética e da retórica. Nas primeiras
décadas do século XX, a idéia da missão
do homem de letras – compreendido como o profissional de qualquer
área que escrevesse e pensasse as questões brasileiras
– manteve-se, continuando a literatura a centralizar os esforços
de formação da nacionalidade.[9] Assim, a pesquisa
pôde indicar que demarcar uma divisão entre literatura
e ciência seria um ato artificial que acabaria por esconder
uma característica importante de nossa cultura no início
do século XX e que possivelmente traçou influências
significativas no modo inicial de recepção da psicanálise:
a ausência de limites claros entre os diversos campos de saber.
Além disso, o modernismo não foi homogêneo,
nem dominou toda a literatura da época – como se poderia
pensar numa leitura mais superficial do movimento –, mas apresentou
a mistura de uma série de tendências diferenciadas,
às vezes opostas, que se apropriaram quer de elementos distintos
da vanguarda européia, quer de características locais.
O estudo dos periódicos da época é o elemento
que mais tem servido para demonstrar a junção dessas
diferenças, já que, apesar das críticas que
um determinado grupo fazia aos demais, seus órgãos
de divulgação faziam a propaganda de todas as obras
publicadas, não importando o grupo a que pertenciam seus
autores.[10] As revistas estavam abertas às mais variadas
contribuições literárias, bem como àquelas
oriundas de outros campos, tais como as de médicos, filósofos
e cientistas sociais. (GUELFI, 1987: 39-43). Um segundo ponto, portanto,
diz respeito à reunião desses elementos. A unificação
dessa babel de tendências parece resultar do questionamento
acerca do caráter dependente da cultura brasileira ou mesmo
da própria existência ou não de uma “cultura
brasileira”.
Pode-se dizer então que, na criação da literatura
modernista, mesclam-se elementos passadistas e de vanguarda, ou
seja, o Modernismo constituiu-se no sentido tanto horizontal quanto
vertical em um amplo movimento de renovação que não
excluiu os dados locais nem os elementos de permanência de
outras estéticas, cuja atuação ultrapassaria
as atividades ocorridas na década de 1920.
“A matização é bem maior do que se supõe,
ou que se deseja ver, nos anos 20, mesmo em relação
às figuras mais marcantes do movimento”. (LARA, 1987:
9).
Na literatura, o modernismo não surgiu apenas do contato
com as vanguardas européias, mas (ainda que não o
reconheça necessariamente) seguiu rastros de um movimento
crítico que atravessam, por exemplo, Machado de Assis, Lima
Barreto e mesmo de Graça Aranha. Em Machado de Assis já
é possível ver delinear-se características
retomadas pelo modernismo através da leitura da obra freudiana.
Apesar de não ter sido leitor de Freud, Machado de Assis
buscava a interioridade e os mistérios da alma, apontando
para fenômenos semelhantes aos lapsos, ao chiste, à
condensação e ao deslocamento. Além da visão
dotada de interioridade para seus personagens, Machado trouxe a
marca de uma nova forma de pensar a nacionalidade (1873), que seria
retomada pelos modernistas. Dom Casmurro escrito em 1900, mesmo
ano de A Interpretação dos Sonhos, é um bom
exemplo disso. Deste modo, é necessário alargar a
noção de modernismo e buscar seus elementos que se
configuram desde o fim do século XIX. Partindo deste princípio,
podemos vislumbrar o delineamento das propostas modernistas em um
grupo do Rio de Janeiro, formado por alguns artistas boêmios
como Bastos Tigre, Kalixto, Sinhô, Patrocínio Filho
e Lima Barreto.
Em cada um desses autores aponta-se uma nítida modificação
na postura do intelectual. Este já não se identifica
com o erudito, portador de um saber consagrado, estabelecido sobre
teorias e modelos importados. Há certa abertura para o social
e a história como fontes do saber e da ação.
O escritor torna-se mais suscetível à cultura local
e começa a questionar não só o papel do darwinismo
social, como também a importação acrítica
das culturas alheias. (GUELFI, 1987: 122)
É neste caldo cultural que acaba por brotar o grupo que
seria posteriormente reverenciado o Modernismo, em sua primeira
fase [11]. O conjunto opositor de idéias e a busca do encontro
com o excluído, que vinham se firmando desde o final do século
XIX, ganharam, no início do século XX, um colorido
relacionado ao novo. Todavia, a nítida oposição
entre as novas idéias e o passadismo[12] ainda tardaria um
pouco. Embora seja possível encontrar críticas ao
movimento futurista e uso de seus termos desde 1914, assim como
as respectivas polêmicas em torno de sua apropriação
entre os tradicionalistas e leitores médios dos jornais da
época[13], é apenas, em 1917, com a severa crítica
de Monteiro Lobato à exposição de Anita Malfatti
que o antagonismo entre os estilos começa, de fato, a chamar
a atenção.
“(...) São produtos do cansaço e do sadismo
de todos os períodos da decadência: são frutos
de fins de estação, bichados ao nascedouro. (...)
Embora eles se dêem como novos, precursores de uma arte a
vir, nada é mais velho que a arte anormal ou teratológica:
nasceu com a paranóia e com a mistificação.
(...) A fisionomia de quem sai de uma dessas exposições
é das mais angustiantes. Nenhuma impressão de prazer
ou de beleza (...) em todas (as caras) (...) se lê o desapontamento
de quem está incerto.(...) Arte moderna, eis o escudo, a
suprema justificação. Na poesia também surgem,
às vezes, furúnculos desta ordem, provenientes da
cegueira nata de certos poetas elegantes, apesar de gordos [referência
à Oswald], e a justificativa é sempre a mesma: arte
moderna”. (LOBATO, J. R. M., 20/12/1917 , Apud BRITO, M. S.,
1997: 45-9).[14]
Encabeçados por Oswald de Andrade, os adeptos e apreciadores
da arte de Malfatti revidaram, conquistando o interesse público.
Esse revide ganharia o reforço do prêmio internacional
de escultura em Paris, conquistado por Victor Brecheret, em 1921.
O fato de ter vencido quatro mil concorrentes fez com que ele tivesse
grande publicidade local e internacional e ajudou na fermentação
para a Semana.
“(...) tudo já estava preparado. A coesão do
grupo paulista [Mário e Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia,
Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo, Cândido da Mota Filho,
Sérgio Buarque de Holanda, entre outros], os contatos deste
com alguns intelectuais do Rio (Ribeiro Couto, Manuel Bandeira,
Renato de Almeida, Villa-Lobos, Ronald de Carvalho) e a adesão
do prestigioso Graça Aranha significavam que o modernismo
poderia lançar-se como movimento”.
(BOSI, A., 1983: 381)
Tal como os “modernistas cariocas” e outros que os
antecederam, os modernistas de 1920 não buscavam postulados
ou uma escola em comum; o que os unificava era o desejo de uma expressão
livre e as oportunidades para manifestar, sem as enunciações
academicistas, “aquilo que o inconsciente grita[va]”
(ANDRADE, M., 1980). Portanto, a recusa ao academicismo, ao gabinetismo,
à erudição vazia, constituiu a marca dessa
primeira geração, cujo interesse era explodir as convenções
e destruir os temas poéticos e as formas tradicionais do
dizer; as discussões e contradições davam forma
aos gestos estéticos e afirmavam a vontade rebelde como movimento
de negação da ordem estabelecida.
“O modernismo, no Brasil, foi uma ruptura, foi um abandono
de princípios e de técnicas conseqüentes, foi
uma revolta contra o que era a Inteligência nacional. É
muito mais exato imaginar que o estado de guerra da Europa tivesse
preparado em nós um espírito de guerra, eminentemente
destruidor (...)”. (ANDRADE, M., 1980c : 235).
A anarquia dos anos 1920 desnudava o país, desmascarava
a idealização da literatura representante das oligarquias
e das estruturas tradicionais. Ela instaurou uma visão e
uma linguagem muito diferentes do "ufanismo”[15], ainda
que abarcasse o que seus integrantes denominavam de alegria; de
fato, o chiste era utilizado como arma nesse primeiro momento modernista;
a boca aberta, escancarada, era um princípio relacionado
à tentativa de dissolver o havia muito seqüestrado[16],
emancipando o homem de toda a lógica da razão. Neste
compasso, passariam a ser explorados o inconsciente, a narração
dos sonhos, os “causos”, o folclore local, o humor e
também, com Marx, a atividade revolucionária e o protesto
contra as instituições alienantes.[17]
De fato, a escrita modernista da primeira fase tem um traço
revolucionário. Se mesmo hoje podemos admirar e enxergar
uma certa novidade hieroglífica, fotográfica e antropofágica
da nova escrita, o estranhamento produzido na época de seu
surgimento mostrou-se ainda mais radical. A literatura que os modernistas
de então propunham como programa não era passível
de classificação; era sequer reconhecida como arte,
algo que já pudemos verificar com Monteiro Lobato (1917).
Em outras palavras, era um enigma em busca de sentido: uma escrita
ávida de leitores abertos à novidade, cujas moções
pulsantes exigiam ser lidas a partir de um lugar diferente, isto
é, exigiam a reinvenção também do leitor.
Exemplificam essas propostas Paulicéia Desvairada, de Mário
de Andrade (1980) e o estilo-fragmento de Oswald de Andrade, que
o faz representar ”(...): o ‘corte’ contra a ‘corte’.
” (SEPÚLVEDA, 1995:10)
“Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto
expediente protocolo e manifestações de apreço
ao Sr. Diretor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos do amante exemplar
com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às
mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo do clown de Shakespeare
Não quero mais saber do lirismo que não é
libertação”.
(BANDEIRA, M. 1981: 62)
A uma concepção anterior de mundo unívoca
superpôs-se a plurivocidade: mundo e linguagem em transformação
incessante. Na ruptura com a estabilidade do mundo natural dado
de antemão, os modernistas rejeitaram os ideais de raça
e de fixidez das características. Eles recusaram ao mesmo
tempo a literatura romântica referida à tristeza, o
darwinismo, o positivismo, o evolucionismo e a psicologia da alma
dos povos e das multidões, contra os quais brandiu a bandeira
de um novo homem marcado por desejos e intensidades.
Nesse contexto, a guerra declarada contra a fraseologia gramatical
pode ser compreendida como estratégia para a realização
de uma nova estética expressa pelas idéias de impulso,
pontualidade e simultaneidade:
“Tínhamos que quebrar tudo, destruir, matar, enterrar,
cremar. Foi o que fizemos de 1921 até 1932, mais ou menos”.
(MILLIET, S., 1981: 241)
A destruição das antigas barreiras da linguagem e
do bom-tom aliada à intensidade ampliadora e libertadora
do folclore e da literatura popular romperiam o bloqueio imposto
pela ideologia oficial e promoveriam o fluir de forças até
então recalcadas. A experimentação de novas
linguagens, com suas exigências de novos léxicos, novos
torneios sintáticos, imagens surpreendentes e temas diferentes,
permitiria – ou mesmo imporia –uma aproximação
com o material da terra. (LAFETÁ, 1974: 11-2)
“O desajuste não é encarado como vexame, e
sim com otimismo – aí a novidade – como indício
de inocência nacional e da possibilidade de um rumo histórico
alternativo, quer dizer, não burguês”.
(SCHWARZ, R., 1987: 37)
De fato, como Lafetá propõe em A Crítica e
o Modernismo (1974: 11), a busca de uma nova linguagem que deságua
na pesquisa do que o brasileiro fala e pensa já contém
em si própria seu projeto revolucionário. A escolha
de um modo distinto de dizer implica novos modos de ver um objeto;
se é a linguagem que permite dizer sobre o mundo e sobre
a visão que se tem dele, investir num novo modo de falar
significa também investir num novo modo de ser.
“(...) Estamos matando a literatura. Estamos acabando com
o domínio espiritual da França sobre nós. Estamos
acabando com o domínio gramatical de Portugal. Estamos esquecendo
a pátria-amada-salve-salve em favor dessa terra de verdade
que vai enriquecer com o seu contingente característico a
imagem multiface da humanidade”. (ANDRADE, M., 1925b: 333-5)
Vista sob este ângulo, a primeira fase do modernismo foi
rica em experimentos no campo poético e ficcional. São
aventuras que se aproximam das rupturas européias levadas
a cabo por Mallarmé, Rimbaud e Laforgue, todos esses responsáveis
por uma nova estruturação dos modos de conceber o
texto literário. Além disso, a revivescência
dos mitos indígenas, africanos e sertanejos, bem como da
arte primitiva numa roupagem transfigurada pelas novas moções
lingüísticas, está no cerne de muitas dessas
obras, impedindo dissociá-las de suas raízes. Como
diz a máxima: Só é nacional o que é
popular. Dito de outro modo, a própria estrutura dessa linguagem
experimental – suas exigências de léxico, de
sintaxe, de temas e imagens originais – criou as condições
não só para a ruptura com a literatura culturalmente
colonizada, como também para a busca de uma nova concepção
sobre a identidade nacional.
A tentativa de romper com a imitação acrítica
estava no cerne da preocupação dos artistas como modo
de construção do que eles entendiam por nação
independente. A identidade nacional foi concebida pelo Modernismo
no sentido de sua dessacralização e equivaleu a uma
abertura para a diferença, para um território em que
uma cultura pode se relacionar com outras de modo não-excludente.
“O fato de que, segundo Oswald, ‘a poesia existe nos
fatos’ (Manifesto pau-brasil) apenas confirma a hipótese
de que o movimento modernista de 22 buscava uma identidade entre
a poesia e a realidade tomada em seu sentido pragmático,
isto é, da compreensão do Brasil dentro de uma perspectiva
de uma história social e não mais de uma história
‘natural’ das relações sociais que excluía,
mais que incluía, a discussão da identidade”.
(SEPÚLVEDA, 1995: 10)
2.1. Psicanálise: instrumento para subversão
“Vocês nos crêem loucos. Nós somos, ao
invés, os primitivos de uma nova sensibilidade, completamente
transformada”.
BOCCIONI et alii 1980: 41”
Para o discurso estético, que buscava romper com os valores
tradicionais em prol do estilo e da singularidade, a psicanálise
serviu como modo de viabilizar a valorização de elementos
periféricos, sendo utilizada para a crítica ao passadismo
e também como instrumento para o questionamento dos valores
de mercado e do trabalho que impunham severos limites para o prazer
e “para a vida”. Em seu estudo sobre Mário de
Andrade, Telê Porto Ancona Lopez entendeu o período
modernista de 1922 e 1945 como um período em que foram absorvidas
teorias estéticas e filosóficas, tendo como centro
principal de indagações o binômio psicanálise–marxismo
(1972: 195-6). Esta fundamentação havia sido sugerida
por Oswald em 1929:
“E aqui chegamos a uma terceira figura que ligada a Nietzsche
e Marx vem escancarando os abismos apocalípticos que engulirão
o mundo do patriarcado (...) – Freud. (...) Os três
homens (gênios) poderão indicar o verdadeiro caminho
da (...) autenticidade e (da...) derrocada da exploração
patriarcal”. (ANDRADE, O. 1992)
A psicanálise, portanto, foi uma das molas mestras para
que o pensamento modernista atingisse a ruptura desejada em relação
à tradição portuguesa. Na verdade, o pensamento
psicanalítico circulava no meio intelectual do país
desde a década de 1910.
As propostas freudianas desembarcaram no país não
apenas pela via da medicina psiquiátrica, mas, muitas vezes,
por intermédio dos que viajavam para a Europa – como
Oswald, que travou contato com a Paris futurista (a partir de 1909),
Graça Aranha (de 1900 a 1920), Manuel Bandeira (1912), Ronald
de Carvalho, além de Tristão de Athayde, Sérgio
Milliet, Paulo Prado –, assimiladas a partir de uma leitura
enviesada das vanguardas européias, que já propunham
uma releitura de Freud. Aqueles que não viajaram para Europa
buscaram conhecer a psicanálise principalmente através
de traduções francesas de Freud e de outros psicanalistas,
como L Charles Badouin (1924), figurinha fácil nas estantes
dos modernistas da época.
“Dom Lirismo, ao desembarcar do Eldorado do inconsciente
no cais da terra do consciente é inspecionado pela visita
médica, a Inteligência, que o alimpa dos macaquinhos
e de toda e qualquer doença que possa espalhar confusão,
obscuridade na terrinha progressista. Dom Lirismo sofre uma visita
alfandegária, descoberta por Freud, que a denominou censura.
Sou contrabandista! E contrário à lei da vacina obrigatória!”
(ANDRADE, M., 1980a: 27-8).
A pesquisa de Lopez (1972) na biblioteca de Mário de Andrade,
por exemplo, acompanha as datas de edição e de composição
de seus trabalhos, relacionando-os aos conceitos psicanalíticos
por ele estudados, e apresenta a hipótese de que suas leituras
sobre esse tema teriam ocorrido principalmente durante a primeira
parte da década de 1920. Na biblioteca de Mário, que
está centralizada no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP),
existem sete livros das obras completas de Freud, além de
dezenas de outros autores de psicanálise. Entre eles, o livro
Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade de Freud (1905b),
que lhe foi dado por Paulo Prado, com dedicatória de 1923.
Os modernistas encontraram na obra freudiana uma fonte fundamental
de pesquisa e de instrumento de reflexão e crítica
em relação às idéias de raça,
evolução e sobretudo à concepção
da subjetividade (com a apropriação do discurso do
inconsciente e da centralidade da sexualidade e do primitivo em
sua produção), influenciando a construção
dos personagens e o próprio ato da escrita.
“Hoje, mais do que nunca, toda arte poética há
de ser principalmente (...) uma declaração dos direitos
dos Sonhos. (...) temos de procurar o paraíso nas regiões
ainda inexploradas. Só a noite se fica claro”. (HOLANDA,
S. B., In: Estética, nº3, 1925)
Para dar consistência a tal posicionamento, eles buscaram
destacar os conceitos freudianos que lhes poderiam servir de auxílio
na crítica da civilização ocidental e na positivação
do pulsional, da intensidade e do excesso. A substituição
do idealismo decadente pelo inconsciente servia à proposta
de libertar os mais diferentes recalques históricos, sociais,
estéticos e étnicos do país. Dito de outro
modo, considerava-se como diferença positivada o que tivera
valor de menos, ou seja, de incompetência racial, genética,
cultural ou causada pela fome e pelos vermes.
Foi assim que as expressões populares que haviam sido emudecidas
e descartadas da memória da intelectualidade brasileira puderam
ser positivadas no contexto cultural. E com elas, outras questões
ligadas ao excesso e à fragmentação passavam
a “existir” como elementos da cultura: a sexualidade,
a sensualidade, a sedução, a alegria e a embriaguez
dos sentidos, atribuídas à herança índia
e negra, que não apenas perderam a mordaça secular
como expressão subjetiva, como também tornaram-se
parte integrante da brasilidade.
Na literatura, configurou-se um povo à margem da ideologia
do trabalho, fortemente sexualizado, preguiçoso, irresponsável,
com traços que indicavam o predomínio do pulsional
sobre o racional e o tornavam inadequado à construção
e à participação do progresso nos parâmetros
do chamado Primeiro Mundo. Mas era hora de questionar os valores:
“A preguiça teve sempre, conforme o sentido em que
foi tomada, modulações várias. Cada época
e cada religião, aceitando e compreendendo a preguiça
segundo o seu modo de ver, decantara-a ou a repulsara. Na Grécia
e na Roma de apogeus incontestáveis, apesar de terem sido
estádios de profunda atividade, onde mais se acentuava o
prurido dos ideais, as ânsias de perfeição,
ela foi apreciada, divinizada quase. (...) A arte nasceu porventura
dum bocejo sublime (...)”. (ANDRADE, M. 1972b:182)
Não se almejava o racional, nem o afã de produzir
capital, mas sim a alegria de outros poderes.
“(...) E como se fosse possível esquecer justamente
da técnica da arte de viver! (...) Mas em vez de voltar as
costas ao mundo externo, ela prende-se aos objetos desse mundo e
consegue a sorte de estabelecer com eles um relacionamento emocional”.
(FREUD: 1930: 213). “(...) O programa de nos tornarmos felizes,
que o princípio do prazer nos impõe (...) não
pode ser satisfeito; entretanto, não devemos — na verdade,
não podemos — abrir mão de nossos esforços
de trazê-lo para perto, de uma maneira ou de outra”.
(Idem: 214) (tradução minha.)
A invenção do país que se desejava e o intuito
de libertação dos grilhões do colonialismo
cultural e do passadismo abriam espaço para a criação
do novo, enchendo o artista de alegria. Assim, para saber se estava
no caminho certo, o poeta passava a ‘escutar’ o que
produzia: “a alegria é a prova dos nove”. (ANDRADE,
O., In: A Revista de Antropofagia (1), 1928:7, reed. fac-símile,
1975).
Pode-se dizer, portanto, que a psicanálise serviu também
como meio para uma nova linguagem, no que diz respeito tanto à
formação de novos vocábulos (falava-se em inconsciente,
sonho, sexualidade, associação livre, recalque, sublimação,
regressão, fixação, etc.) e ao ato de escrever,
quanto ao conteúdo, ou seja, seu desenvolvimento imbricou-se
com a arte modernista, sendo meio de suporte e da expressão
dos afetos.
“O seu noturno é o que gosto mais. Assombração,
analogia, a mesma idéia. Após lê-lo me seqüestrei.
Esqueci do assunto. O poeta está triste; o psicólogo
em mim, encantado”.
(ANDRADE, M., 1958, 11/09/1934: )
As mais diversas revistas modernistas trouxeram Freud à
baila, quer seja nas citações e traduções,
quer seja na pena de seus poetas e escritores. O Homem e a Morte,
de Menotti Del Picchia (In: Klaxon, (1), 1922:6 in fac-símile,
1972), é tão fortemente marcado por sua relação
com a psicanálise, que Mário de Andrade, ao estabelecer-lhe
sua crítica, escreveu que “quanto ao Homem poderá
dizer-se que é filho legítimo de Freud” (In:
Klaxon, nos 8-9,1923: 27-9, in: fac-símile, 1972). No terceiro
número de Terra Roxa e outras Terras (21/2/1926: 4), há
uma nota chamada “A Conversão de Freund” (sic
– “Freund” significa amigo em alemão),
um comentário sobre a revista de psicanálise Psyche,
de Londres, que trata da adesão de Freud à telepatia.
Além disso, em todos os números da revista, há
o romance Naturezas Mortas, de Sérgio Milliet, impregnado
de referências à psicanálise e a Freud. Do mesmo
modo, a concepção de Mário de Andrade sobre
o processo de criação em “Prefácio Interessantíssimo”:
“Ribot disse algures que inspiração é
telegrama cifrado transmitido pela atividade inconsciente à
atividade consciente que o traduz. Essa atividade é que pode
ser repartida entre poeta e leitor... “
(ANDRADE, M., 1980a: 27)
Confirmando essa tendência, Oswald escreveu o romance “Serafim
Ponte Grande”, no qual Freud é chamado a falar:
“Prezado e grandíssimo Sr. Sigismundo.
De regresso a Paris encontrei minha ex-amante, Dona Branca Clara,
inteiramente nervosa.
Vive sonhando que tem relações sexuais com Jesus
Cristo e outros deuses. Isto é demais.
Peço socorro à psicanálise (...)”. (ANDRADE,
O., 1972: 218)
No conto “O Peru de Natal” (ANDRADE, M., 1993b), uma
paródia ao Édipo de Sófocles expressa o dilema
freudiano entre a morte do pai e a morte do peru, e se liga às
considerações feitas em Totem e Tabu (1913). O gozo
dos vivos depende da luta entre os dois mortos, vencendo afinal
o peru, que é comido com alegria pelos vivos.
Os exemplos são intermináveis e demonstram que a
interação entre o chamado modernismo de 1922 e a psicanálise
não se limitou ao plano intelectual, sendo encontrada também
nas relações dos artistas com seus próprios
processos de criação e produção, bem
como em seus posicionamentos pessoais e políticos para com
o país.
“Os futuros historiadores chamarão, talvez, à
nossa época: o SÉCULO DO SUBCONSCIENTE.” (CARPEAUX,
O. M., 1976: 347)
2.2. O tupi e o antropófago deglutindo Freud
“Freud explica (...)”.
(ALCÂNTARA MACHADO, 1936)
O modernismo em sua primeira fase – não custa lembrar
que valorizei neste trabalho a primeira fase modernista como sendo
aquela referida principalmente à busca de ruptura com a colonização
cultural – foi, decerto, um movimento de subversão,
embora as obras, abundantes e irregulares, tenham permanecido envoltas
nos processos de contradição inerentes à crise
que (as) produziram. Assim como a mentalidade senhorial que nos
regeu não terminou com o fim da escravatura, o conservadorismo
do pensamento contaminou os modernistas. Mas não do mesmo
modo: os modernistas travaram uma luta com o lugar de colonizado,
tornando-se conscientes do que isso representava dentro deles mesmos,
bem como na cultura de repetição-do-mesmo que os banhava
e que procuraram implodir. Em outras palavras, travava-se uma luta
entre colonizado e colonizador no interior de cada sujeito.
Assim, se por um lado podemos ver no percurso desses autores as
contradições e ambivalências entre o que propunham
e faziam, há outros aspectos em suas obras que apresentam
um sentido de radicalidade e ruptura fortíssimo e que se
referem a um processo de análise crítica ao mundo
e de si mesmo. Manuel Bandeira, por exemplo, embora mantivesse alguns
traços do que chamava de ”alma ruim”, e que ele
remontava a um certo registro romântico das emoções,
relativizava ou mesmo neutralizava tais tendências por meio
da tomada de consciência dessa marca na sua escrita e por
meio da busca de síntese e da leveza de ser modernista.
Através das obras, infiltrava-se uma apropriação
singular da psicanálise que trazia um novo olhar sobre o
ato da escrita e sobre o si-mesmo, que estava voltado para o Brasil.
Tratava-se de analisar o brasileiro não mais pela via da
raça, da cor, da geografia, e sim pela via da cultura e de
sua singularidade. À pergunta “Quem sou eu?”,
que fervilhava no pensamento intelectual da época, se juntou
a psicanálise com seus conceitos de divisão, inconsciente
e enigma, que assim passaria a representar um novo discurso, um
novo caminho de leitura do si-mesmo e do mundo.
“Assim incapaz e frágil diante da vida (...) era natural
que a poesia de Carlos Drummond de Andrade se alargasse em uma maior
detalhação individual. De fato: a caracterização
psicológica de Alguma Poesia não assume apenas as
verdades totais do indivíduo (...). Dois seqüestros
tem no livro, pelo menos dois, que me parecem muito curiosos: o
sexual e o que chamarei “da vida besta”. Ao seqüestro
da vida besta, Carlos Drummond de Andrade conseguiu sublimar melhor.
Ao sexual não; não o transformou liricamente: preferiu
romper adestro contra a preocupação e lutas interiores,
mentindo e se escondendo. (...) onde o seqüestro explode com
abundância provante é no livro estar cheio de coxas
e especialmente de pernas (...)”. (ANDRADE, M. 1980c: 35)
Os exemplos desse novo modo de interpretar são muitos, mas
Mário e Oswald talvez tenham sido aqueles que mais buscaram
a construção de uma nova estética como crítica
à modernidade com maior conseqüência. Ademais,
influenciaram os modernistas de todo o país.
A partir de análises baseadas principalmente nas obras de
Interpretação dos Sonhos (1900), Sobre a Psicopatologia
da Vida Cotidiana (1901) Três Ensaios para a Teoria da Sexualidade
(1905b), O Chiste e sua Relação com o Inconsciente
(1905c), A Moral Sexual Civilizada e a Doença Nervosa Moderna
(1908), Cinco Lições de Psicanálise (1909-10b),
Totem e Tabu (1912-3b), Contribuição à História
do Movimento Psicanalítico (1914), Reflexões para
os Tempos de Guerra e a Morte (1915), Conferências Introdutórias
para a Introdução na Psicanálise (1915-1917),
Alguns Tipos de Caráter encontrados no Trabalho Psicanalítico(1916),
Além do Princípio do Prazer (1920), Psicologia Coletiva
e Análise do Eu (1923), O Eu e o Isso (1923) de Freud[18],
esses dois autores compreenderam a civilização ocidental
como responsável por uma série de mazelas do país.[19]
Ainda mais: sua leitura deixa transparecer que acreditavam na idéia
de que a memória brasileira foi forjada a partir de um recalque
primordial. (LAFETÁ, 1974: 11-2)
Com Freud, apesar de reconhecerem os avanços técnicos
que facilitam a vida do homem moderno, tomaram consciência
do ônus das exigências civilizatórias ocidentais
na vida libidinal e no campo das subjetividades singulares, ao mesmo
tempo em que denunciaram a fragilidade dos códigos fundamentados
na ciência e na razão.
“Será decisivo saber se, e até que ponto, é
possível diminuir o ônus dos sacrifícios pulsionais
imposto às pessoas, reconciliá-las com aquelas moções
pulsionais que necessariamente devem permanecer e fornecer-lhes
uma compensação”.
(FREUD, 1927:141) (tradução minha.)
Mário e Oswald queriam dar voz às formas subjetivas
que o racionalismo, o cientificismo e a moral católica sacrificaram:
por isso, de um lado, valorizaram o inconsciente do sujeito na busca
do sonho (“A interpretação de sonhos é
na realidade a estrada real para o conhecimento do inconsciente”
- FREUD, S., 1909/1910: 29-37) e, com ele, o lírico, a associação
livre, a mínima palavra-coisa que pudesse oferecer o estranhamento
capaz de fazer eclodir o novo.
E do outro, no campo da cultura, o que se relacionava com o inconsciente.
O primitivo, considerado excluído de influência ocidental,
foi metaforizado no homem dos afetos, dos desejos, dos sentidos
e das sensações, referido ao brasileiro e à
sua sexualidade; a idéia de que a infância e a pré-história
seriam pontos fundamentais na genealogia do sujeito, transformada
na consideração da pré-história do Brasil,
logicamente anterior ou externa à cultura imposta, como fonte
de descobertas a serem feitas para que se constituísse o
brasileiro apropriado de si mesmo.
Entretanto, muito embora o caminho traçado por ambos tenha
tido momentos de grande afinidade em conseqüência da
compreensão de que a cultura era um vir-a-ser, podemos vislumbrar
diferenças estruturais e fundamentais em suas obras. Vejamos
agora como as diferenças na compreensão da missão
do poeta e nos modos de construção da crítica
e da estética se refletiram em diferenças pessoais
e políticas.
2.2.1. “Sou um Tupi tangendo um Alaúde”
Nos poemas de Mário, encontramos muitas vezes a busca e o
sentimento de uma transformação e mobilidade incessantes:
“Minhas obras todas (...). São procuras. Consagram
e perpetuam esta inquietação gostosa de procurar.
Eis o que é, o que imagino será minha obra: uma curiosidade
em via de satisfação”.
(ANDRADE, M., “Advertência”, 1980a: 67) (grifo
meu.)
Fazer arte moderna era satisfazer uma de suas curiosidades, o que
parece ser uma leitura do si-mesmo já marcada pelo texto
freudiano.
“A contrapartida dessa inclinação tida como
perversa — a curiosidade de ver a genitália de outras
pessoas — provavelmente só se torna manifesta um pouco
mais tarde na infância, quando o obstáculo do sentimento
de vergonha já atingiu certo desenvolvimento. (...) Ao mesmo
tempo em que a vida sexual da criança chega a sua primeira
florescência, (...) inicia nela a atividade que se inscreve
na pulsão de saber ou de investigar. (...) Sua atividade
corresponde, de um lado, a uma forma sublimada de dominação
e, de outro, trabalha com a energia escopofílica”.
(FREUD, 1905: 97-100)
Numa confidência a Fernando Góes (ANDRADE, M., 1946:91),
Mário de Andrade revelou como seu processo de criação
da poesia modernista começou influenciado pela poesia de
Verhaeren (não nos esqueçamos de que o livro de Charles
Badouin sobre Verhaeren (1924) freqüentaria as revistas e estantes
modernistas!). Segundo eles, ao ler os poemas de Verhaeren, foi
tomado por uma angústia tremenda que o emudeceu até
que, numa noite, de um só golpe, transpusesse para o papel
poemas que lhe corriam pelos dedos desenfreadamente. Sem controle,
sem sentido, palavras novas, frases truncadas ou interrompidas derramavam-se
num discurso desarticulado, sem métrica ou rima: nascia Paulicéia.
Desatinou ou, como o verso quis, atingiu o desvairismo.
“Leitor:/ Está fundado o Desvairismo./Este prefácio,
apesar de interessante, inútil (...)
Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem/ Pensar
tudo o que meu inconsciente me grita./ Penso depois: não
só para corrigir, como para/ Justificar o que escrevi. Daí
a razão deste/ Prefácio Interessantíssimo(...)”
(ANDRADE, M., 1980a: 27)
No dizer de Mário, o desvario é um dos elementos
positivados como estratégia de quem se propôs ir além
das aparências do bom comportamento para tornar-se o primitivo
de uma nova era. Tal visão de antiescrita e anticonvencionalismo
advém não só do processo de associação
livre e da ação do inconsciente, mas também
da abertura para o popular/”bárbaro”, fonte da
impulsão lírica.
Há poemas em que ele produz sua escrita em dois planos simultâneos:
consciente e inconsciente, como, por exemplo, em “A Escalada”
(1980a: 33). Em outros, apenas descreve suas ‘alucinações-livres’.
“(...) sem nenhuma seleção deverá expor
tudo que lhe vier ao pensamento, mesmo que lhe pareça errôneo,
despropositado ou absurdo e, especialmente, se lhe for desagradável
a vinda dessas idéias à mente. Pela observância
dessa regra garantimo-nos o material que nos conduz ao roteiro do
complexo reprimido (sic)”.
(FREUD, 1909-10: 31).
Tal desvario, portanto, é a nova força motriz para
o ato de escrever, que foge aos padrões estabelecidos e denuncia,
com a ironia daquele que enxerga o antes seqüestrado, a urgência
da mudança:
“Oh! minhas alucinações!
Vi os deputados, chapéus altos, (...)
Mudavam-se pouco a pouco em cabras! (...)
se punham a pastar
rente do palácio do senhor presidente...
Oh! Minhas alucinações!”
(ANDRADE, M., “O Rebanho”, 1980a: 36)
Em “o Trovador” (ANDRADE, M., 1980a: 32), há
a colocação da profissão de fé do poeta:
a brasilidade e a assimilação crítica de aspectos
das diferentes vanguardas da Europa, passando o último verso
a valer como síntese de seu processo de criação:
“Sou um tupi tangendo um alaúde!”.
“Esse verso é fundamental na medida em que caracteriza
o papel de Mário de Andrade em nosso modernismo. O poeta
reconhece aí sua dupla condição de primitivo:
aquele que cria e difunde uma estética nova e particular
e o que descobre sua condição de ser brasileiro, diferente
do europeu e portador de seu modo próprio de ver o mundo”.
(LOPEZ, T. A., 1979: 98)
Assim, o tupi, o ser colonizado, faz uso do instrumento europeu
colonizador, tocando-o; à sua maneira, entretanto, modifica
seus sons e seus objetivos. Sem dúvidas, uma boa metáfora
para responder àqueles que criticavam o modernismo como pura
cópia.
Mário privilegiou a ingenuidade, o infantil como primitivo
para romper com os limites do tabu ocidental. O caminho para “saber
saber” passava pelo modo de harmonizar o popular, o prazer
mental e o corporal numa comunhão marcada por Eros, em que,
supunha, as barreiras entre a língua falada e a escrita,
o povo e o escritor, o nacional e o universal desapareceriam. Nessa
perspectiva, a alegria harmoniza-se com a blague e com a seriedade.
Embora essa concepção mais tarde fosse questionada
pelo autor, em Prefácio Interessantíssimo ela define
sua posição singular:
”Aliás muito difícil nesta prosa saber onde
termina a blague, onde principia a seriedade. Nem eu sei”.
(ANDRADE, M., 1980a:14)
De todo modo, sua tentativa de reinterpretar o legado europeu alia-se
a novas proposições. Em Losango Caqui (1980a), Mário
de Andrade diz que procura “realizar a poesia mais psicológica
possível (...) Não há verbo, palavra, pontuação
que não se justifique pela psicologia.” (Andrade, M.,
1958:16). A produção transborda pela via da alegria,
na fruição de si e na expansão para o mundo
que ultrapassam dissabores:
“Ela não veio com certeza...
Que bem me importa!
Saiba a cidade de S. Paulo
Que nela vive um homem feliz!”
(ANDRADE, M., 1980a: 97)
De fato, um dos elementos centrais da obra de Mário é
a alegria posta em questão: ela deriva da consciência
de liberdade de uma servidão moral milenar, da busca de novamente
promover a junção entre corpo, alma, vida, morte,
dor, prazer e poesia. Um savoir vivre que suporta positividades
e negatividades, contradições e tensões inerentes
à existência: “a própria dor é
uma felicidade” (1980a: 82), dizia sob os empuxos do “espírito
livre” nitzscheano.
Em Clã do Jaboti (1980a), mergulha no experimentalismo da
fala brasileira, buscando “reachar a (...) ingenuidade”
(ANDRADE, M., 1958: 123) Com esse intuito, “empobrec[eu]”
seus meios de expressão (ANDRADE, M., 1958: 90), escrev[eu]
“língua imbecil”, pens[ou] “ingênuo”
(ANDRADE, M., s.d.: 71) construindo uma linguagem em que se fez
primitivo, irônico, carnavalizado.
“Brasil amado não porque seja minha pátria,
Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso
onde Deus der...
Brasil que eu amo porque é ritmo do meu braço aventuroso,
O gosto dos meus descansos,
O balanço das minhas cantigas amores e danças. Brasil
que eu sou porque é minha expressão muito engraçada,
Porque é o meu sentimento pachorrento,
Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir”.
(ANDRADE, M., 1980a: 109)
O pulsional que lhe toma os olhos e impulsiona seu corpo na polifonia
poética de “Carnaval Carioca”:
“Os negros sambando em cadência.
Tão sublime, tão áfrica!
A mais moça bulcão polido ondulações
lentas lentamente
Com as arrecadas chispando raios glaucos oiro na luz peluda
Só as ancas ventre dissolvendo-se em vaivens de ondas em
cio.
Termina se benzendo religiosa talqualmente num ritual”. (ANDRADE,
M.,1980a:110)
Em “Amar, Verbo Intransitivo” (s.d.b), a narrativa
baseada na iniciação sexual de um jovem revela grande
liberdade de escrita, num estado atemporal em que presente, passado
e futuro se embaralham em planos que se confundem. Nela interrompe
o narrador aqui e acolá, que medita sobre as cenas que se
desenrolam.
A influência da psicanálise pode ser percebida não
só no modo de escrita e na simultaneidade temporal, como
também na personalidade dos personagens e na mistura entre
fantasia e realidade.[20] Freud é citado quer diretamente
(s.d.b:50, 123), quer na invocação de seus conceitos,
quando libido (s.d.b: 46) e complexo edípico (s.d.b:144)
surgem nas divagações do narrador. Em outras passagens,
notam-se atos falhos: por exemplo, Carlos não consegue lembrar
do (significado de) Geheimniss – segredo (s.d.b: 89), e troca
pérolas por péloras (s.d.b: 43).
Mas é Macunaíma (1993), escrito de um só fôlego
e revisitado algumas vezes antes de sua publicação,
que imprime ao texto de Mário um corpo distinto de tudo o
que havia produzido até então, e é a obra que
melhor representa o modo como compreendia a escrita modernista e
seu outro elemento: a brasilidade.
No texto, carregado de primitivismo, o agenciamento entre o material
folclórico e o tratamento literário também
se dá via Freud. Aliás, ao retomarmos Mário
em sua leitura, podemos reconhecer que o uso do popular e do folclórico
como material de construção do discurso foi elaborado
a partir da idéia de uma leitura do inconsciente e do funcionamento
do processo primário nos mitos e costumes. Para tanto, ele
baseou-se no automatismo psíquico, na associação
livre e nos elementos do primitivismo.
Em Macunaíma, tempo, realidade, espaço externo e
interno misturam-se na valorização da fantasia. A
narrativa mágica importa mais do que o aprofundamento dos
personagens. Ainda assim, transborda dessa escrita um “novo
mundo”, sem o verniz das caravelas européias; um “novo
mundo” que está sempre por se fazer, num eterno trabalho
de elaboração, sempre aquém das intensidades
que o invadem.[21]
A exigência de trabalho, porém, não é
apenas daquele que escreve. Macunaíma demarca a construção
de um discurso em que os processos do narrar devem ser reconstituídos
a cada momento nas duas pontas do traçado: escritor e leitor.
O texto abre novas Bahnungen (trilhamentos) a partir de presenças
riscadas dos mapas da história do Brasil e essas presenças
são superpostas e justapostas em planos que impelem o leitor
ao trabalho contínuo de dar novos sentidos, e de certo modo
contam com sua cumplicidade para construir as novas histórias
do texto.
“(...) si você já teve por acaso na vida um
acontecimento forte, imprevisto (já teve, naturalmente) recorde-se
do tumulto desordenado das idéias que neste momento tumultuaram
no cérebro. Essas idéias, reduzidas ao mínimo
telegráfico da palavra, não se continuavam, porque
não faziam parte de frase alguma, não tinham resposta,
amontoavam-se, sobrepunham-se. Sem ligação, sem concordância
aparente – embora nascidas do mesmo acontecimento –
formavam, pela sucessão, rapidíssima, verdadeira simultaneidade,
verdadeiras harmonias acompanhando a melodia enérgica do
acontecimento”. (ANDRADE, M., 1980a: 25)
Vale dizer, a história a ser escrita não é
pura reconstituição do passado, já que, a partir
de Freud, que aponta a viagem de um trem sempre desviante, Mário
“nega o passado como exigência do presente” (Fonseca,
M. A., 1994: 68). Afinal, “O passado é lição
para meditar, não para reproduzir”. (Andrade, M., 1980a:
29) A meditação que Mário propõe, portanto,
não recupera a memória dos fatos como eles aconteceram.
Para ele, o que é passível de recuperação
são as “assombrações[22] daquilo que
chamamos de ‘passado”.
“Quando permito que o passado se lembre de mim, às
vezes sinto esses pés huitotas andando na minha memória.
E à medida que o tempo me afasta deles, vão ficando
cada vez mais passos e cada vez mais memória. (...) Só
eu os posso identificar com a minha memória e só pelo
que está neste papel é que os homens podem saber o
que foram esses passos”. (ANDRADE, M., in: 1976 10/5/1929)
Esse movimento em muitas direções, curiosidade de
conhecer a si e aos outros, impõe novos sentidos, desaguando,
em seu extremo, na análise de seu próprio modo de
criar, expansivo e multiplicador.
E para além da novidade radical de sua escrita e da abertura
para novos sentidos, há uma importante análise a respeito
do brasileiro sintetizada na figura de Macunaíma: o retrato
trágico do homem sem qualidade, sem qualquer referência
de saber, que Mário posteriormente veria com certo horror
e estranhamento, como se pode verificar nesta carta a Augusto Meyer:
“(...) Se foi escrito brincando, ou melhor, divertidamente,
por causa da graça que eu achara no momento entre a coincidência
dum herói ameríndio tão sem caráter
e a convicção a que eu chegara de que o brasileiro
não tinha caráter moral, além do incaracterístico
físico duma raça em formação, se foi
escrito divertidamente, a releitura do livro me principiou doendo
fundo em seguida. Hoje ele me parece uma sátira perversa.
Tanto mais perversa que eu não acredito que se corrija os
costumes por meio da sátira”. (ANDRADE, M., 1968:58)
O retrato do horror que Mário pinta é o do brasileiro
que rejeita a si mesmo e aos seus, não mais se reconhecendo
nesse jogo de espelhos, sendo levado a submeter-se ao poder do outro.
O reconhecimento desse outro, por sua vez, não implica um
retorno para um novo reconhecimento de si, mas aponta para a negação
ou mutilação de si mesmo, equacionada em transplantação
e colonização culturais, eternizadas pelo deslumbramento
especular e pela perda das próprias referências.
O horror de Mário também fala das mudanças
fundamentais nos movimentos do autor, que aos poucos retornava de
suas muitas viagens de ruptura. Com o fim da década de 1930,
vemos um Mário cada vez mais engajado na ação
social e na idealização da síntese do brasileiro
e, com isso, próximo do universalismo e da utopia de trocas
harmônicas, igualitárias, em que desapareceriam as
fronteiras entre nações e raças.
A psicanálise, principalmente na década de 1920,
foi um instrumento fundamental para Mário. Ele a utilizou-o
para a libertação de si, para a investigação
dos motivos inconscientes e dos caminhos percorridos pela colonização
cultural. Foi como se tivesse deitado o Brasil no divã, para
descristalizar a tradição aprendida de cor. Mário,
contudo, não abriu mão da razão completamente;
seu programa de topar consigo mesmo (1980a:157) mostra que a busca
de coerência e unidade persistiu. A pesquisa da psicanálise,
portanto, serviu-lhe para tornar consciente o inconsciente, para
aceitar o material inconsciente junto à consciência,
reconstituindo as pegadas do que havia sido seqüestrado (segundo
sua tradução para refoulement), a fim de tornar possível
a assimilação de nossas origens e a construção
de nossa identidade como resultado de uma síntese. Se há
alguns momentos em que Mário parece alçar outros vôos,
como o que aparece fulgurante em Macunaíma, ele não
deixa de retornar à busca pela felicidade traduzida em ação
social. O desejo afirmado de transformar palavra em ação,
capaz de reformular tanto o mundo quanto à vinculação
entre o artista e a humanidade, impeliu Mário rumo à
universalidade.
2.2.2. Psicanálise aos Nacos
“Eu não escrevo ficção, isso é
para fingidor. Faço fricção – é
preciso do suor do outro para existir”.
Oswald de Andrade Apud Mário Chamie, 2000
Como falar de Oswald, enfant terrible do modernismo, Oswald, o
subversivo, e obedecer aos parâmetros acadêmicos, às
regras comportadas do bem-escrever? José Oswald de Sousa
Andrade (Oswáld, e não Ôswald, como nossa influência
norte-americana nos faz chamá-lo) tem sido, por muitos, e
por muito tempo, desvalorizado como um sujeito pouco conseqüente,
um autor cheio de altos e baixos, um leitor de oitiva.
A ideologia burguesa, guardiã da moral, dos bons costumes,
da seriedade e do trabalho fez com que a postura dionisíaca
do homem-escritor-pensador Oswald via de regra tenha sido interpretada
como inconseqüente e destrutiva, uma função vazia
de sentido educativo e moral, algo irracional e sem método.
Os ecos desse modo de vê-lo persistem. Foi a partir da ótica
de seu estilo singular, distinto de um modo de existência
convencionado como única via, que Oswald arrancou o riso
de muitos: “Viajei, fiquei pobre, fiquei rico, divorciei,
viajei, casei... Já disse que sou conjugal, gremial e ordeiro”.
(Apud Mendonça Teles, G., 1995b: 3)
“Nossa civilização baseia-se, falando de modo
geral, na supressão dos instintos. Cada um renuncia a uma
parte do que possui, de seu sentimento de onipotência, das
tendências vingativas e agressivas de sua personalidade; o
acervo cultural comum de bens materiais e ideais resulta de tais
contribuições. Além das necessidades da vida,
foram provavelmente os sentimentos familiares derivados do erotismo
que levaram os indivíduos a fazerem essa renúncia.
Tal renúncia foi progressivamente aumentada com o passar
do desenvolvimento da civilização; cada novo passo
foi sancionado pela religião; cada renúncia da satisfação
pulsional que se fez foi oferecida à divindade como sacrifício;
foi declarado ‘santo’ o proveito obtido assim pela comunidade.
Aquele que, por força de sua constituição indomável,
não pode concordar com a repressão das forças
pulsionais, é concebido pela sociedade como um ‘criminoso’,
um ‘outlaw ‘,— a menos que sua posição
social ou suas capacidades excepcionais lhe permitam impor-se como
um grande homem, um ‘herói’ ”. (FREUD,
1908: 18) (tradução minha.)
De fato, a postura agressiva, antagonista e rebelde de Oswald que
se impunha contra o modelo estatuído, fez com que perdesse
os amigos, os elos sociais que o sustentavam numa sociedade marcada
pela pessoalidade. Seu estilo singular, caracterizado por traços
agressivos e polêmicos, incomodava a muita gente.
"Mas esse Oswald lendário e anedótico tem razão
de ser: a sua elaboração pelo público manifesta
o que o mundo burguês de uma cidade provinciana enxergava
de perigoso e negativo para os seus valores artísticos e
sociais. Ele escandalizava pelo fato de existir, porque a sua personalidade
excepcionalmente poderosa atulhava o meio com a simples presença.
Conheci muito senhor bem posto que se irritava só de vê-lo
– como se andando pela rua Barão de Itapetininga ele
pusesse em risco a normalidade dos negócios ou o decoro do
finado chá-das-cinco." (CÂNDIDO, 1972:74)
Raul Bopp, (1968) participante do grupo de Oswald e testemunha
dos acontecimentos em volta do poeta, disse a seu respeito: “Oswald,
como se sabe, adorava a pequena polêmica de salão (...)”.
Cassiano Ricardo corroborou: “(ele) gostava de briga e nos
insultava com uma alegria pantagruélica que dava gosto”
(RICARDO, C., 1970: 38). Mas este sentido profundo de destruição
do instituído, que se reflete em todos os espaços
que transitava, fez com que Mário, a essa altura rompido
com Oswald, dissesse: “(...) Osvaldo de Andrade, a meu ver
[foi] a figura mais característica e dinâmica do movimento
(...)”. (ANDRADE, M., 1972c: 237)
“Oswald conseguiu, em sua obra, dramatizar o novo saber cotidiano,
onde o lugar do outro é decidido na relação
e não há nada previsto”. (SEPÚLVEDA,
C., 1995:15)
Homem concreto, programa e estética se complementaram e
se misturaram na criação em Oswald, na qual ficção
e realidade são termos sempre instáveis. Rudá,
filho de Oswald, em carta ao crítico Antônio Cândido,
aponta: "Creio que a obra de Oswald não pode ser estudada
desvinculada de sua vida". O próprio Antônio Cândido
diria:
“(...) tudo se mistura; o eu e o mundo fundem-se num ritmo
de impressão pessoal muito peculiar, em que se perde, por
assim dizer, a independência de ambos”. (CÂNDIDO,
in: ANDRADE, O. 1976: XII)
O que importa especialmente para nós neste trabalho é
que, em seu ideário subversivo, a totalidade e a harmonização
dos opostos idealizados em Mário são impossíveis.
Oswald flagrou o instantâneo e a diferença que pretendem
renunciar à erudição e à civilização
ocidental, buscando como contraponto a esse todo institucionalizado
o riso e o chiste, a desconstrução de Thanatos. Em
vez da busca pela ingenuidade proposta por Mário, Oswald
escolhe a noção de ignorância.
Como vimos, em A Moral Sexual Civilizada e a Doença Nervosa
Moderna (1908), Freud apresentou uma análise dos malefícios
oriundos do processo civilizatório fundados na repressão
sexual, explicitando sua relação com a formação
de neuroses:
“a sociedade paga pela obediência a suas normas severas
com o incremento de doenças nervosas. (...) Além disso,
a abstinência sexual não parece contribuir para “produzir
homens de ação enérgicos e autoconfiantes,
nem pensadores originais ou libertadores e reformistas audazes”.
(FREUD, S., 1908: 25-6)
Na visão anárquica de Oswald, só a desconstrução
absoluta do saber poderia romper com a imitação, com
a repetição, abrindo caminho para a ignorância
que resulta do encontro com o novo. A crítica de Mário
– de que lhe faltava um projeto de reconstrução[23]
– não era um problema para Oswald, para quem parecia
estar claro que a construção era um processo natural,
compulsivo. O importante era o esforço constante de destruição,
a fim de abrir a possibilidade de novos trilhamentos nunca assegurados.
“Podemos supor que, desde o momento em que uma situação
já alcançada sofre um desarranjo, surge uma pulsão
para criá-la novamente e produz fenômenos que podemos
descrever como uma ‘compulsão à repetição’.”(FREUD,
1933: 539) (tradução minha.)
Para Oswald, não era necessário preocupar-se com
a construção – que ocorreria por uma compulsão
do ego – mas sim fazer o esforço contínuo de
promover o desarranjo do caminho dado de antemão, fragmentando-o
a ponto de desnaturalizá-lo, desequilibrá-lo, fazê-lo
outro. Era imbuído desse intuito que sua prosa-poesia-poética
experimental apontava para a linguagem cinematográfica –
marca supermoderna – e sua ruptura no âmbito do discurso,
com o uso sincopado da frase em movimentos de planos que se confrontam
e se entretêm como parte de um cinema de montagem, sucessão
de imagens-fragmento satíricas da mentalidade e sociedade
de São Paulo, num quadro expressionista-cubista. "Recorte,
colagem, montagem", como resume o crítico Décio
Pignatari (24/10/1964). Foi no processo da colagem muitas vezes
antitética de imagens e símbolos lírico-míticos
– como nos sonhos – que Oswald fez uso da paródia
para a própria construção/desconstrução
do texto que produzia.
“(...) ao fazer ironia dos valores do passado, [a paródia]
faz com que o presente rompa as amarras com o passado, cortando
a linha da tradição”. (SANTIAGO, S., 1989: 127).
Em “Um caminho percorrido” (1995: 24), por exemplo,
Lúcia Helena atenta para a outra ponta do processo de paródia.
Como ela mostra, o processo digestivo não tritura apenas
o texto numa ruptura com o passadismo; ao se apropriar do passado,
ele paradoxalmente o resgata numa nova construção.
De fato, a paródia, articulada à ironia e ao escárnio,
marcou seu estilo, estando presente em quase todos os seus textos.
Oswald apropriou-se de textos coloniais como os de Claude D’Abbeville,
Frei Manoel Calado, Frei Vicente do Salvador, Gândavo, Pêro
Vaz Caminha, bem como dos versos de Gonçalves Dias em “Canto
de regresso à pátria” (1998: 139) ou os de Casimiro
de Abreu em “Meus oito anos” (1972b: 100). Além
disso, transformou os textos ou mesmo os nomes dos modernistas conservadores,
denunciando neles sua visão pessoal, como se pode ver em
“Cristão de Ataúde” ou “Pinóquio
Del Michia” (ambos na Revista da Antropofagia).
Essa intertextualidade permitia a inclusão de discursos
estranhos, palavras tupis, afros, coloquiais, francesas, russas
e neologias no espaço do poema ou o aproveitamento da modulação
do texto anterior, como no conhecido “Meninas da Gare”:
“Eram três ou quatro moças bem moças
e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem fitarmos
Não tínhamos nenhuma vergonha”.
(ANDRADE, O., 1998: 69-70)
Como na obra de outros modernistas, o primitivo foi retomado por
Oswald na recuperação do que tinha sido seqüestrado
pela civilização considerada do ponto de vista eurocêntrico.
Em seus textos, porém, o seqüestro não apresenta
apenas algo que foi escondido da consciência, marca de um
passado à espera de um resgate: o primitivo, o “matriarcado
de Pindorama”, é algo a advir, a ser produzido a partir
do agora, do tempo presente, e desde que não se abra mão
do pulsional relacionado à violência, ao caos, à
sexualidade e à perversidade polimorfa.
Essa revolução da linguagem não se restringiu
aos poemas, mais facilmente digeríveis. Em “Os Condenados”
(1990), prosa do início da obra de Oswald, este selo já
está presente, conforme atesta A. C. Couto de Barros:
“O livro inaugura em nosso meio técnica absolutamente
nova, imprecisa, cinematográfica”. (In: Klaxon, n.6,
out. 1922:15)
Mário, por sua vez, chamou a atenção para
a simultaneidade e o expressionismo em Oswald.
“O realismo é de todos os tempos, sabemos bem, mas
realizá-lo com simultaneidade, cinematicamente, fazendo coisas
e fatos se refletirem todos num só plano, como que se isentando
do que se poderia chamar a perspectiva intelectual é construir
obra modernista (...)”.
(In: Klaxon, n.6, 15/10/22:15, ed. fac-símile, 1972)
A obra de Oswald delineia-se, portanto, em seu modo inesperado
de articular o arcaico e o moderno, seja através de um “congelamento
órfico”[24], (Andrade,1978), seja pela síntese[25];
para isso, o recurso à ironia, à paródia e
à técnica do fragmento são seus instrumentos
de trabalho.
No aspecto formal, Oswald renovou a poesia com seus pequenos poemas,
em que sempre havia forte apelo visual, criando o que Paulo Prado
propõe no prefácio de seu primeiro livro de poemas:
"Obter, em comprimidos, minutos de poesia" (Prado, P.,
in: Andrade, O., 1998: 59). Os poemas-comprimidos de Oswald da década
de 1920 produzem o mesmo Verfremdungseffekt (efeito de estranhamento)
descrito por Brecht (apud Rosenfeld, A., 1964:114-5) a respeito
de seu teatro, funcionando como apelo ao estabelecimento de nexo.
Em “Das Unheimliche” (1919), Freud mostra que os temas
que provocam medo e estranhamento podem se ligar àquilo que
é conhecido e familiar ao sujeito, um familiar (Heimliche)
tornado estrangeiro (verfremdet) pelo recalque. Seria justamente
o recalque, que conserva com todo cuidado esse material como algo
incompreensível, enigmático e estranho, que promoveria
a sensação de que essa diferença demarca um
perigo. Desse processo em que “o pensamento se comporta em
relação ao pensamento recalcado como uma alusão,
como uma representação do mesmo por meio de palavras
indiretas” (FREUD, 1909/10: 30) ou então em que a presença
intensa do signo se faz, participam “Agente” (1998:103),
“Reclame”(1998:122), “Anúncio de São
Paulo” (1998: 145) e muitos outros. Talvez fosse por isso
que Oswald provocava tanta resistência, como esta de Mário
referindo-se a ele numa carta: “invenções desumanas
por desumanas não podem ir pra diante” (ANDRADE, M.,
s.d.: 210-1).
De fato, não estamos no terreno do humano, se este é
compreendido como sentimento humanista ou humanitário. A
escrita de Oswald aponta, isso sim, para um lugar em que um novo
modo de existência pode advir. Suas destruições
ou desconstruções levam-no, bem como ao seu leitor,
para o registro da instantaneidade e da fugacidade, marcado por
aquilo que Freud denominou como fenômenos da consciência-percepção.
Ela promove uma afetação no instante da apresentação
de seus signos de percepção, que se associam por simultaneidade,
acompanhada de intensidade. A frase poética perde seu valor
de representação, passando a inscrever-se como coisa,
como diria mais tarde Adélia Prado, tributária desse
modernismo inicial:
“(...) A palavra é disfarce de uma coisa mais grave,
surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos (...) infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror”. (PRADO, A., 1991: 22)
Em Memórias Sentimentais de João Miramar, de 1923
(1972), chamado por Oswald de romance memorialístico, a ordenação
dos episódios importa muito pouco. Em vez da linaridade temporal,
o texto traz o simultaneísmo, a sincronia, as ordens do inconsciente,
os neologismos. A própria composição do romance
é revolucionária: seus capítulos-relâmpago
apontam para a colagem rápida de sinais, “sem comparações
de apoio”, como diria no “Manifesto Pau-Brasil”
(1978).
Em 1929, surge o romance “Serafim Ponte Grande” (1929),
uma crítica, a partir de Marx e Freud, à elite intelectual
de São Paulo, que era, segundo ele, ao mesmo tempo cosmopolita
e provinciana. Nesse texto, o movimento subversivo da linguagem
de Miramar é radicalizado, e se inscreve em uma descontinuidade
e falta de nexo cronológicas aliadas a uma paródia
‘faminta’, que mastiga toda a linguagem dada de bandeja,
digerindo-a em múltiplos fragmentos sem pontos de fixação
perspectiva.
Após a quebra da Bolsa de Nova Iorque e a Revolução
de 1930, Oswald atravessa um período de crise financeira.
Dividido entre uma formação anárquico-boêmia
e o espírito crítico ao capitalismo, ele adere ao
Partido Comunista. Assim, as obras da década de 1930, em
especial suas peças de teatro, consideradas por muito tempo
impossíveis de serem encenadas (encenaram a primeira apenas
trinta e um anos depois), traziam intensas críticas à
burguesia. Ainda que estabeleça uma crítica à
obra freudiana – “A senhora não conhece Freud?
O último grande romancista da burguesia?” (1937: 93)
–, suas peças são fortemente marcadas pela presença
da psicanálise, como é o caso de O Rei da Vela (1976).
No terreno da crítica à burguesia e utilizando Freud
com o intuito de analisar o mundo burguês, mais uma vez vislumbra-se
um modo bastante singular de escrita. Oswald novamente se apropria
de diversos pensamentos e os utiliza em sua salada antropofágica.
Benedito Nunes, por exemplo, encontra, mesmo nos escritos engajados
de Oswald, a transformação antropófaga no sentido
de que submetem o marxismo a uma interpretação própria.
(Nunes, B., 1978).
Em O Rei da Vela (1976), há uma análise dos mecanismos
de exploração econômica e cultural no país
e de como as relações sociais mantêm o poder
no outro estrangeiro ou no continuísmo imobilizador entre
a oligarquia rural e a classe dirigente de 1930. A história
desenrola-se em meio a subversões da ordem constituída
e retomadas de poder, a conchavos e pactos que denunciam o contragolpe
dos valores da tradição por trás das aparentes
conquistas populistas.
Os personagens são esquemáticos e fragmentários;
caricaturas sociais sem profundidade psíquica própria,
mas representantes do momento sócio-político do Brasil
dos anos 1930, através de quem Oswald de Andrade denuncia
a farsa por trás das cortinas das cenas sociais. Nesta denúncia,
como não poderia deixar de ser, Oswald bate novamente na
tecla dos costumes sexuais e na moralidade dúbia.
Escrito inicialmente a lápis entre 1936 e 1950, a peça
O Santeiro do Mangue (1991), dedicada “às Senhoras
Católicas, ao Exército da Salvação e
aos Michês da Eternidade”, segundo Mário Chamie
em palestra realizada por ocasião do simpósio Brasil
– Psicanálise & Modernismo (out. 2000), tem seu
texto estruturado de maneira multiforme, fragmentária, paródica,
mosaica, com poemas curtos, vinhetas, cenas e diálogos. O
discurso transgressor realiza a paródia do discurso religioso
com a poesia pornô e situações bíblicas.
Eduléia, desvirginada sob o Cristo Redentor, segue para o
Mangue e reza para Jesus das Comidas: “Senhor, dai-nos o pau
nosso de cada noite”. A religião é gozada e
se mostra às avessas na junção do comércio
do corpo promovido pela família católica burguesa.
O negócio associa-se ao patriarcado, à moral do servo
e da obediência, ligado ao capitalismo e à burguesia.
“Essa moral sexual ‘dupla’ que é válida
em nossa sociedade para os homens é a melhor confissão
de que a sociedade, que construiu suas próprias prescrições,
não acredita em sua obediência. (...) Nas presentes
condições culturais, o casamento há muito deixou
de ser uma panacéia para os distúrbios nervosos femininos;
(...) a cura das doenças nervosas decorrentes do casamento
estaria na infidelidade conjugal; porém, quanto mais severa
houver sido a educação da jovem e mais seriamente
ela tiver se submetido às exigências da civilização,
mais receará recorrer a essa saída; no conflito entre
seus desejos e seu sentimento de dever, mais uma vez se refugiará
na neurose. Nada protegerá sua virtude tão eficazmente
quanto uma doença (...)”. (FREUD, 1908: 24-5) (tradução
minha.)
Na estrutura dos poemas, prosas e teatro, a obra de Oswald está
pautada por um programa de dessacralização do lugar
da poética para a deglutição do estrangeiro.
Sua proposta-chave é a de que o sujeito, ao se defrontar
com o outro, possa suportar a angústia de examiná-lo
de perto, brincar e provar sua carne para, quem sabe, desconstruí-lo,
desconstruindo a si mesmo:
“Para desmistificar o opressor, você tem que trepar
com ele, você tem que se dar inteiramente a ele”.
(MARTINEZ CORRÊA, J. C., 1995: 208)
Em outras palavras, a singularidade do sujeito oswaldiano, em oposição
ao sujeito de correntes modernistas como a do verdeamarelismo e
do Grupo Anta, que idealizaram a construção da identidade
do brasileiro pela construção do amor à pátria
identificando-a com o Estado, baseia-se na "devoração
crítica" de todas as influências estranhas para
que, em conseqüência, se possa criar outras histórias,
capazes de engendrar novas formas de subjetividade no contexto local
e singular do país: história e cultura “sem
nenhum caráter” (Andrade, M., 1993), primitivistas,
repletas de liberdade e alegria, que Oswald pretendia exportar para
a triste Europa.
Os manifestos oswaldianos condensam seu programa. Por exemplo,
a primeira frase do “Manifesto Pau-Brasil”, de 1924
, é: “a poesia existe nos fatos” (1978). No campo
da instantaneidade e da fragmentação, os objetos perdem
a representação compartilhada e ganham nova presentificação.
É a palavra viva, “brasileira em sua época”.
A língua sem arcaísmos. Sem erudição.
Natural e neológica. A contribuição milionária
de todos os erros”. (ANDRADE, O., 1995:66)
Tratava-se de uma pesquisa da singularidade e não do patriótico:
o Manifesto Pau-Brasil é transpassado por um primitivismo
anarquista que impede pensarmos seu pro |