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O corpo mascarado com aparência de Eu

Autora de “Memória corporal e transferência – Fundamentos para uma Psicanálise do sensível”, a psicanalista Ivanise Fontes, em entrevista exclusiva à psicanalista Kátia Santos, afirma que “a exacerbação da temática do corpo que temos assistido nas últimas décadas não significa que o sujeito humano esteja em contato com suas sensações. Há, na verdade, uma inibição do sensível, o que vem causando uma dissociação cada vez maior entre corpo e palavra.” A autora coloca em evidência a transferência como espaço apropriado para o despertar de uma memória corporal.

Ivanise Fontes é doutora em Psicanálise pela Universidade Paris VII e fez pós-doutorado no Laboratório de Psicopatologia Fundamental do Núcleo de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP. Publicou “Memória Corporal e Transferência – fundamentos para uma psicanálise do sensível” pela Via Lettera Editora (SP, 2002), tradução do original “La Mémoire Corporelle et le Transfert” (Presses Universitaires du Septentrion, Paris, 1999). Kátia Santos é diretora de ensino e pesquisa da Spag-RJ.

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Kátia Santos - Segundo Elisabeth Roudinesco, o mal-estar da atualidade parece ser traduzido pelo sintoma da "sociedade depressiva", anestesiada pela multiplicação dos "prozacs". Como a psicanálise do sensível pode trazer um novo caminho para esta sociedade - e para o divã?

Ivanise Fontes - Considerar uma Psicanálise que traga de volta a dimensão da sensorialidade na constituição do psiquismo tem sido minha intenção. Ao contrário do que possamos pensar, a exacerbação da temática do corpo que temos assistido nas últimas décadas não significa que o sujeito humano esteja em contato com suas sensações. Há, na verdade, uma inibição do sensível, o que vem causando uma dissociação cada vez maior entre corpo e palavra. Perdido esse elo sensorial onde a palavra se enraíza, surge a doença, e muitas vezes a atrofia do próprio psiquismo. As sintomatologias consideradas contemporâneas, como as toxicomanias, as depressões, as psicossomatoses, têm como denominador comum uma incapacidade de representação. Nesse sentido, o resgate da sensorialidade torna-se vital para que esses pacientes consigam nomear suas sensações e, ao mesmo tempo, “encorpar” sua linguagem. Atribuir um adjetivo à Psicanálise, como venho fazendo: Psicanálise do sensível é uma redundância, já que o corpo esteve presente na obra de Freud desde suas origens, mas torna-se necessário na retomada de um diálogo interrompido entre Corpo e Psicanálise.

Kátia Santos - No início do século, o antifreudismo era moralista; hoje a crítica à psicanálise é quanto à sua eficácia. Como o resgate do conceito de pulsão e, conseqüentemente, de memória corporal, pode contribuir para esse enfrentamento?

Ivanise Fontes - O resgate da noção de corpo em Freud, apoiado principalmente na sua definição de pulsão como conceito limítrofe entre o somático e o psíquico, reposiciona a teoria e a técnica analíticas. Minha pesquisa de doutorado, defendida na Universidade Paris VII, em 1998, sobre “A Memória corporal e a Transferência”, levou-me à difícil tarefa de reencontrar em Freud, em sua obra, as referências à questão do registro corporal. Minha hipótese foi que essa memória do corpo pode ser despertada pela transferência, quando o paciente encontra o espaço apropriado à repetição das cenas mais precoces. Considerar dessa forma o corpo sensível do paciente altera a escuta do analista. Ligar corpo à palavra, favorecer a representação das impressões nunca antes nomeadas, mas sentidas pelo indivíduo, passam a ser uma tarefa do analista, para além do trabalho interpretativo. Prestar atenção particular ao sensorial, ao inefável que opera no interior do psiquismo, é um aperfeiçoamento que visa uma melhor eficácia no tratamento.

Kátia Santos - Através do diálogo entre S. Freud e S. Ferenczi você resgata a relação corpo/psiquismo, o elo
sujeito-corpo-palavra. Qual a nova possibilidade dessa proposta para o tratamento analítico?

Ivanise Fontes - Na obra de S. Ferenczi, contemporâneo e discípulo de Freud, a intenção de incluir o corpo é mais evidente. Por ser um autor a quem eram encaminhados os pacientes “difíceis”, sua teorização sobre o trauma tornou-se elemento fundamental. No primeiro capítulo de meu livro recém publicado pela “Editora Via Lettera” - “Memória corporal e transferência – fundamentos para uma Psicanálise do sensível” - estabeleço um diálogo entre esses dois autores no que diz respeito justamente à noção de registro corporal. Para Ferenczi, quando o psiquismo falha, o corpo começa a pensar. Eu acrescento que ele pensa porque já estava lá, onde a história do sujeito se fazia. O corpo é testemunha do acontecimento, traumático ou não. E nele ficam impressas sensações agradáveis ou desagradáveis. Através da transferência, por seu caráter regressivo alucinatório, o paciente pode reviver essas impressões inscritas em seu próprio corpo e que aguardam por simbolização. E esse caminho, da sensação à idéia, propiciado pela palavra, redimensiona o trabalho analítico.

Kátia Santos - Você fala em sua obra de um "ser da pré-linguagem" como sujeito freudiano, a partir de J. Kristeva e F. Tustin. Explique-nos melhor...

Ivanise Fontes - As duas autoras foram por mim escolhidas para a investigação sobre o campo do sensível. Duas psicanalistas, uma inglesa: Frances Tustin; e outra búlgara naturalizada francesa: Júlia Kristeva, voltadas para a importância da sensação como raiz do psiquismo. Para F. Tustin, o bebê humano nasce num berço de sensações que o dirige para as percepções, os conceitos e a tudo o que é cognitivo. E J. Kristeva denomina “caverna sensorial” a experiência desprovida de símbolos que seria inaugurada a partir da co-excitação mãe-bebê. Ambas enfatizam a existência de um “tempo sensível”, em que os registros sensoriais se fazem previamente à aquisição da linguagem. Mas Freud já afirmava que as experiências inaugurais produzem fortes impressões e são relativas ao corpo próprio ou às percepções sensoriais principalmente de ordem visual e auditiva. Encontramos essa referência em seu último texto “Moisés e o monoteísmo”, ao falar sobre trauma. Nesse sentido, podemos afirmar que cada indivíduo marca seu corpo com as impressões de sua tenra infância e que isto constituirá os fundamentos de sua memória corporal.

Kátia Santos - E, quanto a D. Anzieu, fale-nos de sua contribuição para o enriquecimento dessa subjetividade tão empobrecida nos dias atuais...

Ivanise Fontes - D. Anzieu , psicanalista francês com uma obra muito reconhecida no meio analítico, teórico da Psicanálise de grupo, publica em 1985, na França, o livro intitulado “O Eu- Pele”, e nos brinda com uma das melhores e mais profundas postulações sobre o desenvolvimento psíquico, com sua origem no corporal. Segundo ele, depois de decênios da dominação intelectual do estruturalismo e da lingüística, o retorno da Psicanálise às realidades corporais torna-se essencial. Estou plenamente de acordo.

Anzieu considerava que todo traumatismo ocorrido antes da constituição do envelope psíquico se inscreve no corpo e não no psiquismo. Por serem irrepresentáveis, diz ele, essas sensações ficam inacessíveis à linguagem, mas constituem nossa maneira de ser. Encontramos esse ponto de vista em seu livro “A Epiderme nômade e a pele psíquica”, ainda sem tradução para o português. Com esse autor, sabemos da necessidade de desenvolver envelopes sensoriais para que um sujeito se constitua. Em seu “Eu-Pele”, observamos desde um envelope tátil – a pele - até envelopes sonoro, gustativo, olfativo, muscular e térmico. A partir da integração desses “envelopamentos”, nasce um sujeito que se sente inteiro.

Para ele, o precursor do conceito de Eu-pele foi mesmo Freud, que no seu texto “O Ego e o Id” afirmou que a pele, por sua bipolaridade tátil (fornece uma percepção interna e outra externa), prepara o desdobramento reflexivo do ego. A pele ensina o ego a pensar. A experiência tátil serviria, portanto, de modelo à experiência psíquica.

Kátia Santos - "A lembrança fica impressa no corpo e é somente através dele que ela pode ser despertada..." Qual a dimensão da Transferência a partir desse registro?

Ivanise Fontes - Esta citação é de S. Ferenczi, numa nota de 1932, e faz parte do último capítulo do volume 4 das suas obras completas. Eu costumo dizer que se eu tivesse conhecimento prévio dessa sua afirmação talvez não precisasse ter elaborado uma tese de doutorado tão extensa com o intuito de defender justamente essa idéia. Fui encontrá-la já terminada a dissertação, mas virou epígrafe de meu livro. E isso porque ele resume nessa frase o objetivo de meu trabalho: somente através do corpo pode ser despertado algo que ali ficou inscrito. E na Psicanálise, contamos com esse instrumento essencial que é a transferência para criar a oportunidade de retorno de sensações anteriormente vividas. Ela instaura as mais refinadas manifestações, onde os movimentos regressivos podem ter lugar, aspectos sensoriais incluídos. São sensações inesperadas que adentram o espaço analítico e que indicam que há um material “carnal” que busca ser traduzido, ou melhor, representado.

Inspirada nas idéias de P. Fédida, meu orientador de tese e falecido recentemente (o que é uma perda lamentável para a Psicanálise), denomino “regressão alucinatória da transferência” o fenômeno transferência que propicia tal despertar da memória corporal. Fédida é um autor que aponta para o lugar do corpo na teoria psicanalítica. Sua visão do autismo como modelo paradigmático de uma Psicopatologia Fundamental, a retomada da noção de regressão em Freud e Ferenczi e justamente a ênfase que dá ao trabalho com a transferência foram alguns dos aspectos de sua obra relacionados a meu objeto de estudo. Minha pesquisa se desdobrou num projeto de pós-doutorado na PUC de S. Paulo sob o título “ A dimensão corporal da transferência – evoluções da técnica analítica”.


Kátia Santos - M. Proust nos diz "Em busca do tempo perdido". J. Kristeva substitui "Em busca do tempo sensível" ; onde essa busca do sensorial, pode nos levar, enquanto psicanalistas, neste conturbado mundo moderno?

Ivanise Fontes - Numa palestra de lançamento de seu livro “ O Tempo sensível - Proust e a experiência literária”, em 1994, tive pela primeira vez contato com o pensamento de J. Kristeva e com o destaque que ela dá à noção de experiência. É dentro dessa noção que ela vai incluir a experiência sensível e analisar a obra de Proust. Segundo ela, a experiência proustiana nos leva ao “tempo sensível de nossas memórias subjetivas”. Trata-se da busca infinita desse tempo perdido, onde Proust faz ressoar a memória das sensações até as palavras e vice-versa. Poderíamos com ela dizer que as sensações são a carne de nossa memória.

No exemplo mais conhecido da Madeleine embebida no chá, o personagem vive a força de um choque sensorial que fica em ligação permanente com seu imaginário subjetivo. Proust refere-se a uma memória involuntária! Podemos traçar um paralelo entre o percurso proustiano e o analítico em busca de um tempo sensível. Como tarefa do analista, segundo J. Kristeva, coloca-se, então, a “sorte eventual de metabolizar a auto-sensualidade inominável em discurso conciliável”.

Em meu recente artigo, “Corpo mascarado e o Tempo sensível”, procuro pensar, apoiada nessa autora, sobre a redução espetacular que vem sofrendo nossa vida interior, gerando a necessidade de construção de uma armadura, de um corpo mascarado com aparência de eu. Mas essa tentativa de garantir uma existência psíquica mesmo que artificial, através do aumento do volume muscular ou mesmo do uso de recursos aditivos (obesidade, alcoolismo,etc.) mostra-se ineficaz. O sofrimento persiste. Porque esse corpo encouraçado fica impenetrável às sensações. Enrijecido, ele não permite sentir, e, assim, fica bloqueado o trajeto que vai da sensação à idéia. Este é o aspecto trágico de nosso mal contemporâneo. Inibindo o sensorial, torno-me cada vez mais distante da aquisição de uma identidade que me assegure uma existência. Sigo, então, procurando adicionar algo no intuito de me “encher/preencher”. E perco ainda a capacidade de produzir pensamentos (haja vista os pensamentos operatórios na maioria dos casos).

Nesse sentido, uma Psicanálise que revalorize o sensível é elemento crucial em nossos tempos modernos. Acredito que a exploração clínica e conceitual dos elementos pré ou sem representação, ou seja do corpo e sua memória, impõe-se como objeto no centro da pesquisa atual em Psicanálise.

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