< voltar

Com Lacan no século XXI


Antonio Quinet

Nota do editor – Este é o editorial do número 2 da nova revista “Heteridade”, da “IF” (“Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano”), publicação internacional prevista para ser editada em quatro línguas. A edição brasileira do número 1 está sendo publicada em português no final de novembro de 2001, dedicada ao tema “campo lacaniano”. Este editorial, que publicamos em primeira mão, refere-se ao tema do número dois, “Lacan no século”, que retoma alguns trabalhos apresentados no colóquio internacional “2001 – Uma odisséia lacaniana”, que será publicado inicialmente em Paris em dezembro de 2001.

No dia 13 de abril de 1901, nascia Jacques Lacan. Nessa mesma data cem anos depois, realizava-se no Rio de Janeiro um colóquio Internacional sobre Lacan no século entitulado 2001- a odisséia lacaniana reunindo analistas dos Fóruns do Campo Lacaniano e de outras instituições psicanalíticas que vieram de diversas cidades do mundo intercambiar suas experiências e elaborações teóricas orientadas pelo ensino de Lacan. Este segundo número de Heteridade reúne uma pequena amostra dessas contribuições.

Cinco meses depois ocorreu o atentado terrorista ao símbolo máximo do capitalismo ocidental na maior potência mundial. Desde então vivemos uma nova guerra com novas mortes e novos racismos ; com a espionagem e o controle generalizados que ameaçam a vida privada a pretexto de uma pretensa segurança ; com o bioterrorismo ; a ampliação crescente da influência da religião em seu aspecto mais fundamentalista. Todos esse fatores craim o leito para uma nova subjetividade da qual desconhecemos ainda todas suas coordenadas e cujas consequências são imprevisíveis, mas que o psicanalista não deve ignorar se ele quiser estar à altura de sua tarefa ética e política. Eis a orientação que Lacan nos legou tendo previsto tanto as consequências segregativas do mercado quanto a expansão funesta da religião.

No discurso capitalista e no fundamentalismo religioso, dois extremos polarizantes de nossa civilização, não há lugar para a heteridade.

No primeiro, a relação do sujeito com o outro do laço social é substituída pela relação com alguma « latusa », objeto produzido pela ciência que se apresenta como causa de desejo, instalando os sujeitos em uma lógica do « todo ». Esta lógica, na qual não está inscrita a castração, abole a diferença fazendo de todos nós consumidores : « todos proletários ».

No segundo, dominado pela lógica do « Um », tampouco o outro está presente : aqui são todos iguais diante do Um divino ao qual se sacrificam vidas e se dedicam mortes e onde as mulheres, como Hetera, são carnes a serem rasgadas sob a ação da cisalha fálica.

A época da bioeconomia, deixando prara trás a da conectividade, se instalou agora definitivamente mostrando sua Hibris ao deixar cair a mácara médica : o bioterrorismo, como produto da ciência, não é apenas uma arma de guerra mas também do capital (o corpo já não está prestes a se tornar uma nova latusa ?) e da religião (o corpo-bomba, o corpo-vírus). As neurociências ao tentarem preencher o hiato entre o que ocorre no corpo e o que afeta o sujeito – seus sintomas, seus sonhos, suas angústias - buscam se impor para gerenciar o gozo prórpio a cada um.

Lacan construiu a « lógica de Heteros » e definiu um campo, marcado com seu nome, que é o da economia dos gozos. É o campo próprio do psicanalista, que segundo Lacan é chamado a « alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época ». Como fazê-lo sem colocar em prática a indicação de Freud de que o analista deve se desprender das ilusões religiosas assim como as que estão no fundamento da política, da ciência e da relação entre os sexos ? É a que se dedicam os autores deste número ao fazerem dialogar entre si os diferentes discursos do campo lacaniano para que eles se interpretem uns aos outros.

Entrar no século XXI com Lacan é o ato ético que os membros dos Foruns do campo lacaniano fizeram ao optar pela preservação de um laço social que trata o outro como um sujeito, que cultiva um desejo capaz de subverter os efeitos do empuxe-ao-consumo, que acolhe os modos de retorno do sujeito inconsciente foracluído do discurso contemporâneo da ciência e que promove a causa particular do desejo que faz objeção à causa capitalista e à causa religiosa.

Lacan nos alertou que o triunfo da religião seria o fracasso da psicanálise e que bactérias resistentes a tudo poderiam varrer o humano da face da terra. Religião e ciência podem efetivamente « curar a humanidade desse sintoma que é a psicanálise ». Nada garante a sobrevivência do discurso do analista em vistas da construçao de uma « sociedade pós-humana ».

Para que ele tenha um lugar dentre os outrso discursos, é preciso que haja analistas - daí a importância de uma Escola de psicanálise que possa garantir sua formação. Eis o que visa a criação da Escola de Psicanálise do Campo Lacaniano, por ocasião do Encontro da Internacional dos Fóruns em dezembro em Paris, neste ano do centenário de Lacan.

Rio de Janeiro, 8 de novembro de 2001

< voltar