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PSICANÁLISE E DIONISO
Luis Querolim
Este trabalho foi originalmente publicado no livro "Clínica
e Sociedade" (1), organizado pelo Professor Moniz Sodré,
em tributo às atividades do Centro de Psicologia Clínica
do Rio de Janeiro (Cesac), que reuniu durtante muitos anos psicanalistas
e outros pensadores para discutir questões ligadas à
psicanálise, cultura e sociedade.
Dioniso sempre encantou-me. Entretanto, falar sobre Dioniso é
dificílimo, pois creio, que só se submetidos à
Hybris, algumas considerações poderemos tecer sobre
este deus do controverso.
Dioniso, como sabemos, é filho de Sêmele e de Zeus.
Sua concepção aconteceu quando de uma das andanças
de Zeus entre os mortais. Este descobre Sêmele, a quem fecunda.
Zeus tem por esposa Hera, uma das suas Hierogamias. Hera descobre
a infidelidade do marido e tenta inventar um jeito de vingar o adultério.
Aproxima-se, então de Semele, transformando-se numa ama da
princesa Tebana. Hera Aconselha Sêmele a pedir a Zeus que
se apresente com toda a sua magnitude de deus. Vale lembrar que
a deusa Hera é a protetora dos casamentos. Sêmele,
atenta a sua ama, pede a Zeus o que lhe fora aconselhado. Zeus titubeia
e responde: " Nunca deverias ter-me pedido isso, pois uma mortal
não pode suportar o meu fulgor, entretanto jurei-lhe nunca
negar um pedido ". Apresenta-se, então, Zeus com os
seus raios e trovões. O castelo de Sêmele arde em chamas.
Sêmele é carbonizada e Zeus, num gesto rápido,
retira o rebento do ventre de Sêmele e faz da sua perna um
ventre improvisado para o feto (a barriga da perna).
Notemos que a gestação de Dioniso começa numa
mortal e continua num deus.
Permitam-me, pois, um parênteses: quero crer que os deuses
gregos estavam submetido ao Métron. Mesmo o construtor da
lei não estava acima dela. Digo isso porque Zeus não
deixou, ou melhor, não teve como interferir no desenlace
de Sêmele, pelo menos diretamente. Só pôde intervir
diretamente no que havia de si em Sêmele, o seu rebento.
O analista não pode dizer quem é o analisando, mas
pode pontuar o que ele identifica de si através do que este
lhe suscita. O analisando, por meio da narrativa, move questões
no analista. Pessoa, então ensina: " O poeta é
um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que
é dor a dor que deveras sente". O analista é
o poeta fingidor que oferece o corpo, corpo marcado, corpo amado/odiado,
corpo transferencial. Lugar palco das re/encenações
do pretérito que insiste em prover de forma absoluta o presente.
O "sido", o passado, constitui o "ser", desde
que o "sido" tenha de fato acontecido. O devir é
o efeito do agir. Neste sentido, o analista deve buscar em suas
marcas a vertente que possa levar o sintoma à significação.
O "sido" do analista é a sua formação.
O corpo do analista é um corpo insistentemente em carne viva.
Este é o descomedimento da análise, do analista. Oscar
Wilde lembra-nos que não podemos investigar a alma com uma
máscara de vidro, e que existem venenos tão sutis
que, para sabermos os seus efeitos, temos que prova-los. Essa, talvez,
seja a essência do Métron que quer significar a medida
de cada um.
Entendo que processo clínico, a situação transferencial,
é uma espécie de infestação de Hybris.
O analisando submerso no amor transferencial, que é uma espécie
de erro, erro/acerto, vai aos recônditos mais obscuros do
recalcado e re/experencia dramaticamente, através do corpo
do analista, amores, dores que foram, ou melhor, que tiveram como
destino ocupar lugar enquanto representação de coisa
e não de palavra. O analisando, quando transfere, dá
inicio a um processo de ultrapassagem, de passe. A hybris é
o combustível. Perigosamente dramática, tem-se inicio
da passagem de algo inconsciente para a consciência, como
tradução / traição.
Quando dizemos que a resistência está no analista,
isto significa este ter que suportar o fulgor da nêmesis,
suportar a vingança magnífica dos deuses, face a tão
ousado empreendimento. Nem o analisando nem o analista, depois deste
processo, serão os mesmos. A resistência do analista
está em não suportar a sua própria mudança
de posição, quando do processo do analisando, quando
da mudança do analisando.
Retornemos a Dioniso.
Quando finda a gestação de Dioniso, Hermes o leva,
a pedido de Zeus, para a Corte de Átamas, Rei Beócio
da Queronéia, casado com a irmã de Sêmele. Hera
não tardou a descobrir que nascera e vivia o rebento daquela
relação "espúria". Tomada de ódio,
Hera, ensandecida, enlouquece o casal que adotara Dioniso, Átamas
e Ino. Ino lançou o seu filho caçula num caldeirão
de água fervendo, enquanto Átamas, com um venábulo,
espécie de lança para a caça de feras, matava
o mais velho, Learco, tendo-o confundido com um veado. Ino, em seguida,
atirou-se ao mar com o cadáver de Melicertes e Átamas
foi banido da Beócia.
Zeus, percebendo que não lograra êxito, transforma
o seu filho num bode e manda Hermes levá-lo para o Monte
Nisa tendo sido Dioniso, então, confiado aos cuidados da
ninfas e dos sátiros que lá habitavam numa gruta.
Talvez, numa gruta habitada por sátiros e ninfas, a psicanálise
encontre refúgio da fúria de Hera. Assim, protege-se
a deidade da orgia da ira de Teléia, a saber, a deusa do
casamento, a análise didática.
Instigante notarmos que Dioniso, diferente dos demais deuses do
Olimpo, é um deus ambulante. Dioniso age onde é convocado
para rituais de fertilidade. Este fato deve decorrer das peregrinações
que foram imprescindíveis para que Dioniso existisse. Dioniso,
como sabemos, é um deus Frígio importado para Grécia.
Zeus, o seu pai, era um amante inveterado. Valia-se de mil disfarces
para driblar Hera e ter os seus encontros extra conjugais. Numa
das suas andanças entre os mortais ele fecunda Sêmele.
Do ventre de Sêmele, Dioniso é transferido para a barriga
da perna de Zeus. Da barriga da perna de Zeus para a Queronéia.
Da Queronéia para o Monte Nisa. Em suma. Dioniso é
oriundo de um caso errante de Zeus. Zeus oferece como herança
à Dioniso a errância.
O psicanalista, segundo a Dra. Inês Besouchet, é,
ou melhor, deve ser um "ambulante", deve ser um errante.
Assim é o CESAC, que primeiramente funcionou como "Gruta"
para os recém-formados psicólogos da PUC (Rio) que
pretendiam o Olimpo, mas não tinham as credenciais para tal,
não eram médicos, e depois fez deles errantes. O CESAC
é a errância.
A "Gruta" é um lugar transicional, transitório.
Em verdade, temos a certeza de que todos nós passamos por
uma "Gruta". O que nos causa espécie é perceber
que resulta desta passagem um certo constrangimento. Senão
vejamos: muitos analistas tiveram como ponto de partida o CESAC.
Destes, diversos fundaram as suas próprias instituições
e produziram muitos trabalhos. Sem dúvida que a responsabilidade
por esses e pelas instituições fundadas é dos
seus idealizadores, mas é difícil negar que o CESAC
tenha sido a fonte. Fonte esta que é invariavelmente esquecida.
Ocorre com o CESAC o mesmo que acontece com texto freudiano. Tomamos
como fonte a edição inglesa e não a alemã.
Com isto recalcamos o barbarismo do desejo em nome de uma leitura
"científica", "limpa" dos movimentos
da alma, que na tradução oficial (inglesa) deixou
de ser alma para ser "mente".
Definitivamente o CESAC não é apolineo. Os deuses
Olímpicos nunca demonstraram apreço por Dioniso. Havia,
por razões óbvias, uma muralha entre Dioniso e Hera
e, ainda hoje há um cuidado enorme em não haver misturas
entre os objetos que pertencem ao culto de Hera e o culto de Dioniso.
O CESAC é a outra, o CESAC é Sêmele, é
terra.
Dioniso foi atestado, até onde se sabe, pela primeira vez
no século XIV a.C., mas só tem o seu aparecimento
oficial na literatura grega em VII a.C. Pergunta-se: Qual é
a razão de Dioniso ter sido silenciado durante quase nove
séculos? Dioniso é um deus essencialmente agrário,
deus das potências geradoras, deus da vegetação.
Esta é uma primeira razão para Dioniso ter ficado
confinado no campo, mas talvez não seja a principal razão.
Atenas, até o fim do século VII a.C. foi dominada
pelos eupatridas, os bem nascidos, os nobres que, sendo os únicos
que podiam armar a Cidade, eram igualmente os únicos que
podiam defender a polis. Senhores de tudo, eram igualmente os senhores
da religião. Os deuses Olímpicos consistiam na projeção
do regime político de Atenas onde, evidentemente, Dioniso
não tinha lugar, Dioniso não era um bem nascido. Somente
no século VI a.C., com o enfraquecimento militar, e, por
conseguinte, político dos eupatridas, Dioniso é admitido
na polis de Atenas.
Curioso o fato de termos decidido escrever este trabalho que versa
sobre Antropologia Clínica no exato momento em que a ortodoxia
psicanalítica mostra sinais de exaustão. Exaustão,
acredito, do esforço de cientifização do texto
freudiano.
Vale lembrar que quando despontamento de Freud, a psicologia clássica
pretendia o Status de ciência. A psiquiatria prometia a domesticação
definitiva da loucura. Neste sentido, Freud surge como um perturbador
da ordem apolinea pretendida pelo discurso oficial.
Freud é no meu entender, um deus agrário, e o seu
vigor parece residir em integrar as questões humanas, não
desperdiça-las. Compreende Freud que o sintoma é a
semente de onde pode germinar o que existe de singular na pessoa.
Freud definitivamente atestou que o sintoma não é
um erro, mas a via de acesso da pessoa a si mesma. Freud lembrou-nos
que a semente, longe de ser um resto inútil, é um
resto útil. O sintoma, para a medicina, é algo que
deve ser eliminado, para a psicanálise, sustentado. Guy de
Maupassant, então, nos surpreende com a seguinte frase em
"O Horla" : De há alguns dias para cá, ando
com uma ponta de febre e sinto-me ligeiramente doente. Ou melhor;
sinto-me triste...." . Assim entendo a psicanálise.
O vigor da psicanálise está em não nosografar.
Fazer da psicanálise, ou melhor, sujeitar a psicanálise
à nosografia resulta desvitalizá-la, implica extrair
sua pulsação.
Dioniso abolia a distância entre o mortal e o imortal. Assim,
a experiência dionisiaca punha em risco toda uma estrutura
de valores. Freud permitiu algo da mesma ordem: interrogou a distância
entre o são e o louco. Denunciou que somos muito mais morais
do que cogitamos ser; ao mesmo tempo muito mais imorais que toleraríamos
admitir. Ansiedade, histeria de conversão, compulsividade,
homossexualismo, demência precoce e melancolia-mania consistem
nos passos inerentes à hominização quando ainda
da horda. Já no Estado, estas disposições eventualmente
podem vir a ser exacerbadas em alguns como caráter, então,
mórbido. Logo, as disposições, em verdade,
ocupam para Freud uma espécie de arquivo, de memória
filogenética, e não uma doença, um erro.
Freud foi um formidável desconstrutor das concepções
eugenicas. Freud revelou o óbvio, revelou que todos somos
oriundos de uma gruta, de uma orgia, de uma ultrapassagem, somos
da terra, somos todos filhos de Sêmele com Zeus e todos sujeitos
a ira de Hera.
Talvez, por isso mesmo, Freud tenha sido condenado ao exílio
pelos nazistas, e, a psicanálise, ao cerco anglo-saxão.
O esforço da tradução inglesa foi o de "des/freudionizar"
a psicanálise, revestindo-a da indumentária médico/científica
e, assim, tendo-a punido em sua essência, pôde ser agasalhada
como setor da psiquiatria. O mesmo aconteceu com Apolo que, exorcisando
Dioniso, fez com que a tragédia passasse a ser muito mais
apolinea que dionisiaca.
Para concluir, retornemos a Dioniso. Em verdade, a causa de Dioniso
foi a própria Hera, pois se Sêmele não tivesse
sido aconselhada pela mesma a dar um basta nas pilhérias
que suas irmãs teciam quando não acreditavam que ela
se relacionava com um deus, a gestação de Dioniso
teria acontecido numa mortal e, no máximo, ele seria um herói,
nunca um deus. Mas ele foi gestado num deus e, assim, fez-se também
um deus. Isto, talvez, ajude a elucidar o por que do seu afastamento
dos demais deuses. Dioniso é a revelação por
excelência da ambigüidade; ele está entre o céu
e o inferno, ele é o filho bastardo do Olimpo. Ambigüidade
esta que permeou a vida de Freud., filho da medicina e da hipnose,
rebento judaico num solo germânico.
Dioniso é um deus integrado no próprio homem. Tão
libertário e politicamente independente não poderia
ser aceito pela polis de homens e deuses tão apolineamente
patriarcais e repressivos.
A Antropologia clínica é o próprio homem,
tão politicamente independente, lastreada, no dizer de Muniz
Sodré, por todos os saberes, anfitriã dos mais diversos
convivas. Esta, talvez, seja a essência da clínica;
ser uma boa anfitriã. Não nos é possível
pensar numa clínica apolinea, já que esta tem como
causa o retorno do recalcado que só acontece em êxtase,
em entusiasmo. O retorno do recalcado é a semente que ousa
vingar. Assim como Dioniso, nascido da perna de Zeus, vai ao fundo
do Hades para de lá arrancar Sêmele, sua mãe,
e conceder-lhe a imortalidade, da mesma forma o CESAC, nascido da
perna da IPA, vai ao Hades para de lá arrancar Freud e fazê-lo
mortal pulsante.
O CESAC é o ritual dionisiaco de fertilidade onde pode vingar
a obra de Freud.
Livro Sociedade e Clínica. Publicado pela Editora Gryphos
em 13 de julho de 1992. O organizador do livro foi Muniz Sodré.
Esta foi a primeira publicação do CESAC. Os trabalhos
publicados no mesmo são: Presença do Psicanalista
de Ivan Ribeiro, A Clínica da Antropologia de Emmanuel Carneiro
Leão, Antropologia Clínica de Muniz Sodré,
O Senso do Contra-Senso - Psicanálise e Antropologia Clínica
de Wilson de Lyra Chebabi, O esquecimento da teoria de Fábio
Penna Lacombe, Psicanálise e Cultura: Peregirnações
em torno do totem e do fetiche de Jorge Valadares, Terapia Transdisciplinar
de família de Jorge Luiz Veschi, No Gerúndio das pedras
de Maria Helena R. Junqueira, Ética da psicanálise
e ética da obra de arte de Belmira de Oliveira Carvalho,
A conversa psicanalítica: Interpretação e política
psicanalítica de Miguel Sayad, Casas e Eixos de Elza Marques
Lisboa de Freitas, e o nosso.
2 Hybris": Descomedimento. Designa o sentimento de exagerada
auto-confiança, orgulho ou paixão, que incita os heróis
da tragédia Grega a se revoltarem contra as ordens divinas.
Em consequência, cometem uma falta grave que acaba provocando
a nêmesis, ou seja, a indignação dos deuses,
em resultado da qual conhecem o sparagmos, isto é, a morte
ou a desgraça.
3 O inconsciente é presidido por representações
de coisa. Algo está inconsciente quando não pode ser
admitido na consciência. Só pode ocupar a consciência
algo que possa ser domesticado pelo eu/consciente. Isso só
será possível se este algo puder ser dito, puder ser
dialetizado. Caso não possa ser dito, através de um
contraprovimento, será recalcado. O processo clínico
visa oferecer vínculos intermediários para que possa
surgir na consciência o que está inconsciente.
4 Ninfas e sátiros: divindades da natureza (mitologia Grega).
5 As sociedades oficiais de psicanálise nem sempre aceitaram
os não médicos para formação. Neste
tempo surgiu o CESAC.
6 Freud, Sigmund. Neurose de transferência: Uma sintese. Imago
Editora.
7 Tragédia = Tragus (bode) - Ode (canto)...logo,
canto do bode.
8 Todos os aspectos míticos citados neste trabalho têm
origem no segundo volume do livro " Mitologia Grega",
de Junito Brandão, Ed. Vozes.
Comentário
" Psicanálise e Dioniso "
por Jorge de Campos Valadares
É um trabalho bonito, apaixonado, inteligente e competente.
Pode-se com ele, caminhar pelas andanças da psicanálise
e pela mitologia grega sem risco de deturpação, de
mistura ou confusão de campos - o que lhe confere um rigor
- e, sem, com isso, perder a graça, a paixão sem o
que, todo o trabalho sobre o afeto se esvazia do principal.
Alguns exageros, poucos, já marcados em discussão,
ligados à visão mostrada a respeito do CESAC e das
instituições psicanalíticas.
1 - Sobre o emprego ambíguo do plural majestático
e da primeira pessoa do singular:
Penso ser uma questão mais para o grupo do CESAC do que
para o autor. Somente nós no grupo, poderemos decidir o lugar
da paixão (pathos) e permitir um certo desco- medimento (hybris)
para que não se caia na maldição (ou a sparagmos).
O plural majestático sugere um plural "tout court".
Alguém, na época da mitologia, teria pensado numa
" nêmesis ", numa indignação de quem
produzia os deuses? ou os deuses já eram produzidos para
dar conta do suceder das indignações? No momento da
paixão, pode-se ser duro como uma pedra ou mole como o coração.
A paixão é causa do "trabalho de grupo"?
2 - Outra questão.
A nota de rodapé " 3 " quando lembra que o "
ics é presidido por representações de coisas
" nos leva a seguinte consideração - As "coisas"
lá representadas são aquelas não nomeáveis,
pelo menos pelo momento, e falam de tensões " esquecidas
" , uma briga dos pais, por exemplo. Essas tensões só
virão ao consciente pelo gesto, ou pelo ato. Que vinculo
intermediário oferece a psicanálise e a cultura para
este "aparecer"?
Retomando a questão anterior: como se poderá "viver"
com uma clínica antropológica e ex-pressão
de representações, que talvez sejam causadas por uma
configuração cultural de instituições,
por exemplo, a família, a essa configuração
sendo o que, com um certo tipo de espaços, tempos, etc. nos
leva a " briga de pais " ? Isso sem desvalorizar a problemática
edípica dos mesmos.
3 - Outro ponto.
A Elza, por ocasião da apresentação do Fábio,
nos lembrou de que existe um sem número de termos, próprios
da ritualística dos grupos, necessária a fermentação
e a criatividade grupal e que perdem o sentido fora desses grupos.
O uso desses termos por determinadas correntes na psicanálise
leva-nos a uma grande confusão. Isso não invalida
o "trabalho do grupo".
Acho que existe um pensamento, pelo menos por parte dos membros
do CESAC, de que aqui apareceu pela primeira vez a psicanálise
ao gosto de Freud. Talvez, seja algo para o consumo interno, entretanto.
4 - A questão da psicanálise e o regime militar.
Pensando bem, o regime militar não utilizou a psicanálise
no Brasil, mas esta se ofereceu com algum serviço. Interpretar
bombas que foram usadas (OAB, Rio Centro, etc.), como evoluções
da analidade do paciente que re- latava o fato, em pânico,
no divã, era, sem dúvidas, um desses serviços.
No CESAC, temos feito alguma autocrítica. Reuníamos
para estudar Platão, filosofia grega, medieval, etc. e saiamos
das reuniões, onde não se tocava no assunto, para
visitar amigos presos. Enfim, para todo lado havia os chamados "
olheiros ", e considerou-se que poderia ser suicídio
qualquer protesto.
Comentário efetuado uma semana após a apresentação
do trabalho no CESAC. Jorge Campos Valadares.
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