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ÉDIPO DESVITALIZADO
Carlos Alberto Barreto
Lá se vão 2.500 anos que SÔFOCLES criou um
conjunto de tragédias, com um conteúdo político,
constituídas por ÉDIPO (OIDIPOUS), ÉDIPO REI
(OIDIPOUS TYRANNOUS) e ÉDIPO EM COLONA (OIDIPOUS EPI COLONEI).
OIDIPOUS TYRANNOUS foi admirada por ARISTÓTELES na POÉTICA,
entretanto, nenhuma delas foi premiada.
Esse texto é dedicado ao FÓRUM de DEBATES da SPRJ
e ao projeto DO OUTRO LADO DA PONTE - Caju, onde me foi possível
ver o Édipo grego.
De um certo lugar na Cultura, vou falar sobre a tragédia
de ÉDIPO REI, constituindo trilhas para discussão
posterior.
Cultura é a expressão do indivíduo em seu
meio, determinada de maneira singular, que não pode e nem
deve ser gerenciada. Se a nível acadêmico o atrelamento
cultural nos aprisiona a um meio alheio, é compreensível
que exista uma repetição, posto que retrata uma experiência
de perpetuação e não de criação.
É um terreno amplo, pois trata-se de um conjunto de efeitos,
uma ligação histórica, política, social
e psicológica. Pode ser compreendida como a resposta dada
por um grupo de homens ao “desafio” lançado por
eles pelas condições da realidade biológica,
física e social em que se encontram, podendo-se dizer que
a civilização é o complexo das “armas”
que uma Cultura forja para enfrentar o “desafio” (1).
A organicidade produzindo conhecimento é a única possibilidade
de saber. A manipulação indevida de determinados setores
da sociedade na produção cultural, retrata a deformação
criada pela influência absurda do poder político sobre
a sociedade. Cabe ao Estado1 (2) propiciar a expansão das
manifestações culturais sem dela se apropriar ou se
autorizar como realizador da ação comum. Cultura é
o primeiro patamar terapêutico, pois a inexistência
de proteção e respeito, leva o indivíduo ao
constrangimento cultural, com a criação de modelos
que são transformados em ideais. Todo indivíduo no
exercício da liberdade é agente do percurso cultural.
Uma clínica no social não deve ficar somente na palavra,
ótimo argumento para a manipulação, impondo
uma repressão através do discurso. O que mais importa
é promover a polêmica, substância básica
para a saída da ignorância. Cultura é ato passional,
arte do agora, interesse despreocupado.
1 “No Grundisse”, o conceito de Sociedade Civil emerge
da combinação de dois imperativos categóricos
- o Estado absolutista de Thomas Hobbes e o conceito de mercado
em Adam Smith. Aparentemente,
inconciliáveis, Karl Marx trabalha o conceito de Sociedade
Civil sob o prisma do signo da contradição.
Em Clara dos Anjos (3), uma referência aos freqüentadores
dos cultos nos mostra a essência cultural de nossa gente.
Assim, é próprio do nosso pequeno povo fazer uma amálgama
de religiões e crenças, socorrendo-se desta ou daquela
conforme os transes e momentâneas agruras de sua existência.
Em cada lugar tem um pregador para nos dizer da verdade. Cada lugar
tem algo que não consta do catálogo do espetáculo
cultural oficial. Cultura é isso! Ou procuro entender o que
me cerca, transgredir, ou não atravesso a ponte.
Em O futuro de uma ilusão (1927), Freud comenta que a civilização
está baseada na renúncia das pulsões e que
uma minoria teve acesso ao poder e à coerção,
impondo à maioria recalcitrante uma civilização.
Ante o perigo de rebelião das maiorias, esta minoria faz-se
independente das massas, para continuarem dispondo do poder.
A singularidade do sujeito o determina como ser pulsional e social.
As pulsões fazem parte do jogo identificatório, ou
seja, todo conflito pulsional é conflito identificatório,
pois o sujeito está dividido entre o reconhecimento do seu
desejo e o desejo do reconhecimento (identificação).
As pulsões para encontrar satisfação são
obrigadas a voltar-se para a existência do outro. Somente
o outro pode aceitar seu desejo e reconhecê-lo como portador
do desejo, assegurando-lhe portanto lugar na ordem simbólica
social na medida em que aceitou tomá-lo como modelo. O pulsional
faz parte da fundação do sujeito e da vida social
(4).
A sociedade moderna marca um período de ataque ao sujeito
que se traduz num ataque ao indivíduo que é usurpado
tanto pelo conformismo como nas tentativas de reagir à massificação
.(5)
Após os escritos sobre Totem e Tabu (1913/1914), Freud se
dirige ao estudo do “Narcisismo” (1914), onde o Ego
se transforma em objeto de identificações passadas
e fica patente que os conflitos sociais que incluem a 1a. Guerra
Mundial e a ascensão do fascismo, bem como a vitória
da revolução comunista, fazem o pano de fundo as reflexões
freudianas como Psicologia das Massas (1921), O futuro de uma ilusão
(1927), Mal-estar na Cultura (1930) e Moisés e o Monoteísmo
(1934/1938) (6), constituindo os textos que denomino como a obra
sociológica de Freud, ainda hoje, um tanto desprezada por
grande parte dos psicanalistas. Portanto sempre houve preocupação
com o social e a Cultura.
Em Totem e Tabu (1913/1914), trabalho precioso para Freud e muito
criticado por outros, na suposição de que ali estava
uma Antropologia canhestra, porque aquele conjunto de fatos, na
verdade, nunca aconteceu e, só é possível sob
a forma de um sonho ao mesmo tempo duradouro e antigo. O prestígio
deste sonho, seu poder de modelar, sem que se saiba, os pensamentos
dos homens, provem justamente do fato de os atos por ele evocados,
nunca terem sido cometidos, porque a Cultura sempre se opôs
a isso. As satisfações simbólicas nas quais,
segundo Freud, se expande o sentimento do incesto, não constituem
outra coisa e, mais do que isso, são a expressão permanente
do desejo de desordem, ou antes, da contra-ordem(7).
Contra que ordem? A ordem imposta pelo pai autoritário impedindo
o acesso dos filhos à alteridade? Desordem promovida pela
Horda resgatando o que lhe foi negado? Se assim for, Freud dissertava
sobre o poder autoritário e a transgressão a esse
poder promovido pela Horda. Esta funda o milagre da multiplicação,
que se manifesta no texto bíblico na divisão dos pães
e se atualiza modernamente pela ação dos “sem-terra”
. Quando o poder se impõe vorazmente, a Horda, fraternalmente,
se rebela. Em “A Psicologia das Massas” (1921 - parte
IX), Freud nos diz da pulsão gregária e inata - o
homem não é um animal de rebanho, mas de Horda, uma
criatura individual numa Horda comandada por um chefe.
O ESTADO
O Estado é definido como toda e qualquer prática
que produza efeito de poder, seja de maneira micro ou macro, seja
no interior da família ou na forma de prática política.
E hegemonia encouraçada de coerção (8). A hegemonia
é a ideologia2 (9) e a coerção nada mais é
do que a repressão, isto é, determinante de um poder
coercitivo e ideológico (simbólico). O poder coercitivo
e ideológico impõe um registro político, ou
se quiserem, um registro de poder, que foi pesado por Freud em A
Psicologia das Massas (1921). Se nos é possível acompanhar
a coerção como modeladora do poder político,
é também importante que verifiquemos o que foi e é
alvo da coerção.
Que a relação homens/mulheres é a mais profunda
base de todas as relações desiguais, já sabemos
desde Totem e tabu (1913/1914). Entretanto há de se argüir
qual a participação do Filho como personagem alvo
principal desse poder coercitivo? Por que os psicanalistas não
se preocupam com complexos complementares como por exemplo os de
Jocasta e Laios?(1O).O que estava em jogo era a indiferença
sexual que resultou no nascimento e tentativa de homicídio
contra EDIPO. O que chama a atenção não é
unicamente o impedimento ao nascimento, mas a violência (11).
No mar da indiferença, ÉDIPO marca seu caminho e funda
sua Saga.
ÉDIPO SEM MAJESTADE
Diluído em inúmeras representações
e reduzido pela Psicanálise, o Mito de ÉDIPO perde
sua força. A família moderna acalenta um doce incesto
simplesmente porque o Estado não é sensual, coisa
estranha ao mundo clássico da Grécia. Para esse mundo,
o indivíduo e a família eram o Estado, de modo que
o carinho, o amor a Pátria e sua mútua celebração
no culto eram uma coisa só (12).
Um Mito pode ser descrito de várias formas, e uma delas
é como instrumento de controle social (Fraser, Sorel e Malinowski).
O Estado moderno se apresenta como JOCASTA/LAIOS na manutenção
de uma sociedade que se retrai ao casulo e que se omite na anulação
de um ÉDIPO moderno, baluarte da família burguesa,
que é “bonitinho mas ordinário” . A SAGA
DO FILHO se inscreve em dois instantes:
2 Ideologia (Poulantzas) – “um conjunto relativamente
coerente de representações, valores e crenças.
Sua matéria prima é o mundo em que vivem os homens
com a sua própria atividade política e econômica,
refletindo, finalmente, a ideologia à maneira pela qual os
agentes do formação "vivem suas condições
de existência’.”
1. EDIPO fez o que deveria ter feito, o que na verdade é
o objetivo na formação do indivíduo e nas análises
- a ultrapassagem ao Pai e não o ombreamento como são
definidas as análises segundo o desejo institucional;
2. compreendê-la no sentido político, na superação
da violência do Estado (JOCASTA/LAIOS), acatando a castração
simbólica no caminho da alteridade, cegando-se como TIRÉSIAS,
para ver o invisível.
A leitura institucional da tragédia de SÓFOCLES é
ideológica, é a sustância do Estado moderno
na manutenção de uma sociedade massificada, sendo
a possibilidade de ruptura e a instauração da contra-ordem,
em todas as instancias, reprimida. O EDIPO dos gregos é incompatível
com a sociedade moderna. Os genocídios atuais e passados
atestam a violência coercitiva contra
os grupos étnicos que se destacam pela alteridade e organização
fraterna, impondo-lhes a massificação.
SOBRE O TEMPO
Em “As pulsões e suas vicissitudes” (1915),
Freud define pulsão como um conceito entre o mental e o psicológico,
o representante psíquico dos estímulos originados
no organismo e que chegam à mente. Ele sempre se preocupou
pois com o estágio dos conhecimentos psicológicos
a respeito das pulsões. Estas são portanto forças
incontroláveis que determinam as representações
inconscientes. As atividades pulsionais que anseiam pela exteriorização
objetiva são na maior parte do tempo deslocadas e explicadas,
em nome de uma teoria pronta, verdade inscrita e supostamente inquestionável
sobre a natureza humana (13). Essas forças incontroláveis
- pulsões - se são incontroláveis, a que tempo
estão associadas?. A percepção do tempo é
também cultural. Faz-se necessário fundamentar as
questões do tempo em Psicanálise. Concordamos (14)
que o Inconsciente só é intemporal perante um conceito
vulgar do tempo - um tempo da mecânica.
Marx afirmou na Ideologia Alemã (1844) que o homem possui
energias interiores que são forças que o impelem à
ação. Faz-se oportuna a frase de Goethe ao modificar
o velho testamento no trecho da gênese que diz: no começo
era o Verbo e Fausto contemplador afirma - no começo era
a ação(15). Ação, paixão, pulsão,
tempo.
GENERALIDADES
Particularmente sonho com o ÉDIPO grego e não sou
pessimista quanto aos homens (afinal somos dialéticos e mutantes!)
nem em relação à Psicanálise, que ainda
não foi lá muito utilizada como uma das "armas"
da civilização na Cultura para a fundação
do sujeito e do social, constituindo-os como indivíduos grupais
e não como massa a serviço do Estado.
No social, fazendo-se uma clínica, é impossível
abrir mão de todas as aquisições em nós
afirmadas pela civilização, sendo necessária
a mudança do registro político - registro do poder
- pelo registro estético da qual a vertente poética
faz parte. Mesmo com nossa bagagem pessoal, faz-se necessário
um certo afastamento da causalidade. A Psicanálise é
marcada pela relação causa e efeito. O poeta não
é poeta por encomenda. Ele o é porque se deixa seduzir
pela imagem que, em verdade não é por si só,
sedutora. E na praxis psicanalítica é o que conta
- o instante poético. Como clinicar sem despojamento, sem
paixão e sem poesia?
A sabedoria popular é muito rica e esse ‘ouro”
é peneirado nas bateias da simplicidade. Vou lhes dar um
exemplo: os jovens, em especial as crianças, nos dizem das
relações de parentesco com extrema facilidade. Observem
como denominam de tios todos aqueles que mereçam respeito
e amizade. E a família por afinidade. Ficamos nós
procurando o pai e eles falam do tio, irmão da mãe
figura destacada na origem AFRO e configurada como fundamental.
O pai ausente cede seu lugar ao tio. Se o tio ( estamos incluídos
), se comporta como CREONTE, faz-se a reprodução do
Estado e, como no Mito, assume arrogantemente o poder. E foi desse
lugar que proibiu a ANTIGONA que sepultasse seu irmão POLINICE,
obrigando-a a optar entre os bens e o desejo. Assim como o pai ÉDIPO
optou pelo desejo e, mais ainda, não evitou o confronto.
O ESTADO (JOCASTAILAIOS/CREONTE) procura enganar a fatalidade e
se decide pelo crime contra um EDIPO que não fugiu ao seu
destino. Afinal o Estado deve ser sempre autoritário? E o
Pai ausente?
Contei que na família matrilinear a mãe tem uma função
de poder na construção do indivíduo. Cabe ao
tio a função de substituto do pai no sentido lúdico
e o pai como ordenador da vida social, no equilíbrio ético.
Se faz Pai introjetado como ideal e propulsor da ultrapassagem.
FINALIZANDO
A Cultura é a luta contra a grande-mãe devoradora,
isto é, a natureza para a qual aspiramos voltar. A historia
de uma vida e a história da construção dessa
volta. Mereceremos voltar, isto é, morrer, na medida em que
tivermos com EROS e TANATOS composto a partitura de nossa vida.
De um lado a natureza e do outro a coerção nos impelindo
ao ombreamento ao Pai. Entre os dois, o personagem marcado e heróico,
que sonha sem tirar os pés da realidade.
O destino do homem é a incompletude. Recusa, como Freud,
a síntese, é analítico na sua essência.
O suporte, no materialismo histórico, é a forma de
discutir a posição de ÉDIPO enquanto fatalista
e reduzida aos muros Tebanos. O MITO trata indiscutivelmente de
uma mudança.
Interrompo esse texto com a frase lapidar do meu fraterno e doce
amigo Hélio Pellegrino, quando afirmava com aquela voz de
barítono de igreja - “o homem é um deus falhado,
porque é um animal falhado. Só o homem foi expulso
do Éden. O homem é Deus em construção”.
A Psicanálise deve seguir seu ideal buscando no social o
DEUS em construção e, quem sabe? O ÉDIPO grego.
Freud nos deu uma teoria que se inicia num PROJETO e se finaliza
num ESBOÇO
Incompleta como o homem.
Uma teoria em construção.
BIBLIOGRAFIA
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Editora Mestre Jou, 1981,
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TOYNBEE.
02. CERQUEIRA FILHO, G. e NEDER, G. Emoção e Política.
Porto Alegre: Editor
Sérgio Antônio Fabris, 1997.
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