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O futuro da psicanálise não está
nas grandes instituições
Uma entrevista com Joel Birman
Edição e apresentação de Daniel Kupermann
Para a sua estréia on-line, Gradiva teve o prazer de entrevistar
Joel Birman, hoje um dos mais influentes pensadores da psicanálise
no Brasil. Psicanalista de muitos talheres e para os mais variados
gostos, com livre trânsito por temas variados, nesta conversa,
da qual participaram Helena Besserman Vianna, Atalia Fontes, Daniel
Kupermann, Jorge Luiz Veschi, Birman pode falar dos impasses que
a psicanálise vem atravessando atualmente - tanto institucionais
quanto teóricos e clínicos -profetizando que o futuro
está nos pequenos agrupamentos de psicanalistas, e não
nas grandes corporações internacionais de uma psicanálise
com desejos de globalização. Contou-nos também
da sua experiência de "despatriamento" durante um
ano sabático de estudos vivido em Paris, da crescente inserção
da psicanálise na universidade e, atendendo à nossa
curiosidade sobre seu percurso de vida, dos caminhos e desvios que
o levaram à opção pela psicanálise.
O leitor de Gradiva encontrará aqui certamente a agilidade
e profundidade crítica que já há muito caracterizam
o pensamento do escritor, pesquisador e psicanalista Joel Birman.
Clique seu cursor e confira.
Daniel Kupermann - Joel, por sugestão da Atalia Fontes,
gostaríamos que você pudesse nos dizer sobre uma curiosidade
da qual nunca te ouvimos falar: o que te levou à psicanálise?
Joel Birman - Olha, o que me levou para a psicanálise foi
uma trajetória um pouco desviante... não foi propriamente
uma curiosidade intelectual, mas uma crise importante na minha adolescência.
Sobretudo a morte do meu pai, quando eu tinha 16 para 17 anos, que
produziu uma crise de envergadura bastante grande. Eu tinha interesses
que não tinham nada a ver nem com a medicina, com a psiquiatria,
e muito menos com a psicanálise - nessa idade eu nem sabia
que existia uma coisa chamada psicanálise. Meus interesses
estavam ligados às artes, ao teatro, havia também
um engajamento político, eu era militante estudantil, com
um interesse muito grande por teatro. Tinha também interesses
nas áreas da matemática e das ciências humanas.
Então, essa crise na adolescência me levou à
uma busca de compreensão disso que acabou me levando a estudar
medicina por interesse não na medicina, mas já na
psiquiatria. Não fui estudar medicina porque queria ser médico,
mas porque queria trabalhar com psiquiatria. Dentro disso eu descobri
a psicanálise. Descobri a psicanálise, na verdade,
no hospital psiquiátrico! Trabalhava, estagiava na enfermaria
do Osvaldo Santos, um psicanalista que tinha uma comunidade terapêutica,
isso por volta de 66, 67. Eu comecei a trabalhar lá e nessa
época, inclusive, era oferecida aos estagiários uma
psicoterapia de grupo. Minha trajetória de entrada na psicanálise
foi através dessa psicoterapia de grupo. Uma trajetória
meio desviante, em diferentes sentidos. Foi uma psicoterapia que
durou uns três ou quatro anos, depois acho que pela própria
forma como a coisa estava montada, com estagiários, que trabalhavam
no mesmo lugar, em determinado momento, a experiência se esgotou.
A escolha, a entrada, se deu nesse sentido, nessa direção.
Por outro tem lado, a morte do meu pai que eu acho uma coisa muito
curiosa para mim porque.... sou de origem judaica, de uma família
romena, meus pais são romenos... você também
? (para Helena B. Vianna, que fez um sinal)
Helena B. Vianna - Bessarábia!
Joel Birman - Bessarábia. Meu pai era o caçula de
uma família de imigrantes, ele emigrou com os irmãos,
os pais... (inaudível). Eu sou de uma família de seis
filhos, da qual sou o único homem, felizmente ou infelizmente,
não sei ainda bem ao certo. Então, o grande problema
do meu pai era ter um filho homem que pudesse fazer a reza do kadish
da morte dele. É curioso isso, por que ele tinha esse desejo,
ligado à prece da morte, mas ele era um judeu inteiramente
ateu, com idéias socializantes. Havia uma diferença
muito grande das duas figuras. Minha mãe era uma pessoa que
freqüentava - até hoje freqüenta - os intercursos
religiosos, os rituais sociais judaicos, enquanto meu pai não,
ele era ateu, respeitava os religiosos mas não freqüentava
a sinagoga.
Helena B. Vianna - De qualquer modo a gente pode dizer que você
tem em experiência aquilo que depois você foi aprender
e conheceu bem de Freud quando diz que a perda mais importante de
um homem é a perda...
Joel Birman - é a perda do pai. Exatamente. Inclusive essa
dissociação que vai se dar, e que eu acho interessante,
entre a figura do meu pai e a figura da minha mãe, que minha
era mais... forte, porque quando meu pai morreu ela tinha ainda
os três filhos mais jovens, eu e mais duas irmãs, os
mais velhos eram casados, e ela teve que sair para a vida, tendo
uma vida até então de dona de casa. Então tinha
essa divisão muito clara entre a figura da minha mãe
e a figura do meu pai e, o fato foi que com a morte dele, eu me
vi na contingência exatamente de atender o desejo dele. Eu
acho que isso salvou minha vida... se eu não tivesse feito
isso, eu acho que eu enlouquecia. Porque através dessa experiência
- não foi simplesmente dizer o kadish no dia do enterro dele,
durante um ano eu ia à sinagoga todos os sábados,
para fazer a leitura do kadish. Então, eu acho que isso me
deu uma certa identificação com o pai, primeiro, e
mais do que isso, eu acho que me deu uma certa identificação
com certos valores do judaísmo diferentes dos valores da
minha mãe. Minha mãe tinha uma visão mais pequeno
burguesa, mais limitada a certas conveniências sociais, e
de uma certa maneira a figura do meu pai me remeteu para uma identificação
não com a religião judaica mas com a etnia judaica,
que é uma coisa diferente, com a marca daqueles judeus da
europa oriental, do final do século, das primeiras décadas
do século, que tinham uma visão de mundo universalista.
Eu acho que essa experiência do kadish e da morte dele, o
resgate, se deu exatamente da identificação com esse
tipo de valores. Isso foi a coisa talvez mais importante que eu
tenha apreendido dessa experiência, que de uma certa maneira
me permitiu manter um certo trajeto que chamo de desviante, sob
o signo do desviante, mas um desviante ancorado por uma certa utopia
judaico-universalista-socialista-comunista... ancorado nesses valores.
Isso foi dado nesse momento, de uma maneira que eu não sabia
que estava sendo dado, são reflexões que eu faço
a posteriori...
Helena Vianna - Joel, para voltar para o terreno psicanalítico,
eu queria te perguntar o seguinte: que diferenças existem
entre Birman quando iniciou sua formação e agora?
Joel Birman - Eu iniciei minha formação, comparado
com os critérios de hoje, tardiamente. Não só
pelos critérios de hoje, vários colegas meus de formação
psiquiátrica, imediatamente acabavam a faculdade e tentavam
fazer uma formação psicanalítica. Eu me lembro
que eu levei muito tempo para ir fazer uma formação
psicanalítica. Apesar de estar identificado com certos projetos
psicanalíticos, eu me perguntava muito se eu podia ser psicanalista,
se eu tinha condições psíquicas (risos) de
ser psicanalista, literalmente falando. Nesse momento da minha formação
eu tinha investimentos diferentes, e aí há uma diferença
para com os colegas, que eram clínicos, e por isso iam fazer
uma formação. Eu comecei a trabalhar e ao mesmo tempo
fui fazer um trabalho universitário. Trabalhava como psiquiatra,
psicoterapêuta, e ao mesmo tempo fazia mestrado. Trabalhava
na UERJ como professor, e levei alguns anos para começar
a formação. Eu acho que nesse momento inicial da formação,
que foi na verdade uma busca de algo no momento em que eu achei
que poderia ser psicanalista, de uma certa forma, não obstante
todo um potencial crítico que eu poderia ter, seja por fazer
um percurso filosófico (pausa); havia uma crença talvez
desmesurada nos poderes da psicanálise, crença desmesurada
esta que hoje em dia eu não tenho mais. Eu acho que a psicanálise
é um discurso riquíssimo, ligado a muitas coisas etc.,
mas eu acho que nesses anos todos eu ganhei uma certa desilusão
em relação a psicanálise.
Em relação a esse momento inicial, havia uma crença
muito grande no poder da psicanálise, que eu não tenho
mais hoje. De uma certa forma, houve um processo de desilusão
da psicanálise que eu acho positivo, no sentido de você
descobrir um pouco os limites da psicanálise. Lagache tinha
uma frase famosa que eu acho muito interessante, em que ele dizia
assim: "Défiez toujours de la madame psychanalyse"
- "Desconfiem sempre da senhora psicanálise" -
que eu acho que é um alerta de que a psicanálise é
uma coisa que tem os seus limites. Quando a gente começa
na psicanálise, até mesmo por causa dos efeitos da
transferência, e muitas vezes você se torna psicanalista
ainda continuando a sua análise, você tem uma crença
na psicanálise maior, intimamente, no sentido do deslumbramento,
do discurso místico, da crença mesmo que ela dá,
que eu acho que você perde, ou deve perder. Não acho
que essa perda seja maléfica não, acho que é
um aumento do potencial crítico e ao mesmo tempo do potencial
do que a psicanálise pode de fato oferecer.
Daniel Kupermann - Sobre isso, Joel, mesmo você dizendo que
a sua entrada na psicanálise foi marcada por essa crença,
você acha que a sua formação anterior a Freud
- você é um bom leitor de Foucault, imagino que no
início da sua prática psiquiátrica, a antipsiquiatria
tinha alguma força etc. - teve algum impacto na possibilidade
de você se desiludir "positivamente", sem ter que
abandonar a psicanálise? Hoje, até mesmo pela grande
incidência de psicólogos no campo psicanalítico,
já se começa com Freud... gostaria que você
falasse da sua formação intelectual, do que te marcou
mais...
Atalia Fontes - Eu pensava se uma desilusão não seria
uma apropriação...
Joel Birman - Ah, com certeza!
Atalia Fontes - se o momento da desilusão não seria
exatamente esse momento de se apropriar do lugar de psicanalista...
Joel Birman - Com certeza. Nesse sentido que eu estava falando
que a desilusão é positiva, ela não é
uma desilusão melancólica. Ela é uma desilusão
estruturante no sentido que ela te dá um pouco o limite da
psicanálise e te abre, ao mesmo tempo, te dá o lugar
dela diante das outras coisas que você vai ter que rearticular
com ela. Então, é uma apropriação, efetivamente,
do que é o lugar do analista e do que existe de mistificado,
de banalidade nesse lugar. Quer dizer, você ser investido
transferencialmente pelas pessoas...
Atalia Fontes - Até mesmo de ilusão!
Joel Birman - E de ilusão a respeito desse lugar. Em termos
de formação, nessa formação meio desviante,
voltando à história da escola secundária, que
eu acho que é importante, uma escola que é muito diferente
do que é a escola hoje, não só era uma escola
do ponto-de-vista educacional de boa qualidade na época,
como também você tinha uma escola paralela, que era
uma escola em que você aprendia muito através do grêmio
estudantil, e da militância política que era uma universi...
uma escola paralela. Não sei se vocês sabem o que que
é isso, Helena deve saber, deve ter vivido uma coisa parecida,
mas acho que talvez as novas gerações não saibam
que tipo de escola seja essa onde você tem um aprendizado
que se dá no nível da militância, você
tem acesso a autores, a textos e coisas que não passam pelo
discurso da academia, passa por outro lugar, passa por um certo
engajamento existencial, político, ético etc. que
se dá nos momentos da formação. E eu diria
que meu aprendizado extra-escolar fundamental se deu nessa escola
paralela. O caminho aí foi um pouco a militância comunista,
e a militância comunista aí não significava
apenas saber o que o Stalin dizia ou gostava de dizer. Era todo
um mundo muito maior do que isso. Era Marx, era teoria da literatura,
Lukácz... Helena B. Vianna - Até Politzer...
Joel Birman - Era Politzer quem tinha uma leitura filosófica
do marxismo. Era Lukácz, teoria da literatura; era Brecht,
teatro; era Eisenstein, era todo um universo muito maior do que
isso, era Trotsky, história da literatura e revolução.
Quer dizer, toda uma apropriação da cultura vista
do ponto de vista do marxismo, e era, ao mesmo tempo, as coisas
próximas disso, que era o existencialismo sartriano, que
tinha um diálogo constante com o pensamento marxista; era
a fenomenologia do Merleau-Ponty, era uma série de coisas
que se davam ali ao lado, que era uma coisa bastante importante,
da formação, da leitura de textos literários
propriamente ditos. Um dia desses alguém estava me falando
à respeito de uma certa diferenciação de pessoas:
tem pessoas que tem uma cabeça formada a partir de livros,
tem pessoas formadas a partir de filmes; eu diria que eu sou uma
cabeça formada, inicialmente, a partir de livros e, depois,
a partir de filmes. A partir dos livros que eu li, sobretudo os
"literários", os clássicos da literatura
francesa, da literatura inglesa, russa, evidentemente, que é
fundamental, e que isso me formou para esse universo e meus interesses
aí... eu tinha um interesse muito grande pelo teatro, eu
fiz teatro na escola secundária, fiz teatro na universidade,
durante um tempo eu fiquei em muita dúvida se eu jogava toda
a psiquiatria para o alto e ia fazer teatro. Cheguei a trabalhar,
a montar peças...
Helena B. Vianna - Que lamentável perda para o teatro!
Joel Birman - Ah... Que era uma coisa fascinante, que foi essa
época...
Daniel Kupermann - Optou pela "outra cena"...
Joel Birman - Pela outra cena onde você não tem tanta
mise en scène...
Atalia Fontes - Você traz como uma arte, essa "outra
cena".
Joel Birman - Ah, sim. Com certeza. Pelo menos eu procuro ver como
uma coisa que tem uma vinculação com o discurso estético.
Mas, por causa desse percurso. Então, a impressão
que tenho é que passei pela faculdade de medicina, até
hoje não sei como é que eu passei pela faculdade de
medicina, essa é que é a verdade! Porque não
tenho uma formação médica "confiável".
Estava tão vinculado à militância política,
ao discurso filosófico, ao teatro, à teoria da literatura,
que a minha passagem pela faculdade de medicina, a única
coisa que deu para mim a âncora para a medicina era a psiquiatria
no estágio que eu fazia no Hospital Pedro II, fiquei lá
durante 5 anos, 6 anos. Eu não tinha um vínculo efetivamente
com a medicina. Até aprendi algumas coisas, mas de fato eu
acho que isso dá um pouco a medida dessa coisa que eu estava
chamando do "desviante". Em termos de formação
médica, é uma formação desviante. Eu
me lembro da minha mãe que dizia: "Então por
que você está na faculdade de medicina? Por que você
não desiste logo disso?" Que é um discurso de
muito bom senso, diga-se de passagem, ela tinha mais o pé
na realidade do que eu! Tal o desligamento, a vinculação
um pouco... pequena com a medicina propriamente dita e um interesse
muito grande por essas coisas paralelas. Dentro da medicina, e que
não é uma medicina, mas institucionalmente referida
à medicina, o único lugar para uma coisa dessas é
o campo da psicanálise. Nem o campo da psiquiatria é
o campo da psicanálise
Helena B. Vianna - E como é que você viveu a formação
chamada classicamente de formação institucional para...?
Joel Birman - ...Formação psicanalítica. Pois
é. Eu fui fazer a formação na Rio de Janeiro
por uma questão de uma história transferencial. A
... (pausa) a minha desilusão com a psicanálise começou
com a formação psicanalítica. Com o convívio
com os psicanalistas mais... os ditos formadores. O que me espantava,
quer dizer, trazendo uma história onde acabei me encaminhando
para a psicanálise, uma história marcada por uma série
de experiências internas, de crises e isso e aquilo, eu fazia
uma expectativa (talvez todo jovem faça) de que os seus parceiros
tenham tido um percurso semelhante. E acho que a grande descoberta
que fiz na Sociedade Psicanalítica é que não
se tratava disso. Na verdade, as pessoas vão fazer psicanálise
como poderiam fazer ortopedia, cirurgia plástica, clínica
médica, uma escolha profissional, não é? Um
savoir faire que elas iam aprender, num momento inclusive em que
a psicanálise era uma coisa muito valorizada socialmente,
o que significava que era uma especialidade, na época, bastante
rendosa, onde efetivamente tinham colegas que eram pessoas que vinham
de outras especialidades. Ex-clínicos, ex-cirurgiões,
pessoas que vieram para a psicanálise em função
de uma experiência de análise mas que tinham em relação
a isso uma relação muito diferente desse tipo de percurso
que eu tive, do ponto de vista dos meus colegas e do ponto de vista
da instituição. Por aí você vê
que a instituição é muito desilusionante, aí
sim no sentido melancólico. O contato com as gerações
mais velhas, as pequenas e grandes manipulações institucionais,
quer dizer, a experiência psicanal... a experiência
institucional é uma experiência de desilusão,
muito violenta, foi para mim. O que me deu uma medida que ali não
era um lugar que poderia me interessar em investir. O aprendizado
que eu tiro disso é que eu passei pela Rio de Janeiro, onde
fiz minha formação, em função da minha
experiência transferencial, e de uma certa forma percebi claramente
que ali não era o meu lugar de impulso. Tanto que nunca,
apesar de fazer parte da Rio de Janeiro, deixei de ter uma inserção
múltipla, no sentido de dialogar com outros grupos, de trabalhar
com outros grupos, ensinar... eu sempre fui muito aberto em relação
a isso, e, quer dizer, novamente desviante em relação
ao que que era definido como a expectativa que a instituição
tinha a respeito de seus membros. Então, a experiência
também é desviante por aí. Agora, evidentemente,
entre o fato de você realizar isso, de que você não
tem nada a ver com aquilo, e você se desligar, tem um longo
tempo, de perlaboração, tempo para compreender, até
você se desligar. Isso...
Helena B. Vianna - A proposta da pergunta só poderia vir
de mim, você se manteve durante bastante tempo, e o que te
levou realmente a se desligar oficialmente da Sociedade Psicanalítica?
Joel Birman - Pois é. O fato é que eu me mantive
na Sociedade, na IPA, conflitualmente, quer dizer, na medida em
que eu estava, fazia parte formalmente mas não tinha uma
vida institucional, na verdade. Isto é, eu fui até
convidado a participar de uma mesa redonda, pelo menos naquele Congresso
que teve no Hotel Glória, Congresso Brasileiro, fui convidado
a fazer um relatório...
Helena B. Vianna - 93.
Joel Birman - 93. Congresso Brasileiro de Psicanálise. Participei,
fiz o relatório da Sociedade Psicanalítica do Rio
de Janeiro, que me pediram, mas não me sentia fazendo parte
dele, daquele universo, e acho que isso é uma coisa que tem
a ver com uma... (voltando-se para Helena B. Vianna) depois eu vou
chegar aonde você quer chegar. A sensação que
sempre tive dentro da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro,
e acho que ela não é irredutível à Rio
de Janeiro, é o fato de que você encontra (e aí
a experiência da desilusão é muito violenta,
exatamente por causa disso) porque você se vê diante
daquilo que eu chamo uma experiência de grande mediocridade.
Mediocridade. Agora, que não é, e aí é
que está o ponto, não é apenas uma mediocridade
intelectual. Ela é mais profunda do que isso: é uma
mediocridade existencial; da qual a mediocridade intelectual é
um produto. É um resultado de uma mediocridade mais fundamental.
As pessoas, falando genericamente, é claro que têm
exceções, e grandes exceções, alguns
grandes amigos que tenho, mas são exceções,
evidentemente. No fundamental, as pessoas são muito pobres
do ponto de vista da existência delas. Essa é uma coisa
que me chamou muito a atenção e que faz parte um pouco
dessa experiência de desilusão com a psicanálise
que falava antes. Descobri que, afinal das contas, os psicanalistas
são seres medíocres que nem os outros. Eu me lembro
a primeira vez que vi isso, eu estava fazendo análise, com
20 e poucos anos e me caiu aquele primeiro romance do Borges...
do Sábato, "O Túnel", tinha uma cena lá
em que aparece um psicanalista desses socialites numa festa em uma
embaixada, e eu fiquei chocado com a descrição que
o cara fazia do psicanalista, como se tivesse caído do céu
no inferno. Então, quer dizer que depois o que vi nas Sociedades
Psicanalíticas era um pouco esse psicanalista que estava
lá prefigurado no livro do Sábato. Então, essa
experiência é que me fez nunca ficar vinculado à
parte burocrática, à uma integração,
a um carreirismo institucional. Eu nunca quis isso, poderia ter
feito, poderia ter sido, feito todos os degraus, não me faltaram
convites, nunca quis isso porque me sentiria mal comigo. Não
dava. Ser membro efetivo, didata... jamais. Além da crítica
política nisso. A isso se adicionou a questão política
Amílcar Lobo/Leão Cabernite, aí a coisa ganhou
uma vertente propriamente política, sobretudo a partir dos
anos 80. Claro, houve uma discussão uma vez no Hotel Glória
a respeito disso; eu acompanhei a história desde quando era
jovem, nem fazia parte da Sociedade Psicanalítica, a história
do "Cuestionamos", a denúncia da coisa, e a maneira
como a coisa era encoberta, e a coisa ganhou fóruns críticos
mais expressivos a partir dos anos 80, com a história lá
do afastamento do Hélio Pellegrino e do...
Daniel Kupermann - Resgatando a pergunta da Helena, sobre qual
seria a crise da psicanálise, qual seria a crise e qual seria
o "lugar" da psicanálise? Você dizia que
a psicanálise teria perdido o lugar de vanguarda, então
qual é o lugar do pensamento psicanalítico hoje? Não
só como clínica, como terapêutica, mas também
de poder iluminar e dialogar com outros saberes. Enfim, você
passou um tempo longo em Paris, recentemente, como foi que encontrou
a realidade da psicanálise no Brasil?
Joel Birman - Olha só, antes de eu viajar, eu não
falava para mim que tinha uma crise da psicanálise. Pelo
contrário. Essa crise ainda não existia na minha percepção.
Agora, eu já achava nessa época que a psicanálise
tinha que sair das suas fronteiras, dos seus núcleos fechados.
Tinha que sair para o diálogo. Com antropólogos, com
sociólogos, com cineastas, com outros produtores de cultura.
E a formação nos institutos fechados significava uma
certa esterilização da psicanálise. Isso inclusive
é uma idéia que eu sustento na introdução
do livro que eu publiquei antes de viajar, "Psicanálise,
ciência e cultura" (N. do E.: Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
1994): que a psicanálise tinha que dialogar com a alteridade
para sair do isolamento e ter um poder dialógico. Eu estava
sustentando um discurso mais ou menos interdisciplinar da psicanálise
como maneira da psicanálise se relativizar. O que eu achei
interessante quando eu saí... evidentemente que uma saída,
ficar fora do país durante uma ano e meio, dá uma
experiência de despatriação importante. Despatriação
em relação à tua língua, você
é obrigado a falar em uma outra língua que não
é a sua língua, você é obrigado a falar
com os outros interlocutores e você também é
obrigado, num outro país, a ocupar um lugar diferente do
que você tem em seu país de origem. Eu saí daqui
num lugar onde as pessoas que me interpelaram lá no relato
do "Ser ou não ser imprescindível" (N. do
E.: In Por uma estilística da existência. São
Paulo, Editora 34, 1996), diziam que eu ia largar um lugar de poder,
eu falei que eu não tinha mentalidade de caderneta de poupança.
Minha história era outra. Você vive um pouco essa perda
de lugar num outro país. Você não existe. Você
é um estrangeiro. A França, inclusive, um país
que apesar de, sob certos aspectos, acolher muito bem os estrangeiros,
é um país que tem dificuldades muito grandes com o
estrangeiro, principalmente nessa época que eu passei. Não
entre os nosso colegas intelectuais, mas entre a população
francesa em geral, uma coisa muito xenófoba. De qualquer
maneira, a coisa mais interessante que eu aprendi lá, e isso
como experiência foi muito rica, é de que se você
tem uma coisa nova para dizer, você é muito bem acolhido,
(dirigindo-se a Helena B.Vianna) não sei se isso corresponde
à sua experiência como autora, mas para mim isso foi
uma experiência muito interessante do ponto de vista de você
se ver diante do que eu estava chamando de "fantasma colonialista",
isso porque você vê freqüentemente que as pessoas
que chegam, por exemplo, em Paris, repetindo coisas que os franceses
dizem, são objetos de escárnio, de desprezo, de sadismo.
Eles tratam muito mal este tipo de pessoas que...
Helena B.Vianna - D`accord.
Joel Birman - Muitos brasileiros vão para lá e são
objetos de humilhação. Em contrapartida, quando você
vai e corre os riscos de dizer algo que você está querendo
dizer e apresenta isso com certa consistência, mesmo concordando
ou não com você, eles reconhecem isso. Esse é
o ponto importante da experiência, porque isso para mim funcionou
como uma certa catarse dos meus fantasmas de colonizado. Por mais
que você, em todo esse percurso, tenha a crítica disso,
você o experimenta como experiência da pele, você
aprende isso. Acho que vivi muito uma certa elaboração
desse lugar colonizado, apresentando-lhes as coisas que eu trabalhava,
as coisas que eu acreditava. Essa experiência funciona, no
nível do convívio, como uma quebra dos referenciais
de colonizado. Essa experiência é interessante porque
ela funciona como uma espécie de experiência bastante
rica para se perder ou trabalhar seus fantasmas de colonizado. Por
mais que se tenha a crítica disso, a distância, a experiência
disso em ato produz efeitos absolutamente diferentes. Acho que isso
foi importante para mim, porque se percebe a partir disso um pouco
o lugar do outro, o lugar do teu país de uma maneira relativizada
no sentido de se descobrir, com mais concretude, uma coisa que já
se sabia que é o seguinte: radicalizando a história,
pode-se descobrir que nós temos no Brasil pessoas que produzem
coisas de tão boa qualidade como em qualquer outro país.
Evidentemente que se tem aqui o que o CNPQ chama de massa crítica
menor, v tem-se menos pessoas que criam do que num país onde
há uma tradição de duzentos anos de trabalhos
teóricos etc. Agora, no frigir dos ovos, aquilo que se produz
de melhor no Brasil não deixa nada a desejar do que se produz
na França. De fato, pode-se dizer que as pessoas têm
uma maior capacidade de trabalho, que elas têm mais tempo
para o trabalho, mas o fato, o fundamental, apesar de ter uma massa
crítica menor, um país mais jovem, menos tradição,
menos memória, o que se faz aqui de melhor não deixa
a desejar ao que se faz na França. Na Inglaterra, nos EUA,
a gente vai encontrar a mesma coisa, talvez até pior. O fato
é que essa descoberta é fundamental. No caso, descobri
pela via da psicanálise, mas acho que as pessoas que fazem
antropologia, sociologia, história, teriam que descobrir
também, isso é fundamental em termos de criar uma
certa valorização da nossa própria identidade
nacional.
Atalia Fontes - Joel, isso não seria "por uma estilística
da existência"? Essa sua experiência de ruptura,
de ida para França, de desvio e de correr riscos, poderia
ser pensada como um paradigma do que você traz no seu texto
sobre a estilística da existência?
Joel Birman - Eu acho que a estilística da existência
é um ponto de chegada disso tudo, de uma carreira, entre
aspas, desviante; desviante em relação à minha
turma da faculdade de medicina, desviante em relação
à Sociedade de Psicanálise em que me formei, desviante
em relação à parte preponderante da minha geração
etc., quer dizer, o interesse por literatura, por teatro, é
um pouco a confluência disso vinculada com um discurso político.
Daniel estava me perguntando a respeito de Foucault; talvez Foucault,
junto com Freud, tenha sido o autor que mais tenha me marcado na
vida. Fui trabalhar com Foucault com vinte e poucos anos. Na tese
de mestrado, Foucault estava lá, na tese de doutorado Foucault
estava lá, e agora estou estudando Foucault de novo, os textos
sobre literatura. Então, é um autor muito importante
para mim e a categoria de estilística também me foi
sugerida por Foucault por um outro caminho, e apropriei a meu modo
para a psicanálise. Faz parte dessa carreira de desvio, quer
dizer, no sentido de desmedicalização, despsiquiatrização
radical da psicanálise, que acho que está desde as
minhas origens.
Daniel Kupermann - Você tentava, além de constatar
um isolamento da psicanálise, resgatar qual seria o lugar
da psicanálise hoje na cultura e em relação
aos outros saberes. Nessa interlocução, a psicanálise
tem algo a oferecer?
Joel Birman - É, eu acho que a psicanálise... a mudança
que aconteceu, para mim, se preparava um pouco na minha saída.
Já na época havia uma crítica de um certo cientificismo
psicanalítico, eu começava a me interessar por determinados
temas como política, violência, uma série de
temas fronteiriços da psicanálise, inclusive sociais
etc, uma certa crítica da psicanálise ao se pretender
se pautar por um certo discurso científico ou cientificista.
Acho que esse foi um ponto básico, e me parece que esse discurso
cientificista da psicanálise tinha como correlato institucional
a idéia de que, se as pessoas não entendiam o que
a psicanálise e os psicanalistas queriam dizer, as pessoas
"resistiam à psicanálise". Esse cientificismo
psicanalítico tinha como correlato o discurso ideológico
da resistência. E foi um pouco isso que comecei a colocar
em questão: se se tratava de um discurso da resistência
à psicanálise ou se tratava de um discurso a respeito
da onipotência dos psicanalistas. Eu acho que essa experiência
de despatriação alimentou essa direção,
essas intuições que eu tinha num sentido radical,
quer dizer, larguei tudo, perdi tudo, entre aspas, (pausa) o fato
de gozar com isso. O fato foi que eu ganhei um pouco essa liberdade
de ter largado tudo e ter vivido o risco de perder esses emblemas
imaginários, fálicos, se vocês quiserem, e ter
vivido uma experiência radical de perda nessa despatriação,
e todos os símbolos que isso quer dizer. Eu acho que isso
te dá uma liberdade mental e uma experiência cultural
de relativização.
Helena B.Vianna - Que você não encontrou aqui...
Joel Birman - Na volta ?
Helena B.Vianna - É, entre os psicanalistas, de um modo
geral, continua não encontrando essa possibilidade?
Joel Birman - Não, até que na volta eu acabei abrindo
isso, encontrando com alguns colegas isso, quer dizer, claro que
encontra! Mas evidentemente que é uma coisa muito embrionária
na nossa experiência brasileira. Mas eu acho que a saída
te dá uma experiência de relativização
muito grande; uma possibilidade de ver o país de fora, em
todos os sentidos: cultural, político, social. O Brasil é
um país muito isolado. A cada três semanas aparecia
uma pequena notícia do Brasil no Le Monde, no Liberation.
O Brasil não existe.
Daniel Kupermann - E era de futebol...
Joel Birman - Não necessariamente o futebol, mas aparece
a cada três semanas ou um mês e você vê
a distância e o isolamento brasileiro que é uma coisa
interessante, tem um certo efeito narcísico sobre você.
Por outro lado, isso te permite dar um lugar relativo ao lugar em
que você está e te permite ver que o Brasil é
um país imenso, o Brasil vive em berço esplêndido.
Ele é muito auto-centrado. E as pessoas não se dão
conta desse excesso de auto-centramento, que acaba se transformando
nesse auto-centramento arrogante, uma coisa altamente provinciana...
altamente provinciana. Então, acho que essa experiência
de você sair, de ver o país de fora, te dá uma
relativização a respeito disso que é muito
produtiva, não só do ponto de vista psíquico
individual mas do ponto de vista em que você vê um pouco
o funcionamento da sociedade brasileira e dá às coisas
os pesos que elas têm.
Atalia Fontes - Parece que esse "fora" e esse "dentro"
são questões tão radicais dentro do campo psicanalítico
e estão sendo trazidas por você no âmbito da
experimentação, quer dizer, não basta intelectualizar
simplesmente, mas é um pensamento interiorizante...
Joel Birman - Claro.
Atalia Fontes - Parece que é preciso experimentar, ousar.
Joel Birman - Não adianta você saber disso, porque
o saber disso a gente sabia. Uma coisa é saber, outra coisa
é você incorporar isso, dá uma outra dimensão.
Agora, é interessante, porque eu não sei se esse tipo
de saída, não sei se foi essa a sua experiência,
Helena, mas eu me lembro, por exemplo, eu trabalhei muito lá
com brasileiros estudantes de doutorado, jovens, eles levam uma
vida de cão, de cão. Eles não tinham a liberdade
que eu tinha, isto é, não precisava do francês
a rigor para nada - tinha uma bolsa do governo brasileiro, tinha
o meu salário da universidade, não tinha que prestar
contas para ninguém, ia trabalhar na biblioteca, ler os livros
que eu quisesse, escrever o que eu queria e de vez em quando eles
me convidavam para dar um curso na universidade, mas a rigor não
tinha que dar satisfação para ninguém, nem
tinha que fazer uma tese. Agora, os estudantes brasileiros sofrem
muito, porque aí você pega a exigência européia
de ter de fazer a tese etc., e você à mercê um
pouco das obrigações que esta situação
coloca. Então, acho que sair aos 25, 30 anos é diferente
de sair aos 45. Não é a mesma experiência. Quando
você sai aos 25, 30, sai preso às exigências
de identidade, de ter lá um lugar, e lá você
está entregue a um sistema que vai te exigir uma certa performatividade
disso, lá você vai viver isso de maneira violenta,
você é um estrangeiro e ser estrangeiro lá conta,
não é a mesma coisa, muito mais do que a gente imagina.
Sair aos 45 anos, tendo um percurso brasileiro etc., te dá
uma outra distância, não é a mesma coisa.
Daniel Kupermann - Uma questão que eu acho marcante no seu
percurso, curiosa, é o papel da universidade, é anterior
à formação psicanalítica. Qual o papel
que você vê, a riqueza, se é que existe, que
a universidade traz como campo para se estudar a psicanálise,
para se produzir em psicanálise ou para se trocar psicanaliticamente
com outros saberes?
Joel Birman - Olhe só, a minha experiência com a universidade
é uma experiência bastante precoce, desde que eu me
formei que estou na universidade. Fiquei na universidade de 72 a
79, interrompi na época em que eu fazia doutorado por razões
políticas, está aí o microfone, vou dizer isso
publicamente porque é bom. Eu e o Jurandir Freire Costa trabalhávamos
lá na UERJ, tínhamos uma ligação com
o Departamento de Psiquiatria, Jorge Alberto Costa e Silva, vocês
conhecem, e com o Instituto de Medicina Social. E o Costa e Silva,
naquela época, estava fazendo o concurso dele de cátedra,
essas coisas todas, e ouve uma incompatibilidade de projetos entre
ele, eu e o Jurandir (que, aliás foi uma pessoa que eu levei
para a Universidade, quando chegou de Paris). Nesse momento, ele
nos excluiu da Universidade, politicamente, porque a gente atrapalharia
o projeto de transformar o Departamento em um centro de psiquiatria
biológica. Saí, me afastei, estava fazendo meu doutorado
na época... voltamos em 86. Então, a Universidade
sempre esteve ligada para mim, sempre foi o outro da instituição
psicanalítica, quer dizer, era uma coisa que me permitiu
não ficar imerso na instituição psicanalítica,
manteve uma certa escolha, de fazer um outro percurso... de poder
crítico em relação ao que eu via nas instituições
de psicanálise, de uma certa maneira dava uma mediação.
Então, acho que isso é uma coisa importante no sentido
de que meu poder crítico estava alimentado não pela
Universidade, mas pela oposição, se você quiser,
entre o movimento psicanalítico e uma inserção
universitária - essa é uma oposição
para mim. Em 86, voltei para UERJ, fui para a Federal e a coisa
cresceu. Quando fui para a França, fui em condição
de ser um professor universitário. Fui fazer um pós-doutoramento.
Lá eu fui inserido como professor visitante na Universidade
de Paris VII.
Helena B. Vianna - Joel, eu queria te fazer uma pergunta. Você
não acha que falta um estudo mais aprofundado aqui no Brasil,
tanto da História do próprio movimento psicanalítico
quanto especialmente dos conceitos psicanalíticos fundamentais?
Joel Birman - Não tem a menor dúvida.
Helena B. Vianna - Pela colonização que você
fala fica superficial como tudo o mais é superficializado
no Brasil, rapidamente absorvido...
Joel Birman - Estou inteiramente de acordo com você.
Helena B. Vianna - Em relação as instituições,
não exatamente às ligadas a IPA, mas de um modo geral...
Joel Birman - Estou de acordo com você no seguinte sentido,
de que essa dimensão propriamente colonialista é importante,
no sentido de que, como diz o Oswald de Andrade, o Brasil é
um país antropofágico, você incorpora as coisas,
e não metaboliza e vomita... você têm culturas
antropofágicas e culturas antropoêmicas, O Brasil é
uma cultura antropoêmica. Você absorve e expele. O Brasil
começou com uma ligação muito intensa com a
escola inglesa, Melanie Klein, Winnicott, e o Brasil expeliu isso
com uma rapidez surpreendente, e você não cria com
isso uma certa tradição própria, fica vinculado
ao que está fora de você, fica ligado ao que a metrópole
produz, e nesse sentido você teve um descentramento do movimento
psicanalítico brasileiro que passou de Londres para Paris,
de Melanie Klein para Lacan e suas derivações, e você
não cria um discurso psicanalítico próprio,
um discurso baseado na tua experiência.
Helena B. Vianna - Você é uma exceção,
você está criando um discurso psicanalítico
próprio.
Joel Birman - Pois é, mas a dificuldade nossa é de
criar esse discurso psicanalítico próprio, valorizar
as nossas experiências, as nossas ambições,
os nossos anseios, encontrando o que tem de melhor na tradição
psicanalítica internacional, porque não estamos mais
na época do discurso nacionalista. A gente tem que incorporar
o que têm de melhor, o que nos oferece, dando um peso, um
valor, à experiência que a gente tem. Nesse sentido
acho que a tradição psicanalítica brasileira
perdeu, exatamente por causa dessa mentalidade colonialista, perdeu
o valor a dar a essa incorporação no sentido do estudo
conceitual, no sentido de Freud, seja da escola inglesa, seja dos
americanos, seja no sentido que a gente queira, foi muito marcado
por esse potencial colonizado. Então, você passa da
escola inglesa para a escola francesa, de Melanie Klein para Lacan,
com uma leviandade surpreendente, e trata Lacan como tratava Melanie
Klein, como o mesmo objeto de crença que eu assisti nos anos
60. As pessoas falavam de coisas complicadérrimas como era
a tal da posição esquizo-paranóide e a posição
depressiva, e as pessoas se referem hoje ao "significantes
puros" do Lacan, ao real, como se fossem coisas de uma banalidade
altamente complicada, mas tendo em relação a isso
a mesma relação de crença.
Helena B. Vianna - A mediocridade de que você falava...
Joel Birman - Claro, mas a mediocridade se constitui exatamente
por essa falta de curiosidade, uma falta de valorização
do que é a tua experiência nacional, quando qualquer
francês admira muito nos brasileiros, por exemplo, a criatividade
clínica, exatamente porque nós somos os opostos. O
que a gente tem de potencial "porra-louca", eles tem daquela
coisa meio assustada, normativa, etc. que faz com que a gente tenha
uma criatividade que eles não tem, não porque sejam
piores do que a gente , mas porque a gente não tem, talvez,
um peso de 300 anos, 400 anos de tradição cartesiana.
Muito bem, não somos melhores por causa disso, mas isso nos
dá uma liberdade que eles não tem.
Jorge Luiz Veschi - Eu não tenho nenhuma opinião
formada sobre isso, tenho uma série de dúvidas. Por
um lado, acho que a gente não tem uma tradição
de pensamento, mas por outro, pode ser que essa aparente falta de
tradição seja uma tradição, que essa
coisa meio indígena, antropofágica, tenha alguma positividade,
mesmo que seja como um processo de demolição dessa
forma de articulação como a Europa faz e como um período
de passagem para alguma outra coisa em decorrência disso.
Essa banalização, essa vulgarização,
esse processo de demolição de um certo discurso, como
um transcurso para a possibilidade de construir uma outra coisa,
uma outra via...
Joel Birman - É, mas para isso a gente tem que poder dar
valor as coisas que a gente produz aqui, narcisicamente falando
- uma relação de positividade, não apenas uma
relação de que a gente está devendo à...
uma moratória à pagar com a tradição
européia ou americana. Ter uma valorização
do que você faz para poder ter, bancar um diálogo com
os europeus ou os norte-americanos que seja um diálogo de
troca e não um diálogo de submissão cultural
colonizada.
Jorge Luiz Veschi - Isso que eu acho que é muito característico
da coisa indígena, que é o que um antropólogo
chama de "um devir outro" - a base da coisa antropofágica,
a vontade de virar outro.
Helena B. Vianna - Mas para virar outro você antes tem que
ser um - justamente o que eu indagava ao Joel é sobre essa
falta de fundamentação -, se isso fica muito superficial
não dá nem para criar algo novo.
Joel Birman - É, você tem que absorver os seus princípios,
valorizar os seus princípios, o que se pode semear por aqui,
até mesmo para que essa interlocução seja uma
interlocução positiva. Você vê que se
produz coisas aqui muito ricas, têm que ser valorizadas, só
que, a partir daí, pode-se fazer um estudo do movimento psicanalítico,
dos conceitos psicanalíticos, de uma riqueza de uma outra
ordem, sem ficar a mercê desse descentramento em relação
à metrópole, seja ela americana, inglesa ou parisiense.
Atalia Fontes - Escutando você, Joel, tenho a sensação
de que você está trabalhando uma psicanálise
para a vida, como se você estivesse apostando no capital erógeno
- o escravo não precisa continuar sendo escravo, ele pode
sair desse lugar e criar coisas, podendo ser senhor. A dialética
do escravo e do senhor fica inteiramente transgressora, transgredida,
na sua psicanálise...
Joel Birman - É verdade. Eu acho que essa mentalidade colonizadora
é redutível à dialética do senhor e
do escravo. A tradição psicanalítica brasileira
sempre teve em relação à tradição
anglo-saxônica ou francesa uma posição muito
colonizada, nunca bancou efetivamente uma especificidade. É
claro, é bom que se diga, que isso requer um tempo de assimilação
e talvez o "timming" da psicanálise brasileira
ter que absorver um pouco da tradição européia
ou americana tenha tido sua razão de ser. É chegado
o momento, e eu acho que já chegou e já acontece,
no qual essa metabolização foi feita e a gente possa
ter ofertas psicanalíticas de produtos de valor, que não
sejam produtos de uma mentalidade colonizada, de achar que é
o Bion, o Lacan, o Green, Laplanche, seja lá quem for, que
vai produzir os últimos achados. Eu acho que esse é
um momento ultrapassado. Hoje, a psicanálise no Brasil está
ultrapassada em relação a história, sociologia,
antropologia e à uma série de ciências humanas
que já tem um tempo, um "timming" de produção
de coisas de valor equivalente ao que encontra na tradição
européia.
Agora, eu acho que a gente tem que bancar isso narcisicamente,
narcisismo aí no melhor sentido da palavra, isto é,
não se subestimar diante dos estrangeiros, ficar repetindo
idéias fora de lugar. O que tem de pior na psicanálise
brasileira hoje é o que me parece essa repetição
das idéias fora de lugar, seja de que proveniência
for, seja psicologia do self, a psicanálise lacaniana, seja
esse tipo de incorporação de discursos doutrinários;
vale dizer, eu acho que a gente não está mais numa
época do movimento psicanalítico no Brasil em que
a gente deva se adequar a doutrinas. Essa palavra doutrina, esse
conceito de doutrina, é um conceito muito ambíguo:
quem fala em doutrina fala em doutrinação, quer dizer,
eu acho que a gente já está num outro momento de se
desprender disso, já tem maturidade histórica, política,
institucional, existencial, ética, para se desligar desse
negócio.
Jorge Luiz Veschi - você estava falando há pouco da
clínica, você acha que tem um antagonismo, por exemplo,
entre doutrina e clínica?
Joel Birman - Não, quer dizer, não acho que tenha
uma oposição entre teoria e clínica, mas acho
que existe oposição entre doutrina e clínica.
Você não faz a clínica sem teoria, não
existe clínica sem teoria, como na época do empirismo
cego. Você se orienta sob certos conceitos, sob certas idéias
do que é o processo psicanalítico. Agora, a doutrina
é uma espécie de enrijecimento da teoria, onde você
não pode mais abrir os ouvidos para as coisas novas que vão
desnortear a tua teoria. Eu acho que nem Freud, nem Lacan, nem Winnicott,
nem Melanie Klein, para falar de quatro grandes criadores importantes,
tenham sido doutrinários, até mesmo porque foram pensamentos
que progrediram, avançaram no percurso deles. A questão
da doutrina se coloca sobretudo para os discípulos, que são
escravos, servos dos seus mestres. Não para os criadores,
jamais. Os discípulos é que preservam os mestres em
formol... os mestres mesmos são pessoas que arriscam a ruptura,
claramente.
Jorge Luiz Veschi - Nesse sentido são mais afoitos da clínica.
Joel Birman - São mais ligados à clínica porque
é impossível se pensar a teorização
psicanalítica sem que se pense na clínica; é
a fonte inspiradora por um lado, por outro lado a possibilidade
de se repensar a clínica a partir de modelos que sejam exteriores
aos códigos que se está utilizando, vai-se a outros
lugares para ter uma experiência de exterioridade em relação
à interioridade, acho difícil pensar em psiquismo
sem que se pense em interioridade checada pela exterioridade, ou
se você quiser, o imaginário e o simbólico checados
pelo real, não é isso? Então, acho que no caso
da experiência psicanalítica, a riqueza dos grandes
criadores foi ter colocado em questão esse espaço
da interioridade psíquica, institucional da psicanálise,
terem trazidos aportes de fora. Acho impossível pensar o
pensamento lacaniano sem, por exemplo, a introdução
na psicanálise de Heidegger, da Lingüística,
Lévi-Strauss, é impossível, sem essa injeção
da exterioridade dentro da interioridade psicanalítica. Da
mesma forma como não dá para pensar Freud sem introduzir
uma série de loucuras dentro do pensamento neo-positivista,
fisicalismo, formação médico-neurológica,
não dá para pensar Freud sem essa massa de cultura
universalista em que ele foi formado. A riqueza de Freud está
exatamente nisso, ou de Lacan. E dentro desse mundo globalizado
em que a gente vive - onde o acesso que a gente tem à informação
é imenso, incomparavelmente maior do que tinha nos anos 50,
20 - há a possibilidade hoje de fazer uma espécie
de injeção, de liberdade de pensamento nesses modelos
vários que a gente tem à disposição,
sem precisar efetivamente se submeter servilmente à uma tradição
psicanalítica, porque a gente já tem uma tradição
importante a ser valorizada.
Atalia Fontes - Joel, esse pensamento plural, em que você
marcaria a diferença em relação a um ecletismo?
Muitas vezes as pessoas interpretam equivocadamente essa interseção
da exterioridade na interioridade como alguma coisa ou biologizante,
ou fisicalizante, ou lingüisticalizante, como um ecletismo.
Quer dizer, o psicanalista agora virou "eclético",
ele quer entender de biologia, ele quer entender... e está
perdendo a especificidade da psicanálise. Eu escuto como
alguma coisa que é da ordem do plural, que, ao invés
de se empobrecer, quer dizer, não se perde, o campo psicanalítico
não vai se perder aí, mas ao contrário...
Paulo Sternick - Essa fala sobre o ecletismo é a partir
do doutrinário ou a partir do que?
Atalia Fontes - É a partir do doutrinário, como se
fosse um contraponto, quer dizer... você não está
doutrinado a um campo específico da psicanálise, que
seria uma espécie de doutrinação, pelo menos
no meu entender porque é como se existisse a priori alguma
determinação de que há um campo que marca a
psicanálise e que o psicanalista deve perseguir e repetir
isso, o que seria uma imitação, que só empobreceria.
Na medida em que você rompe com isso você passa a ser
"eclético".
Paulo Sternick - Pois é, o problema é esse: se o
discurso sobre o eclético vem do doutrinário ou se
vem do rigor...
Atalia Fontes - Não sei, é uma questão: como
é que se pode manter o rigor sem ser doutrinário?
Joel Birman - Eu acho que é a diferença entre clínica
e doutrina, que eu estava tentando fazer. Você pode admitir
que se possa, sem ficar aprisionado numa experiência doutrina,
ser teoricamente rigoroso.
Atalia Fontes - Isso marca um outro estatuto para a teoria psicanalítica.
Joel Birman - Eu acho que a experiência da doutrina está
baseada no servilismo transferencial - eu escrevi no posfácio
do livro do Daniel (N. do E.: Transferências Cruzadas - uma
história da psicanálise e suas instituições.
Rio de Janeiro, Revan, 1996) que, na verdade, a experiência
de doutrinação da psicanálise é baseada
no efeito da transferência. É um dos efeitos possíveis.
Você pode ter um efeito na transferência de submissão
masoquista, onde você vai eternizar o discurso do mestre-analista;
ou você vai efetivamente avançar a teoria sem necessariamente
repetir as palavras do mestre. Então, acho que essa é
a diferença que faço entre doutrina e teoria a partir
dos efeitos transferenciais, isto é, daquilo que chamo de
"submissão transferencial"; ou de um efeito que
chamaria de uma "fidelidade transferencial", você
é fiel à experiência da transferência
mas não é fiel ao analista. Quer dizer, mais ou menos
a história que estava falando a respeito do meu pai e da
minha mãe no começo da entrevista. Eu sou fiel ao
discurso universalista do judaísmo, mas isso para mim é
um discurso ético, não tem nada a ver com a religiosidade,
nem meu pai, segundo eu suponho, evidentemente, não era ligado
à religiosidade judaica, mas à etnia judaica. Essa
é a construção que fiz na minha cabeça.
Se ela é verdade ou não, não sei, pode ser
que meus irmãos possam dizer coisas diferentes, para mim
ficou isso. Então, há diferença entre a doutrinação
e uma teorização que não seja baseada num servilismo
transferencial. Acho que isso é decisivo naquilo que eu estava
discutindo a respeito do que chamava de mediocridade existencial
na comunidade psicanalítica, isto é, essa mediocridade
se alimenta de uma matéria prima que é a submissão
transferencial e não efetivamente de uma fidelidade transferencial
- é aí que acho que os analistas formadores tem uma
espécie de pacto perverso com os analistas formados, onde
eles querem se realizar através de quem eles formam. Isso
provoca um efeito de doutrina, é compreensível, mas
efetivamente isso gera um efeito complicado na transmissão
da psicanálise. Esse é o ponto que parece importante,
que acho que junta uma série de coisas que vão desde
a experiência iniciática do analista até a experiência
institucional, a experiência política e a experiência
cultural do analista. O fato, por exemplo, disso que na Sociedade
Britânica, é o sacrifício que fizeram com o
pobre do Masud Khan. Um nobre indiano...Nada mais alheio à
média dos analistas britânicos que morriam de inveja.
Com a massificação da Sociedade Britânica, ficavam
incomodados com o sucesso do Masud Khan como psicanalista, como
teórico da psicanálise, como figura que sobressaía
dentro da comunidade psicanalítica. Efetivamente, Masud Khan
teve um câncer de laringe, se não me engano, e teve
um caso com uma cliente dele (não foi o primeiro analista
nem vai ser o último que vai ter um caso com cliente) mas
nesse momento em que o Masud Khan não podia mais falar, a
massa medíocre institucional resolveu expulsar o Masud Khan
da Sociedade Britânica, não foi isso? A história
foi essa. A sociedade massificada (eu ia fazer um lapso aqui, ia
falar nazificada), nesse momento em que o homem não podia
mais falar, jogou ele pela janela - porque se ele pudesse falar
o poder de sedução da palavra dele não daria
a oportunidade de o expulsarem. Porque não foi nem o primeiro
nem o último que teve uma experiência...
Helena B. Vianna - O que também é lamentável!
Joel Birman - Não estou discutindo que não seja lamentável,
estou dizendo só que não foi o primeiro, milhões
de analistas fizeram isso e não foram expulsos. Mas eu acho
que isso é importante porque isso é um catalizador
do que seja a transformação da psicanálise
de uma organização aristocrática numa organização
de massa. Neste sentido que, trouxe o exemplo, porque o Masud Khan
é um homem típico de uma organização
psicanalítica dos anos 50 ou 60, onde as sociedades psicanalíticas
eram sociedades aristocráticas, poucos podiam ser analistas
- quando eu comecei a minha formação psicanalítica
esse tipo de visão da psicanálise ainda existia. Eu
assisti a essa massificação da psicanálise,
quer dizer, a gente não pode acreditar que essa massificação
não crie uma transformação ético-política
da psicanálise, do melhor para o pior, o que a gente não
pode deixar de reconhecer, se se quer pensar no futuro da psicanálise.
O Masud Khan não é para mim um herói... não
é disso que se trata. O que se trata é que o Masud
Khan é uma vítima dessa passagem. Se essa passagem
não existisse, se o Masud Khan fosse um analista dos tempos
aristocráticos, isto não aconteceria. O que eu chamei
desde o começo de mediocridade existencial da comunidade
psicanalítica é o correlato dessa massificação
da psicanálise. Eu peguei aqui os indícios que agora,
evidentemente, estão muito mais estendidos.
Helena B. Vianna - Claro, não aconteceu com Jung por causa
disso, a dissensão... ele não foi expulso por causa
da Sabina Spielrein...
Joel Birman - Claro, é diferente.
Paulo Sternick - Joel, essa mediocridade existencial de que você
fala, não seria mais ostensiva no contexto institucional?
Joel Birman - Não, o que estava dizendo, sustentando desde
o inicio é que essa mediocridade, que eu chamo de existencial,
ela é mais ampla do que acordos que se dão sobre a
vivência numa instituição. Ela é efeitos
da análise, isso é que é mais sério.
Ela é o limite da possibilidade do analisar em função
de todo um sistema de transmissão ou de ensino da psicanálise
que está preso a esse sistema, esse é que é
o problema, quer dizer, eu falava que o affair Lobo/Cabernite era
sério, para além do escândalo de um torturador
numa Sociedade Psicanalítica, o torturador é a ponta
do iceberg de um sistema muito mais complexo onde pode acontecer
de um torturador poder se tornar psicanalista na medida em que a
tortura se dá numa maneira de entender a experiência
da transferência - esse é que é o ponto. Porque
efetivamente você cria uma dialética do senhor e do
escravo, em que o escravo nunca vai poder, pelo trabalho, virar
trabalhador. Ele vai estar sempre preso ao servilismo da submissão
transferencial. É isso que eu estou chamando de mediocridade
produzida no campo da instituição psicanalítica.
Agora, o lamentável é que, mesmo as instituições
ditas alternativas, saindo do campo da IPA, reproduzam o mesmo modelo.
Nos anos 80, a gente acreditava ainda que quem sabe outras possibilidades
se apontavam como alternativa para romper com esse modelo, mas esse
modelo, ele é tão enraizado, que a possibilidade de
romper com isso exige uma nova Revolução Francesa.
Helena B. Vianna - Daí se convocar os "Estados Gerais".
Joel Birman - Os "Estados Gerais": fazer uma nova Revolução
Francesa nos salões da Sorbonne. Exatamente para você
fazer uma nova Revolução Francesa, porque até
o inconsciente está efetivamente dominado pelas forças
da monarquia.
Helena B. Vianna - Você tem sociedades psicanalíticas
no Brasil, até pertencentes à IPA, onde há
didatas que dizem que o inconsciente não existe...
Daniel Kupermann - Lacan dizia que as sociedades psicanalíticas
são "sociedades de defesa mútua contra o inconsciente"...
Joel Birman - É isso (risos), mais ou menos isso - Lacan
teve boas tiradas - essa foi uma delas. Outra é que na sociedade
psicanalítica você vê um bando de "auto-suficientes"
- todo mundo sabe de tudo.
Helena B. Vianna - o que você proporia, o que você
pensa para que alguém venha a poder se sentir ou se intitular
psicanalista?
Joel Birman - Primeiro, acho que a psicanálise, naquilo
que ela tem de melhor, é ligada a uma experiência crítica,
a uma experiência de desvio em relação às
normas, e me parece que sempre que a psicanálise perde esse
lugar, ela perde o que tem de fundamental. Acho que as grandes instituições
de psicanálise em termos de proposição de sistema
de formação, elas tendem a aniquilar esse potencial.
Nem sempre elas conseguem, mas a intenção, consciente
ou inconsciente, pouco importa, é de aniquilar um pouco esse
potencial. As instituições, seja nos seus mestres,
seja nos seus burocratas, seja na pressão dos grupos... eu
tendo a achar que a gente tem que pensar seriamente hoje, 100 anos
depois da descoberta da invenção da psicanálise,
que a experiência das grandes instituições de
psicanálise não deu certo - ela não funcionou,
e a gente tem que tomar isso positivamente hoje. Nos anos 50, nos
anos 40, até os anos 70 a gente acreditou que não
deu certo mas que as instituições poderiam ser modernizadas
- porque eram arcaicas, porque eram improdutivas, que elas esterilizavam
a produtividade psicanalítica, enfim, vários autores
importantes, Balint, Lacan, Ferenczi, apontaram para isso. Acho
que hoje a gente está num outro momento da história
da psicanálise que, não obstante os processos de modernização,
eles não funcionaram, então tem alguma coisa errada
com esse sistema de institucionalização. Eu tendo
a achar hoje que a experiência melhor para a manutenção
da psicanálise com essa ética do desvio positivada
são pequenos grupos de trabalho, que possam se reunir em
alguns momentos para trocar suas experiências. Porque a experiência
de institucionalização não funciona porque
ela é feita não para a transmissão da psicanálise
mas para uma experiência de ensino da psicanálise -
no que isso implica de relação pedagogo/aluno, doutrinação,
disciplina, uma série de elementos que acabam criando um
sistema altamente totalitário, persecutório, que era
o ponto que Balint, por exemplo, no primeiro artigo a respeito da
formação psicanalítica (N. do E.: "On
the psycho-analytic training system". International journal
of psychoanalysis. 29, 1948) falava, que ficou impressionado com
o nível de organização superegóica presente
no grupo dos "normais" da instituição de
psicanálise.Acho que a gente tem que reconhecer positivamente
o resultado dessa experiência, acho que não se trata
mais hoje, à diferença dos anos 50, 60 ou 70 onde
ainda se acreditava na questão da modernização,
do aperfeiçoamento, da auto-crítica...Não,
acho que tem alguma coisa errada com essas grandes burocracias psicanalíticas,
sejam elas lacanianas, ou não. E nesse sentido, inclusive,
é bom que se diga, e eu quero isso seja gravado aqui, porque
inimigos mortais até 1997, o fato é que a IPA e Jacques-Alain
Miller acabam por se irmanar em Barcelona, o que quer dizer... uma
grande experiência de globalização ética,
entre dois campos. Quer dizer que os irmãos opositores...
Helena B. Vianna - Caim e Abel...
Joel Birman - ... Se transformaram em irmãos fraternos,
o que quer dizer que, em última instância, há
uma identidade de propósitos, de intenções.
Nesse ponto de vista, estão se unindo contra os grupos dissidentes.
Politicamente é isso, é uma aliança das grandes
corporações lacaniana e da IPA contra os grupos dissidentes.
Paulo Sternick - Os "poderosos" tendem a sentar juntos
para conversar...
Jorge Luiz Veschi - Dividem o bolo...
Atalia Fontes - Eu nunca penso que a minoria é desprezível,
ao contrário, os pequenos grupos...
Paulo Sternick - A resistência, no bom sentido...
Atalia Fontes - Por isso é que eles precisam se unir...
Joel Birman - Mas a gente tem que transformar resistência
em ativismo.
Paulo Sternick - "Gradiva" , quando vai para a Internet,
vai com esse sentido...
Joel Birman - Sair fazendo propostas...
Paulo Sternick - Tem que partir para a ação...
Atalia Fontes - Para a experimentação...
Jorge Luiz Veschi - Você estava falando dessa coisa do ensino
da psicanálise. O Daniel tinha perguntado há um tempo
atrás sobre a Universidade, como é que você
vê a entrada da Universidade no ensino da psicanálise?
Joel Birman - Acho que a Universidade foi importante no campo psicanalítico
brasileiro. A Universidade introduziu um fator de diferença:
até então as sociedades de psicanálise eram
proprietárias do saber psicanalítico. Acho que a Universidade
funcionou como uma espécie de terceiro diferenciador das
instituições de psicanálise, ela obrigou as
instituições de psicanálise a encararem a sua
própria mediocridade - teórica, conceitual, a sua
própria arrogância. Acho que a função
que a Universidade teve foi essa. Pode ser até que ela deixe
de ter essa função, se as instituições
de psicanálise incorporarem isso, mas acho que a função
no campo que ela teve foi essa, no Brasil especificamente. Obrigou
as instituições psicanalíticas a se olharem
um pouco mais...
Atalia Fontes - Mas isso não traz conseqüências
também para se pensar a questão da transmissão?
Joel Birman - Sim, claro, mas como as sociedades psicanalíticas
funcionam como sistemas de ensino, e não como sistemas de
transmissão, elas reproduzem o sistema hierárquico
de poder, de saber. A Universidade serviu para balançar essas
certezas. Então, nesse sentido, acho que a entrada da psicanálise
na Universidade no Brasil foi muito positiva por causa disso.
Jorge Luiz Veschi - E ela mexeu como eixo da transferência
na transmissão.
Joel Birman - É, tirou a onipotência de que só
os analistas formadores teriam como ensinar a psicanálise,
e ao mesmo tempo levou os psicanalistas a estudarem na Universidade,
muitos analistas foram à Universidade.
Atalia Fontes - mas é possível ensinar psicanálise?...
Joel Birman - Teoria psicanalítica sim.
Atalia Fontes - A não analistas?
Joel Birman - A não analistas não, porque as pessoas
que vão trabalhar com psicanálise na Universidade
tem uma experiência psicanalítica, como analisando
pelo menos.
Atalia Fontes - Aqueles que de um certo modo se colocam no lugar
do transmissor, mas a população daqueles que vão
ouvir a psicanálise...
Joel Birman - Não, estou falando dos estudantes - ninguém
vai fazer mestrado ou doutorado em psicanálise sem que tenha
alguma experiência como analisando, isso não existe,
não conheço nenhum aluno que venha fazer mestrado
ou doutorado...
Atalia Fontes - Mas mesmo nos cursos de graduação,
Joel, há de algum modo uma entrada mais efetiva da psicanálise,
e eu me pergunto, mesmo Freud, tendo de algum modo participado de
algum tipo de transmissão da psicanálise na Universidade,
se é possível ensinar psicanálise.
Joel Birman - Não, você não ensina, pelo menos
como eu entendo o ensino da psicanálise, na Universidade
em um curso de um semestre para os alunos da graduação
- dá um texto de Freud, há uma obrigação
burocrática, um semestre o Projeto, outro o Narcisismo, mas
para mim isso significa quase sempre a mesma coisa. Faz parte de
um furacão que produz efeitos nas pessoas. Fundamentalmente,
o meu interesse é criar um certo espírito crítico
nos alunos, mas não estou esperando lá que ninguém
vai se tornar psicanalista a partir de um curso meu, até
mesmo porque "Je défie toujours de la madame psychanalyse".
Mas acho que você produz um efeito crítico nos alunos.
Essa é minha intenção como professor universitário,
seja na graduação, no mestrado ou no doutorado, o
que quero produzir para os meus alunos é reproduzir com eles
o efeito que eu chamei aqui desde o início dessa discussão,
que é o fato de que eu sou um desviante de coração.
É isso que eu quero passar para eles. Os que incorporarem
isso, ótimo, os que não incorporarem, paciência.
Eu acho que isso é positivo, sobretudo numa sociedade homogeneizada,
globalizada e massificada como essa em que a gente vive. O que você
puder produzir de ruído é positivo. Depois a gente
vê o que faz com esse ruído que a gente produz. Produzir
o ruído é legal. Eu não desvalorizo isso, não.
Atalia Fontes - A psicanálise tem que se abrir para os restos.
Joel Birman - Então, você tem que produzir isso, esse
discurso você produz. Agora, não se ensina psicanálise.
Você ensina a ler bem um texto, com sentido crítico,
não com sentido doutrinário. Isso você ensina,
criar um espírito crítico nos estudantes, seja de
mestrado, doutorado ou graduação. Agora, efetivamente,
não se vai transmitir alguma coisa que a pessoa vai passar
para um outro lugar. A Universidade não visa formar analistas.
Visa formar pesquisadores em psicanálise. Uma coisa muito
diferente. Ora, não acredito que se possa ter um bom pesquisador
de psicanálise que não tenha passado por uma experiência
de análise.
Daniel Kupermann - Joel, queria te ouvir falar um pouco sobre uma
categoria da qual você falou rapidamente aqui na conversa
que, eu acho, está no coração da sua pesquisa,
que é a categoria de "estilística da existência"
articulada à psicanálise, à metapsicologia
psicanalítica, à obra freudiana. Por que ela me parece
a contraface da mediocridade. Por exemplo, a própria exploração
dessa categoria combateria a mediocridade, ela tem uma repercussão
institucional, ela tem uma repercussão clínica óbvia,
quer dizer, você o tempo todo falou em ética e política,
então talvez fosse o momento de você explicar um pouco
o que é isso: "estilística da existência".
Joel Birman - É, acho que essa idéia de estilística
da existência tem a ver inicialmente com o fato de que psicanálise
como ciência é um projeto fracassado. Queiramos ou
não, Freud teve, pelo menos até um determinado momento,
um projeto cientificista a respeito da psicanálise. Acho
que, pelo menos até os anos 20, até a criação
do conceito de pulsão de morte, ele acreditava que a psicanálise
pudesse ser uma ciência, com todas as características
que a ciência tinha no projeto neopositivista, determinista...
ligado às teses do Círculo de Viena. Acho que esse
projeto fracassou. Não digo que Freud tenha formulado de
uma maneira sistemática ou doutrinária que a psicanálise
não era uma ciência, mas acho que ele traçou
um programa, ou as condições de possibilidade para
que a gente pudese ler a partir dele, a partir pelo menos de 1915/1920,
que psicanálise não tinha mais o estatuto de uma ciência.
Ela é uma teoria da subjetividade, dá conta da relação
do sujeito com a resistência e com a linguagem de uma maneira
não redutível a um projeto científico, de que
há uma verdade na subjetividade ligada a um registro ético,
estético e político que ficavam como que recalcados
dentro do projeto da psicanálise como ciência. Na medida
em que você abrisse mão, a partir pelo menos do projeto
de 15/20, de uma psicanálise como ciência, você
não tinha mais a possibilidade de sustentar o projeto psicanalítico
como você sustenta o projeto médico psiquiátrico
e da psicanálise como cura. Isto é, a psicanálise
não cura as perturbações mentais de ninguém,
sejam neuróticas, psicóticas ou perversas. Você
dá uma tentativa de destino para isso.
Helena B. Vianna - De administrar, para usar a linguagem moderna.
Joel Birman - Exatamente, você administra isso, você
abre a possibilidade do sujeito lidar com isso, ou de um convívio
com isso não implica numa idéia de cura no sentido
de que a cura implica sempre uma idéia de norma, queira a
gente ou não. Agora, ao invés de pensar que essa administração
seja propriamente alguma coisa de ordem ética - por exemplo
Lacan dizia desde seu seminário sobre a ética - parece
que além de uma ética nós temos presente no
projeto psicanalítico a partir de Freud primeiro uma estética,
no sentido que isso implica não apenas de você se ver
diante dos imperativos categóricos superegóicos para
afirmar uma ética do desejo, por exemplo, mas que você
tem também a possibilidade de criar uma singularidade como
objeto estético. Isso faz parte do projeto psicanalítico
e mais do que isso, na medida em que você não está
mais preso ao discurso determinista, me parece que você lida
com o sujeito em psicanálise como um sujeito ligado ao campo
do outro e dos objetos, o campo intersubjetivo, a psicanálise
vai implicar num discurso político - ela vai implicar necessariamente
um laço social. Você não pode pensar a psicanálise
como ética, como estética, desvinculada de um efeito
político, acho que é isso, inclusive, que dá
a possibilidade de criar um campo de diálogo interdisciplinar
na psicanálise. A riqueza da psicanálise na discussão
com as ciências humanas hoje não se dá só
em termos daquilo que representou a psicanálise nos anos
50/60, por exemplo no projeto estruturalista, de criar um diálogo
com a antropologia social ou de pensar o social enquanto estrutura.
Acho que a psicanálise, enquanto projeto ético, estético
e político é o que abre nesse pós-estruturalismo,
digamos assim, o projeto dialógico no campo das demais ciências
humanas hoje. Acho que esse é o caminho para tirar a psicanálise
um pouco desse limbo, no sentido de dar para ela um mínimo
de dignidade dialógica hoje, que a impeça de ser absorvida
novamente no projeto médico psiquiátrico ou de ficar
a reboque do projeto cognitivista da psicologia, ou do projeto biologizante
psicofarmacológico dos médicos.
Daniel Kupermann - Esse ternarismo me remete a uma tópica.
Faz sentido por exemplo real, simbólico, imaginário
/ ética, estética e política. Você pensou
numa passagem?
Atalia Fontes - Ou em uma metapsicologia. Essas dimensões
ética, estética e política que você traz
poderiam ser pensadas numa extensão metapsicológica
da tópica, dinâmica e econômica de Freud? E diante
dessa abertura para criação, para a questão
econômica, do afeto, do corpo, do sensível, dentro
dessa leitura estética, ética, política, privilegiando
esse capital afetivo que eu escuto nos seus textos?
Joel Birman - Sem dúvida, acho que tem uma dimensão
metapsicológica, onde a questão do econômico
que foi desqualificado na tradição psicanalítica
pós-freudiana, sobretudo na tradição lacaniana,
é revalorizada, porque acho que a dimensão econômica
da metapsicologia freudiana é aquilo que abriu exatamente
para o indeterminismo freudiano, é aquilo que não
era regulado pelo simbólico, não é codificado
pelo imaginário, e eu acho que de uma certa maneira, apesar
de Lacan ter dado muito paulada no econômico de Freud e no
afeto, acabou se rendendo a ele no final da sua obra através
da categoria do real. O real lacaniano nada mais é do que
ter que reconhecer que o afeto existe em psicanálise, apesar
dele ter dito nos anos 50 que isso era uma bobagem. Então,
não tenha dúvida que pensar a psicanálise como
estética e como política ou como ética é
repensar essas categorias a partir da dimensão do econômico
do Freud contra o registro tópico/dinâmico, se você
quiser, representacional, cientificista, em que o Freud inicialmente
quis arrolar a psicanálise, e que acho que foi o projeto
do Lacan até o final dos anos 50/60, pelo menos, que foi
a tentativa transformar a psicanálise numa ciência,
de base lógica, matemática etc. - mas não só
do Lacan, também de Bion também, (voltando-se para
Paulo Sternick) desculpe o comentário, mas acho que Lacan
e Bion são almas gêmeas nesse sentido. Se Lacan pensou
pelo lado da topologia, da lingüística estrutural, Bion
explorou isso através da lógica matemática
etc., mas existe nos dois um projeto de pensar a psicanálise
a partir de operadores lógicos, que deu nos anos 60/70, sei
lá, uma certa sensação de heroísmo nos
analistas de que finalmente a psicanálise seria uma ciência.
Paulo Sternick - Mas tem o outro lado paradoxal de Bion, o Bion
era paradoxal - tinha o lado da intuição...
Joel Birman - sem dúvida.
Daniel Kupermann - A clínica psicanalítica, você
acha que o modelo que a gente conhece, foi formado nele, tem futuro?
Esse tête-à-tête, divã, a pessoa ter que
se deslocar tantas vezes por semana etc., enfim, o encontro clínico
se mantém?
Joel Birman - Eu acho que o encontro tem futuro sim, o encontro
se mantém. O não-se-mantém são os standards
que são criados em torno disso, exigências, determinados
tipo de freqüência ou de determinado tipo de duração.
Acho que você tem hoje uma possibilidade de rever isso de
uma maneira rica no sentido de se pensar, por exemplo, em freqüência
de sessão ou tempo de sessão em função
do tipo de urgência elaborativa dos analisandos que você
tem - eu tenho experiência na minha clínica de pessoas
que fizeram análise uma vez por semana.
Helena B. Vianna - Claro. Ou que não fizeram 5 vezes por
semana.
Joel Birman - Tranqüilamente. Então, não é
a frequência, não é o quadro, não é
a burocracia da exigência. Agora, a exigência do encontro
é fundamental por causa da experiência da transferência.
Então, nós temos hoje a possibilidade de rever isso
com mais riqueza do que nos anos 40/50 se tinha. Mas a experiência
do encontro é fundamental - o que não quer dizer que
o discurso psicanalítico se reduz a isso. Você tem
hoje já um deslocamento da psicanálise pelo trabalho
psiquiátrico, pedagógico, médico, enfim, um
conjunto de outras formas institucionais de encontro que o discurso
da psicanálise como desconstrução de certos
códigos instituídos têm toda a razão
de ser - você está efetivamente realizando um discurso
psicanalítico autêntico.
Paulo Sternick - Joel, parece que analistas de diversas correntes
concordam que a grande burocracia psicanalítica tende a acabar,
fracassou. Mas questiona-se a falta de referências que isso
traz. Bem ou mal, era uma referência, um controle mínimo
de qualidade... acabando-se o modelo tradicional de formação
institucional, o que vai ser colocado no lugar? Você trouxe
a questão dos pequenos grupos que eu acho interessantíssima
- mas ainda não há pensador sobre isso. Eu pelo menos
ainda não vi um pensamento a respeito do que vem depois...
Helena B. Vianna - Na minha opinião não depende só
dos psicanalistas, vai depender de toda essa interação
interdisciplinar...
Joel Birman - Eu acho que a situação está
indefinida e como se viveu muitos anos sob o critério de
normas, uma qualidade definida em torno da idéia de normas,
se acredita que a norma garante a qualidade. O que a gente viu é
que o que a norma produziu foi isso que estamos assistindo hoje,
não garantiu qualidade nenhuma, criou-se uma qualidade ligada
a um ideal normativo de governabilidade. O que a gente está
vendo hoje é que vão ter que se criar novos critérios,
a partir da constatação de que se modelo tivesse dado
certo, do controle, da qualidade, não haveria por que mudar,
agora se o modelo não deu certo é porque a qualidade
disso não funcionou em nenhum sentido. Então, a gente
tem de partir para outra, exatamente para criar novos critérios.
É o desconhecido, mas é um desconhecido do qual já
se tem hoje experiências de grupos mais ou menos autônomos
que produzem uma boa psicanálise, sem necessariamente estar
entregues à grande dominância dessas burocracias internacionais,
claramente, isso já está historicamente dado. Isso
hoje já está, você já tem discursos instituídos,
práticas onde isso foi colocado em questão - possivelmente
a gente já exerce isso em nossa prática cotidiana.
Agora, é uma coisa que vai ser constituída e talvez
não seja mais, muito possivelmente, no sentido que as coisas
vão se encaminhando, no sentido de você criar uma grande
burocracia institucional. Vai se criar uma outra coisa que vão
ser contextos regionais de experiência que vão ter
relações de troca.
Paulo Sternick - Você acha que nesse sentido se aproxima
um pouco da criação artística?
Joel Birman - É, eu acho que sim, você vai criar grupos
que tenham representações locais de uma certa experiência
que vão trocar - eu acho que tanto o movimento do Major (N.
do E.: "Confrontação", na França)
quanto o movimento que chama "lacano-americano" dos lacanianos,
movimento no sentido de respeitar os campos das regionalidades e
trocar a nível internacional essas experiências regionais...
Paulo Sternick - O próprio conceito "global psicanalítico"
vai falir, porque global implica em você ter uma Corporação.
Joel Birman - É, o global é um lugar de reunião
de diferentes, em que estes diferentes tem que ser respeitados.
O que acho que está se encaminhando hoje. É o que
há de mais criativo e mais rico na psicanálise européia
ou mesmo latino-americana. É uma ênfase na valorização
do regional versus esse esquema de globalização universalizante.
Aí acho que os critérios mais normativos de formação
etc. vão pro espaço. Se formos pensar em termos de
IPA, de formação institucional, a IPA hoje corre atrás
de coisas que a rigor historicamente são inteiramente superadas,
por exemplo, a história de que a IPA fracassou porque não
fez pesquisa, isso é uma bobagem do Kernberg. Fez, fez um
outro tipo de pesquisa, agora, a pesquisa que ele está propondo
não tem nada a ver com a realidade da psicanálise
hoje, é inteiramente ultrapassada, não é por
aí que a organização de psicanálise
vai se salvar, não, ela vai se salvar no dia em que ela puder
ser uma experiência regional ou local de uma certa criatividade
e aí ela pode retomar uma certa consciência histórica,
um certo estudo consistente dos conceitos, criar uma teoria regional
que possa dialogar com outras tradições psicanalíticas.
Fazer mais ou menos ou menos aquilo que... o dia em que Bion analisava
o Beckett e saíam os dois para ir assistir à conferência
do Jung. Seria um belo cenário da psicanálise do ano
2000.
Paulo Sternick - Isso aconteceu na década de 30.
Joel Birman - Exatamente, década de 30. O momento da horda
psicanalítica - Bion analisava o Beckett e os dois iam assistir
à conferência de Jung. O curioso é que Bion
dizia que não era psicanalista, era psicoterapeuta... (risos).
Paulo Sternick - É porque ele não estava "formado"
ainda... (risos).
Joel Birman é psicanalista, membro de honra do Espace Analytique,
intituição francesa de psicanálise dirigida
por Maud Mannoni e Jöel Dor; professor titular do Instituto
de Psicologia da UFRJ desde 1991, onde leciona e é pesquisador
no programa de mestrado e doutorado em teoria psicanalítica;
e professor-adjunto do Instituto de Medicina Social da UERJ desde
1986, atuando junto ao mestrado e doutorado em Saúde Coletiva.
Realizou seu pós-doutorado em Paris, entre agosto de 1994
e fevereiro de 1996, e atualmente desenvolve uma linha de pesquisa
interdisciplinar em Psicanálise e Filosofia em torno da questão
das "Novas condições do mal-estar na civilização",
no Collège International de Philosophie.
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