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O ENSINO DA PSICANÁLISE SEGUNDO
JACQUES LACAN
Maria Anita Carneiro Ribeiro[1]
Este texto foi provocado pela leitura da lição do
dia 21 de novembro de 1962, do Seminário livro X, “A
Angústia”, de Jacques Lacan.
O autor abre a lição se interrogando sobre o que
é um ensino e, mais especificamente, o que é um ensino
analítico? Das respostas apresentadas, três são
de como não é um ensino analítico em um seminário,
e uma é, finalmente, a proposta do autor. Estas respostas
me evocaram os quatro discursos que serão desenvolvidos por
Lacan a partir de 1968, ou seja, seis anos depois desta aula. Surgiu-me
então o desejo de aplicar os matemas dos quatro discursos
às modalidades de ensino apresentadas, um pouco à
moda de Lèvi-Strauss (sem data) que diz que usa seus mitemas
como “uma demonstração [...] quando muito no
sentido do camelô [...] explicar tão rapidamente quanto
o possível o funcionamento da pequena máquina que
ele trata de vender aos basbaques” (p. 245). Já que
os feixes de mitemas de Lèvi-Strauss foram a primeira inspiração
dos matemas de Lacan, a comparação me parece apropriada.
O primeiro ponto que Lacan coloca é o fato de que a psicanálise
opera sobre um não-saber. O autor refere-se a um sonho citado
várias vezes por Freud, e por ele retomado, também
várias vezes: trata-se de um filho que, após a longa
doença do pai, seguida de sua morte, sonha que o pai está
a sua frente e fala com ele. É um sonho de angústia
e o ponto nodal é resumido na frase do sujeito: “Ele
não sabia que estava morto”. Lacan desliza do “ele
não sabia”, ao “eu não sabia”, para
chegar ao indeterminado “não se sabia”, para
mostrar que aí justamente que se espera que o analista saiba
alguma coisa, um pouco que seja.
Que ele saiba algo não implica necessariamente que ele o
possa ensinar, pois o problema se desdobra em a quem ensinar e como
ensinar? Trata-se de ensinar não só a quem não
sabe mas a quem não pode saber. A questão do não
poder saber não se liga ao fato de que seminários
sejam freqüentados por não-analistas, uma vez que Lacan
salienta que muitos dos analistas que freqüentam seu seminário
ali chegam com “posições, posturas, expectativas
que não são forçosamente analíticas”
(p. 26). A questão está em outro lugar e Lacan a desenvolve
a partir do exemplo da supervisão enquanto ensino.
Na supervisão, o que o sujeito sabe é trazido ao
analista e a intervenção deste é “dar
o análogo do que é a interpretação”,
ou seja, “essa adição mediante a qual alguma
coisa aparece que dá sentido ao que vocês acreditam
saber, que faz aparecer num átimo o que é possível
captar além dos limites do saber” (p. 26). Na supervisão,
segundo Lacan, o analista opera como “interpretante”
como aquele que nos pós-facio do Seminário XI (1964-1965)
ele define como o que “tem o dever de interpretar” (p.
264). É pois a partir do discurso do analista que o supervisor
intervém, enquanto causa de enigma (a) para levar o sujeito
dividido ($) para além dos limites do saber (a produção
de um S1 novo, não sabido pelo sujeito).
Discurso do Analista
®
Esta configuração discursiva implica em que o sujeito
($) esteja sob transferência, o que esclarece um aspecto bem
particular da supervisão dentro da orientação
lacaniana. O supervisionando, na posição de analisante,
supõe um saber ao supervisor que deverá ser seu próprio
analista, a menos que a particularidade de cada caso indique, para
o bem da relação analítica, que o analisante
desloque uma transferência lateral para outro analista. Nestes
casos a responsabilidade ética do supervisor será
a de operar a partir do discurso do analista na supervisão,
sem no entanto intervir na análise em curso com outro analista.
Posição paradoxal e de difícil manejo!
A posição do ensinante é outra. Trata-se,
segundo Lacan, de “fazer compreender”, “fazer
apelo a uma experiência que vai muito além da estrita
experiência analítica” (Seminário X, p.
26). Não é algo fácil de se obter uma vez que
“a compreensão não é um vivido”
e que por isso não se deve acreditar excessivamente no que
se pode compreender. Lacan toma como exemplo a própria angústia
que o analista pode experimentar enquanto sujeito o que pode nos
levar a supor que compreendemos a angústia dos neuróticos,
“material cotidiano de nossa experiência”. Mas
o que dizer do perverso e mesmo do psicótico? (p. 27) Lacan
recorre então aos matemas, ao elementos significantes, mas
se esforçando em fazê-los desprovidos de sentido, pela
notação de um conteúdo compreensível
e apostando na relação estrutural entre os elementos,
para que a compreensão não seja enganadora.
Do ponto de vista do docente ele pode abordar seu tema a partir
de três rubricas. Lacan as expõe ao mesmo tempo que
aborda a angústia (tema de seu seminário) a partir
de cada uma destas perspectivas. A primeira é a do catálogo,
ou seja, fazer um inventário não só do que
o tema (no exemplo a angústia) quer dizer mas também
o que se quis dizer quando se criou a categoria. Lacan exemplifica
este método com o debate que São Tomás de Aquino
promove, segundo o método escolástico, entre o concupicível
e o irracível.
Como o próprio Lacan se atreveu a brincar com o nome de
São Tomás (Saint Thomas, Saint Honnme, Sinthome) promovendo-o
a sintoma de nossa cultura, atrevo-me a ler esta via de ensino como
sendo o ensino pelo discurso do mestre, que é o próprio
discurso da filosofia:
Discurso do Mestre
®
Porém já que poucos mestres estão à
altura de encarnar um S1 como São Tomás, Lacan nos
mostra como quando esta via é tomada por um autor, como David
Rappaport, num trabalho sobre o afeto publicado no “International
Journal”, termina em impasses e numa infecundidade especial.
Ou seja, como o autor (S1) se limita a catalogar tudo que já
se escreveu sobre o afeto em psicanálise (S2), abstendo-se
de opinar, ou seja, de expor sua divisão como sujeito ($)
o que resulta está fora do sentido (a).
À segunda via de ensino Lacan chama de método do
análogo segundo ele, por consonância ao método
do catálogo. De fato, este método obedece a um deslizamento
metonímico próprio ao discurso da universidade.
Discurso da Universidade
®
O exemplo está num livro, que Lacan se recusa a citar, em
que a angústia é abordada “em níveis
pretensamente independentes”, a partir de posições
analógicas: biologicamente, socialmente, sociologicamente,
culturalmente, etc. A principal crítica a esta abordagem
“eclética” é o fato de que ela se distancia
da experiência. Nesta posição, o ensinante está
encarnando o saber (S2) dos verdadeiros mestres (S1) que ele lança
sobre o outro, tratado como mero objeto (a). O resultado só
poderá ser a produção de um sujeito dividido
por tanta informação, de tantas abordagens ($).
A terceira via é a que Lacan diz adotar: é a via
da chave. “A chave é a forma segundo a qual deve operar
ou não deve operar a função significante como
tal” (p. 30). Isto faz com que todo ensino, analítico
ou não, se refira necessariamente a um “ideal de simplicidade”.
Este ideal de simplicidade se sustenta no fato de que é o
traço unário (S1) que funda o sujeito. “O traço
unário está antes do sujeito. No começo era
o verbo, isso quer dizer, no começo é o traço
unário” (p. 30).
Em outro momento de seu ensino, Lacan diz que ensina como analisante,
ou seja, como sujeito dividido. Podemos então aproximar a
“via da chave” do discurso da histérica
®
no qual o ensinante opera a partir de suas próprias questões
($) visando tocar o outro em sua relação mais fundamental
com o significante (S1) para que ele (o aluno) produza, a partir
do ensino, um saber que é dele (S2).
Nesta perspectiva, o objeto a no lugar da verdade não representa
o mais-de-gozar enigmático da histérica, mas sim o
desejo, objeto causa de desejo, que aponta para a falta. A verdade
em jogo no discurso do ensinante seria sua própria relação
com o impossível de dizer (a)com a falta, com a castração
e com o desejo. O discurso da histeria não se confunde com
o tipo clínico da neurose. É uma modalidade especial
de estabelecer um laço social que interroga o saber e a mestria.
A meu ver, a partir de Lacan esta é a posição
em que deveria se colocar todo sujeito que ousa ocupar a posição
de ensinante.
[1] Psicanalista, Membro de Formações Clínicas
do Campo Lacaniano, Coordenadora Acadêmica do Curso de Especialização
em Psicologia Clínica PUC-RJ.
Referências bibliográficas
Lévi-Strauss, C. “A estrutura dos mitos” in
Antropologia Estrutural. Rio de Janeiro: Ed. Tempo Brasileiro, 4ª
ed. (sem data).
Lacan, J. Seminário X, A angústia (inédito).
-----------. Seminário XI, Os quatro conceitos fundamentais
da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1979.
-----------. Seminário XVII, O avesso da psicanálise.
Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1996.
[1] Psicanalista, Membro de Formações Clínicas
do Campo Lacaniano, Coordenadora Acadêmica do Curso de Especialização
em Psicologia Clínica PUC-RJ.
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