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As origens da psicanálise
O filme
Elisabeth Roudinesco
Elisabeth Roudinesco, já conhecida entre nós por
seus livros "História da Psicanálise na França",
"Jacques Lacan", e muitas outras publicações,
inclusive o "Dicionário de Psicanálise",
escrito em colaboração com Michel Plon, recentemente
lançado na França, com tradução sendo
feita no Brasil, e que mereceu inúmeras reportagens e comentários,
apresentou em Paris, nos dias 14 e 21 de novembro últimos,
seu filme Sigmund Freud, as origens da psicanálise. Unânimamente
elogiado pela mídia européia e por todos os psicanalistas
que já o assistiram, este filme deverá ser próximamente
exibido no Rio de Janeiro. Com a permissão de Roudinesco,
transcrevemos sua apresentação ao filme:
A palavra "psicanálise" aparece pela primeira
vez em um texto de Freud, redigido em francês. Um ano antes,
com seu amigo Josef Breuer, Freud havia publicado seu famoso Estudos
sobre a Histeria. Nesta obra, ele narra o caso de uma jovem judia
vienense que sofria de histeria, um mal estranho, de origem psíquica,
no qual as fantasias sexuais se manifestam através de contorções
corporais. A paciente é Bertha Pappenheim e seu médico
lhe dá o nome de Anna O . Sua história se tornará
célebre e legendária, pois é a Anna O. , isto
é, à uma mulher, e não à um sábio,
que será atribuida a invenção do método
psicanalítico: tratamento fundamentado na palavra, tratamento
no qual o fato de verbalizar o sofrimento, de encontrar as palavras
para dizê-lo, permite curá-lo, ou, pelo menos, tomar
conhecimento de suas causas inconscientes e de sua origem e, portanto,
de assumí-lo ou controlá-lo. Em 1995 e em 1996, celebrou-se
o centenário da psicanálise, bem como o centenário
da cinematografia. Proximamente, no ano 2000, por iniciativa de
René Major, estarão reunidos em Paris, pela primeira
vez no mundo, os Estados Gerais da Psicanálise. O objetivo
dos dois filmes, que eu e Elisabeth Kapnist, escrevemos é
de assinalar este centenário. Até o presente, os filmes
realizados sobre este assunto foram concebidos segundo três
modelos narrativos: ficção, enquetes e reportagens.
As ficções cinematográficas, numerosas entre
1945 e 1970, e frequêntemente de excelente qualidade, especialmente
no cinema hollywoodiano, apresentam tanto a história do jovem
Freud, representado por um ator, quanto histórias cujo tema
e as situações são grandemente inspiradas pelo
saber psicanalítico. Os filmes de Elia Kazan, de Alfred Hitchcock,
de Vincente Minelli ou de John Huston são os melhores exemplos
do pensamento freudiano na estética cinematográfica
do após-guerra. Com o desenvolvimento da televisão,
passou-se a preferir tanto as entrevistas intimistas destinadas
a mostrar pacientes falando de si ou de seus tratamentos, como reportagens,
comumente notáveis, sobre assuntos ditos da "sociedade":
drogas, hospital psiquiatrico, miséria sexual cotidiana,
tragédias sociais. O cinema dos anos setenta, por outro lado,
inspira-se também nestes novos modelos, cujos traços
encontramos seja nos filmes de Woody Allen, ou de Kenneth Loach.
Em sequência, com o impacto cada vez maior dos debates televisados,
os psicanalistas tornam-se eles próprios atores da cena pública,
dando de bom grado suas interpretações sobre as fantasias
individuais ou coletivas do mundo político. Desde 1986, após
a publicação de minhas primeiras obras sobre história
da psicanálise, eu sonhava orientar-me em outra direção,
inédita tanto no cinema quanto na televisão. Eu queria
realizar um documentário que mostrasse pela primeira vez
não sómente as verdadeiras imagens de Freud e de duas
gerações de seus discípulos (de Sandor Ferenczi
a Melanie Klein), mas que mostrasse a história cultural,
política e clínica desta doutina nova, nascida em
Viena no fim do século XIX com influências da filosofia
do Iluminismo, do Romantismo e dos antigos médicos da alma:
a história de uma doutrina que, em um século, teve
sucesso em ser implantando na quase totalidade dos países
democráticos. Eu quis contar, em uma sucessão de imagens
claras e fortes, a histeria de Charcot, de Freud e dos surrealistas,
a formação em Viena do primeiro grupo psicanalítico
(a Sociedade psicológica das quartas-feiras), o exílio
dos judeus expulsos da Europa pelo nazismo, a expansão internacional
do freudismo (Zurich, Londres,Berlin, New York) e, enfim, as ilusões
perdidas, a febre medicamentosa e o declínio, sem dúvida
provisório, das grandes esperanças de curas psíquicas
O encontro com Elisabeth Kapnist, que aceitou ser co-autora do filme
e realizá-lo, e com Françoise Castro, que aceitou
o risco de produzí-lo, foi determinante. Sobre Freud e seus
discípulos diretos, existem dois tipos de imagens: filmes
mudos feitos por amadores ou por um de seus discípulos, ou
filmes falados que são em geral entrevistas com estes mesmos
discípulos, interrogados por serem testemunhas que frequentaram
Freud ou que desempenharam papel importante no movimento psicanalítico.
Nos filmes falados, podemos ouvir lembranças e impressões,
ao passo que nos filmes mudos, as testemunhas aparecem como personagens
da vida cotidiana. Todos já estão mortos atualmente.
Acrescenta-se a estes, um documentário sonoro: uma gravação
única da voz de Freud em inglês. Antes da realização
deste documentário, estas diferentes imagens e esta voz não
tinham sido jamais exploradas de forma coerente. Reverenciadas nos
grandes colóquios internacionais, permitiam aos psicanalistas
dispersos no mundo, reencontrar a nostalgia dos começos,
como também comungar na lembrança do pai fundador
e de seus primeiros discípulos, que jamais haviam conhecido.
Meu objetivo inicial, que foi perfeitamente realizado por Elisabeth
Kapnist, foi sair destes filmes de historiografia oficial e cessar
de vê-los como imagens religiosas. Era necessário tratá-los
como verdadeiros arquivos, como um Arquivo, afim de realizar um
outro filme, um documentário, que fosse equivalente em imagens
ao verdadeiro romance das origens da psicanálise: suas marcas,
sua memória, seus homens, seus conceitos, seu movimento.
Daí seu título: Sigmund Freud, a invenção
da psicanálise. Foi também preciso construir um filme
com comentários que permitissem ao espectador compreender
claramente este romance da psicanálise. Para tanto, misturamos
as imagens de arquivo com outras imagens: imagens de arquivos (fotografias,
iconografia ou filmes de atualidades) e imagens retiradas de filmes
de ficção (o filme de Axel Corti sobre o jovem Freud),
e imagens de entrevistas realizadas ao vivo. Como contra-ponto às
diferentes imagens de arquivos, onde só aparecem os que já
morreram, onde não existe senão memória e lembrança,
fizemos pessoas vivas falarem. Estes não são nem "testemunhas"
de uma experiência ou de uma época "vivida",
nem práticos expressando suas opiniões sobre a psicanálise,
mas são eruditos - historiadores de arte ou do judaísmo,
historiadores do freudismo: Jean Clair, Peter Gay, Riccardo Steiner,
Yosef Hayim Yerushalmi, Regine Lockot. Escolhemo-nos, explicitamente,
em função de seu saber e erudição. Eles
acompanharam a narração juntamente comigo, e eles
contam a história da psicanálise à partir de
um conhecimento adquirido em seus trabalhos com arquivos ou com
iconografia. Dedicamos este filme às escolas psicanalíticas,
aos práticos anônimos e aos pacientes que continuam
ainda hoje a manter vivo o freudismo.
Nota: O comentário de Elisabeth Roudinesco, gentilmente
cedido a Dra. Helena Besserman Vianna para publicação
em Gradiva, só nos faz desejar que este filme seja apresentado
ao público brasileiro, em breve.
Texto traduzido e apresentado por Helena B. Vianna.
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