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O CASO DA IPA

Helena Besserman Vianna

Sapere aude! (ousai saber!)

Horácio

Com o ressurgimento de Gradiva - ("aquela que avança"), agora, em apresentação globalizante através da Internet, restaura-se também o espaço democrático de notícias, questionamentos, idéias e dificuldades do movimento psicanalítico e seu correlacionamento com os fatores sócio-éticos-políticos em que se desenvolve.

Em 1910, por ocasião do II Congresso Internacional de Psicanálise, realizado em Nuremberg, é oficialmente fundada a IPA. Os psicanalistas pioneiros, impulsionados por amor à psicanálise e fidelidade a Freud, propunham-se a criar um organismo protetor e aglutinador, com o objetivo de salvaguardar princípios freudianos e regulamentos institucionais. Desde seu início, a Ipa foi como montanha vesuviana, com períodos de agitação expulsiva e períodos de tranquilidade. Há muitos anos, encontra-se em efervescência, no que tange ao episódio ainda sem epílogo, internacionalmente conhecido como o caso Amilcar Lobo-Sprj-Ipa. O relato e o histórico documentado deste caso já constam de inúmeras publicações. Vamos nos deter nos últimos, mas ainda não derradeiros acontecimentos: na Sprj, depois de discussões e alguns manifestos, é eleita uma Comissão de Ética encarregada de examinar o "caso Amilcar Lobo"e dar seu parecer. Após dois anos de pesquisa ouvindo os implicados na presença de seus advogados, a Comissão de Ética apresenta volumoso e documentado relatório, juntamente com seu parecer, no qual reconhecem ser Leão Cabernite (analista-didata de Lobo quando este foi denunciado como participante de equipe de tortura a presos políticos) culpado por graves infrações deontológicas, tanto do ponto de vista da dignidade humana como da ética psicanalítica e, em conformidade com seus estatutos, propõem sua expulsão da Sprj. O relatório e o parecer ficaram à disposição de todos os membros da Sprj, sendo também enviados ao presidente da Ipa - Dr. Horácio Etchegoyen - e a todos os departamentos componentes da direção internacional. Em assembléia realizada no dia 13 de dezembro de 1995, a maioria dos membros presentes a esta reunião (incluindo Cabernite), rejeitou o parecer da Comissão de Ética por 55 votos, contra 37 a favor e 9 abstenções. Imediatamente, seis membros pedem demissão da sociedade e da Ipa e outros 36 membros (hoje já sào mais de 40 ) se manifestam contra a rejeição do parecer da Comissão de Ética, formando o grupo Pró-Ética, que passa a se reunir regularmente para discutir questões psicanalíticas e inicia a publucação do jornal Destacamento, no qual, em diferentes artigos, passam a exigir uma declaração ética do Conselho Diretor da Ipa em relação a todo o histórico da Sprj.

Em 8 de agosto de 1996, realiza-se em Londres reunião de representantes de todas as sociedades psicanalíticas filiadas a Ipa, que examina, entre outros documentos, o parecer explícito do então presidente - Horácio Etchegoyen - condenando a transgressão ética co- metida por Cabernite. Ainda assim, o Conselho diretor da Ipa emite dois documentos verdadeiramente "splitados". Um dos documentos é endereçado a Dra. Helena Besserman Vianna, expressando sua solidariedade por seu "longo combate pela causa democrática e psicanalítica." O outro documento é segmentado: em um dos ítens, sugerem que a Sprj continue a aprimorar seu "nível científico e os princípios éticos... e que assim sendo, terão todo o apoio da Ipa; ao mesmo tempo, em outro item, asseguram ao grupo Pró-Ética a possibilidade de fundarem uma nova sociedade, para a qual também teriam todo o apoio da Ipa.

Psicanalistas de sociedades sediadas em diferentes continentes e filiados a Ipa, passam a questionar como o Conselho da entidade maior, pode dar, indiferentemente, sua benção a dois grupos antagonistas em que um deseja, a despeito da ética, encobrir os fatos dolorosos e condenáveis de sua história, enquanto que o outro grupo, o Pró-Ética, torna pública todas as responsabilidades, nomeando e documentando a ação de seus protagonistas? Diante dos protestos generalizados concernentes a este tipo de resolução, o presidente da Ipa, Dr. Etchegoyen, nomeia uma Comissão Ad Hoc composta por eminentes psicanalistas, para estudar o caso. Essa Comissão, no Congresso Internacional de Psicanálise realizado em Barcelona (julho,1997), emite parecer que também responsabiliza Cabernite por transgressão a princípios éticos da prática psicanalítica.

Nesse ínterim, o Prof. Serge Lebovici (presidente da IPA em 1973, quando surgiu a denúncia de que Amilcar Lobo, aluno em formação da Sprj, fazia parte de equipe de tortura a presos políticos, baseado no testemunho único do analista-didata de Lobo, declara por escrito a todos que indagavam sobre esta aberração, que Amilcar Lobo tinha sido "injuriado"), ao tomar conhecimento de que seria editado na França o livro "Não Conte a Ninguem...", escreve Memorandum ao presidente da IPA, no qual além de declarar não possuir documentos citados no livro, ameaça impedir sua publicação em francês, solicitando, para tal, ajuda financeira da Ipa. O prefaciador da edição francesa - Dr. René Major -, presidente da Sociedade Internacional de História da Psiquiatria e da Psicanálise, para evitar mal-entendidos, solicita ao Prof.Lebovici cópia de seu Memorandum para inserí-la na edição francesa. O Memorandum (ligeiramente modificado) é fotocopiado para o livro, e tem a data de 3 de janeiro de 1997. Também faz parte da edição francesa fotocópia de todos os documentos assinados por Lebovici e que ele dizia não ter conhecimento.

Na Sprj, a diretoria e alguns membros permanecem na posição de defender Cabernite (que já tinha pedido demissão) e não consolidar o que lhes era solicitado pela Comissão que dera parecer em Barcelona, mas já agora com a formação de um grupo intermediário auto-denominado "de reflexão", que passa a desejar entendimento com as partes envolvidas, , embora o Pró-Ética permanecesse insistindo no cumprimento das sugestões unanimamente aceitas no Congresso de Barcelona. Forma-se nova Comissão da Ipa que vem ao Rio de Janeiro estudar e examinar novamente este rumoroso caso, ficando de dar novo parecer no próximo ano. No calor das discussões e dissenções, mais uma vez ressurge a participação epistolográfica do Prof. Lebovici (ex-presidente honarário da Ipa): Lebovici envia para um dos membros da Sprj que se opõe às diretrizes do Pró-Ética (Dr. Iancarelli), carta com data de março de 1997, na qual declara estar enviando cópia de Memorandum enviado ao presidente da Ipa após a publicação do livro Politique de la Psychanalyse face à la Dictature et à la Torture. Dá-se que é o mesmo Memorandum já publicado em fotocópia, embora a cópia enviada ao membro da Sprj esteja com a data flagrantemente adulterada para março de 1997. Acrescenta-se assim, mais uma nova deformação, desinformação e falsificação ao caso da Ipa...Este caso foi relatado ao atual presidente da Ipa, aos membros de seus principais departamentos e diferentes comissões e a resposta até hoje é o mais absoluto silencio...

Na primeira quinzena de dezembro deste ano, em assembléia com reduzido número de participantes, a Sprj aceita as recomendações da Comissão de Barcelona (há no ar a possibilidade de serem excluidos da Ipa). O grupo Pró-Ética continua reclamando o pronunciamento ético da Sprj e da Ipa... Há poucos dias, fui entrevistada por doutoranda que termina sua tese sobre o movimento psicanalítico no Brasil em Paris, e uma das perguntas que me fez foi: -"Porque voce continua na IPA?" Minha resposta: Ainda não sei.

No romance de W.Jensen, Gradiva é o nome que o protagonista da narrativa, o arqueólogo Nobert Hanold, dá a uma figura em baixo-relevo que encontra em Roma, pela qual se apaixona. É de tal forma dominado pelas fantasias que se inspiram nesta sedutora figura, que coloca na parede de seu escritório uma cópia do baixo-relevo. Também Freud faz o mesmo, e, por transmissão consciente ou inconsciente, até hoje, grande parte dos psicanalistas penduram em seus comsultórios reprodução do baixo-relevo de Gradiva. Nobert, em um pesadelo, vê a jovem por quem se apaixonara como vítima da erupção que sepultara Pompéia. Convencido da veracidade de seu sonho e prisioneiro de suas fantasias, Norbert parte para Pompéia, onde, subitamente, encontra a mulher amada. Entretanto, a bela jovem não era uma fantasia - tratava-se de Zoé Bertgang, que lhe explica ser natural da Alemanha e que residia na mesma cidade de Norbert, onde tinham sido amigos de infância.

Será que, como eu, e inúmeros psicanalistas de todos os continentes , continuamos na procura do baixo-relevo Ipa, que, na infância psicanalítica, nos encantou e seduziu? Ou esperamos que se esclareça inquestionavelmente o caso da Ipa?

E Mail de Helena Vianna:helbes@openlink.com.br


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