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Por (nem)hum Trabalho de Psicologia em prisões
José Meirelles Filho
Eles estão jogando o jogo deles
Eles estão jogando de não jogar um jogo
Se eu lhes mostrar que os vejo tão qual eles estão
Quebrarei as regras do seu jogo e receberei a sua punição
O que devo pois, é jogar o jogo deles
O jogo de não ver o jogo que eles jogam
R. Laing
Se a prisão, como diz Foucault, não nasce do Direito
e de nenhuma teoria jurídica, se essa idéia de uma
penalidade que procura corrigir aprisionando continua dois séculos
depois nos afrontando como um grande paradoxo, com que racionalidade
postulamos as diretrizes do trabalho psicológico que realizamos
dentro das unidades prisionais?
Agradeço aos colegas psicólogos que trabalham no
complexo penitenciário de Bangu, com os quais tive oportunidade
de discutir e conversar sobre nossas inquietações,
às prestimosas opiniões que muito me ajudaram no desenvolvimento
deste trabalho e em particular ao grupo de estudos Suzane, Helô,
Marici e João, que junto comigo procurou elucidar o texto
“A verdade e as Formas jurídicas” de M. Foucault,
como ferramenta de compreensão para as loucuras nossas de
cada dia dentro do sistema prisional.
É público e notório que com freqüência
as autoridades governamentais, homens e mulheres que exercem o poder,
vêm aos meios de comunicação diagnosticar o
sistema penitenciário como falido. Mas o que não é
identificado e preciso de imediato é do que se trata esta
falência. Como solução e resposta às
elites econômicas assustadas com o cotidiano espetáculo
da violência, as autoridades nos propõem a rápida
construção de mais unidades prisionais. Deduzimos
então que teremos mais e mais apenados com mais e mais prisões
e, por conseqüência, a violência ficará
definitivamente contida nesta moderna e imensa “Nau dos Insensatos”.
Outras soluções de menor impacto são acrescidas:
a) o aumento salarial dos agentes penitenciários visando
o saneamento da corrupção; b) a contratação
de mais médicos, psicólogos, assistentes sociais,
etc (os chamados técnicos); c) medidas de segurança
e disciplina intra-muros mais rigorosas; e outras tantas, desde
que não questionem a lógica da existência do
sistema prisional.
Pensemos agora junto com Freud, a partir de alguns de seus pressupostos
encontrados no magistral texto “O mal-estar na civilização”,
onde nos descobrimos: predadores por natureza, civilizados por repressão
e infelizes por conseqüência. E comparemos com a carga
de angústia sentida por nós psicólogos quando
fazemos ou desfazemos um parecer psicológico ou quando nos
encontramos numa malfadada CTC. E comparamos por quê? Porque
o mal estar sentido é de tal magnitude que só podemos
estar no âmago daquilo descrito pelo mestre como o que não
deu certo. Estaremos criando um grande exagero? Superfaturando emoções?
Talvez. Entretanto, o diálogo é este e a tarefa é
prosseguir. Dentro do amplo debate sobre a violência, suas
causas e explicações, escutemos esta ainda de Freud:
“ O elemento de verdade por trás disso tudo, elemento
que as pessoas estão tão dispostas a repudiar é
que os homens não são criaturas gentis que desejam
ser amadas e que, no máximo, podem defender-se quando atacadas;
mas pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes
instintivos deve-se levar em conta uma poderosa cota de agressividade.
Em resultado disso, o seu próximo é para eles não
apenas um ajudante fraternal ou um objeto sexual, mas também
alguém que os tenta a satisfazererem sobre ele a sua agressividade,
a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação,
utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se
de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo
e matá-lo.”
Alguma racionalidade se esboça a partir do que foi dito.
O descontentamento que vivemos é grande, inclusive planetariamente.
Tomo esta afirmação como óbvia e evidente por
si mesma. Identifico o sistema penal como o lugar onde os elementos
formadores deste mal-estar parecem se encontrar de maneira privilegiada
como um tumor a ser lancetado. Violência e repressão
permeiam a experiência humana, se intensificaram no século
passado, interrogando de maneira sombria pelo futuro da humanidade.
Isto posto, formularemos, se vocês permitirem, a questão
do tema título do trabalho agora de outra maneira. Para que
serve finalmente a prisão no século XXI? Faz-se mister
uma apresentação. Sou psicanalista e psicólogo
concursado do antigo Desipe, trabalho há dois anos na PenitenciáriaVicente
Piragibe. Este período de trabalho foi suficiente para uma
série de observações dentro daquilo que a fenomenologia
nos ensinou a fazer muito bem: ver as coisas tais como elas são
sem aprioris ou pré-julgamentos.
O VP atende a 1400 internos em regime fechado, amontoados em 05
pavilhões, onde pode-se consumir drogas com relativa facilidade.
Este grande coletivo está sob o domínio da facção
criminosa Comando Vermelho que o organiza, estabelece normas de
convivência e padrões de comportamento, onde qualquer
preso poderá pagar sua pena com “segurança”
desde que respeite as rígidas regras do comando e seja “
sujeito-homem” (tenha caráter).
A população carcerária do VP tem uma característica
básica em seu perfil: a juventude. Uma maioria de jovens
entre 18 e 23 anos, cumprindo pena por tráfico de drogas
(art.12) e em menor número enquadrados no art.157 assalto
à mão armada. São 100% pobres.O que nos leva
a crer, como diz Loïc Wacquant, que o que estamos verdadeiramente
punindo é a pobreza. Punir os pobres seria então a
finalidade das prisões? Excluí-los? Deixá-los
bem longe de nós?
Segundo Vera Malaguti a nova fórmula seria: Penas alternativas
para os possíveis consumidores e cadeia para os consumidores
falhos. A pobreza deixa de ser reserva de mão de obra, precisando
ser, neutralizada, isolada e destituída de poder.
Uma pobreza totalmente despreparada para o mercado de trabalho,
inclusive o informal. Estes jovens mal escolarizados, quando não
são analfabetos, lêem e escrevem com muita dificuldade,
viveram de biscates até delinqüir ou apenas como dizem
estavam no lugar e na hora errada, presos num arrastão de
deserdados, “buchas” do desvario capitalista.
De fato fumar maconha na zona sul gera apenas apitaços
no posto 9, mas nos morros e periferias da cidade é tráfico
certo.
Os internos são precariamente assistidos por médicos,
enfermeiros, dentistas, assistentes sociais e por nós psicólogos.
Nosso trabalho consiste basicamente na feitura de pareceres psicológicos
que irão compor o Exame Criminológico dos internos,
mais abrangente, somados aos pareceres assemelhados dos outros técnicos
e um conceito disciplinar. A papelada pronta e reunida é
enviada à VEP (Vara de Execuções Penais) para
que os juízes tenham as informações necessárias
à concessão dos benefícios pretendidos: Progressões
de Regime, Livramentos Condicionais, Indultos, etc. Muita burocracia
para pouca psicologia.
É impressionante a alta-rotatividade encontrada em algumas
unidades prisionais. Paradoxalmente ao que se possa pensar, é
com relativa facilidade que os presos obtém seus benefícios.
A máquina precisa funcionar. Eles entram, eles saem. A reincidência
é grande. A pressão é exercida no sentido de
que todos obtenham o livramento condicional.
Participamos também como previsto na LEP - Lei da Execução
Penal- das CTCs -Comissões Técnicas de Classificação-
compostas por um presidente (diretor ou sub da unidade), dois chefes
de serviço, um assistente social, um psicólogo e um
psiquiatra. As CTCs dão um fecho aos exames criminológicos,
classificam os internos para o trabalho, dão segurança
aos presos perseguidos por outros presos, fazem pequenos julgamentos
dos atos de indisciplina cometidos e tudo mais que diga respeito
à vida prisional. A rotina carcerária de uma unidade
como o VP depende, para o seu bom andamento, que isto funcione a
contento. O atraso, por exemplo, na realização dos
exames implica em descontentamento imediato do coletivo.
Poderíamos nos deter e explorar mais nossa reflexão
sobre a natureza teórica e as finalidades do parecer psicológico,
além do papel desempenhado por nós nas chamadas CTCs
disciplinares. Mas o que pretendemos com este trabalho é
estabelecer objetivos teóricos e empíricos entre a
finalidade das prisões com o trabalho da psicologia.
Partindo do princípio que a ressocialização
dos internos, presente em uma gama variada de discursos, inclusive
o jurídico, é meta e principal objetivo de toda a
prisão, estaríamos na obrigação de encontrar
uma teoria consistente para tal, ou dados empíricos relevantes
que nos levassem a crer que esta premissa, para nós quase
que utópica da capacidade das prisões em ressocializar,
seja possível.
Não conheci em dois anos de trabalho no sistema uma só
pessoa, técnica ou não, que defendesse a tese em questão.
O que prevalece é o senso comum que nos aponta apenas para
o caráter punitivo das prisões.
Havendo o reconhecimento empírico de que esta tese é
furada, caem por terra os ideais da LEP, onde os presídios
reproduziriam uma sociedade intra-muros justa, solidária
e assistida. Um verdadeiro laboratório de cidadania, modelo
para uma futura reinserção social do individuo apenado
.
Como vocês devem saber, a coisa não funciona assim.
Gostaria de me alongar apresentando situações, fatos,
dados, depoimentos que demonstrassem cabalmente que as prisões
não podem corrigir ou terapeutizar a quem quer que seja.
Seria por demais extenso.
Contraditóriamente ao discurso oficial, as prisões
se tornam fábricas de exclusão prenhes de violência
e repressão.Vide o caso Chang.
Isto nos impõe a continuar indagando eticamente o que lá
fazemos.
Pelo avesso talvez encontremos em Skinner, nas psicologias do comportamento
algum sentido lógico para o encarceramento: O Terror. O presídio
seria um lugar tão insuportável que os indivíduos
ficariam condicionados aversivamente a não delinqüir.
Horrorizados com a perspectiva de um dia voltar, ajustariam seus
comportamentos às normas sociais. Kubrick, em sua Laranja
Mecânica, nos mostrou detalhadamente como isto funciona. Sem
comentários.
Tenho largo apreço por minha profissão, cultivada
ao longo de mais de 25 anos de trabalho. Sei, por ossos do ofício,
que no imaginário das pessoas somos aqueles que cuidamos,
e noves-fora as psicologias de laboratório, pavlovianas,
cuidamos de gente. Mas também fazemos mais, pensamos, indagamos,
somos críticos e, acrescentaria, libertários, pois
seria difícil conceber algum tratamento psicológico
que não estivesse sob o primado da liberdade.
Como então racionalizar uma instituição que
aprisiona para corrigir? Que sentido poderia ter, além do
penal, para um indivíduo, a privação da sua
liberdade?
Se trabalhamos no cárcere e damos andamento à rotina
carcerária, do outro lado dos apenados, somos também
carcereiros e estamos aprisionados neste fazer.
Escuto alguns colegas, por sinal muito bem intencionados, dizerem
ser sempre possível uma palavra de afeto, um esclarecimento
ou informação necessária tornar positiva nossa
presença junto aos internos. Outros acreditam que devemos
atuar nas brechas institucionais, por menores que elas sejam, para
ali plantar uma semente de trabalho pensando no futuro, futuro este,que
a nosso ver, nem a Deus pertence.
Caberia finalmente perguntar o que seria um sistema prisional
não falido em seu funcionamento ideal. Aquele que pudesse
mitigar o ódio encontrado no ambiente do cárcere;
que reduzisse a agressividade existente a níveis toleráveis;
que transformasse os bilhetes que deixamos para nossos colegas:
“O ambiente está tenso”; “Cuidado”
; “Qualquer coisa é melhor dar no pé”;
“Isto hoje está um inferno”; “Houve confusão
e tiros ontem às 15 horas”, etc., em coisas mais amenas
encontradas em qualquer outro ambiente de trabalho.
Medo, ódio, hostilidade, repressão. Vamos com as
prisões até onde, até quando, na expectativa
de torná-las escolas risonhas e francas?
A natureza humana, descrita por Freud, nos choca e de pronto a
repudiamos. Mas nós homens da cultura do ocidente, hoje quase
planetária, brancos, capitalistas, adeptos das democracias
representativas, competitivos, fazemos da cobiça uma razão
de viver. Nossa lista de crimes é por demais extensa e os
Papas teriam, que pedir perdão, de joelhos, anos a fio por
alguma clemência. E se Deus existisse, na verdade, não
haveria porquê nos perdoar. Matamos com muita desenvoltura,
com guerras e com a fome, muita gente e, em nome de Deus praticamos
o genocídio em vários continentes. Demarcamos propriedades,
fazemos leis para proteger a espoliação que praticamos
contra nossos semelhantes. E ainda, na maior “cara-de-pau”,
dizemos serem os outros os assassinos.
A falência que presenciamos não é do sistema
prisional, mas da sociedade em que vivemos. Não há
nada a fazer em Bangu. Bangu é aqui e agora.
Rio, 02/10/03
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Trabalho apresentado na “I Jornada de Estudos Transdisciplinares
– Criminologia e subjetividade”, realizada na Universidade
Candido Mendes, em 23 e 24 de Outubro de 2003.
José Meirelles Filho é psicanalista, psicólogo
da Penitenciaria Vicente Piragibe e fundador da Clínica Terra.
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