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Física Quântica e Identificação
Projetiva:
Uma tentativa de aproximação
Cíntia Xavier de Albuquerque
“É bastante provável que na história
do pensamento humano os desenvolvimentos mais fecundos ocorram,
não raro, naqueles pontos para onde convergem duas linhas
diversas de pensamento”.
Werner Heisenberg
I - Introdução
Há cerca de 10 anos venho tendo, esporadicamente, acesso
a algumas informações a respeito das mudanças
provocadas pela teoria quântica. Como costuma acontecer com
os iniciantes que entram em contato com o micromundo das partículas
que compõem o átomo, achava curioso, estranho, esquisito
e incompreensível.
O estudo do comportamento dessas partículas terminou por
derrubar dois princípios fundamentais da física clássica,
o da unidirecionalidade do tempo e o da causalidade. O primeiro
diz que o “agora” sempre deve preceder o “depois”.
O segundo diz que um efeito não pode preceder sua causa.
No entanto, no minúsculo microcosmo do átomo, nem
o tempo nem a causalidade tem a significação de outrora.
A noção de ordenação temporal dos acontecimentos
torna-se insustentável e a não-causalidade é
vista pelos físicos quânticos como conseqüência
natural de suas teorias.
Outra mudança importante foi a retirada de distinções
estáveis entre observador e observado. Aparentemente, a consciência
tem um papel ativo na determinação dos resultados
de experiências realizadas para estudar o fenômeno quântico.
A teoria quântica oferece possibilidades espantosas, não
apenas para a compreensão do mundo material. Quanto a este,
desde o início do século efeitos quânticos que
ocorrem entre partículas reagindo no vácuo, em condições
de laboratório, vêm sendo comprovados. Nos últimos
20 anos, físicos quânticos vêm tentando relacionar
a teoria quântica a fenômenos psíquicos. Buscam
provas de que existam pontes naturais entre fenômenos quânticos
e nossos pensamentos e percepções. Em outras palavras,
o importante é saber se o estranho comportamento das partículas
atômicas tem influência, ao menos parcialmente, sobre
a nossa vida diária.
Pois bem, na nossa vida diária de psicanalistas é
comum falarmos também em fenômenos estranhos, esquisitos,
misteriosos. Falamos de comunicação de inconsciente
para inconsciente, de comunicação não verbal,
de projeção e de introjeção de conteúdos
internos, de pensamento em busca de pensador. Falamos de posições
esquizoparanóide e depressiva e de sua dualidade, falamos
do incognoscível.
Tudo isso tem relação com energia psíquica.
Mas o que é mesmo isso? Motivada pela curiosidade, parti.
Desordenadamente, comecei a questionar se haveria alguma relação
entre energia psíquica e energia quântica. Quando me
dei conta do tamanho do universo que se abriu, percebi que tentar
formular algo a esse respeito, para mim, seria uma tarefa impossível.
Decidi, então, limitar meu universo: tentar enfocar o aspecto
interpessoal envolvido no polêmico fenômeno da identificação
projetiva, sob a luz dos conceitos básicos introduzidos pela
física quântica. Da maneira como eu os apreendo, correndo
o risco, de saída, de estar equivocada, por falta de conhecimento
específico sobre a teoria mecânico-quântica e
de interlocutores com os quais pudesse conversar sobre esses temas.
II – Da física clássica à física
quântica
Até o início do século XX, a visão de
mundo baseava-se no modelo mecanicista newtoniano do universo, o
qual perdurou por mais de 300 anos e impregnou profundamente nosso
modo de perceber a realidade. Era como uma rocha poderosa a apoiar
toda a ciência.
Segundo esse modelo, o ser, em seu nível mais elementar
e indivisível, consiste de partículas pequenas e distintas,
os átomos. Estes colidem, atraem e repelem uns aos outros.
Ocupam lugares próprios no espaço e no tempo. O espaço
é tridimensional, absoluto, idêntico e imóvel.
Todas as mudanças do mundo físico eram descritas em
termos do tempo, também absoluto, fluindo uniformemente do
passado ao presente e deste, ao futuro. Os movimentos de onda (como
de ondas de luz) eram considerados vibrações que ocorriam
no éter, não sendo objetos de investigação.
As partículas sofriam o efeito da força da gravidade.
Tanto partículas como as forças entre elas e as leis
fundamentais do movimento eram vistas como criações
de Deus e, portanto, não estavam sujeitas a análises
mais profundas. Além disso, Deus estaria sempre presente
para corrigir quaisquer irregularidades.Capra 1975
Essa visão mecanicista implicava num determinismo rigoroso.
Tudo possuía uma causa definida que gerava um efeito –
o princípio da causalidade. A base filosófica desse
determinismo provinha da divisão entre o eu e o mundo introduzida
por Descartes, no século XVII. Os eventos deveriam ser descritos
objetivamente, sem sequer se mencionar o observador humano. A objetividade
tornou-se o ideal da ciência.
A filosofia de Descartes influenciou todo o modo de pensar ocidental.
Seu “penso, logo existo”, levou à separação
mente/corpo e à tendência do homem ocidental a identificar-se
apenas com a mente. “Em conseqüência da divisão
cartesiana, indivíduos, na sua maioria, têm consciência
de si mesmos como egos isolados existindo dentro de seus corpos”.
Capra, 1975
Todavia, é inegável que tanto a divisão cartesiana
quanto a visão mecanicista do mundo mostraram-se muito úteis
para o desenvolvimento da física clássica e da tecnologia.
O modelo newtoniano continua válido para objetos que possuem
grande número de átomos e, exclusivamente, para eventos
com velocidades pequenas se comparadas à da luz.
Ainda no século XIX, os trabalhos de Faraday e Maxwell provocaram
o primeiro grande abalo sobre a concepção mecanicista
de Newton: os fenômenos eletromagnéticos não
podiam ser adequadamente descritos, pois envolviam um novo tipo
de força, na verdade um campo de força, que não
podia ser decomposto em unidades fundamentais.
Em 1905, Albert Einstein publicou dois artigos que deram início
a rupturas conceituais revolucionárias. Um deles foi a teoria
especial da relatividade. O outro era o embrião da futura
física quântica, desenvolvida 20 anos mais tarde. Ambos
os desenvolvimentos esfacelaram os conceitos básicos da visão
newtoniana do mundo: espaço e tempo acham-se intimamente
vinculados, formando um continuum quadridimensional, o “espaço-tempo”;
não se pode falar de um sem falar do outro; inexiste um fluxo
universal do tempo; massa é uma forma de energia, e tantos
outros desdobramentos.
Assim teve início a Física Moderna. Vários
fenômenos relativos à estrutura dos átomos foram
descobertos. Primeiro, a radiação que conhecemos como
raios X. Logo após, as substâncias radioativas que
emanavam partículas alfa, verdadeiros projéteis extremamente
velozes, de dimensões subatômicas. Os átomos,
bombardeados pelas partículas alfa, se revelaram imensas
regiões de espaço nas quais partículas muito
pequenas – os elétrons – moviam-se em torno do
núcleo, ligados a este por forças elétricas.
Uma curiosidade: para tentarmos visualizar o tamanho de um átomo,
imaginemos uma laranja do tamanho do planeta Terra. Os átomos
da laranja possuirão o tamanho de cerejas. Um átomo
é extremamente pequeno se comparado a objetos macroscópicos,
mas é enorme se comparado ao seu núcleo. Para que
pudéssemos ver o núcleo de um átomo, teríamos
que ampliar o átomo até que este atingisse o tamanho
da abóbada da Catedral de São Pedro, em Roma. Nesse
átomo, seu núcleo seria do tamanho de um grão
de sal! Bentov, 1988
O trabalho de Einstein possibilitou o desenvolvimento da física
atômica. Na década de 20, um grupo internacional de
físicos juntou forças e superou fronteiras para desenvolver
a Mecânica Quântica. Entre eles estavam Niels Bohr (dinamarquês),
Erwin Schrodinger e Wolfgang Pauli (austríacos) e Werner
Heisenberg (alemão). O homem entrava em contato, pela primeira
vez, com o estranho e inesperado mundo subatômico.
A mais revolucionária e importante afirmação
que a física quântica faz sobre a natureza da matéria
provém de sua descrição da dualidade onda-partícula.
É a afirmativa de que, no nível subatômico,
os elementos atômicos, a luz e outras formas eletromagnéticas
têm um comportamento dual. Podem ser igualmente bem descritos
tanto como partículas sólidas, confinadas a volumes
e espaços definidos, quanto como ondas que se expandem em
todas as direções.
Além disso, nenhuma das descrições é
suficiente para se compreender a natureza das coisas. É a
própria dualidade o aspecto básico. Um aspecto complementa
o outro e, ainda mais estranho, a expectativa se reflete na experiência.
Onde se espera encontrar partículas, lá estão
elas. Da mesma forma ocorre com as ondas. A solução
para essa aparente contradição foi dada por Niels
Bohr, ao elaborar o princípio da complementaridade, que estabelece
que, embora mutuamente excludentes num dado instante, os dois comportamentos
são igualmente necessários para a compreensão
e a descrição dos fenômenos atômicos.
Nunca se consegue observar um elétron e medir sua velocidade
ao mesmo tempo. Ao incidir um foco de luz para observá-lo,
sua velocidade se altera. Então, não se sabe mais
onde ele estava antes. Consegue-se medir ou sua exata posição
– quando ele se manifesta como partícula – ou
sua velocidade ou momentum – quando se expressa como onda,
mas nunca ambos a um só tempo. Esse é outro princípio
fundamental da teoria quântica: o princípio da incerteza
de Heisenberg. A incerteza substitui, então, o determinismo
e a objetividade.
É o observador, por meio da observação, que
fixa o elétron, densifica sua energia e o observa numa determinada
posição. Diz-se que o observador provoca o colapso
de sua função de onda. No nível subatômico,
não se pode dizer que a matéria exista com certeza,
em lugares definidos. Diz-se que ela apresenta “tendências
a existir” e que os eventos têm “tendências
a ocorrer”.
Fala-se em probabilidades. Em ondas de probabilidades ou ondas
de matéria. Todas as leis da física quântica
são expressas em termos dessas probabilidades. No domínio
dos quanta – que são pacotes de energia –, hoje
chamados fótons, não se pode mais ter objetividade
completa. O próprio fundamento da visão mecanicista
- o conceito de realidade da matéria - foi posto abaixo,
pois no nível subatômico os materiais sólidos
dissolvem-se em padrões de probabilidades semelhantes a ondas.
Isso se deve às propriedades dos átomos. Em primeiro
lugar, sabe-se que os átomos que compõem matéria
sólida consistem quase que integralmente em espaço
vazio. Seus núcleos, pequeníssimos e estáveis,
constituem a fonte da força elétrica e contém
quase toda a massa do átomo. Os elétrons transitam
de um estado de energia a outro de forma espontânea e aleatória,
absolutamente imprevisíveis.
Na verdade, eles nem “giram em torno do núcleo”,
como aprendemos na escola. Os elétrons reagem ao confinamento
no átomo movimentando-se em altíssimas velocidades,
da ordem de 960 km/s. São essas velocidades que fazem com
que os átomos pareçam esferas rígidas. Os prótons
e nêutrons, dentro do núcleo, confinados num espaço
muito menor, percorrem o núcleo de um lado para outro a 64.000
km/s!Bentov, 1988
Existe um equilíbrio ótimo entre a força de
atração do núcleo e a resistência dos
elétrons ao confinamento. É a interação
entre elétrons e núcleos que constitui a base de todos
os sólidos, líquidos e gasosos, dos organismos vivos
e de seus processos biológicos.
Bem, se dispuséssemos de um supermicroscópio imaginário
com o qual fôssemos examinar, por exemplo, um fragmento de
osso, num dado momento, depois de toda ampliação possível,
estaríamos vendo uma pulsação indistinta, vastidões
de espaços vazios permeados por campos oscilantes de diversos
tipos, pulsando e propagando-se cada vez mais para longe.Bentov,
1988
Desse modo, as partículas passam a ser vistas como padrões
dinâmicos, que envolvem uma determinada quantidade de energia
que se manifesta a nós como sua massa.
A totalidade do Universo aparece, aos físicos quânticos,
como uma teia dinâmica de padrões inseparáveis
de energia. “Uma contínua dança de energia”.Capra,
1975 Energia elétrica, magnética, acústica
ou gravitacional. Esse todo dinâmico sempre inclui o observador
humano. Ele faz parte da cadeia de processos de observação,
e as propriedades de qualquer objeto atômico só podem
ser conhecidas em termos de interação do objeto com
o observador.
O observador também é feito de átomos. Como
nós. Os princípios quânticos descrevem o funcionamento
de tudo o que vemos e que, pelo menos fisicamente, somos.
A teoria quântica ainda está “constrangedoramente
incompleta e permanecerá assim até que possamos incluir
os observadores e, ao menos no caso dos observadores humanos, incluir
a consciência com a qual fazem suas observações”.
Zohar, 1990 Isso decorre do fato de existirem equações
para descrever eventos mecânico-quânticos, mas não
para descrever o comportamento do observador. O problema da consciência
(ou estados mentais) é central na física hoje. Até
mesmo defini-la é difícil. Dependendo da definição
dada, a ameba pode ser considerada uma criatura consciente.
A maioria dos físicos que procuram uma sede física
para a consciência presume, hoje em dia, que sua fonte deve
estar na capacidade funcional do cérebro em si. A natureza
exata da ligação entre estados físicos do cérebro
e estados mentais ainda é um grande mistério, tanto
para a ciência como para a filosofia.
III – Sobre Identificação Projetiva
Já vimos que os físicos quânticos consideraram
o universo uma teia dinâmica de energia, a constante dança
de energia. Privilegiam as relações e o movimento.
Também a psicanálise tem evoluído nesse sentido.
Cada vez mais falamos do “funcionamento do par analítico,
da constituição do eu e do outro no movimento presente
na relação, da busca da subjetividade na intersubjetividade”.Assis,
1998.
O conceito “identificação projetiva”
é o que me parece mais fortemente referir-se ao aspecto interpessoal
da relação analista-analisando. Ao mesmo tempo, é
claro que diz respeito à atividade mental de uma pessoa,
às suas fantasias inconscientes de aliviar a mente, sobrecarregada
de conteúdos insuportáveis, num outro. Há “uma
espécie de jogo dinâmico entre o intrapsíquico
e o interpessoal”. Manfredi, 1998.
Não é minha pretensão fazer um estudo aprofundado
da identificação projetiva. Considerando tratar-se
de um fenômeno clínico observável, pretendo
destacar o seu aspecto interpessoal. Sabemos que há controvérsias
entre importantes autores psicanalíticos sobre se a identificação
projetiva é uma fantasia inconsciente do paciente, ou um
acontecimento também intersubjetivo.
Desde 1946, Klein sugere a dimensão interpessoal da identificação
projetiva. Propõe a existência de um processo psíquico
por meio do qual aspectos do self não são simplesmente
projetados sobre a imagem psíquica do objeto (como na projeção),
mas “para dentro” do objeto. Diz também que a
identificação projetiva “provoca um esgotamento
psíquico, na medida em que há um imenso gasto de energia
no esforço de controlar o outro tão completamente,
que ele é vivenciado como tendo adotado um aspecto da própria
identidade”.Ogden, 1996.
Segundo Ogden, também para Bion a identificação
projetiva “não é simplesmente uma fantasia inconsciente
de projetar um aspecto próprio no outro e controlá-lo
desde dentro; representa um acontecimento psicológico no
qual o projetor, por via de uma interação interpessoal
real com o recipiente da identificação projetiva,
exerce pressão sobre o outro para que vivencie e se comporte
de forma congruente com a fantasia projetiva onipotente”.Ogden,
1996.
De acordo com a leitura de Stefania Manfredi, para Klein a fantasia
inconsciente é uma reserva inata de imagens psíquicas
que acompanham a pulsão em busca do objeto. A fantasia assume
uma força tal, que é capaz de produzir efeitos reais
em outra pessoa. “Tudo aconteceria como se a pessoa, ou partes
muito importantes dela, tivessem deixado o próprio corpo
e tivessem ido morar em outro corpo”.Manfredi, 1998.
Rosenfeld diz que a identificação projetiva opera
através da fantasia, mas pode também provocar efeitos
temporários no comportamento de uma figura receptiva do mundo
externo. Manfredi,1998. Interessante aqui o uso do termo “receptiva”.
De fato, sabemos, pela experiência clínica, que nem
sempre a identificação projetiva “é bem
sucedida”, isto é, nem sempre o analista é capturado
por ela. Parece que, para ocorrer a identificação
projetiva, alguns requisitos têm que ser preenchidos. Voltarei
a esse ponto adiante.
Grotstein salienta que a identificação projetiva
é uma fantasia inconsciente, é imaginação.
Para Betty Joseph, o analista, se estiver realmente aberto para
o que está ocorrendo, se identifica com as partes perdidas
do paciente e, com isso, pode obter maior compreensão.Manfredi,1998
Ogden afirma que, na identificação projetiva, as fantasias
inconscientes de uma pessoa são processadas por outra pessoa.Ogden,1996
A meu ver, um aspecto importante ressaltado por Ogden é
o de que, além do empobrecimento ou “esvaziamento psicológico”
envolvido na identificação projetiva, sabe-se hoje
que tal fenômeno “também envolve a criação
de algo potencialmente maior e mais produtivo do que qualquer um
dos participantes (isolado do outro) poderia produzir”.Trata-se,
para ele, de algo que é criado, um terceiro sujeito, além
do projetor e do recipiente: o sujeito da identificação
projetiva.Ogden, 1996
Nesse momento, várias perguntas me ocorrem: como é
que algo passa para o outro? Essa transmissão inconsciente
tem a proximidade física como requisito? Poderia ocorrer
à distância? Como poderia ocorrer uma comunicação
de inconsciente para inconsciente?
Antes de tentar aproximar alguns conceitos quânticos dos
fenômenos que vivenciamos na clínica e na vida, relatarei
algumas situações, no mínimo, curiosas.
IV – Situações clínicas
Situação 1: acordei, certa manhã, com angústia
intensa e taquicardia. Havia sonhado que batia, completamente descontrolada,
no meu marido, sem saber por quê. Eu não parava para
ouvi-lo. Fiquei toda a manhã com as cenas do sonho voltando
à minha mente, e com a sensação de estar com
o coração dolorido.
À tarde, uma paciente chega e, logo após acomodar-se
no divã, relata um sonho, no qual agredia com muita violência
seu marido, com um ódio imenso, achando que poderia até
matá-lo. Estava impactada e angustiada.
Situação 2: uma colega sonhou que passeava numa montanha
com alguém, depois entrava num supermercado, onde queria
comprar um xampu, mas não tinha dinheiro.
No dia seguinte, sua paciente sonhou que estava num bosque. Fôra
levada por alguém. Era um lugar gostoso. A pessoa sumiu e
ela teve fome. Comeu num restaurante, mas não tinha dinheiro
para pagar.
Situação 3: uma colega, em supervisão, reclamou
que sua paciente não nomeava as pessoas. Nunca. Conversamos
sobre seu próprio desejo e curiosidade. Na sessão
seguinte, sua paciente começou a nomear todos os personagens,
e assim continuou dali para frente.
V – Um olhar quântico sobre a identificação
projetiva
Parto da hipótese que, na identificação projetiva,
alguma comunicação passa de uma pessoa para outra,
de maneira inusual. Como uma espécie de fusão que
envolve e emaranha duas pessoas de tal modo que, durante algum tempo,
misturam-se os mundos interno e externo de ambas. Como o desfazer
de fronteiras.
A física quântica Danah Zohar, ao mencionar a identificação
projetiva e a intimidade, diz: “Parece que “eu”
e “você” nos influenciamos mutuamente, parece
que “entramos” um no outro e modificamos um ao outro
no interior, de tal forma que “eu” e “você”
nos tornamos “nós”. Esse “nós”
que experimentamos não é apenas “eu” e
“você”, é uma coisa nova em si, uma nova
unidade”.Zohar, 1990. Essa colocação é
muito semelhante à de Ogden, ao nomear aquele algo novo,
que é criado, de sujeito da identificação projetiva.
Para as abordagens clássicas da filosofia, da psicologia
e da psicanálise, é impossível compreender
a transmissão de aspectos internos de uma pessoa para outra.
Para um físico quântico, as relações
interpessoais são vistas do mesmo modo como se reconhece
a dualidade onda-partícula do átomo (que não
deve ser chamado de partícula elementar, pois já foram
descobertas mais de 200 partículas “elementares”
no núcleo do átomo).
O aspecto partícula da matéria quântica origina
os indivíduos e as coisas que podem ser apontadas. O aspecto
onda dá origem aos relacionamentos entre esses indivíduos
por meio do entrelaçamento das funções de onda
de seus componentes. Como as funções de onda podem
se entrelaçar, os sistemas quânticos podem “entrar”
uns nos outros formando um relacionamento criativo impossível
para as “bolas de bilhar newtonianas”. A qualidade e
a dinâmica do relacionamento íntimo dependem das variáveis
a que estão sujeitos os sistemas ondulatórios das
pessoas envolvidas. Para haver a identificação projetiva,
é preciso que as pessoas estejam em estados parecidos, que
haja intimidade e compromisso entre elas, isto é, que haja
alto investimento de energia nessa relação.
Vejamos como Danah Zohar fala da identificação projetiva
presente na relação mãe-bebê: “Em
termos quânticos, a função de onda do bebê
está quase totalmente sobreposta à de sua mãe.
Em grande parte, a experiência do bebê é a experiência
da mãe, e ele começa a tecer seu ser utilizando o
tecido da mãe”. Nesse período, muita quantidade
de energia é empregada na integração da função
de onda do bebê com a de sua mãe. Com o passar dos
meses, esse investimento na mãe diminui e aumenta a quantidade
de energia empregada na interação do bebê com
os outros.
A partir da descoberta da dualidade onda-partícula do átomo,
nenhum dos aspectos é considerado mais o primordial. Existem
ambos separadamente e também existe a dualidade. Do mesmo
modo, do ponto de vista mecânico quântico, o ser humano
é indivíduo e seus relacionamentos, e nenhum dos dois
é o primordial.
VI – Discussão
Devido ao envolvimento de Jung com o então chamado mundo
do ocultismo, Freud, em 1909, teria dito que não queria ouvir
mais nada sobre “a maré negra da porcaria do ocultismo”.Bentov,1988.Dois
anos depois ingressou na Sociedade para a Pesquisa Psíquica
inglesa e na americana, e publicou seus ensaios sobre o assunto.
Durante pelo menos vinte anos Freud parece ter estado interessado
em alguns fenômenos polêmicos. Contudo, apesar de seu
interesse, chamava a esses outros campos de “colônias
da Psicanálise, não a verdadeira pátria”.Jones,1976.
Freud preocupou-se, argumentou e sofreu durante alguns anos, antes
do rompimento definitivo com Jung, por quem nutria carinho, admiração
e enormes expectativas. Desde 1898 Jung se interessava por todos
os aspectos do “ocultismo”. Em maio de 1911, comunicou
a Freud que estava “ampliando o conceito de libido de modo
a designar com este uma tensão geral”. O ano seguinte
foi decisivo no processo de separação dos dois. Jung
tomou outro rumo, e logo seu posicionamento foi festejado e considerado,
pelo British Medical Journal de janeiro de 1914, como seu “retorno
a um enfoque mais são da vida”.Jones,1976.
Estranha comemoração, pois se a importância
que Freud atribuía à pulsão sexual era objeto
de fortíssima resistência no meio científico
da época, a direção tomada por Jung não
deveria, naquele momento, ser considerada sã ou científica.
Em agosto de 1921, Freud escreveu o artigo intitulado Psicanálise
e Telepatia e o apresentou, em setembro, a um seleto grupo de seguidores.
Sentindo estar a psicanálise ameaçada por um tremendo
perigo, disse que não seria mais possível manter-se
afastado do estudo dos fenômenos “ocultos”. E
que não havia lógica em temer que um interesse maior
pelo ocultismo fosse perigoso para a psicanálise. Pelo contrário.
Deveríamos, disse ele, “estar preparados para encontrar
uma simpatia recíproca entre eles. Ambos experimentaram o
mesmo tratamento desdenhoso e arrogante por parte da ciência
oficial”.Freud, 1921.
Contudo, devido às diferenças existentes entre suas
atitudes mentais, Freud considerava uma cooperação
entre ocultistas e psicanalistas bastante improvável. Os
primeiros seriam “crentes convictos” buscando confirmação,
apressadamente, de suas convicções, e generalizariam
resultados parciais a todos os fenômenos. Os segundos, diz
Freud, “são no fundo incorrigíveis mecanicistas
e materialistas, ainda que procurem evitar despojar a mente e o
espírito de suas características ainda irreconhecíveis”.Freud,
1921.
Parece que isso não mudou desde 1921...
Após alguns anos ocultando suas observações
a respeito desse tema, Freud resolveu apresentar três casos,
sendo o terceiro o relato de uma experiência clínica
pessoal. O tema era a possibilidade ou não de haver transmissão
de pensamento. Quando chegou à cidade de Gastein, onde se
realizou o encontro, Freud percebeu a força de sua resistência
em abordar esse tema: ele deixara em Viena as notas sobre sua própria
experiência. “Nada se pode fazer contra uma resistência
tão clara”, disse à ocasião.Freud, 1921.
Percebem-se claramente as dúvidas e reticências de
Freud em relação ao assunto, aspecto salientado pelo
Editor Inglês em sua nota introdutória.
No ano seguinte, Freud publicou Sonhos e Telepatia. Parece que
ele pretendia ler o artigo na Sociedade Psicanalítica de
Viena, mas por alguma razão, desistiu de fazê-lo. Termina
esse texto dizendo que quis ser “estritamente imparcial”,
já que não tinha “nem opinião nem conhecimento
sobre o assunto”.Freud, 1922.
Seu terceiro texto sobre o tema foi apresentado dez anos depois:
Sonhos e Ocultismo (Conferência XXX). Nesse, ele enfoca especialmente
a possibilidade de existência da transmissão de pensamento,
em que “os processos mentais numa pessoa – idéias,
estados emocionais, impulsos conativos – podem ser transferidos
para uma outra pessoa através do espaço vazio, sem
o emprego dos métodos conhecidos de comunicação
que usam palavras e sinais”.Freud, 1922.
Após descrever em detalhes algumas situações
clínicas que ilustram fenômenos mentais “tão
difíceis de apreender”, Freud diz: “Aquilo que
se situa entre esses dois atos mentais facilmente pode ser um processo
físico, no qual o processo mental é transformado,
em um dos extremos, e que é reconvertido, mais uma vez, no
mesmo processo mental no outro extremo”.Freud, 1922.
Apesar de Freud não ter formulado o conceito de identificação
projetiva, essa sua hipótese me parece pertinente se tentarmos
olhar, com base em conceitos quânticos, para esse tipo de
transmissão. Como já vimos, a energia de vibração
é um dos aspectos mais importantes da matéria. O núcleo
do átomo, elétrons e moléculas têm suas
taxas vibratórias características. Quando pensamos,
nossos cérebros geram correntes elétricas rítmicas
que se espalham pelo espaço – sob a forma de ondas
eletromagnéticas – à velocidade da luz. Essas
correntes elétricas são muito fracas, mas podem ser
detectadas por instrumentos sensíveis.
Nossos corpos são feitos de diversos tipos de tecidos que
interagem de diferentes maneiras com as energias vibratórias.
“Independentemente de quão diminuto seja o efeito,
nossas psiques podem responder vigorosamente a ele”.Bentov,
1988. Se considerarmos que tanto a mente como a matéria fazem
parte do mundo dos acontecimentos quânticos, nossos pensamentos
(inclusive os inconscientes) e relacionamentos poderiam ser, em
alguns casos, explicados pelas mesmas leis e padrões de comportamento
que governam o mundo subatômico.
Assim, para o físico quântico é simples compreender
a identificação projetiva, a inversão de papéis
(que ocorre quando dois sistemas quânticos não-localmente
relacionados trocam de oscilação: ressonância
quântica), o contágio emocional de uma torcida de futebol,
de um comício político ou a mente grupal (quando um
dos membros do grupo parece expressar os pensamentos e sentimentos
do grupo inteiro).
Ocorre que eles vão muito além e fazem colocações
que afrontam o bom senso, o já conhecido, nossa maneira usual
de pensar. Consideram banal e corriqueiro explicar o movimento instantâneo
à distância, que chamam de princípio da não-localidade,
e que diz que algo pode ser afetado mesmo na ausência de uma
causa local; especulam sobre viagens para trás ou para adiante
no tempo; explicam a pré-cognição. Na esperança
de obter uma nova visão de mundo, menos fragmentada, voltam-se
para temas como o misticismo oriental, a cura, os fenômenos
psíquicos. “São tentativas parciais e vacilantes
de articular algo que “está no ar”, algo que
responda à necessidade das pessoas de um quadro mais coerente
do mundo.”Zohar, 1990
O próprio Einstein jamais se sentiu à vontade com
as implicações metafísicas mais amplas da física
quântica. O fenômeno da não-localidade era, para
ele, “fantasmagórico e absurdo”. Ele ficou extremamente
desgostoso com os desdobramentos de seu trabalho, mas não
conseguiu refutá-los.
Durante a elaboração deste trabalho, surpreendi-me
inúmeras vezes. Uma das surpresas – e talvez o seja
também para vocês – foi encontrar Jung bastante
considerado pelos físicos quânticos cujos textos pesquisei.
Sua obra é tida, sob muitos aspectos, como “uma exceção
de brilho ímpar dentre as muitas tendências da psicanálise
e da psiquiatria clínica”.Zohar, 1990.
Em O Ponto de Mutação, Fritjof Capra dedica cinco
páginas a tecer comentários sobre o trabalho de Jung.
Diz que, ao romper com Freud, ele “abandonou os modelos newtonianos
de psicanálise e desenvolveu numerosos conceitos que são
inteiramente compatíveis com os da física moderna
e da teoria geral dos sistemas”. Citando uma passagem do livro
Aion, de Jung, destaca: “A psique não pode ser totalmente
diferente da matéria, pois como poderia de outro modo movimentar
a matéria? E a matéria não pode ser alheia
à psique, pois de que outro modo poderia a matéria
produzir a psique? Psique e matéria existem no mesmo mundo,
e cada uma compartilha da outra, pois do contrário qualquer
ação recíproca seria impossível”.
Capra destaca ainda que Jung concebeu a libido como uma energia
psíquica geral, considerando-a uma manifestação
da dinâmica básica da vida e que o inconsciente é
um processo que envolve padrões dinâmicos coletivamente
presentes. Termina seus comentários dizendo: “Jung
não foi levado muito a sério nos círculos psicanalíticos.
Com o reconhecimento de uma crescente compatibilidade e coerência
entre a psicologia junguiana e a ciência moderna, essa atitude
está condenada a mudar...”Capra,1982.
VII – Comentários finais
É comum falarmos sobre a importância do intercâmbio
da psicanálise com outras ciências. Com elas trocaríamos
experiências e conhecimento e, dessa interseção,
adviria enriquecimento para todos.
Física Quântica e Psicanálise têm aproximadamente
a mesma idade. Ambas romperam com a pretensão de verdade
e realidade fixas e imutáveis, com a concepção
de tempo e ordem vigentes. Experimentador e psicanalista são
observadores participantes. Freud introduziu o conceito de Inconsciente
– o que surpreende, o que não se sabe, e os físicos
quânticos, o Princípio da Incerteza – nunca se
sabe onde e como se encontrará uma partícula subatômica.
Tanto os fenômenos atômicos como os inconscientes não
costumam ser diretamente observáveis: requerem interpretação.
Os físicos quânticos reconhecem que todos os conceitos
e teorias científicos são limitados e aproximados.
E que a ciência nunca poderá proporcionar um entendimento
completo e definitivo. São idéias que nos são
muito familiares. Contudo, outras não o são.
Quando aplicamos conceitos quânticos à natureza do
ser humano, uma verdadeira revolução na nossa maneira
de nos percebermos – e ao mundo - é exigida. A física
quântica pede que modifiquemos nossas noções
de tempo e espaço, de causa e efeito e de matéria
e energia de maneira assustadora. Parecem faltar inclusive condições
para pensar. É como não saber pensar aquelas idéias.
Que sirva de consolo: mesmo físicos quânticos, quando
procuram entender o que suas equações estão
indicando, inadvertidamente tentam encaixar conceitos quânticos
em modelos newtonianos antigos, bem conhecidos, o que faz com que
eles próprios vejam seu trabalho com a mesma estranheza que
nós.
Certamente não estamos preparados para uma “revolução
quântica”. Uma imensa dificuldade com que nos defrontamos
é o (nosso velho conhecido) medo do desconhecido. Vigoroso,
quase nos impede olhar, fazer contato, ouvir novas – e estranhas
– idéias.
A teoria quântica é revolucionária. Não
deveríamos esquecer que a psicanálise também
o é. Sua história mostra o quanto ela vem provocando
resistências, críticas, medo, ataques dos mais diversos
tipos e intensidades. Ela própria já mudou tanto –
na teoria e na técnica – nesse seu primeiro século
de existência. Somos nós que a transformamos, com nosso
interesse pelo funcionamento da mente humana e com nossa prática
clínica, em algo tão vivo e apaixonante.
Com esse texto introdutório – e informativo - espero
ter conseguido transmitir a idéia de que talvez tenhamos,
à nossa disposição, um tipo particular de sensibilidade
a desenvolver, com a qual possamos aprimorar nossa escuta psicanalítica.
“A ciência avança mediante respostas provisórias
a uma série de questões cada vez mais sutis, que vão
cada vez mais fundo na essência dos fenômenos naturais”.
Louis Pasteur
Membro associado da Sociedade de Psicanálise de Brasília
Trabalho apresentado na Reunião Científica de 13/9/2000
VII – Referência bibliográfica
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técnica no campo da intersubjetividade. Segundo Relatório
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1988.
3. Capra, Fritjof. O Tao da física. Ed. Cultrix, 1975.
4. Capra, Fritjof. O ponto de mutação. Ed. Cultrix,
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7. Freud, S. Sonhos e telepatia (1922), Standard Brasileira. Ed.
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11. Ogden, Thomas. Os sujeitos da psicanálise. Casa do Psicólogo,
1996.
12. Rolim, Ana Maria A. A psicanálise é uma ciência:
mas quem não se importa? Uma ressonância de a psicanálise
não é uma ciência: mas quem se importa? Psicologia
– Ciência e Profissão. Nº 2, Ano 20.
13. Zohar, Danah. Através da barreira do tempo. Ed. Pensamento,
1982.
14. Zohar, Danah. O ser quântico. Ed. Best Seller, 1990.
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