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O impossível entre homens e mulheres
Sylvia Loeb
Freud via as mulheres como enigmas de difícil resolução,
não conseguia compreendê-las, comparava-as a um imenso
continente africano, exótico, diferente, intangível.
Um dia, desanimado, perguntou-se: “O que quer uma mulher?”
Questão à qual jamais logrou responder satisfatoriamente.
Almodóvar responde a essa questão no próprio
título de seu último e extraordinário filme:
“fale com ela”, diz Almodóvar a Freud, “fale
com ela”.
Trata-se do último filme de Almodóvar. São
quatro personagens paradigmáticos da paixão humana:
dois homens e duas mulheres.
Um dos homens, cujo nome é Benigno, é enfermeiro
e cuida com devoção absoluta primeiramente de sua
mãe (que apenas aparece por uma fala no filme) e depois transfere
esse zelo a uma jovem que fazia aula de dança em uma escola
de balé em frente à sua casa e por quem se apaixona
perdidamente. Essa jovem sofre um acidente gravíssimo e entra
em coma, estado em que permanece por quatro anos. É onde
encontramos Benigno.
O outro homem é um jornalista que fica vivamente interessado
numa mulher que está sendo entrevistada na televisão.
É uma toureira, que encarna com a maior beleza e dignidade
a máscara da tragédia e da paixão. Essa mulher
também entra em coma após um acidente gravíssimo
na arena, onde se deixa atacar pelo touro bravio.
No início do filme, os dois homens que não se conhecem,
estão lado a lado assistindo a uma apresentação
de Pina Baush: duas mulheres tristíssimas, absolutamente
solitárias, soltas e perdidas num palco/mundo mobiliado aleatoriamente
de cadeiras, onde elas só não trombam pela ação
desesperada de apenas um homem, igualmente triste e solitário
que tenta abrir-lhes espaço. Mas trombam nas paredes, caem
no chão...num movimento contínuo de...desesperança.
Pina Baush sabe pegar no âmago...
O jornalista se emociona, Benigno, o enfermeiro nota o vizinho.
Os dois homens reencontram-se tempos depois no hospital, Benigno
cuidando da bailarina, em coma, o jornalista acompanhando a toureira,
também em coma.
E vamos acompanhando cada vez mais fascinados o desdobrar do filme,
o desdobrar da vida.
Almodóvar nos faz acompanhar por uma música maravilhosa,
nos brinda com um Caetano Veloso no auge de sua sensibilidade e
faz ressuscitar Elis Regina na alma da toureira.
E revela também, pela boca de Benigno, o desejo de toda
mulher.
“A mulher precisa ser tocada, mimada, acariciada, você
precisa falar com ela, ouvir seus segredos... fale com ela....”
No seu estado paradisíaco de indiferenciação
sexual, na sua ingenuidade infantil, Benigno dedica-se de corpo
e alma à adoração e aos cuidados daquela mulher
viva/morta. Mais do que isso, Benigno realiza um dos sonhos mais
secretos da mulher: o de ter um homem que se dedique inteiramente
a ela.
E essa linda mulher em coma, realiza um dos sonhos mais secretos
do homem: o de ter uma mulher absolutamente à sua mercê.
Fantasias do inconsciente mais profundo de cada um de nós,
homens e mulheres, fantasias essas às quais não temos
mais acesso, mas que continuam a fermentar em nossas almas.
Almodóvar, grande artista que é, ilustra magistralmente
e com muito humor a fantasia sexual infantil fundante do homem:
o de ser inteiramente engolido, engolfado pela Grande Vagina da
Mulher. Fascinação e medo desse imenso buraco negro,
misterioso (o grande continente africano) que pode aterrorizar o
homem para o resto de sua vida, minando uma relação
de confiança com a mulher. Tudo em maiúsculo, em contraste
com a figura minúscula do minúsculo homúnculo.
Difícil, mais tarde na vida, o homem poder, de fato, entregar-se
à mulher...
Mas as coisas vão se complicando... assim como na vida...
As duas mulheres, em estado de coma profundo, parecem ser o paradigma
do talvez absoluto e intransponível abismo entre o homem
e a mulher. São dois mundos quase que radicalmente impossíveis
um ao outro.
Quando a belíssima e trágica toureira se deixa matar,
após ter reatado com seu grande amor, ficamos em estado de
choque. Por que ela se deixou matar?
Em cenas anteriores, ela flertava com a morte, ela desafiava a
morte.
Lá, no entanto, era mais fácil compreender, pois
estava separada de seu homem. A vida já não tinha
valor algum em comparação com a perda de seu amor.
Ela se deixa matar, porém, após o reatamento.
Só podemos compreender esse gesto como um ato de sacrifício
ao amor.
Ela “sabia”, no mais recôndito de seu ser que
amor algum vivido poderia corresponder ao profundo anseio de amor
que sentia, realidade alguma poderia jamais corresponder à
fantasia de gozo absoluto. Ela sabia que seu imenso e trágico
amor estavam fadados ao insucesso, como os grandes e trágicos
amores da literatura...e da vida...Romeu e sua Julieta, Tristão
e sua Isolda, o louco Otelo com sua trágica Desdêmona...
Só a também louca Suzane Louise não sabia disso...
O que Almodóvar nos conta é a grande história
de amor impossível entre homens e mulheres, é o grande
manual de decifração das mulheres, é a impossibilidade,
a mais radical e absoluta, do encontro desejado, perene e permanente.
E é também uma ode à vida quando recoloca
frente a frente um homem e uma mulher recomeçando uma vez
mais e sempre, a recriação do mundo.
A vida chama, e o amor é a única e impossível
saída.
Sylvia Loeb é psicanalista
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