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Bion?

Mas qual Bion?

Patricia de Queiroz Carvalho Zimbres


Enfim, chegamos a Bion. Momento esperado e temido no percurso de nossa formação analítica. Durante anos ouvimos falar dele. Suas idéias, sabemos, são parte integrante e marca distintiva da cultura da instituição que escolhemos. Termos e expressões bionianas pululam no discurso dos veteranos, aos poucos nos acostumamos a essa linguagem cifrada e alguns de nós até ousam, vez por outra, repeti-los por conta própria sem, no entanto saber bem o que significam: função alfa, elemento beta, K, -K e o tão enigmático O. Signos matemáticos e letras - gregas e latinas - que, em si, nada significam ainda para nós, nos remetem às incógnitas das matérias que assombravam nossos tempos de ginásio. Ei-las de volta?


O próprio fato de Bion ser deixado para o último ano do curso, sugerindo etapa culminante de um longo percurso iniciático, já nos faz, desde o início, antever revelações. É-nos afirmado, ao longo de nossos seminários, que é sem memória e sem desejo que devemos ouvir o paciente, que o trabalho analítico consiste na relação que se dá entre a dupla analista-analisando, mas fica no ar a insinuação de que só após mergulharmos a fundo no estudo de Bion nos daremos realmente conta dessas verdades.


Enquanto isso, estudamos Freud e deslumbramo-nos com sua fulgurante e límpida clareza. Mas foi-se o tempo em que Freud assustava. De tão (aparente e superficialmente) assimilado e metabolizado que foi pela cultura do século, suas idéias já fazem parte de um patrimônio ideológico que, embora impensadamente, já trazíamos conosco. A "peste" que ele se propunha a trazer já nos encontra imunizados, cheios de anticorpos contra o espanto quando os conceitos de inconsciente, Édipo e sexualidade infantil desfilam ante nós. Estudá-lo com olhos profissionais nos traz belas surpresas, mas não nos remete mais ao mistério.


Chegamos então a Melanie Klein e aprendemos sobre o funcionamento mais primitivo da mente, seus mecanismos e fantasias. Se o principiante se assusta ao primeiro contato com os textos literariamente secos e insípidos da "genial açougueira" (com suas descrições factuais e concretas das fantasias do bebê de morder, estraçalhar, cortar, perfurar, queimar com urina, explodir com fezes etc.), a própria força de convicção dessas descrições, a facilidade com que elas encaixam na experiência vivida e a ela dão sentido, assim como a certeza rapidamente adquirida de que estamos ali lidando com fatos observáveis e dificilmente questionáveis, logo neutralizam a freqüente primeira impressão negativa e fazem de nós convertidos dóceis. É verdade que fica uma dúvida incômoda sobre o que, afinal, vem a ser a identificação projetiva (fantasia ou realidade?), mas sempre acabamos de nos consolar com um "non liquet" e postergar a questão para elaborações futuras.


É aí que Bion entra em cena. E nos toma de surpresa porque damo-nos conta, atônitos, de que nada, na verdade, havia nos preparado para o que nos esperava. Entramos em cheio em Os Elementos da Psicanálise, na primeira página do livro encontramos uma tabela de coordenadas cartesianas a qual chamam "grade" e que, dizem-nos, descreve a evolução dos processos de pensar, dos estágios mais primitivos até o raciocínio matemático e mais além ainda, numa abertura para o infinito. A idéia, sem dúvida é fascinante.


O primeiro parágrafo do primeiro capítulo é até encorajador. Nele, Bion coloca seu intuito de discernir os elementos da Psicanálise, que seriam tais que "um número relativamente pequeno deles bastaria para expressar, através de diferentes combinações, praticamente todas as teorias essenciais ao psicanalista praticante". Idéia essa altamente atraente para estudantes ainda tateando em meio aos tantos e contraditórios meandros das diferentes teorias.


Meu entusiasmo inicial, porém, arrefeceu logo a seguir, com a primeira listagem do que viriam a ser esses elementos: continente-contido; PSÖ D (+ fato selecionado); os tipos de vínculo L, H e K (com intensidade, mas sem violência) e, por fim, I, definido como os objetos psicanalíticos compostos por elementos a . O que prometia ser esclarecedor acaba por aparecer como imensamente desconcertante. Ainda mais que, ao longo do texto, novos elementos fazem sua aparição: a dor é mais um deles, os mitos, ainda outro etc. Após ter relativamente superado o esforço de compreender cada elemento em si (afinal, o que está o Conhecimento fazendo numa série em que os outros termos são Amor e Ódio?), vi-me ainda às voltas com o enigma de como funções, fatores e mecanismos (que nome dar a eles, já que Bion parece usar indiferentemente todos esses termos?) tão distintos podem ser categorizados como um conjunto. Ou como pode Bion equacionar, por exemplo, a paixão e o sistema científico-dedutivo. Nem a lógica clássica nem o mais cotidiano bom-senso parecem avalizar tal teorização, e minha perplexidade crescia à medida em que as páginas, penosamente, se sucediam, uma após a outra. Mas, premida pela necessidade e por algum vacilante amor-próprio, segui adiante.


Já então eu percebia que estava frente a uma leitura nem fácil nem agradável. Parágrafos, capítulos inteiros me pareciam cada vez mais incompreensíveis e por vezes, eu não era capaz sequer de discernir que assunto estava sendo tratado. Minha sensação de incompetência crescia na mesma medida que minha exasperação. Vez por outra eu resvalava para o extremo oposto, deixando de culpar minha parca capacidade de compreensão para culpar o texto incompreensível. Irritavam-me cada vez mais as tentativas de Bion de manipular e distorcer os poucos fatos clínicos que ele apresenta para fazê-los caber à força em seu artificialíssimo esquema. E tudo isso em nome de uma pretensa cientificidade! Que me perdoem a heresia, mas devo confessar que, numa leitura inicial desse texto, houve momentos em que tive a nítida impressão de estar frente a manifestações de pensamento psicótico. E se pessoas cuja capacidade de julgamento respeito muitíssimo não me houvessem afirmado que ali estava uma teoria profunda e revolucionária, eu teria levado essa impressão seriamente em conta.


E, vez por outra e da maneira mais inesperada, eu era surpreendida por jóias preciosas, pequenos trechos, para mim plenos de sentido e beleza, como a descrição, no capítulo 4, da sessão analítica como uma experiência emocional, conduzida em privação e marcada por sentimentos de solidão e isolamento (a responsabilidade que não se pode dividir); ou a idéia de que a mente primitiva, nossa herança animal, desacostumada e incapaz que é de sentir-se separada, é quem sofre esses sentimentos de solidão e abandono. Ou ainda a idéia de que há pensamentos que não podem ser pensados ("...o que a personalidade psicótica faz com os pensamentos ao invés de pensá-los..."), ou a descrição, nos termos do próprio bebê, de seus sentimentos dolorosos de que a boca vazia não se distingue do seio ausente, de que ela é o não-seio. Ou a proposta de que o objetivo da Psicanálise é aumentar a capacidade de sofrer, e não pôr fim ao sofrimento. E a mais bela de todas, a fulgurante afirmativa de que a verdade é o alimento da mente e a mentira, seu veneno (como é possível que ninguém tenha pensado isso antes?).


E mesmo em meio a muita irritação frente a material cuja lógica interna me escapava a ponto de me fazer desconfiar ser ela inexistente, algo na idéia de um destrinchamento dos processos do pensar, à medida em que esses progridem em sofisticação e nível abstração, e na ousadíssima tentativa de dar representação gráfica a esse movimento, me parecia instigante. Mas entre uma intuição brilhante e uma teoria sólida vai uma grande distância. E não me parecia que Bion tivesse conseguido transpor esse hiato.


Oscilando perigosamente entre a exasperação e o maravilhamento, chamei em meu auxílio Donald Meltzer, que tanto me havia valido em outra ocasiões, e essa foi minha salvação. Antes de mais nada, por não mais me sentir tão solitária em minha extrema dificuldade de compreensão. Segundo Meltzer, "alguns capítulos são bastante incompreensíveis a uma primeira leitura", e "o método de exposição, i.e., o uso de letras e signos da própria grade ... apenas impõe ao leitor uma tarefa adicional e por vezes impossível de tradução, certamente passível de erro". Em segundo lugar, por ter Meltzer, através de sua minuciosa, brilhante e bem-humorada leitura do texto, me ajudado a fazer algum sentido daquela hieroglífica mixórdia.


Ao final, só posso subscrever a opinião de Meltzer quando ele conclui que "Bion não foi bem-sucedido em sua tentativa de encontrar um método para identificar os elementos que compõem o pensamento..." e que "A grade não parece mesmo um elemento útil...". E fechar o livro dizendo como ele: " 'Os Elementos da Psicanálise' é um glorioso fracasso, glorioso em sua visão e abrangência de pensamento, e um fracasso em sua organização e repetitividade".


Mas Bion escreveu outros livros, e desistir de um deles não significa, necessariamente, desistir de Bion. Ainda mais que restou uma curiosidade não-satisfeita: o que tudo isso tem a ver com a clínica, nas qual, afirmam alguns, Bion era insuperável? A que tipo de prática psicanalítica levam essas idéias confusas pontilhadas de momentos iluminados?


Resolvi então ler alguns dos seminários clínicos de Bion, na tentativa de tirar a limpo essa dúvida. E o que posso dizer é que, essa leitura foi uma das mais extraordinárias experiências analíticas que já vivi até hoje.


O que mais me impressionou foi que, apesar de obviamente não ter estado presente nem na sessão nem no seminário sobre ela, é como se lá eu estivesse estado. O que li não foi um relato de episódio passado, mas a recriação de uma experiência na qual eu me senti participante. Bion toma um trecho da narrativa do analista: "Ela estava deitada no divã, mas se ergueu nos cotovelos" e, em torno desse fato tão corriqueiro tece toda uma atmosfera que remete ao momento em que a analisanda, pensando narrar um sonho, na verdade alucinava. O clima é de arrepiante realidade.


Lembrando-nos da pobreza de nosso vocabulário para recapturar as impressões e as emoções causadas pela pessoa ali deitada, Bion diz: "Se você fosse um pintor, você poderia pintar um quadro dessa paciente se erguendo nos cotovelos." e continua, "Quem vai escrever um caso clínico? Quem vai desenhar, ou pintar, ou pintar em palavras a alma ou o caráter dessa paciente?", concluindo: "Creio que os psicanalistas terão que se tornar artistas, se eles pretenderem contar a alguém, como a nós aqui, qual foi sua experiência com aquele caráter". E é isso que ele próprio faz. Os seminários clínicos que li são obras de arte, peças poderosas que conseguem a enigmática façanha de, através de palavras simples e compartilháveis, de frases curtas e pausadas, recriar com convicção o momento bruto da experiência pura e colocar-nos, como analistas, frente a ele.


Pessoas que assistiram esses seminários contam coisas muito estranhas. Dizem que Bion, com seu peculiar talento em lidar com grupos, de algum modo misterioso transformava aquelas pessoas isoladas ali reunidas em um único organismo. O analista que havia de fato estado presente à sessão atuava como os órgãos sensoriais desse organismo, ao passo que a audiência via-se como seu aparelho de pensar. Narrando o registro de suas impressões sensoriais do fato sucedido, era como se o analista para lá trouxesse um pensamento em bruto esperando ainda por ser pensado. E não se tratava apenas de uma narrativa, mas da reconstrução da experiência emocional daquele momento, tal como ela havia acontecido, que ali se repetia, fazendo todos os demais dela participarem como se da primeira vez. Esquisito? Certamente. Mas contam que a experiência era assutadoramente real e, lendo esses seminários clínicos, realizados há quase vinte anos, eu acredito.


Uma outra surpresa: a maneira como Bion dá conta de sua escuta. Nunca outro autor psicanalítico atingiu tão em cheio a proposta freudiana de atenção flutuante. Termo que Bion cita, para logo em seguida descartar, pois nomear já seria uma maneira de dar por certo, de fechar o conceito em certezas rígidas. Ele pergunta: "Se você está no consultório com o paciente, o que você quer ver? O que você quer ouvir?... Vejam, a questão é que nós, assim como o analista, temos que estar preparados para qualquer coisa... nós temos que manter todos nossos sentidos abertos para o que é". Bion busca fatos, tais como eles acontecem ali, naquele momento. Ele dispensa as palavras que os mascaram e minimizam seu impacto. Percepção sutilíssima dos mínimos e quase invisíveis movimentos de que a vida é feita. Psicanálise em sua expressão máxima.


E mais ainda: Bion insiste na experiência das emoções, a ponto de rejeitar por completo os códigos convencionais, negando-lhes a utilidade, para, ao invés de tomar uma afirmação simples em seu valor de face, esmiuçar o que esse vocabulário estabelecido toma por certo, e descobrir universos insuspeitados de significação. Como a surpreendente afirmação, hipoteticamente feita a um paciente: "Eu não quero ouvir você me contar esse sonho. O que eu quero é que você me diga: onde você esteve na noite passada? Onde você foi, o que você viu?" e em seguida: "Tudo bem, você viu tal e tal coisas. Mas agora diga-me: o que seu coração viu? o que sua vesícula viu?" Só assim se poderia, segundo ele, fazer uma análise que tenha a cara de um ser humano.


E, segundo Bion, é preciso, antes de mais nada ouvir o paciente. Analisar não é buscar confirmação para teorias conhecidas e tranquilizadoras, que podem aplacar a angústia do analista, mas que, por mais adequadas que sejam, pouco têm a ver com o sofrimento daquela pessoa que ali está. E que o paciente é a melhor ajuda que o analista pode conseguir. É deixando o paciente falar sem interpor conceitos prontos, esperando e suspendendo julgamentos, que o analista pode vir a saber algo sobre aquele paciente. "O que é realmente essencial é que nós sejamos capazes de aprender".


E ser capaz de aprender é abrir espaço ao que der e vier: "...se os pacientes podem ter caudas vestigiais, fendas branquiais vestigiais, eles podem ter também mentes vestigiais. De modo que nós temos que estar preparados para ver e sentir e ouvir, em nosso consultório, uma mente vestigial. Uma mente primordial".


Bion não devia ser uma pessoa comum. Suas idéias e, principalmente, o modo com que ele as expressa, me fazem fantasiar uma mente peculiaríssima, capaz, e mesmo compelida por uma irrefreável necessidade interna, de pensar além das fronteiras do conhecido e a se aventurar em territórios que a o pensamento científico convencional ignora. Territórios sobrenaturais? Talvez, até que nossa concepção de natureza se expanda a ponto de abranger os fenômenos que Bion percebe e dos quais tenta dar conta.


Daí, quem sabe, a extrema incompreensibilidade de seus textos teóricos. Talvez ele esteja tentando exprimir idéias que não cabem nos hábitos lingüísticos e epistemológicos tradicionais. Para elas não há um formato padrão estabelecido nem um léxico pronto. As revoluções começam sempre com um caos. E talvez seja a qualidade revolucionária, quase heróica, das idéias de Bion o que faz explodir a linguagem comum, em busca de um continente mais vasto, ainda por ser construído. É o que Donald Meltzer propõe, ao dizer: "Bion se dá conta de que ele está atravessando um cosmos infinito de significado, e limitando-se ao universo finito do discurso".


Meltzer compara o Bion de Os Elementos da Psicanálise ao Leonardo que, tentando construir máquinas voadoras, produziu apenas os desenhos mais maravilhosos que se conhece. Exatamente. Continuo acreditando que a grade bioniana é uma tentativa teoricamente mal-sucedida e de parca utilidade prática. Mas isso não tem importância. Importantes são as intuições iluminadas que incitaram e nortearam essa tentativa. Muito mais interessante que o Bion cientista, para mim, é o Bion sábio, que tenta alargar os limites da Psicanálise para que nela caiba a vida inteira, com seus mistérios, com suas dúvidas, com seu perpétuo não-saber buscando sempre para mais além, numa evolução sem trégua em direção a O. O Bion mestre zen, o Bion bruxo. Desse Bion eu gostei.


Do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo - sede Brasília