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TRANSCRIÇÃO
Jacques-Alain Miller, condutor dos psis
Jean Birnbaum
Artigo publicado na edição do “Le Monde”de
14/02/04.
Tradução: Marúcia Ferreira Lima
O genro de Lacan encabeçou a campanha contra o projeto de
emenda que visa regulamentar as psicoterapias. No seu rastro, a
totalidade da intelectualidade parisiense se agita.
Segunda-feira, 19 de janeiro, Palácio do Luxembourgo, 15
horas. Escoltado por alguns amigos, Jacques-Alain Miller precisou
deixar seu chapéu Motsche et Fils no vestiário, para
tomar lugar nos bancos de veludo vermelho que se destacam acima
do semicírculo da Assembléia. Charuto na boca, o assim
chamado “JAM” se apressa em contar os presentes.
Quantos serão eles, chegado o momento, para apreciar a famosa
emenda “Accoyer”, que visa regulamentar as psicoterapias?
Quantos serão, sobretudo, para rejeitar este projeto “liberticida”
contra o qual Miller e os seus puseram-se em campanha e, em seu
rastro, inúmeras figuras da intelectualidade parisiense?
“Por enquanto eu conto somente com 23”, suspira ele,
enquanto o Senado discute o “flagelo da obesidade” e
da oferta de produtos açucarados nas escolas.
Uma hora e meia mais tarde, ali estamos. Trata-se de manter a concentração.
“Não é bom para mim ficar na primeira fila,
só me vêm bobagens de fundo de sala”, cochicha
esse colegial de 60 anos, o nariz no caderno com a efígie
do Pequeno Príncipe. “Isso é bonito!”,
solta ele, quando se eleva a voz do comunista Jack Ralite, trajando
uma longa túnica negra, para citar Aragon e denunciar “o
autoritarismo rasteiro” de uma emenda que visaria “regrar”,
leia-se “descondesafiar” a psicanálise. Em seguida,
adianta-se o socialista Jean-Pierre Sueur. “Ah! Este homem
é inteligente! Vocês sabem que ele é titular
de gramática?” - exclama Jacques-Alain Miller, genro
de Jacques Lacan. Neste dia, com certeza, o chefe da Escola da Causa
Freudiana estava no seu elemento. Quer dizer, na língua e
no argumento. Leiam O Sobrinho de Lacan (sátira dirigida
contra Daniel Lindenberg, publicada por Verdier em 2003), assistam
a um de seus meetings, e vocês sairão convencidos:
mais do que a psicanálise, é um certo estilo, espetacular
e preciso, que constitui seu verdadeiro objeto: “Ele entretém
uma relação única com a língua e a verdade”,
observa o cineasta Benoît Jacquot. É alguém
que não mente. Ou então somente para dizer a verdade...”
Na origem, aqui, a paixão da literatura. Intensa, invasora
mesmo, a ponto de saturar os textos deste velho secundarista, sempre
cheios de citações e pastiches: tal o início
de sua “Carta a Bernard Accoyer”, uma retomada quase
literal, sem aspas nem referência, da célebre Carta
a Cristophe Beaumont, da lavra de Rousseau. “É o meu
lado Lagarde e Michard”, diverte-se Miller, cujas preferências
voltam-se antes para o século XVII: “Corneille, isso
era minha casa, eu ia brincar no jardim da Place des Vosges”,
lembra-se o menino do Marais. Tal é a lei do Céu cuja
sábia eqüidade/ Semeia no universo esta diversidade”:
ainda agora, é o autor de Cinna que é convocado quando
se trata de dizer da dispersão do meio “psi”,
e exortá-lo a “uma reunificação de um
estilo inédito” (Cartas à Opinião Esclarecida,
Seuil, 2002).
Não é por acaso, portanto, que esse vestibulando,
tornado aprendiz filósofo e normalista, tenha cruzado o caminho
da Esquerda proletária. Depois de uma passagem pelos estudantes
comunistas (onde ingressou a pedido de Althusser, que o introduzirá
na leitura de Lacan), foi muito naturalmente que ele se juntou à
esquerda francesa em sua ala mais literária, mais ancorada
na mitologia nacional: “o maoísmo foi invenção
de alguns normalistas, baseada no culto aos grandes homens. O estilo,
a provocação, foi tudo o que restou.” Miller,
terá ele acreditado em algum momento no socialismo? É
duvidoso. Da militância maoísta (pancadaria na Renault
Flins, “boa surra” no comissariado), o antigo “tenente”
de Alain Geismar terá ao menos conservado o gosto pela agitação
e propaganda concebida como investida verbal e como grandiloqüência
coletiva.
Um talento de organizador, também, redobrado por uma rara
capacidade para produção de material de militância.
Ainda hoje, na sala de jantar de sua residência parisiense,
na Rue d’Assas (onde Lacan viveu seu último ano), abaixo
de uma tela de Masson e ao pé de uma cômoda onde reinam
obras de Buffon, encontram-se estocadas filipetas e cartazes para
o próximo “Forum dos Psis”. E ainda, empilhadas
umas contra as outras, as revistas Ornicar? e Elucidation, bem como
um jornal, Le Nouvel Ane, último rebento deste arsenal que
inclui por fim um boletim Internet – L’Agence lacanienne
de presse, que JAM, auxiliado por sua “secretária”
Nathalie Marchaison, alimenta dia após dia com comunicações
e auto-entrevistas. “Quando eu tinha 8 anos, queria ser jornalista.
Meu modelo era o Raymond Cartier da Paris-Match”, declarou
ele justamente diante da câmera de Arielle Dombasle, em um
recente meeting na Mutualité. “Ele não teve
tempo para ser marxista: já ele era um lacaniano”,
no prefácio a seus escritos juvenis (Un début dans
la vie, Le Promeneur, 2002), esse que utiliza naturalmente a terceira
pessoa do singular para se colocar em cena retoma seu gosto pela
“prosa vibrante”. O mesmo que provocou no passado sua
paixão por Lacan. “Eu jamais duvidei do tornado que
seu estreito filete de voz desencadearia cedo ou tarde”, escreve
JAM, que escolheu para emblema um Éolo (gravado por Dürer),
cuja boca sopra a tempestade. Entretanto, o “senhor Genro”
cuida de marcar sua diferença: “O estilo de Lacan era
mallarmeano, recolhido sobre si mesmo. A gramática nele era
tratada como uma filha, se assim posso dizer, e a compreensão
diferida, suspeita. Eu o traduzi em estilo voltairiano e o tornei
acessível, pois o meu prazer é ver a pequena centelha
acender-se nos olhos das pessoas. Em Lacan, era o obscuro no sentido
de Heráclito. Quanto a mim, eu trazia a luz.”
Estilo de luz, estilo de combate também – por muito
tempo discreto, e de há pouco tonitruante. Pois esse “general
aguerrido” (Benoît Jacquot) conheceu sua travessia do
deserto. Durante vinte anos, terá construído um império,
pacientemente, na sombra, multiplicando grupos de estudo e escolas,
na França, mas também na Espanha ou na Argentina,
para construir a Associação Mundial de Psicanálise
(AMP): “Eu criei um mundo. A partir de agora existe a Internacional
criada por Freud – a IPA – freudiana, e a Internacional
criada por mim – AMP, lacaniana.” E de repente, em 2001,
eis novamente Miller, sempre no front, mas desta vez em plena luz.
Por ocasião de uma polêmica com a ortodoxa Revue Française
de Psychanalyse, “Divan o Terrível” lançou-se
à reconquista de Paris.
Ora, a caneta de JAM nunca está tão à vontade
quanto no gesto panfletário, quando é preciso refutar,
zombar, ferir o adversário – aí incluído
fazer terríveis jogos de palavras com seu nome. “A
palavra de Miller vai em cheio na ambigüidade das Luzes, assegura
o psicanalista Patrick Guyomard. Ela seduz, fascina, e também
engana. Com efeito, ela zomba da psicanálise, que utiliza
em puro manejo de símbolos, com uma capacidade derrisória
considerável, própria a fazer acreditar em tudo e
em seu contrário.”
JAM não desdenha uma certa eloqüência à
velha França, a do seu “caro Joseph de Maistre”,
e em geral pelo Ancien Régime: “Clermont-Tonerre e
o abade Grégoire selaram meu republicanismo. O acolhimento
dos judeus pela República, eu não via nada de mais
grandioso. Mas muito tempo adorei os reis de França. Eu colava
suas fotos nos meus cadernos!”, lembra-se esse filho de imigrantes
poloneses que mobiliza espontaneamente a referência feudal
para evocar sua relação com Lacan, ele próprio
fascinado por Maurras em sua juventude: “Quando me encontrei
com Lacan, ele tinha 64 anos e eu , 20. Entre ele e eu, jamais houve
essa rivalidade na qual a sociedade de mercado lança as pessoas.
Era mais medieval: um relacionamento de homens, de lealdade e de
fidelidade. Eu era seu fiel.” Muitos anos mais tarde, quando
descobriu um livro intitulado Caro Mestre – Cartas a Charles
Maurras na vitrine de uma livraria, em frente ao Palais Royal, ele
arrastou seu filho pelo braço dizendo: “Vamos entrar
para ver, tenho certeza de que aí há de haver uma
carta do teu avô”...
Compreende-se que em Bernard Accoyer esse amante do duelo e da
disputa tenha encontrado seu homem: após três anos
de cruzada por uma improvável “reunificação”
do meio analítico, a tempestade provocada por esse projeto
de lei desencadeou um sobressalto coletivo quase providencial. “Os
psis irão lhe dever sua unidade, sr. Accoyer”, ironizou
ele. E de fato, essa emenda (hoje enterrada) terá pelo menos
conseguido suscitar certas reaproximações, sem dúvida
temporárias, mas ainda ontem impensáveis. Assim pôde-se
ver JAM e Elisabeth Roudinesco, na mesma tribuna, de mãos
dadas e erguidas, embora a historiadora tenha sempre criticado o
“legitimismo milleriano” de haver transformado o discurso
lacaniano em “caixa de milagres para seitas messiânicas”
(Jacques Lacan, Fayard, 1993). Da mesma forma, várias figuras
do meio analítico acham-se tentadas a abafar velhas querelas
(clínica, referências teóricas, transcrição
dos seminários de Lacan, cuja responsabilidade é de
seu genro), para resistir na retaguarda de JAM: “Eu não
sou da sua paróquia, mas nesse caso ele soube encontrar as
palavras certas e os apoios necessários contra o higienismo
securitário em matéria de saúde mental, assegura
o psicanalista Roland Gori.. Incontestavelmente, ele se colocou
como um líder político, e a partida foi ganha.”
Apoios, Miller com efeito encontrou alguns. Ao sabor dos acasos,
das afinidades. Phillipe Sollers? Com esse vizinho, perdido de vista
há anos, ele teve a impressão de retomar “a
conversa como se interrompida na véspera”. Bernard-Henry
Lévy, que o saudou (junto com Jean-Claude Milner e Benny
Lévy) como um dos três “reis secretos de nossa
geração”? “Eu cruzei com BHL quatro vezes
em minha vida, mas ele me impressiona como o conde de Monte Cristo.
Ele me pediu que participasse de uma noite de homenagem a Benny
Lévy. Eu aceitei, mesmo sem ter lido seu livro.” E
ainda os filósofos Catherine Clément, seu novo “mentor”,
e Yves Charles Zarka, que Miller em verdade só conheceu recentemente
numa viagem de trem.
No mundo político, ele pôde contar, à direita,
com os filósofos (e ex-maoístas) Blandine Kriegel
e François Evald, que levaram seus argumentos ao Elysée:
“Eu sou ligado a Jérôme Monod e à sua
Fundação para a Inovação Política
– UMP. Tentei fazê-lo compreender o que está
em jogo no debate sobre a saúde mental”, observa Evald,
que foi aluno de JAM na Sorbonne, nos anos 60. À esquerda,
foi essencialmente Roland Dumas, advogado de Lacan no passado, que
respondeu presença: “Jacques-Alain é o marido
de Judith, filha de Lacan, que me é sagrada, disse ele ao
Le Monde. Estou com ele, e fiz tudo para alertar meus amigos sobre
o assunto.”
Isso posto, é necessário evitar supervalorizar o
papel dessas “redes” nos sucessos millerianos. É
antes bem próximo a ele que se deve buscar a chave: “Entre
seus íntimos, primeiro, dentre os quais, na primeira fila,
sua mulher, Judith (que depois do caso Accoyer se deixou convencer
a assinar novamente “Judith Lacan”) e seu irmão,
o midiático Gérard. Em seguida e sobretudo, entre
os fiéis da Causa. Sempre mobilizados, às centenas,
intrépidos e devotos: “Vocês não imaginam
a militância das pessoas que o envolvem. Muitos se casam na
Escola, nela passam noites e fins-de-semana. Todos os que têm
responsabilidades, principalmente fora da capital, têm um
vínculo analítico, portanto pessoal, com Miller. A
cada semana, eles vêm contar-lhe suas vidas. A confidencialidade
cria laços muito fortes, lógicas de paixão,
de traição, logo essa “transferência de
massa” sobre que Miller teorizou...”, recorda-se a psicanalista
Geneviève Morel, que rompeu com Jean em 2000, mas que entretanto
cuida de deixar claro que se sente solidária a sua luta atual
em defesa da psicanálise. E em defesa de uma certa idéia
da França, afinal, essa nação “filha
mais velha do freudismo” que Miller quer salvar da “tirania
do bem” - e isso por todos os meios. Legais, primeiramente:
nas próximas semanas, dezenas de encontros estão previstos
no interior. No horizonte, a presidencial de 2007: “Nós
podemos ter uma influência sobre estas eleições.
Se o clube Phares et Balises de Régis Debray pôde ter
um papel em 1995, me surpreenderia que um grupo como o nosso, se
mantido, não venha a ter. Mas, também, por vias subversivas,
pois que agora JAM ameaça convocar os “psis”
à “desobediência civil”. Última
bravata? “Não se põe Voltaire na cadeia, dizia
De Gaulle. Veremos se eles ousam colocar o genro de Lacan!”
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