< voltar

DA INSTITUCIONALIZAÇÃO DO MAL-ESTAR AO MAU HUMOR INSTITUíDO

- Sobre a cultura dos psicanalistas -

Daniel Kupermann*

Instituir, etimologicamente, diz "fazer com que se mantenha de pé". Assim, referir-se às instituições psicanalíticas é referir-se não apenas às Sociedades ou Escolas de psicanálise, que mais apropriadamente deveriam ser chamadas de organizações, mas principalmente aos dispositivos constituídos historicamente de forma a difundir, manter e perpetuar a psicanálise na cultura, como por exemplo a instituição "formação analítica", fundamental para a transmissão e difusão cultural da psicanálise, a instituição "neutralidade do analista", a instituição "técnica", "resistência cultural à psicanálise" etc.

Pretendo, neste ensaio, fazer uma breve genealogia da constituição de algumas dessas instituições da psicanálise, com destaque para a instituição "didática" - como a análise iniciática à qual o analista deve se submeter em seu processo de formação -, promovendo um diálogo entre o momento da sua constituição e a correspondente reflexão psicanalítica sobre a cultura, de forma a averiguar a possibilidade de se promover uma equiparação entre a maneira pela qual os psicanalistas pensam a cultura e o laço social e a maneira pela qual constituem a sua "cultura particular", ou seja, a maneira pela qual se relacionam, se associam entre si e questionam a transmissão de seu saber.


Nosso Utópico Piquenique

A primeira teoria da cultura explicitada na obra freudiana nos remete ao artigo Moral sexual "civilizada" e doença nervosa moderna, de 1908. Encontramos aí um Freud bastante influenciado pelo pensamento iluminista e entusiasmado pelas promessas da racionalidade científica, o que faz com que se apresente como um "reformista cultural" no sentido estrito do termo. Grosso modo, seu argumento é o de que a civilização moderna está estruturada sobre uma moral sexual repressora que obriga os indivíduos - através da "sublimação", entendida então como uma dessexualização das pulsões - a canalizar sua libido das finalidades sexuais "naturais" para finalidades culturalmente aceitas e valorizadas, como o trabalho artístico e científico. Insistindo no argumento freudiano, a moral sexual civilizada, fundada no casamento monogâmico, exige dos indivíduos uma renúncia maior do que a que são capazes - afinal, a sublimação é uma "rara virtude" -, produzindo, na forma de uma "vingança" da sexualidade, as perversões e especialmente as neuroses, ou seja, a "doença nervosa moderna". Assim, paradoxalmente, o processo civilizatório, em busca de benefícios, adoeceria os seus membros, e o saber psicanalítico sobre a sexualidade - revelado através da análise das neuroses - levado à sua radicalidade, indicava que a cura para os neuróticos implicaria também uma reforma cultural que poria fim à repressão sexual trazendo felicidade a todos.

Como se pode perceber, há nesse momento inicial das formulações freudianas uma oposição entre os interesses da psicanálise e os da civilização, de onde se origina então a idéia de que a psicanálise é uma prática eminentemente subversiva à qual a cultura resiste, e a sua contrapartida, a de que toda dificuldade posta à psicanálise vem "de fora" - das resistências da cultura - e não "de dentro" (na mais perfeita lógica paranóica, aliás). Assim, se algum dia a psicanálise vencesse o confronto, erradicaria conseqüentemente a neurose da história da humanidade.

*****

No calor destas formulações e na euforia provocada pelo fim do "isolamento esplêndido" - que abatera Freud em seus primeiros anos - em função da intensa difusão da psicanálise no início do século, acontece o 2º Congresso Internacional de Psicanálise, em Nuremberg, quando é criada a Associação Psicanalítica Internacional. Freud apresenta então seu trabalho mais otimista: "As perspectivas futuras da terapêutica psicanalítica", no qual profetiza que com o ganho de autoridade social (ou seja, transferencial) da psicanálise a neurose seria de fato erradicada da cultura, o que é ilustrado através de uma imagem que pode ser considerada paradigmática da primeira teoria freudiana sobre a cultura:

tenham Suponhamos que certo número de senhoras e cavalheiros, de bom convívio social, planejado fazer um piquenique, em certo dia, numa hospedaria no campo. As senhoras combinaram, entre si, que se uma delas desejasse satisfazer suas necessidades fisiológicas, diria que iria colher flores. No entanto, uma pessoa maliciosa soube do segredo e mandou imprimir no programa, que se fêz circular por todo o grupo: ‘Pede-se às senhoras que desejam retirar-se à toillete, que anunciem que vão colher flores`. Depois disso, por certo, nenhuma mulher pensará em aproveitar-se desse pretexto florido e, do mesmo modo, outras fórmulas similares que pudessem estabelecer ficariam seriamente comprometidas. Qual será o resultado? As senhoras admitirão, sem pejo, as suas necessidades fisiológicas e nenhum dos homens objetará.


Acompanhando a óbvia analogia, a cultura é um grande e generalizado piquenique, a hipocrisia neurótica é representada pela senha "ir colher flores" e a pessoa maliciosa reveladora da crua verdade é o psicanalista (e claro, a mulher, sempre a mulher e seus segredos têm um lugar de destaque na parábola freudiana). Curiosamente, e é isso que irá nos importar aqui, ao mesmo tempo em que Freud arriscava suas profecias, Ferenczi havia ficado incumbido de propor a criação de uma Associação Internacional que congregasse os psicanalistas. Assim, a Associação Psicanalítica Internacional (a futura IPA) seria o meio político - ou a máquina de guerra, na sugestão ferencziana - para difundir a "boa" psicanálise e atingir os fins floridos pregados por Freud: uma cultura livre de neuroses.

No entanto, uma análise do discurso proferido por Ferenczi será reveladora. De maneira surpreendente, esse importante psicanalista húngaro que por toda a sua vida foi o principal interlocutor de Freud e que ficou estigmatizado por um certo otimismo naif no que se refere à clínica psicanalítica, se mostra na ocasião muito menos otimista do que Freud. Ao propor uma associação de psicanalistas, Ferenczi não deixou de enfatizar que, com a sua fundação, se estaria correndo um grande risco, o de se reproduzir o que chamou de "patologia das associações", um mal que tende a se abater sobre os agrupamentos humanos: amor e ódio pelo líder, que ocupa no imaginário dos membros do grupo o lugar de pai; afeição e rivalidade entre os colegas/irmãos. Segundo Ferenczi, o que se encontra nas associações não difere muito do que se encontra nas famílias, ou seja, "reina a megalomania pueril, a vaidade, o respeito a fórmulas ocas, a obediência cega, o interesse pessoal, em vez de um trabalho consciencioso, dedicado ao bem comum". Portanto, ainda em 1910 Ferenczi já antecipa as formulações freudianas de "Totem e tabu" e de "Psicologia de grupo e análise do ego". O remédio então proposto para evitar a "patologia das associações" - que não é nada mais nada menos do que a pobreza erótica e a mediocridade encontrada na chamada "psicologia de grupo" - fora justamente a análise iniciática dos psicanalistas; ou seja, os psicanalistas, pelo próprio objeto de sua lida e por serem analisados, conseguiriam evitar esse funesto destino em seu próprio meio. Pode-se levantar a hipótese de que se isso de fato tivesse acontecido, talvez as formulações freudianas acerca da cultura tivessem um outro encaminhamento. Mas o que ocorreu foi exatamente o contrário: venceu a psicologia de grupo. A psicanálise institucionalizada tornou-se, como já se está cansado de saber, uma autêntica religião... com o agravante de ser muito pouco espiritualizada.


A Comunidade dos Porcos-Espinhos

Antes de ver como isso pôde acontecer, retomemos brevemente as indagações freudianas sobre a cultura. Passada a euforia presente em Moral sexual "civilizada" e doença nervosa moderna, o questionamento de Freud recai sobre a origem da repressão sexual ou, de outra forma, sobre as origens da lei e da culpabilidade, que fazem com que, em última instância, as pessoas se submetam às exigências civilizatórias renunciando à satisfação pulsional - afinal, talvez fosse apenas o caso de se ter um pouco menos de "covardia moral", como dizia Freud, e de se afirmar as exigências pulsionais e o desejo. É nesse sentido que se sucedem os chamados textos culturais de Freud: Totem e tabu (1913[1912-13]) faz coincidir, com a hipótese do parricídio original, o nascimento da cultura com o da moral religiosa em função da culpa do crime comum cometido por todos e por cada um; Psicologia de grupo e análise do ego (1921) explora as conseqüências teóricas da formulação de uma instância psíquica, o ideal do eu, representante da lei paterna; O futuro de uma ilusão (1927) merece ser destacado por revelar com maior clareza a metapsicologia da renúncia produzida pela religião na forma da deificação do Outro como resposta ao estado de desamparo (Hilflosigkeit) constituinte do humano; e O mal-estar na civilização (1930[1929]), que apresenta como impasse maior para a constituição de uma ordem social não mais a oposição simplista entre as exigências de trabalho pulsional que afligem o sujeito e as limitações impostas pela cultura, mas o próprio trabalho silencioso da pulsão de morte na forma da agressividade e de uma força destrutiva que não cessa de se opor aos interesses civilizatórios. Assim, é agora a renúncia à agressividade constituinte do humano - expressão do trabalho da pulsão de morte - que, como efeito maior do ideal cultural "amarás a teu próximo como a ti mesmo", retorna sobre o próprio sujeito alimentando o seu já severo superego produzindo, finalmente, pela intensificação da culpa, a mortificação - a miséria psíquica - dos sujeitos em vida e promovendo, em termos civilizatórios, um incremento generalizado do mal-estar. Nesse sentido, as formulações derradeiras de Freud sobre o mal-estar na cultura fazem apelo à uma segunda imagem empregada (alguns anos antes) por Freud para ilustrar a tragédia do laço social entre os homens, mas que somente agora ganha sua maior intensidade. Trata-se da analogia com os porcos-espinhos, de Schopenhauer, que se impõe como imagem paradigmática da segunda teoria freudiana sobre a cultura:

Um grupo de porcos-espinhos apinhou-se apertadamente em certo dia frio de inverno, de maneira a aproveitarem o calor uns dos outros e assim salvarem-se da morte por congelamento. Logo, porém, sentiram os espinhos uns dos outros, coisa que os levou a se separarem novamente. E depois, quando a necessidade do aquecimento os aproximou mais uma vez, o segundo mal surgiu novamente. Dessa maneira foram impulsionados, para trás e para a frente, de um problema para o outro, até descobrirem uma distância intermediária, na qual podiam mais toleravelmente coexistir.


A versão freudiana, no entanto, parece ser ainda menos determinada que a de Schopenhauer. Não há distância intermediária pré-fixada que sirva de modelo de um grupo para outro - afinal, tudo vai depender do tamanho dos espinhos e de seu poder incomodador para os porcos-espinhos em questão. E mesmo para um grupo específico, nada garante que o equilíbrio deva perdurar. Portanto, no horizonte da psicanálise não se encontraria mais um feliz piquenique como destino para a aventura cultural humana depois que todo mundo fosse analisado; tampouco restariam garantias como a de uma "boa análise", ou seja, a de que um grupo de analistas - ou de sujeitos supostamente bem analisados - teria seu funcionamento assegurado. Uma organização de analistas deveria suportar, a partir dessa derradeira formulação, a estabilidade própria de uma congregação de porcos-espinhos, na qual vida e morte trabalhariam no sentido de uma permanente e criativa transformação.

Existem, no entanto, duas maneiras bastante distintas de se entender as proposições freudianas de O mal-estar na civilização. Uma que se pode chamar de leitura afirmativa, que interpreta o mal-estar formulado por Freud não como um pesado fardo que temos de carregar, mas como a indicação de que não há soluções homogeneizantes possíveis de serem aplicadas a todos, isto é, a radicalidade da formulação de uma pulsão de morte vem apontar a irredutibilidade do estado de desamparo que está na origem da constituição do sujeito e que destina cada um à invenção de um estilo de vida que lhe seja apropriado. É isso que Freud pretende ao afirmar que "a felicidade, no sentido reduzido em que a reconhecemos como possível, constitui um problema da economia da libido do indivíduo". É para isso que, no nosso entender, aponta o conceito de sublimação, ao contrário da concepção primeiramente atribuída à sublimação como uma deserotização das pulsões. É também uma leitura afirmativa do mal-estar que permitirá a Lacan aproximar a psicanálise de uma ética do desejo. Finalmente, é a destinação do sujeito à criação irredutivelmente singular que fez com que Freud afirmasse a psicanálise, junto à educação e a governabilidade, como ofício impossível. Nesse sentido, as formulação de O mal-estar... são entendidas positivamente como o testamento da tragédia do sujeito que, lançado entre o nada de seu desamparo e o vazio do Outro encontra aí a leveza necessária para alçar os vôos exigidos em sua aventura inventiva e singular.

No entanto, a leitura de O mal-estar... traz alguns problemas bastante concretos e de difícil resolução, como por exemplo a insegurança embutida na idéia de uma comunidade de porcos-espinhos. Assim, como garantir a sobrevivência e a estabilidade do grupo? E, mais importante para o nosso argumento, como garantir a transmissão da experiência psicanalítica se não se puder contar com um grupo - na forma de uma Associação - sólido e homogêneo? Essas e outras preocupações estão na origem de uma leitura reativa do mal-estar - concebido como um impasse intransponível no que se refere ao laço social - que entende que, em função da natureza agressiva e mortífera do homem, a felicidade é um bem inatingível, não nos restando senão a opção pela renúncia pulsional e pela deserotização em nome de um bem comum maior, a "causa". Ou seja, paradoxalmente, o campo aberto por Freud para a inventividade e a criação é recuperado institucionalmente na forma de uma justificativa para uma ética da renúncia, para uma verdadeira mortificação melancólica - que chamarei aqui de "saudades do piquenique prometido" - que terminará por reificar o mal-estar servindo, no entanto, à manutenção do status quo. Assim, um falso problema que é o da definição a priori dos destinos que a psicanálise e sua transmissão deveriam ter, terminará por produzir uma inequívoca "institucionalização do mal-estar". Não há dúvida de que foi esta leitura reativa (e institucionalizada) do mal-estar que predominou na história da psicanálise, resultando em um período de grande esterilidade que se abateu sobre o campo psicanalítico.


Da Institucionalização do Mal-Estar ao Mau Humor Instituído

Em 1912, quando da ruptura com Jung, o que chamou a atenção de Freud foi o fato de que alguém que havia avançado tanto na psicanálise como Jung - convém lembrar que Jung era nada mais nada menos que o presidente da IPA - pudesse ter sucumbido às resistências à psicanálise e à transferência negativa para consigo (há nessa época uma inegável coincidência entre Freud, a psicanálise e o lugar do analista). Ou seja, a ruptura é entendida como resistência à psicanálise e hostilidade contra Freud; em bom português, falta de análise. Caberia então criar dispositivos para que este tipo de dissensão não se repetisse. É assim que uma curiosa proposta elaborada por Ferenczi ganha importância, e termina por originar o que ficou conhecido como o "Comitê Secreto". Ferenczi acreditava que para o bem da psicanálise um grupo de analistas da confiança de Freud deveria fazer uma análise com o próprio mestre vienense e então dirigir-se aos grandes centros - Berlim, Londres, Nova Iorque etc. - para aí transmitir o saber psicanalítico e formar novos analistas. Esses homens, após a análise, poderiam representar "a teoria pura não-adulterada por complexos pessoais". A análise com Freud garantiria assim a transmissão da psicanálise "pura".

Ora, a proposta de Ferenczi permite revelar, com clareza e ao mesmo tempo, tanto o paradigma da transmissão da psicanálise quanto o malogro da formação psicanalítica: primeiro, que a psicanálise se transmite privilegiadamente através da experiência transferencial; além disso, ainda que esta talvez não fosse a intenção original de Ferenczi - que aliás logo se arrependeu da "criatura" que veio à luz -, que o poder da transferência pode ser utilizado não apenas na direção da cura, mas também manipulado para o bom funcionamento institucional, isto é, bom comportamento teórico dos iniciantes e manutenção do poder.

O sistema de formação que a partir de Berlim, nos anos 20, passa a vigorar na IPA, funcionou segundo esses princípios: manipulação da transferência para o bom funcionamento institucional, bom comportamento teórico dos iniciantes e manutenção da hierarquia vigente. Daí se originam as regulamentações que se abateram sobre a formação e principalmente sobre a análise iniciática - a chamada "didática" - dos futuros analistas: uma vez o candidato aprovado na seleção para a formação, o Instituto passava a regular o número de anos de análise obrigatória, o número e o tempo das sessões semanais, quando iniciar as atividades de estudo teórico e supervisão clínica, a escolha do analista era limitada aos didatas... e, o mais relevante, o analista didata dava o seu parecer sobre a pertinência da habilitação como analista de seu analisando-candidato.

Ora, nesse sentido, o analista didata exercia o poder real de um juiz sobre o futuro de seu analisando, e não apenas um suposto poder fantasmático atribuído pela relação transferencial. Assim, a obrigatoriedade da análise (que, aliás, segundo marcou Laplanche em sua última visita ao Brasil, faz com que a análise iniciática dos analistas possa se assemelhar com a análise de crianças que vêm trazidas pelos pais e não pelo próprio desejo) tem sua contrapartida na impossibilidade do rompimento e do abandono da relação transferencial, sob o risco de comprometer todo o projeto de vida do analisando candidato a analista.

Explicitando o problema: é claro que o rompimento e o abandono de uma análise não é o que se espera de um processo analítico, no entanto, devido às características da transferência - especialmente da chamada transferência negativa como possível forma de expressão da pulsão de morte -, é uma possibilidade sempre presente no "calor" de uma análise (e, às vezes, é bom observar, torna-se mesmo a salvação de alguns analisandos frente o sadismo de alguns analistas). Onde o rompimento não pode acontecer, a análise está submetida à uma fórmula transferencial totalitária do mesmo tipo daquela que era veiculada durante a ditadura militar brasileira, o "ame-o ou deixe-o", onde deixar o analista pode ter o valor de um exílio do campo psicanalítico tornando-se tão dolorosamente impossível quanto o era na ditadura "deixar" o país (na ditadura militar o "deixe-o" significava na melhor das opções o exílio; as outras "opções" eram mesmo a tortura ou finalmente a morte).

Assim, tradicionalmente as análises iniciáticas da formação psicanalítica se estruturaram sob o signo da recusa do negativo e da pulsão de morte, onde o analisando-candidato era posto sob a insígnia do amor incondicional. Ou seja, em uma fórmula também equivalente à apresentada por Freud para a civilização produtora de mal-estar, através da máxima impossível de ser cumprida: "amarás a teu próximo como a ti mesmo". O efeito maior desse sistema tornou-se bastante visível a partir de meados do século, quando surge, para a surpresa dos veteranos, uma geração de jovens psicanalistas excessivamente "normais" - "normal candidates", como referidos na literatura psicanalítica de língua inglesa.

Anna Freud nos relata com perplexidade a transformação sofrida no perfil dos candidatos a psicanalista estabelecendo uma comparação entre o início e meados do século. Enquanto dentre os pioneiros da primeira geração de psicanalistas encontravam-se pessoas excêntricas, questionadoras, criativas, autodidatas e também bastante neuróticas, que por isso mesmo se interessavam pela psicanálise, os candidatos de meados do século - nos EUA, mas com validade também para alguns centros europeus - eram em sua maioria jovens médicos bem adaptados ao seu way of life, bastante conformistas e aparentemente sem conflitos que justificassem uma busca de análise, mas que o faziam pela ambição de um diploma a mais na parede, submetendo-se à análise porque esta era exigência obrigatória nos Institutos de formação. Ainda segundo Anna, eram geralmente limitados, pouco criativos... enfim, excessivamente normais, o que não se adequa bem ao ofício psicanalítico.

Foi preciso que Michael Balint, na trilha inaugurada por Ferenczi, fizesse a crítica do processo de institucionalização da psicanálise implicando-a na produção de suas próprias resistências e dificuldades. O que chamava a sua atenção não era a "normalidade" dos candidatos, mas o fato de estes serem excessivamente obedientes a seus didatas e submissos às teorias por eles veiculadas e às técnicas aprendidas em sua formação. Assim, seu argumento era o de que, em primeiro lugar, se um jovem com um perfil próximo ao dos pioneiros se interessasse pela psicanálise, seria recusado logo em seu ingresso nos Institutos. Se por acaso fosse aceito para a formação, sofreria uma "intropressão superegóica" tão forte que ou seria obrigado a abandonar a psicanálise em nome da própria saúde psíquica ou tornar-se-ia finalmente "normal", isto é, obediente, conformado e adaptado à vida social e ao modus vivendi da Sociedade Psicanalítica (tornar-se-ia "eunuco", segundo Hélio Pellegrino).

Concluindo com Balint, o objetivo da formação é superegóico, isto é, operacionalizado através da instituição didática e suas variantes, visa provocar uma identificação maciça ao analista formador e uma conseqüente produção de obediência. O candidato é, nesse sistema, obrigado a incorporar a imagem idealizada de seu analista "engolindo-a por inteiro" - isto é, sem poder "comê-lo aos pedacinhos", o que implicaria na possibilidade de aceitação de algumas e rejeição de outras de suas qualidades, técnicas ou métodos - uma vez que todo qüestionamento ou mesmo ataque destrutivo é interpretado e sufocado na raiz. Resultado: "indigestão" psíquica, mal-estar institucionalizado, mau humor instituído. Assim, pela demanda de amor incondicional que, através da evitação da experiência real da transferência negativa na análise (ou seja, o ódio e a hostilidade podem apenas ser "falados", mas nunca "sentidos", vividos afetivamente), transformara a "fidelidade transferencial" - necessária à transmissão da psicanálise - em "submissão transferencial", os psicanalistas terminaram privados de seus espinhos e condenados a um piquenique monótono, estéril e tedioso. E um psicanalista entediado é talvez o pior destino ao qual se poderia condenar a psicanálise. Mas é justamente disso que se trata. O mal-estar institucionalizado terminou encarnado na caricatura do psicanalista empobrecido afetivamente, melancólico, deserotizado, sisudo e mal-humorado, apesar de muito aplicado nos estudos e respeitador das normas e das hierarquias,.

Este é o contexto no qual Lacan dirige suas críticas às instituições psicanalíticas, junto à uma reformulação teórica sob o bandeira do "retorno a Freud". Em termos institucionais, Lacan cria dois dispositivos já conhecidos entre nós: o cartel, que ensaiaria uma transmissão da psicanálise que pudesse evitar os efeitos da psicologia de grupo; e o passe que, abolindo os regulamentos sobre a análise iniciática do analista buscaria definir a didática - ou seja, em que consiste a análise que faz emergir um analista - a posteriori, através do testemunho daqueles que viveram a experiência e dela puderem testemunhar. Decerto não se trata aqui de aprofundar o exame dessas experiências, mas de ressaltar que a experiência da Escola foi considerada um "fracasso", na avaliação do próprio Lacan, que a dissolveu 16 anos após de criá-la. Grosso modo, pode-se dizer que o fracasso consistiu no fato de que, mais uma vez, vencera a "pobreza psicológica dos grupos".

É o que Lacan revela um pouco antes de morrer quando, ao embarcar para uma série de conferências em Caracas anuncia querer ver o que acontece quando a sua pessoa não opacifica o seu ensino e, uma vez lá, dirige-se à platéia com um chiste que pode ser considerado uma espécie de testamento da sua experiência institucional: "...Cabe a vocês serem lacanianos, se quiserem. Quanto a mim sou freudiano". Triste destino o de ser o "último freudiano" em sua própria Escola. O lacanismo também criara seus "normalpatas". A vantagem da máquina criada por Lacan em relação a IPA é que a Escola ainda podia, por um ato do próprio Lacan, ser dissolvida após a revelação do seu fracasso, o que, no entanto, no atual projeto de uma "Internacional Lacaniana" não poderá mais acontecer.


Para Não Dizer Que Não Falei Das Flores

Apenas de forma indicativa, uma via promissora para se insistir em uma leitura afirmativa do mal-estar como a possibilidade da criação e da invenção não apenas de um estilo de vida singular para o sujeito mas também de novas formas possíveis de sociabilidade seria a inclusão, na lista dos chamados textos culturais de Freud, de um pequeno artigo de 1927, O humor, curiosamente escrito e elaborado logo após O futuro de uma ilusão. Ali encontra-se um rascunho da metapsicologia do humor no qual Freud nos apresenta um superego que não se confundirá com o "senhor severo" tradicional na metapsicologia, tampouco com o "imperativo de gozo" postulado por Lacan, mas que pode contribuir psiquicamente de forma prazerosa, apontando para a possibilidade de um laço social no qual "porcos-espinhos" poderiam se aproximar sem terem que necessariamente ver seus espinhos arrancados e também sem terem que se destruir uns aos outros.

Para aqueles que, no entanto, quiserem persistir em seu piquenique estéril regando a institucionalização do mal-estar, é indicada a adoção das quatro receitas, inspiradas em Eisenman, para um analista rígido e dogmático: 1. Fale apenas com os colegas que compartilham suas verdades. Falar com colegas de outras escolas poderá abrir seu espírito e torná-lo influenciável; 2. Não leia livros nem publicações que abordem outras leituras da psicanálise que não a adotada em sua Escola ou Sociedade. Para prevenir as críticas referentes à sua falta de erudição, diga que você adoraria ler mais, mas não tem tempo para isso. Dessa forma você evitará ser confrontado com novas idéias; 3. Utilize termos diagnósticos e terapêuticos para condenar seus opositores: se você é contrário aos militantes da paz, rotule-os de ecléticos, não-castrados e/ou perversos. Se você é favorável a eles, refira-se aos seus oponentes como paranóicos. Não justifique suas asserções, contente-se em afirmar que você se baseia sobre o seu feeling clínico ou uma teorização qualquer sobre o falo; 4. Nunca deixe um analisando encerrar o processo analítico impunemente. Ameace-o dizendo que o final de análise não chegou e que se ele precisar retornar você não terá mais horários para atendê-lo, ou de que seu sofrimento é herdado geneticamente etc. Se você fracassar com algum analisando, diga que ele é inanalisável. Jamais admita que o problema possa residir em você. E bom proveito!

* Psicanalista, membro da Formação Freudiana e da Société Internationale D`Histoire de la Psychiatrie et de la Psychanalyse, coordenador e professor da Pós-graduação em Teoria Psicanalítica do IBMR e autor de Transferências Cruzadas - uma história da psicanálise e suas instituições (Rio de Janeiro, Revan, 1996).


1Este ensaio é uma versão da conferência pronunciada no dia 16/10/97 na mesa sobre "institucionalidade" do ciclo de debates "Impasses da Psicanálise Contemporânea", realizado na PUC - Rio. Participaram também da mesa Cecília Coimbra e Jeremias Ferraz Lima, cob a coordenação de Helena Besserman Vianna.

2 Cf. Enriquez, M. & Enriquez, E. "Le psychanalyste et son institution". Topique - revue freudienne. 6. Paris, PUF, 1971.

3 Freud, S. (1908) "Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna". In E.S.B. Vol. IX. Rio de Janeiro, Imago, 1980.

4 Freud, S. (1910) "As perspectivas futuras da terapêutica psicanalítica". In E.S.B. Vol. XI. Op.cit.

5 Ibid., p. 134.

6 Ferenczi, S. (1911) "Sobre a história do movimento psicanalítico". In Psicanálise I. São Paulo, Martins Fontes, 1991.

7 Ibid., p. 149.

8 Freud, S. (1903-1905) "Estudos sobre a histeria". In E.S.B. Vol. II. Op. cit.

9 Cf. Freud, S (1930[1929]). "O mal-estar na civilização". In E.S.B. Vol. XXI. Op. cit., p. 130.

10 Freud, S (1921). "Psicologia de grupo e análise do ego". In E.S.B. Vol. XVIII. Op. cit., p. 128, primeira nota de rodapé.

11Freud, S (1920[29]) . "O mal-estar...". Op. cit., p. 103

12 Cf. Birman, J. "Desamparo, horror e sublimação". In Estilo e modernidade em psicanálise. São Paulo, Editora 34, 1997.

13 Lacan, J. O seminário - a ética da psicanálise. Livro 7. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988.

14Freud, S (1937). "Análise terminável e interminável". In E.S.B. Vol. XXIII. Op. cit.

15A excessiva síntese do argumento aqui apresentado se deve ao fato dessas idéias estarem suficientemente apresentadas em outro trabalho, ao qual remeto o leitor. Cf. Kupermann, D. Transferências Cruzadas - uma história da psicanálise e suas instituições. Rio de Janeiro, Revan, 1996.

16Apud Grosskurth, P. The secret ring. Adisson-Wesley, 1991, p. 46.

17Freud, A . "Difficultés survenant sur le chemin de la psychanalyse". Nouvelle revue de psychanalyse. 10. Paris, Gallimard, 1978.

18Balint, M. "On the psycho-analytic training system". International journal of psychoanalysis. 29, London, 1948.

19Pellegrino, H. "Análise da instituição psicanalítica: um caso clínico". In Cerqueira Fo., G. (org.) Crise na psicanálise. Rio de Janeiro, Graal, 1982.

20Balint, M. "Analytic training and training analysis". International journal of psychoanalysis. 35, London, 1954.

21 Cf. Birman, J. "A invenção desejante da psicanálise - sobre os impasses na transmissão da psicanálise". In Kupermann, D. Transferências Cruzadas... Op. cit., p. 237 (texto inserido como "leitura crítica" ao livro citado).

22É bastante reveladora a aplicação dessas e outras idéias na análise do já interminável caso Amílcar Lobo. Bom militar, Lobo relata ter sido o sexto colocado numa turma de 36 aspirantes-oficiais do exército. Bom aluno de psicanálise, era o primeiro entre 18 no curso de psicoterapia de grupo ministrado pelo Dr. La Porta. No final das contas, diz, não fez mais do que "obedecer ordens superiores", e isto realmente fazia bem! (Cf. Kupermann, D. Transferências Cruzadas... Op. cit., cap. 7).

23Aliás, a falta de humor é tanta que, quando um conhecido psicanalista francês, Sacha Nacht, publicou um artigo no International journal of psychoanalysis reconhecendo os malefícios da análise obrigatória e propondo como solução para curar os efeitos iatrogênicos desta análise a obrigatoriedade de uma segunda análise - ou seja, uma segunda análise obrigatória para curar o mal-estar produzido pela primeira, ninguém riu!E a idéia foi seriamente considerada (Cf. Nacht, S. "The difficulties of didactic psycho-analysis in relation to therapeutic psycho analysis. IJP. 35, London, 1954).

24 Cf. Kupermann, D. Transferências cruzadas... Op. cit. Cap. 5.

25Lacan, J. "Sur l`experience de la passe". Ornicar? 12-13. Paris, Seuil, 1977.

26Apud Roudinesco, E. História da psicanálise na França. Vol. 2. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988.

27Tema que venho trabalhando no curso de doutorado do Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica do Instituto de Psicologia da UFRJ, sob a orientação do professor Joel Birman. Não posso deixar ainda de dizer que o mau humor instituído no campo psicanalítico tem também suas exceções, como as contribuições de Aída Ungier no sentido de resgatar a importância do humor na clínica (cf. Ungier, A . "Humor por acaso - uma metapsicologia para o humor". Dissertação de mestrado em teoria psicanalítica. UFRJ, 1997.

28Apud Szafran, A W. "Humour, créativité et psychothérapie". In Nysenholc, A & Szafran, A W. (orgs.). Freud et le rire. Paris, Métailié, 1994.

E Mail de Daniel Kupermann:danielk@openlink.com.br