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DA INSTITUCIONALIZAÇÃO DO MAL-ESTAR AO MAU
HUMOR INSTITUíDO
- Sobre a cultura dos psicanalistas -
Daniel Kupermann*
Instituir, etimologicamente, diz "fazer com que se mantenha
de pé". Assim, referir-se às instituições
psicanalíticas é referir-se não apenas às
Sociedades ou Escolas de psicanálise, que mais apropriadamente
deveriam ser chamadas de organizações, mas principalmente
aos dispositivos constituídos historicamente de forma a difundir,
manter e perpetuar a psicanálise na cultura, como por exemplo
a instituição "formação analítica",
fundamental para a transmissão e difusão cultural
da psicanálise, a instituição "neutralidade
do analista", a instituição "técnica",
"resistência cultural à psicanálise"
etc.
Pretendo, neste ensaio, fazer uma breve genealogia da constituição
de algumas dessas instituições da psicanálise,
com destaque para a instituição "didática"
- como a análise iniciática à qual o analista
deve se submeter em seu processo de formação -, promovendo
um diálogo entre o momento da sua constituição
e a correspondente reflexão psicanalítica sobre a
cultura, de forma a averiguar a possibilidade de se promover uma
equiparação entre a maneira pela qual os psicanalistas
pensam a cultura e o laço social e a maneira pela qual constituem
a sua "cultura particular", ou seja, a maneira pela qual
se relacionam, se associam entre si e questionam a transmissão
de seu saber.
Nosso Utópico Piquenique
A primeira teoria da cultura explicitada na obra freudiana nos
remete ao artigo Moral sexual "civilizada" e doença
nervosa moderna, de 1908. Encontramos aí um Freud bastante
influenciado pelo pensamento iluminista e entusiasmado pelas promessas
da racionalidade científica, o que faz com que se apresente
como um "reformista cultural" no sentido estrito do termo.
Grosso modo, seu argumento é o de que a civilização
moderna está estruturada sobre uma moral sexual repressora
que obriga os indivíduos - através da "sublimação",
entendida então como uma dessexualização das
pulsões - a canalizar sua libido das finalidades sexuais
"naturais" para finalidades culturalmente aceitas e valorizadas,
como o trabalho artístico e científico. Insistindo
no argumento freudiano, a moral sexual civilizada, fundada no casamento
monogâmico, exige dos indivíduos uma renúncia
maior do que a que são capazes - afinal, a sublimação
é uma "rara virtude" -, produzindo, na forma de
uma "vingança" da sexualidade, as perversões
e especialmente as neuroses, ou seja, a "doença nervosa
moderna". Assim, paradoxalmente, o processo civilizatório,
em busca de benefícios, adoeceria os seus membros, e o saber
psicanalítico sobre a sexualidade - revelado através
da análise das neuroses - levado à sua radicalidade,
indicava que a cura para os neuróticos implicaria também
uma reforma cultural que poria fim à repressão sexual
trazendo felicidade a todos.
Como se pode perceber, há nesse momento inicial das formulações
freudianas uma oposição entre os interesses da psicanálise
e os da civilização, de onde se origina então
a idéia de que a psicanálise é uma prática
eminentemente subversiva à qual a cultura resiste, e a sua
contrapartida, a de que toda dificuldade posta à psicanálise
vem "de fora" - das resistências da cultura - e
não "de dentro" (na mais perfeita lógica
paranóica, aliás). Assim, se algum dia a psicanálise
vencesse o confronto, erradicaria conseqüentemente a neurose
da história da humanidade.
*****
No calor destas formulações e na euforia provocada
pelo fim do "isolamento esplêndido" - que abatera
Freud em seus primeiros anos - em função da intensa
difusão da psicanálise no início do século,
acontece o 2º Congresso Internacional de Psicanálise,
em Nuremberg, quando é criada a Associação
Psicanalítica Internacional. Freud apresenta então
seu trabalho mais otimista: "As perspectivas futuras da terapêutica
psicanalítica", no qual profetiza que com o ganho de
autoridade social (ou seja, transferencial) da psicanálise
a neurose seria de fato erradicada da cultura, o que é ilustrado
através de uma imagem que pode ser considerada paradigmática
da primeira teoria freudiana sobre a cultura:
tenham Suponhamos que certo número de senhoras e cavalheiros,
de bom convívio social, planejado fazer um piquenique, em
certo dia, numa hospedaria no campo. As senhoras combinaram, entre
si, que se uma delas desejasse satisfazer suas necessidades fisiológicas,
diria que iria colher flores. No entanto, uma pessoa maliciosa soube
do segredo e mandou imprimir no programa, que se fêz circular
por todo o grupo: ‘Pede-se às senhoras que desejam
retirar-se à toillete, que anunciem que vão colher
flores`. Depois disso, por certo, nenhuma mulher pensará
em aproveitar-se desse pretexto florido e, do mesmo modo, outras
fórmulas similares que pudessem estabelecer ficariam seriamente
comprometidas. Qual será o resultado? As senhoras admitirão,
sem pejo, as suas necessidades fisiológicas e nenhum dos
homens objetará.
Acompanhando a óbvia analogia, a cultura é um grande
e generalizado piquenique, a hipocrisia neurótica é
representada pela senha "ir colher flores" e a pessoa
maliciosa reveladora da crua verdade é o psicanalista (e
claro, a mulher, sempre a mulher e seus segredos têm um lugar
de destaque na parábola freudiana). Curiosamente, e é
isso que irá nos importar aqui, ao mesmo tempo em que Freud
arriscava suas profecias, Ferenczi havia ficado incumbido de propor
a criação de uma Associação Internacional
que congregasse os psicanalistas. Assim, a Associação
Psicanalítica Internacional (a futura IPA) seria o meio político
- ou a máquina de guerra, na sugestão ferencziana
- para difundir a "boa" psicanálise e atingir os
fins floridos pregados por Freud: uma cultura livre de neuroses.
No entanto, uma análise do discurso proferido por Ferenczi
será reveladora. De maneira surpreendente, esse importante
psicanalista húngaro que por toda a sua vida foi o principal
interlocutor de Freud e que ficou estigmatizado por um certo otimismo
naif no que se refere à clínica psicanalítica,
se mostra na ocasião muito menos otimista do que Freud. Ao
propor uma associação de psicanalistas, Ferenczi não
deixou de enfatizar que, com a sua fundação, se estaria
correndo um grande risco, o de se reproduzir o que chamou de "patologia
das associações", um mal que tende a se abater
sobre os agrupamentos humanos: amor e ódio pelo líder,
que ocupa no imaginário dos membros do grupo o lugar de pai;
afeição e rivalidade entre os colegas/irmãos.
Segundo Ferenczi, o que se encontra nas associações
não difere muito do que se encontra nas famílias,
ou seja, "reina a megalomania pueril, a vaidade, o respeito
a fórmulas ocas, a obediência cega, o interesse pessoal,
em vez de um trabalho consciencioso, dedicado ao bem comum".
Portanto, ainda em 1910 Ferenczi já antecipa as formulações
freudianas de "Totem e tabu" e de "Psicologia de
grupo e análise do ego". O remédio então
proposto para evitar a "patologia das associações"
- que não é nada mais nada menos do que a pobreza
erótica e a mediocridade encontrada na chamada "psicologia
de grupo" - fora justamente a análise iniciática
dos psicanalistas; ou seja, os psicanalistas, pelo próprio
objeto de sua lida e por serem analisados, conseguiriam evitar esse
funesto destino em seu próprio meio. Pode-se levantar a hipótese
de que se isso de fato tivesse acontecido, talvez as formulações
freudianas acerca da cultura tivessem um outro encaminhamento. Mas
o que ocorreu foi exatamente o contrário: venceu a psicologia
de grupo. A psicanálise institucionalizada tornou-se, como
já se está cansado de saber, uma autêntica religião...
com o agravante de ser muito pouco espiritualizada.
A Comunidade dos Porcos-Espinhos
Antes de ver como isso pôde acontecer, retomemos brevemente
as indagações freudianas sobre a cultura. Passada
a euforia presente em Moral sexual "civilizada" e doença
nervosa moderna, o questionamento de Freud recai sobre a origem
da repressão sexual ou, de outra forma, sobre as origens
da lei e da culpabilidade, que fazem com que, em última instância,
as pessoas se submetam às exigências civilizatórias
renunciando à satisfação pulsional - afinal,
talvez fosse apenas o caso de se ter um pouco menos de "covardia
moral", como dizia Freud, e de se afirmar as exigências
pulsionais e o desejo. É nesse sentido que se sucedem os
chamados textos culturais de Freud: Totem e tabu (1913[1912-13])
faz coincidir, com a hipótese do parricídio original,
o nascimento da cultura com o da moral religiosa em função
da culpa do crime comum cometido por todos e por cada um; Psicologia
de grupo e análise do ego (1921) explora as conseqüências
teóricas da formulação de uma instância
psíquica, o ideal do eu, representante da lei paterna; O
futuro de uma ilusão (1927) merece ser destacado por revelar
com maior clareza a metapsicologia da renúncia produzida
pela religião na forma da deificação do Outro
como resposta ao estado de desamparo (Hilflosigkeit) constituinte
do humano; e O mal-estar na civilização (1930[1929]),
que apresenta como impasse maior para a constituição
de uma ordem social não mais a oposição simplista
entre as exigências de trabalho pulsional que afligem o sujeito
e as limitações impostas pela cultura, mas o próprio
trabalho silencioso da pulsão de morte na forma da agressividade
e de uma força destrutiva que não cessa de se opor
aos interesses civilizatórios. Assim, é agora a renúncia
à agressividade constituinte do humano - expressão
do trabalho da pulsão de morte - que, como efeito maior do
ideal cultural "amarás a teu próximo como a ti
mesmo", retorna sobre o próprio sujeito alimentando
o seu já severo superego produzindo, finalmente, pela intensificação
da culpa, a mortificação - a miséria psíquica
- dos sujeitos em vida e promovendo, em termos civilizatórios,
um incremento generalizado do mal-estar. Nesse sentido, as formulações
derradeiras de Freud sobre o mal-estar na cultura fazem apelo à
uma segunda imagem empregada (alguns anos antes) por Freud para
ilustrar a tragédia do laço social entre os homens,
mas que somente agora ganha sua maior intensidade. Trata-se da analogia
com os porcos-espinhos, de Schopenhauer, que se impõe como
imagem paradigmática da segunda teoria freudiana sobre a
cultura:
Um grupo de porcos-espinhos apinhou-se apertadamente em certo dia
frio de inverno, de maneira a aproveitarem o calor uns dos outros
e assim salvarem-se da morte por congelamento. Logo, porém,
sentiram os espinhos uns dos outros, coisa que os levou a se separarem
novamente. E depois, quando a necessidade do aquecimento os aproximou
mais uma vez, o segundo mal surgiu novamente. Dessa maneira foram
impulsionados, para trás e para a frente, de um problema
para o outro, até descobrirem uma distância intermediária,
na qual podiam mais toleravelmente coexistir.
A versão freudiana, no entanto, parece ser ainda menos determinada
que a de Schopenhauer. Não há distância intermediária
pré-fixada que sirva de modelo de um grupo para outro - afinal,
tudo vai depender do tamanho dos espinhos e de seu poder incomodador
para os porcos-espinhos em questão. E mesmo para um grupo
específico, nada garante que o equilíbrio deva perdurar.
Portanto, no horizonte da psicanálise não se encontraria
mais um feliz piquenique como destino para a aventura cultural humana
depois que todo mundo fosse analisado; tampouco restariam garantias
como a de uma "boa análise", ou seja, a de que
um grupo de analistas - ou de sujeitos supostamente bem analisados
- teria seu funcionamento assegurado. Uma organização
de analistas deveria suportar, a partir dessa derradeira formulação,
a estabilidade própria de uma congregação de
porcos-espinhos, na qual vida e morte trabalhariam no sentido de
uma permanente e criativa transformação.
Existem, no entanto, duas maneiras bastante distintas de se entender
as proposições freudianas de O mal-estar na civilização.
Uma que se pode chamar de leitura afirmativa, que interpreta o mal-estar
formulado por Freud não como um pesado fardo que temos de
carregar, mas como a indicação de que não há
soluções homogeneizantes possíveis de serem
aplicadas a todos, isto é, a radicalidade da formulação
de uma pulsão de morte vem apontar a irredutibilidade do
estado de desamparo que está na origem da constituição
do sujeito e que destina cada um à invenção
de um estilo de vida que lhe seja apropriado. É isso que
Freud pretende ao afirmar que "a felicidade, no sentido reduzido
em que a reconhecemos como possível, constitui um problema
da economia da libido do indivíduo". É para isso
que, no nosso entender, aponta o conceito de sublimação,
ao contrário da concepção primeiramente atribuída
à sublimação como uma deserotização
das pulsões. É também uma leitura afirmativa
do mal-estar que permitirá a Lacan aproximar a psicanálise
de uma ética do desejo. Finalmente, é a destinação
do sujeito à criação irredutivelmente singular
que fez com que Freud afirmasse a psicanálise, junto à
educação e a governabilidade, como ofício impossível.
Nesse sentido, as formulação de O mal-estar... são
entendidas positivamente como o testamento da tragédia do
sujeito que, lançado entre o nada de seu desamparo e o vazio
do Outro encontra aí a leveza necessária para alçar
os vôos exigidos em sua aventura inventiva e singular.
No entanto, a leitura de O mal-estar... traz alguns problemas bastante
concretos e de difícil resolução, como por
exemplo a insegurança embutida na idéia de uma comunidade
de porcos-espinhos. Assim, como garantir a sobrevivência e
a estabilidade do grupo? E, mais importante para o nosso argumento,
como garantir a transmissão da experiência psicanalítica
se não se puder contar com um grupo - na forma de uma Associação
- sólido e homogêneo? Essas e outras preocupações
estão na origem de uma leitura reativa do mal-estar - concebido
como um impasse intransponível no que se refere ao laço
social - que entende que, em função da natureza agressiva
e mortífera do homem, a felicidade é um bem inatingível,
não nos restando senão a opção pela
renúncia pulsional e pela deserotização em
nome de um bem comum maior, a "causa". Ou seja, paradoxalmente,
o campo aberto por Freud para a inventividade e a criação
é recuperado institucionalmente na forma de uma justificativa
para uma ética da renúncia, para uma verdadeira mortificação
melancólica - que chamarei aqui de "saudades do piquenique
prometido" - que terminará por reificar o mal-estar
servindo, no entanto, à manutenção do status
quo. Assim, um falso problema que é o da definição
a priori dos destinos que a psicanálise e sua transmissão
deveriam ter, terminará por produzir uma inequívoca
"institucionalização do mal-estar". Não
há dúvida de que foi esta leitura reativa (e institucionalizada)
do mal-estar que predominou na história da psicanálise,
resultando em um período de grande esterilidade que se abateu
sobre o campo psicanalítico.
Da Institucionalização do Mal-Estar ao Mau Humor Instituído
Em 1912, quando da ruptura com Jung, o que chamou a atenção
de Freud foi o fato de que alguém que havia avançado
tanto na psicanálise como Jung - convém lembrar que
Jung era nada mais nada menos que o presidente da IPA - pudesse
ter sucumbido às resistências à psicanálise
e à transferência negativa para consigo (há
nessa época uma inegável coincidência entre
Freud, a psicanálise e o lugar do analista). Ou seja, a ruptura
é entendida como resistência à psicanálise
e hostilidade contra Freud; em bom português, falta de análise.
Caberia então criar dispositivos para que este tipo de dissensão
não se repetisse. É assim que uma curiosa proposta
elaborada por Ferenczi ganha importância, e termina por originar
o que ficou conhecido como o "Comitê Secreto". Ferenczi
acreditava que para o bem da psicanálise um grupo de analistas
da confiança de Freud deveria fazer uma análise com
o próprio mestre vienense e então dirigir-se aos grandes
centros - Berlim, Londres, Nova Iorque etc. - para aí transmitir
o saber psicanalítico e formar novos analistas. Esses homens,
após a análise, poderiam representar "a teoria
pura não-adulterada por complexos pessoais". A análise
com Freud garantiria assim a transmissão da psicanálise
"pura".
Ora, a proposta de Ferenczi permite revelar, com clareza e ao mesmo
tempo, tanto o paradigma da transmissão da psicanálise
quanto o malogro da formação psicanalítica:
primeiro, que a psicanálise se transmite privilegiadamente
através da experiência transferencial; além
disso, ainda que esta talvez não fosse a intenção
original de Ferenczi - que aliás logo se arrependeu da "criatura"
que veio à luz -, que o poder da transferência pode
ser utilizado não apenas na direção da cura,
mas também manipulado para o bom funcionamento institucional,
isto é, bom comportamento teórico dos iniciantes e
manutenção do poder.
O sistema de formação que a partir de Berlim, nos
anos 20, passa a vigorar na IPA, funcionou segundo esses princípios:
manipulação da transferência para o bom funcionamento
institucional, bom comportamento teórico dos iniciantes e
manutenção da hierarquia vigente. Daí se originam
as regulamentações que se abateram sobre a formação
e principalmente sobre a análise iniciática - a chamada
"didática" - dos futuros analistas: uma vez o candidato
aprovado na seleção para a formação,
o Instituto passava a regular o número de anos de análise
obrigatória, o número e o tempo das sessões
semanais, quando iniciar as atividades de estudo teórico
e supervisão clínica, a escolha do analista era limitada
aos didatas... e, o mais relevante, o analista didata dava o seu
parecer sobre a pertinência da habilitação como
analista de seu analisando-candidato.
Ora, nesse sentido, o analista didata exercia o poder real de um
juiz sobre o futuro de seu analisando, e não apenas um suposto
poder fantasmático atribuído pela relação
transferencial. Assim, a obrigatoriedade da análise (que,
aliás, segundo marcou Laplanche em sua última visita
ao Brasil, faz com que a análise iniciática dos analistas
possa se assemelhar com a análise de crianças que
vêm trazidas pelos pais e não pelo próprio desejo)
tem sua contrapartida na impossibilidade do rompimento e do abandono
da relação transferencial, sob o risco de comprometer
todo o projeto de vida do analisando candidato a analista.
Explicitando o problema: é claro que o rompimento e o abandono
de uma análise não é o que se espera de um
processo analítico, no entanto, devido às características
da transferência - especialmente da chamada transferência
negativa como possível forma de expressão da pulsão
de morte -, é uma possibilidade sempre presente no "calor"
de uma análise (e, às vezes, é bom observar,
torna-se mesmo a salvação de alguns analisandos frente
o sadismo de alguns analistas). Onde o rompimento não pode
acontecer, a análise está submetida à uma fórmula
transferencial totalitária do mesmo tipo daquela que era
veiculada durante a ditadura militar brasileira, o "ame-o ou
deixe-o", onde deixar o analista pode ter o valor de um exílio
do campo psicanalítico tornando-se tão dolorosamente
impossível quanto o era na ditadura "deixar" o
país (na ditadura militar o "deixe-o" significava
na melhor das opções o exílio; as outras "opções"
eram mesmo a tortura ou finalmente a morte).
Assim, tradicionalmente as análises iniciáticas da
formação psicanalítica se estruturaram sob
o signo da recusa do negativo e da pulsão de morte, onde
o analisando-candidato era posto sob a insígnia do amor incondicional.
Ou seja, em uma fórmula também equivalente à
apresentada por Freud para a civilização produtora
de mal-estar, através da máxima impossível
de ser cumprida: "amarás a teu próximo como a
ti mesmo". O efeito maior desse sistema tornou-se bastante
visível a partir de meados do século, quando surge,
para a surpresa dos veteranos, uma geração de jovens
psicanalistas excessivamente "normais" - "normal
candidates", como referidos na literatura psicanalítica
de língua inglesa.
Anna Freud nos relata com perplexidade a transformação
sofrida no perfil dos candidatos a psicanalista estabelecendo uma
comparação entre o início e meados do século.
Enquanto dentre os pioneiros da primeira geração de
psicanalistas encontravam-se pessoas excêntricas, questionadoras,
criativas, autodidatas e também bastante neuróticas,
que por isso mesmo se interessavam pela psicanálise, os candidatos
de meados do século - nos EUA, mas com validade também
para alguns centros europeus - eram em sua maioria jovens médicos
bem adaptados ao seu way of life, bastante conformistas e aparentemente
sem conflitos que justificassem uma busca de análise, mas
que o faziam pela ambição de um diploma a mais na
parede, submetendo-se à análise porque esta era exigência
obrigatória nos Institutos de formação. Ainda
segundo Anna, eram geralmente limitados, pouco criativos... enfim,
excessivamente normais, o que não se adequa bem ao ofício
psicanalítico.
Foi preciso que Michael Balint, na trilha inaugurada por Ferenczi,
fizesse a crítica do processo de institucionalização
da psicanálise implicando-a na produção de
suas próprias resistências e dificuldades. O que chamava
a sua atenção não era a "normalidade"
dos candidatos, mas o fato de estes serem excessivamente obedientes
a seus didatas e submissos às teorias por eles veiculadas
e às técnicas aprendidas em sua formação.
Assim, seu argumento era o de que, em primeiro lugar, se um jovem
com um perfil próximo ao dos pioneiros se interessasse pela
psicanálise, seria recusado logo em seu ingresso nos Institutos.
Se por acaso fosse aceito para a formação, sofreria
uma "intropressão superegóica" tão
forte que ou seria obrigado a abandonar a psicanálise em
nome da própria saúde psíquica ou tornar-se-ia
finalmente "normal", isto é, obediente, conformado
e adaptado à vida social e ao modus vivendi da Sociedade
Psicanalítica (tornar-se-ia "eunuco", segundo Hélio
Pellegrino).
Concluindo com Balint, o objetivo da formação é
superegóico, isto é, operacionalizado através
da instituição didática e suas variantes, visa
provocar uma identificação maciça ao analista
formador e uma conseqüente produção de obediência.
O candidato é, nesse sistema, obrigado a incorporar a imagem
idealizada de seu analista "engolindo-a por inteiro" -
isto é, sem poder "comê-lo aos pedacinhos",
o que implicaria na possibilidade de aceitação de
algumas e rejeição de outras de suas qualidades, técnicas
ou métodos - uma vez que todo qüestionamento ou mesmo
ataque destrutivo é interpretado e sufocado na raiz. Resultado:
"indigestão" psíquica, mal-estar institucionalizado,
mau humor instituído. Assim, pela demanda de amor incondicional
que, através da evitação da experiência
real da transferência negativa na análise (ou seja,
o ódio e a hostilidade podem apenas ser "falados",
mas nunca "sentidos", vividos afetivamente), transformara
a "fidelidade transferencial" - necessária à
transmissão da psicanálise - em "submissão
transferencial", os psicanalistas terminaram privados de seus
espinhos e condenados a um piquenique monótono, estéril
e tedioso. E um psicanalista entediado é talvez o pior destino
ao qual se poderia condenar a psicanálise. Mas é justamente
disso que se trata. O mal-estar institucionalizado terminou encarnado
na caricatura do psicanalista empobrecido afetivamente, melancólico,
deserotizado, sisudo e mal-humorado, apesar de muito aplicado nos
estudos e respeitador das normas e das hierarquias,.
Este é o contexto no qual Lacan dirige suas críticas
às instituições psicanalíticas, junto
à uma reformulação teórica sob o bandeira
do "retorno a Freud". Em termos institucionais, Lacan
cria dois dispositivos já conhecidos entre nós: o
cartel, que ensaiaria uma transmissão da psicanálise
que pudesse evitar os efeitos da psicologia de grupo; e o passe
que, abolindo os regulamentos sobre a análise iniciática
do analista buscaria definir a didática - ou seja, em que
consiste a análise que faz emergir um analista - a posteriori,
através do testemunho daqueles que viveram a experiência
e dela puderem testemunhar. Decerto não se trata aqui de
aprofundar o exame dessas experiências, mas de ressaltar que
a experiência da Escola foi considerada um "fracasso",
na avaliação do próprio Lacan, que a dissolveu
16 anos após de criá-la. Grosso modo, pode-se dizer
que o fracasso consistiu no fato de que, mais uma vez, vencera a
"pobreza psicológica dos grupos".
É o que Lacan revela um pouco antes de morrer quando, ao
embarcar para uma série de conferências em Caracas
anuncia querer ver o que acontece quando a sua pessoa não
opacifica o seu ensino e, uma vez lá, dirige-se à
platéia com um chiste que pode ser considerado uma espécie
de testamento da sua experiência institucional: "...Cabe
a vocês serem lacanianos, se quiserem. Quanto a mim sou freudiano".
Triste destino o de ser o "último freudiano" em
sua própria Escola. O lacanismo também criara seus
"normalpatas". A vantagem da máquina criada por
Lacan em relação a IPA é que a Escola ainda
podia, por um ato do próprio Lacan, ser dissolvida após
a revelação do seu fracasso, o que, no entanto, no
atual projeto de uma "Internacional Lacaniana" não
poderá mais acontecer.
Para Não Dizer Que Não Falei Das Flores
Apenas de forma indicativa, uma via promissora para se insistir
em uma leitura afirmativa do mal-estar como a possibilidade da criação
e da invenção não apenas de um estilo de vida
singular para o sujeito mas também de novas formas possíveis
de sociabilidade seria a inclusão, na lista dos chamados
textos culturais de Freud, de um pequeno artigo de 1927, O humor,
curiosamente escrito e elaborado logo após O futuro de uma
ilusão. Ali encontra-se um rascunho da metapsicologia do
humor no qual Freud nos apresenta um superego que não se
confundirá com o "senhor severo" tradicional na
metapsicologia, tampouco com o "imperativo de gozo" postulado
por Lacan, mas que pode contribuir psiquicamente de forma prazerosa,
apontando para a possibilidade de um laço social no qual
"porcos-espinhos" poderiam se aproximar sem terem que
necessariamente ver seus espinhos arrancados e também sem
terem que se destruir uns aos outros.
Para aqueles que, no entanto, quiserem persistir em seu piquenique
estéril regando a institucionalização do mal-estar,
é indicada a adoção das quatro receitas, inspiradas
em Eisenman, para um analista rígido e dogmático:
1. Fale apenas com os colegas que compartilham suas verdades. Falar
com colegas de outras escolas poderá abrir seu espírito
e torná-lo influenciável; 2. Não leia livros
nem publicações que abordem outras leituras da psicanálise
que não a adotada em sua Escola ou Sociedade. Para prevenir
as críticas referentes à sua falta de erudição,
diga que você adoraria ler mais, mas não tem tempo
para isso. Dessa forma você evitará ser confrontado
com novas idéias; 3. Utilize termos diagnósticos e
terapêuticos para condenar seus opositores: se você
é contrário aos militantes da paz, rotule-os de ecléticos,
não-castrados e/ou perversos. Se você é favorável
a eles, refira-se aos seus oponentes como paranóicos. Não
justifique suas asserções, contente-se em afirmar
que você se baseia sobre o seu feeling clínico ou uma
teorização qualquer sobre o falo; 4. Nunca deixe um
analisando encerrar o processo analítico impunemente. Ameace-o
dizendo que o final de análise não chegou e que se
ele precisar retornar você não terá mais horários
para atendê-lo, ou de que seu sofrimento é herdado
geneticamente etc. Se você fracassar com algum analisando,
diga que ele é inanalisável. Jamais admita que o problema
possa residir em você. E bom proveito!
* Psicanalista, membro da Formação Freudiana e da
Société Internationale D`Histoire de la Psychiatrie
et de la Psychanalyse, coordenador e professor da Pós-graduação
em Teoria Psicanalítica do IBMR e autor de Transferências
Cruzadas - uma história da psicanálise e suas instituições
(Rio de Janeiro, Revan, 1996).
1Este ensaio é uma versão da conferência pronunciada
no dia 16/10/97 na mesa sobre "institucionalidade" do
ciclo de debates "Impasses da Psicanálise Contemporânea",
realizado na PUC - Rio. Participaram também da mesa Cecília
Coimbra e Jeremias Ferraz Lima, cob a coordenação
de Helena Besserman Vianna.
2 Cf. Enriquez, M. & Enriquez, E. "Le psychanalyste et
son institution". Topique - revue freudienne. 6. Paris, PUF,
1971.
3 Freud, S. (1908) "Moral sexual ‘civilizada’
e doença nervosa moderna". In E.S.B. Vol. IX. Rio de
Janeiro, Imago, 1980.
4 Freud, S. (1910) "As perspectivas futuras da terapêutica
psicanalítica". In E.S.B. Vol. XI. Op.cit.
5 Ibid., p. 134.
6 Ferenczi, S. (1911) "Sobre a história do movimento
psicanalítico". In Psicanálise I. São
Paulo, Martins Fontes, 1991.
7 Ibid., p. 149.
8 Freud, S. (1903-1905) "Estudos sobre a histeria". In
E.S.B. Vol. II. Op. cit.
9 Cf. Freud, S (1930[1929]). "O mal-estar na civilização".
In E.S.B. Vol. XXI. Op. cit., p. 130.
10 Freud, S (1921). "Psicologia de grupo e análise
do ego". In E.S.B. Vol. XVIII. Op. cit., p. 128, primeira nota
de rodapé.
11Freud, S (1920[29]) . "O mal-estar...". Op. cit., p.
103
12 Cf. Birman, J. "Desamparo, horror e sublimação".
In Estilo e modernidade em psicanálise. São Paulo,
Editora 34, 1997.
13 Lacan, J. O seminário - a ética da psicanálise.
Livro 7. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988.
14Freud, S (1937). "Análise terminável e interminável".
In E.S.B. Vol. XXIII. Op. cit.
15A excessiva síntese do argumento aqui apresentado se deve
ao fato dessas idéias estarem suficientemente apresentadas
em outro trabalho, ao qual remeto o leitor. Cf. Kupermann, D. Transferências
Cruzadas - uma história da psicanálise e suas instituições.
Rio de Janeiro, Revan, 1996.
16Apud Grosskurth, P. The secret ring. Adisson-Wesley, 1991, p.
46.
17Freud, A . "Difficultés survenant sur le chemin de
la psychanalyse". Nouvelle revue de psychanalyse. 10. Paris,
Gallimard, 1978.
18Balint, M. "On the psycho-analytic training system".
International journal of psychoanalysis. 29, London, 1948.
19Pellegrino, H. "Análise da instituição
psicanalítica: um caso clínico". In Cerqueira
Fo., G. (org.) Crise na psicanálise. Rio de Janeiro, Graal,
1982.
20Balint, M. "Analytic training and training analysis".
International journal of psychoanalysis. 35, London, 1954.
21 Cf. Birman, J. "A invenção desejante da psicanálise
- sobre os impasses na transmissão da psicanálise".
In Kupermann, D. Transferências Cruzadas... Op. cit., p. 237
(texto inserido como "leitura crítica" ao livro
citado).
22É bastante reveladora a aplicação dessas
e outras idéias na análise do já interminável
caso Amílcar Lobo. Bom militar, Lobo relata ter sido o sexto
colocado numa turma de 36 aspirantes-oficiais do exército.
Bom aluno de psicanálise, era o primeiro entre 18 no curso
de psicoterapia de grupo ministrado pelo Dr. La Porta. No final
das contas, diz, não fez mais do que "obedecer ordens
superiores", e isto realmente fazia bem! (Cf. Kupermann, D.
Transferências Cruzadas... Op. cit., cap. 7).
23Aliás, a falta de humor é tanta que, quando um
conhecido psicanalista francês, Sacha Nacht, publicou um artigo
no International journal of psychoanalysis reconhecendo os malefícios
da análise obrigatória e propondo como solução
para curar os efeitos iatrogênicos desta análise a
obrigatoriedade de uma segunda análise - ou seja, uma segunda
análise obrigatória para curar o mal-estar produzido
pela primeira, ninguém riu!E a idéia foi seriamente
considerada (Cf. Nacht, S. "The difficulties of didactic psycho-analysis
in relation to therapeutic psycho analysis. IJP. 35, London, 1954).
24 Cf. Kupermann, D. Transferências cruzadas... Op. cit.
Cap. 5.
25Lacan, J. "Sur l`experience de la passe". Ornicar?
12-13. Paris, Seuil, 1977.
26Apud Roudinesco, E. História da psicanálise na
França. Vol. 2. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988.
27Tema que venho trabalhando no curso de doutorado do Programa
de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica
do Instituto de Psicologia da UFRJ, sob a orientação
do professor Joel Birman. Não posso deixar ainda de dizer
que o mau humor instituído no campo psicanalítico
tem também suas exceções, como as contribuições
de Aída Ungier no sentido de resgatar a importância
do humor na clínica (cf. Ungier, A . "Humor por acaso
- uma metapsicologia para o humor". Dissertação
de mestrado em teoria psicanalítica. UFRJ, 1997.
28Apud Szafran, A W. "Humour, créativité et
psychothérapie". In Nysenholc, A & Szafran, A W.
(orgs.). Freud et le rire. Paris, Métailié, 1994.
E Mail de Daniel Kupermann:danielk@openlink.com.br
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