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IS IT A GAME? [1]
( É um joguinho? )
Jansy B. de Souza Mello
I-
Quando amigos aos quais queremos bem escrevem poemas ou pintam
quadros que não apreciamos fica-nos mais fácil separarmos
arte e pessoa do que quando amamos uma obra e detestamos o artista
que a criou, como se isto corrompesse nossa relação
com a arte. Já em psicanálise a expectativa do amor
transferencial faz com que se deixe de distinguir entre a pessoa
do analista e o profissional e, no entanto, é em psicanálise
que esta separação se faz com mais nitidez se recordarmos
que o analista ocupa um lugar que não deve ser preenchido
com as peculiaridades da pessoa que ele também é.
A quem amamos quando nos amamos e por quem nos apaixonamos quando
ficamos enamorados de alguém? Trago à tona estas dúvidas
meio cansadas porque elas se enquadram naquilo que hoje vamos debater
porque, aos meus olhos, AI é um filme sobre o amor, ou melhor,
sobre sua falta.
Este filme sobre inteligência ( e consciência ) artificial
teve vários pais e resultou de sonhos diferentes: há
o conto de Brian Aldiss, o projeto de Kubrick, a execução
de Spielberg. Particularmente, não sou fã de nenhum
um deles e no entanto, o filme AI me encantou, desde a proposta
inicial de Aldiss, do menino-robô buscando o amor da mãe,
sem nunca agradar-lhe, passando pela idéia de Kubrick de
transformar este robô numa espécie de Pinóquio
confiando na Fada Azul que o tornaria humano, até a realização
de Spielberg que, conciliando Aldiss e Kubrick, reproduziu a história
de um boneco que sonhava se tornar um menino de verdade, no cenário
de um parque temático sobre a história de Pinóquio,
assim estabelecendo a mise-em-abîme da ficção
incluída na ficção.
A história se inicia com uma criança congelada e
quase se encerra com um robô congelado. Este robô chama-se
David e, quando ele se apresenta, vemos apenas sua imagem distorcida
contra a luz da porta, antecipando as formas elongadas e futurísticas
dos robôs que aparecem na última parte do filme. Se
David sofre sua primeira ruptura com a família quando afunda
numa piscina, no final do filme, ao descobrir que não era
único e especial e sim, o primeiro de uma série, ele
também se joga nas águas do mar que recobre as ruínas
de Nova Iorque, suas as torres gêmeas ainda íntegras
e Coney Island. Também no começo da película
vemos como o Professor Hobby, idealizador de David, caracteriza
as particularidades que distinguem o humano do artificial a partir
da capacidade de sonhar e de ir atrás de um desejo e, no
último capítulo vemos David dormindo e sonhando depois
de ter buscado a Fada Azul.
Se encontramos no filme A.I. uma história que nos permita
acompanhar o processo de nascimento psicológico de uma criança
a partir da dupla mãe/filho, ou que nos ensine alguma coisa
sobre a constituição do sujeito é o que debateremos
aqui. Na minha opinião, A.I. é um filme que escamoteia
a concepção freudiana do "complexo de Édipo",
reduz a vitalidade do conceito de inconsciente e nele as idéias
a respeito das relações entre pais e filhos são
elaboradas a partir de cumplicidades perversas.
II -
Nem Aldiss, nem Kubrick e nem Spielberg deram valor ao mundo feminino
e à mulher. Monica é uma esposa moderna com todas
características da burguesa estereotipada do século
passado, envolvida pelas prendas do lar, roupas novas e perfumes.
Nem sinal de vida profissional ou de uma participação
expressiva na vida social. Num cenário como este, seus filhos
também não passam de brinquedos engraçadinhos
e inquietadores que a ocupam durante a ausência do marido
provedor. Spielberg, talvez sem ter esta intenção,
enfatizou sua semelhança a um robô na passagem da cena
inicial à seguinte, dois anos mais tarde. Na primeira, o
professor Hobby fala aos alunos sobre sua nova linha de robôs,
que contrasta com um modelo de robô-fêmea, programada
até na hora de ajeitar seu batom diante de um espelho. Na
segunda, que vem imediatamente em seguida, vemos um triciclo motorizado
levar Monica e seu marido para visitar o filho criogenizado e a
observamos enquanto ajeita seu batom diante de um espelho, como
o robô- fêmea da cena anterior. Sua vida mental enquanto
mulher e dona de casa segue um padrão previsível como
se também ela fosse inteiramente programada pelo sistema.
Quando, a partir de uma mecha de cabelos ela é recuperada
para os cuidados de David, que nunca se esqueceu do modo de preparar
seu café da manhã, esta Monica que renasce é
uma pessoa ainda mais lesada do que a que existiu no passado longínquo
e mais chocante do que se fosse ela também um robô.
Ela passa a existir ( por um dia) apenas para corresponder aos anseios
do seu pequeno robô, sem sequer lembrar-se que um dia teve
um marido e um filho, recordando-se apenas daquela diminuta parte
da sua história que está sendo evocada por David.
Prof. Hobby parece acreditar que basta amar para se conseguir desejar
e sonhar, e compara o amor do Adão bíblico por Jeová,
seu criador, com o sentimento que pretende introduzir, como Deus,
no programa dos seus novos robôs. As idéias que ele
explicita para seus alunos mostram-se distorcidas pelo seu desejo
onipotente de produzir seres humanos a partir das suas teorias sobre
as emoções e do seu engenho como programador na área
da inteligência artificial. Contudo, o robô David, que
ele criou, é como um menino que não pode crescer e
se tornar um homem adulto. Enquanto boneco ele pode tornar-se obsoleto
e ser descartado, mas durante sua vida útil permanecerá
sendo, eternamente, um menino. David também não foi
um bebê e não sabe o que seja experimentar o primitivo
amor de um infante pela mãe, protótipo de todas futuras
expectativas amorosas, como nos ensina Freud. Falta-lhe, apesar
de toda psicologia que promoveu sua construção, uma
verdadeira inserção no tempo que lhe abriria a experiência
do fluxo temporal, das perdas a cada etapa nova da sua vida e das
promessas que diferentes planos futuros poderiam atender.
Monica, a mãe adotiva, foi incluída no projeto experimental
do Professor Hobby para que David funcionasse como substituto do
seu filho moribundo. Segundo os peritos ela precisava ser consolada
porque não conseguia elaborar o luto desta possível
morte. A criança, com a mesma idade aparente de David tinha
sido preservada no gelo, como a bela adormecida ( não é
atoa que o balé de Tchaikovsky fosse a música de fundo
neste momento em que a vemos com ele ) devido a uma doença
para a qual se aguardava a remissão ou uma cura médica.
O próprio professor Hobby, que também perdera um filho
aos nove anos, teria elaborado seu luto porque havia conseguido
continuar trabalhando como cientista, mesmo quando seus planos fossem
os de recriá-lo como robô e estocar comercialmente
suas réplicas ( nos modelos feminino e masculino), para serem
ativadas assim que a experiência com Monica demonstrasse a
eficácia do seu invento.
Hobby é o pai que se reproduz sem precisar de uma parceira,
assim como Pigmalião criou Galatéa e Gepetto esculpiu
Pinóquio. Pigmalião e Galatéia, Henry Higgins
e Eliza Doolittle apaixonam-se pelas mulheres que produziram, mas
isto não é o que ocorre com Gepetto, e menos ainda,
com Hobby, que passou adiante a responsabilidade de enfrentar a
experiência de amar e ser amado para permanecer no lugar de
observador. David não era um Pinóquio, mas via-se
dentro da sua história depois de ouvi-la e de receber o livro
que lhe havia sido sadicamente proposto pelo "irmão".
Teddy, disputado pelos dois meninos, um "orga" e outro
"meca", mesmo sem ter sido programado para amar e sob
a forma de um urso de pelúcia, comportava-se como ser humano.
Seu papel era o de desempenhar a função de consciência/grilo
falante para David, mas suas iniciativas iam além deste encargo
e sua fidelidade a David era espontânea e generosa.
Seguindo as escolhas de Spielberg, espelhos proliferam, insinuando
o clima constante de cativação narcísica dos
personagens que se dissolvem nos seus reflexos, se multiplicam pelas
superposições virtuais nas vidraças ou tem
seus rostos enquadrados ou dissolvidos em máscaras. Assim
mesmo, em AI, existem momentos em que podemos pensar que estamos
diante de uma forma de amor evoluída. No entanto, aqueles
que dão mostras deste tipo de amor não são
os humanos, mas os robôs Gigolo Joe e o ursinho Teddy[2].
III
Monica imita o papel que, na teoria psicanalítica, caberia
ao pai ou, melhor, a uma figura que ainda não tem traços
de homem ou de mulher, de pai ou de mãe na identificação
primária. A relação entre ela e David também
imita a relação dual da mãe com o seu bebê.
São imitações, apenas.
Brian Aldiss, autor do pequeno conto sobre David, se questiona
sobre "o que, exatamente, teria feito com que um homem com
a inteligência de Kubrick dedicasse vários anos de
sua vida para transformar uma vinheta em um filme? Por quê
ele estava obsessivamente engajado nisto?" Aldiss acredita
que por trás da superfície da história de David,
"como nas várias histórias de ficção
científica, encontramos uma história humana comovente".
Exatamente. Depois de ter me comovido devidamente com o re-encontro
de David e sua mãe, fiquei assustada com a força sugestiva
do cinema que me permitiu esquecer, mesmo que por instantes, a violência
que permeia um vínculo como aquele.[3]
O pequeno robô David não conseguia agradar sua mãe,
apesar de todas as tentativas. Pergunta-se Aldiss: "Será
que foi o drama do amor rejeitado que tanto comoveu Stanley? Repensando,
concluo que - sem disso ter me dado conta na ocasião - esta
tinha sido a minha própria motivação ao escrever
o conto. Eu fui um garoto como ele " ...
A principal divergência entre Kubrick e ele a respeito da
história dos superbrinquedos, era a de que Kubrick desejava
dar uma torção no enredo para elaborar uma trajetória
que se assemelhasse à de Pinóquio. Aldiss confessa
que " não conseguia ou não queria ver os paralelos
entre meu andróide de cinco anos e a criatura de madeira
que se torna humana. Stanley pretendia que David se tornasse humano
e queria, ainda por cima, que a Fada Azul se materializasse".
O filme A.I. foi escrito e dirigido por Stephen Spielberg, filme
do qual Stanley Kubrick havia se ocupado desde a época em
que comprou o conto de Aldiss em 1982, até sua morte em 1999.
Numa entrevista à imprensa, Spielberg afirmou que "Stanley
tinha uma visão para este projeto que veio evoluindo ao longo
de dezoito anos. Tenho a intenção de trazer esta visão
à tela na medida do possível ao lado de alguns elementos
próprios". Não apenas Aldiss, outros escritores
também ocuparam-se da tarefa de ampliar o conto para transformá-lo
em um longa-metragem: Bob Shaw, Sara Maitland e Arthur Clarke. A
idéia do método para ativar a consciência de
David e a da cláusula sobre seu amor irreversível
por aquele que o programasse não veio nem de Aldiss, nem
de Kubrick.
Nem os pais de David, nem a sociedade a qual pertencem estão
detalhados de um modo crítico ou minimamente representativo
no conto e no filme. Segundo a crítica Donna Ross Hooley
( What´s Past is Prologue:Dilemmas in Brian W. Aldiss´
"Super-Toys Last All Summer Long") a intenção
de Aldiss teria sido, realmente, a de oferecer "percepções
fugazes" e introduzir as "garçonetes da verdade"
que, segundo o próprio Aldiss, freqüentemente apresentam
"coisas que podem parecer plausíveis, mas que não
são críveis" ( as Aldiss says, short stories
are "fleeting perceptions", "mayfly", "lower-table
handmaidens of the truth that often present "things (that)
may seem plausible which are not really credible"). Para Hooley,
no entanto, a falta de credibilidade e a natureza simplista dos
tipos e do cenário serve a uma função dupla
porque "artisticamente, os momentos de realidade se destacam
com relevo contra um fundo apenas esboçado e um certo tipo
de vaudeville vai ao encontro de verdades universais de um modo
simultaneamente cativante e surrealisticamente vívido".
Hooley mantém que esta teria sido a intenção
de Aldiss, a de oferecer personagens caricatos, ou melhor, alegorias.
Sua defesa das qualidades do conto e, por extensão, do roteiro
do filme vai além: mesmo que a sociedade do futuro esteja
sendo apresentada em cartum, " a história prova que
as pessoas repetidamente deixam de considerar os outros como seres
humanos, mas os vêem como objetos para comprar e vender, escravos
para usar como se usam animais(...) Enquanto esta história
tem ramificações associadas ao desenvolvimento da
inteligência artificial, (...) seres humanos pensantes também
precisam formular e discutir questões ligadas ao fato de
que a humanidade tem uma capacidade infinita para ver apenas as
facetas das coisas que nelas despertam preconceitos e desejos, para
agir de acordo com eles". Para Aldiss "mudanças
na tecnologia causam mudanças na filosofia e na percepção"
e, se a família Swinton "trata David como objeto de
sua propriedade, na função do escravo, independentemente
de ser ele um ser sensível ou não, seu impacto sobre
a família será o mesmo que o promovido por uma criança
problemática" ( cf.citado por D.Hooley).
Donna Hooley destaca um ponto crucial quando ela descreve a relação
entre Henry, Monica e David como sendo o resultado de uma relação
entre pais e filhos fundamentalmente perversa. Seja como um libelo
consciente contra a des- humanização das sociedades
no futuro, seja como um retrato, não intencional dos perigos
que o avanço da tecnologia pode representar para a humanidade,
de qualquer maneira o filme A .I. nos oferece um belo espetáculo
que corteja as perversões e que acaba sendo montado de um
modo igualmente tecnológico e perverso.
Fora a programação dos robôs, que se constitui
simplesmente dos códigos binários que servem como
comandos/inibições das ações, a lei
que interdita e determina proibições e desejo, e que
se expressa a partir da inserção do indivíduo
no grupo social e na linguagem, não tem lugar. David, por
sua vez, obedece cegamente ao programa nele implantado por Monica
através do Prof. Hobby, que o mantém preso a ela,
desconsiderando seu pai que não tem meios para reconhecer
ou recursos para com ele se identificar. As brincadeiras que os
colegas de turma do seu irmão humano fazem com ele, mostram-no
excluído do convívio escolar com outros garotos e
ilustram como, apesar de ser um menino, David também não
tem um orgão reprodutor que o convoque para prazeres proibidos
ou que possa ter medo de perder. As relações humanas,
como elas se dão neste filme, não passam de simulacros
e seus personagens, talvez até mesmo seus espectadores, são
transformados em consumidores e em bens de consumo, nada mais.
IV -
As máquinas são construídas a partir das palavras
e algumas se constituem apenas de palavras. Ainda por cima, as máquinas
tem uma inteligência própria, mas não sei se
isto caracterizaria sua "inteligência" como "artificial",
porque também não sei o que a "inteligência
natural" é. O mundo humano se constrói com palavras
e estas não se encontram em estado natural[4] .
Seja Monica um ser humano ou um robô, de qualquer maneira
ela será o produto de uma ficção. Lacan destacou
que entre os gregos a verdade não tinha a mentira como seu
oposto porque, para eles, o contrário da verdade seria a
aparência que ele, Lacan, designou por "semblante".
No entanto, ele também ressaltou que não temos acesso
à verdade enquanto tal e que vivemos no mundo de aparência
tendo a verdade como ficção. E será que a ficção
Monica Swinton se aproxima de outras ficções de carne
e osso que conhecemos, ou será que o casal Monica e Henry
se assemelha aos casais que encontramos a nossa volta?
Não acho que seja útil imaginarmos como seriam os
casais no futuro porque há imprevistos demais, tantos quantos
os que fizeram com que o casal de torres do World Trade Center fossem
a única silhueta reconhecível da cidade de Nova Iorque
( deve ter sido idéia de Spielberg localizar nos Estados
Unidos a fábrica dos Meca e de retratar a sociedade norte-americana!).
Será a tecnologia a força que nos des-humaniza ou
este processo já vem acontecendo em paralelo aos avanços
tecnológicos?
Seja Monica humana ou robô, será que as experiências
que ela vive caracterizam um esquema que poderíamos enquadrar
na "máquina/psicanálise" como constituindo
um modelo edípico familiar? Será que ela precisa agir
conforme a conduta própria a uma boa mãe (ou, pelo
menos, reconhecível enquanto "mãe inadequada")
para podermos avaliar psicanalíticamente o drama de David
? Um robô atravessa ou elabora algo como o Édipo? Que
David tenha ciúmes do irmão e que abrigue mágoas
narcísicas não há dúvida, ou que sofra
traumas. Animais também tem ciúmes e sofrem traumas.
Mas, obviamente, sua vida "narcísica" não
se assemelha ao narcisismo humano. Eles amam o que parece ser-lhes
semelhante e combatem o que sentem como estranho e diferente, assim
como nós, muito embora eles não se apaixonem pela
imagem de si mesmos: os animais não se enxergam. E David?
A impressão que tenho é de que, apesar de tantos espelhos,
David também não se enxerga nem como robô nem
como criança, ao contrário do outro robô, Gigolo
Joe, que mostra saber se situar com clareza no espaço dos
robôs e reconhecer o que o faz ser diferente deles.
Aquilo que me atrapalha para empregar o modelo freudiano do Édipo
para a leitura desta história começa pela paródia
de "programar David" porque ali não há lugar
para a inclusão de Henry enquanto pai. David deve permanecer
como robô porque foi programado para um mundo dual de relacionamento
e nada mais existe fora disto. No filme, Prof. Hobby acha que sua
experiência foi um sucesso, mas ele não considera a
participação de Teddy ou de Gigolo-Joe como suficientemente
significativas para atrapalharem aquilo que ele toma como sendo
um exemplo da capacidade de planejar em David, ou de perseguir seus
sonhos. Além disso, o sonho do menino não era o de
alcançar a fada azul, mas de chegar à mãe através
dela. Talvez pudéssemos pensar que Monica era a sua fada
azul e que o sonho dele de fato seria o de alcançar a fada
azul, ou seja, sua mãe, como nas etapas que antecedem a constituição
do triângulo edípico. E, afinal, não cabe à
fada azul transformar um boneco em menino? E não foi isso
que Monica conseguiu quando o programou para amá-la?
Temos ainda outra dificuldade, esta quanto ao mundo da inteligência
artificial de David. Ele não é capaz de se desprogramar
ou de esquecer. Seja recalcamento, repressão ou mero esquecimento,
mecanismos deste tipo não foram incluídos na sua programação.
Um bebê pode amar a mãe como se ela constituísse
o universo, mas com o passar do tempo ele vem a amar o pai também,
e a odiar pai e mãe, assim como vai a amar e odiar outras
pessoas. David, não. O principal fator que constitui o mundo
do bebê, enquanto ele se desenvolve e cresce, reside na sua
capacidade para esquecer ora de uma coisa, ora de outra e, finalmente,
de abandonar/substituir pai e mãe. A trajetória de
David é toda determinada para buscar a mãe incessantemente
e para receber a influência de um pai desconhecido que o atrai
para si por meio de artifícios. David não pode nem
esquece-los, nem abandoná-los.
Enquanto observa as pessoas que saem de uma igreja Gigolo Joe observa:
"os seres humanos que nos criaram buscam este lugar para descobrirem
quem foi que os criou". Quando o antropólogo Levi-Strauss
retomou a história de Édipo, ele destacou o dilema
humano que vem associado à investigação sobre
as próprias origens. Contudo, neste nível mais abrangente,
não se trata do que vai sendo descoberto enquanto Édipo
investiga o sentido da profecia do oráculo de Delfos, ou
decifra o enigma da Esfinge (quem sou eu? De onde vim?). Nos mitos
a questão situa-se em uma outra encruzilhada para onde convergem
duas perguntas: o homem terá sido criado a partir de um único
indivíduo, como autóctone ou como clone, ou terá
ele surgido da conjunção de um casal pela da troca
de substancias sexuais, um filho gerado por um pai e por uma mãe?
Há uma perplexidade, como a descrita por Gigolo Joe, permeando
várias cenas do filme A.I., como se tanto Kubrick como Spielberg
tivessem se deparado com um cruzamento mítico desta ordem,
mas dali buscassem principalmente aquelas pistas que lhes abrissem
novos caminhos para sua elaboração edípica
particular, rompendo a prisão do tempo congelado no gozo
perverso. Quem sabe Aldiss não estivesse com razão
ao recomendar a Kubrick: Nunca re-escreva deliberadamente velhos
contos de fada". Uma versão moderna do dilema mítico
das origens do homem em ficção científica que
explorasse o mundo do futuro, teria dado uma dimensão especial
a este filme, quase grandioso, quase lindo.
Na teoria freudiana, a questão sobre a reprodução
assexuada ( no caso dos clones, por exemplo ) ou sexuada oferece
várias leituras. A mais conhecida, e que encontramos também
em "A .I" é aquela na qual se nega a sexualidade
e o erotismo dos pais[5], para privilegiar seja a dimensão
do édipo oral descrito por Melanie Klein ( quando, por exemplo,
a competição entre pai e filhos se expressa através
da rivalidade alimentar ), ou as angústias da cena primária
( "o que papai e mamãe estarão fazendo juntos
e sozinhos no quarto?" ), o controle do erotismo anal ( no
caso do filme A .I, há uma cena em que Monica está
no banheiro, sentada num vaso sanitário onde David, dando
prosseguimento ao jogo de esconde-esconde, a surpreende ) e o domínio
fálico triunfal ( "papai não existe porque ele
não tem importância. Minha mãe obtém
todo seu prazer da relação comigo" ) .
Podemos deixar de lado a análise do que motivou Aldiss,
Kubrick ou Spielberg na construção deste enredo, para
nos determos na figura do personagem por eles elaborado, o Prof.
Hobby[6]. A propagação da estrutura perversa nos vários
relacionamentos apresentados pelo filme se inicia com a perturbação
deste cientista, incapaz de conceber o amor sexual de um homem por
uma mulher senão como atividade mecânica que pode muito
bem ser desempenhada por robôs, ou de entender o luto incompleto
de Monica e, acima de tudo, por não saber reconhecer sua
dor pela perda do filho. A idéia de reproduzir a criança
morta não apenas enquanto um tipo de robô programado
para amar, mas de realizá-lo em série e indiscriminadamente,
enquanto menina ou menino ( como se bastasse mudar sua roupa ou
o corte dos cabelos ) para servir de objeto de consumo, armazenando
substitutos para cada boneco devolvido à Meca e destruído,
expressa uma organização perversa. Nem os sentimentos
dos pais, ou aqueles que foram instalados no robô são
levados em conta. As conseqüências éticas da sua
criação são afastadas com argumentos fáceis,
como quando ele passa por alto o questionamento de uma das suas
alunas. O impacto sobre a estrutura social e a organização
familiar de uma tecnologia capaz de produzir um brinquedo para adultos,
também não é levado em consideração.
A des-humanização pela tecnologia e a destruição
dos laços sociais denunciada por Aldiss encontra, deste modo,
a sua síntese no Prof. Hobby, neste indivíduo que
transforma o que o cerca em uma caricatura de tudo aquilo que é
precioso no mundo humano: homens e mulheres, crianças, brinquedos,
pais, filhos, sexo, amor e respeito enquanto elementos constitutivos
da vida social.
V-
Quando Luiz Fernando Gallego destaca que o conjunto da obra de
Kubrick nos permite entrever em alguns filmes, como em "2001",
o prenúncio de outros, como A .I., ele também chama
nossa atenção para o fato de que, em Kubrick, surgia
"uma forma de inteligência artificial que aparentava
mais nuances emocionais do que os astronautas humanos", o que
ele associa ao "mal-estar das vicissitudes narcísicas
para a constituição do self". Será que
o "self" a ser constituído tem que ser um "self"
humano, ou seja, serão apenas os humanos, mas não
os robôs capazes de emoção e consciência,
os que teriam um "self"? Até que ponto, pergunto,
poderíamos distinguir robôs e seres vivos quando ambos
têm em comum uma determinação que se faz através
de uma linguagem em comum? Esta pergunta também interessa
ao que vínhamos desenvolvendo sobre a questão das
origens: por nascerem "já prontos" e porque se
originam em um programa criado por seres humanos, será que
os robôs terão um registro totalmente diferente do
nosso no que diz respeito às suas experiências conscientes/inconscientes
e à sua história particular?
No caso do filme A .I o pequeno David tem dois começos (
duas origens). No primeiro, ele é um robozinho quase comum,
incapaz de sentimentos e sem ter um direcionamento para pensamentos
e atos fora aqueles que tiverem sido estimulados pelos comandos
nele instalados ou que forem ativados a cada instante pelo proprietário.
No segundo[7], David recebe um implante que o associa permanentemente
a um ser humano, adquirindo uma relativa liberdade para buscar outros
caminhos que venham lhe garantir sucesso na ordem de "amar
à mãe", com seu desvio conhecido: "desejar
ser amado de volta" ( o amor narcísico, aquele amor
pelas imagens e espelhos, exige sempre retorno e retribuição.
Posto em questão ou frustrado, ele eclode em "fúria
narsícia", igualmente intensa ).
Gallego cita a descrição que Aldiss oferece sobre
seu conto: " a história de um garotinho que não
consegue agradar à mãe, por mais que se esforce; e
que fica confuso com as reações dela por não
perceber que ele é um andróide" e nesta, realça
o desencontro que torna impossível se "pensar em David
sem pensar em sua 'mãe', ou sem refletirmos, do ponto de
vista dela, sobre o porque de sua rejeição".
Na história de Aldiss, David não se percebe como
sendo um andróide, ao passo que no filme, ele não
apenas não o percebe como continua ignorando todos os indícios
da sua condição andróide, mesmo sendo constantemente
lembrado de que ele e Teddy são meros brinquedos ou quando,
ao competir com seu irmão na hora de comer espinafre acaba
tendo que ser operado (sem anestesia) para limpeza dos seus circuitos.
Acho este aspecto do filme bastante instigante porque não
são apenas andróides os que recusam a realidade interna
e externa e a insistência de David para tomar-se como "menino
de verdade", apesar de continuar infeliz por desconhecer o
motivo pelo qual era rejeitado pela mãe, tem um não
sei quê de humano! ( Pinóquio, aliás, não
sofria por causa de um amor rejeitado, sequer tinha mãe ).
Para nos sabermos andróides teríamos que ter alguma
referência sobre o que é não ser um andróide.
Todas informações implícitas que David recebe
fazem dele um menino, apenas as explicitações, estas
que apenas lhe chegam de fora para dentro, é que o informam
o contrário. David confia mais no que sente do que naquilo
que lhe dizem. Várias pessoas, e mesmo Gigolo Joe, o vêem
mais enquanto criança do que robô, tanto que na "feira
da carne" seu promotor quase é morto ao apresentá-lo
ao público para ser destruído. Como observa Gallego,
Gigolo Joe "propicia a David a ilusão de que ele possa
crescer ( e encaminhar clientes para ele )".
Concordo com Gallego sobre ser necessário pensar em David
em sua conexão a sua mãe, principalmente quando entendemos
que ela o rejeita por que " David funciona para ela, supomos,
como um 'fantasma' de um filho que ainda não morreu, a antecipação
de uma perda, a substituição que não seria
feita se o filho vivesse". Também penso, como ele que
" a relação primária de David não
se passou através de Monica, mas do professor Hobby e seu
amor louco e inconseqüente ao brincar com os sentimentos de
seus mecas e ao tamponar seu luto pelo filho morto, o David-orga
modelo", embora hesite sobre o emprego da expressão
"relação primária", também
por quê, mas adiante Gallego irá reconhecer que David,
apenas ao final da trama "pode se sentir um semelhante através
do vínculo e subseqüente afiliação"
à Monica e não, Hobby.
Para L.F Gallego, David se tornou mais humano não por amar
ou sonhar, como o esperava Hobby porque sua humanização
aconteceu quando ele pôde aceitar a finitude e morrer, depois
de uma trajeteória de experiências que lhe permitiram
ligar-se à Monica de uma maneira nova [8].
Nos filmes Toy-Story, I e II , que nada tem a ver com as produções
de Spielberg e sim, dos Studios Disney, há vários
momentos semelhantes ao A.I., onde encontramos um menino que desagrega
seus brinquedos e cria pequenos monstros a partir das peças
desencontradas, como nas cenas da lua e da "feira da carne"
, ou como quando Buzz Lightyear se depara com centenas de outros
bonecos iguais a ele. No filme Toy-Story fica claro que Buzz só
se tornou único, distinto dos seus iguais, porque teve um
dono que o amava e que assinou o nome na sola da sua bota. Neste
ponto vale recordar que L.F Gallego, comentando o filme A.I, destaca
a importância de conhecermos não apenas David, isoladamente,
mas sua relação com a mãe (" é
impossível se pensar em David sem pensar em sua mãe"
), uma vez que é fundamental para o bebê e ao seu desenvolvimento
que ele possa não apenas amar, como ainda sentir-se amado
( sentimento ausente em Monica, Henry ou Prof.Hobby e que chegou
até ele pela gratidão de Gigolo-Joe, a "fadinha"
( fairy ) que lhe daria a mão para atravessar os perigos
da sua busca à outra Fada, conforme revelação
do poema apresentado pelo Dr. Know ) .
Outro filme que tangencia uma das idéias de A .I é
" A Era do Gelo", no qual o mergulho no tempo se faz para
o passado e onde um esquilo corre incessantemente atrás de
uma noz, sempre frustrado no último momento, até ficar
congelado no próprio movimento de esticar a pata para alcançá-la.
Assim como em "A .I", quando David se congela diante da
estátua da Fada Azul, o filme ainda continua por mais algumas
tomadas, mas ao contrário de "A .I", em que David
recupera Monica e encontra o simulacro da Fada Azul, em " A
Era do Gelo" vemos que o esquilo continua sem agarrar a noz,
mas sem dela abrir mão. Outra vez temos, em "A .I",
uma apresentação patológica do que é
o movimento desejante que impele o homem para sair em busca do impossível:
este ridículo esquilo, mais do que David emerge como sendo
um representante daquilo que mais se aproxima dos impasses que vivemos.
Na minha opinião, falta acrescentar ao caminho de humanização,
a hipótese de que David, robô entre robôs, portador
de um segredo sobre os seres humanos há muito extintos e
que os robôs do futuro cobiçavam conhecer, teria aprendido
que existem segredos, intimidade, esquecimento e, principalmente,
o inconsciente.
[1] - Texto para debate sobre " As Vicissitudes do Self e
as Construções do Amor a partir do filme A .I"
do projeto " Psicanálise e Cinema" da S.B.P.R.J,
Rio de Janeiro, 30 de agosto de 2002.
[2] - Logo na primeira fala Teddy reclama para avisar, como também
o fará David, que "não é um brinquedo".
[3] - Violência esta que surge no conto de Brian Aldiss,
sem o menor disfarce, quando David ciumentamente se vinga e a destrói
completamente, desmanchando seu mundo imaginário e precipitando-a
numa queda mortal no abismo da sua vida vazia.
[4] - Para Kubrick, cf. citação de L.F.Gallego em
seu artigo " A .I - Quando superbrinquedos duram mais que um
verão", " o cinema trabalha num nível mais
próximo da música e da pintura do que da palavra impressa,
oferecendo a possibilidade de transmitir conceitos e abstrações
complexas sem o apoio tradicional da palavra". Vale notar que
Kubrick distinguiu a palavra falada da palavra impressa, provavelmente
permitindo que entendêssemos que a transmissão de abstrações
complexas sempre irá exigir uma interpretação
verbal feita a posteriori .
[5] - Ao fazer sua apresentação aos alunos, Prof.
Hobby não sabe dar outro exemplo para o amor ideal que pretende
implantar nos seus robôs senão o de de uma criança
pelos pais.
[6] - Hobby também era o nome da empresa que detinha os
direitos autorais deste conto de Aldiss e daquilo que se viesse
a produzir dele no cinema.
[7] - Na "Feira da Carne", quando o patrocinador do show
investiga qual tipo de robô David seria perguntando-lhe "qual
foi seu Criador", ele responde insistentemente que quem o fez
foi Monica, sua mãe. Quando o irmão Martin tenta descobrir
qual seria a lembrança mais antiga de David, este desenha
o logotipo da fábrica "Meca", sua primeira marca
mnêmica . Uma adição ao roteiro, e que talvez
venha de Spielberg, aumenta este equívoco quando, no seu
reencontro com a reconstituição de Monica, David sopra
velinhas de um bolo de aniversário
[8] - Depois de ter sido abandonado numa floresta, ele não
perdeu sua confiança nela, nem a esperança de voltar
a recuperá-la. No segundo encontro ele sabia que estava se
despedindo dela para sempre. Este episódio representa a própria
situação vivida por Monica por não poder abandonar
seu filho congelado, nem chorar sua perda .
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