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Bion - Uma Nota Biográfica

Ney Marinho

Qualquer psicanalista sabe quão difícil é falar sobre uma vida. O respeito à privacidade, à intimidade, ao indívíduo é a primeira condição para o trabalho analítico. Todo aquele que tenha se submetido à experiência de uma psicanálise sabe também quão delicado é falar sobre si mesmo, quer seja contar um sonho, uma lembrança de infância ou um pensamento fugaz em uma sessão de análise.


Bion entregou à sua esposa - Francesca Bion - um manuscrito autobiográfico que foi postumamente publicado em dois volumes, acompanhados por cartas a seus filhos e a Francesca: "The Long Week-End" e "The Other Side of Genius", foram os títulos que receberam. Estas publicações nos deixam mais à vontade para traçar um breve roteiro biográfico de uma personalidade, cujas marcantes experiências se refletem na sua obra de forma nem sempre visível ao leitor desavisado.


Wilfred Ruprecht Bion nasceu em Muttra - Punjab, India - a 8 de setembro de 1897, descendente pelo lado paterno de huguenotes franceses que chegaram à Inglaterra após uma passagem pela Suiça. Os Bion radicaram-se na Índia, muitos dedicando-se ao trabalho missionário e serviços públicos. Da linhagem materna pouco sabemos. Seu pai era um engenheiro e sua mãe dedicava-se exclusivamente aos afazeres domésticos. Teve uma irmã, mais moça, Edna. O contato com os indianos era muito restrito, como era usual por parte dos colonizadores, exceto através de uma ama que frequenta muito a parte inicial de sua autobiografia.


Aos oito anos deixa a Índia, para onde nunca retornará, sendo levado pela mãe à Inglaterra para continuar seus estudos. Seguem-se vários anos de internato, longe dos pais e irmã.


Aos dezenove anos alista-se no exército inglês durante a primeira grande-guerra. Destaca-se no campo de batalha, recebendo uma das mais altas condecorações: a D.S.O. (Distinguished Service Order). Fica engajado de janeiro de 1916 até o natal de 1918. A brutalidade da guerra o acompanhará por toda a vida, em seus sonhos, pesadelos, reflexões e conferências, como a que realizou em São Paulo, sessenta anos após (1978).


O retorno à vida civil é doloroso. Cursa a universidade - Oxford - estudando inicialmente História e Francês. Leciona por dois anos e, então, inicia seu curso de medicina. A prática de esportes - rugby e natação - em que se destacará, ameniza a melancolia que descreve como o tom predominante de seus tempos universitários.


Se em Oxford encontra Paton - um professor de filosofia, especialista em Kant, autor de dois volumes de comentários sobre a "Crítica da Razão Pura"- na faculdade de medicina o impressionará Wilfred Trotter, o grande cirurgião e autor de "Instincts of the Herd in Peace and War", que aliava qualidades humanas às técnicas, tornando-se um modelo para o jovem assistente. Destas duas personalidades, ficarão influências decisivas: Kant e a valorização da relação humana, essencialmente ética, médico/paciente.


Inicia sua prática médica, interessa-se pela Psicanálise e procura John Rickman para analisar-se, pretendendo uma posterior formação analítica. Rickman, analisando de Freud e um de seus primeiros tradutores, analisara-se também com Melanie Klein. A experiência com Rickman durou de 1937 a 1939, interrompida pela guerra mas deixando uma forte admiração e respeito pela seriedade do trabalho analítico que será sempre recordada por Bion. A análise não pode prosseguir após a guerra uma vez que ambos se tornaram companheiros em um revolucionário projeto de trabalho com grupos, na reabilitação de combatentes. Partiu de Rickman a sugestão de que procurasse Melanie Klein para fazer sua formação analítica.


O trabalho com grupos no exército britânico encontrou resistências para o seu prosseguimento, mas juntamente com a experiência na Tavistock Clinic deu origem aos textos agrupados em "Experiências com Grupos", onde se encontram as bases da psicanálise de grupos, revelando uma criatividade e genialidade que o tempo só virá explicitar.


Aos 43 anos casa-se com Betty Jardine - Elizabeth McKritick Jardine - atriz inglesa que estava em pleno desenvolvimento de uma carreira promissora. Apesar da guerra, são anos de felicidade. Afinal, após dez anos de uma decepção amorosa que o levara a procurar pela primeira vez um tratamento psicológico, também decepcionante, reencontra Bion a paixão por uma mulher extremamente estimulante. Além do teatro, Betty dedicava-se à fotografia e estudo de línguas. Reencontrara também com Rickman a confiança na psicanálise, após a frustrada tentativa psicoterápica que mencionamos. Contudo, sua felicidade conjugal durou apenas cinco anos. Encerrou-se tragicamente com a morte de Betty, dias após o parto de Parthenope, sua primeira filha, hoje em dia, eminente psicanalista, radicada na Itália (Torino). O episódio que será amargamente rememorado em sua autobiografia agravou-se pelo fato de estar Bion, na ocasião, na Normandia, em missão militar.


Terminada a guerra, retoma sua formação, em 1945, iniciando então sua análise com Melanie Klein que se prolongará até 1953. É qualificado como analista em 1947, aos 50 anos portanto, e em 1950 torna-se membro da Sociedade Britânica de Psicanálise, após apresentar seu trabalho: "The Imaginary Twin". Este será o primeiro de uma série de sete, surgindo cada um de dois em dois anos, que culminará com "A Theory of Thinking"(1961).Trabalhos calcados em sua grande experiência clínica com pacientes psicóticos e que trazem uma inconfundível originalidade, tendo sido reeditados em 1967 sob o título: "Second Thoughts". Os trabalhos - todos se tornaram clássicos da psicanálise - foram reeditados sem alterações, sendo contudo acrescido um capítulo final onde comenta cada um, à luz de nova compreensão da experiência analítica.


Os anos 50 e 60 são marcados por grande êxito profissional. Diretor da clínica da Sociedade Britânica de 56 a 62, presidente da Sociedade de 62 a 65, publica sistematicamente textos expondo suas revolucionárias contribuições à Psicanálise: "Learning from Experience", "Elements of Psycho-analysis" e "Transformations".


Impossível dissociar esta explosão de criatividade de dois encontros que foram decisivos em sua vida: Melanie Klein e Francesca. Esta será sua companheira em todos os momentos, uma paixão que durará até sua morte, conforme suas cartas registram. Casam-se em 1950 e têm dois filhos: Julian e Nicola.


Em 25 de janeiro de 1968, convidado por psicanlistas californianos interessados no pensamento kleiniano, parte para Los Angeles, onde deveria permanecer poucos anos mas lá se instala com sua família para uma estadia que durou mais de dez anos. Reencontra na Califórnia "a verdadeira chuva, o verdadeiro sol" de sua infância na Índia. A geografia lhe desperta seus "Wild Thoughts". Continua a produzir obras da maior importância como "Attention and Interpretation"(1970), dá conferências, seminários clínicos, recebe analistas para re-análise de várias partes do mundo, escreve a trilogia de "novelas psicanalíticas"- "Uma Memória do Futuro" - exerce, em suma, em toda a sua plenitude, sua capacidade de pensar livremente, pensar qualquer pensamento, refletir e convidar a todo aquele que se dispor, independente de filiações psicanalíticas, a pensar a Psicanálise: uma idéia à procura de um pensador. Encontra também a resistência e a intolerância que sempre acompanham e tentam impedir o desenvolvimento de qualquer reflexão comprometida exclusivamente com a busca da verdade, principalmente, se tal pensamento reconhece a verdade como inalcançável mas imprescindível como ideal regulador. Bion manteve tal postura, às custas de grandes sacrifícios e despojamentos de títulos e honrarias, durante toda a sua vida. É neste período - anos 70 - que vem por quatro vezes ao Brasil. Sempre convidado por Frank Philips, analista britânico radicado em São Paulo, Bion esteve entre nós em 73, 74, 75 e 78. Estas visitas marcaram em definitivo a psicanálise brasileira, tal a receptividade que suas idéias receberam. Fenômeno semelhante ocorreu em diversas partes do mundo.


A 8 de novembro de 1979, dois meses após instalar-se em Oxford, uma grave leucemia acarreta sua morte. Seu humor fino era um traço constante de sua personalidade. Dizem que ao saber do diagnóstico teria reagido com as seguintes palavras: "A vida sempre nos reserva surpresas... em geral desagradáveis".


Procuramos nesta nota fornecer aos participantes do Simpósio alguns dados da trajetória de uma personalidade tão fascinante quanto sua obra. Talvez alguém encontre uma contradição nesta afirmação, pois, um dos legados mais importantes de Bion foi a idéia da independência dos pensamentos de um pensador, sobretudo os pensamentos verdadeiros. Contudo, lembramos que Kant, ao definir o gênio, nos diz que: "... o produto de um gênio (segundo aquilo que nele deve ser atribuído ao gênio, não à aprendizagem ou à escola) é um exemplo, não para a imitação (pois então estaria perdido aquilo que nele é gênio e constitui o espírito da obra), mas para a sucessão, para um outro gênio, que através dele é despertado para o sentimento de sua própria originalidade, para exercitar de tal modo a liberdade de coação de regras, na arte, que esta, com isso, adquire ela mesma uma nova regra, e nisso o talento se mostra modelar."

Ney Marinho é membro-titular da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro