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DO HUMOR E DO GROTESCO NA PSICANÁLISE[1]
Daniel Kupermann[2]
Para Miguel, por sua risada contagiante.
I. De como desaprendemos a rir: a sociedade “depressivo-humorística”
Se considerarmos o diagnóstico de que vivemos em uma “sociedade
depressiva”, como propõe Elizabeth Roudinesco em Por
que a psicanálise?, é plenamente justificado o resgate
do humor – talvez a maior das “virtudes”[3] freudianas
–, por parte dos psicanalistas. Seja nas tentativas de compreender
metapsicologicamente o fenômeno, bem como nos questionamentos
sobre a pertinência da sua presença na clínica,
e mesmo na transmissão da psicanálise, tomada por
uma “seriedade” opressora e esterilizante já
denunciada entre nós (cf. Kupermann, 1999; cf. Slavutski,
2000). Afinal, se a depressão - e suas variantes mais brandas,
como a distimia, o “mau humor crônico” - tornou-se
de fato a epidemia psíquica das sociedades democráticas,
pode-se facilmente concluir que falta, em nossa cultura, humor e
prazer em viver. A “sociedade liberal depressiva”, através
da aliança com a indústria da medicalização
da alma, terminou por fabricar, segundo Roudinesco (2000, p.17),
“um novo homem, polido e sem humor, esgotado pela evitação
de suas paixões, envergonhado por não ser conforme
ao ideal que lhe é proposto”. A contemporaneidade seria
caracterizada, portanto, pelo espectro da derrota do sujeito: “em
lugar das paixões, a calmaria, em lugar do desejo, a ausência
de desejo, em lugar do sujeito, o nada, e em lugar da história,
o fim da história” (ibid., p.41).
No entanto, e de maneira surpreendente, Gilles Lipovetsky demonstra,
em A era do vazio, que vivemos em uma “sociedade humorística”,
na qual se assiste a um desenvolvimento generalizado do código
e do estilo humorístico, que dominam campos bastante heterogêneos,
desde a publicidade aos slogans das manifestações
políticas; da moda aos artigos científicos ou filosóficos
produzidos dentro e fora das universidades; da arte aos meios de
comunicação de massa. Sobretudo o terreno das relações
interpessoais é caracterizado por um clima irreverente, onde
a espontaneidade passa a ser o valor privilegiado. Nada deve ser
pesado ou sério; uma democratização jamais
vista nas relações pessoais e institucionais tende
a abolir qualquer hierarquia; por outro lado, também, ninguém
deve se levar muito à sério. A orientação
geral é a de que a vida deve ser vivida de modo cool, ou
light, isto é, sob a bandeira da descontração.
Mas, ao contrário do que pode parecer, não há
uma real oposição entre o diagnóstico de Roudinesco
e a leitura sócio-antropológica de Lipovetsky. A depressão
na contemporaneidade, afirmada por Roudinesco, é efeito da
descrença e da falência dos ideais universalistas modernos
que tinham possibilitado, até meados do século XX,
o engajamento dos indivíduos em projetos comuns marcados
pelo signo do confronto e da revolta contra os sistemas totalizantes
que tolhiam sua expansão erótica. Com a crescente
influência do biopoder sobre as subjetividades, passou-se
“da era do confronto para a era da evitação,
e do culto da glória para a revalorização do
covardes” (op. cit., p. 16). Trata-se agora de evitar qualquer
litígio, em nome do bem-estar definido por uma cultura na
qual a adaptação e o sucesso pessoal são os
alvos almejados – a depressão sendo o seu negativo,
a contraface da moeda do culto ao eu. No imaginário vigente
na sociedade depressiva, o conflito caducou, o sofrimento psíquico
passa a ser entendido como tendo uma causalidade orgânica,
e a psicanálise e sua busca de sentido para o mal-estar revelado
através do sintoma, é acusada de ter criado mofo.
Ora, a “sociedade humorística” descrita por
Lipovetsky apresenta a mesma tônica: ausência de conflitos;
impossibilidade de revolta; descrença. “O humor fun
e descontraído passa a dominar (...) quando já ninguém,
no fundo, acredita na importância das coisas” (1989,
p.149). O humor vigente é acrítico e gratuito, “humor
de massa” próprio de uma sociedade hedonista na qual
é o instrumento privilegiado para a promoção
de uma proximidade cordial e de uma atmosfera de comunhão
liberta de tensões. O humor pós-moderno é,
assim, uma espécie de lubrificante social. Mas a descontração
generalizada é proporcional à falência de projetos
comuns e ao desinvestimento das possibilidades de transformação
social. “A descrença pós-moderna, o neo-nihilismo
que ganha corpo”, escreve Lipovetsky (ibid., p.128), “não
é nem ateu nem mortífero, mas doravante humorístico”.
Decerto não é esse o humor descrito por Freud, inicialmente
no último capítulo de “Os chistes e sua relação
com o inconsciente” (1905), e retomado em 1927 em “O
humor”. Ao contrário, o humor freudiano, dotado de
uma dignidade particular, sobretudo “não é resignado,
mas rebelde” (ibid., p.191, grifo nosso). Longe de ser descrente
e niilista, é a afirmação radical do sujeito
frente à adversidade, representada, no exemplo preferido
de Freud, pela figura inexorável da morte. A anedota é
conhecida, contada e recontada. Um criminoso que estava sendo levado
à forca em uma segunda-feira comenta: “É, a
semana está começando otimamente”. Humor triunfal,
jubilatório e alegre, é também levemente triste
em sua lucidez e tragicidade, o que em nada o aproxima do cinismo
e da depressão francamente masoquistas indicados por Lipovetsky
e Roudinesco. O humor freudiano, em sua associação
íntima com a morte, é tragicômico.
Alguns episódios biográficos, especialmente do período
final da sua vida, quando lutava já há bastante tempo
contra um sofrido câncer e assistia ao advento do nazismo,
ilustram o valor do humor como virtude combativa, e revelam a tonalidade
de desafio sublime que detinha para Freud. É inesquecível
sua “tirada” ao saber que seus livros estavam incluídos
nas queimas realizadas nas praças públicas das cidades
e centros universitários alemães, em 10 de maio de
1933: “Que progressos estamos fazendo. Na Idade Média,
teriam queimado a mim; hoje em dia, eles se contentam em queimar
meus livros” (Gay, 1989, p.536). Às vezes, o humor
pode ser também profético.
Esse humor espirituoso, tem suas raízes no Witz (“espírito”)
que mereceu o elogio dos filósofos e escritores vinculados
ao Romantismo, cujo centro irradiador foi a cultura alemã.
Nesse contexto, herdado por Freud, o humor era verdadeiramente investido
como um instrumento de emancipação intelectual e política.
No início do século XIX, Jean Paul, pensador influente
no movimento, citado por Freud em seu livro sobre os chistes, elogiava
a força criadora do humor e, frente a constatação
de uma inércia psíquica da mentalidade alemã,
apostava em “cultura chistosa” (witzige Kultur) de modo
a que as antigas idéias pudessem ser transformadas, produzindo
o novo na Alemanha. Ao estabelecer uma analogia entre o movimento
do pensamento e a decomposição no campo da química,
Jean Paul termina por aproximar a sua concepção do
poder do chiste em produzir novas idéias da concepção
freudiana de interpretação: “A novas idéias
pertencem [idéias] inteiramente livres; a essas, novamente
[idéias] iguais, e só o chiste nos dá liberdade,
na medida em que, de antemão, ele dá igualdade; ele
é, para o espírito, aquilo que, para a química,
são o fogo e a água; Chemica non agunt nisi soluta
(só o líquido dá a liberdade para nova formação
– ou: só corpos desmembrados produzem novos)”
(apud Alberti, 1999, p.171).
Mary Lee Townsend (1997) demonstra ainda a importância do
humor na constituição de uma esfera pública
durante as transformações políticas e sociais
que ocorreram na Alemanha do século XIX, quando havia uma
espécie de orgulho nacional em torno do “espírito”
berlinense (Berliner Witz) e Berlim era saudada pelos guias como
“cidade-mãe da graça”. A repercussão
do Witz em Viena estava, de resto, afinada à cultura germânica,
e Simon-Daniel Kipman (1994, p.62) ressalta que “na época
de Freud, nesta Viena magnífica e decadente, o dito espirituoso
está na moda e os grandes humoristas são famosos.
O humor que apaixona é ao mesmo tempo leve e cínico;
faz rir e demole os próprios fundamentos de uma sociedade
que se arruina”.
A leveza e o cinismo crítico próprios do humor que
fazia rir nos cafés da Viena imperial estão bem distantes
do cinismo desencantado da pós-modernidade, no qual vigora
a dessubstancialização e a banalização
esterilizante. “O humor aqui já nada tem a ver com
o espírito”, ressalta Lipovetsky (1989, p.131), “como
se tudo o que tivesse uma certa profundidade pusesse em perigo o
ambiente de proximidade e de comunhão. O humor, doravante,
é aquilo que seduz e aproxima os indivíduos”.
O homem individualista produzido na pós-modernidade apresenta,
cada vez mais, “dificuldade em ‘rebentar’ de riso,
em sair de si, em sentir entusiasmo, em entregar-se à jovialidade”
(ibid., p.137). O humor de massa contemporâneo seria, assim,
a pálida atualização do riso contagiante que,
da Antiguidade ao Renascimento, acompanhou as festividades populares,
e no qual o Romantismo buscou inspiração para a libertação
do espírito. Teríamos nós, de fato, como sentenciou
Nietzsche, desaprendido a rir?
II. Humor, transgressão e estética
O que é risível para Freud? Se seguirmos as indicações
ao longo da sua obra, encontraremos: a piada, ou seja, a manifestação
das pulsões sexuais e agressivas que se encontrava inibida
pelo recalque (1905) – nesse sentido, também a interpretação
do analista, por seu efeito liberador, pode fazer rir, o que é
discretamente sublinhado em uma nota de rodapé do livro sobre
os chistes (ibid., p.195); o parricídio, considerando que
o banquete festivo no qual o pai da horda é devorado após
ser morto está na origem de todos os festivais e carnavais
posteriores (1913[12-13]); e a morte, motivo de pilhéria
para o humorista (1927).
Em comum a esses três momentos nos quais o riso é de
forma mais ou menos explícita abordado por Freud, encontra-se
a marca da transgressão. Na piada, há uma “transgressão
autorizada” na qual a suspensão do recalque permite
que se obtenha uma certa cota de satisfação pulsional,
ao mesmo tempo em que se reafirma o laço social. O parricídio
é, por sua vez, na antropologia mítica freudiana,
o ato criminoso que permitirá, simultaneamente ao seu acontecimento,
a instauração da ordem social; ou seja, transgressão
e lei estão originalmente associadas no momento do nascimento
da cultura. Assim, o festival, ou o “mundo do sagrado”
(cf. Bataille, 1988) ao qual originalmente pertence o riso é,
ao mesmo tempo, transgressão das regras que regem o funcionamento
social – o mundo utilitário do trabalho - e rememoração
do vínculo afetivo que sustenta o laço cultural. Daí
a necessidade, indicada por Freud, de ser repetido de tempos em
tempos. Já o humorista, por sua vez, ao brincar com a iminência
da morte, transgrediria o princípio de realidade em benefício
do “princípio do prazer”, autorizado pelo superego
amistoso que, nesse caso, passaria a servir a uma “ilusão”
(Freud, 1927).
Mas o estatuto da “ilusão” produzida pelo humor
é ambíguo, uma vez que, em Freud, não há
nada mais restritivo do que a ilusão idealizadora, como se
encontra em “O futuro de uma ilusão”(1927a).
No entanto, o humor é afirmado como “liberador e enobrecedor”
(1927, p.194). Além disso, a marca da rebeldia própria
do humor indica uma de suas principais características: a
irreverência que visa atingir toda pretensão de verdade
totalizante, ou seja, o ato humorístico consiste principalmente
em uma desidealização. O humor parece apontar assim
para um paradoxo no qual o ato promotor da desidealização
é também aquele que constitui a possibilidade da emergência
de uma nova ilusão[4]. Nesse sentido, ao dizer que o humorista
deverá “identificar-se até certo ponto com o
pai”, Freud (ibid., p.191) parece estar sugerindo que o humorista
se autoriza a saber e a transmitir o saber de que o lugar do pai
está vazio, bem como a denunciar a farsa pretendida por toda
onisciência (desidealização); ao mesmo tempo,
o humorista experimenta o desamparo suscitado pela ausência
inexorável do pai protetor com alegria jubilosa, como índice
da liberdade criativa proporcionada pelo movimento desejante (ilusão),
bem distante da “nostalgia do pai” indicada desde “Totem
e tabu”.
Essa dupla face de Janus, própria das formas do cômico,
adquire sua plena potência com o enigma provocado pelo humor
no pensamento freudiano: onde se esperava a angústia de castração,
sabe-se o tempero do riso e da irreverência transgressora;
onde se espreitava a paralisia impotente, irrompe a potência
da alegria. Porém, isso só pode ocorrer porque há
uma estética específica atuante no procedimento humorístico
(e também nas piadas), um “bem dizer” que é
essencial para o efeito produzido.
Retomando o exemplo do condenado, Freud (1905) ressalta que uma
reflexão de cunho filosófico sobre a grandeza dos
interesses do universo comparada à própria pequenez,
com vistas a descartar os afetos dolorosos, certamente não
conseguirá obter o prazer humorístico. O “conteúdo”
do dito humorístico “é, a semana está
começando otimamente” poderia ser enunciado “filosoficamente”
da seguinte forma, imagina Freud (1927, p.190): “Isso não
me preocupa. Que importância tem, afinal de contas, que um
sujeito como eu seja enforcado? O mundo não vai acabar por
causa disso”. Esse discurso, apesar de apresentar “a
mesma magnífica superioridade sobre a situação
real” presente no humor[5], não tem a menor graça,
ou seja, não produz prazer nem movimento psíquico.
Assim, o sentido e a eficácia do dito humorístico
não podem ser reduzidos a nenhum significado ou “conteúdo”
suposto, dependendo de uma determinada forma de dizer que configura
a sua dimensão estética, componente essencial e indissociável
do procedimento humorístico e de sua transgressão.
A palavra humorística, como a poética, é encantada
e encantadora, e, assim, termina por eliminar as fronteiras tradicionalmente
estabelecidas entre forma e conteúdo, bem como entre palavra
e ato (e mesmo entre sujeito e objeto, como se verá adiante).
Por isso, pode-se falar em dito humorístico ou em ato humorístico
indiferenciadamente. Nesse sentido, não é difícil
vislumbrar o quanto uma elucidação maior do fenômeno
do humor poderia enriquecer a concepção de interpretação
e de ato analítico, uma vez que, no contexto da transferência
no qual opera, a palavra do analista[6] torna-se, sem dúvida,
uma palavra encantada; como queria Freud (1905a), uma palavra “mágica”.
III. Do cômico ao grotesco
O humor, como categoria estética, é considerado uma
das manifestações do cômico, e dessa forma é
tratado em “Os chistes...”, apesar de já encontrarmos
em Freud um esboço de diferenciação entre os
chistes, o cômico em geral e o humor. Mas o que faz com que
Freud se interesse pelo cômico a ponto de dedicar-se a um
livro sobre os chistes, e de voltar ao tema do humor mais de vinte
anos depois?
Com relação a “Os chistes...”, a versão
encontrada no prefácio do editor mereceu a unanimidade dos
psicanalistas. Fliess, ao ler as provas de “A interpretação
de sonhos”, queixara-se a Freud de que os sonhos relatados
continham muitos elementos chistosos, o que não se tratava,
no caso, de um elogio. Freud responde (carta de 11/09/1899): “Certamente
é verdade que o sonhador é arguto demais, mas isso
não é culpa minha, nem contém nenhuma recriminação
(...) Todos os sonhadores são igual e insuportavelmente argutos,
e precisam sê-lo, porque estão sob pressão e
porque a via direta lhes é barrada (...) A evidente argúcia
de todos os processos está intimamente relacionada com a
teoria do chiste e do cômico” (Masson, 1986, p.372).
Freud demonstrará então que os processos de deslocamento
e condensação presentes nos sonhos são comuns
aos chistes, e dessa forma ambos se relacionam, uma vez que um e
outro revelam o inconsciente recalcado. No que se refere a “O
humor”, tratar-se-ia de repensar as vicissitudes do prazer
no contexto das inovações metapsicológicas,
considerando as formulações sobre o narcisismo e a
segunda tópica. Assim, se o chiste é a contribuição
feita ao cômico pelo inconsciente, o humor seria a contribuição
feita ao cômico pela intervenção do superego[7].
Uma outra via, no entanto, para se tentar compreender o interesse
de Freud pelo cômico, passaria pela investigação
de algumas características da comicidade indicadas em “Os
chistes...”. Uma delas, sobretudo, chama a atenção.
Trata-se de uma formulação de Fischer, autor de um
livro sobre o Witz datado de 1899, na qual aproxima a piada e o
cômico, da caricatura. “A comicidade interessa-se pelo
que é feio”, escreve Freud, “em qualquer uma
de suas manifestações”. E, citando Fischer:
“Se [o que é feio] for ocultado, deve ser descoberto
à luz da maneira cômica de olhar as coisas; se é
pouco notado, escassamente notado afinal, deve ser apresentado e
tornado óbvio, de modo que permaneça claro, aberto
à luz do dia (...) Desta maneira nasce a caricatura”
(apud Freud, 1905, p.22, grifo nosso). Se é assim, também
a psicanálise, ao interessar-se pelo cômico e suas
manifestações, estaria interessada na feiúra
expressa pela caricatura. Mas de que modo?
A partir do século XVIII, a reflexão artística
vinculada ao Romantismo volta suas atenções para a
caricatura, até então considerada uma brincadeira
gratuita, e passa a tematizá-la como princípio de
uma nova estética. No projeto estético do Romantismo,
a arte tinha o papel de resgatar a potência do humano encoberta
pela influência do Iluminismo. As luzes da razão iluminista
teriam criado uma sombra sobre a dimensão não-racional
da existência, promovendo, no campo das artes, um retorno
ao ideal de beleza cultuado na Antiguidade Clássica. A caricatura[8],
com o recurso ao disforme, a intensificação das desproporções
e dos exageros e a livre utilização da imaginação
fantástica, que a permitia expressar uma mistura sobrenatural
das formas do mundo, possibilitava a reflexão sobre uma arte
cujo princípio não fosse o da reprodução
da bela natureza, sua “elevação idealizante”
(Kayser, 1986, p.30). Assim, a arte inspirada pelo Romantismo inaugura
uma apresentação do feio caricatural subordinado a
uma categoria estética mais ampla: o grotesco.
Apenas no final do século XV o termo “grotesco”
passa a ser utilizado para definir um estilo artístico, tendo
como referência um tipo de pintura ornamental descoberto nos
subterrâneos das termas de Tito, em Roma, chamado grottesca
(derivado de grotta, “gruta” em italiano). A característica
mais marcante e surpreendente dessas figurações era
a ousada mistura das formas humanas, animais e vegetais, que esmaecia
as fronteiras do mundo natural habitualmente representadas nas artes
plásticas. Além disso, o grotesco promovia uma apresentação
do universo na qual a mobilidade, as transformações
impostas pelo tempo e o inacabamento se chocavam com as representações
de um mundo cuja essência residiria na estabilidade e na perfeição.
Segundo Bakhtin (1996), seria preciso esperar até a segunda
metade do século XVIII para que o grotesco merecesse uma
compreensão mais ampla e mais profunda e passasse a ser efetivamente
concebido como reação à estética clássica
antiga e, finalmente, à estética do belo forjada na
modernidade. É nesse sentido que Schneegans, em 1894, define
o grotesco como uma espécie de caricatura “acentuada
até o impossível” (apud Kayser, op.cit., p.94).
Tratava-se, com o grotesco, não tanto de uma exploração
do feio, já necessariamente definido em relação
ao ideal de beleza vigente, mas de direcionar os holofotes para
as dimensões da vida às quais a arte idealizante insistia
em manter ocultas. Assim, o corpo inacabado, a morte e a vida em
sucessão, as paixões desmedidas e incontroláveis
e o tempo como devir transformador, são alguns dos temas
privilegiados. No entanto, pode-se encontrar nos dois maiores intérpretes
da nossa época, Wolfgang Kayser e Mikhail Bakhtin, concepções
bem distintas do sentido do grotesco. É preciso ao menos
indicá-las para compreender o interesse do cômico e,
mais especificamente, do humor, para Freud.
Em O grotesco, Wolfgang Kayser (1986) nos oferece uma detalhada
história do grotesco moderno, do movimento pré-romântico
do Sturm und Drang ao surrealismo contemporâneo. Sua ambição,
porém, é a de encontrar uma estrutura comum, presente
tanto em obras da literatura quanto da pintura, que pudesse mapear
com precisão o campo do grotesco. A riqueza e a abrangência
das análises torna obrigatória a sua leitura, mas
pode-se, grosso modo, definir o grotesco em Kayser como a expressão
mista de surpresa e de angústia diante da desagregação
do mundo própria da modernidade, um mundo que é o
nosso mundo sendo, ao mesmo tempo, alheio a nós. Nesse sentido,
tomando como exemplo a pintura, os seres imaginários de Peter
Brueghel expressariam melhor o espírito do grotesco do que
as criaturas de Hieronymus Bosch, uma vez que em Bosch há
ainda uma ordenação divina (paraíso/inferno)
à qual os entes estão referidos, enquanto que em Brueghel
o abismal irrompe no mundo cotidiano, colocando-o fora dos eixos[9].
“O horror, mesclado ao sorriso”, escreve Kayser (ibid.,
p.40, grifo nosso) referindo-se aos afetos suscitados pelo grotesco,
“tem seu fundamento justamente na experiência de que
nosso mundo confiável e aparentemente arrimado numa ordem
bem firme, se alheia sob a irrupção de poderes abismais,
se desarticula nas juntas e nas formas e se dissolve em suas ordenações”.
Na literatura, E.T.A. Hoffmannn é considerado um dos principais
representantes do grotesco no Romantismo, especialmente suas Peças
noturnas (Nachtstücke), onde aparece o conto “O homem
de areia” analisado por Freud (1919) em “O estranho”
(Das Unheimlich). De fato, o tema do Unheimlich está intimamente
vinculado ao grotesco. Na definição mais precisa de
Kayser (1986, p.159), “o grotesco é o mundo alheado
(tornado estranho)”. Apesar de indicar um caráter tragicômico
próprio ao grotesco, no qual o terror apareceria mesclado
ao riso, a ênfase de Kayser recai principalmente sobre a dimensão
do horror vivido pelo homem moderno ao assistir a desagregação
do mundo, que perde seus fundamentos – “o horror de
que Deus não existe” (ibid., p.59) -, e da consciência,
assaltada por forças ocultas que fazem do sujeito seu fantoche.
Percebe-se, assim, que as duas figuras maiores do grotesco “negativo”
de Kayser – a automatização e a desagregação
– indicadas por Iehl (1997), estão presentes também
no estranho de Freud, associadas à compulsão à
repetição e à angústia de castração.
No entanto, o incômodo problema da proximidade entre o estranho
e o cômico persiste também na análise de Freud
acerca do Unheimlich, isto é, os mesmos elementos explorados
na literatura do Romantismo de modo a remeter o leitor à
experiência do estranho, podem também fazer rir. É
o que ilustram as situações carregadas de comicidade
criadas por Mark Twain, nas quais algo se repete sucessiva e involuntariamente.
O argumento freudiano de que rimos apenas quando o terror suscitado
pelo estranho é vivido pelos outros, como no caso de uma
peça à qual assistimos, e de que não riríamos
se a experiência fosse própria, é insatisfatório.
Não responde nem às evidências da emergência
do riso na clínica, nem ao enigma proposto uma década
depois em “O humor”, onde a morte iminente merece um
sorriso.
A clássica definição de Schelling, “Unheimlich
é tudo o que deveria ter permanecido secreto e oculto mas
veio à luz”, evocada por Freud, pode oferecer uma nova
pista para a solução do problema, se contrastada com
o que, como vimos, caracteriza o cômico em Fischer: apresentar
e tornar óbvio aquilo que é “feio”, de
modo que permaneça claro, aberto à luz do dia. Assim,
o trabalho do cômico (do grotesco, em sentido ampliado) parece
ser exatamente o contrário do trabalho das forças
idealizantes que nutrem o processo de recalcamento, e que fazem
das experiências de destituição egóica
relatadas em “O estranho” experiências essencialmente
Unheimlich. O que no grotesco é positivado, “claro
e aberto à luz do dia”, de modo a suscitar o riso alegre,
aparece em sua faceta negativa, com a emergência da angústia
de castração, no estranho analisado por Freud.
O recurso ao minucioso trabalho de Mikhail Bakhtin (1996), A cultura
popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François
Rabelais, permite avançar na questão. Seu livro tornou-se
obra de referência para os estudos acerca da cultura popular
e, também, do riso em suas várias manifestações.
Peter Burke (1997) considera, inclusive, que no projeto de Bakhtin
havia a intenção de oferecer uma alternativa à
concepção freudiana do riso como expressão
de angústia, referindo-se à idéia de que nos
chistes o riso procederia de uma economia na despesa com a inibição,
e no humor de uma economia na despesa com o sentimento aflitivo
(cf. Freud, 1905, p.265).
Bakhtin define o riso carnavalesco como o que havia de mais próprio
nas manifestações da cultura popular na Idade Média
e no Renascimento, quando as festividades chegavam a durar até
três meses por ano. A cultura cômica popular, bem com
a arte nela inspirada (sendo a obra de Rabelais o exemplo paradigmático),
encontram sua expressão no “realismo grotesco”,
no qual predomina a percepção carnavalesca do mundo
e o princípio do rebaixamento. O mundo carnavalizado das
festas e da arte popular é um mundo no qual as misturas,
os excessos e o rebaixamento de todas as formas no sentido da vida
material e corporal celebram o “tempo alegre”, o tempo
da transformação e da metamorfose, responsável
pela degradação e morte de tudo o que existe de antigo,
e pelo renascimento daquilo que é novo. “Rebaixar consiste
em aproximar da terra”, diz Bakhtin (1996, p.19), a terra
representando o princípio de absorção e de
nascimento, de morte e semeadura. O corpo humano inacabado e em
contínua troca com o mundo é também o corpo
rebaixado, o corpo dos excessos, dos orifícios e dos excrementos,
e ainda do sexo e da gestação da vida. A figura freqüente
da “velha grávida” funciona, assim, como uma
espécie de emblema do realismo grotesco e de sua franca oposição
ao modelo clássico de representação do mundo,
uma vez que não há nada estável ou perfeito
nesse corpo de mulher que é, efetivamente, “a quintessência
da incompletude” (ibid., p.23), ao anunciar a proximidade
da morte ao mesmo tempo em que carrega uma nova vida.
No que se refere ao riso, onipresente nas manifestações
da cultura popular medieval e renascentista, Bakhtin indica que
se trata, em primeiro lugar, de um riso “festivo”, não-individual;
além disso, o riso é “universal”, atinge
a todas as coisas e pessoas, todos riem e todos são alvos
em potencial do riso, e o mundo é apresentado em seu “alegre
relativismo”; e sobretudo, o riso próprio ao realismo
grotesco é “ambivalente”, isto é, “alegre
e cheio de alvoroço, mas ao mesmo tempo burlador e sarcástico,
nega e afirma, amortalha e ressuscita simultaneamente” (ibid.,
p.10). No realismo grotesco, não há vestígio
de medo, a alegria é soberana, e tudo o que é amedrontador
e terrível é representado na forma de “espantalhos
cômicos” e vencido pelo riso ambivalente, sendo que,
assim, o terrível adquire sempre um tom de “bobagem
alegre” (ibid., p.34). Uma primeira aproximação
é possível, aqui, no sentido de situar o humor freudiano
na filiação do realismo grotesco. Afinal, é
no humor, e apenas nele, que Freud (1927, p.194) concebe um superego
condescendente, capaz de “bondosas palavras de conforto ao
ego intimidado” frente às situações de
ameaça, como se dissesse, efetivamente, que tudo não
passa de uma alegre bobagem: “Olhem! Aqui está o mundo,
que parece tão perigoso! Não passa de um jogo de crianças,
digno de que sobre ele se faça uma pilhéria”.
É esse espírito alegre e jocoso que o Romantismo
quer resgatar com a atualização dos elementos próprios
ao realismo grotesco, concebidos agora como um recurso estético
capaz de fazer frente à seriedade e à perfeição
unilaterais impostas pelos cânones da arte de orientação
iluminista. No entanto, o “neo” grotesco do século
XVIII não dispõe mais do carnaval popular como seu
referente, deixando assim de ser a “sensação
carnavalesca do mundo”, a sensação corporalmente
vivida, ressalta Bakhtin (1996, p.33), “da unidade e do caráter
inesgotável da existência”. Tudo agora é
íntimo, subjetivo e individual. O riso se atenua, toma outras
formas, como as da ironia, do sarcasmo e de um certo tipo de humor;
não mais se “explode” de rir. O grotesco romântico
é assim, na sugestiva metáfora de Bakhtin (idem),
um “grotesco de câmara”, uma espécie de
carnaval solitário vivido pelo indivíduo no contexto
do seu irredutível isolamento.
Com isso, no grotesco romântico, os mesmos motivos que antes
eram habituais, reconhecidos e festejados por todos como “espantalhos
cômicos” - como as máscaras, a figura do diabo,
o sexo, a loucura e, sobretudo, a morte - tornam-se alheios e hostis
ao homem, o que é facilmente visível na literatura
de Hoffmann, e são empregados justamente para aterrorizar
o leitor, remetendo-o a um mundo que lhe é exterior, que
já não é mais o seu. Os autômatos monstruosos
tomam o lugar dos divertidos bonecos do teatro popular, e remetem
às forças ocultas que governam o homem à sua
revelia. As luzes e o brilho próprios do carnaval dão
lugar às sombras, e o “noturno” passa a ser tematizado.
Assim, o que no realismo grotesco era claro, aberto à luz
do dia, e provocava o riso, no grotesco romântico veio à
luz, mas deveria ter permanecido secreto e oculto, tornando-se,
portanto, Unheimlich; o que deflagrava o riso ambivalente, no contexto
do Romantismo passa a ser apreciado como “feiúra”,
ou “deformação”, ainda que positivadas
como próprias da realidade humana. O estranho é, nesse
sentido, o grotesco despojado de sua plena potência e do riso
regenerador. “Glorifica-se a sua força libertadora”,
indica Bakhtin (1996, p.34), “mas não se alude à
sua força regeneradora, e por causa disso [o riso] perde
seu tom jocoso e alegre”.
Convém ressaltar, no entanto, que na leitura de Bakhtin,
a expressão do grotesco está sempre atrelada à
alegria, ainda que a sua potência possa ficar obscurecida,
como no caso do Unheimlich. “Ao morrer, o mundo dá
à luz. No mundo grotesco, a relatividade de tudo o que existe
é sempre alegre, o grotesco está impregnado da alegria
da mudança e das transformações, mesmo que
em alguns casos essa alegria se reduza ao mínimo, como no
Romantismo”, escreve Bakhtin (ibid., p.42).
Portanto, se Freud sofre a influência da época em
que vivia cedendo um lugar de destaque à experiência
do estranho, não deixamos, por isso, de encontrar em sua
obra a dimensão de júbilo e de celebração
do tempo alegre próprias ao espírito do grotesco,
seja nas considerações acerca do lúdico infantil,
bem como nas formulações acerca da criação
sublimatória e, finalmente, no papel enigmático atribuído
ao humor no final do seu percurso. Portanto, a experiência
unilateral do estranho não é própria do homem,
mas característica de uma das facetas do homem moderno, aquela
que é assaltada pela angústia de castração
frente a evidência de que o eu não é senhor
da sua própria casa. Ou seja, se é verdade que desaprendemos
a rir, a clínica psicanalítica, ao provocar simultaneamente
efeitos de estranheza e a possibilidade de se encontrar algo de
familiar nessa experiência, sugere que não o desaprendemos
de todo. A emergência do humor e da graça (Witz) entre
analista e analisando indica que, ao sair de si, também o
homem moderno pode transpor as fronteiras impostas pelo mundo utilitário
ao seu eu, resgatando o processo introjetivo de erotização
da existência.
IV. A clínica psicanalítica e a sexualização
do universo
Sándor Ferenczi, desde muito cedo, atenta para a presença
do grotesco na clínica psicanalítica. Em 1911, escreve
um inusitado artigo, “Palavras obscenas”, que parte
de um questionamento sobre a pertinência do emprego pelo analista,
em suas intervenções, de termos populares para designar
os órgãos sexuais. Havia na época uma tendência,
reforçada inclusive por Freud, em se utilizar os termos técnicos
da medicina. No entanto, Ferenczi (1911, p.109) observa que a dificuldade
dos próprios analisandos em proferir “palavras e locuções
interditas” incrementa a resistência e a inibição
na análise, e que é preciso uma “autorização”
do analista para que possam ser verbalizadas.
Claro que se trata de um ensaio do início do século,
e talvez Ferenczi enrubescesse ao lidar com a liberdade associativa
de hoje no que toca à sexualidade, mas a validade da sua
argumentação parece resistir aos costumes. Ferenczi
formula a existência de “palavras-tabus”, às
quais o sexual recalcado se encontra vinculado, que precisam poder
ser pronunciadas em análise. Essas palavras, geralmente termos
populares “obscenos”, teriam recebido um forte investimento
afetivo nas fases das descobertas sexuais infantis, quando detinham
então um poder verdadeiramente alucinatório. Durante
o período de latência, ao serem banidas pelo recalcamento
da linguagem licenciada, essas palavras teriam constituído
“corpos estranhos” isolados do pensamento habitual e,
por isso mesmo, preservado seu potencial efetivamente evocativo.
Em contrapartida, a conclusão de Ferenczi (ibid., p.111)
é a de que, em determinadas situações, ao empregar
termos populares, o analista adquire também um poder maior
de diálogo com o recalcado infantil, já que a palavra
obscena “encerra um poder particular que obriga, de algum
modo, o ouvinte a imaginar o objeto denominado, o órgão
ou as funções sexuais, em sua realidade material”.
A “materialidade” à qual se refere Ferenczi diz
respeito à intensidade afetiva, ao potencial de certas palavras
de provocar no ouvinte o retorno regressivo e alucinatório
de imagens mnêmicas outrora intensamente investidas. Essa
é a leitura que Ferenczi faz da formulação
freudiana de que as crianças tratam as palavras como coisas.
Nesse sentido, as palavras obscenas teriam simplesmente preservado
as características que todas as palavras detinham em um estágio
primordial do desenvolvimento psíquico.
Em “Ontogênese dos símbolos” (Ferenczi,
1913a) temos um exemplo esclarecedor. Uma criança de um ano
e meio exclama admirada, ao se deparar pela primeira vez com o Danúbio:
“Quanto cuspe!” (tanto a graça quanto a aproximação
com uma poesia como a de Manoel de Barros[10] não é
gratuita. A palavra poética se aproxima do dito humorístico
e também das palavras obscenas, uma vez que, na origem, toda
poesia e todo humor são eróticos, cantam, encantam
e reencantam o mundo).
Para Ferenczi, a introjeção, ou seja, o processo
de constituição dos objetos do mundo e do próprio
sujeito, parte de um investimento da criança na direção
das satisfações vividas a partir das zonas erógenas
do seu corpo. Assim, em um primeiro momento, a criança dá
sentido ao mundo reproduzindo a sua própria corporalidade,
estabelecendo “relações simbólicas”
entre o corpo humano e o mundo dos objetos. Um rio torna-se um grande
volume de cuspe; um campanário, um pênis gigante. Ferenczi
chama a esse processo “sexualização do universo”
(ibid., p.107). Percebe-se, portanto, como originalmente a palavra
encorpada e erotizada pode evocar a materialidade do mundo, uma
vez que sujeito e objeto não se encontram ainda definitivamente
alheios um ao outro, constituindo um corpo único. No universo
sexualizado, o Danúbio é efetivamente o prolongamento
do corpo erógeno da criança, o fruto dos seus excrementos
e, portanto, sua criação, e a palavra tem como função
expressiva maior celebrar o júbilo pela enormidade e indestrutibilidade
da potência do desejo criador; nada é alheio ao sujeito,
nada é vivido como estranho. Esse é o universo exuberante
apresentado pelo realismo grotesco.
Também com relação aos próprios órgãos
do corpo essas relações simbólicas se estabelecem,
e a criança identifica, por exemplo, o pênis com os
olhos ou os dentes, o ânus com a boca. Ferenczi (1913; 1913a)
propõe inclusive que, para cada parte da metade inferior
do corpo investida afetivamente, a criança encontra uma parte
correspondente na metade superior, especialmente no rosto, em uma
espécie de “deslocamento de baixo para cima”
(1913, p.58). Essa tendência ao estabelecimento de paridades
entre zonas erógenas e outros órgãos e mesmo
objetos, ocorre “por brincadeira” ou “por exuberância”,
ou seja, efetivamente por um potencial lúdico-criativo inerente
ao próprio movimento expansivo das pulsões: “sublimação”
em Freud (cf. Birman, 1997), “introjeção”
em Ferenczi (1909). Posteriormente, as relações simbólicas
são postas a serviço do recalcamento, e então
a parte superior do corpo é superinvestida, acolhendo os
afetos deslocados do baixo corporal recalcado. Só então
nasce o “símbolo” propriamente dito. Em Ferenczi
(1913a, p.107), o símbolo é sempre “símbolo
do termo recalcado”.
A partir de então, o olho pode ser efetivamente símbolo
do pênis, a cegueira produto da culpa derivada angústia
de castração e assim por diante. Não é
difícil perceber que nesse processo, simultaneamente, a corporalidade
é recalcada, as atividades psíquicas “superiores”
são valorizadas[11], e o universo é deserotizado,
o que termina por promover efetivamente um alheamento do mundo,
uma alienação entre sujeito e objeto. A experiência
erótica torna-se, desse modo, uma experiência estranha
e angustiante, uma ameaça à integridade do eu narcísico
assim constituído, ao remeter o sujeito ao espaço
“intermediário” (Zwischending) entre sujeito
e objeto, no qual ambos são recriados permanentemente (Ferenczi,
1928, p.7). Pode-se, inclusive, não mais suportar o reflexo
do “baixo corporal” no espelho, na tentativa de reduzir
a corporalidade como um todo à uma mísera cabeça.
Não seria preciso, no percurso de uma análise, poder
“perder a cabeça” e reconciliar-se com o “baixo
corporal”? Talvez seja esse o sentido grotesco do humor do
condenado a caminho do patíbulo, ao qual se refere Freud.
A clínica psicanalítica tem como visada uma reativação
do processo de sexualização do universo indicado por
Ferenczi, no qual o movimento introjetivo do aparelho psíquico
pode persistir em seu trabalho de expansão erótica
do sujeito. Mas, para isso, é preciso que a palavra que circula
em análise seja um veículo efetivo para a expressão
do sujeito e a afetação do outro. Com a problematização
das palavras obscenas em análise, é justamente à
dimensão expressiva da linguagem que Ferenczi está
se referindo. Se “toda fala tem sua origem numa ação
que não ocorreu”, escreve (1911, p.114), tanto a palavra
obscena como o gracejo indecente, tratado por Freud no livro sobre
o chistes, dão “a nítida impressão de
cometer uma ação”. Ferenczi quer sublinhar que
a palavra do analista é de fato uma palavra mágica,
traz em si o poder de afetação do outro, e sua reflexão
ganha assim o estatuto de um questionamento decisivo sobre o ato
analítico. A conclusão (ibid., p.119) de que “o
afeto recorre involuntariamente aos termos obscenos (...) em virtude
de sua riqueza emotiva e sua potência motora” indica,
portanto, que a linguagem própria da cena analítica
é uma linguagem efetiva, teatral, como indica Schneider (1994),
na qual a palavra se associa intimamente ao gesto e ao ato.
O mesmo se dá com o humor, palavra contagiante repleta de
espírito. Quando o humor e o riso grotescos podem emergir
entre analista e analisando, é sinal de que houve uma reativação
do espaço intermediário no qual a criação
sublimatória tem lugar. Resgatar o humor no campo psicanalítico
é, portanto, apostar na possibilidade de que aquilo que é
experimentado como estranho e temido, possa ser afirmado e vivido
em sua plena potência como grotesco. É necessário
poder-se rir na clínica psicanalítica, ainda que o
saber produzido traga consigo alguma dor.
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pensamento, Rio de Janeiro, Jorge Zahar/Fundação Getúlio
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--------------------------------------------------------------------------------
[1] Este ensaio é endereçado ao VI Fórum Brasileiro
de Psicanálise, agendado de 5 a 8 de julho de 2001 na Unisinos
(São Leopoldo/RS), e servirá como base para a conferência
“Humor: o necessário esquecido”.
[2] Psicanalista, membro fundador da Formação Freudiana,
doutorando do Programa de Pós-graduação em
Teoria Psicanalítica da UFRJ, autor de Transferências
cruzadas: uma história da psicanálise e suas instituições
(Ed. Revan).
[3] Virtus, do latim, significa força, vigor.
[4] Interessante notar que Freud publica “O futuro de uma
ilusão” no mesmo ano em que divulga as idéias
encontradas em “O humor”, 1927.
[5] Nesse ponto, é preciso discordar de Freud, uma vez que
o comentário “filosófico”, aqui, se aproxima
mais da mortificação melancólica e da resignação
do que da “magnífica superioridade sobre a situação
real” encontrada no humor.
[6] Com isso não se pretende, é óbvio, atribuir
uma principalidade à palavra do analista no processo psicanalítico.
É verdade que a criação da psicanálise
se deve a ruptura de Freud com o procedimento da sugestão
hipnótica, na qual a palavra portadora de verdade era a palavra
do terapeuta, e à conseqüente invenção
da escuta da associação livre do paciente, na qual
a verdade residiria então no discurso do analisando. Mas
isso decerto não isenta o analista – sua palavra e
seu ato - da sua função na direção da
cura. De todo modo, veremos que a emergência do humor na clínica
se dá em um espaço entre analista e analisando, como
de resto a maior parte do produto criativo de uma análise.
[7] Não se pode esquecer também que, se os sonhos
são uma produção essencialmente singular e
individual, os chistes, bem como o humor, são antes de tudo
processos sociais, o que ainda não foi suficientemente explorado
nos estudos sobre psicanálise e cultura.
[8] A noção de caricatura aqui utilizada está
mais referida aos seus atributos do que a uma forma única
de expressão artística. Assim, teríamos “caricaturas”
tanto na pintura (Peter Brughel), como no teatro (commedia dell`arte)
e na literatura (E.T.A. Hoffmann).
[9] De Brueghel, Kayser faz referências diretas a dois quadros:
“Os provérbios holandeses” e “Gret, a louca”.
De Bosch, a referência é conhecido tríptico
“O império milenar”, que inclui “O jardim
das delícias”.
[10] Ver, por exemplo, o Livro sobre nada (Barros, 1996), no qual
a proposta é “fazer brinquedos com as palavras”.
[11] Daí a confusão que se encontra entre sublimação
e recalque no início da obra de Freud, a sublimação
entendida como desvio do alvo da pulsão para fins socialmente
valorizados. Ver, por exemplo, a leitura freudiana acerca do interesse
(compulsivo) de Leonardo da Vinci pelo vôo dos pássaros
(cf. Freud, 1910) e do fazer científico de modo geral.
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