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O AMOR COMO VÍNCULO
REFLEXÕES SOBRE OS VÍNCULOS L (AMOR)
E -L (-AMOR)
Ney Marinho
1 - INTRODUÇÃO
Se falar sobre o amor é algo que atemoriza qualquer psicanalista
experiente, evitar o tema seria uma atitude pouco condizente com
a realidade de nossa experiência clínica cotidiana.
Os motivos do referido temor penso que se estendem desde o risco
da banalização até o do encontro com os limites
da linguagem. No que diz respeito à banalização,
é do conhecimento de todos a vasta literatura sobre o tema,
geralmente desprezível, que reserva sòmente a gênios
- como Sócrates, Platão ou Shakespeare - a legítima
autoridade para esclarecer e aproximar-nos dos mistérios
do amor. Acrescente-se que mais do que a literatura, a própria
vida dos homens se encarregou de banalizar, confundir, mistificar,
uma faculdade própria da espécie, levando alguns ao
ponto de questionar se existe tal coisa como o amor, ou, se seria
mais uma ficção criada pelos ociosos de todos os tempos
- filósofos, poetas, psicanalistas. Contudo, como um primitivo
que é, o amor bate à nossa porta quando menos esperamos
e sua presença, ou ausência, se impõe, prescindindo
de definições ou apresentações prévias.
Na nossa prática cotidiana está presente desde a entrevista
inicial até o término da mais longa das análises,
oculto sob sintomas, "acting out", ou, por uma ausência
constrangedora que marca um vazio que tem sido objeto de muitos
trabalhos recentes. Desta forma não vejo como evitar o tema,
mesmo sabendo que estamos nos limites da linguagem, o que mencionei
como a segunda ordem de temores e que considero a mais importante.
1.1 - "O BANQUETE" - DIÁLOGO TERMINÁVEL/INTERMINÁVEL
É conhecido o convite que Agatão fez a seus amigos
- Fedro, Pausânias, Erixímaco, Aristófanes e
Sócrates - a debater o tema, em comemoração
à sua vitória no concurso de tragédias. Deste
encontro temos notícias graças aos cuidados de Platão
que o registrou em "O Banquete", texto que há mais
de dois mil anos nos ilumina. Tomaremos "O Banquete",
especialmente o discurso de Sócrates, como referência
básica para tudo o que for dito a seguir. Trata-se de um
diálogo terminável/interminável, dependendo
da noção de "fim" que adotemos. Aproxima-se,
deste modo, do diálogo analítico: transita entre o
conhecimento ("transformação em K") e a
experiência pessoal inefável ("transformação
em O"), sendo esta a nossa compreensão do silêncio
de Sócrates ante a insistência de Alcibíades
em saber, apreender, o amor. Difere de outros diálogos platônicos
- como o Crátilo - que são aporéticos, concluindo
com uma necessária aporia, ou seja, duas soluções
conflitantes sem saída.
O discurso de Alcibíades ilustra a intolerância aos
limites da linguagem. A desmesurada ambição de Alcibíades
foi por várias vezes mencionada por Platão, a ponto
de dizer, na República, que Alcibíades queria edificar
o estado antes de edificar o "estado dentro de si mesmo".
Tomo essa citação de Werner Jaeger ("Paidéia"),
uma vez que mostra de forma muito atual, para nós psicanalistas,
a resistência em permitir a "transformação
em O", que muitas vezes fica obscurecida por um aparente desejo
de conhecer.
Ainda sobre "O Banquete", a aproximação
que faço entre este diálogo e o analítico,
entendo-a da seguinte maneira: o texto de Platão pode ser
visto como um amplo painel sobre o amor, cada discurso tendo uma
autonomia e encerrando-se em si mesmo, ou, como uma sequência
de discursos que permitem uma "ascese" - a contemplação
do belo, do bem, do verdadeiro - personificada por Sócrates.
A segunda possibilidade de leitura nos coloca, de imediato, perante
a questão da teleologia. Restringindo-me ao campo psicanalítico,
penso que é uma questão que não pode ser evitada.
Atribuir uma finalidade à Psicanálise traz uma série
de problemas, contudo, retirar esta dimensão da teoria psicanalítica
traz outros tantos. A noção de "fim" torna-se
então decisiva. Restringindo ainda mais nossas considerações,
agora exclusivamente ao domínio do amor (vínculo L),
acho que posso passar ao próximo tópico.
1.2 - A PSICANÁLISE E O AMOR
Freud, ao pensar a Psicanálise, tornou-se um legítimo
convidado ao "Banquete". Atualmente, é impossível
falar sobre o amor sem ouvir o que a Psicanálise tem a dizer.
Entretanto, tal como ocorreu em relação à Ética,
à Estética e à Teoria do Conhecimento, a Psicanálise
ampliou nosso discurso mas não pretende responder às
questões que esses temas propõem, respeitando seus
limites. Este é o nosso entendimento da contribuição
de Freud e de seus grandes seguidores - como Abraham, cuja teoria
da libido pode ser vista como uma rigorosa tentativa de dar conta
da história natural do amor objetal - dos quais vamos tomar
Bion como a principal referência.
A teoria da libido de Abraham, com sua classificação
em diversas fases e as equivalentes relações de objeto,
tem uma forte conotação teleológica. Sugere
um desenvolvimento, uma meta para a libido e, consequentemente,
para o ser humano. É uma versão moderna de "ascese".
Melanie Klein segue na mesma direção, superando-a
em certa medida, ao formular as duas posições básicas
- esquizo-paranóide e depressiva - em função
das correspondentes relações objetais. Tais teorias,
muitas vezes criticadas exatamente por esse viés teleológico,
permitem discursos coerentes sobre o amor, habilitando-se legìtimamente
a participar do ‘Banquete". Freud foi mais cauteloso
sobre o tema: "... We know too little of the nature of love
to be able to arrive at any definite conclusion here ...",
diz ele ao falar sobre "O Homem dos Ratos", ocasião
em que cita o discurso de Alcibíades.
Em que pese minha concordância com Abraham e Melanie Klein,
considero que Bion trouxe na mesma linha, uma importante contribuição
através dos tipos de relação continente/contido,
permitindo-nos pensar com maior liberdade as relações
de objeto. O pensamento teleológico não fica afastado,
uma vez que tudo indica ser uma forma necessária de descrevermos
os fenômenos mentais. Qualquer compreensão pressupõe
atribuirmos "metas", "desejos", "intenções".
Um exame criativo e rigoroso desta questão pode ser encontrado
em "Explanation and Understanding" (von Wright).
1.3 - A CONTRIBUIÇÃO DE BION. NOÇÃO
DE VÍNCULO E DE TIPOS DE RELAÇÃO
Dada a finalidade deste texto, pretendo expor sumàriamente
algumas idéias sobre as noções de vínculo
e de tipos de relação, a partir da obra de Bion, que
julgo úteis na clínica psicanalítica. O caráter
sumário, pode dar margem a mal-entendidos. Na tentativa de
superá-los, anexo um Apêndice, onde procuro desenvolver
certos pontos.
Foi a partir da análise de pacientes psicóticos que
a importância do estudo dos vínculos entre objetos,
quaisquer que eles sejam (idéias, sentimentos, figuras internas,
relações externas, paciente/analista, palavra/ significado
e assim por diante), se impôs a Bion. Isto aponta para nossas
regiões abissais. Falar de vínculo é falar
de algo primitivo - tanto no sentido filo e ontogenético
como no sentido lógico - de algo básico para o funcionamento
mental assim como para a sua descrição. Os vínculos
- Conhecimento (K), Amor (L) e Ódio (H) - propostos por Bion,
funcionam como termos primitivos de seu sistema. Desta forma, não
permitem definições precisas , mas pedem uma reflexão.
Tem a vantagem de ser econômicos - são apenas três
- e de uma abrangência que possibilita uma utilização
para qualquer referencial psicanalítico.
Relacionarei neste texto a noção de vínculo
a de tipos de relação. Penso que os vínculos
que Bion propõe: K, L e H e suas contrapartidas, pela ação
da pulsão de morte, -K, -L e -H, determinam os tipos de relação
continente/contido entre os objetos psicanalíticos. Utilizarei
a última formulação de Bion sobre os tipos
de relação, descrita em "Atenção
e Interpretação", por considerá-la a mais
rica para futuros desenvolvimentos. No Apêndice desenvolvo
os motivos de tal escolha. No texto mencionado ele descreve: "Por
‘Comensal’ entendo um relacionamento em que dois objetos
compartilham um terceiro para vantagem dos três. Por ‘Simbiótico’
entendo um relacionamento em que um depende do outro para vantagem
mútua. Por ‘Parasítico’, pretendo apresentar
um relacionamento em que um depende do outro para produzir um terceiro,
que destrói os três". (Atenção e
Interpretação, cap. 10).
2 - O VÍNCULO L
André Malraux - em "A Condição Humana"
- descreve um episódio, no qual Kyo - personagem central
do romance - ouve de sua amante (May) que esta o traíra com
um antigo amigo que se encontrava prestes a morrer. A cena se passa
enquanto ambos - Kyo e May - aguardam as instruções
para iniciar o levante de Shangai, episódio que, na realidade,
Malraux presenciara em 1927, chamando-lhe a atenção
um jovem - líder do movimento e que mais tarde, segundo alguns
biógrafos do autor, será identificado como o ilustre
Chou-en-Lai. As mesmas fontes sugerem que o trecho a ser discutido
teria caráter autobiográfico. As relações
entre arte/vida se evidenciam, daí nossa escolha desse texto.
Voltando aos nossos personagens: Kyo recebe, com aparente indiferença,
as palavras de May. Afinal, ambos revolucionários, engajados
numa luta de vida ou morte, tinham um pacto entre si de maior respeito
possível pela liberdade de cada um, não havendo lugar
para rasteiros sentimentos, como no caso, o ciúme. Contudo,
a aguçada sensibilidade de Kyo se impõe às
sofisticadas intelectualizações do jovem político,
saturado de concepções científicas sobre os
homens e sua história. Uma sucessão de pensamentos
e emoções ocorrem. Malraux as acompanha com aquela
intimidade que nos é vedada e, assim, permite que nos aproximemos
de certas experiências emocionais que o trabalho cotidiano
nos insinua e a literatura psicanalítica, na tosca linguagem
científica, tenta descrever em certos trabalhos obscuros,
talvez, pelos mesmos motivos que num primeiro momento turvaram Kyo.
Vejamos o que Malraux nos conta:
"... Ele continuava contudo a olhá-la, a descobrir que
ela podia fazê-lo sofrer, mas que há meses, olhando-a
ou não, ele não mais a via; algumas expressões,
por vezes ... Este amor frequentemente tenso que os unia como uma
criança doente, este sentido comum de suas vidas e de suas
mortes, este acordo carnal entre eles, tudo desaparecia diante da
fatalidade que embaça as formas que saturam nossa visão.
‘Eu a amaria menos do que penso ?’, indaga-se Kyo. Não.
Mesmo neste momento, ele estava certo de que se ela morresse ele
não serviria mais à sua causa com esperança,
mas com desesperança, como se ele mesmo tivesse morrido.
Nada, contudo, prevalecia contra o empalidecimento desta figura
enterrada no fundo de suas vidas em comum como na bruma, como na
terra. Ele se recordou de um amigo que viu morrer a inteligência
da mulher que amava, paralisada por meses; parecia-lhe ver morrer
May assim, ver a forma de sua felicidade desaparecer absurdamente,
como uma nuvem que é reabsorvida no céu cinzento.
Como se ela houvesse morrido duas vezes, pelo tempo e pelo que ela
lhe dizia."
May pondera, no diálogo que se segue, a pouca importância
do fato, uma vez que todos - ela, Kyo e o velho amigo - vivem momentos
tão próximos de uma morte iminente. A insurreição
está prestes a eclodir e May trabalha como médica,
num hospital que recebe diàriamente feridos graves da guerra
civil que se aproxima de Shangai. Acompanhando Malraux:
"Entretanto, o ciúme existia, ainda mais perturbador
uma vez que o desejo sexual que ela inspirava repousava sobre a
ternura. Os olhos fechados, sempre apoiado sobre o cotovelo, Kyo
buscava - triste tarefa - compreender ..."
"... O essencial, aquilo que o perturbava até a angústia,
é que ele estava subitamente separado dela, não pelo
ódio - se bem que havia ódio nele - não pelo
ciúme (ou ciúme não seria precisamente isto
?); por um sentimento sem nome, tão destrutivo quanto o tempo
ou a morte: ele não a reencontrava." Kyo rememora May
e continua:
"... Não se esquece o que se quer. Contudo, este corpo
reencontrava o mistério pungente do ser conhecido subitamente
transformado - do mudo, do cego, do louco ... E era uma mulher.
Não um grande homem. Outra coisa ..."
Há uma tentação de escapar à "triste
tarefa de compreender", através do contato sensorial,
sensual, entre os amantes.
Mais adiante, seguindo para o levante, Kyo pensa: "Ainda há
pouco, ela me parecia uma louca ou uma cega. Eu não a conheço,
senão na medida em que a amo, senão como a amo. Não
se possui um ser, senão aquilo que se pode mudar nele, diz
meu pai ... E daí ? ... ‘Ouve-se a voz dos outros com
os ouvidos, e a própria com a garganta’. Sim, sua vida
também é ouvida com a garganta, e a dos outros ? ...
Para os outros eu sou aquilo que faço." Para May, somente,
ele não era aquilo que ele fazia, para ele, somente, ela
era muito diferente de sua biografia. A ligação pela
qual o amor mantém os seres colados uns aos outros contra
a solidão, não era ao homem que ela trazia alívio;
era ao louco, ao monstro incomparável, preferível
a tudo, que todo ser é para si mesmo, e que ele mima em seu
coração. Desde que sua mãe morrera, May era
o único ser para o qual ele não era Kyo Gisors, mas
a mais estreita cumplicidade. ‘Uma cumplicidade consentida,
conquistada, escolhida’, pensava Kyo, extraordinàriamente
de acordo com a noite, como se seu pensamento não fosse possível
à luz. ‘Os homens não são meus semelhantes,
eles são aqueles que me olham e me julgam; meus semelhantes
são os que me amam e não me olham, que me amam apesar
de tudo, que me amam apesar do fracasso, apesar da baixeza, apesar
da traição, eu e não aquilo que fiz ou farei,
que me amariam tanto quanto eu me amaria a mim mesmo - até
o suicídio, inclusive ... Somente com ela eu tenho em comum
este amor, despedaçado ou não, da mesma forma que
outros têm juntos filhos doentes que podem morrer ...’
Isto não era a felicidade, mas qualquer coisa de primitivo
que combinava com as trevas e fazia subir-lhe um calor que terminava
numa ligação imóvel, como de um rosto contra
outro rosto - a única coisa nele que fosse tão forte
como a morte."
Deixarei os comentários sobre este texto para a respectiva
nota, dadas as inúmeras questões que levanta. Para
uso imediato, registro apenas como a predominância do vínculo
L permite conter o ódio e propiciar o exercício da
capacidade de pensar. Dentro da proposta de investigar os vínculos
em jogo e os tipos de relação, conjecturaria que,
sob uma situação dolorosamente frustrante, a ação
do vínculo L permitiu "a triste tarefa de compreender",
magnìficamente descrita por Malraux. Deste ponto de vista,
vejo uma evolução de uma relação simbiótica
para uma comensal, desempenhando a reflexão o papel do terceiro
que beneficia os três. Julgo que o texto transcrito, que tomo
como categoria C, utilizando-o como uma notação, equivalente
a um relato clínico, fornece elementos para fundamentar nossa
distinção entre relações simbiótica
e comensal, além de ilustrar a relação entre
a posição depressiva e o desenvolvimento da capacidade
de pensar.
3 - O VÍNCULO -L
O paciente foi levado à análise graças a uma
irmã que convenceu os pais a procurarem um psicanalista antes
de tomarem qualquer atitude: interná-lo, tirá-lo de
alguma forma de casa, ou, outras. O paciente, um homem de cerca
de 35 anos, se constituia num grave problema para a família.
Desde o primário, acentuando-se no fim do primeiro grau,
sua atitude era de permanente inquietação, falando
muito, relutando em seguir as normas disciplinares e sempre questionando
os professores. Tornou-se o "pele" da turma. Seus colegas
aproveitavam de sua permanente excitação para provocá-lo
e fazer bagunça. O paciente aceitava bem esse papel e, por
não se mostrar abertamente agressivo, era tolerado no ambiente
e assim concluiu o segundo grau. Não conseguiu ingressar
numa universidade e, provavelmente, pelo que deduzí dos relatos,
seus distúrbuios de pensamento se acentuaram e se mostraram
incompatíveis com uma atividade educacional de nível
superior. A possibilidade de trabalhar também foi obstruida
por não conseguir atender a qualquer disciplina, quer de
horários, quer de cumprimento de normas. Estas não
eram simplesmente desobedecidas, mas criava as suas que julgava
melhores e ante alguma ponderação argumentava sempre
acerca das vantagens de suas propostas. Esta atitude se tornou frequente
no cotidiano da vida. Houve algumas tentativas intermitentes de
tratamento psiquiátrico, sem continuidade ou êxito.
Ao chegar à análise o que mais intraquilizava a família
era seu comportamento: transformara-se numa figura folclórica
do bairro. Usava roupas infantís - calça curta, tênis
e meias brancas de cano longo que lhe davam uma aparência
de adulto fantasiado de criança, como ocorre em blocos carnavalescos.
Ostentava um aderêço, do qual não abria mão,
na camisa. Este objeto não era em si extravagante, porém
seu uso constante com qualquer roupa, chamava atenção.
Em suma, tanto o objeto, como a aparência e o próprio
paciente, formavam um conjunto bizarro. Não tinha horários
para o sono e a alimentação. Parecia dormir por exaustão.
Durante o dia, ou melhor, a vigília, fazia pagamentos e pequenos
serviços para a família e o restante do tempo passava
deambulando. Como não usava ônibus, fazia diariamente
longas caminhadas, às vezes, atravessando dois ou três
bairros. Durante muito tempo andava dez quilômetros para vir
ao consultório e mais quatro para chegar em casa. Contudo,
era assíduo e pontual !
Sua atividade mental era absorvida pela elaboração
de planos econômicos para controlar a inflação
e promover o desenvolvimento do país, além de certas
invenções. Estas, muitas vezes, registradas em desenhos
geométricos, consistiam em novos modelos de carros, aviões,
helicópteros ou técnicas de construção
que projetavam importantes melhoramentos - como a criação
de uma rede elétrica sem fiação - sem, contudo,
haver qualquer preocupação com a exequibilidade do
invento. Em resumo: seus inventos eram úteis, propícios
ao conforto e mesmo à justiça social, pecando apenas
pelo desprêzo do detalhamento que reconheceria o Princípio
de Realidade.
Há inúmeros outros dados da psicopatologia do paciente
que vou omitir a fim de focalizar o ponto de urgência, para
a família e o ambiente social, que também interessa
à nossa discussão sobre o vínculo L e suas
vicissitudes, como a de tornar-se -L.
Refiro-me ao fato do paciente provocar frequentes incidentes na
rua, na vizinhança e no bairro, em especial. A origem desses
incidentes se radicava no fato do paciente desejar que todos obedecessem
à lei, em particular, às leis do trânsito. Assim,
carros estacionados na calçada, avanços ocasionais
de sinal, ou o não-uso do cinto de segurança eram
motivo de longas discussões com os infratores. A argumentação
do paciente a respeito era a mais coerente e consistente possível,
embora não razoável. Esta afirmação
mereceria uma longa discussão que não cabe neste momento.
O que é e o que não é razoável ? Qual
o papel da razão nas relações ? A razão
como elemento da Psicanálise, segundo Bion sugere.
Um fragmento de sessão analítica, penso ser suficiente
para ilustrar o nosso entendimento do vínculo -L, que é
nosso objetivo ao trazer esta experiência clínica.
O paciente chega muito atrasado (cerca de 25 minutos). Sua aparência
chama atenção: roupas brancas, calças curtas,
tênis, meias de cano longo (não usa mais o tal objeto
acima referido) e um corte de cabelo quase "em cuia" (em
sessão anterior informou que, ao tentar acertar as costeletas,
foi cortando o cabelo até atingir a região frontal).
Entrou falando, frases soltas, tipo: "... Bem ... como vai
? ... Eu vou bem ..." Puxa uma cadeira e senta-se à
minha frente, continuando a falar. "Eu não tenho amigos
... falei ontem com minha tia. Ela me disse que se eu tivesse amigos
eu melhorava o meu visual ..." Passa a falar em dores nas articulações,
achando que é um problema dos ligamentos.
Começo a falar que os ligamentos permitem a articulação
dos ossos, permitem que eles trabalhem juntos. A esta altura ele
me interrompe e diz: "... não, ligamentos que falam
..." Digo que ele tem razão que estamos falando sobre
a relação entre as pessoas, como sente que é
necessária mas dolorosa. Até aqui, para trabalharmos
juntos. Parece concordar, pelo silêncio atento que faz e,
juntamente com várias expressões faciais de sofrimento,
diz: "... eu não gosto das pessoas ... se eu arranjasse
uma namorada eu acho que tudo melhoraria. Eu teria um estímulo,
ânimo para fazer as coisas." Passa a exaltar a importância
das relações amorosas na vida. Levanta-se e anda,
gesticulando como um orador caricato. Ora faz expressões
de dor e preocupação. Chamo sua atenção
para o drama que está me mostrando: não gostar das
pessoas e sentir falta de uma namorada, de uma mulher que o ame,
talvez, de alguém que goste dele apesar dele não gostar
das pessoas.
A sessão prosssegue com o paciente contando duas estórias,
numa das quais está dirigindo um carro e expondo os pais
a perigo. A outra refere-se à falta de sintonia nas relações.
Parece-me uma alusão ao temor de assumir a responsabilidade
pelas relações, podendo destruir o casal, com seus
impulsos sádicos. Certamente um risco que nós dois
estaríamos correndo ali. Não pretendo continuar o
relato da sessão que levanta outras questões relacionadas
à análise de psicóticos. Gostaria de comentar
apenas o que entendo, clìnicamente, como o vínculo
-L.
Os planos econômicos, as invenções, assim como
o alertar as pessoas quanto à importância do cumprimento
da lei, não tenho maiores dúvidas que se tratam de
manifestações amorosas, na medida em que exprimem
vínculos com as demais pessoas. Contudo, a ação
permanente da pulsão de morte mutila o exercício da
pulsão de vida. Em consequência, há falta de
sintonia, mal-entendidos, exigências que transformam a ligação
amorosa em -ligação amorosa, o que não significa
ódio, embora, o mesmo vá surgir quer no paciente quer
em seu interlocutor. Este - o ódio - não é
sentido, pelo paciente, como tal, mas como incompreensão.
Está aberto assim o caminho para a desesperança.
É natural que surja a questão: qual a vantagem de
falarmos em -L em vez de H ? Penso que estaríamos mais próximos
da verdadeira experiência emocional do paciente, ou seja,
do drama que vive: amar sem quaisquer das características
que acompanham o amor. A meu ver, a incompreensão desse aspecto,
dada a pequena tolerância à frustração
desses pacientes, leva ao desentendimento e instaura-se um círculo
vicioso por aumento da identificação projetiva. Outro
ponto: -L vincula sem harmonia, daí a falta de sintonia que
tais pacientes despertam. A harmonia parece ser uma função
de L, como veremos adiante ao discutirmos as idéias estéticas.
O exame de uma outra sessão nos permitirá uma investigação
mais detalhada dos fatores que determinam o vínculo -L. Eis
um sumário da sessão:
Encontro o paciente na sala de espera, de pé, parecendo aguardar
um imediato atendimento. Está de bermudas, tênis, meias
brancas, camisa combinando com a roupa e bem penteado. Cumprimentamo-nos.
No consultório, senta-se defronte de mim e passa a falar
da atual situação econômica do país.
Fala com tranquilidade, descrevendo como o mundo "deve ser".
Chamo-lhe atenção para isto: "a vida deve ser
assim". Concorda e continua. Mostra-se contrário a qualquer
oposição ao governo ou a seus pontos de vista que
julga serem os únicos capazes de promover desenvolvimento
e justiça social. Fala como se respondesse a possíveis
oponentes. Falo que qualquer diferença parece ser um conflito.
Concorda, mas corrige: "é (enfaizando o "é")
um conflito".
O paciente continua a falar e vou sentindo-me inundado por um discurso
coerente mas inesperado para uma sessão de psicanálise.
À certa altura digo-lhe que ele espera que eu concorde com
ele, que todos concordem com ele. A isto o paciente replica: "mas
todo mundo é um". Começo a dizer-lhe que este
seria o drama que me descreve. Contudo, não consigo prosseguir,
pois, o paciente se levanta e debruça-se sobre mim, explicando
as vantagens da uniformidade. Mostro-lhe que a aproximação
física é a sua maneira de exprimir esta necessidade
de uniformidade, de fusão. Passa então a andar pelo
consultório e a falar dos pais e do desejo de ter uma namorada,
o que sua mãe julga inconveniente. Fala que o tratam como
disrítmico, doente, esquizofrênico. Falo que a falta
de rítmo, de sintonia com as pessoas quebra o seu desejo
de uniformidade e desperta raiva. Concorda. Acrescento que qualquer
separação desperta raiva, ao que me responde: "até
o casamento é uma separação". Ao mesmo
tempo continua falando querer ter mulher e filhos. Ao verificar
estar próximo o final da hora, diz: "Quanto a mim ...
estou tranquilo, dormindo, relaxando, fazendo o curso de parapsicologia".
Penso num projeto - ou não seria a própria experiência
de fusão que estaria me relatando ? - de tornar-se psicanalista.
É uma idéia vaga que me ocorre, mas não comento,
pois, o paciente continua falando e a hora termina. Ao se levantar
me indaga se acho que está evoluindo desde o dia em que o
conheci.
A respeito desta experiência clínica gostaríamos
de sublinhar dois aspectos:
A intolerância à separação expressa de
várias formas, sobretudo, na dificuldade em reconhecer a
alteridade, leva a uma não-distinção self-objeto,
a um ataque à noção de tempo e espaço,
em suma, ao que Bion descreve como um distúrbio da noção
de dualidade ( "twoness"). "Todo mundo é um
... até o casamento é uma separação".
O paciente de uma forma muito direta nos coloca perante o problema
que aflige aqueles que não suportam o pensar, "a
triste tarefa de compreender", que exige o reconhecimento
da diferença, da frustração.
Outro aspecto que é comum na análise de psicóticos,
consiste na irrupção de "pensamentos" inesperados,
fenômeno que mereceria um estudo específico. Vemos,
na primeira sessão descrita, como o paciente nos interrompeu,
falando de "articulações que falam ..."
e, na outra, o comentário de que "... até o casamento
é uma separação". Tudo isto nos soa como
formulações muito sofisticadas, inesperadas de pessoas
tão comprometidas em seu desenvolvimento mental. Isto nos
faz pensar em pensamentos que foram captados sem um aparelho capaz
de elaborá-los. Seria uma apresentação de "pensamentos
sem pensador"? Fica a questão.
4 - DE VOLTA AO BANQUETE. A NOÇÃO DE GÊNIO
EM PLATÃO, KANT E BION
Retornando ao "Banquete", vamos examinar uma noção
que Platão introduz - a noção de gênio
(dáimon) - que nos parece muito útil para a compreensão
do amor como vínculo.
Nos versos de 202d a 204c, Diotima após levar Sócrates
a concluir que o amor não é belo, nem sábio,
nem bom, embora isto não signifique que seja feio, ignorante
e mau, procura esclarecer a perplexidade do filósofo. É
então que desenvolve a noção de intermediário,
daquele que está entre os deuses e os mortais: o gênio.
Prossegue, lembrando a Sócrates a origem de Eros: filho de
um deus (Poros ou Recurso) e uma mortal (Penia ou Pobreza), concebido
no natalício de Afrodite, durante o festim dos deuses.
Com o surgimento do gênio fica superado o impasse epistemológico
da pretensão de conhecermos um Deus (Idéia, essência,
"coisa-em-si"). Esse elemento intermediário - o
gênio - por sua origem híbrida, humana e divina, se
não nos permite que conheçamos sua intimidade, revela-nos
sua função: "... a de interpretar e transmitir
aos deuses o que vem dos homens, e aos homens o que vem dos deuses
... e como está no meio de ambos ele os completa, de modo
que o todo fica ligado todo ele a si mesmo (202e)." A função
de vincular aparece aqui com toda a sua fôrça.
Sugerimos agora acompanhar a idéia de gênio, e sua
função vinculadora, em outro autor que até
o fim de sua longa e criativa vida enfrentou as mesmas questões:
Kant.
Se o conhecimento do mundo, da natureza, fora exaustivamente investigado
em suas condições de possibilidade, na "Crítica
da Razão Pura" e a possibilidade de uma ética,
de uma investigação das ações humanas,
crítica e consistente, fora estabelecida na "Crítica
da Razão Prática", restou para Kant, no final
de sua obra, enfrentar o desafio da estética. Falar em "restou"
é simplificar demais a questão, pois, o empreendimento
que resultou na "Crítica da Faculdade de Julgar"
integra e dá novo sentido às demais. É um trabalho
de Eros.
Como avaliar a afirmação de que algo é belo
? qual o valor e estatuto de tais juízos ? Toda uma gama
de questões desenvolve Kant em sua última Crítica.
E é nela que vamos reencontrar a idéia de gênio.
Para Kant, gênio é a faculdade das idéias estéticas.
É o talento (dom natural) que dá regras à arte.
A necessidade de introduzir a noção de gênio
veio da impossibilidade de reduzir o objeto estético a uma
determinação do entendimento. Não podemos "a
priori" determinar o objeto estético. Este é
fruto da livre harmonia da imaginação e do entendimento.
É singular, original, sendo em consequência seu produtor,
o gênio, o oposto do "espírito de imitação".
No correr do seu exame do gênio vão sobressaindo-se
certas características que apontam para a individualidade
e a comunicabilidade. Este último aspecto é que vai
permitir a Kant fazer a aproximação entre ética
e estética. A obra de arte pressupõe um "sensus
communis", que lhe dá a universalidade. A noção
de humanidade é derivada dessa pressuposição
de um "sensus communis".
Vemos assim que o gênio é a faculdade que permite o
vínculo, a harmonia (entre imaginação e entendimento)
e a comunicação (a ligação entre os
homens). Nesse sentido é que aproximamos o "dáimon"
platônico do gênio kantiano e os identificamos como
função de Eros. Gostaria de ressaltar o desenvolvimento
de Kant ao assinalar "a ligação harmônica",
lembrando que no caso clínico que descrevi havia ligação,
mas não harmonia, daí a falta de sintonia e a incomunicabilidade.
Vejamos agora, através de outro grande pensador, como a Psicanálise
pode contribuir para este debate, para a investigação
do intermediário entre os deuses e os homens, relações
tradicionalmente tensas.
Bion discute tais questões em "Atenção
e Interpretação" (cap. 7). A noção
de gênio surge como análoga a de místico ou
idéia messiânica. Não importa para o exame que
propõe, tratar-se de uma pessoa ou de uma idéia. Discute
ele as relações entre esta idéia/pessoa messiânica
e o continente que a contém (grupo/instituição/personalidade).
O gênio mais uma vez é o que permite o contato com
a divindade, ou seja, com o que é passível apenas
de experiência transformadora - "O"- não
sendo passível de conhecimento. Evoca Bion a mitologia para
lembrar-nos do estágio de indiferenciação homem/deus.
Mostra os variados papéis do grupo: conter, destruir, aprisionar
e, ao mesmo tempo, criar o gênio/místico/idéia
messiânica. Deve também o grupo ou instituição
permitir ao homem comum o acesso à deidade, a Freud, à
Psicanálise. A principal contribuiição de Bion,
neste momento pelo menos, ao tema do gênio, é a necessária
tensão que ele guarda com o que o contém, dependendo
seu destino - criativo ou destrutivo - das relações
estabelecidas (parasítica, simbiótica ou comensal).
No início de nosso texto falamos dos limites da linguagem
como um dos obstáculos na investigação do amor.
Só a linguagem promove conhecimento. Este parece ser o drama
de Eros: não podemos conhecê-lo, sequer identificá-lo
com precisão. Sua presença é inferida pela
função: vincular harmônicamente, permitir a
comunicação. Tudo isto nos leva de volta à
questão da linguagem. A liguagem própria para tratar
desses temas Bion chamou: Linguagem de Êxito.
Notas
Este Apêndice é composto de "Notas" que procurarão
suprir as deficiências do texto relacionadas à limitação
do tempo disponível para sua apresentação.
Este trabalho foi apresentado, em uma forma condensada, na Conferência
Comemorativa do Centenário de Bion (Torino, julho/97). Contudo,
não tenho dúvidas de que não suprirão
deficiências de outra natureza. Refiro-me, sobretudo, às
resultantes de desenvolver uma questão que milenarmente provoca
mal-entendidos ou banalizações. Certamente estas "Notas"
levantarão novas questões, o que me parece ser o propósito
de qualquer encontro científico. Aproveito para agradecer
aos colegas que comentaram o texto e, em especial, a Robert Caper
e Fernanda Marinho que com suas críticas e comentários
ajudaram-me a desenvolver vários pontos, antes obscuros pela
condensação já mencionada.
Seguirei a numeração do texto para facilitar o entendimento
das "Notas", cada nota se refere a uma das seções
do trabalho.
1 - A referência aos trabalhos sobre "o vazio" pode
ser ilustrada no texto: "Em Busca do Vazio Perdido" (Fernando
Coutinho, apresentado no XV Congresso Braisileiro de Psicanálise,
biblioteca SBPRJ). O autor aborda o que tem sido chamado de "a
clínica do vazio", tomando como principal referência
certas idéias de André Green, com as quais concordo
plenamente, como a função desobjetalizante da pulsão
de morte. A "clínica do vazio" seria formada por
pacientes que vêm à análise com queixas vagas
e um sentimento de falta de interesse, paixão, por atividades
ou pessoas. Interessante é que tais estados são referidos
pelos pacientes como "queixas". Estariam tais casos no
domínio de -L, sendo que (-) representaria então uma
deficiência ? Embora concorde com a observação
clínica, em meu texto não sigo esta linha e sim a
de -L como uma vicissitude de L, uma "mutilação"
de L pela ação da pulsão de morte. A ausência
de L é apenas aparente. Se levarmos adiante a analogia com
a álgebra, que a notação de Bion insinua, podemos
ver que um número (x) não perde as suas propriedades
pelo fato de lhe atribuirmos o sinal +, ou, o sinal - ; continuando
a ser ímpar ou par, representar tal ou qual magnitude. Prefiro
pensar na noção de "mutilação".
A noção de "mutilação" surge,
em Bion, no trabalho "Desenvolvimento do Pensamento Esquizofrênico"
(1956) (in, "Second Thoughts", Heinemann, London), ao
descrever a transferência em pacientes psicóticos.
Mais adiante, em "Sobre Alucinação" (1958)
(in, "Second Thoughts"), faz uma clara descrição
do que entendo vir a ser -L, ao final do parágrafo 80. Voltarei
a este ponto ao discutir o caso clínico.
O tema dos limites da linguagem em Psicanálise, a meu ver,
é uma preocupação constante de Bion, expressa
abertamente em "Atenção e Interpretação"
(cap. 13). Minha reflexão no texto está na mesma linha
da de Meltzer(1986),("The Limits of Language", in Studies
in Extended metapshycology, London, Clunie Press), que utiliza uma
diferenciação proposta por Wittgenstein,(1921)(in,"Tractatus
Logicus Philosophicus", London, Humanities Press) entre "dizer"
e "mostrar". Desenvolvi este tema num trabalho para o
XV Congresso Brasileiro de Psicanálise ("Limites da
Psicanálise em Situações-Limites", bilbioteca
da SBPRJ). No caso clínico que agora apresento, apesar do
paciente possuir uma grande fluência verbal, seus gestos e
movimentos "mostram" mais do que o seu discurso "diz".
Neste sentido há um verdadeiro contraste com a reflexão
do personagem de Malraux - Kyo - que dispensa a "performance"
tão necessária ao paciente. Penso que todos nós
estamos sujeitos a essa limitação, tal como Wittgenstein
nos aponta. Embora saibamos que Wittgenstein abandonou a tentativa
de alcançar uma linguagem lògicamente perfeita, evoluindo
para uma concepção pragmática de significado
em suas últimas obras, 1945 ("Philosophical Investigations",
New York, Macmillan), criando a noção de "jogos
de linguagem", vale a pena recordarmos as palavras de Bertrand
Russell no prefácio do "Tractatus":
"A questão essencial da linguagem é afirmar ou
negar fatos. Dada a sintaxe de uma linguagem, o significado de uma
sentença é determinado uma vez que o significado das
palavras componentes é conhecido. A fim de que uma sentença
possa afirmar um certo fato deve haver, qualquer que seja a linguagem
construida, algo em comum entre a estrutura da setença e
a estrutura do fato. Esta é talvez a mais fundamental tese
da teoria de Mr. Wittgenstein. Aquilo que deve ser comum entre a
sentença e o fato não pode, assim ele defende, ele
mesmo ser "dito" na linguagem. Pode, em sua fraseologia,
ser somente "mostrado", não dito, pois o que quer
que possamos dizer necessitará ainda ter a mesma estrutura."
Vemos, deste modo, que estamos permanentemente lidando com um aspecto
incognoscível - a invariante sentença/fato - o que
para muitos pacientes é intolerável. Através
do discurso de Alcibíades procurei ilustrar tal situação.
1.1 - Sobre a ambição de Alcibíades, que aponta
para a voracidade como um dos fatores da intolerância aos
limites do conhecimento, lembro o recente livro de Jacqueline de
Romilly (1995, "Alcibíades ou Os Perigos da Ambição",
Ediouro, Rio). O ponto que me interessa neste momento é chamar
atenção para o caráter voraz do amor de Alcibíades
que não se satisfaz com os ensinamentos de Sócrates,
deseja-o como amante numa tentativa desesperada da alcançar
algo que, contudo, a experiência sensorial não fornece,
apenas propicia. Entendo que a recusa de Sócrates às
investidas do jovem e belo Alcibíades é análoga
à recomendação de Freud quanto à não
gratificação sensorial no "setting" analítico.
1.3 - Utilizo a última conceituação que Bion
faz em "Atenção e Interpretação"
da relação comensal, por julgá-la fruto de
uma elaboração e um amadurecimento destes conceitos
em sua obra. Tenho conhecimento que não é frequente
esta utilização, por este motivo vou tentar esclarecê-la:
nesta nova concepcão de relação comensal, Bion
abre espaço para um terceiro "para vantagem dos três".
Sublinho este aspecto, pois, parece-me a situação
propícia para o "pensamento sem pensador", uma
vez que o terceiro guarda a meu ver uma certa autonomia em relação
ao par - continente/contido. É conhecida, desde 1967 ("Second
Thoughts"), a necessidade que Bion encontrou em postular a
independência dos pensamentos em relação a um
pensador ("... Tivesse a experiência que agora tenho,
daria maior relevo, no parágrafo 98, à importância
de se duvidar de que é necessário haver um pensador
em razão de os pensamentos existirem. Para o devido entendimento
da situação que se configura quando se efetuam ataques
ao processo de ligação, é útil postular
a existência de pensamentos sem nenhum pensador.", in
"Second Thoughts"). Julgo importante registrar que tal
necessidade teve também Frege, ao rever seu sistema lógico,
em suas últimas obras, como: "The Thought - A Logical
Inquiry" (1923) (in, "Logical Investigations" Oxford,
Basil Blackwell). Neste texto, Frege faz uma distinção
entre "idéia" e "pensamento", desenvolvendo
importantes implicações de tal análise. Para
citar apenas uma: "When a Thought is grasped, it at first only
brings about changes in the inner world of the one who grasps it;
yet it remains untouched in the core of its essence, for the changes
it undergoes affect only inessential properties." Estes comentários,
vindos de um rigoroso lógico que marcou em sua obra a distinção
entre Psicologia e Lógica, convergem para nossa observação,
como psicanalistas, do tumulto que consiste em abrigar idéias
novas, melhor dizendo, pensamentos à procura de um pensador.
Um exame mais detalhado deste trabalho de Frege, assim como das
contribuições de von Wright, publiquei num texto que
se encontra na biblioteca da SBPRJ: "A Noção
de Pensamento nas Investigações Lógicas - Frege
(1918/23)" e "Notas sobre `Compreender e Explicar’
em Jaspers e von Wright".
2 - A utilização de um texto literário, como
o de Malraux, reconheço que traz uma gama de questionamentos.
Em primeiro lugar, de ordem ética, uma vez que como foi dito
sabemos tratar-se de um relato auto-biográfico. Contudo,
acredito que a generosidade que marcou a vida de Malraux nos permite
tal utilização, principalmente, após a publicação
do diário de Clara Malraux que autentica a passagem citada.
Outra questão, não menos importante, refere-se às
relações arte/vida. Poderíamos, com aparente
razão, sermos acusados de falar sobre algo inexistente, meramente
literário, em suma: um artefato. A melhor resposta que conheço
a esse respeito é a que deu Pirandello ao ser atacado - pela
publicação do "Falecido Mattia Pascal" -
por criar uma situação implausível, por ser
um escritor "cerebral". Lembraria o primeiro parágrafo
da defesa de Pirandello - "Avvertenza sugli scrupoli della
fantasia" (in, "O Falecido Mattia Pascal", Rio, Civilização
Brasileira).- "... Posto na encruzilhada entre o amor da espôsa
e o de uma moça solteira de vinte anos, o senhor Alberto
Heintz, de Buffalo, nos Estados Unidos, acha de bom aviso convidar
uma e outra para um encontro, a fim de tomarem, juntamente com ele,
uma decisão. As duas mulheres e o senhor Heintz apresentam-se,
pontualmente, no lugar aprazado; discutem longamente e, no fim,
chegam a um acordo. Decidem matar-se todos os três. A senhora
Heintz volta para casa; desfecha contra si um tiro de revólver
e morre. O senhor Heintz, então, e a sua apaixonada moça
de vinte anos, visto que, com a morte da senhora Heintz, foi removido
todo o obstáculo à sua feliz união, reconhecem
não terem mais nenhum motivo para suicidar-se e resolvem
continuar a viver e casar-se. De modo diferente, porém, resolve
a autoridade judiciária; e manda prendê-los. Conclusão
vulgaríssima. (Vejam-se os jornais de Nova Iorque de 25 de
janeiro de 1921, edição matutina)."
A vigorosa argumentação de Pirandello que mostra a
falta de compromisso da vida com a verossimilhança, pois,
a vida não precissa ser verossímil uma vez que é
verdadeira, culmina com o relato de um episódio "real"
idêntico à "estória" do falecido Mattia
Pascal, do qual Pirandello não tinha conhecimento.
Penso que o texto de Malraux, como assinalo no último parágrafo
do tópico, nos permite elaborar a distinção
entre relação simbiótica e comensal tal como
proponho neste trabalho e que julgo ter sido a última formulação
de Bion a respeito. Quando digo que a reflexão desempenharia
o papel do terceiro - em benefício dos três - o faço
por considerar que Kyo não se deixa levar por "sentimentos
parciais", excludentes de outros igualmente importantes, mas
integra uma gama de sentimentos/pensamentos num conjunto (continente)
mais amplo, mais significativo. Neste sentido difere de uma mera
"intelectualização" uma vez que não
visa afastar sentimentos, pelo contrário, abre espaço
para um mundo mais significativo, afetiva e intelectualmente. Neste
sentido , penso que a reflexão descrita por Malraux é
função da sigla R (razão), um dos elementos
que Bion propõe que investiguemos ("Elementos da Psicanálise",
cap. 1). Embora a razão seja "escrava das paixões",
devemos reconhecer sua inerente autonomia, caso contrário
não haveria sentido na disputa pelo controle da razão
entre os princípios de realidade e de prazer que Bion aponta
em "Transformações" (Cap.6) e que qualquer
analista praticante observa no cotidiano da clínica. Outro
argumento poderoso em defesa da autonomia da razão residiria
no paradoxo de naturalizarmos a razão, passando esta a ser
mais um dado do mundo, da natureza, podendo, portanto, ser somente
reconhecida por um olhar divino. Insisto neste ponto por considerá-lo
importante para preservar uma das contribuições mais
originais de Bion: o pensamento sem pensador. Tema que nos legou,
a desenvolver.
3 - O caso clínico com o qual procuro mais pensar do que
ilustrar a noção de -L, parece corresponder ao que
Bion descreve no parágrafo 80 de "Sobre Alucinação":
"O perigo que o assusta é, portanto, algo que ele tem
bons motivos para temer ... Deseja amar. Sentindo-se incapaz de
tolerar frustração, recorre a um ataque homicida ou
a um ataque simbólico como forma de manifestação
visível de uma identificação projetiva explosiva,
em decorrência de que o ódio assassino, junto com pedaços
de sua personalidade, se espalham pelo interior dos objetos reais
ao seu redor - neles incluídas as pessoas da comunidade.
Agora se sente livre para amar mas está cercado de objetos
bizarros compostos de pessoas reais e coisas inanimadas, a que se
somam o ódio destrutivo e culpa por assassínio. O
quadro se complica ainda mais pois, embora seja verdade dizer que
se sente livre para amar (pelo menos tem a determinação
de fazê-lo), a violência da explosão priva-o,
inclusive, dos sentimentos de amor."
A frustração que inevitàvelmente acompanha
qualquer relação amorosa - como bem ilustra o personagem
de Malraux - é insuportável para pacientes como o
descrito. Nesta linha de pensamento é que julgo que -L é
mais uma vicissitude de L, pela ação da pulsão
de morte, do que uma deficiência de L. A resultante do conflito
é, a meu ver, uma "mutilação" de
L. A segunda sessão apresento, sugere a natureza da frustração:
a intolerância à separação. No momento
desejo retomar a questão do que é "razoável",
ou não, sob o ponto de vista psicanalítico.
Ao falar sobre o paciente, comentei que sua argumentação
era coerente e consistente, ou seja, não continha contradições
e permitia pelo menos uma compreensão, uma tipo de interpretação,
seguindo os procedimentos que adotamos ao analisar qualquer teoria
científica. Contudo, falta ao seu relato "algo razoável"
que torne plausível sua "teoria" de relacionamento
com as demais pessoas. Neste sentido é que entendo ser a
razão (sigla R) um dos elementos da Psicanálise, conforme
Bion propõe. Sublinharia a comparação com o
personagem de Malraux - Kyo Gisors - cuja reflexão nos parece
"razoável". Utilizando, mais uma vez, a teoria
das funções, diria que L é fator da função
R. Pode-se fazer "a revolução" com amor,
como Kyo reflete, ou, pode-se fazer com ódio, como o drama
pessoal de meu paciente ilustra.
É conhecida a formulação de Oscar Wilde: "Tudo
o que desejo demonstar é este princípio geral : a
vida imita a arte muito mais do que a arte a vida." Não
tomo tal formulação como uma "frase de efeito",
mas a percepção pela sensibilidade do artista de que
a arte pode oferecer-nos configurações que se realizaram
num passado remoto, do qual não mais nos recordamos, ou,
aguardam um futuro para realizarem-se, daí a atemporalidade
da arte.
4 - A correlação que procuro estabelecer entre as
noções de "gênio" em Platão,
Kant e Bion, evidentemente requer uma maior elaboração,
para a qual me sinto pouco competente. Contudo, pareceu-me digna
de registro. Na clínica psicanalítica a pressuposição
(Pré-concepção - categoria D) de um "sensus
communis" é uma necessidade epistemológica. Em
outras palavras: supomos que nossos pacientes, por mais graves que
sejam, podem participar de uma comunidade universal - humanidade
- fundada em valores de verdade, bem e beleza. Em suma, podem participar
de uma comunidade racional. De outra forma teríamos que admitir
que nossas interpretações seriam incompreensíveis,
ou, voltaríamos às velhas teorias de degeneração
mental. Estou ciente de que Bion utiliza a noção aristotélica
de "sentido comum", segundo a qual, a apreensão
de um objeto requer a ação de vários sentidos,
pelo menos, mais de um. Contudo, toda sua obra nos permite aproximá-la
da noção mais sofisticada, de Kant, de "sensus
communis", como a possibilidade de uma comunidade racional
universal. Sublinharia que se trata apenas de uma possibilidade,
como nos lembra Hannna Arendt (1971) (in, "A Vida do Espírito",
Rio, Relume Dumará).
A estética e a psicanálise tem em comum o fato de
lidar com o singular, o individual e, entretanto, pretendem produzir
e comunicar conhecimento, onde a linguagem científica tradicional
fracassa. Arriscaria dizer que tal foi a preocupação
de Bion ao escrever suas "novelas", buscando através
da estética uma comunicação de outra forma
impossível, ou pelo menos, demasiado tosca.
Um outro aspecto deste tópico se prende a nossas preocupações
acerca das relações narcis-ismo/social-ismo. A inevitável
tensão entre o indivíduo e o grupo, insuperável
a nosso ver, tem sido objeto de estudos recentes segundo as concepções
de Bion (Bianchedi E. 1996; Marinho F. 1997).
(Este trabalho foi apresentado na Conferência Internacional
do Centenário de Nascimento de W.R. Bion, realizado em Turim,
em julho de 1997 e reapresentado no Simpósio comemorativo
promovido pela Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio
de Janeiro em novembro do mesmo ano).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1 - Abraham, K - Teoria Psicanalítica da Libido, Rio,Imago.
2 - Bion, W. R. -
- (1962) Learning from Experience, in Seven Servants,
New York,Jason Aronson.
- (1963) Elements of Psychoanalysis, in Seven Servants,
New York,Jason Aronson.
- (1965) Transformations, in Seven Servants,
New York, Jason Aronson.
- (1967) Second Thoughts, London, Heinemann.
- (1970) Attention and Interpretation, in Seven Servants,
New York, Jason Aronson.
3 - Jaeger, W. - (1936) Paideia, São Paulo, Martins Fontes.
4 - Kant, I. - Critique de la Faculté de Juger, Paris, Vrin.
5 - Malraux, A. - La Condition Humaine, Paris, Gallimard.
6 - Platão - O Banquete, São Paulo, Difel.
7 - Von Wright, G. H. - (1971) - Explanation and Understanding,
London, Routledge
Ney Marinho é da Sociedade Brasileira de Psicanálise
do Rio de Janeiro
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