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IDOLATRIA AMEAÇA OBRA DE W.R.BION
O ponto alto das comemorações do centenário
de W.R. Bion em 1997 foi a Conferência Internacional de Turim,
com o tema Bion, Passado e Futuro. Psicanalistas de todo o mundo
debateram durante alguns dias assuntos ligados à sua obra,
num clima científico elogiado por muitos dos presentes. Uma
conversa de Paulo Cesar Sandler com o editor de Gradiva, Paulo Sternick,
dá uma idéia de algumas faces do encontro e de certas
questões que ocupam psicanalistas interessados na preservação
do original pensamento do autor.
Paulo Sternick - Muita gente, que não pode ir ao Simpósio
em Turim, comemorativo do centenário de nascimento de W.R.
Bion, gostaria de saber de que maneira um autor como Bion, com sua
originalidade e visão crítica dos"establishments",
imprimiu suas características num evento que o homenageava?
Paulo Cesar Sandler - Essa é um observação
muito boa. Em princípio, acho que Bion poderia estar revirando
no túmulo ao se ver homenageado - ele deixou várias
passagens escritas contra isso. A sorte dele é que está
morto e não vai sofrer com suspeitas de adoração.
Por outro lado, penso que o evento de Turim não foi adorativo,
mas respeitoso. Nao ouvi falar de "Bion", o homem, mas
vi muito de discussão sobre psicanálise pròpriamente
dita. Isso me impressionou um bocado e foi um alívio. Realmente,
com apenas uma exceção, de uma senhora espanhola,
que fez um agradecimento público pela ajuda que recebeu de
Bion em vida, com supervisões, numa espécie de missa
de corpo ausente, não houve nenhum culto à personalidade
dele. Estudou-se bastante, prestou-se atenção ao que
se falava, criticou-se e discordou-se, trocou-se bastante, houve
algumas extensões sobre a obra dele, sem serem destrutivas
ou deformadoras, em termos de idéias de facetas do trabalho
dele, em um congresso que me espantou -- pois eu fui lá pensando
que seria só mais um congresso desses que a gente não
aproveita nada. Saí de lá com uma ou outra idéia
em relação aquelas que euentrara - e alguns dos colegas
de outras partes do mundo, também. Houve discussão
científica! Foi também um congresso amigável,
com as pessoas se tratando com respeito, e não vi sinais
de rivalidade destrutiva - talvez porque não houvessem cargos
em jogo. E foi um Congresso pouco ávido - a gente via pouco,
escolhia algo e lá ficava. Pode ser que algumas pessoas não
tenham gostado disso - aliás sei de algumas que não
gostaram, mas pessoalmente prefiro qualidade à quantidade.
Voce diria que Bion era um homem ávido? Ele escreveu, em
The Long Week End, que, aos 50 anos, substituiu a indignidade da
pobreza econômica pela indignidade da glutonice, e depois
mudou em relação a isso...
Acho que Bion não imprimiu nenhuma característica
sua no Congresso, pois ele já está morto. Mas posso
dizer que Francesca Bion, Parthenope Bion e Silvio Merciai fizeram
uma reunião extremamente amorosa. Francesca deu uma palestra
no final que deixou muita gente com lágrimas nos olhos, foi
realmente emocionante, um clímax quase romântico daquelas
grandes obras desse período meio fora de moda. Cito isso
por que ela foi capaz de dizer algo de seu falecido marido extremamente
simples e humano, de certas dificuldades que eles passaram, no sentido
de não permitir qualquer culto de adoração.
Se houve uma caracteristica que me pareceu lembrar algo que eu acho
que era característico de Dr. Bion foi um amor à verdade
e consideração pela vida -- principalmente nessa fala
final de Francesca.
Sternick - Mais acima, quando você falou de avidez, lembrei-me
de uma passagem de Bion, em "Learning from Experience",
quando se refere (a partir do modelo do bebê obstruído
afetivamente na relação com o seio) à divisão
entre gratificação material e psíquica: "A
necessidade de amor, de compreensão e de desenvolvimento
mental, não podendo, agora, ser satisfeita, desvia-se na
direção da busca de comodidades materiais. Uma vez
que se reforçam os desejos pelas comodidades materiais, a
ânsia pelo amor permanece insatisfeita e se transforma em
voracidade arrogante e desorientada". Abstraindo e deslocando
o modelo, enfim, trabalhando-o, em psicanálise clínica,
podemos imaginar a ânsia de conhecimento do psicanalista,
sua avidez por teorias, diante da dificuldade de manter o vínculo
emocional e psíquico durante a sessão. Freud tinha
chamado a atenção do analista ao recomendar a atenção
uniformemente suspensa. Bion levou a sério a indicação,
ao propor um trabalho sem memória, sem desejo de compreensão,
e Frank Philips estendeu-a até o limite de ficar interessado
apenas no que acontece na sala, durante a sessão, num estado
de quase-sonho, ou alucinação. Esses assuntos ainda
estavam interessando os psicanalistas na comemoração
do centenário de Bion?
Sandler - Penso que tuas lembranças são outra vez
muito oportunas. A senso-concretização de tudo na
vida, tornar inanimado o que é animado, uma inoculação
precoce de morte, ocorre nas crianças quando há o
"splitting forçado", como Bion o denominou no capítulo
V de "Learning from Experience", um pouco antes do trecho
que voce citou. Isso realmente me parece algo digno de nota, principalmente
na sessão de análise - socialmente, ocorre um voracidade
por coisas materiais, e na sessão de análise, ocorre
uma situação de teorias, explicações,
concretizações de toda ordem, e cegueira intuitiva.
O que Philips divulgou, a meu ver, está na obra de Bion,
bem claramente - "sonhar a sessão". Não
é alucinação, e nesse ponto penso que houve
uma dificuldade com a língua portuguesa. Nesse sentido, o
enfoque e ênfase dados por Philips em relação
ao que Bion iluminou, me parecem únicos no mundo. Acho que
nisso, os brasileiros, tivemos uma oportunidade e um interesse que
eu até agora não vi em outros centros. Tenho dicutido
isso bastante com colegas, como Robert Caper; tenho a impressão
que a pessoa que está mais sensível a essa contribuição
de Bion, lá fora, ainda que não tão imersa
na situação de modo explicito, é Parthenope
Bion Talamo. Ela tem uma noção boa do fenomeno alucinatório,
mas realmente a resposta à sua pergunta é não.
Outros colegas que percebem a coisa são os noruegueses e
os suecos -- mas não tanto os franceses, nem os italianos,
e muito menos os ingleses. Esses realmente estão interessados
em outras coisas. O problema de não se interessar por alucinação
na sala de análise - digo, no sentido de detectá-la
-- é embarcar nela. Tenho a impressão, baseada em
minha experiência, que cabe a nós, brasileiros, levar
essa noção para eles, e realmente temos um débito
com Philips quanto a isso. Não digo a nível de IPA,
pois parece que muitos entre os brasileiros entendem que a participação
deve ser política, e não científica.
Tanto ciência, quando tende para idealismo e subjetivismo,
ou quando tende para concretizaçãoes sensorializantes
tipo causa e efeito, como política, poderiam lucrar muito
se prestassem atenção à presença de
alucinação -- poderia ter respeito pela realidade,
sua contrapartida. Muito do que se passa por política está
mergulhado em clivagens, fantasias de poder, importância e
grandeza, tudo alucinatório. Mas a nível científico,
de troca, a área que eu tenho experiência, percebo
que desperta muito interesse. Meu artigo a respeito, publicado na
revista inglesa, tem despertado razoável interesse e intercâmbio,
por cartas, internet, etc. Posso dizer que essa tentativa teve eco
em Turim, as pessoas realmente se interessaram. Há um inglês,
Chris Mawson, um australiano, Ron Spilman, o Gianni Nebbiosi e o
Silvio Merciai, da Itália, que estão muito sensíveis
a isso, assim como algunsamericanos, como Marvin Scolnick, Michael
Eigen, John Stone, e canadenses como Louis Brunet e Dianne Casoni,
além de um especialista em Laplanche, Dominique Scarfone.
Para falar a verdade, não contando algumas dentre as pessoas
que fizeram análise com Philips, foi em Turim que eu encontrei
mais gente interessada nisso - mas foi um interesse despertado pelas
conversas, eles não se preocupavam com isso antes. Penso
que no Rio de Janeiro há pessoas bem alertas para a questão
- você mesmo, Paulo, o Ney e a Fernanda Marinho, o Joaquim
Couto Rosa, a Diva e o José Hamilton de Farias entre outros;
e, de modo especial, o Arnaldo Chuster.
Sternick - Você se referiu, no início da tua resposta,
à "inoculação precoce da morte",
e eu sinto assim, que na sessão de análise, é
sempre presente a questão da vida e da morte, no sentido
de que estamos constantemente na encruzilhada: podemos seguir para
a expansão, ou cair na redução, abrir para
o desconhecido, o inesperado, ou seguir as velhas estrofes ( analista
e analisando podiam cantar: "todo dia eles fazem tudo sempre
igual"...
Sandler (interrompendo) - Vou aproveitar sua deixa, Paulo, para
dizer que vejo a situação de modo um pouco diverso.
Refiro-me à capacidade de "abrir para o desconhecido",
usando tuas palavras. Penso que estamos mais proximos do obstetra-
se não atrapalhar muito (refiro-me à minha própria
experiência quando ajudei em alguns partos, há quase
trinta anos atras) a criança nasce.
Com filhos acho que é a mesma coisa, se nao atrapalharmos,
muito, as crianças crescem. Então, acho que o analista
pode propiciar algo, mas não pode "abrir" para
o desconhecido. Ele pode ajudar a não fechar. Ele pode ajudar
a não se intimidar com o inesperado- que está sempre
ali à nossa disposição. Acho que isso muda
a perpectiva do nosso trabalho. Espero não estar "pegando
na palavra", sei que voce tem esse espírito, mas aproveito
a palavra para expandir a idéia. Dá uma idéia
de noss limitação - ou da minha limitação.
A abertura ou fechamento são do paciente - podemos ajudar
a não incrementar negações ou intimidações
frente ao desconhecido, mas penso que não podemos relamente
dar abertura."Todo dia eles fazem tudo sempre igual" -
aqui, eu acrescentaria, para ilustrar um pouco a questâo da
alucinação - todo dia eles sentem, ou pensam que podem
fazer tudo igual. Alucinam que estão fazendo igual. Sentimentos
de mesmice são um alarme: alucinação está
presente. Nunca é igual, mas parece que nós tentamos
nos enganar e enganar nosso desamparo, com falsos aconchegos e borramos
nossa percepção do que mudou. Porque mudou. Freud
teve aguda percepçâo disso, no artigo "On Transience",
que Philips gostou bastante e passou a citar nos últimos
três ou quatro anos...
Sternick(continuando) - Eu não acho que é o colega
ali do consultório da esquina quem entra nessa, é
uma virtualidade que acomete a todos nós, daí a importância
de estarmos atentos e disciplinados para como vamos atender na próxima
sessão, e que esse encontro tenha extremo valor, apesar do
"mundo de hoje", aparentemente, tentar nos dissuadir de
encontrar sentido em nosso trabalho. De maneira que a vida e a morte,
nesse sentido, estão sempre presentes dentro do analisando,
do analista e entre o par analítico, e o assunto é
complexo, já que o analista, por temer a morte de uma sessão,
ou a morte na sessão, ou, em outra terminologia, a castração,
faz algo pasteurizado: mata a análise e pensa que a salvou.
Eu me lembro que Bion dizia que devíamos ir ao consultório
como se fôssemos para um atelier de arte. Acho que venho percebendo
aos poucos o que ele queria dizer com isso...E o artista frequentemente
passa muito tempo sem produzir nada...mas ele pode ir rabiscando,
conversando...
Sandler - Bom, ai eu acho que ele, o artista, está produzindo.
Tenho visto que os analisando muitas vezes estão numa evolução
que não captamos, mas se aguardarmos, percbemos que evoluíram
algo, em um aparente silêncio pois não conseguimos
ouvir esse silêncio. Às vezes involuem também.
Mas algo aconteceu. Quanto ao rabiscar, acho que isso é meio
comlpicado. Cada vez mais vejo a necessidade de disciplina - nao
é disciplina militar, mas de associações realmente
livres - não libertinas, mas livres, porém associações.
E não é só rabisco. Se descobrirmos o padrão
subjacente ao rabisco, quântico, fractal, então veremos
que há uma disciplina. Pode estar longe de nosso alcance
perceptivo, mas existe. Isso faz a diferença entre alucinação
e realidade, ficção científica e natureza.
Sternick - Vou continuar te provocando um pouco, ok? Falei de
rabisco me referindo ao padrão do funcionamento mental do
analista, que vai conversando, ou indagando, enquanto "rabisca-se",
"desenha-se" na sua mente um padrão subjacente
do psiquismo ("seele", "alma", diria Freud)
da pessoa naquele instante da sessão. Não creio que
haja um posicionamento idealizado do analista no trabalho sem memória
e sem desejo, não há um estado catatônico, creio
mais que haja um funcionamento flutuante de uma posição
para outra: de mergulho e volta à superfície, às
vezes até para tomar "ar", ou levado pela resistência;
de sonhar e acordar, para além, claro, das oscilações
conhecidas pelos kleinianos. O que ele não pode é
se "afogar" no "ar", e chafurdar na superfície.
Vai fazer psicoterapia. Lembra-se do Philips dizendo que ele levou
muito tempo até encontrar essa disciplina? Acho que só
a encontramos se reconhecemos os obstáculos. Aliás,
você se refere magistralmente bem a isso no seu livro "Apreensão
da Realidade Psíquica" (Imago, 1977), a vivência
do não para a obtenção do sim. Esses movimentos
são fascinantes de se experimentar. Há uma frase que
Freud usava, acho que citando um cirurgião: "Eu trato
dos ferimentos, Deus cura". Tirando-a desse contexto e abstraindo-a,
eu diria, que o analista, com todas as flutuações,
se mantiver a disciplina, como você bem lembra, vai experimentando
a sessão, com todos seus zigue-zagues. "Eu experimento
a sessão, Deus intui". Entre ambos, analista e analisando.
Voltando literalmente a Bion, é fascinante, ele falava de
fé, Einstein também se referia a isso, fé no
surgimento de um sentido, no caso da psicanálise, de um padrão
subjacente àquele caos das associações livres,
surgimento de um nome e de uma descoberta...
Sandler - Bom, acho que você fala de "insight".
O momento de passagem para a posição depressiva sempre
depende da posição esquizo-paranóide e ela
continua lá -- a questão é se podemos continuar
tolerando o movimento, a transience (transitoriedade) como disse
Freud, e, hoje em dia, Philips tem lembrado e divulgado. Assim,
apesar do fascínio e segurança do resgate do caos
sem forma, esse prossegue lá, momentâneamente sossegado.
Acho que gerações de analistas já se fascinaram
com isso. No meu modo de ver, a fé é a fé em
que possa exisitir algo real. O cínico nega isso, o delinquente
vive para provar que isso não existe. Ou, como disse Bion,
em "Transformaçoes", o paciente se esforça
por provar que o método alucinatório é superior
ao método analítico. Apela até para "menos-L"
(nota: Love com sinal negativo: -L), que nem tudo é criação
alucinada da nossa mente. A mente aderida em tempo integral e exclusivo
à posição esquizo-paranóide, que poduziu
os idealismos e subjetivismos da história da filosofia, as
metafisicas caricaturais afastadas dos fatos, os dogmatismos autoritários,
descrê e não tem fé que a realidade exista -
e só lhe resta criar uma realidade em que acredita. Não
é realidade, embora faça parta de realidade psiquíca
-- e eu tenho proposto chamar isso de não-realidade psiquica.
A questão me parece muito séria, como tanta coisa
que você enfoca com clareza e maestria, Paulo. A sua pergunta
e comentário me fazem supor que você, Paulo, conheceu
a experiência analítica, que respeita a experiência
com o seio real ou com o amor real. Ou com o ódio real. A
alternativa é o cinismo. Infelizmente, tenho que usar termos
que podem soar religiosos, mas podemos também usar a terminologia
dos "pensamentos sem pensador". Se mantivermos fé
que existem pensamentos sem pensador, uma realidade que está
ali, aguardando um pensador que a pense, um músico que a
cante, um poeta que a verbalize, um analista que a interprete, a
realidade do paciente, o desconhecido, bem, então poderemos,
como Charcot e Freud, aguardar até que o seu padrão
emerja-- é um padrão, mas paradoxalemente é
o seu padrão também, ao mesmo tempo, formulado do
modo que podemos, de acordo com nossa intuição e experiência.
Seu, quer dizer, do analista e do paciente, e dos dois. Pois vai
emergir - caso possamos viver o tempo suficiente, ou termos paciência
suficiente sem buscá-lo irritavelmente, sem tentarmos raciocinar.
Digo que é sério, pois há pessoas que não
podem experimentá-la e descambam para o ceticismo e para
o cinismo.
Meu pai, que era analista e amava a psicanálise e o ser
humano, inclusive tendo sido médico com experiência
em urologia e ginecologia, trabalhou uns 25 anos com prisioneiros
na penitenciária. Ele achava que os delinquêntes não
eram personalidades posicopáticas, com base em sua experiência
e em Melanie Klein. Pena que ele faleceu - pois tenho conhecido
uns que eu acho que são delinquentes, mas são espertos,
e ficam fora das prisões. Assim como muitos loucos estão
fora dos hospícios.
Às vezes penso que o terror deixa as pessoas indisciplinadas
e incontinentes quanto à sua delinquencia e aos seus aspectos
psicopáticos.
Meu avô jamais se reconciliou por ter que matar alemães
que pulavam dentro da trincheira onde ele estava, como sargento
do exército russo. Mas há pessoas que, como os kapos,
enterraram e lidaram com os ossos de seus semelhantes cremados.
Tenho suspeitado que, em alucinação, muitos se sentem
aterrorizados assim, e são capazes de esmurrar um semelhante,
ou ocuparem postos de mando e estimularem em si delírios
de poder. Eu esperava que isso não ocorresse em instituições
psicanalíticas, ou entre os músicos, ou artistas -
ou entre os médicos, os professores e os políticos.
Parthenope Bion nos disse que sua visão de infância,
quanto aos psicanalistas, era de que eles tinham "um olhar
doce e compreensivo". Mas, como observou Bion, pouquíssimos
na história ocidental tiveram competência, ou condições
psíquicas para ocupar as funções que ocuparam.
E, quando aparecem, podem ser exterminados pela inveja de seus semelhantes
-- penso em Henrique V, Churchill, Olof Palme, Eisenhower no Dia
- D, Woodrow Wilson, Bruno Kreisky. Você sabe quem foi o Bruno
Kreisky? Mas penso que os delírios de poder e de fama já
levam as pessoas para postos que concretizem externamente tudo isso
que se refere a posição esquizo-paranoide. Nesses
casos, não há caos, desconhecido, insight, fato selecionado
- só há o establishment.
Sternick - Parthenope Bion disse como é hoje a sua (a dela)
visão adulta dos psicanalistas? E diga-me, com sua própria
visão, quem foi Bruno Kreisky?
Sandler - Bom, sobre Parthenope, acho que não dá
para dizer, a não ser como fasificação. Ou
seja, dizer o que um outro disse. Fica um diz-que-diz-que...hearsay,
como dizem os ingleses. Eu posso me lembrar de alguma coisa que
conversamos...mas isso vai ser minha lembrança e minha opinião,
não mais a dela. Eu me referi a algo que ela escreveu, e
está publicado, então qualquer um pode ler. Isso difere
do que ela "disse". Quem foi Bruno Kreisky? Ah, isso é
mais facil. Foi um dos mais queridos governantes desse século.
Ele foi membro do parlamento na década de quarenta, depois
da guerra, e na de cinquenta, ministro das relações
exteriores, chanceler, primeiro-ministro austríaco durante
um bom período da década de setenta e oitenta, algo
em torno de uns 14 anos, sendo re-eleito várias vezes.
Andava na rua comendo salsicha como qualquer cidadão e foi
ele quem criou uma política que ficou famosa com Willy Brandt,
fazendo a primeira abertura com os países comunistas. Seu
sucessor foi Kurt Waldheim!! E agora os detalhes: Kresky, como Abraham
Lincoln, havia sido advogado na década de trinta, socialista,
com causas práticas e reais defendidas: advogado e judeu,
ainda por cima. A Gestapo o prendeu mas ele escapou e sua volta
simplesmente conciliou comunistas, ex-nazistas como Waldheim. Ele
foi o primeiro governante do mundo, antes ainda de vários
países árabes, a reconhecer a OLP, e talvez o primeiro
de origem do povo judaico a cumprimentar Arafart publicamente.
Parece-me que era realmente uma pessoa competente. Isso é
tão raro na política...
Sternick - Em Turim , na comemoração do centenário
de Bion, houve um painel "Towards the future: psychoanalysis
and the internet". Você próprio apresentou um
trabalho, eu vi no programa científico, 'Have psychoanalysts
anything to do with the web?" Como foram lá os debates
sobre esse assunto e o que você apresentou nesse paper?
Sandler - Isso foi um negócio meio curioso. Os debates
prolongaram-se por um dia inteiro e foi uma espécie de feira,
muito cordial e divertida, com pessoas do mundo inteiro conectadas
ao salão em Turim, com os últimos recursos, inclusive
um sistema de histórias em quadrinhos, em que as pessoas
adotam um personagem para si e "falam" preenchendo balõezinhos.
Precisa ser na verdade uma versão moderna do dedo mais rápido
do oeste, só que agora no teclado. É muito dificil
acompanhar, realmente fazer um diálogo nessa base. A gente
se esquece dos personagens e fica um tom de brincadeira que não
me pareceu muito útil -- não mais do que uma curiosidade,
como escrever na cabeça de um alfinete. A discussão
girou muito sobre...terapia grupal, ou não, por Internet,
coisa bem difundida nos últimos dois anos nos EUA. Essa parte,
sinceramente, me parece ser pertinente ao terreno das transformações
em alucinose.
O meu trabalho versou sobre meus preconceitos iniciais quanto a
internet e psicanálise, o que motivou inclusive o título
do estudo.
Isso se devia, segundo pude perceber, às minhas resistências
quanto ao novo. Mas o "site" de Turim, feito por um dínamo
humano dotado de uma capacidade amorosa rara, Silvio Merciai, um
psiquiatra / psicanalista de Turim, se mostrou algo realmente útil,
informativo e 'linkou' dezenas de pessoas, provendo um espaço
para um debate franco, com uma abertura que não se vê
nas insitutições. Há mais psicanalise e mais
obra de Bion no site, na "list" (o entrevistado se refere
a uma lista de discussão que funciona na internet sobre o
pensamento de W.R. Bion) como eles a chamam, do que em muitos livros
e estudos ditos psicanalíticos. A possibilidade de associar
livremente foi recuperada de algum modo, desde que ela tem sido
expulsa das reuniões psicanaliticas promovidas pelos establishments
de todos os tipo. Espero que os sites não virem establishments,
pois no momento eles não são. Teve tanta repercussão
que o Silvio foi quase que obrigado a mantê-lo mesmo depois
de Turim! Ao longo da lista de discussão, houve situações
humanas sérias: duas pessoas faleceram, uma suicidou-se,
outra ficou gravemente enferma, mas depois sarou, e quando nos encontramos
em carne e osso lá na bella Italia, durante o simpósio
do centenário de Bion, parecia que nos conhecíamos.
Alguns diziam, voce "show up", ou seja, se mostra, igual
ao que é, na Internet, ou ao vivo. Fiz realmente bons amigos
e a troca científica foi real e duradoura - continua até
agora, com leituras mútuas de artigos, comentários
- novamente, como não consigo em oportunidade mais vivas,
por exemplo, como poderia ser em uma sociedade de psicanálise.
O tempo vai dizer se isso se deve a mídia, a WEB, ou à
novidade da coisa, ao fato de ser uma primeira geração
que ainda não se "establishmentificou" ("amancebou-se"
, como dizia Jô Soares na época em que ele ainda costumava
ser o Jô Soares). Achei que havia surpreendentes semelhanças
entre essa atividade na WEB e a psicanálise - as pessoas
eram sinceras, e como dizia Freud: sem amor à verdade não
há psicanalise. As pessoas se comunicavam por associações
livres, os assuntos iam se encadeando em um todo surpreendentemente
coeso, para quem lê as contribuições a posteriori,
e, por fim, a terrível privação sensorial que
a WEB impõe guarda de algum modo uma relação
com a privação sensorial da situação
analitica, a abstinência. Não olhamos nosso interlocutor,
como não olhamos o analista.
No meu trabalho, eu coloquei uma série de questões
que me pareciam pertinentes, tentando lidar com esse uso que as
pessoas tentam fazer, de terapia por internet -- houve até
um documentário da NBC News de 45 minuots que foi exibido
lá , com os usuais americanos (pacientes e analistas) dando
testemunhos, um "analista" na frente de seu computador,
e uma paciente contando como foi salva do suicídio pela Internet.
Como usar a intuição, quando a experiência emocional
não pode ser experimentada, nem observada, por algo que,
na verdade ,é apenas estímulo elétrico transformado
em pseudo-imagem? Como a experiência emocional de vínculos
entre objetos poderia existir nessa situação? A pessoa
pode raciocinar, responder, estimular, seduzir ou compreender na
WEB, pode ser agressivo, originar mal-entendidos, até ser
grosseiro (houve uma bronca geral quando um membro foi grosseiro).
Mas pode-se experimentar reverie sem a presença física
de duas pessoas, fora do domínio da alucinação?
Pode a experiência que transcende a sensorialidade dispensar
a porta de entrada sensorialmente apreensível? Em que extensão
a WEB compartilha de características inanimadas, alheias
ao trabalho psicanalítico? Eu penso que a Internet pode oferecer
um contato mais direto e sincero, por menos elaborado, entre psicanalistas
conversando entre si. Há outras vantagens óbvias como
a veloz transferência de dados de bibliografia e acesso à
informação de modo mais barato por independer de papel,
imprensa, etc. Mas fora disso, poderiamos dizer -- é como
eu penso que a Internet pode oferecer algo ao movimento psicanalítico,
e aos psicanalistas, mas não teria nada a oferecer à
Psicanalise mesma. Complemento a resposta dizendo que fiquei muito
surpreso com minha inclusão entre os painelistas da Internet,
pois fui meio desajeitado no meu inicio de "link" com
a WEB e mandei as idéias como contribuição
espontânea.
Sternick - Você ainda se lembra de algumas das idéias
que foram discutidas em Turim, sobre as conexões de Bion
com outros discursos atuais, e com outros pensadores analíticos,
como Lacan?
Sandler - Sabe, não é possivel lembrar de alguma
coisa que a gente não aprendeu...Eu tive uma boa parte do
meu horário comprometido com a coordenação
de uma mesa (e o coordenador tinha um papel muito ativo, de síntese
também, e comentário de cada trabalho do período
- três ao todo); e com minhas próprias apresantações,
e a gente ficava na mesa durante as apresentações
dos colegas. Isso significa que cada pessoa via muito pouco, e isso
foi a marca de Turim: qualidade em prejuízo de quantidade.
Mas posso te dizer que percebi uma tendência a relacionar
de modo mais claro Bion a Freud; uma tendência a prestar atenção
à analise de psicóticos e de grupos. A interdisciplinaridade
não foi tanto de autores, mas de temas mesmo. É só
uma impressão.
Sternick - Deixei para a última pergunta, até para
que você possa se estender um pouco mais, o asunto de "Uma
Memória do Futuro", a trilogia de Bion que você
teve a ousadia de traduzir para o português (1° volume,
Martins Fontes; 2º e 3º volume, Imago). Quase se trata
de uma obra"maldita", pouco lida, renegada até
pelos mais entusiastas admiradores do psicanalista... Será
porque exatamente essa obra não se presta a atender, de maneira
alguma, à demanda teoricista, acadêmica, institucionalizante,
demanda esta capaz até de assimilar autores tão avessos
à essa cooptação?
Sandler - Vai ser dificil me estender em algo que você já
disse tudo. Concordo em gênero, número e grau. Eu só
acrescentaria que por "demanda teoricista", eu entenderia
explicações lineares de causa e efeito que são
pura alucinação, vinculada à institucionalização
do próprio processo de pensar, na mente de cada um, e que
se expressa por marfinizações de todos os tipos. Um
amigo irlandês, um rumeno, e um italiano, chamam isso -- sem
se conhecrem, e são todos psicanalistas interessados em Bion
-- de 'wooden psycho-analysis' (mais ou menos traduzido: psicanálise
madeirificada). No 'War Memoirs', de Bion, há um texto de
1972 que parece ter sido municiado pelo "Atenção
e Interpretação" . Bion escreve que, mais velho,
percebeu que os inimigos não eram os alemães, os Boches.
O inimigo é o establishment -- está textual. Platão
tinha horror de políticos, depois do que eles fizeram com
Sócrates. Acho que vale a pena dar uma olhada nos comentários
de Frank Philips sobre instituição (ele usa o termo
"horror") na palestra que deu na Sociedade Brasileira
de Psicanálise de S. Paulo e que saiu publicada no livro
"Ensaios Clinicos em Psicanalise" (veja-se Editora Imago,
organização de P.C. Sandler)
Sternick - Gostaria de agradecer a oportunidade de nossa conversa
para os navegantes de "Gradiva" e te deixar à vontade
para acrescentar algo que gostaria de dizer por ocasião da
comemoração do centenário de W.R. Bion e em
relação também aos temas que tratamos.
Sandler - Bom, na verdade sou eu quem agradeço a oportunidade,
que se para vocês pode ter sido oportuna -- como espero, talvez
otimistamente, e pretenciosamente, que seja, pois tenho o maior
receio de provocar a perda de tempo de outras pessoas, para mim
a palavra oportunidade tem outro sentido...Bion disse que um trabalho
não publicado não é umtrabalho científico.
Como ele ficou de 1961 até 1979 sem poder publicar nada no
establishment psicanalitico oficial de sua propria terra, sofrendo
agressões de todo tipo, acho que ele sabia do que estava
falando...Em Uma memoria do Futuro, ele ressaltou que um psicanalista
que não possa suportar ser chamado de louco, não está
pagando o preço de ser psicanlista, e mesmo isso ele teve
que tolerar, quando já um respeitavel senhor idoso e experiente.
Parece que respeitável ele sempre foi, por força inclusive
de seu treinamento militar e 'imposing' tamanho fisico...Mas gostaria
de expressar com sinceridade minha profunda gratidão, que
não posso retribuir a altura, pela 'loucura' de Gradiva,
esse órgão que semrpe foi progressita, corajoso e
íntegro, pelo apoio e suporte com que tenho sido brindado,
em poder publicar o que penso.
Acho que há algo a acrescentar: Bion percebia a idolatria
que se fazia em torno dele, e penso que um perigo sério ronda
a continuidade e preservação de sua obra. Refiro-me
à ereção de ministros e apóstolos que
se auto-proclamam donos de sua herança. Isso já esta
ocorrendo. Pessoas que dizem que outros colegas estão errados,
e eles é que estão certos, são os verdadeiros
"donos" do verdadeiro Bion. Acho isso profundamente lamentável,
um requiem. Usar logo a sua obra para municiar fantasias de superioridade!
Ele, que tanto colaborou na prática para que isso não
ocorresse, com sua elucidaçao dessa fantasias com os aspectos
não elaborados da posição esquizo-paranóide.
Isso inclui comparações em termos de superioridade
de sua obra com a de Freud ou a de Klein ou a de quem quer que seja.
Tenho convicção de que ele ficaria muito desgostoso
disso tudo. Sua filiação a Freud é clara e
expressa em seus estudos.
Um voto para o futuro: que a pecha de complicado possa ir se desvanescendo,
pois ela me parece injusta. Sua família, com quem tenho contato
pessoal de amizade, é uma família simples. Ele era
simples.
Olhava uma pedra, um torrão de lama e se deleitava -- um
psicanalista que teve muito contato com ele, e que, na minha opinião,
é um conhecedor real de sua obra, Ronaldo Mendes de Oliveira
Castro, de Brasilia, um dia me relatou sua reação
ao ser brindado com a oferta de sofisticados vinhos franceses, na
época difíceis de conseguir no Brasil: "prefiro
um suco de laranja", disse Bion. Penso que sua obra é
igualmente "simples", mas isso não quer dizer "facil".
Demanda muita atenção para ser lida. Um trabalho realmente,
não é um charuto para o homem desocupado...cada linha,
cada vírgula, às vezes, é um trabalho literário
de ouriversaria, e foi polido e desenvolvido, então demanda
isso. Bom, demanda também experiência de analise. Acho
que sem análise e sem atender pacientes durante anos, tanto
a obra de Freud, de Klein, como a de Bion, podem parecer complicadas.
Pois, sem análise, as pessoas tentam entendê-las. Não
há o que entender nelas. Como não há em análise.
Como na vida. Viver é preciso.
Paulo Cesar Sandler é psicanalista-didata da Sociedade
Brasileira de Psicanálise de São Paulo e acaba de
lançar uma trilogia intitulada "Apreensão da
realidade psíquica" (Editora Imago). Traduziu a trilogia
"Uma Memória do Futuro", de W.R. Bion, e escreveu
ainda "Fatos, a tragédia do conhecimento na psicanálise"
(Imago) e "Uma introdução a ‘Uma Memória
do Futuro’ (Imago).
E-Mail de Paulo Sandler
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