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Transcrição / Boston Review / Pulsional

Nota do editor – A tradução autorizada deste artigo de Robert S. Boynton pelo psicanalista Sergio Telles, que também faz a apresentação dele, foi publicada originalmente na revista “Pulsional”, número 174 (outubro de 2003). Agradecemos ao editor, psicanalista Manoel Tosta Berlinck, a gentileza de permitir sua transcrição. E a Sergio Telles, a pronta colaboração com nossa iniciativa de colocar este relevante assunto à disposição dos leitores de “Gradiva”.

O retorno do reprimido - O estranho caso de Masud Khan

APRESENTAÇÃO
Sérgio Telles

Por que traduzir o artigo de Robert Boynton, que expõe a loucura de dois grandes psicanalistas e inexplicáveis conluios escusos que estabeleceram, naquela ocasião, a perversão institucional no sacrossanto seio da International Psycho-analytic Association?

Seria pelo prazer regressivo de satisfazer o infantil ódio edipiano, assassinando reverenciadas figuras parentais do mundo psicanalítico e denegrindo suas intituições?

Pelo contrário. A tradução se justifica por seu aspecto “sanitário”, no que esta palavra implica de cuidados adultos e responsáveis referentes à saúde e à higiene, à limpeza. E do que se faz a higiene ao publicar-se um artigo como esse? Da insidiosa e recorrente idealização, um mal que nos atinge a todos e contra o qual precisamos periodicamente nos vacinar.

Na solidão e desamparo de nosso ofício, somos permanentente tentados a procurar profetas e textos sagrados, nos quais somos levados a acreditar de modo religioso, como se fossem as revelações das verdades definitivas. Tudo que possibilite a análise e a desconstrução dessa atitude deve ser empreendido, visando seus efeitos terapêuticos e salutares, quer seja no plano pessoal como institucional.

A via regia para isso é a divulgação da história da psicanálise e da instituição. Refiro-me, evidentemente, não à história “oficial”, fruto de repressões e negações impostas pelas lutas de poder institucional. É justamente a desconstrução e análise da história “oficial” o que permite a recuperação do reprimido, do negado e do dissociado. Isso coloca numa correta perspectiva e enquadre o movimento psicanalítico e o aparecimento das diversas linhas teóricas, que ficam mais compreensíveis dentro de sua moldura histórica.

O saboroso texto de história psicanalítica que apresentamos tem ainda a vantagem de ser escrito por um arguto observador estranho ao nosso meio, o que o deixa desembaraçado das teias transferenciais e contratransferencias que tanto alimentam nossos conluios institucionais. Embora centrado na relação Winnicott-Khan dentro do ambiente analítico dos anos 60 em Londres, o texto levanta problemas que continuam extremamente atuais, proporcionando matéria para reflexões, quer seja do ponto de vista teórico-técnico, quer seja do ponto da política institucional

Seu autor, Robert Boynton, é professor de Jornalismo na “New York University” e exerce, com grande brilho, a função de crítico cultural, escrevendo nas mais prestigiadas publicações norte-americanas, como a “The New Yorker” e “Atlantic Monthly”. Pode ser encontrado no site www.robertboynton.com

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Robert S. Boynton

Em fevereiro de 2001, o mundo psicanalítico foi abalado por um artigo, publicado no London Review of Books, escrito por Wynne Godley, professor visitante do Levi Economics Institute do Bard College, professor emérito de economia aplicada na Cambridge University e ex-membro do Her Majesty Treasury Panel of Independent Forecasters (os assim chamados “Six Wise Men” – Os Seis Sábios). “Saving Masud Khan” conta a história da longa psicanálise de Godley com Mohammed Masud Raza Khan, o carismático anglo-paquistanês que – como foi recentemente revelado – abusava e dormia com muitas de suas pacientes. No dizer de Godley, ele teria sido essencialmente torturado por Khan do começo ao fim. Foi “uma longa e estéril batalha que culminou numa espiral de degradação”.

“Minutos depois de nosso primeiro encontro, a relação terapêutica tinha sido totalmente subvertida”, escreve. Em sessões posteriores, Khan violou todos os limites concebíveis na relação entre analista e paciente. Atacava Godley com tiradas verbais (“E pensar que são vocês que comandam o mundo!”). Bisbilhotava abertamente sobre sua própria convivência social com celebridades (Rudolf Nureyev, Julie Christie, Peter O’Toole, Mike Nichols) e seus outros pacientes, chegando a ponto de arranjar uma ligação entre Godley (que era bem casado) e uma paciente (Khan disse que eles eram “feitos um para o outro”). Eles três – um analista e dois de seus pacientes – até mesmo jogavam poker juntos (Khan trapaciava). Em circunstâncias menos agradáveis, Godley presenciou uma bebedeira de Khan e sua mulher - Svetlana Beriosova, a bela prima ballerina do Royal Ballet – que terminou numa briga, na qual ela o atingiu com um chute nos testículos, desmaiando em seguida no hall principal.

O artigo foi devastador porque Khan fora um dos melhores e mais brilhantes psicanalistas – um analista didata (senior training analist), diretor do Sigmund Freud Copyrights, um protegido de Anna Freud e o colaborador de longa data do mais famoso analista de crianças do século XX, D. W. Winnicott (Khan editava e, alguns especulam, pode ter tido co-autoria em muito da volumosa produção de artigos e livros de seu mentor). Com esse impecável pedigree, ele era o elo de ligação entre a lendária primeira geração e algum dos mais importantes analistas da atualidade. De fato, Anna Freud insistia que Khan compreendia o trabalho de seu pai melhor do que ninguém (além dela mesmo, é claro), e o defendia sempre que ele provocava a ira da Sociedade.

A reação profissional às revelações de Godley foi rápida e defensiva. Mesmo não sendo nenhum segredo que violações igualmente sérias dos limites profissionais entre analista e paciente infestam a análise atualmente, ainda assim mantém-se o agravante, nesse caso, de que muitos dos contemporâneos de Khan – incluindo o venerável Winnicott – sabiam de suas infrações no momento em que eram cometidas e nada fizeram. “Isso é como uma volta aos dias de Freud e dos primeiros pioneiros da psicanálise. Tudo está sendo criticado e reavaliado aqui, tudo está sendo questionado”, diz Gregório Kohon, um animado emigré argentino e senior member do London’s Institute of Psycho-Analysis, que estudou com Khan no início dos anos 70. “Toda família tem segredos. E o que estamos presenciando na “família” da psicanálise é nada menos que o ‘retorno do reprimido’”. Kohon sugere que a atual purgacão da tradição pode ser o primeiro passo do retorno à premissa original da psicanálise.

Entre 1895 e 1905, a procura de Freud para a cura das paralisantes “desordens nervosas” desdobrou-se numa “ciência da mente” plenamente desenvolvida. De acordo com sua teoria inicial, lembranças e sentimentos dolorosos eram reprimidos no inconsciente e se expressavam nos sintomas físicos dos pacientes. Depois de tentar a hipnose e outras formas de sugestão, Freud descobriu que o paciente poderia se aliviar de seus próprios problemas através da associação livre, pela qual essas lembranças vinham à tona. Mas Freud notou que, no correr desse processo, o paciente dirigia (ou “transferia”) intensas emoções, ligadas às pessoas de seu passado, para o analista.

A descoberta da transferência realizada por Freud ( assim como da “contratransferência” – as emoções deslocadas de seu passado que o analista impõe ao paciente) foi o centro de sua teoria da psicanálise. Cuidadosamente manipulada, a transferência era a chave para o potencial curativo da psicanálise, mas somente se os estritos limites profissionais entre paciente e analista fossem respeitados. Em “Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise” (1912), Freud descreveu os limites necessários para evitar a confusão que o manejo equivocado da transferência poderia instalar na relação analítica. O analista deve ouvir as associações livres do paciente num estado de atenção flutuante; deve manter-se neutro e resistir à tentação de influenciar ou melhorar o paciente. O objetivo da psicanálise era proporcionar ao analista o uso de “seu próprio inconsciente como um órgão de recepção das transmissões inconscientes do paciente”, Freud escreveu. Manejada inadequadamente, analista e paciente podem re-atuar, mais do que analisar, as tumultuadas relações que cada um teve com as figuras importantes de seus próprios passados. Os perigos inerentes à relação psicanalítica nunca foram negados.

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Apesar de algumas vezes parecer que a psicanálise está permanentemente em estado de crise, mesmo os observadores mais calejados acreditam que o caso Khan-Godley acontece num momento delicado de sua história. Hoje praticamente todos os conceitos freudianos – transferência, contratransferência, repressão, complexo de édipo – estão sob escrutínio. As críticas cumulativas de autores como Frederick Crews, Adolph Grunbaum, Frank Sulloway e Peter Swales tem forçado os defensores da psicanálise a reconsiderarem suas bases científicas, assim como a história oficial de sua fundação e de seu desenvolvimento. Os intérpretes mais sofisticados da psicanálise conhecem esses problemas, apropriaram-se dos argumentos dos críticos e tentam seguir em frente. Pesquisas nas neurociências confirmam muitas das idéias de Freud sobre o inconsciente. Críticos culturais beneficiam-se das investigações filosóficas de Freud. Quer os “novos” psicanalistas se considerem filósofos, cientistas ou críticos culturais, eles concordam que esse é um momento especialmente fértil para rever o legado freudiano. As questões no coração da psicanálise – sua promessa de iluminar o porque fazemos as coisas que fazemos, porque temos dificuldades em fazer o que queremos fazer e porque sofremos – continuam a instigar.

O debate teórico tem tido implicações na prática da psicanálise e o escândalo em torno de Khan fez reaparecer antigas e explosivas questões.O objetivo da análise é “curar” ou meramente confortar? Os analistas deveriam manter uma distância clínica e profissional, respeitando os “limites” entre eles e seus pacientes (como os analistas clássicos insistem)? Ou deveriam lutar para estabelecer uma assim chamada “relação real”, ignorando os “limites” com o objetivo de curar o paciente? E, mais especificamente, muitos estão questionando se o comportamento de Khan foi tão anômalo ou se certas idéias no seio da própria tradição [psicanalítica] britânica inadvertidamente encorajam tais flagrantes violações de limites. Teria a própria tradição que formou Khan como analista falhado em ajudá-lo como paciente? Dever-se-ia culpar o excelso Winnicott? Khan – que atormentou a tantos – teria sido, ele mesmo, uma vítima?

Fiquei estupefato quando li o artigo de Godley. Apesar de ser cético a respeito das bases científicas e da eficácia da psicanálise, sempre considerei a tradição winnicottiana, que produziu Khan, caracterizada por sua gentileza e empatia – tal qual o próprio Winnicott. Khan foi popular entre literatos e pessoas criativas; analisou Christopher Bollas e Adam Phillips, analistas e escritores prolíficos cujo trabalho explora o que Phillips chamou o “Freud pós-freudiano”, ou o “Freud selvagem” que promove a criatividade e uma vida plenamente vivida, ao contrário do “Freud iluminista”, que prescreve rigorosas interpretações e auto-conhecimento. Eu tinha escrito anteriormente sobre Adam Phillips, que, como alguém que foi analisado por Khan e que tinha escrito uma excelente monografia sobre Winnicott, claramente via-se a si mesmo como um portador dessa tradição. “De Winnicott a Khan, a Bollas e Phillips, a tendência é encontrar e ampliar o self”, escreve Linda Hopkins, uma psicanalista que está escrevendo Blessings and Humiliations, a primeira biografia abrangente de Khan. “O objetivo da “nova” análise é ajudar a pessoa a se sentir viva, a se abrir para as mudanças, não curar-se de uma doença. O analista procura aprofundar e ampliar o leque de experiências. É melhor estar vivo, verdadeiro e “louco” do que viver um falso self”.

Mas o Khan monstruoso descrito por Godley não tem nenhuma semelhança com o homem caloroso e caprichoso, amorosamente lembrado por Phillips para mim. Teria Khan uma dupla personalidade? Ou o conflitivo balanço do comportamento de Khan era simplesmente uma prova de seu talento empático para transformar-se no analista que cada paciente precisava – embora talvez não o quisesse? Khan representa a perversão, a reducto ad absurdum das idéias de Winnicott ou, pelo contrário, encarnou sua mais perfeita e lógica expressão?

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Solicitei uma entrevista com Godley e, num dia de final de verão, dirigi noventa milhas ao norte de Nova York até o Bard College. The Levi Economics Institute situa-se numa mansão da virada do século, rodeada por um cuidado jardim italiano, às margens do largo e verde Rio Hudson. Com setenta e sete anos, tem a indisfarçável pose de um aristocrata. Alto e magro, com um rosto descarnado e simpático, veste-se com a nonchalance dos verdadeiramente bem-nascidos. Sapatos gastos, calça velha de caqui, uma surrada camisa azul e um velho e frouxo suéter marrom de lã – independente de ser este um sufocante dia de verão.

Durante o almoço, Godley me fala sobre Khan num misto de enfado e desespero; seu tom é tão distante que ele bem poderia estar falando da análise de outrem e não da sua. Durante os sete anos de sua análise diária, Godley diz que Khan o desencorajava de contar sua infância ou passado: tudo o que verdadeiramente importava, Khan garantia, era o que ocorria entre eles dois. “Claro que isso o autorizava a interferir, de forma ativa e como um juiz extraordinariamente cruel, em todos os aspectos de minha vida diária”, diz Godley. Khan ocasionalmente aparecia na casa de Godley, bêbado e sem se fazer anunciar previamente, para atormentar sua enteada (que estava em análise com Winnicott, o mentor de Khan) e incomodar sua esposa.

Godley não me permite gravar nossa conversa e parece não querer dizer mais do que já disse em seu artigo. Assim, quando eu faço a pergunta que penso ser a mais óbvia – Por que você simplesmente não deixou a análise com Khan? – ele parece ficar desconcertado, como se perdesse o “script” previamente ensaiado.

Seus olhos passeiam nervosamente pelo restaurante antes de se fixarem no chão e ele falar lentamente, usando palavras que mais tarde soube serem parafraseadas de um outro “script” – uma discussão por e-mail que ele manteve com vários psicanalistas. “Eu tinha sido nocauteado e fiz uma barganha faustiana”, diz solenemente. “Em troca de minha servidão, me foi dada a aparência incrivelmente convincente de ter uma vida e sucesso mundano, na qual todos acreditavam. Estava condenada, é claro. Tudo isso me deixou com um sentimento de vergonha que demorou muito tempo para desaparecer...” – ele despista. “Mas não pense que a questão mais importante é porque eu fiquei, mas, em primeiro lugar, porque Khan foi aceito pelo Instituto de Psicanálise?”.

Godley me fala de sua infância infeliz. Criado em meio a grande riqueza por um pai distante e alcoólatra e por uma mãe instável (de vez em quando, ela se exibia nua em sua frente, descrevendo o “intenso prazer que sentia nas relações sexuais”), desde sempre sentiu-se desprotegido. Depois de Oxford, onde foi tutorado por Isaiah Berlin (de quem se tornou amigo íntimo) e uma breve carreira como oboísta em Paris, Godley começou uma carreira no Tesouro. Casou-se com Elizabeth, a filha do escultor Jacob Epstein, que tinha sido casada anteriormente com o pintor Lucian Freud (neto de Freud). Apesar de sua carreira bem sucedida e de seu casamento, Godley era atormentado pela depressão e por alucinações, e procurou ajuda com o único analista do qual ouvira falar, D. W. Winnicott, então presidente da Sociedade Psicanalítica Britânica . Winnicott o encaminhou para Khan, que era – fato desconhecido por Godley – tanto protegé como paciente de Winnicott.

Por mais terrível que seja o relato de Godley, não se deve pensar que Khan o odiava. Pelo contrário. “O mais estranho é que Masud amava mesmo Goldley. Ele era um de seus pacientes favoritos”, disse-me um analista. De fato, Khan tanto podia ser generoso como sádico. Mesmo quando atormentava Godley, o enchia de presentes: uma edição completa da Encyclopaedia Britannica, uma litografia assinada de Léger, dispendiosas primeiras edições de livros. Uma vez, estando Godley resfriado, Khan mandou outro paciente (um médico) até sua casa para examiná-lo. “Abri meus olhos e vi um homem, que eu sabia ser paciente de Khan, curvando-se sobre mim com um estetoscópio. Tentei não rir, mas achei toda a situação absurda”, Godley recorda. (Godley diz que a influência destrutiva de Khan foi posteriormente “desfeita pela perícia de um analista norte-americano cuidadoso, paciente e altruista”).

Logo depois da publicação do artigo de Godley, Donald Campbell, então presidente da Sociedade, deu início a uma ampla investigação, que incluía a avaliação das atas de antigas reuniões do conselho e do comitê [da Sociedade], além de entrevistas com membros antigos que conheceram Khan. Convocou-se uma reunião fechada para discutir o caso. Esta teve dois objetivos, disse-me Campbell. “Primeiro, pensar como a Sociedade falhou em proteger os pacientes de Khan e a própria psicanálise, e, segundo, focar nos itens institucionais e no conluio inconsciente que se instalara então, com o objetivo de salvaguardar a prática analítica no futuro”, diz.

Quando o relatório confidencial foi distribuído para os membros (mas não para o público), ficou claro que o conluio da Sociedade tinha começado na própria formação de Khan, em 1946. Apesar de não ter completado com sucesso seu primeiro caso psicanalítico – um caso, mais ainda, supervisionado pela própria Anna Freud – mesmo assim, Khan foi oficialmente qualificado como analista, o que era uma flagrante violação das regras da Sociedade. “Lendo as atas [das sessões de avaliação de Khan] tem-se a impressão que houve um certo aceleramento no seu processo de formação”, o relatório confidencial registra. Assim abençoado, Khan estava livre. Tornou-se analista em 1950, com apenas 26 anos, fato pouco comum. Depois de ter sido rejeitado três vezes “por razões não especificadas”, o relatório continua, Khan se tornou analista didata em 1959. Claramente, desde o início, algumas pessoas na Sociedade duvidavam de Khan.

De acordo com a investigação, os membros da Sociedade continuaram o conluio com Khan mesmo depois de ter tido um caso extremamente público com uma candidata do Instituto que estava em análise com ele. Quando o marido dela – que também estava em formação no Instituto, mas não com Khan – queixou-se ao presidente do Instituto, “não lhe foi dado muito crédito de imediato, demorando um tanto para que algo fosse feito”. (Khan mais tarde teve um caso com uma mulher cujo marido ele mesmo tratava).

O relatório também encontrou uma variedade menos grave de violações de limites na relação analista-paciente. Khan jantava regularmente com o pai de uma de suas pacientes mais famosas. Freqüentemente telefonava para pacientes no meio da noite e ia para a casa deles, bêbado e perturbado. “Não fui o único”, diz Godley. “Khan era um serial killer”.

Alto (6 pés e 2 polegadas), de uma beleza escura e impecavelmente vestido (alfaiates de Saville Row com um toque do Raj), Khan dificilmente se enquadrava na imagem estereotipada do psiquiatra discreto. Dizia ser um príncipe paquistanês e tinha uma placa dourada na sua porta, onde se lia “Sua Alteza Real Masud Khan”. Evitando o arborizado subúrbio de Hampstead, o preferido dos analistas londrinos, vivia bem no centro da cidade, próximo ao Harrolds, num elegante prédio de apartamentos em Hans Crescent. Sir Michael Redgrave e família eram seus vizinhos. O apartamento de Khan estava cheio de valiosa arte impressionista e pós-impressionista, assim como uma boa coleção de primeiras edições de romances contemporâneos franceses e ingleses.

Em 1959, casou-se com a bailarina Svetlana Beriosova, através de quem conheceu um largo círculo de celebridades. Rudolph Nureyev, Julie Christie, Peter O’Toole, Mike Nichols, François Truffaut, Princesa Margareth e Julie Andrews (Beriosova era madrinha de sua filha) freqüentavam as festas de Khan, que circulava entre seus convidados fazendo “análises instantâneas” como uma espécie de jogo de salão, um hábito que levou a seu amigo, o crítico literário Frank Kermode apelidá-lo de “analista de circo”. (Posteriormente, Kermode tornou-se amigo de Godley, quando estudavam em Cambridge, e foi ele quem recomendou o artigo de Godley para o London Review of Books).

Apesar de seu considerável charme, Khan poderia ser mal-educado e desagradável. “Ele fazia coisas odiosas, como se fosse um adolescente ou, pior ainda, um senhor feudal”, Kermode me diz. Ele lembra uma tarde em que Khan provocou sua esposa, fazendo-a chorar, enquanto os três jantavam tranqüilamente. Kermode disse para Khan parar ou eles iriam embora. Quando Khan não mudou seu comportamento, Kermode levantou-se para sair, no que foi impedido por Khan, que se postou a sua frente, bloqueando-lhe a passagem. “Quando me levantei, ele disse ‘Você não pode sair a não ser que eu permita’. Eu disse ‘Ah, posso sim. Vou subir em cima da mesa e acabar com sua fina porcelana e seus cristais’”. Kermode já estava com um dos pés em cima da mesa quando Khan, finalmente, permitiu que saíssem. Noutra ocasião, Kermode era um dos doze convidados para um jantar formal na casa de Khan. Quando o primeiro prato foi servido, Khan entrou na sala de jantar, vestido com uma capa preta e usando uma bengala, anunciou que tinha um compromisso inadiável na embaixada paquistanesa e pediu que seus convidados se retirassem.

As maneiras de Khan não eram melhores quando ele mantinha seus compromissos. O diretor Mike Nichols, um amigo íntimo nos anos 60, lembra um jantar no qual Khan observou que um homem flertava com uma mulher sentada a seu lado na mesa. “O senhor está perdendo o tempo! Está gastando sua cantada com a pessoa errada!”, gritou Nichols, imitando o forte sotaque paquistanês de Khan. “Não percebe que é uma lésbica?”. Noutra ocasião, diz Nichols, Khan enviou um bolo de chocolate para um homem obeso sentado numa outra mesa do restaurante em que estavam, gritando-lhe enquanto lhe entregaram o bolo: “Quem sabe, assim você morre logo!”. Alguns suspeitam que as injúrias de Khan tinham como objetivo exibir seus poderes de persuasão, tipo Svengali [personagem de conhecida novela, um insuperável hipnotizador]. Certa vez, enquanto bebia champanhe com o analista francês André Green, deliberadamente Khan deixou cair da mesa a garrafa, que se espatifou no chão. Ele então se virou para o homem que estava na mesa vizinha e exigiu um pedido de desculpas, criando uma cena tamanha que o inocente comensal até mesmo pagou-lhes uma nova garrafa.

Talvez a coisa mais marcante a respeito do comportamento de Khan era que nunca encontrava oposição. Um dos motivos, sugere Kermode, era a inteligência de Khan. Ele lembra uma conferência de Lacan proferida no Institute Français, nos anos 60, quando o analista francês estava no auge de sua fama. “Estava muito chato e já durava três horas. Finalmente, Masud levantou-se e foi até ao palco e o interrompeu dizendo:“Não, você está explicando isso de forma equivocada”. E aí, Khan passou a dar a sua própria versão da teoria lacaniana, enquanto Lacan o observava com admiração. “Era óbvio que ele gostava de Masud”, disse-me Kermode.

Quando o ser brilhante não era o suficiente, Khan era hábil em manipular sua posição de estrangeiro, sendo, como era, um muçulmano alto, escuro e confrontador num mundo de analistas pequenos, brancos e taciturnos.”Ele não parava de tomar sutis providências para inferiorizar todos aqueles ocidentais ‘superiores’”, escreve Judy Cooper, paciente de Khan e sua primeira biógrafa. Godley sugere que a personalidade dupla de Khan – o ameaçador e o carismático – serviam simplesmente para explorar a reticência e a reserva britânicas. Quando um oponente (ou analisando) não temia desafiá-lo, ele o seduzia. Karl Menninger contava sempre a história de uma palestra que Khan realizou em sua clínica, depois da qual prometeu enviar para Meninger – um entusiasmado cavaleiro – quatro garanhões árabes de seus “estábulos reais” no Paquistão. Desnecessário dizer que eles nunca apareceram. Anos mais tarde, ao ser confrontado por um colega de Menninger, Khan não discutiu a promessa. “Você não sabe?”, explicou. “Sempre digo para as pessoas aquilo que elas querem ouvir”.

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Como foi que a “ciência da mente” de Freud terminou por gerar alguém como Khan? Como Khan prosperou nos mais exclusivos ambientes do mundo psicanalítico? Uma explicação que me foi dada por psicanalistas britânicos diz que o país adotivo de Khan oferece solo fértil para a prática iconoclástica dos iconoclásticos métodos freudianos. “Numa terra de excêntricos, os psicanalistas e seus pacientes eram tolerados como parte de um bando selvagem mas inofensivo de excêntricos”, escreve Gregório Kohon na introdução do The British School of Psychoanalysis, sua compilação de artigos clássicos da tradição Independente.

Diferentemente da história da psicanálise na América, onde os renegados fundaram bem-sucedidos institutos dedicados a todas as variações concebíveis da análise, a psicanálise britânica (ou psico-análise, como dizem por lá) desenvolveu-se dentro do recinto de uma única organização oficial: O Instituto de Psico-análise. Apesar de existirem muitas “escolas” na Grã Bretanha – freudiana, kleiniana, independente, anna-freudiana, teória do vínculo (attachment theory) – todos eles coexistem (desconfortavelmente, às vezes) no mesmo lugar.

E este lugar foi criação exclusiva de Ernest Jones. Hoje em dia mais conhecido como o autor da biografia autorizada de Freud, Jones já tinha estabelecido uma carreira de sucesso como neurologista quando progressivamente frustrou-se com a inabilidade da medicina em compreender as peculiaridades e patologias da mente. Ele leu “Dora” de Freud em 1905 e o encontrou pessoalmente em Salzburg, em 1908, no primeiro Congresso Psicanalítico, onde Jones apresentava um trabalho, “Racionalização na Vida Diária”, no qual cunhou o termo [racionalização]. Jones foi subseqüentemente analisado por Sandor Ferenczi (o mais famoso violador de limites da psicanálise) entre 1911 e 1913, e, em 1919, estabeleceu a Sociedade Britânica de Psicanálise, à qual presidiu até 1944.

Desde sua criação, estabeleceu-se na Sociedade uma tensão entre aqueles que queriam manter o projeto de Freud e aqueles que desejavam desenvolvê-lo. Os dois debates centrais focalizavam a análise de crianças e o papel do “meio ambiente” (environment) (algumas vezes chamado de “relações de objeto” – object relations) – como oposto às pulsões libidinais internas – no diagnóstico e tratamento das doenças mentais.

Os seguidores britânicos de Freud sempre enfatizaram a aplicabilidade da psicanálise para crianças. Essa ênfase se aprofundou em 1926, quando Jones convidou Melanie Klein para imigrar de Berlin para Londres. O primeiro artigo de Klein, “Notas sobre a psicanálise de uma criança de cinco anos de idade”, argumentava que as fantasias das crianças estavam ligadas com seu desmame e treinamento esfincteriano. Klein argumentava que o complexo de édipo emergia nos primeiros meses de vida, ao contrário da afirmação de Freud, que datava seu aparecimento entre 3 e 5 anos de idade. Seu desafio mais dramático a Freud, embora que indireto, deu-se na abertura de um simpósio sobre análise de criança, em 1927, quando fez vigorosa crítica ao trabalho de Anna Freud, o “Introdução às técnicas de análise de crianças”. Muitos, Freud entre eles, se perguntaram se Klein estava rompendo com a psicanálise – como Jung fizera anteriormente – ou se simplesmente a ampliava.

A Segunda Guerra Mundial provocou um dilúvio de analistas europeus em Londres, incluindo Freud em pessoa, que só conseguiu escapar de Vienna depois que Jones, a Princesa Marie Bonaparte e William Bullitt, embaixador americano na França (tanto ele quanto Bonaparte tinham sido pacientes de Freud) negociaram sua partida com os nazistas. Quando o grupo de Freud chegou a Londres, em 6 de junho de 1938, eles estavam gratos mas também temerosos de que as idéias de Klein já tivessem suplantado ali as do próprio Freud.

Quando Freud morreu, em setembro de 1939, a luta entre seus “filhos” se intensificou. Enquanto alguns veneravam Anna como uma brilhante analista de crianças, outros suspeitavam que seu renome devia-se ao nepotismo e se ressentiam de ter, ela mesmo, se dado o papel de guardiã do legado do pai. E Anna, com razão, suspeitava que muitos dos alunos de seu pai não gostavam dela. Mesmo Jones, um amigo íntimo da família e seu salvador, sugeriu, numa carta para Klein, que Anna era “um osso duro de roer que, provavelmente, tinha ido tão longe na análise quanto pôde e não tinha nenhuma originalidade pioneira”.

O debate Freud-Klein teve seu ápice durante as “Discussões Controversas” de 1943-1944. No meio do ataque aéreo de Londres, o establishment psicanalítico britânico travava sua própria guerra particular. “Quando os perigos da guerra fizeram muitas pessoas encontrar uma nova proximidade”, observa delicadamente Eric Rayner em seu estudo The Independent Mind in British Psychoanalysis, “o oposto acontecia entre os psicanalistas de Londres”.

Essencialmente, o debate Freud-Klein focalizava a questão do que se devia dar primazia na análise, ao “cuidado” (caring) ou à “confrontação” (confrontation). Anna Freud sustentava que o objetivo da análise de criança era ajudar crianças doentes, uma meta que ela acreditava implicar numa ligação positiva e de cuidados para com a criança. Dado a limitada capacidade verbal da criança, Anna Freud não acreditava que fosse possível o desenvolvimento da clássica relação de transferência; ela concebia a análise de criança como um processo de “jogo”, o que ajudaria ao analista fazer várias interpretações.

Em contraste, Klein equiparava o jogo da criança à associação livre psicanalítica dos adultos e o usava para trabalhar as primitivas fantasias agressivas da criança. Klein argumentava que essa agressão era muito mais insidiosa do que qualquer coisa que os freudianos pudessem imaginar. “Para Freud, a criança era um selvagem egoísta”, observa o historiador Peter Gay. “Para Klein, a criança é um canibal assassino”. Mais ainda, Klein insistia em confrontar os pacientes diretamente com o significado de suas fantasias agressivas – uma técnica que desconsiderava a importância do “cuidado” que Anna Freud considerava essencial para o sucesso de uma análise.

Sabedora de que seu método de confrontação se opunha fortemente às técnicas mais compassivas da Sociedade, Klein disse para Jones que temia que seu “conceito de depressão fosse demasiado doloroso e difícil para muitas pessoas, tendo por isso o efeito de fazê-las regredir para ‘posições’ anteriores mais seguras”. Essa “posição mais segura” era precisamente o território no qual se desenrolava a análise de Khan conduzida por Winnicott. A ênfase estava em criar uma situação segura, não tanto para a interpretação, mas no intuito de fazer Khan experimentar uma relação confiável com seu analista. Os difíceis sentimentos que inquestionavelmente surgiram entre os dois homens – o narcisismo de Khan, sua intimidação de Winnicott; o paternalismo e a extrema dependência de Winnicott em relação a Khan – teriam exigido uma relação analítica mais confrontante e estruturada para resolvê-los.

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No final das “Discussões Controversas” a ruptura tinha se ampliado de tal forma que a Sociedade propôs um compromisso que revela a quinta-essência do caráter britânico: eles “concordariam em discordar” sobre a natureza e a prática da teoria psicanalítica, estabelecendo apenas a garantia de que as futuras gerações de analistas fossem expostas a ambas perspectivas. A Sociedade foi então dividida em três grupos: os professores do grupo “A” procediam da Sociedade como um todo [kleinianos] e os professores do grupo “B” provinham dos seguidores de Anna Freud. Mais ainda, foi estabelecido que o supervisor do primeiro caso analítico do candidato deveria pertencer a seu próprio grupo, mas o supervisor de seu segundo caso deveria ser um analista que não se identificasse com os kleinianos nem com os Anna-freudianos. Precisamente, nessa “posição mais segura” uma região inferior entre os freudianos e os kleinianos, entre compaixão e confrontação, nasceu o Middle Group - Grupo do Meio (atualmente chamado de Independent Group – Grupo Independente), no qual se contavam, entre os mais proeminentes, Winnicott, Khan, Margareth Little, Marion Milner, W.R.D. Fairbairn, Nina Coltart, Michael Balint e John Bowlby.

Desde o início, o Middle Group estava mais preocupado com as relações entre pessoas do que com suas pulsões (drives) internas. Enquanto Freud e Klein tinham mapeado o tumultuado mundo interno, os analistas do Middle Group, como Winnicott e Khan, dirigiram seus insights e os usaram para entender as relações interpessoais.

Winnicott colocou o meio ambiente (environment) – primariamente a relação mãe-bebê – no centro de seu trabalho. Para ele, a mãe tinha uma dupla responsabilidade: primeiro, proteger a criança do meio ambiente; segundo, “sobreviver” aos ataques de seu “canibal assassino”, a criança kleiniana. Winnicott chamava esse processo protetor de “holding” e estendeu seu uso na prática clínica com adultos. No seu empenho de desenvolver um “espaço seguro de proteção” (“holding”), ele freqüentemente rompia com as formalidades clássicas da psicanálise, atendendo telefonemas de pacientes durante as sessões e dando longas consultas em horários inusitados. Com alguns pacientes, Winnicott literalmente segurava suas mãos ou cabeças, como alguém que embala uma criança aterrorizada. Para os pacientes com mais problemas, como Khan, Winnicott acreditava que um “meio seguro de proteção” (safe holding environment) era tudo que uma análise poderia oferecer.

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Nos anos 60, no auge da carreira de Khan, a Londres psicanalítica parecia ser o centro do mundo. “A psicanálise estava na vanguarda. Sua posição marginal a fazia parecer especial. Não fazia parte do mundo universitário nem do mundo médico. Tinha uma relação muito independente com a cultura”, diz Dr. Peter Kramer, autor de Listening to Prozac, que se analisou quando estudante em Cambridge. Peter Fonagy, um emigrante húngaro, atual professor de psicanálise no University College London, quando estudante achava esfuziante o firmamento psicanalítico: “A universidade oferecia uma série de conferências de analistas e mesmo os maiores auditórios eram insuficientes para acolher a todos que queriam ouví-las. Tinham que ser retransmitidas por televisão para as salas contíguas. Richard Wollheim, Erik Erikson – eram como estrelas de rock para nós”, me disse.

Como muitos émigrés, Gregorio Kohon foi trazido para a Londres dos anos 60 atraído por sua abertura a novas experiências. Depois de se qualificar como psicólogo clínico na Argentina, veio para a Inglaterra para estudar com R. D. Laing, o líder do movimento ‘anti-psiquiatriátrico’ que tinha tentado, como foi largamente difundido, sintetizar o marxismo com o freudismo em sua “Conferência da Dialética da Libertação” , de 1967, que conseguiu juntar o heterogêneo trio formado por Herbert Marcuse, Allen Ginsberg e Stokely Carmichael.

Durante o dia, os estudantes de Laing discutiam os Quatro Quartetos de T. S. Elliot, os místicos cristãos, Sartre e textos budistas. À noite, viviam em comunas improvisadas, casas abandonadas que haviam ocupado e reformado. Kohon dividia sua casa com cinco companheiros; dois outros estudantes de Laing e três pacientes que sofriam de variados graus de esquizofrenia e psicose. “Era uma situação de vida institucional muito pouco estruturada. A idéia era criar um espaço para a psicanálise no qual os pacientes não se sentissem perseguidos. Nós estávamos tratando deles e os treinando através da participação em suas vidas”, diz ele. Todos dividiam as tarefas domésticas. Um dos companheiros de Kohon era obsessivo-compulsivo e começava a cozinhar às 10 da manhã, ficava tão absorvido com as receitas que lá pelas 10 da noite a refeição ainda não estava pronta. Outro companheiro só comia grãos crus; quando era seu turno na cozinha, Kohon se resignava a comer arroz e feijão crus.

Como Laing, Khan era tido como um revolucionário. Como clínico, Khan era conhecido por aceitar os casos “difíceis”, os pacientes cujos analistas anteriores deles tinham desistido. Ele usava métodos nada ortodoxos, rompendo com a moldura analítica ao chocar o paciente, algumas vezes de forma violenta. Era um “vale tudo” com o intuito de estabelecer uma relação “real”, “verdadeira”.

Khan era um professor igualmente iconoclasta. “Ele abusava de sua posição, mas foi também um dos professores mais talentosos que já tive”, diz Kohon. “Ele chegava num seminário, apontava para um estudante e dizia, “Andei ouvindo bastante a seu respeito!”. E o que ele tinha ouvido era obviamente no divã! Ora, se você é um estudante e um professor diz isso sobre você, você não ousa sequer abrir a boca”.

Mesmo controvertidas, as técnicas de Khan não se afastavam muito da cultura experimental dos anos 60, de pessoas como Laing e mesmo da pouco rígida Independent School de analistas. Quando apareceram as idéias de Winnicott sobre a importância da relação analítica, alguns analistas passaram a fazer experiências com seu lado da relação. O analista estereotipadamente passivo estava fora de moda. Em seu artigo seminal “Slouching towards Bethlehem... or Thinking the Unthinkable in Psychoanalysis”, Nina Coltart descreve um paciente que se mantinha silencioso dia após dia até que Coltart , tomada pela raiva, deu-lhe uns gritos.”Simples e repentinamente fiquei furiosa e dei-lhe uma reprimenda por seu prolongado ataque mortífero dirigido a mim e à análise”.

“Às vezes ouve-se dizer que o Independent Group não é um “middle group” (grupo do meio) e sim um “muddled group” (grupo confuso). Há alguma verdade nisso”, escreve Gregorio Kohon. Mesmo quando os analistas da tradição independente se orgulham de suas habilidades clínicas, eles confessam que são freqüentemente menos rigorosos do ponto de vista teórico do que, por exemplo, os kleinianos. Essa flexibilidade, argumentam, lhes permite ficar mais alertas, mais disponíveis para seus pacientes. Consideram a habilidade que o analista independente tem para ouvir, para abrir-se frente a experiência de seu paciente como uma característica que os coloca distante (e freqüentemente acima) dos analistas de outras escolas. Sem os impedimentos de uma teoria rígida, são considerados os rebeldes da psicanálise. “A aversão pela construção de sistemas, um traço característico do empirismo, pode provocar negligência em relação a uma teoria coerente, que, na melhor das hipóteses, fortalece a prática de uma técnica difícil em face da adversidade”, escreve Eric Rayner em seu estudo sobre o grupo.

Kohon opina mais diretamente. “O que outras pessoas vêem como o defeito dos independentes, na verdade é sua virtude. O que eles têm para oferecer é, antes de tudo mas não só, uma posição profissional, uma atitude profissional. Isso é o que permite a distancia necessária entre o analista e o paciente”, escreve ele.

Mas o que acontece quando um analista falha na manutenção da “atitude profissional”, falha em respeitar a distância entre analista e paciente, como aconteceu com Khan ? É um acidente, se o próprio arcabouço teórico que ajuda qualquer analista a manter distância com seu paciente não existia na escola que formou e tratou Khan?

“Se você não tem uma boa teoria do processo interacional, você está perdido”, diz Peter Fonagy. “Isso não quer dizer que você tem de ter a teoria ‘certa’, mas você precisa de uma boa e firme teoria para se apoiar. Sem ela, o encontro interpessoal com o paciente é tão poderoso que pode simplesmente anular você. O problema com os Independentes é que eles ficaram tão interessados no aspecto ‘experiência’ da análise que esqueceram os mecanismos psicológicos. Eles não tinham idéia do que estava acontecendo e alguns se perderam totalmente”.

Ser “anulado” pelo poder da relação analítica tem sido um dos riscos da psicanálise desde seus primórdios. O primeiro colaborador de Freud, Joseph Breuer, fugiu de Anna O. quando ela despertou desejos eróticos nele. Em “O Futuro da Psicanálise”, Freud denominou essa experiência como “contratransferência”- o processo no qual as emoções, positivas ou negativas, de um analista são despertadas por seu paciente – e a diagnosticou como uma neurose que o analista tem de superar para conseguir trabalhar adequadamente.

Desde Freud, tem havido três principais formas de lidar com a contratransferência, explica Robert Young, um analista texano residente em Londres, professor de Cambridge e ex-editor da Free Association Books. Ele resume a história da contratransferência para mim, citando inúmeros artigos que escreveu sobre o assunto. “Um analista pode se livrar de sua contratranferência através da análise e se concentrar na transferência do paciente. Ele pode tentar explorá-la [a contratransferência] de forma controlada, da maneira como Freud advogava o uso do inconsciente do terapeuta como um instrumento para captar o inconsciente do paciente. Ou ele pode, mais ou menos, simplesmente “deixar rolar”, e tratar essa comunicação de inconsciente para inconsciente como a única comunicação autêntica entre analista e paciente”, diz ele.

Uma das técnicas clínicas das quais os Independentes mais se orgulham é o uso da contratransferência. “Dada a ênfase nesta inter-relação entre paciente e analista, a contratransferência tem-se desenvolvido como a fonte dos mais importantes indicadores para a formulação das interpretações transferenciais”, escreve Kohon. A noção de que os analistas deveriam “deixar rolar”, que eles deveriam se basear em suas respostas contratransferenciais ao paciente para fazer suas intervenções importantes – talvez até mesmo as mais importantes – estava em voga durante a formação de Khan. Para os Independentes, a contratransferência deixara de ser patológica, passando a ser normal, até mesmo essencial. Em mãos erradas, o perigo de se apoiar na contratransferência é claro. “Basear todas as interpretações nos sentimentos contratransferenciais nega o que o paciente tem para dizer”, avisa Kohon.

* * *

Mohammed Masud Raza Khan nasceu em 1924, na área do Punjab da Índia (atual Paquistão). Sua mãe era uma encantadora dançarina de 17 anos quando seu pai, um rico proprietário de terras de 76 anos, a tomou como sua quarta esposa. Khan nunca se recuperou das circunstâncias ignominiosas de seu nascimento e alguns sugerem que seu trabalho teórico, que enfatiza o dano decorrente da indiferença materna, estava solidamente enraizado em sua biografia. Khan estava desesperado quando iniciou sua análise em 1946, seu pai e sua irmã tinham falecido havia pouco. Sua análise didática começou com Ella Sharpe. Khan foi um aluno precoce e bem dotado intelectualmente - ele afirmava ter escrito uma premiada tese de mestrado sobre “Ulysses” – e devorava números antigos do The International Journal of Psycho-Analysis enquanto ia e voltava de suas sessões com seu segundo analista. Quando Sharpe morreu após ter tratado Khan por apenas um ano, ele procurou o Dr. John Rickman, que tinha – por sua vez – feito duas análises, uma com Freud em Viena e outra com Klein em Londres. Novamente a análise de Khan foi interrompida quando Rickman morrreu em 1951, após o que ele iniciou imediatamente uma análise com Winnicott.

Especulações sobre a análise de 15 anos que Khan fez com Winnicott transformou-se numa mini-indústria, estudada por aqueles que procuram tanto as raízes da auto-destruição de Khan como as falhas da psicanálise. A relação dos dois foi complexa, alternando indulgência filial com rivalidade juvenil. Winnicott, o teorizador-maior da infância, não fora capaz de ter filhos com nenhuma de suas duas mulheres ( a primeira delas era psicótica) e ansiava por um. Khan, por sua vez, se envergonhava de sua mãe e chorava a morte do pai, sem mencionar a morte de seus dois analistas anteriores. Ao iniciar sua análise com Winnicott, Khan estava tão traumatizado com as perdas de Sharpe e Rickman que quando Winnicott (que já tinha sofrido vários ataques cardíacos) ocasionalmente cochilava durante a sessão de Khan, este imediatamente pulava do divã, olhando ansiosamente para trás, procurando se certificar que seu terceiro analista não tinha morrido. Para complicar mais ainda as coisas, Winnicott analisava também sua primeira e segunda esposas. Durante um período, Khan achou que Beriosova (sua segunda mulher) precisava de Winnicott mais do que ele e “emprestou” sua sessão para ela.

Na maior parte dos quinze anos de sua análise, Khan foi o secretário de facto de Winnicott (homem rico e independente, Winnicott tinha ainda um secretário pago, de tempo integral), realizando várias tarefas editoriais para seus muitos livros e artigos. A primeira evidência definitiva da mútua colaboração foi uma resenha que escreveram conjuntamente, durante o segundo ano da análise de Khan, sobre o artigo de Ronald Fairbairn, Psychoanalytic Studies of the Personality publicada no The International Journal of Psycho-Analysis. Enquanto Winnicott era um intelectual desinteressado e confessava saber pouco sobre Freud, Khan tinha um conhecimento enciclopédico da literatura. Cinco vezes por semana, Khan se deitaria no divã de Winnicott para se analisar; grande parte das tardes passaria no escritório de Winnicott para trabalhar com seus escritos. Entre escritor e editor, a relação foi extremamente produtiva; entre analista e paciente foi um lamentável fracasso .

Porque fracassou tem sido objeto de caloroso debate. Alguns sugeriram que Winnicott logo se apercebeu que o narcisismo de Khan o deixava essencialmente inanalisável. Seguindo sua própria teoria, Winnicott poderia ter concluído que tudo o que restava para Khan era um prolongado tratamento de “holding”. Mas esse pode ter sido o pior tratamento possível. Dr. Glen Gabbard, um perito na questão da violação dos limites entre analista e paciente em psicanálise, sugere que Winnicott errou em não confrontar diretamente Khan. “Se existe algo na tradição winnicottiana que induz a violação dos limites, é sua relutância em lidar com a agressão do paciente. Um tema comum nas violações dos limites que estudei é a negação da agressão, tanto no analista como no paciente. O analista tenta, essencialmente, amar o paciente visando sua cura, sem reconhecer que o amor excessivo do analista pelo paciente é, freqüentemente, uma defesa contra seu ódio e isso pode minar o tratamento”, disse-me ele.

Donald Campbell, que até recentemente foi o presidente da Sociedade, acredita que houve boas razões para os analistas de Khan terem alimentado uma hostilidade complexa contra ele. Campbell foi aluno de Khan e lembra como o carismático paquistanês ridicularizava e agredia seus alunos. “Qualquer um podia ver o quanto Winnicott ficava intimidado por Khan, a quem considerava uma espécie de biógrafo, intérprete e apologista de sua causa. A sedução e o sadismo tinham papel importante no repertório de Khan quanto ao relacionamento com as pessoas. Não me surpreenderia se Winnicott também tivesse ficado atingido”, me disse.

Indiscutivelmente, a dependência intelectual de Winnicott em relação a seu paciente comprometeu a análise de Khan. Brett Kahr, um psicoterapeuta que está escrevendo uma biografia de Winnicott, o acusa de colocar suas necessidades acima das de Khan. “Ele se aproveitou do brilho de Khan, de sua disponibilidade e vulnerabilidade, tratando-o muito mais como um secretário voluntário do que como paciente”, diz ele. “Como Khan poderia acreditar que Winnicott se interessava mais por ele como pessoa do que como um mero ajudante administrativo?”. Claramente a relação entre eles sufocou a criatividade de Khan. Foi somente após a morte de Winnicott, em 1971, que Khan publicou seus próprios quatro livros.

A conclusão mais significativa de Kahr é que a relação doentia dos dois não foi uma exceção, uma anomalia, mas, na verdade, tem sido bastante comum na história da psicanálise. Ele chama de “neurose secretarial” o processo pelo qual pacientes e discípulos são transformados em secretários. “O próprio analista de Winnicott, James Strachey, o convenceu a ajudá-lo na preparação da The Standard Edition, assim como o analista do próprio Strachey, Sigmund Freud, pediu a ele [Strachey] que lhe fizesse extensivos trabalhos de tradutor. O mestre de Freud, Jean-Martin Charcot, tinha anteriormente se aproveitado de sua posição para fazê-lo [a Freud] traduzir para o alemão seus escritos neurológicos”, escreve.

Longe de ser uma exceção, Kahr argumenta que Khan fazia parte de uma efetiva e longa contra-tradição em psicanálise: uma corporação na qual as violações de limites entre paciente e analista são a regra, não a exceção, onde o desejo do paciente de ter uma relação real com seu analista é realizado, ao invés de ser dissipado através da análise. Esses analistas foram ensinados a manter uma rígida “moldura analítica” com seus pacientes, mas suas próprias experiências de análise contradiziam esse ensino. A intimidade e o amor que Khan experimentou em sua análise com Winnicott devem ter adquirido uma forma significativamente diferente quando tentou aplicar essas lições com Godley, esse outro rico e aristocrático inglês com o qual se deparava em sua vida.

A queda de Khan na loucura foi acelerada quando sua mãe e Winnicott morreram, com apenas dois meses de distância, em 1971. Beriosova o deixou poucos meses depois. Ele tinha acabado de receber as cópias do último livro de Winnicott, Playing and reality, quando soube da morte de seu mentor. “Eu usufrui uma infância protegida com ele”, Khan escreveu numa carta para um amigo, o analista Robert Stoller, quando Winnicott morreu. “Agora tenho de juntar meus padaços e me tornar um adulto”. Khan tinha então 47 anos.

O golpe final veio quando o testamento foi aberto e Khan soube que Winnicott escolhera a esposa, e não a ele, como seu executor literário. Depois de anos de desprendido serviço editorial, Khan sentiu-se cruelmente excluído. Seu hábito etilista, já bem forte, intensificou-se. Envolveu-se sexualmente com várias de suas pacientes e foi visto agredindo fisicamente uma namorada em público. Khan até mesmo voltou-se contra seu mentor. Numa conferência sobre o trabalho de Winnicott, Khan anunciou para a atônita platéia de analistas que Winnicott era sexualmente impotente.

O comportamente de Khan tornou-se ainda mais aberrante. Numa conferência em Geneva, escapou de uma das mesas e roubou um caro relógio de uma loja, passando a noite na cadeia até que um de seus colegas pagou-lhe a fiança. Intensificaram-se suas condutas sádicas e erotizadas com os demais. Quando a analista Susie Orbach (famosa como terapeuta da Princesa Diana) e um colega encontraram Khan dentro das atividades da formação, ele os recebeu sentado numa cadeira que parecia um trono e passou a fazer mexericos sobre os hábitos sexuais de seus pacientes. “Num determinado momento, ele nos mostrou uma espada que dizia ter usado para matar o cachorro que um paciente tinha trazido para a sessão. Vi então que estava na presença de alguém seriamente comprometido”, diz ela. Quando saíam, Khan lhes presenteou com um livro do Marquês de Sade. O comportamento de Khan durante esses anos, diz o diretor Mike Nichols, o fazia lembrar da maneira como seu amigo, o romancista Jerzi Kozinski, agia antes de cometer suicídio. “Havia algo de descomedido e desesperado”, diz Nichols. “Masud tornou-se um pirado indescritível, um pesadelo. Ele destruiu inteiramente Svetlana”.

Em 1976, Khan foi diagnosticado com um câncer e teve parte do pulmão removido. Naquele mesmo ano, Beriosova pediu o divórcio. Em 1977 a Sociedade retirou suas funções didáticas, mas não sua licença para analisar pessoas comuns. Os analistas do futuro estavam a salvo de Khan, mas não os “civis”, os pacientes leigos. Em 1987, o câncer atingiu sua laringe e parte de sua traquéia foi extirpada. Ele ficou agorafóbico e raramente saia de seu apartamento.

Mesmo assim, ele continuou a escrever e, em 1988, publicou The Long Wait. Dizia-se que o livro continha várias passagens ofensivas e, quando veio à luz, o comitê de ética da Sociedade imediatamente comprou vinte e cinco exemplares.

Não ficaram desapontados. O estudo de caso central do livro, “A Dismaying Homosexual”, relatava o tratamento que Khan fizera com “Mr. Luis”, um judeu suicida gay. Os impropérios de Khan culminavam com uma fala particularmente revoltante: “Sim, sou anti-semita. Você sabe porque, Mr. Luis? Por que sou ariano e tinha pensado que vocês todos judeus tinham desaparecido quando Jesus, de absoluto pavor – e ele era um de vocês – fugiu para o paraíso, deixando vocês aos tórridos cuidados de Hitler, Himmler e dos crematórios”.

Khan estava doente demais para ir até a Sociedade e foi “abatido” in absentia. Decidido a ter última palavra, pediu demissão antes de receber o aviso oficial de sua expulsão. Imediatamente, a Sociedade passou a receber ameaças “anônimas” de bombas que só poderiam ter partido de Khan. Apesar de estar naquele momento agorafóbico, alcoólatra, destruído pelo câncer, confinado em seu leito, Khan aterrorizava de tal forma a Sociedade que o presidente contratou um segurança. “Era exatamente esse o tipo de terrorismo que Khan podia incutir na mente de alguém”, lembra Kohon.

O homem que o analista Charles Rycroft chamou de “o arcanjo injuriado” morreu em 7 de junho de 1989. Khan foi desafiador até o fim. Em The Long Wait ele conta de um paciente impetuoso que o confrontou com o fato de ter a sociedade retirado suas funções didáticas, antes de expulsá-lo. “Não dou a mínima para isso”, respondeu. “Sou procurado por pacientes do mundo todo. E mesmo que não fosse, poderia voltar para minhas propriedades ancestrais no Paquistão, não se engane com isso!”.

* * *

O que aconteceu com Masud Khan? Algumas respostas podem estar em seus escritos pessoais, que estão inacessíveis pelo menos até o ano de 2039. Mas aqueles que os viram avisam que eles talvez tragam mais perguntas que respostas. “Ele tinha três níveis de diários, alguns deles escritos em código. Assim, não fica claro como eles se relacionam entre si, quais deles são reais, quais são meras fantasias”, diz Judy Cooper, paciente de Khan e primeira biógrafa.

Linda Hopkins, a segunda biógrafa de Khan, acredita que ele sofria de um transtorno bipolar não diagnosticado, apesar de suspeitar que sua criação e sua análise também o afetaram. Argumenta que Khan não era nem uma anomalia nem o resultado de um fatal erro teórico da psicanálise britânica. Mais ainda, ela afirma que Khan foi um verdadeiro paradoxo: clínico e teórico brilhante que ajudou alguns pacientes e torturou outros; um homem que inspirou o amor e a admiração de analistas como Adam Phillips e Christopher Bollas, despertando medo e aversão em outros. “Analistas com inclinação filosófica falam o tempo todo sobre ‘paradoxo’, mas quando confrontados com alguém como Khan, que era um verdadeiro paradoxo, não sabem o que fazer com ele”, diz ela.

Um dia, lendo sobre Khan, tropecei com uma carta de seu amigo Robert Stoller, que sugeria a possibilidade de um último paradoxo: Khan poderia, na verdade, ter inventado os estudos de caso que escreveu em The Long Wait – os mesmos casos que registram o comportamento, como em “A Dismaying Homosexual”, pelo qual foi expulso da Sociedade que ele tanto amava.

Numa carta escrita imediatamente após a morte de Khan, Stoller escreveu: “qualquer obituário [que eu pudesse vir a escrever] seria inaceitável. Eu teria me expressado ruidosamente, em minha raiva com as mentiras de Masud... sua total falsificação do material clínico em seu último livro”.

Começo a imaginar. Seria mesmo Khan capaz de um comportamento tão bizarro e auto-destrutivo? Ser atingido por um petardo que não era efetivamente um petardo, mas um pseudo-petardo, que ele mesmo montara e então convencera seus inimigos a usá-lo contra ele mesmo?

Quando experimento essa teoria expondo-a para Cooper, ela me encaminha para algumas linhas do primeiro capítulo de seu livro. “Khan parecia viver naquele ‘espaço transicional’ entre a experiência interna e a externa, que ele compreendia tão bem. Poderia ser dito que ele vivia na interface entre fato e ficção, verdade e metáfora, realidade e fantasia”. Outros acham que esse era exatamente o tipo de final paradoxal que Khan teria amado; que ele teria apreciado seu puro absurdo.

* * *

Na medida em que meu almoço com Wynne Godley se encaminhava para o fim, expliquei minha teoria da auto-sabotagem de Khan e perguntei-lhe se acreditava que Khan fora vítima de sua própria extrema perturbação... se ele, por fim, foi incapaz de salvar-se de si mesmo.

Como resposta, ele me explicou o título, “Saving Masud Khan”, que dera ao artigo publicado na London Review of Books. “Khan estava sempre dizendo a seus pacientes que tinha “salvo nossas vidas”. Ele dizia que ninguém mais poderia tê-lo feito e que deveríamos ser-lhe grato. E, é claro, acreditávamos nele”, ele diz. “Não sei muito de psicanálise, mas acho que Winnicott tinha uma teoria de que um bebê que não é bem cuidado sente que tem de salvar sua mãe. Que a desorganização de seu meio é uma indicação não de que ele esteja em dificuldades, mas que ela [a mãe] está”, ele explica.

“Mas você e os outros pacientes de Khan não foram capazes de salvá-lo, não é mesmo?”, perguntei. “Bem”, disse Godley, sorrindo hoje pela primeira vez, “certamente não foi por falta de tentativas”.

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Artigo publicado originalmente em Boston Review, dezembro 2002 – Janeiro 2003

Traduzido, com autorização do autor, por Sérgio Telles



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