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Um debate com Chaim Samuel Katz
Analista clínico, pensador consistente e sempre atento à
radicalidade freudiana, debatedor polêmico e crítico,
professor e conferencista, denso escritor de vários livros,
estudioso da psicose e, finalmente, um dos fundadores da "Formação
Freudiana", o controvertido Chaim Samuel Katz atingiu a maturidade
de sua vida temperando com serenidade seu espírito inquieto
e provocante. Ele já integra o patrimônio da psicanálise
brasileira, aliando uma profunda erudição psicanalítica
e filosófica com um estilo original de pensar.
A troca de cartas tem desempenhado um importante papel na história
da ciência e da filosofia. Através dela, o pensamento
buscou interlocução: interrogou, comunicou, discutiu,
criou. Seria imaginável a construção da teoria
psicanalítica sem a interminável troca de cartas entre
Freud e seus discípulos? "Gradiva" propôs
a Chaim Samuel Katz um retorno ao tempo das cartas e, ao mesmo tempo,
um salto para o futuro da grande rede: uma entrevista sobre psicanálise
– tema livre -, via e-mail. Foi uma experiência que
nunca tínhamos feito, talvez seja até mesmo algo inédito.
Helena Besserman Vianna, Jansy Berndt de Souza Mello, Daniel Kupermann,
Luis Querolim, Miguel Calmon e Paulo Sternick trocaram muitos e-mails
numa discussão em que todos participaram (cada um recebia
todas as perguntas e todas as respostas). A transcrição
que ora apresentamos é a versão integral, sem cortes,
de tudo que se escreveu. Através daquilo que podíamos
definir como um meio termo entre uma entrevista oral e a escritura,
podemos acompanhar aspectos do pensamento de Chaim Samuel Katz.
A primeira parte da conversa segue abaixo, mas ela vai continuar,
agora, com a participação também de todos os
leitores que desejarem enviar suas questões (a Chaim ou a
qualquer participante do debate) que serão repassadas ao
nosso entrevistado. E-mails para o editor de "Gradiva"
(paulosternick@montreal.com.br.) A entrevista vai sendo divulgada
à medida em que vai sendo constituída.
A entrevista
Helena Vianna - Chaim, você já escreveu instigante
e polêmico trabalho apresentando as possíveis relações
entre nazismo e Psicanálise [1985] no qual, entre importantes
aspectos, você ressalta que, na apreciação de
muitos psicanalistas, nada haveria na psicanálise que a aproximasse
do nazismo, a não ser a coerção deste último.
Como você desenvolveria esta mesma temática atualmente?
Chaim Samuel Katz - Helena, tentei expressar que uma certa modalidade
do que se chama de "neutro" em Psicanálise deixa
de lado, abandona, reprime questões políticas. A maioria
da IPV concluiu que a psicanálise européia deveria
ficar distante das questões não-sexuais (o que seria
isto?!). Não se tratou, aí, apenas de uma coerção
externa do Nazismo, mas um modo positivo de articular o aparelho
psicanalítico de pensar e instituir. Minha questão
mais geral é se a Psicanálise pode se constituir sempre
no campo denegatório. Se for necessário, me explicito
melhor.
Miguel Calmon - Chaim, sinceramente, gostaria que você se
explicitasse melhor. Se lhe compreendo quanto ao denegatorio (por
denegação de algo !!), gostaria de lhe ouvir sobre
a natureza desta denegação.
Chaim - Alguma teoria imaginou que as postulações
psicanalíticas se fariam sempre realidades, pertenceriam
ao campo do simbólico, eternamente. Por exemplo, a IPV afirmava
que a Psicanálise podia subsistir no Nazismo, desde que se
adaptasse, pois a "verdade" da teoria estaria acima de
qualquer injunção social. Contudo, isto não
foi possível, os eventos históricos concretos mostram
que há uma exclusão radical entre ambos. Portanto,
devemos reexaminar o que são virtualidades, possíveis
e realidades em Psicanálise. Considerando o que produzimos
teòricamente, afirmo que não é possível
denegar permanentemente o que se impõe desde novos encontros
produtivos. Tècnicamente, digo que devemos perguntar acerca
do regime das resistências no interior da Psicanálise,
o que deve considerar , também, nossas próprias denegações.
Jansy - Chaim, lembro-me de você designar-se um "psicanalista
independente". Voce acha, então, possível haver
um "psicanalista independente", no sentido de um profissional
que trabalhe sem estar ligado a alguma instituição,
seja esta psicanalítica, ou não? Um psicanalista que
não pertença a um grupo de "pares" não
correria o risco de exercer um domínio grande demais sobre
seu analisando, se entendermos a instituição como
uma das formas possíveis de controle e distribuição
de poder?
Paulo Sternick - (comentando a pergunta de Jansy) Esta pergunta
parece que induz a um tipo de resposta, saturada que está
com a posição de sua autora. Está mais para
uma afirmação do que para uma indagação.
Chaim, pelo que me consta, pertence à "Formação
Freudiana". De minha parte, não consigo pensar num psicanalista
independente de instituição, se a gente considera
que a psicanálise, com seus procedimentos básicos,
sua teoria e técnica mínimas que a caracterizam como
tal, é, por si só, uma instituição.
Agora, depende do que se chama de instituição. Do
mesmo jeito, não consigo imaginar um psicanalista exclusivamente
dependente de instituição, que não possa se
designar psicanalista do jeito que só ele pode ser, porque,
senão, ele será uma imitação de psicanalista,
um psicanalista burocrático e escravizado a um imaginário
superegóico do que se supõe ser um psicanalista, ou
do que os outros dizem que seja. Que limitação de
poder existe aqui, quando um analista tem a Ipa ou a Associação
Mundial de Psicanálise na barriga? De maneira que essa dinâmica
entre dependência e independência constitui o paradoxo
mesmo de ser psicanalista, atravessado por um saber prévio,
por um rigoroso treinamento (dentro de uma organização,
ou não) e confrontado com o sempre inédito de cada
pessoa numa sessão de análise.
Jansy - Chaim, debates pela internet são uma grande novidade
para mim. Acho-os bastante estimulantes, porque nos colocam em contacto
com pessoas que, talvez, não encontraríamos de outra
forma. Creio que devemos agora estar fazendo parte de uma mesa-redonda
virtual, existente em alguma parte do "éter" e
que nesta tenhamos até um coordenador. Mas como ainda estou
de aprendiz nessa história, não achei o tal coordenador!
Por isso, começo lhe pedindo desculpas porque não
vou lhe endereçar uma segunda questão ainda, para
passar direto à resposta que Paulo Sternick deu à
questão que coloquei para você. Em outro momento, quando
eu receber o seu comentário, poderei responder ( ou apenas
escutá-lo) diretamente. Paulo, talvez minha pergunta estivesse
saturada das minhas próprias opiniões, transformando-se
mais em "uma afirmação do que numa indagação".
Minha posição, neste caso, assemelha-se à sua,
no primeiro momento do seu argumento: eu também não
entendo que seja possível a um psicanalista trabalhar fora
de uma instituição. Veja só, entendo que até
mesmo este nosso debate, para a Gradiva On-Line, seja parte de um
movimento institucional e que a minha participação
nele implique numa inclusão ou numa exclusão desta
organização institucional ( virtual). Como vê,
neste primeiro momento, estamos de acordo. O que eu gostaria de
ouvir do Chaim, a quem só conheci há muitos anos num
debate de Gradiva sobre Psicanálise e Instituição
( deve ter sido no começo dos anos oitenta! Como o mundo
dá voltas, hem?), era o que ele entendia por "psicanalista
independente". Porque, de fato, o ouvi se descrevendo desta
maneira e isto foi algo que não me saiu da cabeça.
Afinal de contas, o que significaria ? O que estaria ele comunicando
com isso? Mas, retornando ao que Paulo propôs: quando penso
em pertencer a uma instituição, estou entendendo que
uma participação nesta implique num contrato, implícito
ou explícito. Haverá privilégios e compromissos.
Haverá vantagens e riscos, alianças e compromentimentos.
Um psicanalista que se pretenda descompromissado de um grupo maior,
estará em falta com uma instância ordenadora mais ampla.
Ou estará recalcando seus efeitos. Mesmo que uma panelinha
possa se beneficiar no jogo político de uma IPA, por exemplo,
ainda assim ela não terá a instituição,
como você disse, "na barriga". Haverá sempre
um preço a pagar e, no final, alguma coisa a aprender, algum
ponto a negociar. O que promove debates, o que permite a aprendizagem.
Não vejo a instituição como um mal em si. Acho
que é este o ponto a partir do qual tomamos rumos diferentes,
você e eu. Mas fico curiosa para ouvir o Chaim.
Chaim - Na época em que me denominava "psicanalista
independente", Jansy, isto me implicava como um psicanalista
que não aceitava laços coercitivos para-além
da Psicanálise. Trata-se de uma ligação, teórica
e vivencial, com o campo do anarquismo, que mantenho até
hoje. O que não contradiz a realidade de que se alguém
se declara ou deseja "psicanalista", obriga-se no campo
da Psicanálise e no reconhecimento de seus pares. Hoje, tendo
fundado com alguns colegas a "Formação Freudiana",
acredito que estou no mesmo regime. Nosso grupo não obriga
análises, não tem nenhum significante para aderir,
mas sofre de todas as vicissitudes que "ser psicanalista"
obriga. Mas, pertencer ao campo fundado por Freud é aceitar
limites, sempre. Porém, pensemos juntos, por exemplo, numa
situação que nos determina: nesta época em
que nossa clínica "individual" se esvazia, podemos
admitir que o modelo de ser analista proposto nos primórdios
do freudismo subsistirá enquanto produto imediato de uma
teoria? Lacan nos mostrou que não. Novos encontros, outros
seres.
Sternick - (dirigindo-se a Jansy) É por vezes inquietante
observar a
percepção que os outros podem ter de nossas posições
. Nunca disse, em nenhum lugar, e nem sequer pensei, que "a
instituição é um mal em si". Devo repudiar
essa tentativa de reduzir a um maniqueísmo ingênuo
questões mais complexas. Eu próprio pertenço
a duas!! Porém, reconheço que sempre me preocupei
com as perversões dos fenômenos institucionais (incluindo
teorias ab-usadas de forma totalitária), especialmente os
relacionados às consequências na formação
analítica e no pensamento analítico, tendo em vista,
principalmente, suas repercussões problemáticas na
ponta da atividade clínica, na escuta do outro, no cuidar
dele se interessar por suas incógnitas, enfim, por seu mundo
inconsciente. De maneira que, Jansy, podemos realmente ter tomado,
nesse particular, rumos bem diferentes, no sentido de que você
parece se preocupar com as repercussões criativas e positivas
de inserção em macro-organizações (e
teorias), enquanto eu venho observando outro tipo de questões,
não tão otimistas assim. Talvez seja uma questão
de qual ângulo se vê a coisa. Mas, olhe, não
vamos encetar aqui um debate paralelo, espero que Chaim possa aproveitar
tudo que dissemos para pensar algo. Apenas gostaria de terminar
com uma frase que li recentemente, uma frase de Whitehead: "A
clash of doctrines is not a disaster, it is an opportunity"
( "um choque de doutrinas não é um desastre,
é uma oportunidade".)
Chaim - É preciso chocar as doutrinas, o que não
implica em chocar os "doutrinadores". Sou pelo parcial,
como afirma Freud dos Três Ensaios.
Jansy - R. Steiner, no livro "A Linguagem do Silêncio",
considerou que a própria língua alemã teria
sido marcada de forma indelével pela violência do nazismo.
Para ele, não seria possível mais ler-se Goethe ou
Novalis ou qualquer escritor alemão, do passado ou do presente,
apagando-se as deformações e as manchas deixadas pela
fala dos seguidores de Hitler. Em retrospecto( après coup
), nenhuma leitura neutra ou ingênua seria mais possível.
Entendo que o argumento de Chaim siga por este mesmo caminho. E
com ele, até certo ponto, concordo. O que me intriga, no
entanto, é que desconheço qualquer período
na história da Humanidade no qual não tenha havido
violência e coerção de um povo sobre outro em
alguma parte. E a psicanálise continua sendo praticada, seja
na Argentina, no Brasil ou no Chile das velhas ditaduras, assim
como em vários outros países da atualidade nos quais
alguma forma de tirania ainda se impõe. Embora não
acredite que a Psicanálise, como o queria Bion por exemplo,
exista como uma Verdade Absoluta, como uma "coisa em si",
penso que ela continuará operante mesmo nos regimes autoritários.
Isto se daria exatamente porque, quando não a entendemos
como um "universal", temos que considerar que não
trabalhamos apenas com uma teoria ou com uma abstração
( "a Psicanálise", com letra maiúscula ),
mas com o inconsciente, o nosso e o do nosso analisando, sempre
passado e sempre atual e que traz em si as dores, as fraquezas e
as forças daquela cultura. Como melhor situar os argumentos
de que precisamos fazer um re-exame do " que são virtualidades,
possíveis e realidades em Psicanálise" e, ainda,
como se dão estas "denegações permanentes"
? Talvez seja possível ouvir mais?
Chaim - Do modo como a Psicanálise se constituiu, Jansy,
há virtualidades psicanalíticas que são de
seu campo permanente. O que é possível, torna-se,
ou não, dependendo de circunstâncias; enquanto o virtual
tende para a atualização. O virtual sai do campo dos
fatos e devém como acontecimento, afirma-se. Assim é
que podemos dizer que o cerne maior da Psicanálise, o que
nela insiste sempre e o que a diferencia de outros campos, é
sua teoria. Pois é exatamente aí que a Psicanálise
se questiona e virtualiza. Mas esta atualização é,
ao mesmo tempo, uma recusa do presente enquanto verdade, aquilo
que deve ser atualizado. Desconheço o livro de Steiner, mas
as afirmativas (dele) que propões me parecem demasiado redutoras.
Pois, senão, qualquer possível seria o real e a língua
alemã seria, para sempre, nazista!! Para nosso tema, de saída,
a Psicanálise (enquanto saber, escrevo com p maiúsculo)
já não é alemã desde o acontecimento
virtualizado de Jones, que a transformou em inglesa. E no Brasil,
ao menos aqui no Rio de Janeiro, sem francês dificilmente
se sabe a psicanálise contemporânea.
Pensemos, por exemplo, que nesta época de instabilidade
de emprego e profissões, outros acontecimentos chamam a Psicanálise
para se virtualizar em atendimentos clínicos diferenciados.
E a teoria analítica não sai intacta disto. Assim,
a análise acerca das virtualidades psicanalíticas
deve ser fina e parcial, com todas as desvantagens que isto traz.
Sabemos o que aconteceu com a psicanálise nazista. Schultz-Hencke,
seu maior nome teórico, criou o que chamamos hoje de neo-psicanálise,
onde postulou que as neuroses são restrições
do inconsciente, inibições e não sintomas inconscientes.
Pois bem, desde que tal teorização é aceita
pela maioria da DPG, mesmo depois do período nazista, os
psicanalistas alemães conseguem que a previdência social
pague sessões de análise para os segurados, confiantes
na teoria psicanalítica que informa tal prática. Estamos
no campo efetivo dos acontecimentos e não num nazismo generalizado
da língua alemã. E em nada nos ajuda se o denegamos
permanentemente como não-psicanalítico.
Daniel Kupermann - Chaim, me parece que as questões colocadas
por você dizem menos do questionamento (histórico?)
sobre a possibilidade de a psicanálise poder ser operante
ou não em um regime autoritário do que à possibilidade
concreta de uma psicanálise na nossa contemporaneidade (sob
que regime vivemos, aliás?): ou seja, se é possível
amparar-se em algum "modelo" proposto anteriormente que
pretenda refletir a "verdade" da teoria freudiana para
praticá-la hoje, ou não; se é suficiente o
compromisso do psicanalista às instâncias ordenadoras
mais amplas de referência teórico-clínica para
garantir a experiência do inconsciente; ou se é preciso,
a partir do enfrentamento das resistências internas ao campo
psicanalítico (e das suas próprias totalizações
autoritárias) afinar a escuta para os novos encontros produtivos.
Se é assim, essas questões me remetem ao seu último
livro, "O Coração Distante - ensaio sobre a solidão
positiva" (RJ, Revan, 1996), no qual a"solidão"
aparece como uma experiência alteritária e de estranheza
em relação ao solidamente instituído. Você
vê alguma relação entre a experiência
da "solidão" e uma "metapsicologia do analista"
capaz de afirmar a clínica psicanalítica na crise
atual? E, em relação às instituições
psicanalíticas, como suportar e (deixar) viver a "solidão",
mantendo um intercâmbio produtivo?
Chaim - A pergunta do Daniel Kupermann já envolve algumas
das considerações que eu poderia fazer. Aproveito
sua colocação para pensar que o estar-com (mitsein,
mitleben) não elimina o desejo e a expressão positivos
de solidão. É a isto que chamei, talvez de modo insatisfatório,
de independência psicanalítica. Por aí também
passa o contato positivo com outros grupos de psicanalistas, pela
afirmação de diferenças por relação
ao nosso campo. Por isto a importância de um diálogo
múltiplo como este nosso falar. Quando derivamos a metapsicologia
do psicanalista de uma concepção metapsicológica
geral, ela perde sua virtualização específica.
Algém repete, indefinidamente, que só há Psicanálise
desde a teoria analítica. Exibição de poder
e suposto saber, que as épocas de crise recusam. O olhar
(theorein) é necessário, mas não suficiente,
não constrói psicanálise, advertiu Freud. O
psicanalista clínico é homem da diferença,
nos seus vários regimes de produção, especialmente
organizando inconsciente, transferência, resistência.
E virtualidades psicanalíticas, acrescento.
Preparo pequeno texto, "Sobre a solidão do psicanalista:
notas metapsicológicas". Assim, preferindo ainda não
desdobrar as questões, indico parcialmente: 1)- solidão
do psicanalista: há que travar contato com o outro do analisando,
algum outro que narra, mas não o faz no regime de representações/
conteúdos/ significantes de sua narrativa. Penso, apenas
como hipótese, que ainda preciso desdobrar, do que podemos
evitar ocupando-nos e deixando-nos ocupar de solidão (ou
seja, hipótese no registro do que não se pode fazer):
a)- que o eu do psicanalista persiga a narrativa, onde, quase sempre,
ocupamos o lugar do supereu; b)- indicar algum lugar teórico
que o analisando deveria ocupar (você quer me destruir, como
o fez com seus pais) ou apontar suas resistências pela "incompreensão";
c)- indicar outras vias, a fim de mudar o destino da análise
e fazer com que o analisando saia do imaginário.
2) - daí a importância de fundar a solidão
do psicanalista, que é, assim, um positivo e uma ausência
transferencialmente estabelecida, pois o analisando fala para um
lugar que também não o escuta. Ou seja, desde a solidão
do psicanalista, o que não se ocupa apenas da "atenção
igualmente flutuante" para construir mas para repetir. Desenvolvo
este lugar como um dos emergentes do trauma necessário, o
que nos inscreve no humanamente possível. Li recentemente,
num pequeno comentário sobre Lévinas, que a alteridade
também se estabelece como aquilo que é obstáculo,
o que se opõe e é preciso afastar e suprimir.
3) - porque, se é necessário, o lugar construtivo
do psicanalista, daquele que sabe, também é preciso
um lugar - a ser criado transferencialmente - para o que não
pode nem poderá ser sabido, mas com-vivido, mit-gelebt ou,
como se pode falar desde Ferenczi, mit-gefühlt. Observo que
não se trata, de modo algum, de um encontro inter-subjetivo,
mas de regimes a-subjetivados ou extra-subjetivos. E isto também
deve ser escutado, apesar de alguns o pensarem sempre como um negativo.
Daí a importância de se meditar e elaborar a respeito
da solidão efetiva do psicanalista (wirkliche Einsamkeit,
termo que não existe em Freud, mas que fica "existindo"
doravante), dissimétrica daquela do analisando e que não
encontra um campo solitário comum aos dois. Como indicação
é o que posso propor.
Helena Vianna - Penso que está havendo uma certa confusão
entre Psicanálise (corpo de teoria inaugurado por Freud)
e instituição psicanalítica. Penso, como já
disse Hélio Pellegrino, que a instituição é
um mal necessário. O problema é quando se torna um
Mal-mais-do-que-necessário, seja através de seus líderes
investidos do que Santner já denominou de "investidura
simbólica" que contamina malèficamente toda a
instituição, ou através do poder atrabiliário
utilizado por analistas com seus analisandos. Em ambos os casos,
tanto em tempos de tirania, ou democracia, internos ou externos,
melhorar a instituição implica em nomear os responsáveis
para que as infrações não caiam no abstrato
( instituição ), ou na banalização (somos
todos culpados). Enfim, vamos decidir o que discutir: psicanálise
ou instituição psicanalítica.
Chaim - Não se trata de confusão, ou de procurar
culpados, mas de concepções diferenciadas. A teoria
psicanalítica é uma instituição. Nietzsche
nos ensinou, ao menos a mim, que todo saber tem uma potência
articulada, instituída, e que uma produção
de pensamento virtualiza vários campos possíveis.
Isto é, não se trata de aceitar uma certa teoria platônica
de que o mundo do pensamento se sustenta em idéias essenciais.
Discussões como esta já são tradicionais em
Psicanálise. Tomemos o exemplo de José Bleger, importante
psicanalista argentino e dirigente da IPA, que distinguia entre
quadros e processos em Psicanálise. O quadro corresponde
à "parte" (linguagem dele, de emergência
kleiniana) fixa do tratamento analítico: a sala com seus
adornos e enfeites, o divã, horários e duração,
preços, número de sessões etc. O processo é
a parte variável, aquilo que "avança", que
se desdobra no encontro psicanalítico, como as falas, interpretações,
resistências, transferências etc. Porém, observe-se
que isto também eqüivale a declarar que os que não
cumprem com a parte fixa (os quadros) não podem entrar em
análise. Mas foi exatamente por desacreditar em teorias como
a de Bleger, que Hélio Pellegrino foi um dos fundadores da
Clínica Social de Psicanálise, criando outros quadros
(frames), subjetividades diferenciadas psicanaliticamente, processando-os
diferenciadamente. Na história da Psicanálise, Freud
ergueu o mito da "splendid isolation", que ele teria cumprido
para criar o nosso campo. Ora, sabe-se que Freud não pôde
ser professor da Universidade de Viena, por causa do numerus clausus
e logo que conseguiu ter em torno de si um pequeno grupo, em 1902,
declarou-se associado. Bem como os que conhecemos sua longa batalha
para que a Psicanálise não se tornasse uma "ciência
judaica", aprendemos a importância que deu à instituição
universalizante da Psicanálise, transbordando um suposto
modelo de sábia verdade para uns poucos. Penso em dois exemplos,
a serem elaborados. Um, é que Freud conhece a idéia
de pulsão de morte desde Sabina Spielrein, na sua conferência
na Sociedade psicológica das quartas-feiras, mas ele a institui
em nosso campo teórico sete anos depois, desde que observou
que os analisandos não se modificam psiquicamente através
da chamada análise das resistências. A instituição
da segunda tópica passa também pelo desejo freudiano
de transformações psíquicas dos analisandos.
E isto não se elabora apenas no regime teórico. Outro
exemplo: deve-se pensar que formação e transmissão
psicanalíticas - constituintes necessárias de qualquer
legalidade psicanalítica - são instituídas,
de modos distintos e vários. Não existe teoria que
saiba ou possa unificá-las, são sempre marcadas por
interesses e poderes, instituídos. Sabemos que o Instituto
(olha o significante) Psicanalítico de Berlim e sua análise
didática (Lehranalyse) só se explicam se consideramos
o desejo de instituir uma psicanálise normativa, dotada de
um centro forte e coeso acerca do que é "fazer análise"
e tornar-se psicanalista. Lembro que Elliott Jaques, psicanalista
kleiniano, ensinou que as instituições, os sistemas
sociais, são "uma defesa contra a ansiedade persecutória
e depressiva". Para um exemplo local e próximo, sabemos
que a Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro
apoiou incisivamente a tese de que apenas diplomados em Medicina
poderiam fazer formação e que esta só se validaria
através da IPA. E enviou uma circular aos seus membros mandando
interpretar os psicólogos em análise que quisessem
fazer formação como resistentes. Em qual teoria psicanalítica
isto se sustenta, apesar de ter normatizado a Psicanálise
no modo médico? Quem ainda afirma esta idéia em 1998?
Porém, mais importante, como separar, mesmo neste pequeno
caso clínico, "psicanálise" de instituição
psicanalítica", quando a formação e a
teoria psicanalíticas se encaminharam medicalmente?
Sternick - Chaim, você deve saber, o Bleger na década
de 60/70 também ditava "palavras-de-ordem" - homem
de "esquerda" que era - de que se deveria re-orientar
a demanda dos psicólogos que desejavam ser psicanalistas
no sentido de trabalharem em saúde mental, assistencialismo,
etc. Por outro lado, a Brasileira acabou aceitando os psicólogos
para formação analítica no início da
década de 80 para não perder o mercado emergente que
surgia para seus "didatas". Ficou com mais de 400 membros.
E uma das fortes razões que levaram posteriormente a IPA
a intervir lá encerrando com a reforma que concedia habilitação
didática a quem tivesse cinco anos de formado pode ter sido
o receio do peso dos votos de seus membros a nível internacional.
Chaim - Até hoje os psicanalistas argentinos exilados acham
que os psicanalistas são "trabalhadores da saúde
mental", o que não se faz sem uma afirmação
teórica rígida desde um centro verdadeiro, dos que
sabem de verdade.
Sternick - Chaim, se é verdade, como se diz, que a "instituição
é um mal necessário", qual ideologia se responsabiliza
pela postura de que a reflexão crítica sobre esse
"mal" é um "bem" dispensável?
De outra maneira, será que a teoria psicanalítica
pode ser manipulada por qualquer ideologia como instrumento contra
adversários éticos ou de opinião? Já
imaginaram, nazistas no poder interpretando seus oponentes como
portadores de distúrbios edípicos contra a autoridade
instituída, ou, se assim desejarem os kleinianos, de uma
profunda inveja contra os "winners"?
Chaim - Para livre pensar é só pensar, dizia o anarquista
Millôr Fernandes. Acho a noção de manipulação
muito pobre, pois remete ao caráter consciente, o que restringe
muito o humano (com o já demonstrou um vienense, Herr Freud).
A pulsão de destruição não se reduz
ao simbólico construtivo e explicativo, já o aprendemos
com Melanie Klein. Por sua vez, o filósofo Lévinas
(atenção, em breve será pensador da moda) diz(ia)
que, sendo tomado enquanto contrariedade, o outro deve ser afastado
para que se instale o regime do Ser. Alguma ideologia constrói
tanto assim? Quanto ao Nazismo como ideologia, postulou que os indivíduos
arianos, para se encontrarem na sua plenitude, deveriam reaprender
a falar, pois se encontravam no reino da degenerescência por
causa da mistura das raças. Mais do que a IPA com suas ordens
e regulamentos únicos, repugnam-me as teorias que se acreditam
donas de O Falar da Verdade.
A Brasileira desafiou as regras estatuídas, a fim de não
perder a clientela. Como elaborar, neste e em outros casos, uma
simetria entre Psicanálise e teoria psicanalítica?
Não, a instituição, pensada como organização
social, não é um mal necessário, ela é.
M.Calmon - Chaim, é com muita satisfação que
retomo dialogos tão caros ! Talvez voce se lembre um encontro
que tivemos na "Taurus" onde conversamos sobre a questão
do que se representa em psicanálise e os limites desta possibilidade
(citamos Nietzsche à epoca). Pouco tempo depois te escuto
falar sobre as psicoses e o regime onde elas se dão. Se não
me engano, você contava uma experiência com um bebê
tido como autista - corrija-me se estiver errado. Escutá-lo
me fazia pensar que alguma coisa nova, pelo menos para mim, estava
ali presente. Voce poderia comentar sua experiência com as
psicoses e o modo pelo qual isto toca algo de denegado pelos psicanalistas?
Chaim - Miguel, o caso em questão é de um menino de
nove meses, que chorava permanentemente e de modo insistente. E
que assim se expressou até poder encontrar ruídos
humanos, barulho de gente, que a família lhe recusava para
manter-se "higiênica" e asséptica; aprendendo
a "barulhar" com os outros, reinventou a linguagem dos
murmúrios e entonações . Mas eu o reservo para
um livrinho sobre clínica. De imediato, os psicóticos
de consultório são bem distintos daqueles dos asilos,
pelo recorte que recebem, pela organização social
que se institui em torno deles (mesmo quando seja através
deles que uma família se sintomatiza), a possibilidade de
valorização de suas falas, a tentativa permanente
(mesmo quando equivocada) de inscrevê-los numa rede de comunicação
social etc. São distintos dos loucos isolados e marginalizados
da vida social. De algum modo, os que podem pagar o psicanalista
têm o direito à loucura mais preservado.
Na construção analítica tradicional, loucos
são confundidos com psicóticos, estes são declarados
neuróticos narcísicos e, consequentemente, inanalisáveis
e o esquema de rejeição simbólica se constitui
de modo automático. Quando se consegue sair das teorias tradicionais
que encaram os indivíduos como particulares e se respeitam
as singularidades, muda o modo de inscrição do chamado
psicótico. Questão que não sei responder tão
simplesmente, mas queria indicar uma vertente importante. É
que aprendemos, vigorosamente, é que as denominadas resistências
à cura ou à transferência não se superam
apenas pela introdução ou tradução interpretativa
através de um saber teorético ou factual. Por mais
que os primeiros psicanalistas mostrassem aos seus analisandos de
"onde" e "como" emergiam suas perturbações,
que pensavam ser produtos de representações recalcadas
e afetos reprimidos, não conseguiam a remissão dos
sintomas e do mal-estar. Contudo, observa-se que, como Freud insistiu,
a Psicanálise nasceu enquanto talking cure, o que marca o
campo específico do ato de cura; mas a teoria que a estabelece
é pulsional. Por isto, se a fala é necessária
para a especificidade do campo psicanalítico, ela é
insuficiente como referente único para a cura, pois o que
nos constitui está na convergência de corpos e incorporais,
e não apenas de significantes.
Precisamos nos voltar para as teorias sígnicas da linguagem,
que não excluem os afetos de sua articulação.
As questões que tal direção aponta são
difíceis, na medida em que não têm uma teoria
que as regule, mas mapas, caminhos, que vão se modificando
à medida que se percorrem. Temo, nesta troca de e-mails,
me remeter às minhas próprias experiências,
para não ser demasiado infiel ao que penso fazer.
M. Calmon - Caro Chaim, boas novas então nos esperam? Um
novo "livrinho" clínico? Perdoe-me pela insistência
, mas gostaria de lhe ouvir sobre de que modo ficam nossas teorias
quando nos percebemos, pelo menos interessados em levar ao limite
as consequências da postulação de uma força
que não se representa ( pulsão de morte)? Não
te parece que até hoje este conceito paira tal como um fantasma
sobre as cabeças dos psicanalistas? Esta dimensão
de força, contínua exigência de trabalho, desde
sempre destinada a não se esgotar? Não te parece que
há uma insuperável contradição entre
esta dimensão e a possibilidade de "instituir"?
E ainda mais, de que modo as práticas psicanalíticas
instituem os psicóticos? Gosto muito da maneira com que se
refere a ausência de teorias que regule tais questões
e a importância dos mapas , das pistas que se constróem
e se modificam enquanto se as percorrem. E é nesta medida
que não me parece em nada inapropriado que você se
remeta às suas próprias experiencias.
Chaim - Freud me ensinou que sonhamos também de acordo com
as expectativas de nossas análises. Você já
sonhou mandalas ou animas? Mas pergunta a algum analisando junguiano
se suas imagens oníricas (que a mim interessam tão
pouco) não se remetem a essas semi-teorias. É por
aí que marcham pensamentos acerca dos psicóticos e
suas relações com a loucura e a paixão. Novamente
somos chamados para pensar o "político" da Psicanálise,
o que a faz se dirigir e produzir de um certo modo. Ou seja, se
pensamos nossos "settings" como lugares tranquilos onde
se devem escutar experiências, será difícil
postular atendimentos de psicóticos. Se nos colocamos a escutá-los,
dificilmente poderemos continuar a postular o equilíbrio
das teorias psicanalíticas. De minha parte, por exemplo,
aprendi muito sobre isto com Sandor Férenczi e suas descobertas
tão dolorosas e teoricamente instáveis. Ou seja, as
teorias se apoiam, também e sempre, numa gama de interesses
e relações que não se reduzem aos elementos
homogêneos e equilibrados que sistematizam ... teoricamente.
Jansy - Tenho a impressão de que, finalmente, entendi o
que Chaim disse quando se referiu à denegação
na psicanálise. Ele estaria falando da crise dos consultórios
e do modelo teórico que ainda nos orienta, propondo que possamos
reconhecer que houve uma mudança de paradigma, o que exige
de nós uma atitude nova frente à clínica. Não
admitir este novo paradigma seria o que ele considera a denegação?
Se for esta a proposta, ainda assim fico precisando de mais elementos
para acompanhar a argumentação de Chaim, porque se
hoje não podemos mais praticar a psicanálise como
há dez anos, ou como na época de Freud, ainda assim
há certos "ïnvariantes" da psicanálise
que podem ser identificados e que, mesmo sendo diferentes de um
grupo, ou de uma escola, para outro, ainda assim servem para dar
os limites do que cada um conceitua como sendo a psicanálise.
Será que Chaim acha útil pensarmos nestes invariantes?
Quais ele aceitaria? Percebo, a partir das colocações
de Kupermann e de M.Calmon, que o ponto central das questões
talvez seja mais filosófico do que o nível em que
venho organizando minhas perguntas. Assim sendo, aguardarei mais
perguntas e respostas antes de colocar alguma outra dúvida.
Chaim - Não se trata de admitir ou deixar de admitir novos
paradigmas, pois senão retornamos ao regime consciente de
análise. "Algo" se admite, Etwas drängt sich,
impulsa, e se admite. Tomemos o caso do tempo lógico, "isomorfo
do tempo do inconsciente": seria pensável sem que um
psicanalista fosse chamado a tratar de muitos além do que
o tempo cronológico permite? Quem ainda usa sessões
de 50 minutos, na era dos tempos rápidos? O que sustenta
tal teorização deve ser lido como virtualidade psicanalítica
na era dos micro-computadores... E não como paradigma. Daí,
haja teoria nova para o que foi instituído para a Psicanálise,
queiramos ou não. Ninguém teoriza ou elabora sem invariantes,
a própria linguagem é um conjunto delas. Mas acho
que é necessário fazer suas várias direções,
traçar-lhes um mapa variado, diversificá-las. Ou construir-lhes
matemas, o que não é a minha direção.
Quais invariantes eu aceito? Se conversamos nestas mensagens que
você tão bem provoca (pro-vocare, chamar a si), muitas
há; se o fazemos no regime psicanalítico, temos invariantes,
estabelecidas psicanaliticamente. Que elas possam se encontrar com
elaborações filosóficas, isto é inevitável
e oportuno. Mas a Psicanálise não se move sem a transferência
e aí a clínica psicanalítica tem algo diferenciado
das filosofias.
Querolim - Intrometo-me desde a colocacão do Jansy. Penso,
desde o que pude observar do debate até então, que
é momento de cogitarmos uma radicalidade, o fato da psicanalise
ser o resgate de um modalidade própria de nomadismo. A psicanálise
não se reporta ao que o homem tem, mas ao que o homem está
em posicão de perder - já dizia o poeta que "para
ter há que perder, que é a unica forma de ter do objeto
a sua essencia". Claro que está em foco a castração,
sutil e poética perda, que, de resto empresta sentido à
existência. Creio a Psicanálise como franca crítica
à dimensão do acúmulo como possibilidade do
Ser. Assim a filosofia, desde Hegel, em sua dialetica do senhor
e do escravo, vai nos falar de um momento de superação,
momento diria mesmo de destacamento. Convido Jansy, que lamentàvelmente
ainda não conheco pessoalmente, retorne à discussão.
A filosofia pode nos instrumentar de maneira alvissareira em nossos
embates com o real.
Chaim - Gostaria de conhecer melhor este tal de nomadismo da Psicanálise,
que anuncias. Como conciliá-lo com a castração,
de acordo com a elaboração psicanalítica tradicional?
Hegelianamente, quais seriam as relações entre nomadismo
e castração, termos incompatíveis para uma
dupla antitética? Pensamento nômade: quem o estabelece
na atualidade filosófica é Deleuze. Contudo, acho
difícil conciliar o pensamento deleuziano com Hegel, que
dirá com castração. Mas, admito, talvez me
engane outra vez mais....
Chaim - Temos lido críticas, merecidas, a respeito do transplante
de conceitos de saberes para fora de suas áreas específicas.
Filosofar é um exercício muito próprio, que
deve ser respeitado, tal como o é psicanalisar. ‘ Filosofia
é Filosofia, ou seja, articula-se em torno das questões
acerca do Ser e seu estatuto, na produção de conceitos
e na afirmação de um regime específico de problemas.
Quando Lacan estabelece as questões da intersubjetividade
na Psicanálise, tomando as lições de Kojéve
sobre Hegel, ele as exerce rigorosamente; anos mais tarde, para
estabelecer as questões da ética e do real, aprende
a lição heideggeriana acerca de das Ding e suas diferenças
com die Sachen, mas ele se cuida de, até, citar o mesmo exemplo
de Heidegger no escrito de 1954 ( o vaso). Concorde-se ou não
com o psicanalista francês, ele é rigoroso e respeitador.
Temo que introduzir termos ou regimes filosóficos sem o devido
cuidado é nos tornar alvos dos próximos comentários
de Sokal. Não?
Jansy - Na realidade, prefiro entender que o "Das Ding"
no texto lacaniano possa ser conectado ao que o próprio Freud
escreveu ( e que ele mesmo, Lacan, cita ao contrastá-lo com
o "Nebenmensch " na experiência primeira do bebê,
descrita por Freud no "Projeto" ) e elaborado num segundo
momento, com Heidegger. Mas como aprofundar uma discussão
dessas? Ou mesmo, como insistir que Lacan, por exemplo, teria posteriormente
abandonado aquilo que valorizara ao tratar da "intersubjetividade",
redefinindo o conceito de sujeito ( e o de significante) e, assim,
passando a considerar tal noção como carente de sentido
( afinal,o que há entre dois sujeitos?). Sem discordar de
você, mesmo assim, gostaria de entender o que é que
você chama de "rigor" em Lacan? Como aparece Lacan
no seu ensino? Será que você considera suficiente,
para um psicanalista, referir-se à fonte da citação
filosófica e ir em frente, sem tentar ver de que modo e onde
uma ou outra filosofias podem estar orientando ou alterando seu
instrumental de perceber o mundo? O conceito lacaniano de sintoma,
por exemplo, não permite que se possa desenvolver as idéias
de Lacan considerando-se que se é livre para escolher ou
não um significante para si, ou para determinar quais os
seus invariantes. Considerei muito instigantes suas respostas, fico-lhe
grata pelo prazer que esta conversa pode nos proporcionar. Mas estou
sem graça de ficar insistindo em pequenas perguntas, porque
ainda não encontrei um campo comum para saltar algumas etapas
da conversa. Ignore minhas questões agora, se assim o prefereir.
Por exemplo, quando você fala das virtualidades na psicanálise
para distinguí-las da constituição de novos
paradigmas, fiquei um pouco confusa. Ainda não sei como formular
a questão, mas entendo que você esteja trabalhando
sobre a idéia de um inconsciente próprio à
psicanálise ( uma espécie de universal?) e o distingue
do inconsciente individual. Este inconsciente psicanalítico,
será que ele se aproxima do Grande Outro lacaniano? Estou
começando a me situar na sua fala ou ainda estou muito distante
do que você está observando?
Chaim - Trata-se, Jansy, de uma discussão muito longa, mas
posso indicar que, ou se está no reino do "Nebenmensch",
ou no de "das Ding". Nebenmensch é freudiano, mostra
que a erogeneização se faz entre corpo e incorporal,
resulta numa alucinação que se impõe à
repetição: é preciso um encontro para produzir
o regime psíquico. Enquanto das Ding é prévio
aos encontros, pré-existe à emergência do psiquismo,
que nasce para ser capturado por esta Alteridade absoluta. Das Ding
propõe invariantes universais, como ensinou o criador do
termo, Heidegger. É por aí que você pode ter
uma indicação sobre como vejo o conceito lacaniano
de sintoma, formação inconsciente estruturada. Ora,
no limite é difícil fazer a confrontação
das duas posições. Por exemplo, elas remetem a distintas
noções de memórias inconscientes e sobre o
que são as psicoses. Quanto a Lacan, seu rigor é que
ele exaure as conseqüências de suas posições
por respeito ao que apreende na Filosofia. Não se trata,
para ele, de tomar uma ou outra idéia importante de algum
pensador importante, mas de elaborar questões filosóficas
no campo psicanalítico que ele constrói. Temo que
fora disto a Filosofia termine como um cabide, onde se penduram
todas as roupagens e, especialmente, as variadas desculpas para
o que não sabemos responder. Além disto, concordando
ou não, há muito que aprender com Lacan, não?
Penso que estamos bem mais próximos, agora.
Sternick - Chaim, compartilho com você da admiração
pelo filósofo Emmanuel Lévinas, embora certamente
eu o frequente bem menos vezes: li, "apenas", "Totalidade
e Infinito" e "Entre nós". Neste último,
há um capítulo relativo ao sofrimento inútil,
sobre o qual há alguns meses me debrucei um pouco mais, quando
pensava em escrever um livro sobre "a invenção
do sofrimento" (suspendi quando descobri que iria inventar
naquele momento um sofrimento para mim, mas já tinha me adiantado
em Schopenhauer, na Bíblia, em Freud, enfim...) Pois bem,
voltando a Lévinas, há um momento crucial do artigo
dele sobre o sofrimento inútil, quando ele invoca a destruição
de todo o equilíbrio de uma visão do mundo do pensamento
ocidental que podia dar um sentido ao sofrimento - função
de purificação espiritual , crescimento, preço
da razão, formação do caráter, etc.,
algo que até a psicanálise integrou com a idéia
da inevitabilidade do sofrimento no crescimento da personalidade.
Ou do sentido do sofrimento (referência à falta original
ou à finitude congênita do ser humano)...Em suma, as
formas que o sofrimento adquiriu neste século que conheceu
duas guerras mundiais, os totalitarismos de direita e de esquerda,
Hiroshima, nazismo, sofrimento e mal impostos de maneira deliberada...O
holocausto do povo judeu para Lévinas é o paradigma
do sofrimento humano gratuito, revelando de maneira claramente ofuscadora
a desproporção entre o sofrimento e toda a teodicéia,
decretando mesmo o seu fim. Em suma , eu entendi que toda a teoria
que dava sentido ao sofrimento desmoronou-se e desmoralizou-se com
o absurdo do mal e do sofrimento inútil imposto neste século
especialmente em escala nunca observada na Humanidade. Para nós,
psicanalistas, isto remete evidentemente às questões
da pulsão de morte, e especificamente, ao problema do sadismo
e do masoquismo. Eu estaria algo propenso a dar uma ênfase
ao masoquismo primário, e levantar a questão de se
toda a indiferença social ao sofrimento humano não
estaria associada também à denegação
do masoquismo individual. E fico perplexo em pensar nos usos sociais
e políticos de tudo isso, por exemplo, no uso social e político
do masoquismo, tanto quanto, em nosso próprio meio analítico,
no da transferência, aliás, assunto tão lucidamente
tratado pelo Daniel Kupermann no livro dele. Eu gosto muito do conceito
marxista de "mais-valia", e, sem pudor, já me referi
duas vezes à "mais-transferência", que é
a exploração e desvirtuamento, por parte do psicanalista
e da instituição, dessa virtualidade psíquico-emocional
para além do éticamente necessário para sua
elucidação... E lendo Lévinas, vi que a nível
social, a exploração política e social do masoquismo
humano deveria ser preocupação ética fundamental...
Chaim - Paulo, quero que me ajude a pensar como seria uma construção
contínua e permanente do humano, algo que apenas se dirigisse
a um alvo maior prévio. Pois aprendi que a noção
freudiana de pulsão de morte se estabelece no regime de descontinuidades
e rupturas. E que, assim, o sofrimento inútil escaparia do
regime da intencionalidade, sendo uma resultante da produção
psíquica humana-inumana, a impossibilidade de atingir um
alvo (Ziel) determinado. Quem sabe podemos verificar isto nas diferenças
entre as concepções freudianas da primeira tópica,
onde o psiquismo e os sintomas parecem determinados, e da segunda
tópica, onde o psiquismo se apresenta múltiplo. Temo
que categorias como masoquismo e sadismo, quando tomadas para situações
dispersadas (holocausto, Hiroshima, totalitarismos, transferência,
sofrimentos etc.), talvez não nos ajudem demasiado. Mas acho
interessante pensar, no regime filosófico, que "a humanidade"
está votada para o sofrimento, útil mesmo quando fora
dos parâmetros de nossa idealização. Ou seja,
convoco todos a pensar se o que o próprio Levinas nos propõe,
de que o Outro é primeiro um obstáculo a ser removido.
Lembro que nos habituamos em demasia a pensar as primeiras relações
de objeto como protetoras, enquanto tivemos que aprender que elas
imporão, rapidamente, uma diferença entre ternura
e paixão (Ferenczi), estabelecida signicamente na linguagem.
Que o encontro do adulto sedutor e do infans seduzido é sempre
traumático para a emergência do "eu". Mas
que tais dores e sofrimentos dos encontros dissimétricos
são necessários para a humanização (tal
como estabelecida por Freud). Contudo, acho que esta discussão
deve ser melhorada, pelo menos eu não consegui um "gancho"
mais adequado para me expressar.
Jansy - Não li Lévinas extensamente ( apenas "Totalidade
e Infinito" e algumas reportagens de jornal que me mandaram
de Paris) e me surpreendi com o que me pareceu ser nele uma proposta
paradoxal de estabelecer uma "ontologia sem ser, uma teologia
sem deus" ( foi assim que o defini ). Achei interessante o
Paulo Sternick destacar a dimensão na qual ele trata do sofrimento
humano, num resumo tão feliz e elucidativo. No entanto, acho
que a crueldade humana poderia ser melhor entendida, entre os psicanalistas,
se a estudássemos indo além da perspectiva "individual"
da pulsão de morte e do masoquismo. Talvez devessemos tentar
algo como Bion propôs, quando ele se deteve no proto-mental
e nos grupos de suposto-básico. Há movimentos emocionais
que considero serem apenas decorrentes do funcionamento do indivíduo
em um grupo, algo estimulado pela pertencença ao social.
Não sei se Lévinas, trabalhando sobre o enfrentamento,
o confronto, o "rosto" ( a nossa "fronte") incluiu
essa dimensão psicótica denunciada por Bion como outro
fator inevitável da experiência humana. Falta-me leitura
bastante...Assim, arrisco perguntar: será que grande parte
dos horrores praticados pelo homem com o homem não será
decorrente dos movimentos grupais ( do protomental), mais do que
das varias posições adotadas por cada um no jogo masoquismo-sadismo?
Sternick disse que, lendo Lévinas, viu que "ao nível
social, a exploração política e social do masoquismo
humano deveria ser a preocupaçào ética fundamental..."
e por isso perguntaria a qual grupo você se refere, ou melhor,
esta preocupaçào ética fundamental deveria
ser de quem? A vantagem de um debate é a de podermos dizer
coisas que ainda estão em aberto, não muito elaboradas
por nós e de sermos acolhidos e respeitados por isto. São
momentos de possível criação e de grande vulnerabilidade,
mas é isto mesmo que mantém em movimento uma discussão
genuína. É neste sentido que lhe fico muito grata,
Paulo, pela idéia não apenas deste debate, ou do espaço
novo que você garante para este tipo de trocas. Fico-lhe grata,
mais ainda, pela sua dedicação e pela pertinencia
das suas intervenções. Estou acrescentando isto porque
nestes debates, sem "Rosto", como o estamos praticando,
ainda é possível detectarmos, se o tentarmos, algumas
táticas de comportamento em grupo que seriam, talvez, diferentes
se estivéssemos apenas escrevendo uma monografia para uma
platéia imaginária. Será que vale a pena olharmos
nesta direção? Uma autora americana (depois lembro-me
do nome dela) escreveu que "um diálogo é sempre
um monólogo com uma testemunha". Tenho mais esperanças
do que ela! Aposto na possibilidade de se escapar ao solipsimo.
Como, ao que tudo o indica, você também aposta.
Sternick - Concordo com as ponderações da Jansy, e
de maneira nenhuma pretendia reduzir a questão ao jogo do
masoquismo-sadismo, mas apenas levantar um pensamento que me ocorreu
e jogar a bola para o debate. Quanto a qual grupo caberia a preocupação,
acho que a todos que se interessam de alguma maneira em não
se interessar apenas por si mesmos, dando sua cota de contribuição
para a dignidade humana...
Jansy - Fiquei muito contente, Chaim, com o início do estabelecimento
de uma base comum para nossa discussão. Coincidentemente,
comecei a ler um livro que andava esquecido na minha prateleira,
chamado "De Arquimedes a Einstein", de Pierre Thuillier,
editado pela Zahar, 1994. O autor propõe que se vem fazendo
uma popularização torta das teorias einsteinianas.
Por exemplo, o próprio Einstein deixou de nomear sua teoria
mais famosa de "teoria da relatividade". Para ele, esta
passou a ser denominada de "teoria do invariante". Segundo
Minkovski ( citado no livro) o melhor termo seria "teoria do
Absoluto". Por quê introduzi isto agora? Porque ouço
você já por duas vezes fazer referência ( ou
numa delas fui eu, mas estimulada por você?) aos "invariantes"
e, ainda, à uma dimensão do absoluto. "Das Ding
propõe invariantes universais", na sua frase. O que
Einstein propunha como relativos eram o espaço e o tempo,
mas a sua estrutura seria invariante, ou melhor, co-variante ( que
foi um dos outros termos pelos quais ele substituiu o nome mais
conhecido da teoria da relatividade, ou seja, "teoria da co-variancia"
em que, quando algo muda num lugar, há uma variação
simétrica em outro). Quando li esta notícia sobre
Einstein, entendi que ele, de uma maneira ou outra, estaria reconhecendo
o que Lacan designou por Falo. Foi quando soube, ainda, que Einstein
se recusara a falar até mais ou menos ter quatro anos e que
sempre teve dificuldades com a linguagem "verbal"....
Sternick - Einstein morreu ainda na ilusão de poder chegar
à realidade objetiva: "Ainda acredito na possibilidade
de se produzir um modelo da realidade que represente os próprios
eventos, e não a mera probabilidade de sua ocorrência".
Por acaso, não nos lembramos de nossos colegas?? De todo
jeito, indico a biografia de Abraham Pais, "Subtle is the Lord..."
Chaim - Invariante: o que não varia, mas que põe
um sistema a se ordenar em torno dela. Na psicanálise estrutural,
uma só invariante, o Falo/Falta, possibilidade do re-conhecimento
dos assujeitados na linguagem. Co-variância? Vamos ver, com
pequena citação, minha:
"É preciso ler Lacan lacaniamente, remetendo-nos também
às suas outras fontes e não como uma novíssima
e definitiva interpretação contemporânea sobre
Freud. Queria dizer assim abertamente, diferente dos meus colegas
que fingem ler Freud, lendo Lacan. Vamos tentar ler diferentemente
Lacan, indicando o modo como ele pensa e se manifesta. E, para nosso
tema, o que ele segue, tomando o texto e certas idéias heideggerianas,
é uma busca da fundação do pensamento originário,
lugar (das Ort) onde o homem pode emergir como pastor da Linguagem
e onde a Linguagem se manifesta através do Homem. Assim,
só é humano -assujeitado, diz Lacan- quem se faz desde
tal lugar originário, está voltado para ele, a Linguagem
desde sua articulação simbólica. O que, como
se sabe, para o que interessa aqui, tira os psicóticos da
possibilidade de se assujeitarem, pois eles teimam em não
falar ou se deixar falar desde tal pensamento originário,
fundador do encontro do humano com a linguagem.
Vejamos, então, Heidegger. Além do texto sobre "das
Ding", temos a famosa carta onde Heidegger responde a Beaufret
acerca de "como voltar a dar sentido à palavra ‘Humanismo’".
Em "das Ding", a primeira crítica de Heidegger
é à imediaticidade e à evidência (Selbstverständlichkeit)
bem como às hermenêuticas ônticas (p. 214). A
evidência diz em alemão o auto-compreensível,
o que se apresentaria imediatamente à experiência.
Ora, para Heidegger, o auto-compreensível se confunde com
o sensorial, que é imediato, o que limitaria o Pensamento.
Antes mesmo de seguir, verifica-se que isto coloca questões
para todos os psicanalistas, desde que as pulsões são
auto-evidentes, mas não sensoriais, no modo de um certo empirismo,
ou racionais, no regime da compreensão, mas porque elas obrigam
os indivíduos a sentí-las e expressá-las: nenhum
humano escapa de "suas" pulsões. [Para Heidegger]
qualquer que seja o ‘objeto’ investigado, a verdade
tem uma essência. O senso comum usa ‘a evidência
de suas pretensões e críticas’, para dizer o
que é verdade. Mas o senso comum é tudo (‘experiência
de vida, a ação, a pesquisa científica, a criação
artística, a fe’) que não for fundado desde
o Pensamento originário (ou essencial). Assim, a Verdade
existe, e pode ser encontrada, mas sòmente desde sua essência.
Neste primado do pensar, se coloca o pensador num lugar muito diferente.
Mas ele será, assim posto, o único guardião
da Verdade, o que deve observar com que ela seja mantida e afirmada.
Pois, seu lugar originário é anterior a qualquer expressão.
Como Heidegger ensina: "... só pode ser con-sumado o
que já é. Ora, o que é, antes de tudo, é
o Ser. O pensamento con-suma a referência do Ser à
essência do homem... Essa restituição consiste
em que, no pensamento, o Ser se torna linguagem. A linguagem é
a casa do Ser... O pensamento age quando pensa" (Heidegger
1967, pp. 24/5, grifos do autor).
Posto isto (onde se reconhece a postulação lacaniana
de que os sujeitos dependem do Outro para sua constituição),
Heidegger mostra que os sensíveis e as experiências
empíricas só se fundam desde o Pensamento originário
ou essencial. Diferenças existem, mas apenas no nível
do pensar, e o Pensamento se faz unicamente pela linguagem. Porém,
esta linguagem não é a de qualquer um: efetivamente,
essa casa só é habitada pelos que conhecem a essência
do Ser, os que aprenderam que ele se velou na sua realização
histórica e que através de uma linguagem determinada
são seus guardiães: "die Denkenden und Dichtenden
sind die Wächter dieser Behausung". Isto é, não
é qualquer um que pensa e fala desde o originário,
e é só desde o originário que se pode falar
adequadamente. E "por isto, a História do pensamento
é uma tarefa exclusiva de pensadores". Mais ainda, são
os chamados pensadores que têm a tarefa originária
de determinar quem são os verdadeiros guardiães desta
Morada que fundamenta o Homem.
Portanto, o percorrimento dos pensamentos dos verdadeiros pensadores,
suas manifestações só existem enquanto Verdade
desde o Ser, bem como de uma interpretação adequada
desde os pensadores originários (os gregos pré-socráticos)
e alguns poucos poetas e pensadores hodiernos. Se a linguagem é
a casa da Verdade do Ser, o humanismo "é curar e cuidar
que o homem seja humano e não inumano, isto é, estranho
à sua essência" (p. 34, meu grifo). E essa essência
está unicamente na linguagem originária, que só
pode ser desvelada pela estrutura que reconhece o Dasein, o estar-aí,
pois só o estar-aí é ec-sistente: "o homem
é o pastor do Ser" (p. 51).
Portanto, qualquer humanismo que não se refira à
essência do que funda o homem (sua ec-sistência, pois
a existência do homem se marca pelo Ser, ao qual o homem é
"exterior") é metafísico. As experiências
particulares não referidas à constituição
do Ser são esforços inúteis para alcançar
a Verdade. Dirá Heidegger que a "Metafísica representa
o ente em seu ser e pensa assim o ser do ente" (p. 39). Mas
que a Metafísica nunca questiona o Ser em si mesmo, como
Verdade, pois sua prioridade é questionar uma essência
qualquer do homem e não sua essência universal, o que
é a tarefa do Pensamento originário: "chamo universal
do homem o estar na clareira do Ser" (p. 41). Pois "o
homem não é o amo e senhor do ente. O homem é
o pastor do Ser" (p. 68) e o pensamento que merece este nome
só pode se construir na casa do Ser.
Como último ponto desta carta a Beaufret, diz Heidegger
que o homem é "chamado" ao Ser, esta é sua
destinação (das Geschick): "como ec-sistente
ele tem que guardar a Verdade do Ser" (p. 51). Se o homem não
se dá conta do que lhe é universal, ele pensa unicamente
os entes, e seu pensamento e suas ações decaem: "a
essência do homem só se descobre na essência
do Ser" (p. 55). Lembra-nos como, para uma certa psicanálise,
o homem é "chamado" pelo complexo paterno ou pelo
Outro, e tem que se haver com ele; quer para realizá-lo e
se tornar assujeitado, quer para falhar. Para Heidegger, o homem
existe, mas ele consiste no seu reconhecimento enquanto aquele que
mora no Ser enquanto linguagem, como dasein. O resto, diria Lacan
apoiando-se nesta teorização, é que o homem
neurótico se funda através de um Imaginário,
pensando que ele tem em si próprio as possibilidades de seu
fundamento, enquanto a psicanálise ontológica lacaniana
mostraria que o homem recebe a linguagem do Outro, ele não
a funda, só a repete, se assujeita a ela. O imaginário
seria assim uma instância secundária e mimética,
pensando-se criadora de si própria e de suas expressões.
Enquanto na Verdade, o imaginário não saberia nem
onde está, pois não se refere à Linguagem que
o fundamenta, o Outro. Para os psicanalistas inicia-se aqui uma
grave questão, pois as pulsões não só
não obedecem a, não se determinam desde algum topos
unitário do Ser que as fundasse em sua multiplicidade e dispersão,
como elas não são humanas. O inumano por excelência,
as pulsões estão/são no/o homem, sem escutar
algum suposto Pensamento originário, mas obrigando o pensamento.
Elas se inscrevem às vezes na ordem desejante - através
daquilo que Freud chamou de representantes ideativos - mas nem sempre.
Heidegger afirmava, vigorosamente, que só o homem é
dasein, está-aí, existe. Pois o ser só se revela
se desvelando no modo da existência, que é peculiar
ao homem. E por isto outras categorias de ser, como os animais por
exemplo, não teriam existência. O que, como estamos
marcando vagarosamente, mas com rigor, é incompatível
com as principais teses da psicanálise freudiana". Fim
de citação. Desculpo-me pelo excesso, mas atendo ao
chamado, à pro-vocação.
Jansy - Fiquei entusiasmada com sua longa e detalhada resposta
a minha pro-vocação. Creio que você conseguiu
abraçar a questão do modo mais amplo possível
e, neste sentido, creio que você foi, até mesmo, sintético.
Mas, bem rapidinho, ainda pergunto: como você concilia Lacan
com o Humanismo: é por causa da leitura que você faz
de Heidegger? Como entender o que você designou de "Lacan
ontológico" ( ou melhor, de uma "psicanálise
ontológica lacaniana", uma proposta totalmente nova
para mim )?
Chaim - Não concilio Lacan com humanismo e acho que nem
é preciso. Talvez nos seus primeiros enunciados, ligados
à constituição da intersubjetividade...Lacan
ontológico: a partir de seu pensamento no seminário
VII, postulando questões postas em regime ontológico
similar ao de Heidegger.
Jansy - Chaim, tenho tentado me afastar do campo filosófico,
onde não me sinto a vontade. Mesmo assim, em todo meu desconhecimento,
ainda me causa estranheza supor um "Lacan ontológico",
ou "humanista", quando uma citação do Hegel,
por ele feita já no seminário Um, representasse o
que fui encontrando, com significativa constância, como uma
forma própria de aproximar filosofia e psicanálise.
A frase: "o ser é um fato do dito " me permitiu
supor que qualquer conceito psicanalítico construído
a partir de uma visada como esta desembocasse, exclusivamente, nas
questões ligadas ao dizer e ao dito e que "ser",
"corpo", "natureza" ( enfim, a "realidade")
fossem trabalhadas a partir de um registro próprio, como
o que ele demarcou como sendo o do Imaginário. Assim, tentando
uma mudança de abordagem, e retomando um ponto que você
esboçou no começo da entrevista, gostaria de saber
como você trabalha o "setting" psicanalítico.
Recordo que, em um dos seus comentários, você criticou
brevemente a padronização feita pela IPA ( quatro
sessões de cinquenta minutos por semana e uso obrigatório
do divã), sem condenar que alguma padronização
existisse. Particularmente, como você vê o uso do divã
ou o ritmo das sessões de psicanálise?
Chaim - Revendo intervenção anterior, esta é
a perspectiva de Lacan, o dito estruturado desde o Ser. Não
aquela que ensaiei no pequeno texto de ante-ontem. O ser é
um ato do dito, ok. Mas, como procurei apontar no texto que enviei,
o dito só é dito quando se estatui desde o Ser, é
isto a ontologia, a busca da fala plena desde o que a "estrutura".
Queres que eu continue? Sobre a técnica, Freud atendia em
até 6 vezes, quando lemos seus atendimentos, e não
suas indicações. Bom, como fazê-lo hoje, com
o tempo elaborado pela velocidade industrial? A verdade, cara colega
de questões, não é atemporal, mesmo que ela
não se faça sem o tempo que independe do "socius".
Então, devemos ser oportunistas, atender de qualquer modo,
independente do número de sessões? Penso que propões
questões oportunas, que devem ser meditadas e elaboradas.
Mas que se impõem, também, à questão
central na Psicanálise contemporânea: sobreviveremos
nesta época de respostas rápidas ou teremos que nos
restringir ao atendimento de psicólogos (especialmente) e
psiquiatras em formação (o que me parece restringir
o alcance dos saberes e das práticas freudianas)? O mesmo
vale para o ritmo das sessões. Atendendo psicóticos,
observo que eles não querem tempo marcado por relógios,
pois se digitam diferentemente. Enquanto paranóicos pedem
mais falações. Aprendi que isto já é
um critério diferencial para pensar psiquismos diferenciados,
ou seja, os modos como produzem suas temporalidades.
Chaim – (retomando a questão) "O ser é
um fato do dito". Qual a
estrutura que garante o dito? O que propicia que seus ditos sejam,
no
regime ôntico? É preciso tomar a questão da
diferença, irredutível para
Lacan (quem se coloca tais questões), entre fala plena e
fala vazia. Se
fosse possível simplificar, diria que fala plena "descende"
do Simbólico e
reconhece a Falta universal; fala vazia insiste imaginariamente
e se
esvazia pela improdutividade. Assim, o ser só é fato
do dito quando se diz de uma"posição"onde
se dirige para o ser. No limite, não é qualquer dito
que recebe a marca ontológica. Melhor ainda, não tem
onticidade. O argumento para isto se acompanha no pequeno recorte
que enviei para
todos, acerca de Lacan-Heidegger. Para nós, psicanalistas,
a questão se põe incisivamente. Por exemplo, têm
estatuto ôntico os ditos dos psicóticos? Vejamos. Mostrei
que em Heidegger (e Lacan) a linguagem só se pensa em relação
com o ser. Ou seja, não há uma derivação
ôntica que se constitua (como em Tomás de Aquino, por
exemplo) desde o ser, este que abarca o existente. Em Heidegger,
só há ser quando ele é ec-sistente, onde há
A Linguagem, ali está "algo" ôntico. E os
psicóticos? Por definição, não constituiriam
linguagem mas dispersão e mímesis.
Acho que tal digressão é excessiva para uma correspondência
eletrônica. Mas é preciso, pelo menos,indicar algumas
linhas maiores. Bem, Jansy, estas são oportunidades de filosofar,
e muito importantes.
Sternick - Você fala de "oportunidades de filosofar",
o que inclui trabalhar com categorias fundamentadas na experiência
do pensamento. Isso tem sido altamente estimulante. Incluo-me entre
aqueles que não dissociam filosofia e clínica. Acompanhando
seu raciocínio, porém, percebi, embora possa estar
equivocado, que há em seu espírito uma inclinação
a conceder valor superior às filosofias como aquelas que
podem nos aproximar melhor da realidade incognoscível. Mas
eu pergunto: como você situa o pensar em relação
ao filosofar?
Chaim - Para Heidegger, a Filosofia, elaborada no seu sentido de
Metafísica, perdeu, esqueceu o Ser. O ser (ou Ser) está
mergulhado no esquecimento e é preciso retirá-lo daí.
Para isto ele propõe o Pensamento Essencial, que se elaborado
desde o que possibilita a emergência do Ser, entende até
as condições que propiciaram seu esquecimento e quais
são as vicissitudes do filosofar que impulsionaram ao esquecer.
Logo, neste e em outros casos, filosofar é bastante dessimétrico
de pensar. E para os psicanalistas? Bem, a Psicanálise se
inaugura especificamente quando Freud postula que somos animais
psiquicamente sexualizados. Para os chamados humanos, a diferença
sexual não se escolhe apenas nas inscrições
corporais fisiológicas ou visibilizadas, pois têm origem
psíquica. Constitui-se o psiquismo (a alma, die Seele) desde
a sexualização. Então, mesmo como introdução,
os psicanalistas (que assim se desejam e pertencem) afirmam a sexualidade
psíquica desde sempre. Pensar é se estabelecer desde
a diferença sexual sempre. Não se trata, absolutamente,
de uma "realidade incognoscível", mas de um regime
específico que obrigue a outras categorias de pensamento.
Jansy - Quanto ao que você escreve sobre a prática,
concordo com você. Mas gostaria de ouví-lo mais. Você
acha que o analista deve deixar livre a escolha do divã,
mesmo que isto representa um conforto para paciente e analista?
Chaim - Acho um pouco demais falar sobre divãs e tempos,
num papo assim, digamos, amplo. Talvez alguém, mais talentoso
do que eu, sugerisse alguma direção para que todos
pensássemos juntos. Acrescento apenas que se os psicanalistas
resolvemos atender psicóticos, foi em parte porque é
preciso exercer a potência da Psicanálise, este extraordinário
aparelho de pensar. Para além de limites postos por teorias
circundantes (o que Freud já mostrou, com o máximo
vigor), pois a clínica e a técnica psicanalíticas
jamais se restringem a destilar saber. Mas, por outra e tão
importante vertente, é que os psicóticos são
uma
importante fonte financeira e de poder. Do mesmo modo que o atendimento
de famílias, nosso trabalho em grupo, casais e instituições.
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