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COMENTÁRIOS SOBRE O ENCONTRO:
OS ESTADOS GERAIS DA PSICANÁLISE*
Paris – Julho de 2000
Denise Maurano**
Nós estávamos lá, cerca de mil psicanalistas
reunidos quase dez horas por dia, no maravilhoso anfiteatro da Sorbonne,
durante quatro dias. Um detalhe, nos privaram do “coffe-break”,
mas felizmente, deixaram um bom tempo de intervalo para o almoço.
Haja fôlego! Mais uma vez isso prova que para ser psicanalista
é preciso não apenas saber escutar, mas também
suportar permanecer sentado durante jornadas inteiras e ainda falando
pouco. Isso porque, no caso desse encontro, o ato de tomar a palavra
em uma discussão geral, implicava disputá-la frente
à mil pessoas, o que não era fácil por diversas
razões.
E porquê nós estávamos lá? O prospecto
dizia: “Criar condições de uma nova reflexão
sobre a psicanálise, sobre sua relação com
outras disciplinas e sobre a relação dos psicanalistas
entre si”. Eu não creio que nenhum de nós esperava
verdadeiramente isto deste encontro. Por princípio o novo
não pode ser esperado, se ele acontece é sempre uma
surpresa. É apenas a porteriori que o reconhecemos. Quando
se espera que o novo emerja, é preciso desconfiar. Pois o
que se provoca com isso é o aparecimento de toda uma resistência.
Como dizia um grande poeta brasileiro, Mário Quintana: “As
idéias não vem quando você quer, mas quando
elas querem.”
Então estávamos lá por outras razões,
certamente, as mais diversas. Mas eu acredito que para a maior parte
das pessoas, a razão era de participar de um evento, encontrar
colegas que nós não temos o hábito de ver com
freqüência, e se possível, mostrar nossos trabalhos
e escutar o que se pensa da psicanálise fora de nosso circuito
habitual.
Os dois primeiros objetivos foram absolutamente satisfeitos. Mesmo
sem coffe-breaks, nós arrumamos um jeito de encontrar os
colegas em um clima amigável e ainda, de conhecer psicanalistas
de diversas partes do mundo. Isso foi muito simpático. Certamente
com esse encontro nós demos um passo na direção
da mundialização da psicanálise, o que é
nossa resposta à abominável globalização.
Um conhecido psicanalista avaliava informalmente, ao final, que
o sucesso dos Estados Gerais quanto a esse aspecto se devia à
tripla conjunção do político René Major,
com a diplomata Elisabeth Roudinesco e o pensador Jacques Derrida.
Em contrapartida, do lado de uma possível contribuição
ao pensamento psicanalítico, o encontro na Sorbonne foi decepcionante.
Nós vimos o que estamos cansados de saber. Uma quantidade
de declarações em nome da psicanálise que não
respeitam o rigor do conjunto do texto freudiano. Nós bem
sabemos que rigor não é rigidez. A falta de acordo
é extremamente fecunda desde que, quando se trata da psicanálise,
nós nos situemos dentro do campo da invenção
de Freud. Se nós queremos inventar algo alheio aos princípios
fundamentais freudianos, isto pode ser maravilhoso, mas é
preciso que o nomeemos de outra maneira. Assim, para escutarmos
algumas poucas apresentações aproveitáveis
¾ o que também aconteceu ¾, tivemos que ouvir
um grande número de discursos equivocados tanto em relação
à psicanálise, quanto por referência às
suas possibilidades de diálogo com outras disciplinas.
O dispositivo utilizado no qual as idéias dos autores dos
trabalhos deveriam ser apresentadas por leitores, o que poderia
ser bastante interessante, fracassou completamente. Menos de dez
por cento dos leitores o efetivaram. A maior parte dos analistas
convocados por René Major a esta função não
tiveram a possibilidade de se deixar tocar pelas idéias dos
outros, e com isso, não se dispuseram a serem vias de transporte
dessas idéias. O ato de não se deixar tocar pelo Outro
testemunha uma impossibilidade de dar um passo além do campo
da identificação narcísica. Isto é algo
que nos traz preocupações no que concerne à
transmissão da psicanálise e no que se refere às
condições de certos analistas de estarem à
altura de suas funções. Houveram leitores que se justificaram
dizendo que os trabalhos poderiam ser lidos nas internet. Mas nesse
caso cabe colocar a questão: Por que então fazer o
encontro?
Um mal-estar instalou-se na relação entre leitores
e autores. E, as grandes discussões gerais, longe de convergirem
sobre os temas anunciados para cada uma das meias jornadas, o que
no fim das contas poderia favorecer a apresentação
de idéias psicanalíticas, promoveram em contrapartida,
testemunhos públicos de catástrofes humanas vividas
devido à causas políticas e à ideologias perversas.
É certo que essas catástrofes tem toda a importância,
sobretudo no aspecto cívico, e é certo também
que nós analistas não podemos ficar à margem
dessas ocorrências, porém é preciso lembrar
que nossa questão específica não se coloca
aí.
Falamos no encontro, em defesa da ética. Sempre me preocupo
quando escuto falar de ética como se tivéssemos um
acordo em relação a esse tema. Em geral se pensa que
há um consenso. Talvez essa impressão se deva à
força da ética cristã que dominou o discurso
ocidental, e seja essa ética a que é referida nesses
momentos. Mas o curioso é que aqueles que freqüentam
o texto de Freud, e que participam da experiência psicanalítica,
sabem o quão é suspeito o ponto de partida dessa ética:
amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti
mesmo. Assim, o perigo que há em querer o bem do outro, antes
de ser remarcado por Lacan, é evidenciado tanto nos textos
quanto na clínica freudiana.
Nas conferências que foram feitas nos Estados Gerais, tivemos
boas chamadas. Sr. Armando Uribe, que teve um papel muito importante
no governo de Salvador Allende, começou por falar de Pinochet
que há em cada um de nós, e Jacques Derrida, este
conhecido filósofo francês, se propondo a pensar a
resistência à psicanálise no mundo e a resistência
da psicanálise à ela mesma, enfatizou que a invenção
freudiana é a única linguagem que acolhe a crueldade
e a ambição de poder supremo (souveraineté),
sem dar álibi à questão do mal radical. Ele
sublinhou que se Freud escuta as ciências positivas, genéticas,
religiosas, filosóficas, farmacológicas, que se opõem
à psicanálise, é para não confundi-la
com nenhuma delas.
Sabemos que a psicanálise é fruto da cultura, mas
ela é pestilenta porque demarca um ponto de ruptura com esta
mesma cultura. E com o quê ela rompe? Rompe com a ideologia
do bem do outro porque ela sabe do caráter criminoso que
está presente na pretensão de saber o que é
esse bem para o outro. A originalidade da psicanálise é
de não ser um saber que vise isto. O analista não
é alguém que sabe sobre o bem do outro. A palavra
é dada ao outro para que ele tente dizê-lo a fim de
confrontá-lo com o que descobre de seu próprio desejo.
A questão da transmissão não é apenas
importante devido à formação dos analistas.
É também fundamental no sentido estrito da clínica,
porque o analista não é ponto de parada, mas via de
passagem para a emergência desse sujeito do desejo. Falo evidentemente
do desejo inconsciente habitado sempre pelo Outro, o que demonstra
o caráter social do inconsciente enquanto apenso à
alteridade. Assim, somente aqueles que olham a psicanálise
de longe podem pensá-la distante de questões sociais.
Entretanto, enquanto analistas, nós não abordamos
essas questões pelo viés da ética do cidadão.
Apesar da importância da ética do cidadão, a
originalidade do campo psicanalítico está em não
negar a dimensão que em nós insiste em escapar à
cidadania e persevera sem domesticação possível.
É a voz muda da destruição, dimensão
da pulsão de morte que nos habita, e que tem, paradoxalmente,
funções fundamentais na nossa vida. O trabalho de
criação, por exemplo, não pode se passar de
thanatos. Isso nos coloca em uma perspectiva que não é
nem de queixa, nem de lamento diante da crueldade, mas de análise
de suas incidências para buscar caminhos de facilitação
de expressões não sangrentas desta dimensão
inelutável.
Penso que é sobre esta perspectiva, que não é
senão ética, que a psicanálise fazendo apelo
às possibilidades da sublimação, se encontra
com certas dimensões da estética. Ou seja, a psicanálise
pode acolher o horror porque ela convoca sua transfiguração
em algo de belo, amplo senso. É assim que ela pode se passar
do recalcamento para encontrar outros destinos para o selvagem em
nós. Penso ainda que esta perspectiva de intervenção
atravessa não apenas nosso trabalho clínico, mas também
todas as nossas intervenções de psicanalistas no largo
campo social. Negar a crueldade e a vontade de poder, ou se queixar
de suas incidências não nos leva a lugar algum, e para
tentar conter as forças tanáticas existem muitas outras
disciplinas bem mais apropriadas para faze-lo, como, por exemplo,
o Direito, ou a Pedagogia.
Essa tomada de posição implica uma reflexão
sobre a direção de nossa ação. Essa
ação nós a nomeamos intervenção
psicanalítica. Se ela tem uma especificidade, isso justifica
a designação de uma ética da psicanálise,
por que resistir a dizê-lo? Isto é inteiramente diferente
de simplesmente incluir a psicanálise no campo das éticas
filosóficas existentes, sem reconhecer a originalidade da
contribuição freudiana nesse campo.
Para concluir, quero sublinhar que não estou defendendo
que a ética da psicanálise seja a única válida.
A psicanálise está longe de todo pensamento totalitário.
Precisamos lembrar que Freud, mesmo depois de todas as suas crítica
à ética tradicional, enfatizou a importância
da existência dos princípios os mais absurdos para
fazer face à desmedida de nossa selvageria. Mas é
preciso lembrar que esses princípios, certamente, não
constituem a nossa bandeira.
A ética da psicanálise toma em conta que não
existem Estados Gerais que consigam domesticar o mal radical constitutivo
do pior e do melhor da psiquismo humano. É preciso desconfiar
das intenções que pretendem faze-lo, porque como diz
o músico e poeta brasileiro Caetano Veloso:
“O mal é bom
e o bem, cruel.”
** Psicanalista, Membro do Corpo Freudiano do RJ, Doutora em Filosofia
pela Universidade de Paris XII, Prof. Adjunta da UFJF/MG, autora
dos livros: Nau do Desejo: o percurso da ética de Freud a
Lacan, RJ, Ed. Relume Dumará, 1995 e La face cachée
de l’amour: la tragédie à la lumière
de la psychanalyse, FR, Presses Universitaires de Septentrion, 2000.
* Texto remetido a Revista Francesa Le Coq-Héron intitulado
Compte rendu des États Généraux
** Psicanalista, Membro do Corpo Freudiano do RJ, Doutora em Filosofia
pela Universidade de Paris XII, Prof. Adjunta da UFJF/MG, autora
dos livros: Nau do Desejo: o percurso da ética de Freud a
Lacan, RJ, Ed. Relume Dumará, 1995 e La face cachée
de l’amour: la tragédie à la lumière
de la psychanalyse, FR, Presses Universitaires de Septentrion, 2000.
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