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Esboço sobre o Mal IV

(Da série O Menino Amarelo IX)

H. Haydt de S. Mello

Além das zonas erógenas que existem por determinação genética, estas que, tão depois de Freud, estou reapresentando como constituídas, há aquelas outras que estavam apenas sugeridas na tradição metapsicológica, que são de diferente ordem - passo agora a chamá-las de zonas erógenas instituídas.

Faço questão desta bela diferença: enquanto as constituídas são, de um lado, zonas erógenas fundadas sobre pontos anátomo-fisiológicos geneticamente determinados, de outro lado, as instituídas são zonas erógenas que se fundam ao longo do trajeto de experiências individuais de implicação erótica, sejam elas aquelas primeiras, as de propícias constituições, sublinhadas e reconhecidas como competentes, sejam elas estas outras, as que se descobrem, e assim se inauguram, novas e rasgadas portas de peculiar erotismo, sintomática e diretamente gravadas sobre estruturas de um verdadeiro corpo de animal feito com e pelos significantes.

A importância desta recondução metapsicológica, ao estabelecer duas ordens de margens pulsionais, é deixar claro que o corpo erótico, longe de ser reconhecível por sua morfologia, só pode ser identificado pela escuta de um mapa falado, que sempre está em movimento no que lhe tocam as fixas e móveis zonas de privilégio pulsional, uma vez que, a cada momento, aquele corpo é reinventado pelos significantes que fizeram e refazem cada homem em sua complexa condição de rude bestialidade e suave divindade, tudo apoiado sobre este outro corpo que, apesar de construído por e com palavras, e entesourando-as para futuras transmissões, dirá de suas coisas, por dentro de todas as falas e de todos os silêncios, por via de uma articulação que arremeda uma competente linguagem.

A invenção ou é da ordem do que já se insinua e se cola sobre o geneticamente herdado, ou passa a existir como assentamento fundador sobre o que estava em branco; digamos que a invenção ou se vale do que anatômica e fisiologicamente vem sugerido, e aí se instala, ou faz, no mesmo anatômico, nova fisiologia; digamos mais ainda: ou a invenção dá-se sobre o constituído, ou é ela o próprio fazer-se instituindo-se - de qualquer forma, sempre o carro-chefe do sintoma que desfila por e com seus memoráveis: ou endossa e expande o que está predisposto, ou avança e ocupa pela amarra do que só então se cria como disposto.

Endossar e expandir o predisposto pode não ser assim tão diferente de ocupar e amarrar-se no disposto, mas é curioso flagrar-se o sujeito destes dois enunciados como sendo o mesmo.

Ele é, na primeira laçada, um que se diz como agente sobre alguma coisa que lhe parece externa, qual seja, o predisposto, e, numa segunda laçada, ele mesmo é o tal que se revela agido por um disposto que se sabe criado por ter sido recheado com o que nele foi amarrado.

De um jeito ou de outro, diz nossa formulação, sempre passa a existir uma zona erógena: existe a que já se sabia, e também existe a que não se sabia, e é isto que dá a impressão de que só existe o que já existia.

A zona erógena, por todos os efeitos, ela há de haver.

Parece que ela é o que faz a vida viver.

Visto que esta questão pode e deve ser tratada como um teorema, vale a pena examinarmos alguns de seus corolários.

O que vai dar mais consistência à diferença entre o animal e o homem é isto que deve aqui ser por nós insistido. Temos que andar depressa, antes que provem "cientificamente" que os animais são tão falantes quanto o homem.

O que vai dar mais consistência àquela diferença será qualquer coisa que mostrar, em primeiro lugar, como somente do humano a condição probatória com que surgem as zonas erógenas constituídas, inicialmente como programa da natureza, mas em seguida reafirmadas ou abandonadas, portanto havendo, somente para o humano, estas duas categorias aqui postas em grifo: são elas determinantes decisões sintomáticas diante do patrimônio geneticamente transmitido.

Reafirmadas ou abandonadas as originais zonas erógenas pelo desenvolvimento da sexualidade, estão formados importantes parâmetros da sintomática que produzirá cada quadro individual, mais conhecido como pessoa, e sua respectiva, insistente personalidade.

Reafirmado-ou-não: esta é a questão que decide se o lugar onde se dão estas alternativas é mesmo do humano, pois entre os animais não há instância que aceite ou rejeite o que está pautado, uma vez que o que opera é uma estrutura em código que é não-vestigial, o que quer dizer inteiro e efetivo e, de saída, determinante que dá, ao correto preenchimento deste esqueleto para performances, o caráter de uma confiável e específica pauta geneticamente herdada.

É impróprio, portanto, usar-se o conceito de zona erógena para se falar de lugares do anatômico ou do fisiológico em animais. Estes lugares devem ser entendidos através da função que têm de, quando tocados, darem partida a seqüências de comportamentos de acordo com a pauta para a estação do estro.

Impróprio porque não se trata de erotismo, mas de um gradiente de comportamentos que, na medida em que se desenvolvem, vão se mostrando cada vez mais implicados em reprodução, série esta iniciada por incitadores e excitadores das marcas de diferença sexual, operando em relação especular, dentro de uma dupla capturada por inalterável imaginário.

Reafirmado-ou-não - disse-lhes isso há pouco tempo, de modo impreciso, falando das duas alternativas historicamente marcantes para o humano, pois o não-reafirmado não consta em algum lugar como não tendo havido reafirmação.

O local anátomo-fisiológico potencialmente aproveitável para o desenvolvimento de zona erógena, quando não reafirmado dentro do sintoma, torna-se um memorável onde se registrará, a partir daí, o encargo de manter a sempre presente potencialidade como chance perdida, o que implica alguma importância em todos os outros trechos sintomáticos em que o comércio das representações exatamente mancar por esta recusa.

Embora possam existir incontáveis pontos sugeridos pela anatomia e pela fisiologia para o desenvolvimento de zonas erógenas, Freud não perdeu sequer um dos trechos mais notáveis do aprendizado anaclítico que dá fundamento à estratificação dos padrões sintomáticos, quais sejam, os amarrados às chamadas fases oral, anal, fálica e, como gran finale de uma escalada dirigida a uma sazonal maturação, uma última fase, a gloriosa dita genital, o topo do desenvolvimento normal capaz de fazer a síntese dos ideais, ao mesmo tempo individuais e da "espécie", assim registrando-se um poderoso e previsível endosso às mais nobres metas da civilização, algo representável por um tipo de corpo coletivo ideal.

Falou-se de pulsão genital? E por que não se pensar aí num rebanho de zooantropos? Segundo a perversão da normalidade, é o que poderia encabeçar a "sobrevivência da espécie" através de uma competente, indispensável e indefectível mira pulsional posta, como prega João Paulo II, exclusivamente sobre a reprodução.

Assim sendo, há zonas erógenas de origem mista e zonas erógenas de origem única.

Todas as zonas erógenas constituídas, na verdade, são zonas erógenas de origem mista, só podendo ser efetivas se algum instituído ativar suas funções.

Todas as zonas erógenas instituídas são de origem única e se formam como tais ao longo do histórico individual a partir de algum item sintomático que, com valência de herança genética, sugere seu local, sua fisiologia e sua função.

Eis o enlaçado de dupla origem:

a) Num primeiro tempo, o que conta é uma espécie de kit para um "arme você mesmo seu erotismo", que não pode ser armado sem primeiro ativarem-se todas as peças que já constam do rol, cada uma no seu devido tempo, cada uma registrando-se em seu lugar já estabelecido, onde o herdado, seja este a riqueza de aferentes em regiões estrategicamente posicionadas, é acordado e entra em posição para, após um segundo tempo, configurar-se como zona erógena, e


b) Num segundo tempo, o histórico individual vai dando destino ao que antes foi acordado, havendo aí a possibilidade de se formarem dois extremos como pólos-limite para um padrão normal tal como se quer encontrar:


I) o "readormecimento" do que não for aproveitado que, conforme o exposto sobre a recusa do não reafirmado, faz o "hipossexuado", e


II) a exasperação do que for aproveitado, que faz o "hipersexuado".

Hipersexuado e hipossexuado não são aqui postos como qualidades pessoais, mas como indicativos de duas ocorrências qualitativamente opostas que moldam estilos para a formação dos sintomas que, inexoravelmente, obedecem às vicissitudes da sexuação no humano.

Uma zona erógena instituída, por ser duplamente comprometida com um passo além do que é trivial, tem maior probabilidade de se fazer eixo para uma exasperação implicada em posterior hipersexuação, aí impondo-se como antiobjeto para o diante de si então suposto objeto, assim se pondo como metade competente para a eleição de outra metade, seu complemento, a saber a zona do corpo do parceiro que, por fetiche, servirá para o acoplamento.

Um reestudo do erotismo deverá, além de passar pela questão da constituição e da instituição das zonas erógenas, ser também dirigido pela constatação de que bastam

a) o readormecimento de uma zona erógena geneticamente sugerida, ou

b) pelo extremo oposto, sua exasperação,


-> para que se desenvolvam, respectivamente:


a) de um lado, experiências de automáticas recusas de experiências (matriz de hipossexualização) e,

b) de outro lado, experiências de automáticas buscas de experiências (hipersexualização),


-> tanto umas quanto outras em quantum suficiente para a contaminação do desenvolvido, daí para frente, ao longo do histórico individual.

Deve-se daí inferir que há, decorrente da gravação destes extremos, o que claramente já sabíamos que ocorre com a gravação do que trivialmente há entre eles, a saber, a constituição de determinantes para estas duas ordens, que agirão na formação dos sobredeterminantes sintomáticos, estes que estarão presentes no estilo de todos os sujeitos do inconsciente.

A inferida constituição de determinantes para a formação de sobredeterminantes sintomáticos, além de ser pedra angular do conceito freudiano de repetição, foi uma das primeiras ocorrências que puderam ser observadas dentro das enunciações que, desde o começo do "tratamento catártico", foram analiticamente escutadas.

A grande vantagem de Freud ter sucumbido, com a fase genital, a uma regra moral plena de finalismo e ideal de adequação foi ter-nos deixado entender que o genital, embora esteja conceitualmente amarrado aos órgãos genitais, espera que tenhamos juízo suficiente para navegar nesta metáfora de modo proveitoso para o próprio estabelecimento da metafísica da metapsicologia, uma vez que a voracidade com a vagina, com o pênis ou com o ânus será sempre uma questão oral, assim como os movimentos de luta e domínio, executados com a boca, ou com a vagina e o pênis, sempre será uma questão fálica - e assim por diante. Por isso prefiro não aceitar que haja um intercâmbio entre as zonas erógenas, como rapidamente acreditou Freud, e hoje, com a calma de habitar uma psicanálise já fundada, estabelecer a diferença entre:

a) de um lado, os nomes das partes anatômicas que se amarram, pela sugerida prevalência do mais facilmente observável, isso na seqüência das gravações dos blocos de recursos e angústias de específicos períodos do desenvolvimento sexual e,

b) de outro lado, a indicação dos eixos sintomáticos que mostrarão a dimensão política que a dinâmica faz com a economia libídica em cada instância topográfica.

Humberto Haydt é psicanalista, fundador do Colégio Freudiano de Psicanálise em Brasília.

Este seminário é a íntegra de um seminário ditado à noite da primeira quinta-feira do mês de março de 1998.

Notas

1) Quando ethologistas mostram que há uma grande faixa de aprendizagem que os animais sofrem em sua relação com gerações anteriores e com o meio ambiente, isto não quer dizer que estejam eles livres das determinações da pauta, pois o que podem e não podem aprender é transmitido geneticamente

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