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DA IDOLATRIA À MULHER
(Um caminho percorrido por psicanalistas num Colóquio recente
na França, motivado pelo atentado de 11 de setembro em Nova
York.)#
Por Denise Maurano
Psicanalista, Membro do Corpo
Freudiano do RJ, escritora,
doutora em Filosofia,
Prof. da UFJF,autora de
A face oculta do amor,
A tragédia à luz da psicanálise,
Imago Editora, 2002.
dmaurano @bridge.com.br
É bem conhecida a frase na qual Lacan diz a seus seguidores:
“Vocês são lacanianos, eu sou freudiano”.
Entretanto suas proposições acerca da teoria e da
clínica psicanalítica evidenciam a impossibilidade
de se reduzir suas idéias aos achados de Freud. Assim, apesar
de todas as questões políticas que estão incluídas
no projeto do Movimento de Convergência, movimento organizador
deste Colóquio, as questões teórico-clínicas
dos avanços lacanianos frente à proposta freudiana
são a via de articulação das diferentes temáticas
focalizadas nos eventos promovidos por Convergência. Mais
de 45 instituições espalhadas pelo Brasil, França,
Argentina, Estados Unidos, Alemanha, Itália, Espanha, Uruguai
e Equador participam deste projeto. Entretanto este Colóquio
de junho agora em Montpellier contou com a organização
de quatro delas: Après- Coup Psychoanalytic Association (Nova-York),
Espaces Analytiques (França), Mouvement du Coût Freudien
(França), Corpo Freudiano do Rio de Janeiro (Brasil).
O tema motivador do Colóquio: As Idolatrias, ocorrido em
8 e 9 de junho em Miontpellier, na França, proposto pelos
colegas americanos foi precipitado pelo evento de 11 de setembro,
quando o ataque às torres gêmeas em Nova York abalou
não apenas os americanos, mas todo o mundo. Inúmeros
profissionais de todas as áreas manifestaram suas impressões
acerca deste atentado e de suas conseqüências, cabendo
a nós psicanalistas, agora, depois de decorrido um certo
tempo do evento, elaborarmos o que será que podemos dizer
a respeito.
Como não poderia deixar de ser, já que a psicanálise
é uma invenção de um sujeito, Freud, começamos
por algumas reflexões por ele propostas em Moisés
e a Religião Monoteísta. Ele começa por sublinhar
que a designação de ser judeu foi introduzida pela
interdição transmitida por Moisés de venerar
Deus sob uma forma visível. Ela ajuda a fazer obstáculos
à tendência à ação violenta que
se instaura quando o que conta é a força bruta como
ideal popular. A harmonia entre a cultura das atividades espirituais
e a das atividades corporais, tal como atingida pelo povo grego
antigo, foi recusada aos judeus. Nesta cisão eles se juntaram
naquilo que valia mais.
A proposta freudiana é utilizada neste encontro, mais precisamente
para pensar sobre a violência em nossa civilização
engendrada pelo apelo ao visível. Apelo a um saber siderado
e restrito aos efeitos da imagem. E neste sentido quem é
o idólatra? Será que é apenas aquele religioso
fanático que tomado por fascinações imaginárias,
mata ou se mata fascinado por algum outro a quem ele obedece? Ou
não será também aquele que inibe sua capacidade
de abstração em proveito da fetichização
de objetos e do mercado?
O Colóquio visou refletir acerca dessas questões
que foram colocada por psicanalistas americanos, discutidas por
franceses, cabendo aos brasileiros as considerações
finais. Foi aí que eu, Denise Maurano fui convocada a me
manifestar. Meu companheiro Marco Antônio Coutinho Jorge,
do Corpo Freudiano do Rio de Janeiro, deveria estar comigo nesta
tarefa, mas infelizmente, ele não pode vir. Sigo então
com minhas considerações.
Para melhor me organizar, e também por não poder
ser de outro modo, decidi tomar como fio condutor dessas considerações
finais do Colóquio sobre a Idolatria, elementos que fazem
parte do meu campo privilegiado de pesquisa: ou seja, a afinidade
ética entre a psicanálise e a arte trágica.
Questão que eu trabalhei em meu livro A face oculta do amor:
a tragédia à luz da psicanálise, lançado
também em francês no ano de 2000 pela Presses Universitaires
de Septentrion.
Nesse livro, pensando a arte trágica como uma maneira privilegiada
da cultura de promover um acolhimento da morte, ou seja, de não
nega-la, eu, inspirada por Freud, Lacan e Nietzsche, sublinhei a
presença na arte trágica de recursos de transfiguração
do horror suscitado pela morte. A música entusiástica
presente na Tragédia Grega e a beleza das ações
e da cena, seriam então, os elementos de encorajamento para
tornar viável este não recuo diante da presentificação
da morte no seio da vida.
Percebi que correlativamente, na experiência de uma psicanálise,
já que sua ética também exige essa não
negação da morte, não negação
de nossa condição radical de desamparo, também
se faz presente a atuação da música e da beleza
como elementos transfiguradores. Esta ética é sustentável
pela via da musicalidade da fala, já que se pede que o sujeito
fale, e pela presentificação da beleza que comparece
no trabalho através da maneira como o amor, enquanto transferência,
é manejado nesta experiência.
Entretanto, um traço remarcável do mundo Ocidental,
desde seus fundamentos filosóficos, é sua maneira
de negar a morte. Esta característica do mundo Ocidental
parece ser ainda mais destacada no universo norte-americano.
O trabalho de Mark Stafford sublinhou a maneira particular como
a nação norte-americana, recuando da experiência
da perda, diante do ataque catastrófico de 11 de setembro,
que fez cair por terra as torres gêmeas matando alguns milhares
de americanos e causando um trauma incomensurável, voltou-se
o mais rápido possível, para um trabalho de restituição.
Essa questão foi também abordada por Richard Ledes,
confirmando a dificuldade dessa nação de viver seu
luto. Dificuldade de se dar tempo para os procedimentos da perda.
Ele indicou as conseqüências disso na verificação
do desenvolvimento de novas patologias, que por exemplo revelam
a depressão como a revanche de um luto que não pode
se realizar, não pode ser concluído. Pela depressão,
este luto reivindica reconhecimento. Muito rapidamente depois do
atentado o próprio presidente Busch declarou o fim da lamentação.
Como se o luto, que inclui a lamentação pelo perdido,
pudesse ser impunemente estancado por injunções governamentais.
Parece que na impossibilidade de acolher a participação
da morte na vida, impossibilidade de acolher a participação
da destrutibilidade e do não senso no centro de nós
mesmos, a morte, ou seus efeitos, diante desta rejeição,
retorna de fora e reclama reificações. E neste momento,
não há Prozac ou medidas de segurança que sejam
eficazes para detê-la. Isto porque o que é rejeitado
retorna sempre ainda mais forte.
Em uma análise mais extensa Ledes assinalou a diferença
entre a maneira pela qual Freud fez sua abordagem do trauma, da
violência e da destrutividade humanas considerando-os como
elementos constitutivos da subjetividade e o modo como o trauma
é tratado dentro da perspectiva norte-americana, sobretudo
pelo governo e pela mídia. Nesta perspectiva o inimigo está
sempre na exterioridade, e o risco de sofrer um ataque é
sempre iminente. Sem terem noção do dano que com isso
eles se auto infligem.
O modelo do trauma, traduzido pelo trauma da guerra ofereceu a
possibilidade de promover um esquecimento do perigo interno. Este
esquecimento parece ter afetado também a psicanálise
que se expandiu nos Estados Unidos, justamente depois da II Grande
Guerra, acabando por dar suporte ao desenvolvimento da psiquiatria,
reconhecida então como nova psiquiatria. A psicanálise
se difundiu imensamente aí, porém ficou comprometida
pela psiquiatria e pelo ideal pragmático do american way
of life.
Os colegas americanos presentes nesse Colóquio mostraram
como nesta perspectiva, trata-se de recuperar o mais rápido
possível, não propriamente o sujeito que sofre, mas
sobretudo sua capacidade de trabalho, para que ele não deixe
de produzir e saia do campo de batalha, seja esta a batalha da guerra,
ou da vida moderna.
O slogam: NY precisa de nós fortes!, difundido depois do
atentado, em consonância com o Projeto Liberdade, projeto
que surgiu como oferta de aconselhamento gratuito para todo novayorquino
em sofrimento devido a perdas causadas pelo ataque de 11 de setembro,
articula-se com um outro slogam que apareceu muito tempo atrás,
na Semana de Saúde Mental. Este conceito de saúde
mental, ganha corpo no início dos anos 50, no período
do pós-guerra, momento em que uma legião de neuróticos
de guerra era uma verdadeira epidemia no país, quando então
exibiram o slogan: Construa você a Saúde Mental: um
direito de nascença das nossas crianças, a força
de uma nação!
Vejam que a questão da força – `NY precisa
de nós fortes e as crianças, a força de uma
nação’– denuncia a mesma como a palavra
de ordem no pensamento norte-americano, pensamento este que funciona,
de uma certa maneira, como paradigma da contemporaneidade.
Podemos pensar que a força que interessa é no final
das contas, a força do Ego, ou do eu como o designou Freud
antes da tradução inglesa tê-lo revestido de
termos eruditos latinos, para que a psicanálise ficasse restrita
ao domínio médico. Todos os investimentos dirigem-se
para encontrar meios de tornar o eu o mais forte possível.
Freud sempre disse que nosso eu é sobretudo corporal, é
projeção mental da superfície do corpo, e Lacan
começou seu ensinamento por pensar a formação
da função Eu, na relação com o reconhecimento
de sua própria imagem no espelho. O sujeito que você
é e o modo como isso se apresenta através do que você
manifesta com o seu eu, articulam-se.
Assim, podemos pensar que diante da falta de consistência
do sujeito, diante do desamparo do humano, a imagem do corpo, o
eu, é investido, ou é chamado a responder, enquanto
ícone de uma plenitude que é impossível para
nós. A imagem do corpo enquanto phallus, – símbolo
do órgão masculino ereto, remetimento à plena
turgescência vital, potência absoluta, unidade de medida
do valor do sujeito, é idolatrada por diversas modalidades
culturais, e toma na contemporaneidade um lugar muito especial.
A imagem do corpo se faz um objeto de adoração que
acenando como agalma, preciosidade escondida que atrai a libido,
ganha no mundo atual seu valor dentro do mercado.
De certa maneira, lembrando o que foi comentado por Stafford em
seu trabalho, esta importância do mercado, enquanto mercado
financeiro, que teve seu motor na ideologia norte-americana, aparece
nesta cultura, como uma forma de restituição da perda,
ou eu diria, restituição da falta radical, que em
última instância, não tem restituição
possível. Esta falta foi vivida como contingência,
que adota no modelo americano a referência da guerra, mas
que é de fato inerente à condição de
ser humano, e nessa medida está fora do mercado, porque é
inegociável.
A história do pensamento revela que na Antiguidade esperava-se
ser salvo, ser protegido, pela emergência da constituição
da cidade e da lei. Na Idade Moderna esperava-se que a salvação
viesse via o poder da razão, da racionalidade. Penso que
hoje, na Contemporaneidade espera-se ser salvo pelo valor da libido
em sua relação ao amor e a sexualidade. A invenção
da psicanálise é uma conseqüência disso.
A questão da relação do sujeito ao objeto
e de todas a estratégias para não se sofrer com a
falta dele são então deslanchadas com toda a energia.
Tenta-se reificar este objeto, enquanto objeto complementador, pelos
recursos das imagens que evidentemente não conseguem apreendê-lo,
isto porque o objeto que interessa é o que Lacan propôs
chamar de objeto pequeno a, objeto desde sempre perdido e por isso
mesmo elemento motor do movimento desejante do sujeito humano, este
objeto, ele não é possível de ser especularizado.
Ele está sempre mais além de qualquer imagem que tente
apreendê-lo.
A questão da função da encarnação
sublinhada no Colóquio, por Salvatore Guido, em sua articulação
com o fenômeno da idolatria, nos mostra muito claramente a
dupla função da encarnação de Deus na
imagem de seu filho. Através da encarnação
espera-se que Deus esteja lá, reificado por um objeto: o
corpo do filho. Porém nada o assegura, nem mesmo a palavra
do próprio Cristo. Como Alain Didier-Weill lembrou, quando
o apóstolo Pedro pergunta a Jesus: ¾ Sois Deus? Jesus
responde: ¾ Sois vós que o dizes. Então Deus
está lá e ao mesmo tempo não está. Apesar
de tudo, malgrado todos os investimentos nas imagens, sejam elas
quais forem, continuamos desamparados.
Esperamos que as imagens nos tragam força, consistência,
e por esta via o estatuto do objeto, ou o estatuto de sua imagem
tem seu valor superestimado. Esta posição é
correlativa àquela da constituição do eu. Podemos
ver que no texto Pulsões e seus destinos e num outro, Psicologia
das massas e análise do eu, Freud situa em paralelo os três
níveis da estruturação do amor* e os três
tempos da constituição do eu, colocando em jogo os
mesmos elementos, donde se pode concluir que o eu é feito
pelos efeitos da estruturação do amor.
E como Alain Vanier muito bem enfatizou, mesmo que o culto às
imagens seja interditado, como foi o caso na lei de Moisés,
mesmo que a idolatria seja um perigo, uma peste, lugar da impureza
como Paola Mieli destacou em seu trabalho, é para nós
impossível passarmos sem essa referência à imagem.
Porém o maior perigo está no que a intervenção
de Jean Pierre Winter bem sublinhou: a relação desta
posição de referência ao objeto com a perspectiva
perversa de fetichizá-lo. Ou seja, negar toda e qualquer
relação do homem com o limite, com a finitude, com
o que em psicanálise costumamos chamar de castração,
frente a fascinação por um objeto complementador que
teria por função servir como elemento que recusa diante
da confrontação com a falta que nos faz humanos.
Não há nenhum Moisés, nenhuma lei que possa
descolar completamente o sujeito deste amor à imagem, fonte
de toda a idolatria, e fonte mesmo da constituição
da identidade do eu. A psicanálise faz o reconhecimento disso,
ela sabe o valor desse modo de defesa para o sujeito. Mas, ela sabe
também que a força que advém dessa estratégia
do apego à imagem, pode ser, ao mesmo tempo a razão
da perdição do sujeito, e é por isto que o
Nome-do-pai é invocado. Nome-do-pai é o conceito criado
por Lacan para enfatizar a dimensão sobretudo simbólica
da função paterna, que atua como função
de mediação frente aos impasses imaginários.
Função que evoca uma proteção que é
expressa não pela estratégia da força, mas
como uma medida de astúcia.
Se a vida é uma luta, pode-se operar nessa luta pela força
ou pela astúcia. Esses dois elementos de combate são
colocados em paralelo desde Homero na Ilíada e na Odisséia.
É por esta via que a psicanálise faz uma aposta radical
no poder da palavra, nos efeitos de deslanchamento da fala, não
para obturar o furo, a falta de objeto que está no centro
de nossa existência enquanto sujeito humanos, mas para dar
a esta falta um contorno de linguagem. Na psicanálise tenta-se
fazer deste furo e dos contornos que dele advierem, a fonte de toda
criação, que não é senão a criação
quotidiana da vida.
Para terminar ainda que um pouco rapidamente, eu diria que com
este movimento em direção ao furo, no que diz respeito
à ética, toda análise conduz à mulher
enquanto conceito analítico, ou seja, conduz à condição
de privação, que situa-se mais além da castração
e que está no centro da questão do luto pela falta
radical do objeto que complementaria. Tal posicionamento não
visa a negação da falta, nem o empacamento nela, mas
seu atravessamento em direção ao enigma que é
a vida. Não foi Nietzsche que disse que a vida é mulher?
Pois então, vamos a ela.
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# Agradeço a CAPES – Fundação de Coordenação
e Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, que
me forneceu auxílio para a participação neste
Colóquio.
* Primeiro: Nível real - por um lado o amor, por outro a
indiferença, o que significa que só se vê o
que se ama. Segundo: Nível econômico - por um lado
o prazer, por outro o desprazer, o que coloca em jogo uma atração
pelo que agrada e uma repulsa pelo que traz desconforto. Terceiro:
Nível chamado eu diria metaforicamente de biológico
- por um lado a atividade e por outro a passividade, para designar
o que resta de insondável na diferença entre os sexos
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