| |
<
voltar
Transcrição / Boston Review / Pulsional
Nota do editor – A tradução autorizada deste
artigo de Robert S. Boynton pelo psicanalista Sergio Telles, que
também faz a apresentação dele, foi publicada
originalmente na revista “Pulsional”, número
174 (outubro de 2003). Agradecemos ao editor, psicanalista Manoel
Tosta Berlinck, a gentileza de permitir sua transcrição.
E a Sergio Telles, a pronta colaboração com nossa
iniciativa de colocar este relevante assunto à disposição
dos leitores de “Gradiva”.
O retorno do reprimido - O estranho caso de Masud Khan
APRESENTAÇÃO
Sérgio Telles
Por que traduzir o artigo de Robert Boynton, que expõe a
loucura de dois grandes psicanalistas e inexplicáveis conluios
escusos que estabeleceram, naquela ocasião, a perversão
institucional no sacrossanto seio da International Psycho-analytic
Association?
Seria pelo prazer regressivo de satisfazer o infantil ódio
edipiano, assassinando reverenciadas figuras parentais do mundo
psicanalítico e denegrindo suas intituições?
Pelo contrário. A tradução se justifica por
seu aspecto “sanitário”, no que esta palavra
implica de cuidados adultos e responsáveis referentes à
saúde e à higiene, à limpeza. E do que se faz
a higiene ao publicar-se um artigo como esse? Da insidiosa e recorrente
idealização, um mal que nos atinge a todos e contra
o qual precisamos periodicamente nos vacinar.
Na solidão e desamparo de nosso ofício, somos permanentente
tentados a procurar profetas e textos sagrados, nos quais somos
levados a acreditar de modo religioso, como se fossem as revelações
das verdades definitivas. Tudo que possibilite a análise
e a desconstrução dessa atitude deve ser empreendido,
visando seus efeitos terapêuticos e salutares, quer seja no
plano pessoal como institucional.
A via regia para isso é a divulgação da história
da psicanálise e da instituição. Refiro-me,
evidentemente, não à história “oficial”,
fruto de repressões e negações impostas pelas
lutas de poder institucional. É justamente a desconstrução
e análise da história “oficial” o que
permite a recuperação do reprimido, do negado e do
dissociado. Isso coloca numa correta perspectiva e enquadre o movimento
psicanalítico e o aparecimento das diversas linhas teóricas,
que ficam mais compreensíveis dentro de sua moldura histórica.
O saboroso texto de história psicanalítica que apresentamos
tem ainda a vantagem de ser escrito por um arguto observador estranho
ao nosso meio, o que o deixa desembaraçado das teias transferenciais
e contratransferencias que tanto alimentam nossos conluios institucionais.
Embora centrado na relação Winnicott-Khan dentro do
ambiente analítico dos anos 60 em Londres, o texto levanta
problemas que continuam extremamente atuais, proporcionando matéria
para reflexões, quer seja do ponto de vista teórico-técnico,
quer seja do ponto da política institucional
Seu autor, Robert Boynton, é professor de Jornalismo na
“New York University” e exerce, com grande brilho, a
função de crítico cultural, escrevendo nas
mais prestigiadas publicações norte-americanas, como
a “The New Yorker” e “Atlantic Monthly”.
Pode ser encontrado no site www.robertboynton.com
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Robert S. Boynton
Em fevereiro de 2001, o mundo psicanalítico foi abalado
por um artigo, publicado no London Review of Books, escrito por
Wynne Godley, professor visitante do Levi Economics Institute do
Bard College, professor emérito de economia aplicada na Cambridge
University e ex-membro do Her Majesty Treasury Panel of Independent
Forecasters (os assim chamados “Six Wise Men” –
Os Seis Sábios). “Saving Masud Khan” conta a
história da longa psicanálise de Godley com Mohammed
Masud Raza Khan, o carismático anglo-paquistanês que
– como foi recentemente revelado – abusava e dormia
com muitas de suas pacientes. No dizer de Godley, ele teria sido
essencialmente torturado por Khan do começo ao fim. Foi “uma
longa e estéril batalha que culminou numa espiral de degradação”.
“Minutos depois de nosso primeiro encontro, a relação
terapêutica tinha sido totalmente subvertida”, escreve.
Em sessões posteriores, Khan violou todos os limites concebíveis
na relação entre analista e paciente. Atacava Godley
com tiradas verbais (“E pensar que são vocês
que comandam o mundo!”). Bisbilhotava abertamente sobre sua
própria convivência social com celebridades (Rudolf
Nureyev, Julie Christie, Peter O’Toole, Mike Nichols) e seus
outros pacientes, chegando a ponto de arranjar uma ligação
entre Godley (que era bem casado) e uma paciente (Khan disse que
eles eram “feitos um para o outro”). Eles três
– um analista e dois de seus pacientes – até
mesmo jogavam poker juntos (Khan trapaciava). Em circunstâncias
menos agradáveis, Godley presenciou uma bebedeira de Khan
e sua mulher - Svetlana Beriosova, a bela prima ballerina do Royal
Ballet – que terminou numa briga, na qual ela o atingiu com
um chute nos testículos, desmaiando em seguida no hall principal.
O artigo foi devastador porque Khan fora um dos melhores e mais
brilhantes psicanalistas – um analista didata (senior training
analist), diretor do Sigmund Freud Copyrights, um protegido de Anna
Freud e o colaborador de longa data do mais famoso analista de crianças
do século XX, D. W. Winnicott (Khan editava e, alguns especulam,
pode ter tido co-autoria em muito da volumosa produção
de artigos e livros de seu mentor). Com esse impecável pedigree,
ele era o elo de ligação entre a lendária primeira
geração e algum dos mais importantes analistas da
atualidade. De fato, Anna Freud insistia que Khan compreendia o
trabalho de seu pai melhor do que ninguém (além dela
mesmo, é claro), e o defendia sempre que ele provocava a
ira da Sociedade.
A reação profissional às revelações
de Godley foi rápida e defensiva. Mesmo não sendo
nenhum segredo que violações igualmente sérias
dos limites profissionais entre analista e paciente infestam a análise
atualmente, ainda assim mantém-se o agravante, nesse caso,
de que muitos dos contemporâneos de Khan – incluindo
o venerável Winnicott – sabiam de suas infrações
no momento em que eram cometidas e nada fizeram. “Isso é
como uma volta aos dias de Freud e dos primeiros pioneiros da psicanálise.
Tudo está sendo criticado e reavaliado aqui, tudo está
sendo questionado”, diz Gregório Kohon, um animado
emigré argentino e senior member do London’s Institute
of Psycho-Analysis, que estudou com Khan no início dos anos
70. “Toda família tem segredos. E o que estamos presenciando
na “família” da psicanálise é nada
menos que o ‘retorno do reprimido’”. Kohon sugere
que a atual purgacão da tradição pode ser o
primeiro passo do retorno à premissa original da psicanálise.
Entre 1895 e 1905, a procura de Freud para a cura das paralisantes
“desordens nervosas” desdobrou-se numa “ciência
da mente” plenamente desenvolvida. De acordo com sua teoria
inicial, lembranças e sentimentos dolorosos eram reprimidos
no inconsciente e se expressavam nos sintomas físicos dos
pacientes. Depois de tentar a hipnose e outras formas de sugestão,
Freud descobriu que o paciente poderia se aliviar de seus próprios
problemas através da associação livre, pela
qual essas lembranças vinham à tona. Mas Freud notou
que, no correr desse processo, o paciente dirigia (ou “transferia”)
intensas emoções, ligadas às pessoas de seu
passado, para o analista.
A descoberta da transferência realizada por Freud ( assim
como da “contratransferência” – as emoções
deslocadas de seu passado que o analista impõe ao paciente)
foi o centro de sua teoria da psicanálise. Cuidadosamente
manipulada, a transferência era a chave para o potencial curativo
da psicanálise, mas somente se os estritos limites profissionais
entre paciente e analista fossem respeitados. Em “Recomendações
aos médicos que exercem a psicanálise” (1912),
Freud descreveu os limites necessários para evitar a confusão
que o manejo equivocado da transferência poderia instalar
na relação analítica. O analista deve ouvir
as associações livres do paciente num estado de atenção
flutuante; deve manter-se neutro e resistir à tentação
de influenciar ou melhorar o paciente. O objetivo da psicanálise
era proporcionar ao analista o uso de “seu próprio
inconsciente como um órgão de recepção
das transmissões inconscientes do paciente”, Freud
escreveu. Manejada inadequadamente, analista e paciente podem re-atuar,
mais do que analisar, as tumultuadas relações que
cada um teve com as figuras importantes de seus próprios
passados. Os perigos inerentes à relação psicanalítica
nunca foram negados.
* * *
Apesar de algumas vezes parecer que a psicanálise está
permanentemente em estado de crise, mesmo os observadores mais calejados
acreditam que o caso Khan-Godley acontece num momento delicado de
sua história. Hoje praticamente todos os conceitos freudianos
– transferência, contratransferência, repressão,
complexo de édipo – estão sob escrutínio.
As críticas cumulativas de autores como Frederick Crews,
Adolph Grunbaum, Frank Sulloway e Peter Swales tem forçado
os defensores da psicanálise a reconsiderarem suas bases
científicas, assim como a história oficial de sua
fundação e de seu desenvolvimento. Os intérpretes
mais sofisticados da psicanálise conhecem esses problemas,
apropriaram-se dos argumentos dos críticos e tentam seguir
em frente. Pesquisas nas neurociências confirmam muitas das
idéias de Freud sobre o inconsciente. Críticos culturais
beneficiam-se das investigações filosóficas
de Freud. Quer os “novos” psicanalistas se considerem
filósofos, cientistas ou críticos culturais, eles
concordam que esse é um momento especialmente fértil
para rever o legado freudiano. As questões no coração
da psicanálise – sua promessa de iluminar o porque
fazemos as coisas que fazemos, porque temos dificuldades em fazer
o que queremos fazer e porque sofremos – continuam a instigar.
O debate teórico tem tido implicações na prática
da psicanálise e o escândalo em torno de Khan fez reaparecer
antigas e explosivas questões.O objetivo da análise
é “curar” ou meramente confortar? Os analistas
deveriam manter uma distância clínica e profissional,
respeitando os “limites” entre eles e seus pacientes
(como os analistas clássicos insistem)? Ou deveriam lutar
para estabelecer uma assim chamada “relação
real”, ignorando os “limites” com o objetivo de
curar o paciente? E, mais especificamente, muitos estão questionando
se o comportamento de Khan foi tão anômalo ou se certas
idéias no seio da própria tradição [psicanalítica]
britânica inadvertidamente encorajam tais flagrantes violações
de limites. Teria a própria tradição que formou
Khan como analista falhado em ajudá-lo como paciente? Dever-se-ia
culpar o excelso Winnicott? Khan – que atormentou a tantos
– teria sido, ele mesmo, uma vítima?
Fiquei estupefato quando li o artigo de Godley. Apesar de ser cético
a respeito das bases científicas e da eficácia da
psicanálise, sempre considerei a tradição winnicottiana,
que produziu Khan, caracterizada por sua gentileza e empatia –
tal qual o próprio Winnicott. Khan foi popular entre literatos
e pessoas criativas; analisou Christopher Bollas e Adam Phillips,
analistas e escritores prolíficos cujo trabalho explora o
que Phillips chamou o “Freud pós-freudiano”,
ou o “Freud selvagem” que promove a criatividade e uma
vida plenamente vivida, ao contrário do “Freud iluminista”,
que prescreve rigorosas interpretações e auto-conhecimento.
Eu tinha escrito anteriormente sobre Adam Phillips, que, como alguém
que foi analisado por Khan e que tinha escrito uma excelente monografia
sobre Winnicott, claramente via-se a si mesmo como um portador dessa
tradição. “De Winnicott a Khan, a Bollas e Phillips,
a tendência é encontrar e ampliar o self”, escreve
Linda Hopkins, uma psicanalista que está escrevendo Blessings
and Humiliations, a primeira biografia abrangente de Khan. “O
objetivo da “nova” análise é ajudar a
pessoa a se sentir viva, a se abrir para as mudanças, não
curar-se de uma doença. O analista procura aprofundar e ampliar
o leque de experiências. É melhor estar vivo, verdadeiro
e “louco” do que viver um falso self”.
Mas o Khan monstruoso descrito por Godley não tem nenhuma
semelhança com o homem caloroso e caprichoso, amorosamente
lembrado por Phillips para mim. Teria Khan uma dupla personalidade?
Ou o conflitivo balanço do comportamento de Khan era simplesmente
uma prova de seu talento empático para transformar-se no
analista que cada paciente precisava – embora talvez não
o quisesse? Khan representa a perversão, a reducto ad absurdum
das idéias de Winnicott ou, pelo contrário, encarnou
sua mais perfeita e lógica expressão?
* * *
Solicitei uma entrevista com Godley e, num dia de final de verão,
dirigi noventa milhas ao norte de Nova York até o Bard College.
The Levi Economics Institute situa-se numa mansão da virada
do século, rodeada por um cuidado jardim italiano, às
margens do largo e verde Rio Hudson. Com setenta e sete anos, tem
a indisfarçável pose de um aristocrata. Alto e magro,
com um rosto descarnado e simpático, veste-se com a nonchalance
dos verdadeiramente bem-nascidos. Sapatos gastos, calça velha
de caqui, uma surrada camisa azul e um velho e frouxo suéter
marrom de lã – independente de ser este um sufocante
dia de verão.
Durante o almoço, Godley me fala sobre Khan num misto de
enfado e desespero; seu tom é tão distante que ele
bem poderia estar falando da análise de outrem e não
da sua. Durante os sete anos de sua análise diária,
Godley diz que Khan o desencorajava de contar sua infância
ou passado: tudo o que verdadeiramente importava, Khan garantia,
era o que ocorria entre eles dois. “Claro que isso o autorizava
a interferir, de forma ativa e como um juiz extraordinariamente
cruel, em todos os aspectos de minha vida diária”,
diz Godley. Khan ocasionalmente aparecia na casa de Godley, bêbado
e sem se fazer anunciar previamente, para atormentar sua enteada
(que estava em análise com Winnicott, o mentor de Khan) e
incomodar sua esposa.
Godley não me permite gravar nossa conversa e parece não
querer dizer mais do que já disse em seu artigo. Assim, quando
eu faço a pergunta que penso ser a mais óbvia –
Por que você simplesmente não deixou a análise
com Khan? – ele parece ficar desconcertado, como se perdesse
o “script” previamente ensaiado.
Seus olhos passeiam nervosamente pelo restaurante antes de se fixarem
no chão e ele falar lentamente, usando palavras que mais
tarde soube serem parafraseadas de um outro “script”
– uma discussão por e-mail que ele manteve com vários
psicanalistas. “Eu tinha sido nocauteado e fiz uma barganha
faustiana”, diz solenemente. “Em troca de minha servidão,
me foi dada a aparência incrivelmente convincente de ter uma
vida e sucesso mundano, na qual todos acreditavam. Estava condenada,
é claro. Tudo isso me deixou com um sentimento de vergonha
que demorou muito tempo para desaparecer...” – ele despista.
“Mas não pense que a questão mais importante
é porque eu fiquei, mas, em primeiro lugar, porque Khan foi
aceito pelo Instituto de Psicanálise?”.
Godley me fala de sua infância infeliz. Criado em meio a
grande riqueza por um pai distante e alcoólatra e por uma
mãe instável (de vez em quando, ela se exibia nua
em sua frente, descrevendo o “intenso prazer que sentia nas
relações sexuais”), desde sempre sentiu-se desprotegido.
Depois de Oxford, onde foi tutorado por Isaiah Berlin (de quem se
tornou amigo íntimo) e uma breve carreira como oboísta
em Paris, Godley começou uma carreira no Tesouro. Casou-se
com Elizabeth, a filha do escultor Jacob Epstein, que tinha sido
casada anteriormente com o pintor Lucian Freud (neto de Freud).
Apesar de sua carreira bem sucedida e de seu casamento, Godley era
atormentado pela depressão e por alucinações,
e procurou ajuda com o único analista do qual ouvira falar,
D. W. Winnicott, então presidente da Sociedade Psicanalítica
Britânica . Winnicott o encaminhou para Khan, que era –
fato desconhecido por Godley – tanto protegé como paciente
de Winnicott.
Por mais terrível que seja o relato de Godley, não
se deve pensar que Khan o odiava. Pelo contrário. “O
mais estranho é que Masud amava mesmo Goldley. Ele era um
de seus pacientes favoritos”, disse-me um analista. De fato,
Khan tanto podia ser generoso como sádico. Mesmo quando atormentava
Godley, o enchia de presentes: uma edição completa
da Encyclopaedia Britannica, uma litografia assinada de Léger,
dispendiosas primeiras edições de livros. Uma vez,
estando Godley resfriado, Khan mandou outro paciente (um médico)
até sua casa para examiná-lo. “Abri meus olhos
e vi um homem, que eu sabia ser paciente de Khan, curvando-se sobre
mim com um estetoscópio. Tentei não rir, mas achei
toda a situação absurda”, Godley recorda. (Godley
diz que a influência destrutiva de Khan foi posteriormente
“desfeita pela perícia de um analista norte-americano
cuidadoso, paciente e altruista”).
Logo depois da publicação do artigo de Godley, Donald
Campbell, então presidente da Sociedade, deu início
a uma ampla investigação, que incluía a avaliação
das atas de antigas reuniões do conselho e do comitê
[da Sociedade], além de entrevistas com membros antigos que
conheceram Khan. Convocou-se uma reunião fechada para discutir
o caso. Esta teve dois objetivos, disse-me Campbell. “Primeiro,
pensar como a Sociedade falhou em proteger os pacientes de Khan
e a própria psicanálise, e, segundo, focar nos itens
institucionais e no conluio inconsciente que se instalara então,
com o objetivo de salvaguardar a prática analítica
no futuro”, diz.
Quando o relatório confidencial foi distribuído para
os membros (mas não para o público), ficou claro que
o conluio da Sociedade tinha começado na própria formação
de Khan, em 1946. Apesar de não ter completado com sucesso
seu primeiro caso psicanalítico – um caso, mais ainda,
supervisionado pela própria Anna Freud – mesmo assim,
Khan foi oficialmente qualificado como analista, o que era uma flagrante
violação das regras da Sociedade. “Lendo as
atas [das sessões de avaliação de Khan] tem-se
a impressão que houve um certo aceleramento no seu processo
de formação”, o relatório confidencial
registra. Assim abençoado, Khan estava livre. Tornou-se analista
em 1950, com apenas 26 anos, fato pouco comum. Depois de ter sido
rejeitado três vezes “por razões não especificadas”,
o relatório continua, Khan se tornou analista didata em 1959.
Claramente, desde o início, algumas pessoas na Sociedade
duvidavam de Khan.
De acordo com a investigação, os membros da Sociedade
continuaram o conluio com Khan mesmo depois de ter tido um caso
extremamente público com uma candidata do Instituto que estava
em análise com ele. Quando o marido dela – que também
estava em formação no Instituto, mas não com
Khan – queixou-se ao presidente do Instituto, “não
lhe foi dado muito crédito de imediato, demorando um tanto
para que algo fosse feito”. (Khan mais tarde teve um caso
com uma mulher cujo marido ele mesmo tratava).
O relatório também encontrou uma variedade menos
grave de violações de limites na relação
analista-paciente. Khan jantava regularmente com o pai de uma de
suas pacientes mais famosas. Freqüentemente telefonava para
pacientes no meio da noite e ia para a casa deles, bêbado
e perturbado. “Não fui o único”, diz Godley.
“Khan era um serial killer”.
Alto (6 pés e 2 polegadas), de uma beleza escura e impecavelmente
vestido (alfaiates de Saville Row com um toque do Raj), Khan dificilmente
se enquadrava na imagem estereotipada do psiquiatra discreto. Dizia
ser um príncipe paquistanês e tinha uma placa dourada
na sua porta, onde se lia “Sua Alteza Real Masud Khan”.
Evitando o arborizado subúrbio de Hampstead, o preferido
dos analistas londrinos, vivia bem no centro da cidade, próximo
ao Harrolds, num elegante prédio de apartamentos em Hans
Crescent. Sir Michael Redgrave e família eram seus vizinhos.
O apartamento de Khan estava cheio de valiosa arte impressionista
e pós-impressionista, assim como uma boa coleção
de primeiras edições de romances contemporâneos
franceses e ingleses.
Em 1959, casou-se com a bailarina Svetlana Beriosova, através
de quem conheceu um largo círculo de celebridades. Rudolph
Nureyev, Julie Christie, Peter O’Toole, Mike Nichols, François
Truffaut, Princesa Margareth e Julie Andrews (Beriosova era madrinha
de sua filha) freqüentavam as festas de Khan, que circulava
entre seus convidados fazendo “análises instantâneas”
como uma espécie de jogo de salão, um hábito
que levou a seu amigo, o crítico literário Frank Kermode
apelidá-lo de “analista de circo”. (Posteriormente,
Kermode tornou-se amigo de Godley, quando estudavam em Cambridge,
e foi ele quem recomendou o artigo de Godley para o London Review
of Books).
Apesar de seu considerável charme, Khan poderia ser mal-educado
e desagradável. “Ele fazia coisas odiosas, como se
fosse um adolescente ou, pior ainda, um senhor feudal”, Kermode
me diz. Ele lembra uma tarde em que Khan provocou sua esposa, fazendo-a
chorar, enquanto os três jantavam tranqüilamente. Kermode
disse para Khan parar ou eles iriam embora. Quando Khan não
mudou seu comportamento, Kermode levantou-se para sair, no que foi
impedido por Khan, que se postou a sua frente, bloqueando-lhe a
passagem. “Quando me levantei, ele disse ‘Você
não pode sair a não ser que eu permita’. Eu
disse ‘Ah, posso sim. Vou subir em cima da mesa e acabar com
sua fina porcelana e seus cristais’”. Kermode já
estava com um dos pés em cima da mesa quando Khan, finalmente,
permitiu que saíssem. Noutra ocasião, Kermode era
um dos doze convidados para um jantar formal na casa de Khan. Quando
o primeiro prato foi servido, Khan entrou na sala de jantar, vestido
com uma capa preta e usando uma bengala, anunciou que tinha um compromisso
inadiável na embaixada paquistanesa e pediu que seus convidados
se retirassem.
As maneiras de Khan não eram melhores quando ele mantinha
seus compromissos. O diretor Mike Nichols, um amigo íntimo
nos anos 60, lembra um jantar no qual Khan observou que um homem
flertava com uma mulher sentada a seu lado na mesa. “O senhor
está perdendo o tempo! Está gastando sua cantada com
a pessoa errada!”, gritou Nichols, imitando o forte sotaque
paquistanês de Khan. “Não percebe que é
uma lésbica?”. Noutra ocasião, diz Nichols,
Khan enviou um bolo de chocolate para um homem obeso sentado numa
outra mesa do restaurante em que estavam, gritando-lhe enquanto
lhe entregaram o bolo: “Quem sabe, assim você morre
logo!”. Alguns suspeitam que as injúrias de Khan tinham
como objetivo exibir seus poderes de persuasão, tipo Svengali
[personagem de conhecida novela, um insuperável hipnotizador].
Certa vez, enquanto bebia champanhe com o analista francês
André Green, deliberadamente Khan deixou cair da mesa a garrafa,
que se espatifou no chão. Ele então se virou para
o homem que estava na mesa vizinha e exigiu um pedido de desculpas,
criando uma cena tamanha que o inocente comensal até mesmo
pagou-lhes uma nova garrafa.
Talvez a coisa mais marcante a respeito do comportamento de Khan
era que nunca encontrava oposição. Um dos motivos,
sugere Kermode, era a inteligência de Khan. Ele lembra uma
conferência de Lacan proferida no Institute Français,
nos anos 60, quando o analista francês estava no auge de sua
fama. “Estava muito chato e já durava três horas.
Finalmente, Masud levantou-se e foi até ao palco e o interrompeu
dizendo:“Não, você está explicando isso
de forma equivocada”. E aí, Khan passou a dar a sua
própria versão da teoria lacaniana, enquanto Lacan
o observava com admiração. “Era óbvio
que ele gostava de Masud”, disse-me Kermode.
Quando o ser brilhante não era o suficiente, Khan era hábil
em manipular sua posição de estrangeiro, sendo, como
era, um muçulmano alto, escuro e confrontador num mundo de
analistas pequenos, brancos e taciturnos.”Ele não parava
de tomar sutis providências para inferiorizar todos aqueles
ocidentais ‘superiores’”, escreve Judy Cooper,
paciente de Khan e sua primeira biógrafa. Godley sugere que
a personalidade dupla de Khan – o ameaçador e o carismático
– serviam simplesmente para explorar a reticência e
a reserva britânicas. Quando um oponente (ou analisando) não
temia desafiá-lo, ele o seduzia. Karl Menninger contava sempre
a história de uma palestra que Khan realizou em sua clínica,
depois da qual prometeu enviar para Meninger – um entusiasmado
cavaleiro – quatro garanhões árabes de seus
“estábulos reais” no Paquistão. Desnecessário
dizer que eles nunca apareceram. Anos mais tarde, ao ser confrontado
por um colega de Menninger, Khan não discutiu a promessa.
“Você não sabe?”, explicou. “Sempre
digo para as pessoas aquilo que elas querem ouvir”.
* * *
Como foi que a “ciência da mente” de Freud terminou
por gerar alguém como Khan? Como Khan prosperou nos mais
exclusivos ambientes do mundo psicanalítico? Uma explicação
que me foi dada por psicanalistas britânicos diz que o país
adotivo de Khan oferece solo fértil para a prática
iconoclástica dos iconoclásticos métodos freudianos.
“Numa terra de excêntricos, os psicanalistas e seus
pacientes eram tolerados como parte de um bando selvagem mas inofensivo
de excêntricos”, escreve Gregório Kohon na introdução
do The British School of Psychoanalysis, sua compilação
de artigos clássicos da tradição Independente.
Diferentemente da história da psicanálise na América,
onde os renegados fundaram bem-sucedidos institutos dedicados a
todas as variações concebíveis da análise,
a psicanálise britânica (ou psico-análise, como
dizem por lá) desenvolveu-se dentro do recinto de uma única
organização oficial: O Instituto de Psico-análise.
Apesar de existirem muitas “escolas” na Grã Bretanha
– freudiana, kleiniana, independente, anna-freudiana, teória
do vínculo (attachment theory) – todos eles coexistem
(desconfortavelmente, às vezes) no mesmo lugar.
E este lugar foi criação exclusiva de Ernest Jones.
Hoje em dia mais conhecido como o autor da biografia autorizada
de Freud, Jones já tinha estabelecido uma carreira de sucesso
como neurologista quando progressivamente frustrou-se com a inabilidade
da medicina em compreender as peculiaridades e patologias da mente.
Ele leu “Dora” de Freud em 1905 e o encontrou pessoalmente
em Salzburg, em 1908, no primeiro Congresso Psicanalítico,
onde Jones apresentava um trabalho, “Racionalização
na Vida Diária”, no qual cunhou o termo [racionalização].
Jones foi subseqüentemente analisado por Sandor Ferenczi (o
mais famoso violador de limites da psicanálise) entre 1911
e 1913, e, em 1919, estabeleceu a Sociedade Britânica de Psicanálise,
à qual presidiu até 1944.
Desde sua criação, estabeleceu-se na Sociedade uma
tensão entre aqueles que queriam manter o projeto de Freud
e aqueles que desejavam desenvolvê-lo. Os dois debates centrais
focalizavam a análise de crianças e o papel do “meio
ambiente” (environment) (algumas vezes chamado de “relações
de objeto” – object relations) – como oposto às
pulsões libidinais internas – no diagnóstico
e tratamento das doenças mentais.
Os seguidores britânicos de Freud sempre enfatizaram a aplicabilidade
da psicanálise para crianças. Essa ênfase se
aprofundou em 1926, quando Jones convidou Melanie Klein para imigrar
de Berlin para Londres. O primeiro artigo de Klein, “Notas
sobre a psicanálise de uma criança de cinco anos de
idade”, argumentava que as fantasias das crianças estavam
ligadas com seu desmame e treinamento esfincteriano. Klein argumentava
que o complexo de édipo emergia nos primeiros meses de vida,
ao contrário da afirmação de Freud, que datava
seu aparecimento entre 3 e 5 anos de idade. Seu desafio mais dramático
a Freud, embora que indireto, deu-se na abertura de um simpósio
sobre análise de criança, em 1927, quando fez vigorosa
crítica ao trabalho de Anna Freud, o “Introdução
às técnicas de análise de crianças”.
Muitos, Freud entre eles, se perguntaram se Klein estava rompendo
com a psicanálise – como Jung fizera anteriormente
– ou se simplesmente a ampliava.
A Segunda Guerra Mundial provocou um dilúvio de analistas
europeus em Londres, incluindo Freud em pessoa, que só conseguiu
escapar de Vienna depois que Jones, a Princesa Marie Bonaparte e
William Bullitt, embaixador americano na França (tanto ele
quanto Bonaparte tinham sido pacientes de Freud) negociaram sua
partida com os nazistas. Quando o grupo de Freud chegou a Londres,
em 6 de junho de 1938, eles estavam gratos mas também temerosos
de que as idéias de Klein já tivessem suplantado ali
as do próprio Freud.
Quando Freud morreu, em setembro de 1939, a luta entre seus “filhos”
se intensificou. Enquanto alguns veneravam Anna como uma brilhante
analista de crianças, outros suspeitavam que seu renome devia-se
ao nepotismo e se ressentiam de ter, ela mesmo, se dado o papel
de guardiã do legado do pai. E Anna, com razão, suspeitava
que muitos dos alunos de seu pai não gostavam dela. Mesmo
Jones, um amigo íntimo da família e seu salvador,
sugeriu, numa carta para Klein, que Anna era “um osso duro
de roer que, provavelmente, tinha ido tão longe na análise
quanto pôde e não tinha nenhuma originalidade pioneira”.
O debate Freud-Klein teve seu ápice durante as “Discussões
Controversas” de 1943-1944. No meio do ataque aéreo
de Londres, o establishment psicanalítico britânico
travava sua própria guerra particular. “Quando os perigos
da guerra fizeram muitas pessoas encontrar uma nova proximidade”,
observa delicadamente Eric Rayner em seu estudo The Independent
Mind in British Psychoanalysis, “o oposto acontecia entre
os psicanalistas de Londres”.
Essencialmente, o debate Freud-Klein focalizava a questão
do que se devia dar primazia na análise, ao “cuidado”
(caring) ou à “confrontação” (confrontation).
Anna Freud sustentava que o objetivo da análise de criança
era ajudar crianças doentes, uma meta que ela acreditava
implicar numa ligação positiva e de cuidados para
com a criança. Dado a limitada capacidade verbal da criança,
Anna Freud não acreditava que fosse possível o desenvolvimento
da clássica relação de transferência;
ela concebia a análise de criança como um processo
de “jogo”, o que ajudaria ao analista fazer várias
interpretações.
Em contraste, Klein equiparava o jogo da criança à
associação livre psicanalítica dos adultos
e o usava para trabalhar as primitivas fantasias agressivas da criança.
Klein argumentava que essa agressão era muito mais insidiosa
do que qualquer coisa que os freudianos pudessem imaginar. “Para
Freud, a criança era um selvagem egoísta”, observa
o historiador Peter Gay. “Para Klein, a criança é
um canibal assassino”. Mais ainda, Klein insistia em confrontar
os pacientes diretamente com o significado de suas fantasias agressivas
– uma técnica que desconsiderava a importância
do “cuidado” que Anna Freud considerava essencial para
o sucesso de uma análise.
Sabedora de que seu método de confrontação
se opunha fortemente às técnicas mais compassivas
da Sociedade, Klein disse para Jones que temia que seu “conceito
de depressão fosse demasiado doloroso e difícil para
muitas pessoas, tendo por isso o efeito de fazê-las regredir
para ‘posições’ anteriores mais seguras”.
Essa “posição mais segura” era precisamente
o território no qual se desenrolava a análise de Khan
conduzida por Winnicott. A ênfase estava em criar uma situação
segura, não tanto para a interpretação, mas
no intuito de fazer Khan experimentar uma relação
confiável com seu analista. Os difíceis sentimentos
que inquestionavelmente surgiram entre os dois homens – o
narcisismo de Khan, sua intimidação de Winnicott;
o paternalismo e a extrema dependência de Winnicott em relação
a Khan – teriam exigido uma relação analítica
mais confrontante e estruturada para resolvê-los.
* * *
No final das “Discussões Controversas” a ruptura
tinha se ampliado de tal forma que a Sociedade propôs um compromisso
que revela a quinta-essência do caráter britânico:
eles “concordariam em discordar” sobre a natureza e
a prática da teoria psicanalítica, estabelecendo apenas
a garantia de que as futuras gerações de analistas
fossem expostas a ambas perspectivas. A Sociedade foi então
dividida em três grupos: os professores do grupo “A”
procediam da Sociedade como um todo [kleinianos] e os professores
do grupo “B” provinham dos seguidores de Anna Freud.
Mais ainda, foi estabelecido que o supervisor do primeiro caso analítico
do candidato deveria pertencer a seu próprio grupo, mas o
supervisor de seu segundo caso deveria ser um analista que não
se identificasse com os kleinianos nem com os Anna-freudianos. Precisamente,
nessa “posição mais segura” uma região
inferior entre os freudianos e os kleinianos, entre compaixão
e confrontação, nasceu o Middle Group - Grupo do Meio
(atualmente chamado de Independent Group – Grupo Independente),
no qual se contavam, entre os mais proeminentes, Winnicott, Khan,
Margareth Little, Marion Milner, W.R.D. Fairbairn, Nina Coltart,
Michael Balint e John Bowlby.
Desde o início, o Middle Group estava mais preocupado com
as relações entre pessoas do que com suas pulsões
(drives) internas. Enquanto Freud e Klein tinham mapeado o tumultuado
mundo interno, os analistas do Middle Group, como Winnicott e Khan,
dirigiram seus insights e os usaram para entender as relações
interpessoais.
Winnicott colocou o meio ambiente (environment) – primariamente
a relação mãe-bebê – no centro
de seu trabalho. Para ele, a mãe tinha uma dupla responsabilidade:
primeiro, proteger a criança do meio ambiente; segundo, “sobreviver”
aos ataques de seu “canibal assassino”, a criança
kleiniana. Winnicott chamava esse processo protetor de “holding”
e estendeu seu uso na prática clínica com adultos.
No seu empenho de desenvolver um “espaço seguro de
proteção” (“holding”), ele freqüentemente
rompia com as formalidades clássicas da psicanálise,
atendendo telefonemas de pacientes durante as sessões e dando
longas consultas em horários inusitados. Com alguns pacientes,
Winnicott literalmente segurava suas mãos ou cabeças,
como alguém que embala uma criança aterrorizada. Para
os pacientes com mais problemas, como Khan, Winnicott acreditava
que um “meio seguro de proteção” (safe
holding environment) era tudo que uma análise poderia oferecer.
* * *
Nos anos 60, no auge da carreira de Khan, a Londres psicanalítica
parecia ser o centro do mundo. “A psicanálise estava
na vanguarda. Sua posição marginal a fazia parecer
especial. Não fazia parte do mundo universitário nem
do mundo médico. Tinha uma relação muito independente
com a cultura”, diz Dr. Peter Kramer, autor de Listening to
Prozac, que se analisou quando estudante em Cambridge. Peter Fonagy,
um emigrante húngaro, atual professor de psicanálise
no University College London, quando estudante achava esfuziante
o firmamento psicanalítico: “A universidade oferecia
uma série de conferências de analistas e mesmo os maiores
auditórios eram insuficientes para acolher a todos que queriam
ouví-las. Tinham que ser retransmitidas por televisão
para as salas contíguas. Richard Wollheim, Erik Erikson –
eram como estrelas de rock para nós”, me disse.
Como muitos émigrés, Gregorio Kohon foi trazido para
a Londres dos anos 60 atraído por sua abertura a novas experiências.
Depois de se qualificar como psicólogo clínico na
Argentina, veio para a Inglaterra para estudar com R. D. Laing,
o líder do movimento ‘anti-psiquiatriátrico’
que tinha tentado, como foi largamente difundido, sintetizar o marxismo
com o freudismo em sua “Conferência da Dialética
da Libertação” , de 1967, que conseguiu juntar
o heterogêneo trio formado por Herbert Marcuse, Allen Ginsberg
e Stokely Carmichael.
Durante o dia, os estudantes de Laing discutiam os Quatro Quartetos
de T. S. Elliot, os místicos cristãos, Sartre e textos
budistas. À noite, viviam em comunas improvisadas, casas
abandonadas que haviam ocupado e reformado. Kohon dividia sua casa
com cinco companheiros; dois outros estudantes de Laing e três
pacientes que sofriam de variados graus de esquizofrenia e psicose.
“Era uma situação de vida institucional muito
pouco estruturada. A idéia era criar um espaço para
a psicanálise no qual os pacientes não se sentissem
perseguidos. Nós estávamos tratando deles e os treinando
através da participação em suas vidas”,
diz ele. Todos dividiam as tarefas domésticas. Um dos companheiros
de Kohon era obsessivo-compulsivo e começava a cozinhar às
10 da manhã, ficava tão absorvido com as receitas
que lá pelas 10 da noite a refeição ainda não
estava pronta. Outro companheiro só comia grãos crus;
quando era seu turno na cozinha, Kohon se resignava a comer arroz
e feijão crus.
Como Laing, Khan era tido como um revolucionário. Como clínico,
Khan era conhecido por aceitar os casos “difíceis”,
os pacientes cujos analistas anteriores deles tinham desistido.
Ele usava métodos nada ortodoxos, rompendo com a moldura
analítica ao chocar o paciente, algumas vezes de forma violenta.
Era um “vale tudo” com o intuito de estabelecer uma
relação “real”, “verdadeira”.
Khan era um professor igualmente iconoclasta. “Ele abusava
de sua posição, mas foi também um dos professores
mais talentosos que já tive”, diz Kohon. “Ele
chegava num seminário, apontava para um estudante e dizia,
“Andei ouvindo bastante a seu respeito!”. E o que ele
tinha ouvido era obviamente no divã! Ora, se você é
um estudante e um professor diz isso sobre você, você
não ousa sequer abrir a boca”.
Mesmo controvertidas, as técnicas de Khan não se
afastavam muito da cultura experimental dos anos 60, de pessoas
como Laing e mesmo da pouco rígida Independent School de
analistas. Quando apareceram as idéias de Winnicott sobre
a importância da relação analítica, alguns
analistas passaram a fazer experiências com seu lado da relação.
O analista estereotipadamente passivo estava fora de moda. Em seu
artigo seminal “Slouching towards Bethlehem... or Thinking
the Unthinkable in Psychoanalysis”, Nina Coltart descreve
um paciente que se mantinha silencioso dia após dia até
que Coltart , tomada pela raiva, deu-lhe uns gritos.”Simples
e repentinamente fiquei furiosa e dei-lhe uma reprimenda por seu
prolongado ataque mortífero dirigido a mim e à análise”.
“Às vezes ouve-se dizer que o Independent Group não
é um “middle group” (grupo do meio) e sim um
“muddled group” (grupo confuso). Há alguma verdade
nisso”, escreve Gregorio Kohon. Mesmo quando os analistas
da tradição independente se orgulham de suas habilidades
clínicas, eles confessam que são freqüentemente
menos rigorosos do ponto de vista teórico do que, por exemplo,
os kleinianos. Essa flexibilidade, argumentam, lhes permite ficar
mais alertas, mais disponíveis para seus pacientes. Consideram
a habilidade que o analista independente tem para ouvir, para abrir-se
frente a experiência de seu paciente como uma característica
que os coloca distante (e freqüentemente acima) dos analistas
de outras escolas. Sem os impedimentos de uma teoria rígida,
são considerados os rebeldes da psicanálise. “A
aversão pela construção de sistemas, um traço
característico do empirismo, pode provocar negligência
em relação a uma teoria coerente, que, na melhor das
hipóteses, fortalece a prática de uma técnica
difícil em face da adversidade”, escreve Eric Rayner
em seu estudo sobre o grupo.
Kohon opina mais diretamente. “O que outras pessoas vêem
como o defeito dos independentes, na verdade é sua virtude.
O que eles têm para oferecer é, antes de tudo mas não
só, uma posição profissional, uma atitude profissional.
Isso é o que permite a distancia necessária entre
o analista e o paciente”, escreve ele.
Mas o que acontece quando um analista falha na manutenção
da “atitude profissional”, falha em respeitar a distância
entre analista e paciente, como aconteceu com Khan ? É um
acidente, se o próprio arcabouço teórico que
ajuda qualquer analista a manter distância com seu paciente
não existia na escola que formou e tratou Khan?
“Se você não tem uma boa teoria do processo
interacional, você está perdido”, diz Peter Fonagy.
“Isso não quer dizer que você tem de ter a teoria
‘certa’, mas você precisa de uma boa e firme teoria
para se apoiar. Sem ela, o encontro interpessoal com o paciente
é tão poderoso que pode simplesmente anular você.
O problema com os Independentes é que eles ficaram tão
interessados no aspecto ‘experiência’ da análise
que esqueceram os mecanismos psicológicos. Eles não
tinham idéia do que estava acontecendo e alguns se perderam
totalmente”.
Ser “anulado” pelo poder da relação analítica
tem sido um dos riscos da psicanálise desde seus primórdios.
O primeiro colaborador de Freud, Joseph Breuer, fugiu de Anna O.
quando ela despertou desejos eróticos nele. Em “O Futuro
da Psicanálise”, Freud denominou essa experiência
como “contratransferência”- o processo no qual
as emoções, positivas ou negativas, de um analista
são despertadas por seu paciente – e a diagnosticou
como uma neurose que o analista tem de superar para conseguir trabalhar
adequadamente.
Desde Freud, tem havido três principais formas de lidar com
a contratransferência, explica Robert Young, um analista texano
residente em Londres, professor de Cambridge e ex-editor da Free
Association Books. Ele resume a história da contratransferência
para mim, citando inúmeros artigos que escreveu sobre o assunto.
“Um analista pode se livrar de sua contratranferência
através da análise e se concentrar na transferência
do paciente. Ele pode tentar explorá-la [a contratransferência]
de forma controlada, da maneira como Freud advogava o uso do inconsciente
do terapeuta como um instrumento para captar o inconsciente do paciente.
Ou ele pode, mais ou menos, simplesmente “deixar rolar”,
e tratar essa comunicação de inconsciente para inconsciente
como a única comunicação autêntica entre
analista e paciente”, diz ele.
Uma das técnicas clínicas das quais os Independentes
mais se orgulham é o uso da contratransferência. “Dada
a ênfase nesta inter-relação entre paciente
e analista, a contratransferência tem-se desenvolvido como
a fonte dos mais importantes indicadores para a formulação
das interpretações transferenciais”, escreve
Kohon. A noção de que os analistas deveriam “deixar
rolar”, que eles deveriam se basear em suas respostas contratransferenciais
ao paciente para fazer suas intervenções importantes
– talvez até mesmo as mais importantes – estava
em voga durante a formação de Khan. Para os Independentes,
a contratransferência deixara de ser patológica, passando
a ser normal, até mesmo essencial. Em mãos erradas,
o perigo de se apoiar na contratransferência é claro.
“Basear todas as interpretações nos sentimentos
contratransferenciais nega o que o paciente tem para dizer”,
avisa Kohon.
* * *
Mohammed Masud Raza Khan nasceu em 1924, na área do Punjab
da Índia (atual Paquistão). Sua mãe era uma
encantadora dançarina de 17 anos quando seu pai, um rico
proprietário de terras de 76 anos, a tomou como sua quarta
esposa. Khan nunca se recuperou das circunstâncias ignominiosas
de seu nascimento e alguns sugerem que seu trabalho teórico,
que enfatiza o dano decorrente da indiferença materna, estava
solidamente enraizado em sua biografia. Khan estava desesperado
quando iniciou sua análise em 1946, seu pai e sua irmã
tinham falecido havia pouco. Sua análise didática
começou com Ella Sharpe. Khan foi um aluno precoce e bem
dotado intelectualmente - ele afirmava ter escrito uma premiada
tese de mestrado sobre “Ulysses” – e devorava
números antigos do The International Journal of Psycho-Analysis
enquanto ia e voltava de suas sessões com seu segundo analista.
Quando Sharpe morreu após ter tratado Khan por apenas um
ano, ele procurou o Dr. John Rickman, que tinha – por sua
vez – feito duas análises, uma com Freud em Viena e
outra com Klein em Londres. Novamente a análise de Khan foi
interrompida quando Rickman morrreu em 1951, após o que ele
iniciou imediatamente uma análise com Winnicott.
Especulações sobre a análise de 15 anos que
Khan fez com Winnicott transformou-se numa mini-indústria,
estudada por aqueles que procuram tanto as raízes da auto-destruição
de Khan como as falhas da psicanálise. A relação
dos dois foi complexa, alternando indulgência filial com rivalidade
juvenil. Winnicott, o teorizador-maior da infância, não
fora capaz de ter filhos com nenhuma de suas duas mulheres ( a primeira
delas era psicótica) e ansiava por um. Khan, por sua vez,
se envergonhava de sua mãe e chorava a morte do pai, sem
mencionar a morte de seus dois analistas anteriores. Ao iniciar
sua análise com Winnicott, Khan estava tão traumatizado
com as perdas de Sharpe e Rickman que quando Winnicott (que já
tinha sofrido vários ataques cardíacos) ocasionalmente
cochilava durante a sessão de Khan, este imediatamente pulava
do divã, olhando ansiosamente para trás, procurando
se certificar que seu terceiro analista não tinha morrido.
Para complicar mais ainda as coisas, Winnicott analisava também
sua primeira e segunda esposas. Durante um período, Khan
achou que Beriosova (sua segunda mulher) precisava de Winnicott
mais do que ele e “emprestou” sua sessão para
ela.
Na maior parte dos quinze anos de sua análise, Khan foi
o secretário de facto de Winnicott (homem rico e independente,
Winnicott tinha ainda um secretário pago, de tempo integral),
realizando várias tarefas editoriais para seus muitos livros
e artigos. A primeira evidência definitiva da mútua
colaboração foi uma resenha que escreveram conjuntamente,
durante o segundo ano da análise de Khan, sobre o artigo
de Ronald Fairbairn, Psychoanalytic Studies of the Personality publicada
no The International Journal of Psycho-Analysis. Enquanto Winnicott
era um intelectual desinteressado e confessava saber pouco sobre
Freud, Khan tinha um conhecimento enciclopédico da literatura.
Cinco vezes por semana, Khan se deitaria no divã de Winnicott
para se analisar; grande parte das tardes passaria no escritório
de Winnicott para trabalhar com seus escritos. Entre escritor e
editor, a relação foi extremamente produtiva; entre
analista e paciente foi um lamentável fracasso .
Porque fracassou tem sido objeto de caloroso debate. Alguns sugeriram
que Winnicott logo se apercebeu que o narcisismo de Khan o deixava
essencialmente inanalisável. Seguindo sua própria
teoria, Winnicott poderia ter concluído que tudo o que restava
para Khan era um prolongado tratamento de “holding”.
Mas esse pode ter sido o pior tratamento possível. Dr. Glen
Gabbard, um perito na questão da violação dos
limites entre analista e paciente em psicanálise, sugere
que Winnicott errou em não confrontar diretamente Khan. “Se
existe algo na tradição winnicottiana que induz a
violação dos limites, é sua relutância
em lidar com a agressão do paciente. Um tema comum nas violações
dos limites que estudei é a negação da agressão,
tanto no analista como no paciente. O analista tenta, essencialmente,
amar o paciente visando sua cura, sem reconhecer que o amor excessivo
do analista pelo paciente é, freqüentemente, uma defesa
contra seu ódio e isso pode minar o tratamento”, disse-me
ele.
Donald Campbell, que até recentemente foi o presidente da
Sociedade, acredita que houve boas razões para os analistas
de Khan terem alimentado uma hostilidade complexa contra ele. Campbell
foi aluno de Khan e lembra como o carismático paquistanês
ridicularizava e agredia seus alunos. “Qualquer um podia ver
o quanto Winnicott ficava intimidado por Khan, a quem considerava
uma espécie de biógrafo, intérprete e apologista
de sua causa. A sedução e o sadismo tinham papel importante
no repertório de Khan quanto ao relacionamento com as pessoas.
Não me surpreenderia se Winnicott também tivesse ficado
atingido”, me disse.
Indiscutivelmente, a dependência intelectual de Winnicott
em relação a seu paciente comprometeu a análise
de Khan. Brett Kahr, um psicoterapeuta que está escrevendo
uma biografia de Winnicott, o acusa de colocar suas necessidades
acima das de Khan. “Ele se aproveitou do brilho de Khan, de
sua disponibilidade e vulnerabilidade, tratando-o muito mais como
um secretário voluntário do que como paciente”,
diz ele. “Como Khan poderia acreditar que Winnicott se interessava
mais por ele como pessoa do que como um mero ajudante administrativo?”.
Claramente a relação entre eles sufocou a criatividade
de Khan. Foi somente após a morte de Winnicott, em 1971,
que Khan publicou seus próprios quatro livros.
A conclusão mais significativa de Kahr é que a relação
doentia dos dois não foi uma exceção, uma anomalia,
mas, na verdade, tem sido bastante comum na história da psicanálise.
Ele chama de “neurose secretarial” o processo pelo qual
pacientes e discípulos são transformados em secretários.
“O próprio analista de Winnicott, James Strachey, o
convenceu a ajudá-lo na preparação da The Standard
Edition, assim como o analista do próprio Strachey, Sigmund
Freud, pediu a ele [Strachey] que lhe fizesse extensivos trabalhos
de tradutor. O mestre de Freud, Jean-Martin Charcot, tinha anteriormente
se aproveitado de sua posição para fazê-lo [a
Freud] traduzir para o alemão seus escritos neurológicos”,
escreve.
Longe de ser uma exceção, Kahr argumenta que Khan
fazia parte de uma efetiva e longa contra-tradição
em psicanálise: uma corporação na qual as violações
de limites entre paciente e analista são a regra, não
a exceção, onde o desejo do paciente de ter uma relação
real com seu analista é realizado, ao invés de ser
dissipado através da análise. Esses analistas foram
ensinados a manter uma rígida “moldura analítica”
com seus pacientes, mas suas próprias experiências
de análise contradiziam esse ensino. A intimidade e o amor
que Khan experimentou em sua análise com Winnicott devem
ter adquirido uma forma significativamente diferente quando tentou
aplicar essas lições com Godley, esse outro rico e
aristocrático inglês com o qual se deparava em sua
vida.
A queda de Khan na loucura foi acelerada quando sua mãe
e Winnicott morreram, com apenas dois meses de distância,
em 1971. Beriosova o deixou poucos meses depois. Ele tinha acabado
de receber as cópias do último livro de Winnicott,
Playing and reality, quando soube da morte de seu mentor. “Eu
usufrui uma infância protegida com ele”, Khan escreveu
numa carta para um amigo, o analista Robert Stoller, quando Winnicott
morreu. “Agora tenho de juntar meus padaços e me tornar
um adulto”. Khan tinha então 47 anos.
O golpe final veio quando o testamento foi aberto e Khan soube
que Winnicott escolhera a esposa, e não a ele, como seu executor
literário. Depois de anos de desprendido serviço editorial,
Khan sentiu-se cruelmente excluído. Seu hábito etilista,
já bem forte, intensificou-se. Envolveu-se sexualmente com
várias de suas pacientes e foi visto agredindo fisicamente
uma namorada em público. Khan até mesmo voltou-se
contra seu mentor. Numa conferência sobre o trabalho de Winnicott,
Khan anunciou para a atônita platéia de analistas que
Winnicott era sexualmente impotente.
O comportamente de Khan tornou-se ainda mais aberrante. Numa conferência
em Geneva, escapou de uma das mesas e roubou um caro relógio
de uma loja, passando a noite na cadeia até que um de seus
colegas pagou-lhe a fiança. Intensificaram-se suas condutas
sádicas e erotizadas com os demais. Quando a analista Susie
Orbach (famosa como terapeuta da Princesa Diana) e um colega encontraram
Khan dentro das atividades da formação, ele os recebeu
sentado numa cadeira que parecia um trono e passou a fazer mexericos
sobre os hábitos sexuais de seus pacientes. “Num determinado
momento, ele nos mostrou uma espada que dizia ter usado para matar
o cachorro que um paciente tinha trazido para a sessão. Vi
então que estava na presença de alguém seriamente
comprometido”, diz ela. Quando saíam, Khan lhes presenteou
com um livro do Marquês de Sade. O comportamento de Khan durante
esses anos, diz o diretor Mike Nichols, o fazia lembrar da maneira
como seu amigo, o romancista Jerzi Kozinski, agia antes de cometer
suicídio. “Havia algo de descomedido e desesperado”,
diz Nichols. “Masud tornou-se um pirado indescritível,
um pesadelo. Ele destruiu inteiramente Svetlana”.
Em 1976, Khan foi diagnosticado com um câncer e teve parte
do pulmão removido. Naquele mesmo ano, Beriosova pediu o
divórcio. Em 1977 a Sociedade retirou suas funções
didáticas, mas não sua licença para analisar
pessoas comuns. Os analistas do futuro estavam a salvo de Khan,
mas não os “civis”, os pacientes leigos. Em 1987,
o câncer atingiu sua laringe e parte de sua traquéia
foi extirpada. Ele ficou agorafóbico e raramente saia de
seu apartamento.
Mesmo assim, ele continuou a escrever e, em 1988, publicou The
Long Wait. Dizia-se que o livro continha várias passagens
ofensivas e, quando veio à luz, o comitê de ética
da Sociedade imediatamente comprou vinte e cinco exemplares.
Não ficaram desapontados. O estudo de caso central do livro,
“A Dismaying Homosexual”, relatava o tratamento que
Khan fizera com “Mr. Luis”, um judeu suicida gay. Os
impropérios de Khan culminavam com uma fala particularmente
revoltante: “Sim, sou anti-semita. Você sabe porque,
Mr. Luis? Por que sou ariano e tinha pensado que vocês todos
judeus tinham desaparecido quando Jesus, de absoluto pavor –
e ele era um de vocês – fugiu para o paraíso,
deixando vocês aos tórridos cuidados de Hitler, Himmler
e dos crematórios”.
Khan estava doente demais para ir até a Sociedade e foi
“abatido” in absentia. Decidido a ter última
palavra, pediu demissão antes de receber o aviso oficial
de sua expulsão. Imediatamente, a Sociedade passou a receber
ameaças “anônimas” de bombas que só
poderiam ter partido de Khan. Apesar de estar naquele momento agorafóbico,
alcoólatra, destruído pelo câncer, confinado
em seu leito, Khan aterrorizava de tal forma a Sociedade que o presidente
contratou um segurança. “Era exatamente esse o tipo
de terrorismo que Khan podia incutir na mente de alguém”,
lembra Kohon.
O homem que o analista Charles Rycroft chamou de “o arcanjo
injuriado” morreu em 7 de junho de 1989. Khan foi desafiador
até o fim. Em The Long Wait ele conta de um paciente impetuoso
que o confrontou com o fato de ter a sociedade retirado suas funções
didáticas, antes de expulsá-lo. “Não
dou a mínima para isso”, respondeu. “Sou procurado
por pacientes do mundo todo. E mesmo que não fosse, poderia
voltar para minhas propriedades ancestrais no Paquistão,
não se engane com isso!”.
* * *
O que aconteceu com Masud Khan? Algumas respostas podem estar em
seus escritos pessoais, que estão inacessíveis pelo
menos até o ano de 2039. Mas aqueles que os viram avisam
que eles talvez tragam mais perguntas que respostas. “Ele
tinha três níveis de diários, alguns deles escritos
em código. Assim, não fica claro como eles se relacionam
entre si, quais deles são reais, quais são meras fantasias”,
diz Judy Cooper, paciente de Khan e primeira biógrafa.
Linda Hopkins, a segunda biógrafa de Khan, acredita que
ele sofria de um transtorno bipolar não diagnosticado, apesar
de suspeitar que sua criação e sua análise
também o afetaram. Argumenta que Khan não era nem
uma anomalia nem o resultado de um fatal erro teórico da
psicanálise britânica. Mais ainda, ela afirma que Khan
foi um verdadeiro paradoxo: clínico e teórico brilhante
que ajudou alguns pacientes e torturou outros; um homem que inspirou
o amor e a admiração de analistas como Adam Phillips
e Christopher Bollas, despertando medo e aversão em outros.
“Analistas com inclinação filosófica
falam o tempo todo sobre ‘paradoxo’, mas quando confrontados
com alguém como Khan, que era um verdadeiro paradoxo, não
sabem o que fazer com ele”, diz ela.
Um dia, lendo sobre Khan, tropecei com uma carta de seu amigo Robert
Stoller, que sugeria a possibilidade de um último paradoxo:
Khan poderia, na verdade, ter inventado os estudos de caso que escreveu
em The Long Wait – os mesmos casos que registram o comportamento,
como em “A Dismaying Homosexual”, pelo qual foi expulso
da Sociedade que ele tanto amava.
Numa carta escrita imediatamente após a morte de Khan, Stoller
escreveu: “qualquer obituário [que eu pudesse vir a
escrever] seria inaceitável. Eu teria me expressado ruidosamente,
em minha raiva com as mentiras de Masud... sua total falsificação
do material clínico em seu último livro”.
Começo a imaginar. Seria mesmo Khan capaz de um comportamento
tão bizarro e auto-destrutivo? Ser atingido por um petardo
que não era efetivamente um petardo, mas um pseudo-petardo,
que ele mesmo montara e então convencera seus inimigos a
usá-lo contra ele mesmo?
Quando experimento essa teoria expondo-a para Cooper, ela me encaminha
para algumas linhas do primeiro capítulo de seu livro. “Khan
parecia viver naquele ‘espaço transicional’ entre
a experiência interna e a externa, que ele compreendia tão
bem. Poderia ser dito que ele vivia na interface entre fato e ficção,
verdade e metáfora, realidade e fantasia”. Outros acham
que esse era exatamente o tipo de final paradoxal que Khan teria
amado; que ele teria apreciado seu puro absurdo.
* * *
Na medida em que meu almoço com Wynne Godley se encaminhava
para o fim, expliquei minha teoria da auto-sabotagem de Khan e perguntei-lhe
se acreditava que Khan fora vítima de sua própria
extrema perturbação... se ele, por fim, foi incapaz
de salvar-se de si mesmo.
Como resposta, ele me explicou o título, “Saving Masud
Khan”, que dera ao artigo publicado na London Review of Books.
“Khan estava sempre dizendo a seus pacientes que tinha “salvo
nossas vidas”. Ele dizia que ninguém mais poderia tê-lo
feito e que deveríamos ser-lhe grato. E, é claro,
acreditávamos nele”, ele diz. “Não sei
muito de psicanálise, mas acho que Winnicott tinha uma teoria
de que um bebê que não é bem cuidado sente que
tem de salvar sua mãe. Que a desorganização
de seu meio é uma indicação não de que
ele esteja em dificuldades, mas que ela [a mãe] está”,
ele explica.
“Mas você e os outros pacientes de Khan não
foram capazes de salvá-lo, não é mesmo?”,
perguntei. “Bem”, disse Godley, sorrindo hoje pela primeira
vez, “certamente não foi por falta de tentativas”.
*****
Artigo publicado originalmente em Boston Review, dezembro 2002
– Janeiro 2003
Traduzido, com autorização do autor, por Sérgio
Telles
< voltar
|
|