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PSICANÁLISE E MÚSICA

(Um estudo trans-disciplinar de transformações em "O")

Paulo César Sandler

"Você precisa se habituar às notas, e depois esquecê-las"

(Professor Parker a David Helfgott, em "Shine")

Dois contemporâneos, o Professor Parker, da London School of Arts, e Wilfred Bion consideravam os efeitos destrutivos da memória quando ela não é usada para aprender, mas para substituir a experiência. Na "ecolalia" descrita pela Psiquiatra experiente, Helfgott não esquecia milhares de palavras e ditos. A mente saturada de memórias (repetir, imitar) impede-as tornarem-se memórias-sonho ou pensamento onírico. "Todo mundo cresce, menos eu, que cresci ao contrário e diminuí", diz David no final do filme à sua esposa Gillian. Bion explicita algo implícito em Freud: nada pode ser consciente se não tiver sido tornado inconsciente -- esquecido (Bion, 1959b, 1962b). O personagem exemplifica alguém que não experimenta sequer a aurora do esquecimento; não pode saber do crepúsculo dos deuses. Em termos de Melanie Klein, os aspectos da posição esquizoparanóide não podem ser elaborados e não se experimenta um trânsito para a posição depressiva. A divindade encarnada, alucinatoriamente senso-concretificada em um objeto bizarro -- "Rach 3", ou a fantasia de ultrapassar o pai. Alucina ter alcançado o Absoluto (posse de "O"), pictoricamente representado na transformação cinematográfica por batimentos cardíacos. Helfgott, como Cristo na cruz, pergunta porque o pai o abandonara -- laivo de humanidade de alguém de resto "superior" (Coincidentemente, Gott significa Deus; salvou-o a outra metade, helf?).


Na realidade: eletrochoqueterapia. A história havia sido prenunciada pelo personagem "professor Parker", que não podia mais tocar: um Tirésias cuja cegueira foi representada na perda funcional de um braço. Apesar da experiência estimulou fantasias de genialidade e superioridade no pupilo.


Música, Mente, fantasias homossexuais (inicialmente com o pai), desenvolvimento emocional-sexual, o amor de / por uma mulher, dedicação e cuidado a uma causa ou pessoas: o período romântico, que proporcionou os mais profundos e poderosos insights a respeito da natureza humana e em conseqüência da realidade psíquica jamais obtidos, antes ou depois.


MÚSICA E PSICANÁLISE: TORNANDO AUDÍVEL O QUE SE ESCUTA


Uma jovem lá pelos seus vinte e tantos anos procura um analista após ter perdido sua primeira filha no parto. O analista recebe a notícia antes mesmo de conhecer a paciente, sinal inequívoco de um ambiente emocional pleno de identificações projetivas, onde alguém parece tentar se livrar da dor trazida pela desafortunada realidade.

"Estou com muita dor de cabeça. O sr. tem remédio para dor de cabeça?" "Acho que tenho pressão alta. O senhor é médico, pode medir minha pressão?". "O obstetra não entende. Ele diz que a placenta já estava toda descolada, rasgou assim, direto....nem rasgou, nem deu sinal...eu não tive nenhum sangramento, sabe? Nenhuma dor, nenhum aviso, nada...Ele diz que em 95% dos casos não se pode determinar a causa de um negócio desses..."


A pessoa diz algo a si mesma e em conseqüência o analista pode apreende-lo -- ocorre algo na sala. O que é esse "algo"? Pode ser mais de um algo? Ou há muitos pontos de vista sobre o mesmo "algo"? Os românticos "amor à verdade" e "senso de verdade" (Bion, 1960, 1962a e b, 1975), a visão que o objeto amado e o odiado são o mesmo, único objeto, aliados ao iluminista "observar", ferramentas da psicanálise. "Verdade" ou "realidade", melhor expresso por Keats, "truth is beauty, beauty truth".


A observação aliada à "intuição analiticamente treinada" (Bion, 1970) permite elucidar mas não provar "pois o que é verdade não demanda provas" (Bion, 1965, 1970, 1975) que esse "algo" foi mais ou menos, nas palavras de um analista, a forma verbal em torno da realidade ocorrendo na sessão, "O" e suas invariâncias:


"Não fui eu".


Re-assegura-se, a perda do filho não foi culpa sua. Imobilizar-se no falado, percepção sensorial, equivale à visão de um não-músico de notas grafadas em uma partitura: "apenas uns pontinhos pretos". Em psicanálise é imobilizar-se no mesmo trilho criado pela paciente, no conteúdo manifesto (pré-Freud). O profissional pode pensar, "a paciente está culpada, ou deprimida", e que a depressão é um inimigo a ser combatido, demandando antidepressivos e não psicanálise. Alternativa (pós-Freud): busca por conteúdos latentes, fantasias inconscientes, aquilo que é dito alem do falado, "equivalentes psíquicos" (Isaacs, 1946) da Natureza, do Instinto; focalizar o conflito básico; a Natureza mesma, viva, o "senso comum" (Locke, 1791; Bion, 1959c). Essa é u’a mãe real que sente a dor da perda de um filho; mas tenta se evadir dela, não sofrê-la (Bion, 1970). Ela é responsável por ter um filho e inevitavelmente arrisca perdê-lo; transformar dor da responsabilidade em culpa acarreta negar a própria maternidade e a feminilidade. O único modo dela ser mãe agora é suportar a dor real da perda da criança -- e essa dor, único remanescente de uma maternidade precocemente negada pela Natureza madrasta, a pessoa especificamente tenta evitar. Não é depressão - é realidade natural.


Conteúdo latente, "invisível ao olho mortal", no dizer do maior dos românticos ingleses, Wordsworth; fora do espectro abrangido pelo aparato sensorial humano, os cinco sentidos básicos, como apontaram Kant, Freud e Bion. Existem relações entre o modo psicanalítico de apreensão da realidade psíquica e o modo musical de penetração na realidade psíquica? Se existentes, compreendem semelhanças? Diferenças? Penso que sim; talvez possamos examiná-las com o auxílio de alguns pontos de vista: 1. Relações entre objetos; 2. Penetração e apreensão; 3. Comunicação; 4. Tornando a interioridade apreensível a si mesma; 5. Utilidades.


Fazendo da necessidade, virtude (Freud, 1914b) os seres vivos desenvolveram modos de apreensão da realidade. Eles exigiram a disciplina de métodos. Para haver a apreensão, o passo inicial é um tipo de "penetração" sensorial. Paradoxalmente, tanto a realidade penetra em nós como nós nela. Na música, somos "penetrados" por sons, objetos sofisticadamente articulados e relacionados. Em psicanálise, por palavras e sua "música" latente? O termo "penetração" admite significados atinentes à realidade material, sensório-concreta; aqui é utilizado enquanto manifestação de alguns processos de pensamento intrinsecamente vinculados a identificações projetivas e introjetivas, e os vínculos relacionais de amor, ódio e processos de conhecer (Klein, 1946; Bion, 1962b).


Suspeito que a Arte tenha se iniciado com ritmos acústicos, antes mesmo da pintura rupestre. Ruídos da natureza física e animal: quem ouviu a Música "Filho" contida no Ruído "choro de bebê"? Os primitivos hominídeos fêmeas? Os machos? Quem ouve a música "seio nutriente" na concretude do leite? Quem ouve o par criativo na dupla sexual? Quem ouve o conteúdo latente subjazendo ao manifesto?


Até onde pude observar, o modo artístico conserva uma potência ainda inigualada de penetração na realidade do acontecer humano, talvez em função de sua antigüidade. Dentre os modos artísticos, para muitas pessoas, talvez a maioria, o recurso musical se destaca. Através da música podemos alcançar clímaxes de sublimidade e descer aos mais profundos porões da bestialidade que a mente humana é capaz. O desenvolvimento desses modos a partir do acústico, caminhando para a pintura (visual) parece ter dependido da introdução do pensamento verbal. Tal desenvolvimento prosseguiria na arte literária, inicialmente mitos e teatro. Pode-se perceber como a arte foi ficando distante da dependência exclusiva da sensorialidade. A independência foi permitindo um desenvolvimento: a apreensão, por meio de processos de integração intrapsíquica. Aquilo que a arte luta por expressar se dá por processos simbólicos que tomaram vulto, introduzindo a-presentações da realidade material e psíquica que o ser humano fazia e faz para si mesmo: o nous, a mente se apresentando a si mesma; a "consciência" percebendo "a qualidade psíquica" (Freud, 1900). Penso que os gregos, Dante, Shakespeare, Goethe, Nietzsche, Freud, "ouviram" a "música" primitivo-instinctual, real do ser humano, do "ser-se quem se é", dos fatos tais como são. Da Arte parece ter se desenvolvido a Filosofia; e dela o ramo Epistemológico, conscientemente voltado ao conhecer; e a Ciência com sua prole, Matemáticos, Físicos, Biológicos e atualmente, Psicanalíticos, aparentadas da Arte na sua dependência de intuição. A apreensão da realidade (psíquica e material) inclui necessariamente o uso dessa faculdade humana, parcialmente inconsciente. Não sabemos a realidade última dessa capacidade, como de resto não sabemos a realidade última de qualquer fato ou evento; dispomos do nome, "intuição" e da possibilidade de experimentá-la. Sentida como obstáculo por parte de pessoas que buscam entender e esmiuçar intelectualmente o que pertence à esfera de "O", intuição pode ser percebida, apreendida, vivida e experimentada, qual música, mas não pode ser entendida, falada, reproduzida nem verbalizada.


Há partitura para se "ler" a "música do inconsciente" ou a música de "O", do desconhecido? Penso que "O" pode ser ouvido em experiências cujas "partituras" são em si expressões felizes porem limitadas e transitórias de "O". Capturam, dão forma a "elementos" de psicanálise: dois princípios do funcionamento mental, instintos de vida e de morte, livre trânsito entre Posição Esquizo-Paranóide e Depressiva e vice versa, Triângulo Edipiano, conteúdo manifesto e latente, falso self, relações objetais, continente/contido. Bion iluminou o fato do mito conter uma dimensão universal e uma dimensão individual (196?, 1963) -- mais ou menos como as "interpretações" de pianistas ou maestros a partir de uma partitura. Aquela música prossegue a mesma caso a interpretação respeite e conserve as invariâncias e transformações em torno de "O" obtidas pelo autor -- como João Gilberto segundo a aguda observação de Nestrowsky, que "cantou o impronunciável....e não muda nunca...Tem uma idéia da música que é essencialmente a mesma há quarenta anos" (Nestrowsky, 1997). "João Gilberto", assim como "Freud", "Klein", "Bion", "Beethoven", "Schubert", são usados aqui como metáforas paradigmáticas de "música pura", realidade e vida.


DUAS DISCIPLINAS PRÁTICAS


"O erudito pode ver que uma descrição é de Freud ou Klein, mas permanece cego para a coisa descrita" (Bion, 1975, p. 9)


Ou na sua variação feita por um dos mais talentosos maestros da história da música, Sir Thomas Beecham, contemporâneo de Bion:


"Um musicólogo é um homem que pode ler música mas não pode ouví-la" (citado por H. Proctor Gregg, em "Beecham Remembered", 1976, p. 153)


Parker, Bion e Beecham provavelmente se inspiraram em Alexander Pope, que dizia do erudito, "tapado livresco, pleno de lenha aprendida" ("The bookful blockhead, full of learned lumber in his head"). A percepção e o pensar, se confundidos com o raciocinar e a intelecção, perdem o ethos Romântico e introduz-se o Positivismo. Outras expressões: confusão entre compreender/entender; ser/imitar; elaborar/repetir. Alem das estruturas neurofisiológicas de ataque-fuga, evasão da dor, detecção de alimento e respostas automatizadas mecânico-musculares, desenvolvemos muitas regiões do sistema sensorial e do cérebro, embora outras espécies possuam certos órgãos sensoriais mais desenvolvidos do que os nossos. Até que ponto certos animais conhecem fenômenos e agem em função de instintos que tanto a psicanálise e a música tentam "cantar"? Nos instintos mais básicos, de preservação individual e da espécie, todo ser vivo se iguala. "Instintos" tem sido o máximo que se conseguiu verbalizar em relação à nossa natureza mais íntima - até hoje. Uma fêmea qualquer que perca sua cria agiria de modo semelhante à pessoa do caso clínico, sem ser rotulada de "deprimida" no sentido patológico do termo. Temos até mais facilidade em ver amor e ternura nesses animais. Quantos dentre nós percebemos e ouvimos a "música" tornada audível quando se captam expressões das fantasias inconscientes, ou seja, "os equivalentes psíquicos dos instintos"? A música que nos cabe ouvir enquanto psicanalistas pode ficar inaudível no "enorme golfo" que a civilização tem imposto e nos separa de nossa animalidade. (Freud, 1909a). Shakespeare a ouviu; e Goethe, na Naturphilosophie. Que tipo de comunicação se estabelece para que a cadela, ou as fêmeas de tantas espécies escolham um e somente um dentre os tantos machos atraídos por sons, odores? O que ocorre que os machos demoraram tanto para descobrir a paternidade? (Dupeis, 1987) Pode-se falar em experiências emocionais além do sensório com cachorros, cavalos, macacos, delfins? E conosco? Há alguma música - "amor" e seu par binocular, "ódio" - que pode não ser ouvida. Provavelmente, quando se estabelece o Freud e Melanie Klein denominaram, clivagem. Tocada durante "uma experiência emocional", que "não pode ser concebida isolada de um relacionamento" (Bion, 1962, "Learning from Experience", p. 42). Música, assim como psicanálise, existe na relação entre objetos (Sandler, E.H., 1997).


Música e Psicanálise irmanam-se na demanda que fazem do observador de suportar uma série considerável de paradoxos que não podem ser resolvidos. Bion, como sempre partindo de Freud, formulou conceitos que talvez dêem conta disso: a necessidade do "cegar-se artificialmente" para propiciar uma "visão binocular"; e a "language of achievement" para comunicar o que foi enxergado. "Tão diferentes como só dois irmãos conseguem ser" (Yourcenar, 1982); semelhanças acompanham-se por diferenças. O "crédito", a rapidez e potência de penetração, torna-se "débito" quando o interesse é o conhecer conscientemente a realidade psíquica. A música não ajuda alguém que não pode se aproximar de si mesmo de um modo que não seja só inconsciente e mais duradouro que a explosão emocional momentânea típica da experiência estética. Se ajudasse, os músicos, (autores, intérpretes e ouvintes) seriam pessoas que não precisariam de análise. Nem a psicanálise precisaria ter surgido. Há um primitivismo na música, não só quanto à sua origem nos tempo, mas quanto à sua potência penetrativa nas nossas capacidades emocionais.


Paradoxo intrínseco à inefável experiência, que existe e acontece, precisa ser percebida mas não pode ser falada e demanda transcendência da individualidade na medida que a pessoa precisa se comunicar com ela mesma, a única pessoa "com a qual ela vai ter que conviver o resto de sua vida" como disse Bion (Bion, 1977). Tanto Música como Psicanálise me parecem prover contato intuitivo, transitório e fragmentário, porem real e possível, com as "coisas como realmente elas existem" (Kant, 1781) ou "fatos como eles realmente são" (Bacon, 1625a e b; Johnson, citado por Boswell, 1791). Expressões verbais retomadas de modo prático por Freud, tentando alcançar configurações inconscientes, pensamentos sem pensador que já estão ali -- pois a pessoa está ali e ela é ela e nenhuma outra. Novamente apelo para a apreciação de Nestrowsky sobre João Gilberto: "Talvez não seja possível dizer que está cantando melhor. Mas é cada vez mais ele". Que psicanalista que aproveite as contribuições de Freud, Klein e Bion discordaria de tal apreciação do desfecho de uma análise que mereça esse nome?


A experiência estética, epitomizada na música, e a experiência da psicanálise são feitas momentaneamente, transitoriamente, no âmbito individual e intrapsíquico, do contato consigo mesmo, da relação real consigo mesmo, com quem a pessoa é. Inclui o perceber simultâneo de quem ela não é: a experiência do não-seio permite a criança saber o é o seio real. Os sofisticados modos de se apresentar como não se é, uma capacidade nitzscheana invertida que temos, o contraponto alucinatório para se atingir percepção da realidade, foram chamados pela psicanálise de transferência (Freud, 1912) e organizações defensivas (Riviere, 1934).


Tenho a impressão que esse estado de ser-se quem se é equivale ao que Freud tentou chamar de insight, dando-se no espaço-tempo do interjogo entre posição esquizo-paranóide e posição depressiva. Bion o denominou de transformação em "O". Pode ser que esse estado se aproxime de uma experiência que foi descrita como um "sentimento de soledade", (Alves, 1989), cujos pré-requisitos são auto-respeito e livre arbítrio. "Ser-se-quem-se-é" independe de establishments, evasões, subterfúgios, superegos, moralidades, terror sem nome. Cria aptidão a um tipo de mudança catastrófica transcendente, chamada por Alves de "transgressão": enfrentamento do desconhecido. Ouvir música e sofrer uma análise fornece a oportunidade dessa experiência, o tempo todo.


A música acessa e portanto expressa transcendências humanas. Tal acesso se dá inconscientemente, pré-verbalmente e assim permanece. Como a relação transferencial efetuada pelos assim chamados psicóticos, o acesso musical às mais reais e desconhecidas regiões do espaço-tempo mental é "tênue e tenaz" (Bion, 1956a). A experiência musical pertence ao espaço a-espacial e ao tempo atemporal do inconsciente humano. Penso que ela se dá em níveis/dimensões onde prevalece o que é primitivo psiquicamente, ligado aos instintos e à animalidade humana. O método talvez mais potente de contato com a realidade psíquica e penetração nessa realidade parece proporcionalmente imprestável como método de apreensão, por não ter compreensibilidade. Não me refiro a entendimentos, mas sim à "barreira de contato" entre consciente e inconsciente, e a possibilidade do livre trânsito entre os dois, por essa "barreira" que também é, paradoxalmente, "contato". O termo barreira de contato foi criado por Freud a respeito das sinapses neuronais e reaproveitado por Bion para descrever o interjogo entre consciente/inconsciente. O exercício da disciplina musical, do instrumentista ou do compositor, me parece ser um caminho que inconscientiza ou automatiza, como no ato de aprender a andar ou a dirigir um automóvel. O retorno ao consciente existe na psicanálise e não na música, a não ser como técnica. Haveria duas etapas de simbolização: a comunicação privada, da soledade, e o retorno dela à pública-ação. Só a primeira ocorreria na música; as duas ocorreriam em psicanálise.


REALIDADE E VERDADE


O inconsciente descrito por Freud pode ser encarado como uma espécie de morada temporária dos númena transcendentais da espécie humana, descritos pela psicanálise segundo seus "elementos" vinculados especificamente às Formas de Platão e à coisa-em-si de Kant (Bion, 1963). Sendo inconscientes, são para sempre desconhecidos, embora deles se possa se ter lampejos transitórios, parciais, relances fragmentários, eternos enquanto duram, aproximações a mistérios incognoscíveis da própria vida, que existe tal como ela é. Lampejos passíveis de manutenção como o "fogo da refinaria", experimentados, vividos, vívidos quando vivos. Como um músico enquanto toca, suportando o paradoxo que a música é sua e não é sua.-- magistralmente descrito por Wallace Stevens em "The Man with the Blue Guitar".


"O inconsciente é a verdadeira realidade psíquica; em sua natureza mais íntima, ele nos é tão desconhecido quanto a realidade do mundo externo, e fica apresentado de modo tão incompleto pelos dados da consciência quanto o mundo externo fica incompletamente apresentado pela comunicação de nossos órgãos sensoriais" (Freud, 1900, p.613; grifos de Freud)


Seriam Música romântica e Psicanálise, "pastagens seguras para suas bestas selvagens" o "zoológico para preservar a espécie?" (Bion, 1975, p. 9). O conceito de "inconsciente" começa a aparecer na obra de Kant; usado explicitamente na obra de Fichte, Schelling, Maimon, Jakobi, entre outros expoentes do romantismo e idealismo alemães, re-surge na obra de com Freud como integração de percepções do Século das Luzes e do Movimento Romântico a uma de suas manifestações práticas, a Medicina. Os pensadores românticos retornam à arte e agregam um "império das paixões" ao "império dos sentidos" instituído pelos primeiros cientistas do século das Luzes, como Bacon, Locke, Hume e Newton. Mais do que em qualquer outro lugar, a mente parecia estar segura na música romântica de Beethoven, Schubert e Brahms, na prosa de Marivaux e Goethe, na amálgama filosófico-literária de Diderot, Voltaire e Rousseau; o "cuidar" humanista, nos progressos da Medicina. Prosseguia uma renascença: oposta à subserviência aos establishments autoritários dos déspotas e dos religiosos, protegia-se o indivíduo e sua mente.


Como quase tudo que é novo, o movimento romântico ligou-se a entusiasmos: degenerou no romantismo. "-ismos" e seus "-istas" e "-anos": fanáticos, atacam invejosamente a "beauty truth" recém-adquirida. Manifestação descrita nos vários mitos de proibição ao conhecimento, como o de Prometeu, da expulsão do paraíso, de Babel. Em termos psicanalíticos, PSð D segue-se a PSï D. Entusiasmos não permitem divisar que a realidade psíquica abriga a não-realidade psíquica. O romantismo, ao lado de uma aguda percepção do ser humano, trouxe o desvio da alucinação legalizada, a institucionalização do personalismo. Poderia ser diferente? Ousar penetrar nos mistérios da vida e ir tão longe quanto os românticos foram...O contato com a realidade psíquica e com a não-realidade psíquica traz perenemente a morte indissoluta da vida. No caso, a morte do próprio pensar -- acting out, em termos psicanalíticos.


Instintos de vida e instintos de morte, Amor e ódio, qual sua fronteira? São mais "diferentes" do que a palma da mão e o dorso da mão? Impossível vê-los simultaneamente; impossível separá-los. Ambos são "mão", a realidade última, que não é nenhum dos dois separadamente mas é "os dois". Isto pertence a "O". É como é e não pode ser de outro modo: "Muss es ein? Es muss ein", (Precisa ser assim? Precisa"), Beethoven deixou como epígrafe ao Quarteto opus 135. Marx, por exemplo, em um momento que tolerou o paradoxo, observou que se morre a cada dia que se vive.


Havia tentativas de se diferenciar os limites entre o sonho e a alucinação, expressos por Bion de um modo preciso durante os seis primeiros capítulos do volume I de "A Memoir of the Future". Uma das sementes da psicanálise, ou seja, a iluminação das funções do trabalho onírico, que só viriam a ser possíveis após Freud (Freud, 1900), veio do período romântico. "Reverie" é um termo usado por Schubert, por Schumann. E por Bion -- com Freud, Klein, e Nietzsche um pouco antes, os últimos românticos? A extensão deste trabalho pioneiro continuar-se-ia com o insight sobre as funções do trabalho onírico não apenas como "via régia" para a apreensão da realidade psíquica, mas como elemento necessário e fundamental na formação da própria realidade psíquica e das funções e processos de pensamento de vigília. Não há realidade sem sonho. Algo pode se tornar inconsciente e consciente justamente por meio do trabalho onírico, ou "trabalho onírico alfa", o termo depois tornado obsoleto pelo seu próprio criador, Bion, quando ele o evoluiu e incluiu na "função alfa", a função de-sensorializante da mente. Sintetizadas e resumidas em seus estudos "Learning from Experience" e "Elements of Psycho-Analysis", e mais elaboradas nas anotações preparatórias a estes contidas em "Cogitations", as funções do sonho e da alucinação, existentes tanto em música como em psicanálise, me parecem permitir expansões de tal monta que implicam um estudo à parte (Sandler, 1995-97).


O poeta, o artista, a dupla analítica, "inspirados pela musa" na metáfora dos gregos, possuem uma intuição que lhes fornece simultaneamente a percepção, e portanto o contato com aspectos parciais da realidade. Também nesta simultaneidade, a capacidade hábil de comunicação de aspectos desta realidade que vislumbramos -- de um modo cuja precisão e felicidade nessa precisão continuam sem igual. No que tange à comunicação é duvidoso que os cientistas, até mesmo os físicos e matemáticos, tenham se desenvolvido ao ponto que os artistas chegaram -- talvez por uma questão de antiguidade. Um músico comunica de modo menos incompleto e insatisfatório do que um analista, mesmo considerando, como é minha hipótese, que não se possa saber o que ele está comunicando. O analista ainda se mantem em séria imprecisão na sua metodologia e recursos de comunicação e publicação mas pode saber o que está comunicando.


Proponho considerar conteúdos manifestos e realidade material como as formas dos "fenômenos" e realidade psíquica e conteúdos latentes, correspondendo às formas dos númena. (Kant, 1781 e Bion, 1975). A música e a psicanálise alcançam o campo numênico. A música para o analista ouvir é entoada pelo paciente por meio das invariâncias emergindo do desconhecido da sessão, subjacentes à realidade material dos conteúdos manifestos, veiculados por associações livres. O tom e o tema são o fato selecionado, que permite percepção da coerência (vínculo) entre fatos até então aparentemente dispersos (Bion, 1962a).


"Nos" númena (ou no espaço-tempo "O") há formas e não fôrmas, quer dizer, situam-se fora do espectro abrangido pelo uso do aparato sensorial humano. Númena não são formalizáveis, apenas intuíveis. Eventualmente, transitoriamente perceptíveis em lampejos, relances, fragmentos que momentaneamente coerem e percebe-se a presença e inequívoca existência de algo que é aquilo e nada mais nem menos. Emergem do desconhecido e a ele retornam. As formas lampejantes e passageiras, notas musicais, são formas funcionais compostas de relações entre objetos. Isto é perceptível nas sessões de análise, quando temos acesso aquilo que o paciente é, ou como diziam os analistas das primeiras gerações, aos seus "aspectos mais profundos", nas comunicações, não-comunicações, comportamentos, idéias, configurações momentâneas e sempre mutantes que vão se mostrando e ao mesmo tempo não se mostrando durante as sessões de análise. Como o fogo ou a vida, mantem-se vivas, atuantes e influentes, sem no entanto poderem ser capturáveis no sentido da cognoscibilidade concreta e total. Não mais do que de repente, no inopinado do desconhecido, no entoar da música, eternas enquanto duram, expressas por comunicações artísticas que ao mesmo tempo que as expressam, também as perdem. Ou, pensamentos são unidades que vagam por aí, à espera de um pensador que os pense, e que ao pensá-los, mata os pensamentos (Bion, 1962a b, 1963, 1970, 1975).


"A MÚSICA, COMO A VIDA, É INÚTIL. MAS AMBAS CONDUZEM UTILIDADE EM SUAS CONDIÇÕES" (G.Santayana)


Freud e Bion recomendaram aos analistas que buscassem sua análise pessoal, a melhor e mais extensa que pudessem obter. Dentro do movimento psicanalítico surgiu, ainda que combatida, a tendência de não se esquivar da experiência romântica, sofrer o processo de uma análise real. A alternativa à essência romântica parece-me que tem sido o desprezo pela verdade e consideração pela vida, pelo que é animado. Na constatação de Bion, "a um homem pode faltar amor à verdade" (Bion, em "Compassion and Truth", 1960, p. 125). Em suas formas mais exacerbadas, expressas por ceticismo e em certos casos sem volta, por cinismo. Que música podemos ouvir nesse escrito de Bion, assim como no "Reverence and Awe", de 1967?


Psicanálise e Música são científicas quando apreendem a realidade transcendendo as formas imanentes, transcendendo a individualidade idiossincrática mas mantendo o indivíduo na dimensão do mito -- são científicas quando são suficientemente gerais para abarcar algo real e universal e suficientemente profundas para abarcar o indivíduo também.


No desenvolvimento do período romântico, capacidade verbal se aproximou de capacidade musical de modo mais íntimo que até então. Suponho que a intimidade desses dois modos foi um dos fatores que possibilitaram o aparecimento da Psicanálise. O outro fator foi a Medicina, em seu aspecto prático.


Música também é algo real e prático, não accessível por verbalização, faca de dois gumes que ilumina e encobre. Ocorre na hora que ocorre. O aqui e agora do momento decisivo da sessão psicanalítica é de conhecimento do músico desde épocas imemoriais. A expressão musical não demanda verbalização, sob pena de deixar de ser música. Em psicanálise, o insight é tarefa do paciente e desafia a possibilidade de verbalização -- eu diria que ocorre após o uso da "language of achievement", uma vivência pós-verbal. Existem apreciações verbais sobre música, mas quem substituiria um CD pelo caderninho plenos de exegeses que costumeiramente o acompanha, por mais bem escrito que seja?


Alguns, dentre os quais se destacam Franz Schubert e Robert Schumann, considerado por Otto Maria Carpeaux "o maior poeta do romantismo" (Carpeaux, 1968, p.117) foram capazes de casar música e verso. Desse casamento, um filho de nome já disponível, "Lied", surgiu. Isto, embora possível, acabou provando ser quase-exceção na história do conhecimento humano, mas penso que tem se repetido no ato psicanalítico. Foi um momento em que o verso não explicou a música, mas se casou com ela. E o que alcançamos ao interpretar e buscar o insight? Não será um casamento do verso (a interpretação) com um tipo de música (psicanálise mesma, ocorrendo)?


Sob a influência de autores como Kant e Herder, a busca por penetrações que pudessem tocar e talvez compreender a natureza humana produziram manifestações de um alcance e sublimidade que minhas palavras não podem expressar. Otto Maria Carpeaux destaca a obra de Matthias Claudius, autor relativamente desconhecido fora dos locais de língua alemã, que viveu de 1740 a 1815, mergulhado no entrecruzamento do Século das Luzes com o Período Romântico. Educou-se com a contribuição popular e contribuiu para a educação do povo do qual sorvera a inspiração. Suas obras passaram ao uso popular -- até hoje. A tolerância deste paradoxo, a cultura e a ignorância do povo, sem clivagens esquizoparanóides que classifiquem o povo como superior ou como inferior possibilitariam aliar prática humanitária e humanista. Sem intelligentsias, erudições ou pretensões à genialidade, expressões de fantasias de superioridade. Era o futuro tendo a sua sombra moldada antes mesmo de acontecer. Freud, anos depois, também teria sua obra, de algum modo, incorporada ao saber popular. "Psicanálise real é vida real", como disse Bion (Bion, 1977) -- e se psicanálise não pode ser útil à vida comum de pessoas comuns, porque psicanálise?


Das obras líricas de Matthias Claudius, disse Carpeaux: "Pode figurar dignamente lado das melhores poesias líricas de Goethe; às vezes, a superam" (Carpeaux, 1963, p. 70). Se que Goethe formou com Shakespeare e Dante, que o antecederam e o inspiraram, o trio maior da literatura universal, é difícil não perceber a importância de Matthias Claudius na cultura universal. Em minha opinião leiga, uma de suas peças mais felizes foi "Der Tod und das Mädchen", ou "A Morte e a Donzela". Seu apelo foi de tal ordem que um dos mais competentes e melodiosos músicos jamais aparecidos, Franz Schubert, acabou fazendo uma peça para orquestra de câmara sem sequer mudar o título. Talvez seja muito difícil passar imune à experiência de audição dessa obra. Parafraseando Carpeaux sobre Matthias Claudius: esta obra de Schubert pode figurar dignamente ao lado das melhores peças de Bach, Beethoven ou Mozart. Não deve ter sido mera coincidência que o tema central de "A Morte e a Donzela" de Schubert tenha sido uma homenagem a um tema de Mozart. Tão pleno de "mente" ou realidade psíquica em algum aspecto transcendental-incognoscível, mas intuível e observável, que já havia sido utilizado também por Beethoven (Reed, 1978) no imortalmente lírico segundo movimento da sua Sétima Sinfonia. Aparentemente, Beethoven e Schubert tinham contato com o Belo, pensamento sem pensador que repousara temporariamente em um Mozart. Sem invejá-lo, sem imitá-lo, ficando quem sabe embebidos nele. Polinizações cruzadas, uma primeva interdisciplinaridade mutuamente produtiva acabava ocorrendo. Talvez algum Peter Schaffer possa, no futuro, escrever uma peça sobre o campo da [- Inveja] (menos Inveja, o negativo) aproveitando esses fatos. Melanie Klein, Winnicott e Bion, ao continuarem e expandirem a obra de Freud, me parecem ter praticado esse ato. Não vamos multiplicar exemplos desse período, que podem recair em preferências pessoais e cada pessoa pode se deleitar com suas próprias escolhas; Brahms recorreu à música cigana, Wordsworth à linguagem do povo - não há escassez de exemplos.


Existe pertinência ou necessidade de se captar e perceber algo que sugiro denominar analogicamente, apenas como recurso comunicacional, "música da mente"? Os antigos gregos, ao desenvolverem um método poderosíssimo de captação da realidade, a Matemática, diziam ouvir a "música das esferas", entoada pelo grande universo estelar. Podemos considerar a música da mente e sua percepção como necessidades de natureza diferente da atividade musical propriamente dita. Pode parecer um contrasenso: afinal, "música" e "mente" não seriam apenas expressões do mesmo "O"? Ou a música é apenas produto da mente, ambas podendo ser consideradas "inúteis"? Perceber música, estar em contato com música, é estar em contato com a mente?


Um dos expoentes do romantismo alemão, Novalis, dizia que "a música é a chave do universo" (citado por Wilkinson, 1969, p. 527). Diametralmente oposto a Platão e Goethe, que consideravam a música como exercendo apenas e tão somente efeitos catárticos e orgiásticos. Freud se aproximou deles, quando se declarou pouco afeito à música na medida que ela não o permitia compreender o que ocorria consigo ao se encontrar exposto a tal estímulo. Sabemos de sua especial apreciação às formas musicais; Heine e Nestroy eram seus autores prediletos. Freqüentava assiduamente operetas, forma de arte popular vienense por excelência; um tipo de cinema ancestral que o nazismo acabaria expulsando para Hollywood e a arrogância e o preconceito de alguns classifica como indigna do status artístico. Com suas típicas clareza e honestidade, em "Moisés de Michelangelo" (Freud, 1914c) relata especial indisposição com experiências e vivências que não lhe permitissem saber o que estava acontecendo consigo. Caso típico da expressão musical, mídia intransdutível, intransponível e intraduzível para qualquer outra que não ela mesma. Esse é um problema que precisamos considerar, enquanto analistas, quando "escrevemos um caso clínico".


A experiência musical, e mesmo a musicalidade da poesia romântica, eram e são exatamente o que Freud disse: algo que não podemos saber o que é, mas...acontece: "O". O território sobrevoado por Kant descortinava-se como universo. Freud tentou formulá-lo por vocábulos tais como inconsciente, instintos, incognoscível, id, desconhecido.


Irrompe a realidade psíquica no que Freud percebeu sob forma de "associações livres", ou o princípio do determinismo psíquico. A realidade psíquica pode ser auto-apreendida, ainda que inconscientemente, por aquele que sonha e associa livremente. Irrupção, tumulto e irresistível impulso ("sturm und drang") no dizer dos primeiros românticos alemães são condição para se transgredir, como diz Deocleciano Alves, algum padrão estabelecido, que agitar a tendência ao inanimado, a expressão do instinto de morte na própria esfera dos processos de pensar, o "daqui não passo" (Bion, 1975), uma tendência interior tentando seduzir o ser humano à imobilidade do já conhecido. A associação livre formulada por Freud traz em si o vigor de uma força de vida difícil de caracterizar; o novo e o desconhecido. O original sempre semovente e acontecendo naquele instante do aqui e agora da sessão de análise, sem imitações, sem repetições, inefável, eterno enquanto dura, "posto que é chama", a experiência do par do mesmo modo que um filho é a experiência do casal, o ser sendo e a análise sendo, nunca aprendida, mas apreendida pela experiência, nunca ensinada, mas passível de ser experimentada. A nota musical, que irrompe e se vai, e pode ser, sempre, nova.


O fato de Goethe ter considerado a música algo suspeito não o impediu de considerar Mozart como o compositor ideal para "Faust", apesar (ou justamente por?) Mozart já ter morrido. Nem tampouco impediu-o de escrever um tributo à "Flauta Mágica". Assim como ocorrera com Beethoven e Schubert, que moravam a poucas quadras de distância mas jamais mantiveram relacionamento, Goethe e Beethoven, dois dos mais talentosos investigadores da natureza humana jamais aparecidos, mostram em seu relacionamento pessoal que o ser humano talvez não tenha mudado muito. Beethoven musicou mais poemas de Goethe do que qualquer outro compositor (Bory, 1960, p. 142; Cooper, 1991, p. 52) e sempre expressou do modo mais explícito possível sua apaixonada admiração e genuíno respeito pelo poeta. Recluso ao ponto de jamais ter se declarado a uma mulher, Beethoven ofereceu a Goethe o segredo de um de seus maiores desejos: musicar "Faust", talvez a mais explícita e detalhada, transcendente descrição da posição esquizo-paranóide e do trânsito para a posição depressiva que dispomos na literatura universal (Sandler, 1995-97). Não foi bem sucedido; aparentemente, Goethe só apreciava a música de Egmont, julgavando os outros arranjos "excessivamente rebuscados" e a personalidade de Beethoven, "muito rude" (Cooper, 1991, p. 53). Havia algo mais que fez Goethe se afastar de Beethoven: considerava uma série de "aspectos demoníacos da música de Beethoven" (Wilkinson, 1969, 1993). Os dois românticos acabariam se encontrando cordialmente em 1812, segundo as fontes disponíveis. Beethoven, alguém cujo convívio era mais factível por meio de cartas do que pessoalmente, manteve correspondência copiosa com Goethe desde então. O teor de uma delas é especialmente pertinente para as relações entre psicanálise e música:


"Amo a verdade mais do que qualquer outra coisa" (Beethoven, carta a Goethe, citado por Cooper, 1991, p. 154)


Na velhice, Goethe foi apresentado ao mais talentoso aluno de seu amigo K.F.Zelter, compositor que gozava de fama temporal e respeito em sua época, o sucessor de Antônio Salieri em Viena. Goethe fez questão de deixar registrado seu reconhecimento ao jovem que aprofundou-lhe muito os conhecimentos musicais: Félix Mendelsohn-Bartholdy.


Tenho a impressão que existe uma probabilidade de Platão, Goethe e Freud não estarem falando apenas de Música nos momentos em que ressaltavam sua incontrolável incompreensibilidade, mas também dos usos que muitos seres humano fazem de músicas. A experiência clínica demonstrou-me isto de um modo particularmente nítido: um paciente de 55 anos declarava ser verdadeiro amante de música, e a escutara, segundo disse, durante os últimos 30 anos. Realmente demonstrava ser uma espécie de "connaisseur" dos grandes autores. Após alguns anos de análise, revelou sua convicção de jamais ter ouvido música, e achava que um dos efeitos da análise havia sido possibilitá-lo apreciar realmente algo que tanto gostava mas que até então servira-lhe mais de entretenimento do que de alimento.


Não vamos nos alongar nas finalidades para as quais a música pode ser utilizada, mas ela parecia -- e ainda me parece, como a arte em geral -- quase inútil quando a finalidade é nós, seres humanos conhecermo-nos a nós mesmos de modos que possam ser úteis para nossa própria vida. Música, útil ou inútil, expressa impulsos, pensamentos, urgências, serenidades, tumultos e não-tumultos da mente. Ocorreu do ser humano conduzir utilidade a este poderoso método de penetração da realidade humana. Para finalidades de guerra, movimentos de massa de modo geral, desde cedo a Música foi utilizada. Irônica, paradoxal utilidade: a mente desenvolve o entretenimento de estados de mente caracterizados por anestesia da própria mente. Dependendo do sentido com que é usada, a música pode ser um método tanto de sustentação da realidade psíquica como de sustentação de estados de ausência de mente (a não-realidade não-psíquica) [PSó D]. Aparentemente, quando psicanálise se transmuta em movimento psicanalítico institucionalizado -- diferente de psicanálise propriamente dita -- ocorrem problemas, e a música se extingue ou se modifica no mesmo sentido apontado por Bion para Tpb que se iguala à uma distorção sem retorno (Bion, 1965). Quanto mais poderoso o método de penetração na realidade psíquica mais poderosamente ele parece se prestar também para obscurecer e anestesiar.


O CONTRAPONTO


O contraponto desenvolvido por Bach e o modelo de sinfonia de Beethoven talvez nos interessem mais de perto nesta tentativa trans-disciplinar. Os problemas já enfrentados há centenas de anos pelos músicos poderiam ser inspiradores para o psicanalista? A questão me parece ser do psicanalista trabalhando, do músico e de qualquer pessoa na vida real -- é a possibilidade dos seres humanos suportarem paradoxos sem tentar resolvê-los. Suspeito que o contraponto seja uma expressão desta tentativa romântica. Talvez o contraponto possa ser encarado como a contrapartida musical do par criativo. O som obtido pelo conjunto dos acordes e da construção contrapontística, o filho. A tensão natural da vida, não só a hostilidade do meio ambiente, mas o fato que nenhum crescimento ocorre sem resistência, me parecem conservados no contraponto. Ou continente/contido, PSó D. O que com o tempo viria a se chamar conversa, comunicação, psicanálise, encontrava na "arte da fuga" sua contrapartida musical. Tanto Mozart como Beethoven, que podem ser vistos indo ainda além de Bach no aspecto romântico, sempre reconheceram sua dívida com Bach. Pode-se lembrar a "Grosse Fugue" de Beethoven, originalmente integrante do Quarteto opus 132.


Tenho a impressão que o modelo de sinfonia introduzido por Beethoven captura uma possibilidade de suportar paradoxos e expressá-la; baseio-me não só na minha própria experiência auditiva, mas na opinião de Franz Schubert para colocar a esta possibilidade em palavras. Segundo Reed,


"desde 1817 Schubert havia acariciado a ambição de escrever uma grande sinfonia segundo o modelo de Beethoven, um trabalho que tivesse unidade -- ou seja, fosse a expressão de uma idéia criativa única -- e também diversidade -- ou seja, fosse expressa em uma série de movimentos contrastados" (Reed, 1978. p.50)


Tanto em Beethoven como em Schubert, e também em Brahms, a rigor o continuador de Beethoven, há movimentos, até compassos, que alcançam os píncaros da sublimidade e são ocasionalmente interrompidos, como a própria morte, por dissonâncias ou durezas cujo nome talvez poderia ser, "vida real".


Na vida real, na psicanálise e na música precisamos respeitar o contraponto mais elementar que se conhece, o "não". Em música, o contraponto pode ter sido antecedido pelas pausas no pentagrama. Na sessão de análise, o que não é falado mais precisa ser ouvido. Subjaz ao que é falado mas é paradoxalmente escondido e apontado por ele. É o desconhecido emergindo do aparentemente conhecido; o "conteúdo manifesto" e o "latente" na linguagem de Freud, o não-seio na linguagem de Bion, ou o "negativo" na linguagem de Green. A discriminação entre o que é alucinado e o que é real, par antitético e paradoxal inescapável. O risco para o músico e para o analista, para os pacientes e audiência de uma obra de arte, é que o estímulo sensorialmente apreensível se esgote em si, caso o observador se mantenha no que é sensorialmente apreensível. Os meios se transformam em fins, e o sonho fique indistinguível da alucinação; o campo numênico de "O" permanece invisível, pensamento à espera de um pensador. Tanto na "música da mente" que nos cabe tentar tornar audível como na música tal como ela é classicamente concebida há algo vinculado às pausas. Pelo menos tão importantes quanto as notas, no "Elected Silence, sing to me / And beat upon my wholèd ear. / Pipe me to pastures still and be The music I care to hear", da poesia de Gerard Manley Hopkins que era tão querida de Bion (Bion, 1970, 1975, 1977). Uma versão do sentido dessa estrofe do "The Habit of Perfection" não estará totalmente distante de "Silêncio eleito, cante para mim / na tua batida encaracolada no meu ouvido / translade-me qual música esfumaçada a silenciosas pastagens e seja a música que cuido de ouvir".


"BION Não entendo

MYSELF Talvez eu possa ilustrar por um exemplo de algo que você conheça. Imagine uma peça de escultura que é mais fácil de compreender se intenta-se que a estrutura aja como uma armadilha para a luz. O significado é revelado pelo padrão assim formado pela luz assim aprisionada - não pela estrutura, pelo próprio trabalho escavado. Sugiro que seu puder aprender como falar a você de tal modo que minhas palavras "armadilhassem" o significado que elas não expressariam nem poderiam expressar, eu poderia comunicar-me com você de um modo que presentemente é impossível.

BION Como as pausas em uma composição musical?

MYSELF Um músico com certeza não negaria a importância destas partes de uma composição na qual não houvesse nenhuma nota soando, mas algo tem que ser feito na arte existente e no procedimento já bem firmado de silêncios, pausas, espaços em branco, descansos. A "arte da conversação, tal como levada a cabo como parte do intercurso conversacional da psicanálise, requer demanda uma extensão no domínio da não conversação" (Bion, 1975, p. 202-203)


Como a música, a psicanálise é um desenvolvimento que não privilegia nem a realidade psíquica nem a realidade material. Ambas dependem, como portas de entrada, das impressões sensoriais e transcendem este nível. Talvez estejamos às voltas com algo tão impossível de ser nomeado e compreendido, mas passível de ser intuído e experimentado, que a analogia pode ser feita com a energia transcendendo, relacionada à velocidade da luz, o seu estado de matéria. Nesta transcendência, adentram ao desconhecido que provavelmente se relaciona ao próprio desconhecido da vida.


Hegel, na "Estética", atribuiu à música a função de "tornar a interioridade inteligível a si mesma". Caso possamos hoje apreender esse "inteligível" e ao "si mesma" como algo fora do espectro racional, penso que Hegel alcançou o ponto. A circularidade desta inteligibilidade se dá no inconsciente, então não podemos realmente entender o que ocorre quando nos expomos à música, mas algo real ocorre. Mais recentemente, Theodor Wiesegrund Adorno alertou que a música é uma espécie de alternativa à "...tentativa humana, sempre malsucedida, de enunciar o próprio nome, e não seus múltiplos significados", acercando-se de nossas vicissitudes de se aproximar de "O" com precisão poucas vezes igualada.


A analogia da expressão psicanalítica da mente com a expressão musical da mente, ou seja, a analogia entre esses dois modos pelos quais a mente se manifesta, o modo psicanalítico e o modo verbal, me parece pertinente se levarmos em conta a precedência temporal da música, exemplar para quem pretende viabilizar o ofício de psicanalista. A atividade musical proporciona quase imediato reconhecimento da diferença fundamental entre o falar sobre e o ser. Falar sobre música difere de ser músico; entendo como "músico" um compositor, um intérprete ou um ouvinte -- em todos eles existe o "O-música"; admoestação dada por Saint Colombe a seu pupilo Marin Marais. Falar sobre psicanálise difere de ser psicanalista. Por fatores que ainda não podem ser esclarecidos, é mais fácil ver isso em música do que em psicanálise. Não há "músicos teóricos", ninguém pode mesmo ficar "atrás da pauta" a não ser que deixe de ser músico, ainda que haja "teoria musical". Penso que isso também se aplica, como lição da história, ao analista.


Que música ouvimos nos "objetos" descritos por Freud e Klein? Que música pode ouvir o bebê quando lida com um seio concreto e o leite: a do "holding" e da "reverie" descritas por Winnicott e Bion? Que música ouvimos quando a psicanálise nos convida a tolerar a lista já longa de paradoxos, PSó D; amoró ódio; continenteó contido; realidade psíquicaó realidade material; conteúdo manifestoó conteudo latente; o paradoxo da resistência ser algo que ao mesmo tempo esconde e revela? O paradoxo das palavras, assuntos e idéias dos pacientes serem e não serem algo digno de nota? Essa música se chama "Paradoxo", par antitético, que não pode ser resolvido, a não ser alucinatoriamente, por clivagem. Nem sempre é fácil de ser ouvida.


Tanto em música com em psicanálise temos possibilidades fugazes de contato com emoções reais, cujo acesso não é comum. O inconsciente humano, através por exemplo da história da civilização, parece ter uma contrapartida com as vicissitudes do inconsciente humano de um só indivíduo: ele aparece e desaparece do campo da percepção; novidade não passa de esquecimento; não é fácil aprender da experiência. A transitoriedade provoca seu aparecimento e desaparecimento no próprio ato perceptivo, que não é durável e precisa ser mantido, posto que é chama. O mergulho comunicacional que o consciente pode dar no inconsciente, ou utilizando o modelo da segunda tópica, as porções inconscientes do ego, aparecem e desaparecem.


Nas épocas em que não havia surgido ainda um Freud para formular a psicanálise, o que implica que "psicanálise" existia sob forma de um pensamento aguardando um pensador, tentamos, segundo Meg Williams, nos conhecer a nós mesmos por meio da arte -- e muitos ainda tentam. A mente parece ter demandado outro meio -- a psicanálise -- para tal mister. Estas "épocas" são aqui neste texto entendidas não somente do ponto de vista cronológico da história, antes do aparecimento de Freud, mas sim como o fato de cada um de nós possuir sua própria era pré-psicanalítica, no seu desenvolvimento individual. Os fatos históricos demonstram uma realidade: se a arte, assim como a filosofia e a religião pudessem ter provido um abrigo razoavelmente seguro para a mente humana, em termos de auto-conhecimento, a psicanálise não teria vindo à luz, por pura falta de necessidade. Isso não implica em superioridade da psicanálise. Implica em marcarmos agora as de-semelhanças para evitar confusões.


Como qualquer manifestação artística, a música provê "sight", mas não "insight", a despeito da esperança de Hegel. Acesso inconsciente a determinadas manifestações do inconsciente -- modo típico da apreensão musical -- não implica em ter noções do inconsciente e pensar a respeito dele. Ou colocando de outra forma, pensar os pensamentos, atingir o "nous" aristotélico, como propuseram Freud e Bion. O trânsito entre consciente e inconsciente, visível no pensamento onírico, é condição fundamental para o conhecer a si mesmo. A "música do inconsciente", ou música da mente, "toca" enquanto há vida dentro de cada um de nós, embora nossos órgãos de percepção talvez ainda não estejam suficientemente desenvolvidos para poder ouvi-la, "cheirar seu odor brilhante". (Quoodle, citado por Bion, 1975).


RELAÇÕES ENTRE OBJETOS


Matemática, Música e Psicanálise parecem modos do ser humano poder lidar com relações entre algo que foi chamado pela primeira vez na história da civilização ocidental de "objetos". Aquisições do período romântico acabariam vingando de modo prático e particularmente profícuo com a psicanálise, em uma aproximação às formas platônicas da mente humana, a respeito de uma realidade que Freud denominou "internalização". Origem da teoria das relações objetais, a expressão amável-odiosa mais precisa que dispomos a respeito da forja inicial das emoções humanas, a "internalização" foi primeiro percebida na formação de uma "instância psíquica" que Freud denominou superego. Ele o define em uma série de momentos de sua obra; esta metáfora a respeito do funcionamento mental, tão profícua quanto a metáfora do id, é igualmente romântica, plena de paradoxo:


"Não é verdade que a mente humana não se desenvolveu nada desde os tempos mais primevos e que, em contraste com as avanços da ciência e da tecnologia, seja hoje a mesma que foi no início da história. Podemos assinalar instantaneamente um destes avanços: é mantendo-se ao par com o curso do desenvolvimento humano que a coerção gradualmente torna-se internalizada; pois uma agência mental especial, o superego humano, a encampa e a inclui entre seus mandamentos. Toda criança nos apresenta este processo de transformação; só por este meio é que ela se torna um ser moral e social. Tal fortalecimento do superego é um crédito cultural dos mais preciosos no campo psicológico. Aqueles nos quais ele ocorreu transforma-se de oponentes da civilização em seus veículos" (Freud, 1929, p.11).


O relacionamento das notas, acordes, os contrapontos implicam em relações disciplinadas (superego) entre objetos - muitas vezes, relações que podem ser matematicamente definidas. Haverá música em


"DOUTOR: ....... cérebros que, idênticos a canais alimentares, emitem fatos onde se esperariam idéias. Ou mesmo "Fugas de idéias" quando seriam necessários pensamentos, pensamentos articulados.

P.A: Penso que o problema é premente quando as "articulações" são tão rígidas que o indivíduo não pensa. Emprestando um pouco da terminologia médica do meu amigo: uma ósteo - artrite psíquica.

DIABO: Ou, para emprestar uma frase arguta do meu sacerdotal amigo, um fanatismo espiritual onde deveria estar a tolerância.

ALICE: Ou promiscuidade, onde deveria mandar a lei.

ROSEMARY: Alice, você tem idéias que não se coadunam com sua posição social. Vou ter que me livrar de você, caso continue nos interrompendo com idéias Socráticas.

ALICE: É que eu pensei que este era um mundo prático - como disse Aristóteles.

ROSEMARY: Pelo amor de Deus, fale em Inglês - não fique aí falando como uma empregadinha. Sócrates! Aristóteles! Só nos falta aparecer Kant ou Descartes.

SACERDOTE: Pascal foi muito inteligente, ainda que não tenha tido o bom senso de evitar indecências matemáticas.

DIABO: Matemática! Tão ruim quanto música. Pitágoras deve ser causado grandes problemas criando um ritual útil para casar as duas. Por sorte, ninguém teve inteligência para entendê-lo.


Literatura, poesia, música, ciência, psicanálise, percepção a respeito de si mesmo me parecem tudo, menos criação, invenção ou imaginação. Proponho encará-las como modos de penetração, captação, apreensão e observação, resgates de pensamentos sem pensador efetuados por meio de cuidadosa e desenvolvida observação intuitiva. A experiência é a própria concepção. Literalmente, a realização do par criativo, onde ocorre , seja lá quem possa estar exercendo sua masculinidade ou feminilidade: um artista e sua mídia, nós e o mundo exterior, a nossa mente e nós mesmos, um pai e u’a mãe, um analista e seu paciente.


"Nas sentenças que se seguem, os lugares marcados por  representam "alguma coisa" sobre a qual desejo falar. "Alguma coisa" não é adequado; é muito impregnado de um significado pré-existente -- muito saturado (l ) e ao mesmo tempo não saturado (x ) o suficiente. Estou tão desperto, consciente, racional e são quanto sempre estive entre o momento descrever e o dia de meu. Atribuo um data a  , ainda que eu não saiba qual seja. Imagino que este vazio vai ser completado em alguma época, com uma variável algébrica, durante o curso de cálculos matemáticos ou talvez um registro legal, de nascimentos, casamentos e mortes. Este momento no tempo e a inserção formal num documento parecem ser tão convenientes quanto a inscrição "finis" que, em uma certa época, era convencionalmente utilizada no final de um livro. Existem outras formas, sobretudo aquela que James Joyce considerou mais adequada do que a cessação de uma impressão sensorialmente apreendida. Ele desejava que sua história estivesse de acordo com algumas das qualidades vicoescas que sentia ter extraído das pesquisas filosóficas de Giambattista Vico, as quais não foi capaz de receber de Freud.

l (x ) denota um domínio desprovido de começo, fim, ou qualquer outra dimensão. Tenho que empregar um equipamento extremamente inadequado para discutir isso. Tenho que fabricar o equipamento à medida que prossigo. Afirmo que é artístico, ainda que a arte não tenha sido criada; que é religioso, ainda que a religião não tenha sido nem possa (sem parar de ser uma religião) ser obrigada a coadunar-se com nenhum dos dogmas e instituições até então considerados característicos da religião. Não espero que a arte seja análoga à música, à pintura, à expressão literária, à escultura ou à mecânica quântica; o "princípio da incerteza", (emprestado de Heisenberg) formula e destrói de uma só vez a formulação junto com l (x ). "O" é, por definição, indestrutível e não sujeito ou circunscrito a inícios, términos, regras, leis da natureza ou qualquer constructo da mente humana. No âmbito da compreensão humana, Melanie Klein jamais se reconciliou consigo mesma pelo fato de que, sempre que ela se fazia entender, aquele fato se transformava e algo que ele entendia como não mais estando "vivo" " (Bion, 1975, pp. 87, 96, 97 e 98).


"P.A.: Mistério é vida real; e a vida real é o interesse da análise real. O jargão passa por psicanálise, assim como se substitui música por som, poesia e literatura por fluência verbal, pintura por trompe d’oeil. Não se observa "auto-assassinato" real, e o suicídio acidental passa por coisa real, planejada, elaborada economicamente até o último detalhe para criar efeito real. Para isto, o paciente -- um bom nome para ele -- tem que primeiro sofrer em colaboração com o psicanalista ou a família, para conseguir êxito, para que valha a pena assassinar. O perigo da morte não se torna agudo até que fique claro, para toda e qualquer testemunha, que um êxito retumbante está ali, bem à mão. E aí aparece a Fúria não-tão-cega, com a tosa abominável. Esta espécie de homem ou mulher lembra apenas superficialmente um auto-assassino. "Ah, no catálogo todos aparecem como homens....: "Shakespeare não era enganado por falsificação; o psicanalista que pensasse não poder ser enganado seria um psicanalista "corajoso". Entretanto temos entre os nossos algumas pessoas assim." (Bion, 1977, cap. 75)

Agradeço à Dra. Ester Hadassa Sandler pela leitura do original, sugestões e correções.

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