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FREUDIANOS, MANTENHAM DISTÂNCIA.
(LOLITA, DO LIVRO AO FILME)
"Freudians, keep out V.Nabokov
Jansy Berndt de Souza Mello
I- Introdução
Vladimir Nabokov é considerado um dos maiores escritores
do século XX. Lolita, seu décimo-segundo romance foi
publicado em 1958 e tornou-se um clássico da literatura contemporânea.
A partir dele foram realizados dois filmes. O primeiro, de 1961
foi dirigido por Stanely Kubrick e filmado em oitenta e oito dias.
Sua estréia mundial deu-se no dia 13 de junho de 1962, em
Nova Iorque e o próprio Nabokov assinou o roteiro. O segundo
foi dirigido por Adrian Lyne em 1998 [1]. O script de Stephen Schiff
segue de bem perto o romance: já na primeira cena escutamos
a voz do protagonista enquanto degusta sua lembrança de Lolita
e a ela se declara: "Lolita, luz da minha vida, fogo da minha
paixão. Meu pecado, minha alma".
Qual das interpretações cinematográficas terá
sido mais fiel ao espírito da obra de Nabokov é difícil
de assegurar. Se, no primeiro mergulhamos no clima de paródia
tipicamente nabokoviano, alcançando o pastiche na atuação
de Peter Sellers e no enquadre das cenas, no de Adrian Lyne a dimensão
trágica engolfa o aspecto cômico e nos torna inadvertidamente
solidários ao acusado, sem que tenhamos oportunidade de nos
sentirmos um pouco afrontados com sua ironia e crueldade, como acontece
no livro. Ao mesmo tempo, Lyne convoca melhor as angústias
e cisões que Nabokov inclui nos devaneios de Humbert.
Nabokov não era um apreciador de música, muito embora,
na composição dos seus romances, e Lolita não
foi exceção, vários temas se entrelaçassem
e atravessassem de frente para trás ou de cima para baixo,
como se a melodia e a estrutura do romance seguissem uma técnica
semelhante a do contraponto musical, no lugar da sincronização
dos argumentos e da ação. Uma história de amor
se dissolve na outra, Annabel Leigh...Lee...Loleeta, com algumas
variações, enquanto um assassinato se anuncia entre
caçadas e fugas que nos devolvem ao tema inicial. Natureza
e arte são para Nabokov "um jogo intrincado de encantamento
e engano", ou seja, seu registro principal pertence ao imaginário
com sua verdade própria. Entretanto, a magia que Nabokov
faz acontecer se dá por intermédio da escrita, graças
ao vértice do qual ele, o autor, nos fala.
Em Lolita, Nabokov não pretendeu detalhar o relacionamento
dos personagens, mas introduzir o leitor em seus "jogos de
mundos" ("world-plays" ) para estabelecer com ele
uma relação especial. Na sua ânsia de manter
controle sobre os textos, enchendo-os de pequenos recados dirigidos
a uma platéia específica, carregando-os de instruções,
Nabokov tiranizou a leitura, mas o desafio e o fascínio são
de tal ordem que, com freqüência, dominador e dominado
se mantém em contato. O que não se pode esquecer,
porque Nabokov sempre retorna à questão, é
que seus escritos não tem outra realidade senão a
da ficção através da qual ele pretende criar
mundos inteiramente novos. Suas intrusões no texto nos advertem
que " toda realidade é uma máscara". Máscara
que não esconde um rosto, mas que tem olhos que nos encaram
sem pena.
Para Alfred Appel Jr., a obra literária de Nabokov, em seu
conjunto, oferece-nos um exemplo das "estratégias involutivas"
que fazem com que os livros se dobrem sobre si próprios,
auto-referentes e conscientes do seu lugar como ficção.
A involução, para Appel Jr., é alcançada
de sete maneiras, todas elas interrelacionadas: paródia,
coincidência, desenho, alusão, obra-dentro-da-obra,
encenação e voz do autor. Para ele "a estratégia
da involução determina a estrutura e o sentido dos
romances de Nabokov". Estas táticas foram reproduzidas
apenas parcialmente na adaptação do romance ao cinema,
recebendo mais cuidado no filme de Adrian Lyne. Se Lolita "tivesse
sido escrita por um autor menor poderia ter resultado em um filme
melhor", concluiu Kubrick. Tanto ele quanto James B.Harris,
produtor do primeiro filme, consideraram o roteiro de Nabokov como
sendo infilmável e introduziram modificações
importantes reduzindo sua extensão e diminuindo "a primazia
dada às palavras sobre a ação" (como era
a intenção de Nabokov)[2]. Na opinião do crítico
de cinema R. Corliss, "Kubrick enxugou o roteiro de Nabokov,
convertendo-o numa história bem-feita. O romancista escreveu
um filme esfuziantemente cinematográfico, que só podia
existir no papel". O roteirista de Lyne, Stephen Schiff considerou
o filme de Kubrick como tendendo mais para um "Quilty"
do que para Lolita, se levarmos em conta o fascínio do diretor
por Peter Sellers e o espaço que lhe deu para os improvisos.
Para Schiff, Lolita não é apenas um livro, é
um quebra-cabeças e, ao transpo-lo para o cinema, ele pretendia
" conseguir algo que fosse semelhante ao efeito pretendido
por Nabokov após as necessárias releituras do seu
livro embora, no cinema, meios de expressão inteiramente
diversos pudessem ser utilizados para (...)traduzir numa espécie
de linguagem de signos - a linguagem do cinema - aquilo que um dos
maiores mestres da prosa do século XX expressou, de modo
incomparável,[3] na página escrita" .
Sabemos que nenhum dos filmes sobre Lolita resultou em grande sucesso
de bilheteria, assim como também não o foram o musical
e a peça teatral. O romance, no entanto, fez a fortuna do
romancista e as duas mais recentes edições brasileiras
estão esgotadas.
Escolhi falar sobre o filme Lolita ( fosse ele qual fosse[4] )
porque há anos desejava encontrar um pretexto que me obrigasse
a debruçar-me com mais cuidado na leitura dos romances de
Nabokov, pois estranhava ver-me estimulada e risonha até
quando conduzida aos recantos escuros de um universo cruel e perverso.
Como num passe de mágica aquele arrogante autor russo, egoísta,
desmedido e bisonho, tornara-se um dos meus escritores favoritos.
Livros como Bend Sinister, Gargalhada no Escuro e Lolita eram desafios
que me obrigavam a pesquisar de que maneira seus insanos personagens
me diziam respeito. Também buscava avaliar até que
ponto seus dois mais charmosos monstros, Kinbote ( em "Fogo
Pálido" ) e Humbert Humbert ( "Lolita ") podiam
ser confundidos com seu criador .
Vladimir Nabokov nasceu em São Petersburgo, na Rússia,
em 1899 e morreu em Montreux, Suíça, em 1977. Descendente
de uma família aristocrática, sua infância foi
cercada de cuidados e de luxo. Era o filho mais velho entre quatro,
o favorito dos pais e, como um dos seus personagens, " amava
a si mesmo com um amor apaixonado e profundamente recíproco".
Seus estudos universitários foram realizados no Trinity College,
em Cambridge. Viveu como exilado em Berlim ( onde seu pai foi vítima
de um assassinato político ) e em Paris. Posteriormente adquiriu
cidadania americana, trabalhando no departamento de literatura da
Universidade de Cornell e na Wellesley College. Além de escritor,
V.Nabokov era um lepidopterlogista reconhecido por seus trabalhos
sobre borboletas e mariposas. Muitas das suas obras, além
de "Lolita ", foram traduzidas para o português.
Entre estas temos "Fogo Pálido", "Perfeição",
"A Defesa", "Desespero", "Pnin", "
Coisas Transparentes" e " A Pessoa em Questão".
Entre os anos sessenta e setenta outros livros de Nabokov foram
adaptados para o cinema: "Laughter in the Dark", "Despair:
Uma Viagem para a Luz" e "King,Queen, Knave"[5].
Vladimir Nabokov, que então se assinava Vladimir Sirin, sentiu
"o primeiro latejar de Lolita" no final dos anos trinta
inspirado, paradoxalmente, em um artigo de jornal sobre uma pesquisa
com um chimpanzé no Jardin des Plantes. Este teria sido capaz
de executar o primeiro desenho jamais realizado por um animal: as
barras da sua própria jaula. Quando escreve Lolita seu narrador,
Humbert Humbert, também está por trás das grades.
O texto que antecedeu Lolita intitulava-se " Volshebnik"
em russo. Segundo Dmitri Nabokov, filho do autor, outras traduções
possíveis a esta palavra russa seriam as de "mágico",
"feiticeiro", "ilusionista", além da
que ele finalmente escolheu, "The Enchanter". Para o romancista
russo, no campo da literatura "o mago dos encantamentos me
interessa mais do que o tecelão ou o professor" porque
ele entende que a grandeza de uma obra, como a de Charles Dickens
ou de Gógol, advém do fato de que ela se sustenta
"como um fenômeno de linguagem e não, de idéias".
Isto não é o mesmo que dizer, como o queriam alguns
estudiosos de Nabokov, que ele entendesse, ao modo de Hegel e de
Nietzsche, que não existam fatos, só interpretações.
Para ele, apenas o ser literário é um fato do dito.
Quanto ao resto...veremos o que ele pensa sobre isto.
II - A Pré-Lolita
No "The Enchanter" encontramos uma ninfeta anônima,
de nacionalidade francesa e seu sedutor chama-se, provisóriamente,
Arthur. Os "latejares", que não teriam cessado
nem com a emigração de Nabokov, em 1940, para os Estados
Unidos, voltaram a se fazer sentir com força dez anos mais
tarde, em Ithaca. Foi quando ele decidiu retomar o tema, desta vez
escrevendo em inglês, " língua falada por sua
primeira governanta em São Petersburgo". Segundo o autor
a nova ninfeta, agora acrescida de algumas gotas de sangue irlandês,
era bem parecida como a francesinha original e a idéia básica
do conto, em que o encantador se casa com a mãe para aproximar-se
da filha, também permaneceu a mesma, embora todo o resto
fosse novo e tivesse "deixado crescer em segredo as garras
e as asas de um romance".
A novela se inicia com um monólogo no qual o personagem
se pergunta sobre a natureza dos sentimentos e impulsos que experimenta
("doença? criminalidade?") para concluir que ele
não é um sedutor pois, " as limitações
que imponho aos meus desejos, as máscaras que invento quando
na vida real faço surgir, como num passe de mágica,
um método absolutamente invisível para saciar minha
paixão, tem uma sofística providencial. Sou um pivete,
não sou ladrão". Ele investiga se a angústia
que sempre acompanha "seus anseios sem perspectiva de conseguir
extrair alguma coisa da beleza, de aprisioná-la por um instante,
fazer alguma coisa com ela - não importa o que, desde que
haja algum tipo de contato que de alguma maneira, de qualquer maneira
lhe traga saciedade", provoca nele "uma intolerável
sensação de uma comunhão sanguínea,
epidérmica, multivascular com ela, como se o monstruoso bisseccionador
que bombeia todo os sucos do interior do seu ser se estendesse para
dentro dela na pulsação de uma linha pontilhada, como
se a menina estivesse crescendo de dentro dele, como se cada movimento
livre, dela, retesasse e sacudisse as raízes vitais implantadas
nas entranhas da sua vida permitindo que, quando abruptamente mudasse
de posição ou fugisse, ele sentisse um repuxão,
um arrancar terrível, uma momentânea perda de equilíbrio:
subitamente, você está deslizando de costas pela poeira,
batendo a cabeça no chão, até ficar pendurado
pelas tripas". Porque, até então, sua apaixonada
busca de beleza se passava no mundo dos sonhos[6]. As dificuldades
surgiram quando o sonho começou a se materializar em uma
menina que deslizava de patins em um parque.
O acaso colocou uma moeda em seu caminho, uma conversa iniciou-se
no banco de uma praça e as fantasias ganharam corpo e realidade.
Agora ele percebia " a total falta de equilíbrio e a
qualidade espectral das suas maquinações, toda sua
mansa loucura, o erro evidente da sua obsessão, livre e genuína
apenas enquanto florescente nos confins da sua fantasia, mas que
agora se desviara da sua única legítima expressão
para embarcar ( com a diligência patética do lunático,
do aleijado, da criança obtusa que, a qualquer momento seria
punida com uma surra ) nos desígnios e ações
que constituem a área de competência da vida adulta
e material". Havia uma jovem, de carne e osso, que havia se
transformado em um ser "absolutamente único e insubstituível"[7],
mas que permanecia, simultaneamente, como " um original sem
preço: menina adormecida, quadro a óleo".
E foi esta obra de arte que, subitamente desperta quando o padrasto
"passou a vara de condão acima do seu corpo" ,
começou a gritar. Surpreendido em sua nudez, o sedutor fugiu
do quarto e acabou esmagado por uma viatura de olhos amarelos, "no
cinema instantâneo do desmembramento" que " romperia
o filme da sua vida". A novela se encerra neste ponto, mas
estamos ainda no começo do que será o romance Lolita,
momentos antes do amanhecer no hotel ''O Caçador Encantado".
Tanto no The Enchanter como em Lolita, acompanhamos como se dá
a passagem da fantasia ao ato, embora permaneçamos ainda
e sempre no campo literário. Em ambos, os adultos aparecem
como vítimas da sedução de uma criança.
Escravos das ninfetas[8], tanto Arthur como Humbert não pretendem
tocá-las senão pela imaginação: eles
se aproximam das sombras dos seus corpos, do jogo de luzes em suas
roupas quando se movem, para acariciá-las em pensamento.
Contudo, desde logo eles se reconhecem como monstros porque percebem
que de alguma forma eles corrompem o objeto dos seus devaneios.
Há uma força que se desprende das suas fantasias para
estender tentáculos sobre o mundo. No romance inaugural esta
força psíquica pode levar uma senhora, indignada,
a mudar-se da cabina do trem que partilha com eles. Nada externo
e palpável justifica o desconforto e a vergonha que a senhora
sinaliza, entretanto percebemos que os que dele se aproximam sentem
sua eletricidade e sofrem seu contágio. Como o constatou
Richard Rorty, " mesmo depois de fechado, o livro nos manipula.
Temos a estranha sensação de que ele está nos
olhando de longe, e rindo " (Rorty, prefácio ao Pale
Fire, 1992) [9].
Lolita. Confissão? Caso clínico? Pornografia? Romance
policial? História de amor?
III- Caçadores Encantados
William Dow entende que Nabokov se aproveitou das convenções
da ficção nos romances policiais e criminais para
"destruir" seu texto, estabelecendo um jogo de esconde-esconde
com o leitor. Para Dow "Nabokov faz uma reinvenção
da novela criminal", induzindo o leitor a assumir o papel do
detetive, muito embora saiba, desde o início, quem cometeu
o crime. Os descaminhos da história entre Quilty e Humbert
se dão em um clima de paródia que desliza sobre questões
éticas e perguntas que o próprio personagem não
se fez. " Não sou um criminoso psicopata, um tarado
que se aproveita de crianças. Sou um terapeuta"[10],
afirma. " O que possuí loucamente não foi ela,
mas minha própria criação fictícia,
Lolita sim, embora talvez mais real que Lolita, sobrepondo-se a
ela ou a envolvendo, voando entre ela e mim, sem vontade e sem consciência
e, de fato, sem vida própria".
Na prisão, um dos poucos livros disponíveis a Humbert,
entre catálogos com interessantes meninas modelando roupas,
é Um Crime Anunciado, de Agatha Christie. Se o anunciado
assassinato de Quilty só pode ser acompanhado através
da consciência do criminoso, pelo registro que ele deixa sobre
os antecedentes do seu crime, isto não é elaborado
nos dois filmes realizados a partir do romance Lolita. Em nenhum
deles se acentua a alternância entre ficção
e realidade como sendo um produto que emerge da subjetividade de
Humbert, ou se reconhece a dependência do leitor/espectador
ao que escuta na voz do insano protagonista.
Kubrick praticamente abafou a voz de Humbert em seu diário,
usado principalmente para conectar uma cena à outra ou para
descrever datas e localidades. Tanto ele como Adrian Lyne ignoraram
o enquadre que cria a necessária distancia entre os eventos
na tela e o pensamento de Humbert e o próprio espectador
é despistado da loucura ao deixar de ser informado de que
não há outra história senão a do relato
delirante do narrador. Ao contrário do livro de Nabokov,
que se inicia com um obituário escrito pelo Dr. John Ray
Jr. e no qual ele oferece Lolita como parte de "um material
clínico", nos dois filmes Humbert Humbert já
se vê diante do assassinato de Quilty, em vias de ser executado
(Kubrick) ou realizado ( Lyne )[11]. Os dois roteiros, neste ponto,
são fiéis ao que se passou na cabeça do autor,
pois Nabokov precisou iniciar o esquema do livro com a morte de
Quilty para, só depois, elaborar o jogo estratégico
das aparições e das referências que servem de
pistas para a decifração do leitor.
O papel de detetive na caçada, no filme de Kubrick, não
exigiu faro especial porque ele permitiu que Quilty fosse vislumbrado
em algumas cenas ( lembrando que o narrador ludibriado não
tem como enxergá-lo no romance). Nestas cenas o espectador
escapa das grades do relato de Humbert Humbert, como se visse o
filme pela perspectiva do autor. O mesmo ocorre no filme de Adrian
Lyne, mas na sua versão a presença concreta de Quilty
é discreta. Apesar disto, o espectador ainda pode ficar surpreso
diante da ignorância de Humbert a respeito da identidade do
homem que lhe roubou Lolita e que, para persegui-lo, precisa recorrer
aos registros dos hotéis por onde passou com a garota. Trata-se
de uma caçada criptogramática de papéis, na
terminologia de HH, pela qual se recortam e se costuram diferentes
partes do mapa dos Estados Unidos, como se este fosse uma enorme
colcha de retalhos ( ou seja, como em inglês, um quilt ),
enquanto Humbert investiga, de cidade em cidade, as marcas da grafia
do seqüestrador.
Nesta história de detetives, as pistas que o leitor/espectador
dispõe são as rápidas cenas nas quais Lolita
parece estar se comunicando com alguém, ou os jogos de palavras
através dos quais se insinua que é o leitor quem está
sendo caçado pelas manobras de encantamento do autor.
IV- Estética do Arrebatamento
Vladimir Nabokov professa uma " estética do arrebatamento"
e isto nos obriga a distinguir, antes de tudo, de qual arrebatamento
estamos falando. Não se trata, nele, de buscar o gozo oceânico,
ou a bem-aventurança mística, embora a palavra que
empregou em inglês, bliss, possa abarcar tanto a beatitude
religiosa quanto o gozo cósmico[12]. O arrebatamento pela
arte que Vladimir Nabov experimentava, parte de uma estética
cuja dimensão é tanto corporal, quanto mental. Para
ele, uma obra de arte verdadeira se reconhece a partir de "um
arrepio da espinha": " Parece-me que uma boa fórmula
para testar a qualidade de um romance é de se fusionar a
precisão da poesia com a intuição da ciência.
Para deleitar-se com esta mágica, o leitor sábio deve
ler o livro do gênio não com o coração,
nem tanto com o seu cérebro, mas com sua espinha".
O arrebatamento místico e o gozo oceânico se aproximam
da desmesura que, nas patologias, também tem lugar na psicose.
Já o arrebatamento estético muitas vezes corre o risco
de se transformar numa forma pontual de êxtase perverso, como
é o caso do personagem Humbert Humbert. Nele a projeção
da alma não se faz no universo para além das estrelas,
nem sofre do terror ao espaço infinito, mas se comprime na
ourela de algo que se entrevê como se fosse um grão
de areia em um átimo de incandescência. O que, a meu
ver, caracteriza a "perversão" neste tipo de êxtase
decorre da mirada obcecada à medusa de um ponto morto e sem
representação.
No posfácio de Nabokov para Lolita, o arrebatamento estético
é definido como sendo " o sentido de estar de algum
modo em alguma parte, conectado com outros modos de ser nos quais
a arte (curiosidade, ternura, gentileza, êxtase) é
a norma. Contudo, uma descrição antiga se imiscui:
"E se o caminho para o verdadeiro arrebatamento atravessar
realmente aquela membrana, delicada ainda, antes que ela tenha tempo
de endurecer, de se tornar exuberante e perder a fragrância
e a luminescência pela qual se penetra até a pulsação
na estrela de seu gozo?" pergunta-se no " The Enchanter".
Nabokov não explicita quais são as diferentes vias
de acesso ao arrebatamento, pois ele já escreve em estado
extático e deixa a critério do leitor acompanhá-lo
nessa viagem. Ele acredita que o bom escritor tem que ser, acima
de tudo, um sedutor. Um encantador de pessoas : the good writer
is first of all an enchanter[13]. Em seus contos há várias
intimações de que o sentimento de estranheza (o Unheimlich
freudiano ), mais o fugidio instante de felicidade e de beleza,
estão associados a um fundo de nostalgia para com eles se
compor o estado de bem-aventurança. Para vivê-lo também
é preciso saber vislumbrar, pelas luzes e sombras distorcidas
que dela emanam, uma dimensão atemporal que revela a conexão
íntima entre os objetos mais simples.
Há o encantamento que surge secundáriamente, na recriação
por escrito de um momento passado ( das " brilhantes impressões
infantis, cujas tintas mancham para sempre as pontas dos dedos da
memória ), ou que é diretamente provocado por uma
obra de arte. Assim, falando de um poeta esquecido, numa das suas
coletâneas de contos, nele encontra: "aquele sopro celestial
que subitamente localiza o efeito sensorial provocado pela poesia
verdadeira bem no meio dos omoplatas". Para ele, "o desejo
apaixonado de sentir com os dedos, alisar, inspecionar, de sorrir-lhe
e inalá-lo antes de o alisar de novo com um mesmo sorriso
de inominável, gemente e derretido prazer - o objeto nunca
antes visto ou tocado .... é uma experiência indispensável
a qualquer cientista, que precisa ser capaz de experimentar aquele
prazer sensual do contato direto e do conhecimento divino...sem
este arrepio, não há ciência".
Em seu artigo " O Mal-Estar na Civilização"
Freud comenta cuidadosamente as observações a ele
endereçadas por Romain Rolland sobre " um sentimento
que ele gostaria de designar como uma sensação de
'eternidade', um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras -
'oceânico', por assim dizer" ... e que "constituiria
a fonte da energia religiosa de que se apoderam as diversas igrejas
e sistemas religiosos" . Para Freud este sentimento de "um
vínculo indissolúvel, de ser uno com o mundo externo
como um todo" não é um sentimento primário,
mas tem sua origem nas primeiras experiências do bebê.
Freud considera que " originalmente o ego inclui tudo; posteriormente,
separa, de si mesmo, um mundo externo. Nosso presente sentimento
do ego não passa, portanto, de apenas um mirrado resíduo
de um sentimento muito mais inclusivo - na verdade, totalmente abrangente
- que corresponde a um vínculo mais íntimo entre o
ego e o mundo que o cerca" .
Esta separação de um mundo externo do seu ninho no
ego, em Nabokov, dá-se de modo muito particular uma vez que
ele se arrisca a questionar o que lhe ensinam os testes de realidade
( "o princípio da realidade é o princípio
da fantasia coletiva", segundo Lacan ) para cultivar seu acesso
a uma realidade particular de outra ordem . Para ele é preciso
ser capaz de enxergar " o elo invisível entre as coisas"
e se arriscar à perdição na loucura. A insanidade
está permanentemente à espreita dos seus personagens
que põem em jogo sua noção de identidade e
a construção do ego para experimentar o abissal desta
outra realidade. Sem pudor, mas por meio de uma personificação,
Nabokov confessa: " eu me sentia precisamente assim, observando
meu reflexo no espelho e incapaz de reconhecê-lo como meu...
à noite, deitado na cama, subitamente me lembrava de que
era mortal... O que me aterroriza é ter outra pessoa agora
no quarto comigo; o que me apavora é a própria noção
de outra pessoa... minha linha de comunicação com
o mundo rompeu-se, eu estava sintonizado numa faixa de onda e o
mundo na sua própria faixa, e aquele mundo não fazia
sentido... Não era mais um homem, mas um olho desguarnecido"
.
No entanto, a obra de Nabokov tem uma historicidade que se constrói
através do rol dos episódios autobiográficos
e das entrevistas que ele concedeu, graças à sua prodigiosa
memória que lhe garantiu acesso ao material necessário
para transformar o cotidiano em ficção, aproximando
o passado e o presente por meio de pontes transparentes e luminosas
( ou serão fissuras? ) que ligam a pátria e a infância,
perdidas, a sua vida atual, ou melhor, a sua escrita sobre ela.
Parece-me que Nabokov lamentava mais a retirada do mundo daquele
ninho onde ele estivera encaixado em seu ego infantil, do que a
sua sina de emigrado. Como saber?
Será que para Nabokov o mundo externo da realidade comum
não contava porque o que lhe importava seria a imagem que
dele criou, numa réplica daquele outro mundo que carregava
consigo quando aquele, por sua vez, era a reprodução
de mais outro? Ele sabia, como ninguém, fazer convergirem
as informações dos olhos, ouvidos, tato e olfato para
um outro registro que nada tem em comum com o nosso "senso
de realidade", dando cores aos sons e misturando as dimensões
de espaço e tempo antes de adicioná-los a sua experiência
de existir[14].
Segurando o tempo pelo espaço, controlando a morte pela
escrita. Foi assim que Humbert, em Lolita, tornou equivalentes a
pátria (lugar) e a infância (tempo) perdidas dando,
às duas, uma realidade na qual tempo e espaço seriam
igualmente recuperáveis - do mesmo modo pelo qual ele reencontrou
seu primeiro amor, Annabel Lee, quando renascia das águas
do jardim de Ramsdale . Em seu conto "Lance", por exemplo,
Nabokov caracteriza a distancia da separação de um
planeta da Terra como medindo "tantas milhas, apenas, quantos
anos existem entre a Sexta-feira passada e a eclosão dos
Himalaias". Sim, a loucura é uma espécie de "náusea
diante do infinito".
E Nabokov conhecia outro caminho para o infinito, com certeza.
O mesmo autor vienense que cativou Kubrick em seu último
filme, Arthur Schnitzler, também era seu conhecido ( Nabokov,
jovem, desempenhou o papel de Lobheimer numa produção
do Liebelei de Schnitzler ), assim como de Freud. Em uma das suas
histórias de amor e morte, Schnitzler serve-se do conceito
matemático de infinito regresso para se assegurar de que
somos imortais, uma vez que, no desfile incessante das imagens do
nosso passado deveria caber, como em um filme cinematográfico
que se desenrolasse no instante de um afogamento, a cena mesma do
afogamento com todas as suas imagens que, por sua vez, conteriam
nelas a cena do afogamento com seu filme de imagens e assim ao infinito.
Mas o infinito retorno pode também tomar a forma obsessiva
de controle dos registros do passado, principalmente nas relações
amorosas.
Transcrevendo do conto " That in Aleppo Once " de Nabokov
( a tradução é minha): " Eu sofria o efeito
de uma estranha ilusão de que primeiro eu precisava descobrir
cada detalhe, reconstruir cada minuto, para só depois decidir
se eu poderia suportá-lo. Mas o limite do conhecimento desejado
era inatingível, e eu nunca poderia prever o ponto aproximado
a partir do qual eu me imaginaria saciado, porque, é claro,
o denominador de cada fração de conhecimento era potencialmente
tão infinito quanto o numero de intervalos entre as próprias
frações" .
Além de um dos temas do livro "Coisas Transparentes",
há um conto de 1925 (The Return of Chorb") no qual o
personagem acredita que deveria reunir todas as cenas, paisagens
e objetos que ele e a companheira morta haviam percebido juntos
para reconstruir um passado próximo comum a ambos. Desta
maneira a imagem dela se tornaria imortal uma vez que regredindo,
passo a passo, atrás dos mais ínfimos detalhes da
sua experiência comum, ele capturaria uma imagem completa
dela, que a substituiria[15].
Neste arrebatamento aproxima-se infinito e eternidade para recriar,
como Italo Calvino, " a memória do mundo" ou encontrar,
como Jorge L. Borges, o ponto de visão do "Aleph"
- quando o que se constrói não é mais o ego,
mas um mundo que insiste mansa e sutilmente em disto discrepar .
V - Mensagens Forjadas na Memória [16]
Para penetrar no reino dos prismas e nas duplicações
nascidas no jogo infinito das imagens no espelho o leitor é
convidado a praticar " a linguagem das tiranias", se quiser
decifrar as múltiplas direções apontadas pela
virulência das paronomásias e quebrar as pequenas nozes
ocultas nos anagramas que lhe permitem escutar " o murmúrio
colateral deste ou daquele tema oculto" até alcançarem
" a fenda através da qual seu mundo leva até
outro, de ternura, luminosidade e beleza" ( o grifo é
meu)[17].
A literatura de Nabokov constitui-se como um jogo verbal de refrações,
mais do que de reflexos. Nestes jogos, nos quais fantasia e realidade
se alternam ou na produção de textos por trás
dos textos ele recria (mas, de modo deliberado) o mecanismo onírico.
Desta maneira, Nabokov se aproxima das idéias de Freud, mais
do que ele próprio gostaria de reconhecer. Para este romancista
a realidade psíquica tem um lugar peculiar que lhe garante
não apenas um estatuto próprio, mas uma "factualidade"
única.
Para Richard Rorty o rancor ostensivo e obsessivo que Nabokov nutria
por Freud era peculiar " ao ressentimento que temos a um precursor
que pode já ter escrito todas as nossas melhores frases ",
o que é um exagero. Nabokov via os psicanalistas como partícipes
de "um estado policial do mito sexual" e sua hostilidade
era alimentada por tal imagem. Ele considerava a interpretação
da simbologia onírica freudiana como um produto de uma "mente
medieval" e grosseira. Os Nabokovianos mais dedicados seguem
as diretrizes do mestre e se afastam de Freud porque entendem que
os romances e contos de Nabokov constituem uma obra de arte que
se sustenta por si mesma, sem mensagem social e sem outra aplicação
fora da área da arte e da literatura.
Na sua biografia de Nikolai Gógol, o romancista anotou que
" o mais grosseiro currículo cacareja e bate asas num
estilo peculiar ao abaixo assinado. Duvido que alguém possa
dar seu número de telefone sem revelar alguma coisa de si
". Mesmo assim, afirmou insistentemente que sua vida não
se confundia com sua obra. Ele via seus personagens "como gárgulas
e cariátides medievais expulsas para o lado de fora das catedrais".
Sua criação se garantiria como uma bolha de tempo
suspensa no ar, como a ilha das ninfetas.
Sua assinatura em Lolita, no entanto, pode se apresentar mais além
das vozes do autor e do narrador ( que tantas vezes se misturam
). É assim que no romance aparece, ao lado de Quilty, uma
escritora de teatro que se desenha com clareza na versão
de Kubrick, mas que permanece semi-oculta em Lyne (que escolhe enfatizar
o traço afeminado de Quilty), chamada Vivien Darkbloom, sua
colaboradora na peça "Caçador Encantado"
na qual Lolita desempenha o papel de uma menina-ninfa[18]. Prestemos
atenção no anagrama (apontado por Appel Jr. e por
R.Corliss). Vladimir Nabokov. Vivien Darkbloom. Uma assinatura?
Também podemos supor que, ao modo de Flaubert, Lolita era
Nabokov?
VI - Onde Está Wally?
Provavelmente a grande maioria das auto-referências e citações
de V.N. me escaparam. Não sou uma leitora-detetive muito
competente. Faltaram-me, principalmente, o necessário ócio
e a dedicação apelativa de Appel Jr., que lhe permitiram
constatar que, ali , "como em um trompe-l´oeil, tudo
está exposto ( não há símbolos em turvas
profundezas )" - conclusão da qual discordo porque ela
apenas endossa a recusa de Nabokov. Além do mais, prefiro
minhas próprias brincadeiras em vez de pegar carona, tão
à sério, nas dos outros! [19].
Ainda assim, estranhei o destaque de uma frase trivial, dado nos
dois filmes, para o momento em que Lolita leva uma bandeja de café-da-manhã
para Humbert. Nesta cena ( uma das favoritas de Nabokov, que assistiu
Sue Lyon no papel de Lolita ), ela pede que Humbert não conte
para a mãe dela que havia comido todo o toucinho: a palavra
"bacon" deixou no ar um cheirinho de "naboc".
Há risco dos novos detetives se tornarem delirantes como
Humbert, mas os jogos nabokovianos justificam uma escuta atravessada.
Além de Vivien Darkbloom, por exemplo, encontramos variantes
que criam outras Viviens nas Sras. Vivien Badlook e Calmbrood, ou
Dorian Vivalcombe e Blavdak Vinomori dos outros romances. Suas breves
referências ao germanófilo Borges, por exemplo, falam
de um autor denominado Osberg[20]. Lolita, assim como Emma Bovary,
se aproveitou do horário das aulas de piano para encontrar-se
com o amante e Nabokov não perdeu a chance para registrar
esta conexão através do nome que escolheu para a professora,
Srta. Lempereur, que nos remete ao livro de Flaubert. Com tantas
opções seria admirável se cada diretor não
selecionasse bocados divergentes.
Pequenas referências espalhadas pelo conjunto da obra de
Nabokov tornam-se discretas citações no filme de Kubrick:
no acampamento "Climax", para onde Lolita é enviada,
há um animal que pode ser um esquilo empalhado, tema freqüente
de outro romance, Pnin, ali associado aos sapatos de Cinderela,
aos diferentes estados de animo dos personagens e aos brinquedos
de um menino na Rússia. O significante que insistentemente
vem associado a "esquilo" em Nabokov origina-se de uma
palavra russa, "vair", que ele utiliza para descrever
a cor e o aveludado dos olhos de Lolita! Em um dos quadros vemos
Charlotte e Humbert jogando xadrez e, mal Lolita deles se aproxima,
a rainha de Charlotte é dominada[21]. Quilty, sempre visto
fumando cigarros Dromes, principalmente no filme de Kubrick, apresenta
uma charada que é quase impossível de se decifrar
sem ajuda. A palavra "drome" é uma abreviação
de "dromedário" e a sátira dirige-se à
marca de cigarros "Camel" porque sua publicidade se faz
pelo desenho de um animal de uma corcova só, ou seja, dromedário
e não, camelo.
As breves citações do filme de Lyne seguem um espírito
diferente, como se o roteirista tivesse se apoderado do estilo das
paródias de Nabokov para apontá-lo ao espectador.
Nabokov, caçador de borboletas e mariposas, é citado
por Lyne na cena em que H.H. vê-se às voltas com Lolita,
com apenas um dos pés nu, vestida numa roupa estampada com
borboletas. Adrian Lyne também se deu ao luxo de citar-se,
participando do clima de auto-paródia de Nabokov. Quem não
pensou no filme " Nove Semanas e Meia de Amor" ao observar
Lolita com a mão nas vasilhas de sorvete, devorando as cerejas
e compotas da geladeira, mas lambuzando-se como criança?
Se Lolita resulta de um livro dentro de outro livro, no filme de
Lyne a posição do espectador também se torna
flutuante, ora absorvido para dentro da cena, ora dela expelido
para assisti-la de fora. A brincadeira de Lyne não deixa
de ser arriscada, porque não tem condições
de bancar Nabokov no papel de Nabokov, ou de eclipsá-lo[22].
No entanto, com grande destreza ( que não perdeu de todo
a graça na tradução das legendas em português)
ele mantém a breve troca de palavras entre Humbert e Quilty,
como escritas no livro, quando este último revela conhecer
a irregularidade da situação entre ele e Lolita. Humbert
tem dificuldades de acreditar no que ouve e quando Quilty repete
seu comentário, ele o substitui por outra frase que soa de
modo semelhante.
Fala Quilty: "Where the devil did you get her? " ( onde,
diabos, a encontrou?) e se corrige: " I said the weather is
getting better" ( parece que o tempo melhorou), antes de perguntar
quem é a menina. Quando Humbert afirma que ela é sua
filha, Quilty revida: " You lie, she is not" ( é
nada, você mente ) e se conserta: " I said: July is hot
" (Eu disse que em julho é quente ).
Estas mudanças começam a firmar o clima de irrealidade
nas equivocações que caracterizam as aparições
de Quilty. Este segue Humbert servindo-se de carros diferentes e
até o registro do número da placa que Lolita havia
anotado, para o desespero de Humbert, parece-lhe ter sido adulterado
por ela.
Em Lyne, Quilty não se transforma em personagens diferentes
que visitam e atormentam Humbert Humbert, como aquele interpretado
por Peter Sellers, mas escreve nomes diferentes nos registros do
hotel, caçoando de Humbert pelas alusões que faz às
borboletas (Professor Schmetterling), às localidades, como
Kawtagain ( "te peguei de novo" ) e às residências
em cidades do nunca. As outras faces de Quilty, que Peter Sellers
resolvera sózinho, desapareceram. No final encontramos Quilty,
bêbado e lascivo, dedilhando um piano mecânico até
tomar consciência da arma na mão de Humbert. Agora,
desnudo e desvairado, corre para refugiar-se entre os lençóis
da sua caminha, retornando à "cena do crime". Como
no romance, da boca do moribundo cresce uma bolha rosada, semelhante
às bolas de chiclete que Lolita soprava, anunciando o fim
do monstro que engoliu sua infância. De modo diferente, em
Kubrick, Quilty é atingido fatalmente quando se esconde por
trás de um quadro de uma mulher.
As alusões às trocas entre o que é verdadeiro
e o que é falso, em Kubrick, aparecem como cenas de comédia,
como quando Charlotte leva Humbert, tomado como artista e erudito,
ao seu quarto de dormir, para admirar algumas reproduções
de quadros famosos. Lolita, no meio disso tudo, vai se tornando
progressivamente mais real para, no final, destacar-se inteiramente
da trama ( para Alfred Appel Jr. " Lolita levou a fama à
Lolita , em vez de a Nabokov").
Ao constatar que cada um dos filmes de Kubrick " é
'narrado' de algum modo convencional por uma voz omnisciente fora
da tela..., ou pelo protagonista, ...ou com letreiros que estabelecem
o tempo ou o lugar", Richard Corliss os encontra também
em Lolita. No entanto, a voz nabokoviana que Adrian Lyne restituiu
por instantes, ao contrário da narração de
Kubrick, não é "uma voz onisciente fora da tela"
e não é "a voz do protagonista". Através
dela pode-se estabelecer o vínculo entre autor e leitor,
entre filme e platéia, mesmo sem percebermos com clareza
que ali emerge a voz do autor.
Sobre esta voz encontramos um depoimento do próprio Nabokov,
em seu prefácio ao Bend Sinister, onde ele se refere a uma
"primeira intimação de que 'há alguém
que sabe das coisas' - um intruso misterioso que tira vantagem do
sonho do personagem para transmitir sua própria mensagem
em código" e acrescenta: "Este intruso não
é o charlatão vienense ( todos os meus livros deveriam
trazer carimbado o aviso Freudianos, fiquem de fora![23]), mas uma
divindade antropomórfica personificada por mim". Esta
voz tenta controlar a leitura para além do texto e segurar
a imagem além da palavra, falando de vários pontos,
mas irreconhecível como são as imagens em um labirinto
de espelhos. Seu recado traz implícita uma mensagem parcial
de Vanitas que, neste mesmo prefácio, o autor oferta numa
bandeja: " Nada na terra tem importância, não
há nada a temer, a morte não é nada mais do
que uma questão de estilo, um simples recurso literário,
uma síntese musical"[24]. Agora afirma ele: " meus
personagens não são "tipos", nem portadores
desta ou daquela "idéia" - todos eles são
apenas miragens absurdas, opressivas ilusões... durante sua
breve passagem pela existência, e eles desaparecem inofensivamente
quando despeço o elenco". Esta mesma manipulação
do leitor/espectador e que neles provoca identificações
contraditórias e desagradáveis, constrói e
destrói simpatias além de confundir-lhes a crítica,
também faz parte da voz do autor que acredita ser capaz de
reconstruir o mundo ao seu modo, como qualquer delirante.
No filme de Lyne há uma neblina constante, bruma de encantamento,
"haze" em inglês como no sobrenome de Lolita, e
quando Humbert pela primeira vez entra em contato com ela, esbarra
em dois incêndios: da casa do casal McCoo, onde pretendia
hospedar-se, e do assado na residência de Charlotte. Mas,
quando Lolita aparece, torrentes de água doce espirram de
todos os lados na piazza, na pequena fonte, no esguicho da mangueira
sem que ardidos e ardores se apagassem. Depois que
Charlotte Haze morre, a paisagem começa a se tornar progressivamente
mais árida e o ambiente, claustrofóbicamente opressivo
enquanto Humbert e Lolita fogem pelas estradas americanas. No deserto
e sem Lolita, acentua-se a solidão de Humbert. Mundos, cheios
de pessoas em movimento e de objetos significativos se criam e se
desfazem em cinzas, num piscar de olhos.
Criticaram Kubrick porque ele não deu suficiente destaque
ao cenário americano nesta viagem de Humbert e Lolita. Seu
filme, de fato, tinha uma limitação importante: foi
rodado na Inglaterra! O detalhamento da paisagem, dos reclames dos
cartazes nas estradas e dos postos de gasolina, a reprodução
dos quartos de motel e do mundo kitsch das pequenas vilas do interior
dos Estados Unidos, componentes de um "road book", como
era também este romance de Nabokov, ajudaram a garantir às
obras deste russo naturalizado americano, um lugar na literatura
do seu país de adoção[25].
Ao comentar a Lolita de Stanley Kubrick, Richard Corliss ainda
não tinha tido a chance de assistir o filme de Adrian Lyne
( em fase de preparação ) e provavelmente teria aprovado
sua construção em vários níveis de flashback
para introduzir o passado amoroso de Humbert. Arrisco dizer que
a escolha de Irons para Humbert também lhe pareceria acertada.
Para Corliss, até então " o que ainda faltaria
é um equivalente apropriado da voz de Humbert - não
o som da voz, não as palavras, mas o tom incomparável.
Sua prosa está em perpétuo estado de êxtase:
por Lolita, primeira e última, mas também por tudo
que ele vê e sente. Ele é estimulado por todas as coisas,
físicas, tácteis, etéreas, efêmeras;
elas pousam em seu palpo ereto e Humbert se anima tão intensamente
que seu coração é capaz de arrebentar".
Há êxtases e arrebatamentos na voz surpresa e pausada
de Jeremy Irons.
VII- Lolita e a Saída do Solipsismo.
Na versão de Lyne encontramos uma adolescente americana
típica. Orfã de pai, ela aceita com presteza sua substituição
pelo galã Humbert, a quem não deixa de considerar
como pai, pai edípico que destaca ao recortar de uma revista
uma cena idealizada na qual uma garota pula no colo do pai enquanto
sua mãe, sorridente, a observa da porta. A garatuja infantil
desenha em vermelho um coração com as iniciais "HH".
A fantasia edipiana das meninas é como um fio organizador
que está por trás da cena consciente. Lolita tenta
seduzir Humbert Humbert como uma filha ao pai e, não, como
a ninfeta dos sonhos do protagonista. Porque ele, por sua vez, não
a toma como filha, atrapalha-se com seus gestos de afeto e invade
a fantasia de garota com a autoridade do adulto.
Os desejos edípicos das crianças são verdades,
mas verdades da estrutura mental humana que não buscam sua
concretização fora do campo da fantasia, exceto nas
patologias quando nasce uma cumplicidade entre pais e filhos. Lolita,
em seu azar, corresponde às fantasias de Humbert sem se dar
conta de nelas estar se alienando devagar. Desde o início
ela o chama alegremente de "papai". As sós com
ele no carro, pela primeira vez depois da morte da mãe (
o que ela ainda ignora), canta: "Mum e Hum". Às
desculpas de Humbert sobre a partilha de um mesmo quarto, ela fala
da zanga que sua mãe sentirá quando souber disso e
identifica a situação dizendo: " o termo para
isto é incesto!"
Até certo ponto Humbert percebe a virada entre fantasia
e ato quando finalmente tranca Lolita no quarto do hotel. É
quando, no livro e no filme de Lyne, Humbert passa a se endereçar,
pela primeira vez, aos "Senhores e Senhoras do Júri",
percorrendo os salões do hotel nos quais ecoam restos de
uma convenção de religiosos onde se anuncia que "os
olhos de Deus estão por toda parte. Deus tudo vê...",
assim como Quilty.
No artigo de 1988, The Barber of Kasbeam, Nabokov on Cruely, Rorty
se esforça para caracterizar Nabokov como sendo um liberal
apesar de si mesmo, que oferece uma visada responsável voltada
para a sociedade e uma porta de entrada na "emoção
participativa (...), semelhante à que move os estadistas
liberais, como seu próprio pai". Para Rorty, o "esteticismo
sinistro" que leva Nabokov a valorizar o estilo e o arrebatamento
estético no lugar da ética, oculta o conflito do autor
com sua dimensão humanista, o que também é
reconhecido por Peter Quennell (prefaciando uma das edições
de Lolita), que vê Nabokov como "um humanista benevolente
na grande tradição européia de Rabelais e Montaigne
". Também A. Appel Jr., o caracteriza como um "autor
cuja arte, profundamente humanística, afirma a habilidade
do homem de enfrentar e ordenar o caos". Terence Rattigan,
para quem Lolita "é genuinamente chocante, mas de uma
forma que só as obras de elevado propósito moral conseguem
sê-lo" vai de encontro à insistência de
Lionel Trilling que considera que "Lolita não é
um livro sobre sexo, mas sobre o amor"[26].
Como o pretendia Richard Rorty, teria Nabokov percebido a ligação
entre arte e tortura? Estaria ele descrevendo seus dilemas entre
o cultivo do prazer estético e uma certa prática da
crueldade? Sua resposta se baseia nos três traços que
considera mais característicos de Nabokov: seu esteticismo
perversamente insistente, o medo de ser levado à crueldade
por causa deste mesmo esteticismo e a preocupação
com a imortalidade. Para ele Nabokov estaria tentando crer "desesperadamente
que seus talentos artísticos seriam suficientes como virtudes
morais", mesmo sabendo que uma síntese entre o êxtase
e a solidariedade não existe.
Na citação a um poeta antigo em Lolita (e que não
era outro senão ele mesmo, Nabokov): Este senso moral dos
mortais é o tributo/A pagar pelo senso da mortal beleza[27],
encontramos o reconhecimento da dívida que todos devemos
tentar saldar, pela nossa susceptibilidade à beleza. Será
preciso dizer mais alguma coisa ainda sobre o sentido da moralidade
em Nabokov?
Para Richard Rorty o esteticismo de Nabokov, "uma das imaginações
mais poderosas do século XX", nos leva apesar de tudo
a percorrer um caminho de crescimento individual na medida em que
a leitura dos seus livros nos força a reconhecermos, em nós,
fantasias e emoções proibidas, facetas contraditórias
que ganham expressão dialética durante o caminho da
sua elaboração. Para ele " Nabokov não
queria imitar a realidade, mas modificá-la e ao leitor".
Rorty consegue achar nas declarações do escritor,
já maduro, uma frase que lhe serve de base para a sua aposta.
Nela, Nabokov define a arte como um produto da " beleza mais
a compaixão".
Para Appel Jr. " mesmo nas suas novelas mais cheias de paródia,
como em Lolita , ele deixa um grito de dor ser escutado por trás
das brincadeiras", uma vez que, para Nabokov, "na beira
da paródia é preciso haver um abismo de seriedade,
e eu preciso percorrer meu caminho ao longo da estreita borda entre
minha própria verdade e a caricatura dela".
VIII - Fontes da magia
Na sua biografia de Nikolai Gógol, Nabokov escreve que quando
se alcança, como Gógol, um "superelevado nível
de arte, a literatura não está inteiramente interessada
em compadecer-se do pobre-diabo ou amaldiçoar o sujeito abastado.
Ela se dirige para aquela profundidade secreta da alma humana onde
as sombras de outros mundos passam como as sombras de naves anônimas
e insondáveis".
Ao dirigir-se sistematicamente a uma região fora do espaço
e do tempo, Nabokov faz nos pensar que ele acredita em mundos paralelos
e numa realidade além da vida. Segundo Stacey Schiff, autora
da biografia de Véra, esposa do romancista, esta dimensão
mística teria sido encorajada pela própria Sra. Nabokov
que partilhava, com ele, da paixão pelos detalhes e pelas
coincidências, buscando " as sombras substanciais por
trás das ilusões da existência". Tal não
é a visão de Alfred Appel Jr. que se utiliza de uma
referência de Nabokov às "janelas que dão
para um mundo contíguo" para tomá-las como sendo
representações das táticas deste romancista
para obter a involução dos seus romances. Para Appel
Jr., "este mundo contíguo é a mente e o espírito
do autor cuja identidade, sobrevivência psíquica e
múltiplas consciências constituem o sujeito e o produto
do livro: de qualquer modo que sejam abertas, estas janelas sempre
revelam o poeta ", assentado em sua poltrona americana, no
caroço de tudo.
Alfred Appel Jr., observa que, seguindo as táticas da "involução",
Nabokov não apenas cria uma história dentro da história,
ou transporta seus personagens de um conto ou romance para outro,
como ainda transforma os personagens em leitores/espectadores do
livro em que surgem. É quando ele se recorda das palavras
de Jorge Luíz Borges sobre a peça dentro da peça
Hamlet: " se os personagens de uma obra de ficção
podem ser leitores e espectadores, nós, seus leitores e espectadores,
podemos ser ficções também". Contudo,
percorrendo os mundos contíguos com suas janelas comunicantes
ele nunca duvidou que, no centro de tudo, havia um Poeta, como aquele
que inventou a peça " O Caçador Encantado".
Tentamos observar o mundo a partir de uma meta-janela como se esquecêssemos
que nos é vedado, para sempre, escapar do mais simples referencial
inevitavelmente produzido no vértice que adotamos. Como observou
A. Appel Jr. os personagens de Nabokov "continuamente se defrontavam
com espelhos onde esperavam encontrar janelas". O poder de
denunciar, pela arte e pela escrita, as capturas narcísicas
não faz com que elas desapareçam, nem as relega às
fachadas externas das catedrais. O Vladimir Sirin, Vladimir Nabokov,
Vivien Darkbloom ( com outras variações) nascido das
minhas leituras e das janelas dos seus filmes talvez tivesse se
posicionado no centro último da sua obra. Saber se ele percebia
que isto poderia transformá-lo em apenas uma ficção
dentro da ficção é impossível, mas tenho
certeza que ele manipulava a auto-referência e as síncopes
no texto com a mestria de quem conhece as conseqüências
desta estratégia.
Para Freud a vida adulta é uma via dolorosa que requer uma
adoção de medidas paliativas, " derivativos poderosos,
que nos fazem extrair luz de nossa desgraça; satisfações
substitutivas, que a diminuem; e substâncias tóxicas,
que nos tornam insensíveis a ela". Segundo ele o sofrimento
que nos ameaça a partir do nosso próprio corpo, do
mundo externo e dos nossos relacionamentos com os outros homens
obriga-nos a moderar nossas reivindicações de felicidade.
É assim que, para Freud, o homem busca satisfação
através de processos psíquicos internos para se tornar
independente do mundo externo: " a maioria dos homens se comporta,
sob determinado aspecto, como um paranóico que corrige algum
aspecto do mundo que lhe é insuportável pela elaboração
de um desejo e introduz este delírio na realidade".
Freud reconhece que, nele, " a arte não convulsiona
o ser físico" e que " a suave narcose a que a arte
nos induz, não faz mais do que ocasionar um afastamento passageiro
das pressões das necessidades vitais, não sendo suficientemente
forte para nos levar a esquecer a aflição real".
Talvez o desconforto causado por Freud em Nabokov pudesse relacionar-se
às conclusões, acima citadas, deste psicanalista.
Nabokov acredita que a arte possa "convulsionar" seu corpo
e sua mente e, mais ainda, que seu arrebatamento é um indicador
de uma realidade transcendente.
Em contraste com o reconhecido pessimismo de Freud, Nabokov acreditava
que "a capacidade de se sentir admirado com trivialidades -
sem importar o perigo iminente - estes apartes do espírito,
estas notas de rodapé no volume da vida são as formas
mais elevadas de consciência e é este estado de mente
infantilmente especulativo, tão diferente daquele do senso
comum e da sua lógica, que nos permite saber que o mundo
é bom", uma vez que ele mantinha "uma crença
irracional na bondade do ser humano.. algo mais forte do que a instável
base das filosofias idealistas, porque se torna uma verdade sólida
e iridescente".
A idéia redentora na qual beleza e compaixão se combinam
para produzir uma obra de arte, pode ter sido retratada por Lyne
quando, após a captura final de Humbert, temos a visão
de uma pequena cidade à distância da qual se desprendem
vozes de crianças. Humbert, neste momento, chora a sorte
de Lolita porque ela deixou de fazer parte daquele coro infantil.
Humbert não está mais dominado pela pena de si mesmo
por causa da perda e pode lamentar a tragédia da sua ninfeta,
devolvida à realidade de ser Lolita, Dolly, Dolores[28].
No livro, a garota que experimentou uma reviravolta do destino
que desfez os referenciais que ela acreditava seguros ( " o
mundo mudou, nada é mais o que era, não tenho mais
um lugar para onde ir"), acaba na cidade de "Gray Star,
a capital do romance". Uma estrela cinzenta e sem brilho é
um endereço, assim mesmo. Será por acaso que Lolita
espera um bebê que deve nascer no dia de Natal? Por quê
Nabokov decidiu que ela e o bebê morreriam durante o trabalho
de parto? Como entender a frase em que Humbert reconhece "ter
crucificado" Lolita, termo que ele também emprega para
se referir às borboletas empaladas em alfinetes nas caixas
dos colecionadores?
Para Appel Jr. no progresso das memórias de Humbert Humbert
ele alcança uma concepção tridimensional da
vida porque "consegue incluir pessoas nas paisagens que até
então eram percebidas de modo bi-dimensional, relacionando
entre si as perspectivas estéticas, morais e comunitárias".
Revelando seu amor à Lolita depois que ela deixou de ser
uma ninfeta ou chorando o desaparecimento da sua voz no coro infantil,
Humbert teria "transcendido seu solipsismo".
IX - Confissões de um Adulto, Viúvo, Branco.
Nomeia-se pedófilo o sedutor de crianças e através
de Nabokov conseguimos experimentar de corpo e de alma como esta
enfermidade é dilacerante e assustadora. O artista requintado,
na figura de Humbert, sabe reconhecer a matéria ideal para
elaborar uma obra de arte em seu "apelo (sexual ou estético)
do potencial, do desabrochante, do quase pronto. É a atração
de uma mente e um corpo em luta contra a decadência celular
por uma mente e um corpo que só podem tornar-se mais brilhantes,
mais completos, mais ", como observa Richard Corliss, assim
descrevendo a ilusão da completude, comum a tantos nós.
Mas quando Humbert confessa: " Eu tinha me apaixonado por Lolita
para sempre; mas também sabia que ela não seria para
sempre Lolita " vemos que ele admite sua incompletude e vive
dolorosamente o prenúncio da perda de Lolita, uma menina
real que substitui a que fora uma invenção sua"[29].
Antes deste momento, quando o espectador podia ouvir o lamento de
uma menina desamparada que chorava sem cessar, noite após
noite ou se comiserar de Charlotte, a mulher ultrajada e traída,
quem nos permitia lembrar ou esquecer desta dimensão humana
não era ainda Humbert, mas o próprio Nabokov vislumbrado
por trás da cena manifesta. Não perceber o outro e
não se sentir curioso a respeito da vida é, para Nabokov,
um dos crimes maiores[30].
Nabokov coloca de modo inverso a questão da prova da existência
de Deus, seguindo uma lógica própria, quando Humbert
reafirma seu sentimento de culpabilidade por ter corrompido a vida
de Lolita. Escreve ele: " A menos que me seja provado - a mim
como sou agora, hoje, com meu coração, minha barba
e minha podridão - que nas dobras infinitas do tempo, de
nada importa que uma menina americana chamada Dolores Haze tenha
sido privada de sua infância por um maníaco, a menos
que isso possa ser provado ( e, se puder, então a vida é
uma piada), não vejo nenhuma cura para minha desgraça
senão o paliativo melancólico, e de efeito muito local,
da arte articulada" . Este é um reconhecimento importante,
através do qual Nabokov parece falar através de Humbert
(pois, como o observou em outra parte, "minha personagem Humbert
é um estrangeiro e um anarquista, havendo muitas coisas,
além de ninfetas, nas quais não concordo com ele"
). Há certos desastres e catástrofes que não
podem ser compensados, explicados, desculpados - nem mesmo pela
promessa de imortalização através da arte.
Como escritor, sem dúvida alguma, Nabokov foi incrivelmente
soliloquaz enquanto desprezava os textos com longos diálogos,
romances filosóficos e livros com mensagem social. "Não
dou a menor bola para o bem-estar da humanidade...Nada tenho do
herói cívico que morre por seu povo. Morro só
por mim, em nome do meu próprio conceito do bem e da verdade...
e se forem valiosos para os outros, tanto melhor", afirma em
" A Destruição dos Tiranos".
Nabokov se impacientava com aqueles que buscaram a Lolita por trás
de Lolita, preocupados com a "morbidez sexual" que apenas
ocultaria o contexto a partir do qual tais bizarrias deveriam ser
consideradas. Entrevistado, confessou: " vejam só, eu
sou um homem normal" ( frase que, no filme de Kubrick, aparece
em caricatura pela voz de Quilty )[31]. Para criar seu romance,
ele precisou ler casos clínicos, estudar sobre a pedofilia
a partir de textos especializados e das reportagens jornalísticas
sobre pedófilos conhecidos. Assim também Dmitri Nabokov
caracterizou " The Enchanter", e as outras obras de seu
pai, como constituindo "um estudo da loucura, como ela é
vista através da mente do louco" porque a fantasia artística
de Nabokov se nutria das "aberrações em geral,
tanto físicas quanto psicológicas". Para ele
" a pedofilia criminosa do protagonista - como a do Humbert
em Lolita em um contexto diferente; assim como o delírio
assassino de Hermann em "Desespero"; como as anomalias
sexuais, que são apenas um dos elementos de " Fogo Pálido"
e de outros trabalhos; como a loucura do mestre de xadrez Luzhin
(...) formavam um entre os múltiplos temas que Nabokov selecionava
para seu processo criativo de recombinação dos elementos
da ficção".
O que motivaria a oposição de Nabokov a Freud, incessantemente
lembrado? Vejamos um exemplo: " Nos prefácios tenho
ultimamente escrito ...tomei como norma endereçar algumas
palavras de encorajamento à delegação vienense...Analistas
e analisados apreciarão certos detalhes..., e o freudianozinho
que confunde um jogo de gazuas com a chave para um romance, continuará,
sem dúvida, a identificar meus personagens com a idéia
de história em quadrinhos que faz de meus pais, namoradas
e sucessivos eus" ( 1963, " A Defesa" ).
Nabokov era capaz de alcançar uma rara compreensão
da teoria freudiana, sem no entanto se deixar tocar por ela. Comentando
a obsessão de Gógol com o próprio nariz, escreve:
"o nariz como tal era uma coisa engraçada para sua imaginação...alguma
coisa saliente, alguma coisa não exatamente pertencente ao
seu dono e, ao mesmo tempo ( nesta parte eu até faço
uma concessão aos freudianos), algo peculiar e grotescamente
masculino. É quase penoso o costume que Gógol tem,
ao descrever uma moça bonita, de estender-se sobre o rosto
dela, liso como um ovo...", um rosto liso porque sem a freudiana
protuberância fálica de um nariz que o "homem
normal" Nabokov não precisava desconhecer.
"Caso eu houvesse consultado um competente hipnotizador"
escreve Nabokov, "talvez ele tivesse extraído de mim
- e organizado de forma racional - algumas recordações
fortuitas que fui semeando por estes escritos com muito mais nitidez
do que elas hoje se apresentam a meu espírito, quando já
sei o que deveria buscar no passado. Na época, sentia apenas
que estava perdendo contato com a realidade[32]." Nesta citação
vemos como, apesar da ironia, o romancista descreve seu conhecimento
sobre o que a psicanálise pode oferecer (o acesso ao recalcado
através da associação livre, ou pelas distorções
da elaboração secundária e das paramnésias
).
A insistência de uma verdade de certa ordem misteriosa fez
com que Nabokov se surpreendesse ao reencontrar em suas obras juvenis
alguns episódios da sua vida que ele havia transformado em
ficção porque estes eventos, ali, lhe pareceram mais
fiéis à sua experiência do que aquilo que ele
elaborou bem mais tarde, com toda sinceridade, em sua autobiografia:
"Fascina-me o fato de que, malgrado algumas invenções
superpostas, o relato romanceado contém uma solução
mais concentrada de realidade pessoal que a descrição
escrupulosamente fiel do autobiógrafo" (Prefácio
à nova edição do seu primeiro romance, Machenka
).
De que modo, senão pela própria experiência,
Nabokov teria sido capaz de descrever aquelas fantasias carregadas
de prazer narcísico, próprias da fase fálica,
peculiares a quem viveu intensamente, e disso se recorda, os êxtases
da criança que ainda não se reconheceu menino ou menina
e que se oferece e se apropria do mundo de corpo inteiro? Se Nabokov
precisou recorrer aos compêndios de psiquiatria para caracterizar
a pedofilia de Humbert Humbert[33], por sua vez os êxtases
voyeurísticos de Humbert, em sua cumplicidade com a volúpia
de Lolita, nasceram da lembrança que ele tinha da sua própria
vivência de criança que ele, como artista, preservou
na recordação[34].
X - Recusa ou Sublimação?
A recusa nos romances de Nabokov aponta para uma construção
paranóide que, como autor, ele raramente abandona[35]. Ele
não apenas coloca seu empenho em demonstrar a existência
de uma realidade psíquica criada e mantida pela palavra,
como também se esforça para sustentar que é
ele quem a faz existir. Tal procedimento deixa entender que para
ele não há um desconhecido inconsciente pressionando-o
para ganhar forma e expressão: tudo o que existe em seu mundo
mental é uma ficção que ele mesmo fez aparecer.
Para Nabokov, cuja insonia é famosa, as produções
mentais não fazem sentido se não tiverem sido organizadas,
como nos devaneios, pela racionalidade e pela palavra. Há,
no entanto, um estatuto especial para as coincidências, acaso
e ligações misteriosas entre eventos e objetos[36].
Nabokov rejeita a idéia freudiana da existência de
um processo primário inconsciente, subjacente ou concomitante
à linguagem verbal consciente, articulado por mecanismos
como os que se flagram na elaboração onírica.
Parece-me que ele só reconhece o valor dos mecanismos transformadores
da arte que metamorfoseiam as sombras encapsuladas das palavras
e, ao criarem uma linguagem racional, humanizam o homem : "
não pensamos em palavras, mas em sombras de palavras",
conclui [37].
Grande admirador da obra Ulysses de James Joyce, o romancista se
incomodava agudamente com a "associação entre
sexo e latrina" nos livros deste irlandês, considerando-as
como frutos sub-humanos da mente do próprio Joyce ( e não,
como o mantinha para si, da loucura dos seus personagens[38] ) e
com o prestigiado Finnegan´s Wake, que ele descreveu como
"massa disforme e tediosa de falso folclore, livro como jeitão
de pudim frio, ronco persistente no tenta se tornar independente
do mundo externo, pelo quarto contíguo... sua fachada oculta
uma casa sórdida e muito convencional e só alguns
fragmentos esparsos de uma certa intonação celestial
o redimem da mais completa insipidez", ele mantinha que o defeito
"nos maravilhosos solilóquios mentais de Joyce consistia
no excesso de corpo verbal que ele dava aos pensamentos".
Talvez as artimanhas brincalhonas de Nabokov representassem uma
forma de elaboração do efeito traumático das
intromissões da realidade ( dizendo melhor, do real na conceituação
de Lacan ), quando estas assumem o jeitão de coincidências
que prenunciam uma forma de associação entre eventos
que escapa ao seu controle. Tais coincidências comprovam que
algo no mundo desobedece até àquilo que ele precisa
sempre inventar e por isso ele as adota, jogando seu carretel de
linha para fingir que, também estas coincidências,
são um produto da sua pena. Mesmo que sua obra tenha sido
uma paródia permanente aos que buscam ter acesso a uma verdade
última, Nabokov parece não ter duvidado do seu próprio
sentimento de existir, da racionalidade, do acaso, da bondade humana
e das rosas súbitas da sua arte.
Ao descrever o processo de luto Freud afirmou que, diante da perda
de um objeto ( interno ou externo ), " a sua sombra recai sobre
o ego" e, portanto, que o objeto amado de alguma maneira continua
existindo no mundo mental. É por este viés que pretendo
chegar ao que caracteriza algumas facetas do estilo de Nabokov.
Ele aceita perder o objeto, mas se atribui o poder de recriá-lo
de modo que, enquanto Autor, ele não desapareça junto
ao objeto, mas se veja cada vez mais fortalecido fora do espaço
e do tempo, mantendo seu inconsciente sob controle. A maturidade
plena só nos chega quando aceitamos não apenas a ausência
do objeto, mas nossa própria contingência enquanto
sujeitos: a Vanitas em Freud é radical. Somos pó e
ao pó retornaremos.
Sabemos que, para Freud o objeto perdido, na recusa, é um
objeto inexistente ( o falo materno). No perverso, este mecanismo
de defesa leva-o a uma posição paradoxal na qual ele
afirma, simultaneamente, a existência e a inexistência
deste objeto. No fetichismo, o olhar não pode alcançar
o que fica além dos pés, joelhos, meias ou das calcinhas
de uma mulher, pelo risco de encarar a castração materna.
Ainda assim, há também o registro de casos em que
se nota um fascínio, como o que encontramos descrito por
Nabokov, pelas fendas, falhas e fissuras no sexo feminino. O próprio
Nabokov caçoava dos "freudianozinhos" que encontravam
em Humbert fantasias homossexuais inconscientes, identificadas por
eles pela preferência que professava por meninas pubescentes
com corpo de garotos. Ainda assim, pergunto agora, será que
o "término do estágio nínfico" não
é aquele no qual uma ninfeta se metamorfoseia em mulher e,
portanto, quando se desfaz a eternidade do tempo nínfico,
com sua dança dos véus das falofanias [39].
Nabokov precisa ser encarado como " um grande humanista"
para que seus admiradores se sintam mais confortáveis para
aderir aos arroubos da sua estética, dando corpo à
transmissão do poder do artista. A arte de Nabokov não
pretendeu distribuir-se democraticamente pela coletividade, como
uma forma de sublimação. Ele foi um viciado em escrita
que, graças ao enorme talento e gênio, alcançou
a sensibilidade dos leitores, ensinando-lhes uma via especial de
compaixão, de arrebatamento e de humor.
No posfácio que Nabokov acrescentou ao seu livro e que,
desde 1956 vem sendo publicado junto ao texto de Lolita, o autor
lamenta ter tido que escrever em inglês e confessa que a sua
tragédia particular foi a de ter precisado " abandonar
meu idioma natural, minha língua russa, rica e sem peias,
infinitamente dócil em troca de um inglês de segunda
categoria, despido de qualquer um destes recursos - os truques do
espelho, o fundo vertiginoso de veludo negro, as associações
e tradições implícitas - que o ilusionista
nativo, fazendo voar as caudas do seu fraque, pode usar de modo
mágico para, ao seu modo, transcender sua herança".
Na referência que faz à cauda do fraque, ele retoma
sua inspiração original para a composição
de Lolita: apesar da indumentária sofisticada, o rabo animalesco
aparece no ar.
Nesta frase de encerramento Nabokov misturou à inglesa,
uma palavra francesa para designar o fraque: "frac-tails".
Me agradaria pensar que as dobras das suas obras recriaram um infinito
regresso, reproduzindo-se em camadas que se multiplicam fora dos
espelhos e das miragens, como me contaram ser o mundo dos "fractais".
XI - Um adendo[40] :
" Olhe para os arlequins! Eles estão em toda parte.
Em volta de você. Arvores são arlequins, as palavras
são arlequins. Assim são as situações
e as somas. Junte duas coisas - piadas, imagens - e você consegue
um arlequim triplo. Venha! Jogue! Invente o mundo! Invente a realidade!
" ( Look at the Harlequins.V.N).
A utopia da escrita do século XX não é mais
a utopia de dizer o mundo, ou de dizer as idéias, mas a utopia
de dizer a impossibilidade do dizer. Seguindo este ponto de vista,
críticos como L. Olsen e Dale E. Peterson interpretaram a
obra de Nabokov tomando-o como um autor pós-moderno e descontrutivista,
cujos artifícios apresentariam ao leitor o vazio da existência.
Para Lance Olsen, por exemplo, Lolita constituiria um texto bifronte,
uma face de Janus, no qual verdade e sentido seriam apenas o fruto
de uma construção lúdica entre imaginário
e realidade. D.-J. Hughes vai mais além, acreditando que
Nabokov denuncia não apenas o realismo, mas também
toda a verdade e toda a realidade. Para Douglas Fowler o componente
brincalhão e de irrealidade do estilo de Nabokov, como no
das histórias de fadas, impede que se leve a sério
quaisquer implicações morais que possam estar presentes.
Maurice Couturier, que se destaca na escola de pensamento crítico
de Nabokov na França, enfatiza o aspecto tirânico na
escrita de Nabokov e o emprego de táticas que expressam a
perversão do autor. Yone Dureau, em contraste, valoriza em
Nabokov, a abertura ao sentido e às várias significações
possíveis que possibilita leituras opostas e contradições.
Segundo ela " na crítica à obra de Nabokov as
oposições se estabelecem algumas vezes a partir dos
mesmos elementos do texto, sobre a diegese, sobre as estruturas
narrativas, sobre uma leitura simbólica ou estruturalistas.
Nabokov teria escrito romances morais, garante uma primeira escola.
Nabokov seria imoral, e mesmo perverso, respondem outros. Nabokov
apresenta uma escrita esotérica, mística, que evoca
um outro mundo, pretendem mais alguns críticos. Nabokov estabelece
um sentido e valores para os destruir em seguida, asseguram outros.
O tom de todos estes críticos deve surpreender o leitor,
pois nunca é sereno e raramente neutro. Ellen Pifer condena
alguns críticos porque eles defendem os pontos de vista da
imoralidade. Maurice Couturier condena a tirania e a perversão
do autor. D.-J.Hughes fustiga os mantenedores do realismo. Nabokov
parece ser o jogo das ideologias subjacentes, conscientes ou inconscientes,
pois ele exacerba as paixões e as penas" ( o grifo é
meu).
Nabokov, segundo os lingüistas, seria um bilingüe perfeito,
o que é extremamente raro. Ainda seguindo Dureau, este talento
e seu perfeito domínio da língua inglesa permitiu
que nela introduzisse formas de ligações, implícitas
entre os sintagmas, que pertenceriam à língua e cultura
russas. Esta duplicidade expressiva escaparia à maioria dos
leitores, mas, apenas, em parte porque deixaria um resto de efeito
subliminar que se expressaria como um sentimento de estranheza ou
irrealidade.
A proposta de Yona Dureau sobre o emprego de técnicas de
não-dizer e do "branco" por Nabokov parece abrir
caminho para a elaboração de uma questão semelhante
àquela que, há anos, vem me intrigando sem que eu
encontrasse, até então, uma forma satisfatória
para elaborá-la. Trata-se do que considero como uma forma
de transmissão, pela identificação projetiva
do artista, de algo que ganha corpo, forma ou expressão em
sua arte, moldando o espectador/leitor segundo um rumo próprio,
por sua vez é determinado pela dinâmica inconsciente
do artista. Este modo de transmissão, em alguns casos, pode
vir associado à utilização de recursos perversos,
notadamente o mecanismo freudiano da recusa - que cria dois universos
opostos associados à crença na realidade de ambos.
Uma frase popular descreve de modo lapidar esta duplicidade: "
Não creio em bruxas, mas que elas existem, existem..."
( No creo en las brujas, mas que las hay, las hay ).
Depois de um longo estudo sobre a obra do pintor e gravurista Hans
Bellmer consegui apenas insinuar esta questão, associando-a
ao seu talento verbal que se utiliza dos anagramas, das paronomásias
e se deleita na construção de palíndromos para
demolir uma parcela do campo de sentido da linguagem, como em sua
arte quando ele cria bonecas quebradas ou distorcidas, ou cria imagens
paradoxais onde figura e fundo se tornam intercambiáveis.
Meu argumento, a respeito de Bellmer, era de que sua arte inconscientemente
servia de veículo para a expressão de uma recusa,
que posteriormente impressionaria àqueles que entrassem em
contato com sua obra neles introduzindo dúvidas ou certezas
emocionais que, dentro da sua própria organização
sintomática, não lhes pertenceriam. O conceito kleiniano
da identificação projetiva aplicado nestes casos não
me deixava muito satisfeita porque sugeria haver algo que estava
sendo transmitido ( através da projeção do
autor ) por vias misteriosas ou telepáticas.
Para Dureau a escrita de Nabokov desperta críticas opostas
e intensamente emocionais porque ele obriga os indivíduos
que se debruçam sobre sua obra a falarem de si mesmos por
se projetarem nas áreas indefinidas ou em branco do texto.
Segundo ela, as leituras apaixonadas divergentes ou irreconciliáveis
resultam da não explicitação, pelo autor, das
conexões entre algumas idéias ou eventos. Escreve
Yona Dureau:"Nosso estudo se funda sobre o fato de que toda
leitura crítica se estabelece sobre uma parte explícita
da obra tanto quanto sobre uma construção imaginária
do seu sentido. Esta construção imaginária
se torna possível graças aos brancos do texto, que
são interpretados pelos críticos como sendo componentes
implícitos. Quanto mais o texto utilizar o branco, mais crescerão
os componentes implícitos na crítica".
Dureau constata que " o branco é utilizado não
apenas em contextos diferentes, mas também segundo uma multiplicidade
de níveis estruturais e de perspectivas que dão valores
específicos a esta variável: estilística, semiótica,semiológica,
psicológica, metafísica e epistemológica."
É por ser um lugar aberto no texto que o branco permite ao
leitor/espectador refletir-se ou projetar-se no espaço que
ele abre, operando como um espelho.
Para Dureau, o branco é um significante que serve como móvel
da pesquisa sobre a expressão do inexprimível e como
elemento de articulação na construção
do sentido do texto. Para ela, o branco é um ideal de escrita
em Nabokov, uma forma de estilo que reflete sua metafísica
e que está no centro do que Umberto Eco designou como "
a abertura de uma obra". Assim, para Yona Dureau, o branco
em um romance pode ocultar aquilo que um outro romance transfigura,
tornando possível falar-se sobre um emprego de duas expressões
diferentes de "negação" ( déni )
ou, ainda, como recurso para dizer o impossível de se dizer.
Em Lolita encontramos um texto que associa dois tabus ligados a
duas expressões proibidas. O tabu do incesto é indizível,
mas ele está associado à expressão do desejo,
por sua vez indissociável da morte, que também é
um tabu. O branco serve, neste caso, tanto de esconderijo para o
que foi proibido como de marca do desejo ( "Le blanc sert alors
autant de cache pour ce qui est interdit que de marque du désir"
).
Encontro, na obra de Nabokov, uma referência constante à
expectativa de viver "epifanias", mas ela se dá
com freqüência em associação à recusa
que se traduz na esperança de uma "falofania".
Esta recusa também explica o jogo de espelhos que gera a
coexistência de reflexos, duplicações e oposições
na obra deste autor enquanto elementos geradores, ou melhor, transmissores
de conflitos. Ao contrário de Yona Dureau, que via na divergência
das críticas apenas o fruto do emprego tático dos
brancos, entendo que Nabokov se utilizasse deste meio para fazer
com que contrários e conflitos, expressos por cada uma das
vozes críticas, coexistissem com igual pertinência.
A hipótese de Yona Dureau sobre o papel do "branco"
na obra de Nabokov, porque ela o considera um elemento propiciador
das projeções do leitor/espectador, abre um caminho
mais preciso para se compreender o efeito real de Nabokov sobre
seus leitores. Ela completa um cenário que eu, anteriormente,
vinha limitando quando buscava entendê-lo apenas através
do mecanismo da identificação projetiva do autor.
Agora percebo que o elemento de "contágio", mais
forte do que a eficácia da identificação e
da empatia, adviria da manipulação, pelo artista,
dos rumos das projeções feitas pelo leitor/espectador
em sua obra ( nos brancos da sua obra). A hipótese de Yona
Dureau sobre os "brancos" do estilo de Nabokov ajudou-me
a avaliar que, mais do que uma projeção real das idiossincrasias
de um autor sobre o mundo mental do espectador/leitor, haveriam
fissuras na articulação ( "brancos") que
convidariam as projeções do leitor enquanto que, ao
mesmo tempo, estas projeções e "escolhas"
seriam limitadas, de acordo com os desígnios, conscientes
ou inconscientes, do autor.
Sinto-me mais esperançosa agora para explorar, como psicanalista,
o que encontrei não apenas em Nabokov, como também
em Hans Bellmer ( de modo mais objetivo) sobre o poder da arte de
transmitir também o que é do campo do sintoma de um
artista. Não pretendo afirmar que a arte não seja
um dos caminhos de expressão do indizível, ou de acesso
a uma visão renovada da vida, assim mesmo gostaria de sugerir
que algumas obras de arte trazem com elas, além do que pretendem
expressar, o universo particular do inconsciente do artista que
captura o leitor/espectador de uma maneira inesperada porque redutora.
Vladimir Nabokov, apesar da abertura que ele dá às
interpretações, domina a cena, na medida em que sua
utilização do "branco" é deliberada.
Se, enquanto significante, o branco admite múltiplos significados,
também por isso mesmo as escolhas possíveis não
são infinitas. Mesmo que Nabokov visasse uma via de expressão
do inefável, como o Yone Dureau propôs, ele simultaneamente
recriava, no leitor, seus próprios conflitos e dores, êxtases
e fantasias.[41] Parece-me que ele, deliberadamente também,
cortou a via de facilitação às identificações
patológicas com a crueldade ou com a pedofilia, como que
fechando a porta para este tipo de contágio e de transmissão
pela arte.
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[1] - No filme de Kubrick, James Mason desempenhou o papel de Humbert
Humbert; Peter Sellers foi Clare Quilty; Shelley Winters, Charlotte
Haze e Sue Lyon estreou como Lolita. No filme de Lyne, Jeremy Irons
foi Humbert Humbert; Frank Langella, Clare Quilty; Melanie Griffith
, Charlotte Haze e Dominique Swain estreou como Lolita.
[2] - Stanley Kubrick foi o único roteirista de Laranja
Mecânica e Barry Lyndon. Alguns dos seus outros filmes foram
Dr.Fantástico ou: Como aprendi a parar de me preocupar e
comecei a amar a bomba; 2001; Glória Feita de Sangue; O Grande
Golpe; De Olhos Bem Fechados, entre outros igualmente conhecidos.
Do segundo diretor, Adrian Lyne, há os filmes Gatinhas; Flashdance,
em ritmo de Embalo; 9 1/2 semanas de amor, Atração
Fatal, Alucinações do Passado e Proposta Indecente.
[3] - Entrevista de Suellen Stringer-Hye (www.librairies.psu.edu/iasweb/nabokov/schiffl.htm)
[4] - Há uma mini-série da rede Globo, " A Presença
de Anita", escrita em 1948 por Mario Donato, que vem sendo
aclamada como a história de uma "Lolita brasileira"
e aproximada ao romance de Nabokov por aqueles que não leram
sua obra, ou que entenderam mal a proposta de Lolita. Obviamente,
estou me referindo apenas aos dois filmes até agora realizados,
por Kubrick e por Lyne.
[5] - Um Riso no Escuro, no Brasil "A Noite Infiel" foi
adaptado por Edward Bond e dirigida por Tony Richardson em 1969.
Há uma nova versão feita em 199 ; Rei,Rainha e Três
Corações foi filmado em 1972 por Jerzy Skolimowski;
Desespero- Uma Viagem para a Luz, de 1978, foi dirigido por Rainer
Werner Fassbinder e Tom Stoppard. O mais recente, de 2000, foi "A
Defesa Luzhin",segundo Dieter E. Zimmer (Zembla).
[6] - A mesma coisa ele reafirma, em Lolita : Meu olhar espreitante,
aquele periscópio sempre alerta de meu maldito vício,
entrevia à distância uma ninfeta seminua que penteava
os cabelos, qual Alice no país das minhas maravilhas. Havia
naquele ígneo fantasma uma perfeição que também
fazia perfeita minha selvagem volúpia, exatamente porque
a visão estava fora de alcance, sem qualquer possibilidade
de ser atingida e corrompida pela consciência de um tabu intransponível;
na verdade, a atração que a imaturidade exerce sobre
mim talvez resida não tanto na limpidez da beleza pura e
proibida de uma menina encantada, como na segurança de uma
situação em que infinitas perfeições
preenchem o abismo entre o pouco que é dado e o muito que
é prometido - os picos cinzentos e rosados do inatingível(
trad. J.Dauster).
[7] - Em Lolita ele escreve: " o mais estranho é que
ela, esta Lolita, a minha Lolita, individualizou esta paixão
antiga no escritor assim que, acima e sobre tudo mais existe - Lolita".
[8] - Nabokov faz Humbert "introduzir a seguinte idéia.
Entre os limites de idade de nove e quatorze há a ocorrência
de donzelas que, para certos viajantes enfeitiçados, duas
vezes ou muitas vezes mais velhos do que elas, revelam sua verdadeira
natureza, que não é humana, mas nínfica ( isto
é, demoníaca ); e a estas criaturas eleitas proponho
dar o nome de ' ninfetas' . "
[9] - Sobre este tema da identificação projetiva
através da arte, cf. o trabalho " Corpo e Representação
em Psicanálise: o lugar da identificação projetiva"
(1995) , no livro " Corpo & Mente, Uma fronteira móvel?",
Ed. Casa do Psicólogo, págs. 407 a 428, sobre o artista
Hans Bellmer.
[10] - em inglês, a palavra "therapist" engolfa
o termo "rapist" (estuprador).
[11] - Adrian Lyne chegou a pensar em iniciar o filme com Humbert
na prisão, como forma de satisfazer às exigências
da moralidade pública.
[12] - Um dos tradutores de Lolita para a língua portuguesa,
Jorio Dauster escolheu traduzir a palavra "bliss" por
"volúpia". Em vários contextos a sensação
estética de volúpia faz sentido, mas este termo não
cobre as variações do uso de "bliss" como
encontrado em Nabokov. A mesma dificuldade encontrei na escolha
de Jorio Dauster para a palavra "ilusionista", aplicada
aos truques mágicos do "enchanter".
[13] - Há alguns anos, escrevendo sobre o obsceno e a arte,
num artigo cujo título se apoderou de um dos temas de Nabokov,
anotei: " A erotização de uns é a magia
de outros e, como Nabokov tão bem o demarcou, o prazer do
leitor é tanto sensual quando intelectual mesmo se, para
ele se fruir, seja preciso se manter um pouco distante. Para Nabokov
a literatura é ficção, pura invenção
e o grande escritor é, também, um grande enganador.
Contudo, como tantos, ao fazer uma divisão entre um "mundo
de verdade" para cá e outro, "de ficção",
para lá, ele sugere que se pode escrever tanto sobre um,
como sobre o outro sem ter que recorrer, sempre, ao que de ficção
germina na metáfora. À primeira vista, parece que
Nabokov não acredita, como Freud, "nas verdades de novo
tipo" e em "reflexos preciosos da realidade" quando
ele descreve o artista como aquele que inventa, do caos real, uma
realidade que segue seu capricho pessoal. Afinal, haverá
qualquer outro caminho para se buscar uma verdade que não
dependa da palavra e que não tenha qualidade de ficção?
Das duas, uma: se fosse possível obter-se um acesso irrestrito
ao que foi registrado pela memória (incluindo-se tanto as
experiência de dor quanto as de prazer), então, ou
se alcançaria um pensar claro, objetivo, a se desenvolver
infinitamente, ou, ainda, o pensar desapareceria com o último
dos homens, já que as fadigas do sexo seriam dispensáveis
na medida em que o gozo seria recriado, a partir da memória,
pela palavra!
[14] - Uma elaborada audition colorée, como a de Rimbaud,
reconhece em "The Gift", enquanto tentava manter "uma
conversa com mil interlocutores, apenas um dos quais genuíno
e que deve ser capturado para ser mantido por perto".
[15] - Ao comparar esta dinâmica com a teoria de Freud de
que " um pensamento obsessivo ou compulsivo é aquele
que tem a função de representar um ato regressivamente",
Geoffrey Green (1988) in "Freud and Nabokov", obteve um
quadro instigante , material este que, infelizmente, é extenso
demais para ser incluído aqui . Prefiro aproximar esta recriação
fantástica da mulher morta a uma caricatura do processo de
luto como descrito por Freud.
[16] - Será preciso advertir que "forjar" corre
em dois sentidos?
[17] - No conto Mademoiselle O, Nabokov descreve a experiência
do menino insone com medo do escuro, que encontra conforto na réstea
de luz que lhe chega do quarto da governanta e que impede que o
sono, como um carrasco, lhe corte a cabeça e lhe roube a
consciência.
[18] - Em plena forma "involutiva" Lolita/ninfa induz
alguns seis anões a crer que a vida deles não passa
de um sonho. No entanto, há um sétimo caçador,
que se apresenta como o poeta que construiu aquela obra e assegura
que ninfa, caçadores e toda a próspera peça
são meros produtos dos seus artifícios e sonhos. Esta
asserção obriga à ninfa a abrir o jogo para
demostrar que é uma menina de verdade, e não, uma
criação poética. É quando os dois, ninfa
e poeta se encontram numa floresta e se beijam, permitindo à
platéia perceber que "miragem e realidade convergem
no amor". Quem será o poeta?
[19] - O crítico de cinema, Richard Corliss, escreveu Lolita
utilizando-se dos personagens do livro Pale Fire (o comentador,
Charles Kinbote, e o poeta, John Shade), para construir o esquema
da sua crítica. Alfred Appel Jr. acrescentou minuciosas pesquisas
no rodapé de Lolita , publicando-as no " The Annotaded
Lolita", assinado por V.Nabokov - duas maneiras de se apropriar
de uma ponta a outra do estilo de Nabokov em que o cabo sai pela
culatra.
[20] - Cf. " Ada or Ardor: A Family Chronicle".
[21] - Nabokov era um enxadrista criativo, e incluía movimentos
e jogadas do xadrez nas suas histórias.
[22] - No improviso durante as cenas que compõem o assassinato
de Quilty , Peter Sellers se veste num lençol atravessado
como uma toga e faz referência a Spartacus. Seria esta uma
citação do ator a Kubrick ?
[23] - o que não deixa de ser um convite para que estes
freudianos lhe prestem atenção.
[24] - Conferir com uma asserção semelhante, feita
por Freud no seu livro " O Mal-Estar da Civilização"
na qual ele afirma que " em última análise, todo
sofrimento nada mais é do que sensação; só
existe na medida em que o sentimos, e só o sentimos como
conseqüência de certos modos pelos quais nosso organismo
está regulado".
[25] - Para Elizabeth Kaye ( Esquire, 1997): "vagar pelo país,
descrevendo as minúcias do brega americano e convocando aquele
desamparo especial de estar-se em fuga depois de praticar um ato
irrevogável, Lolita é um perfeito road book , uma
jogada literária ao mesmo tempo trágica e cômica,
dura e terna. Um trabalho perturbador e estimulante, imbuído
da crueldade particular do sexo aniquilador , ele localiza a junção
precisa, mas obscura, entre lixo e arte, entre a alta e a baixa
cultura".
[26] - Na edição brasileira de 1998, da Companhia
das Letras, Ivan Lessa observa a respeito desta teoria de Lionel
Trilling: "Não, Lionel, não. Se Nabokov quisesse
escrever uma história sobre o amor, ele teria escrito sobre
o amor. Ou de amor." No entanto, Lolita também não
é um romance sobre sexo...
[27] - traduzido por Jorio Dauster.
[28] - Um percurso emocional associado ao luto pela perda da infância
e do primeiro amor foi relatado de modo inteiramente diferente no
primeiro romance de Nabokov, Machenka, escrito em russo em 1925.
[29] - Quando o romance Lolita foi publicado o humorista Groucho
Marx observou: "Adiei a leitura por seis anos... Até
Lolita completar dezoito", porque Nabokov ousou inventar Lolita
como sendo uma menina de doze anos ( citado por R.Corliss).
[30]- Os prantos da menina estão bem caracterizados tanto
por Kubrick como por Lyne, que permitem à Lolita uma certa
vida própria fora da mente de Humbert, mas o destino cinematográfico
de Charlotte foi mais cruel.
[31] - " Nunca vi mais lúcida, mais solitária
e mais equilibrada mente louca do que a minha", conclui por
trás de ainda outra máscara.
[32] - tradução de Jorio Dauster
[33] - Mesmo assim, Humbert não era impotente ( como Quilty)
e sua prática sexual com Lolita era intensa, mas comum. Sua
"pederase" ( na expressão de Nabokov ) era a de
um voyeur.
[34] - Sobre isto, conferir : " Escritores criativos e seus
devaneios", de S.Freud.
[35] - Os pesadelos e as fascinações da " mania
de referência" não parecem estranhos ao autor
de Signs and Symbols ( Cf. Nabokov´s Dozen ).
[36] - Ainda assim esta frase de Nabokov é supreendente:
"The Word is given the sublime right to enhance chance and
to make of the transcendental something that is not accidental".(
VN in "The Passenger", 1927
[37] - Um poeta, no livro "The Gift" expressou o desejo
de " algum dia produzir uma prosa na qual pensamento e música
se conjugam como as dobras da vida no sono".
[38] - Uma das estudiosas de Nabokov, Ellen Pifer, observa que
ele se opunha a Dostoievsky porque considerava que este último
encorajava a identificação do leitor com a psicologia
do assassino, em vez de convidá-lo a distinguir entre as
ações criminosas e a "qualidade criativa da consciência
verdadeira", colocando sua arte " a serviço da
perversão e do mal"( Cf. Nabokov : Biografia de Gógol
e Strong Opinions) .
[39] - Sobre a expressão " falofania" refiro os
leitores ao artigo "Hamlet, uma tragédia do desejo"
( 1955) de Jacques Lacan.
[40] - A maior parte das informações do adendo foram
obtidas do livro de Yona Dureau, " Nabokov ou le sourire du
chat" trazido, ainda fresco, de Paris como mais uma das generosas
contribuições de L.F.Gallego para enriquecer minha
fascinação com Nabokov.
[41] - que ocorreriam " com a fugidia subitaneidade de um
anjo", numa tradução pesadamente literal da frase:
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