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Opinião

Coisas da nossa cultura...
ou
“A vida vale cada vez menos” (Ignacio Cano)

Thaïs Sá Pereira e Oliveira

O brasileiro, durante anos, vem se caracterizando por um comportamento que os franceses costumam chamar de “ésprit d’escalier”. É verdade que essa expressão designa, em geral, aqueles que só atinam com o que deveriam ter dito a seu interlocutor quando a conversa já terminou e ele está descendo as escadas para ir embora. A expressão vem dos tempos em que os elevadores eram raros na França.

No Brasil, as medidas necessárias só vêm a ser tomadas, quando o são, depois que o sinistro ocorre. O elevador despenca e resolve-se trocar o elevador antigo por um novo. O prédio desaba por falta da inspeção necessária, pessoas morrem soterradas, e só então providências são tomadas, mas para punir os culpados. A chuva cai mais forte, barracos pendurados nas encostas são destruídos, as autoridades falam da falta de segurança naqueles locais por causa do desmatamento e, na primeira oportunidade, tudo volta a acontecer.

Se nenhum dos nossos é atingido, ficamos quietinhos, cultivando nossa omissão como cidadãos. Negamos o que está se passando, ou apelamos para a falsa idéia de que nada podemos fazer para que as coisas mudem. Afinal, nossa vida continua a mesma e somos pessoas cuidadosas e privilegiadas que dificilmente seremos atingidas. Preferível concentrar nossa atenção naquilo em que somos realmente impotentes: na Guerra do Iraque, por exemplo. Nesse momento nos tornamos críticos implacáveis, falamos como se fôssemos grandes conhecedores do que se passa no mundo e condenamos o pulso forte dos que decidem expor vidas por uma luta dita sem sentido.

Agora, a coisa muda de figura, pois o crime se tornou ostensivo e já não há regras a serem seguidas para escapar de assaltos ou da morte. O que vinha se delineando há anos, finalmente foi escancarado. O crime organizado nos fez sentir um gosto diferente de participantes de uma guerra não declarada, maquiada pelo Governo que teme prejuízos políticos. Manter no Rio de Janeiro as Forças Armadas implicaria reconhecer um estado de guerra. Pois não é que não era paranóia de nossa parte? Era mesmo a velha e primária denegação. E não nos custava aceitar a maquiage imposta; vive-se melhor assim.

Criminosos, conhecidos de velha data, com os quais o Governo costumava – ao que tudo indica – negociar uma aparência de paz, são capturados tão logo algum ato mais audacioso seja exibido nas manchetes. Então era possível encontrá-los tão facilmente?

O crime está dando prejuízos ao comércio, aos hotéis, ao turismo, aos taxistas, ao povo que teme entrar num ônibus e ser queimado vivo; e o povo com medo e ódio faz com que os responsáveis pela ordem pública sejam obrigadas a agir. Toleramos seqüestros e assaltos a bancos, mas os bandidos descumpriram o combinado e foram mais longe.

O crime prefere desfraldar, claramente, a verdade dos fatos: se ainda estamos vivendo em cidades, é porque ele o permite. O crime organizado tem seus negócios e precisa de seus clientes. O desejo de exibir seu poder é conseqüência de medidas tomadas por aqueles que, ao negociarem com ele, garantiram-lhe a segurança de seus líderes maiores e pediram-lhe em troca, na melhor das hipóteses, alguma moderação. A lei instituída, todavia, está sendo obrigada a quebrar o pacto.

Parte da Polícia manteve, durante anos, o sustento da família e a realização de algum sonho de consumo graças às compensadoras complementações de seus ridículos salários, pela contribuição dos “primos ricos” das favelas, os mesmos que sustentam o tráfico e provêem os drogados: tanto os abastados quanto os que descolam dinheiro matando mães e parentes próximos quando chega a fissura, no meio de uma abstinência forçada pela falta de grana. Pede-se então a esses viciados que controlem seu vício. É mais fácil dizer que são eles os responsáveis pelo êxito da indústria de entorpecentes. Da mesma forma, alguns ingênuos pedem que não se consuma coca-cola e não se compre nada no McDonald’s, como represália às posições tomadas pelo Governo Americano.

Policiais mal equipados matam-se ou enlouquecem por saberem que a morte os espreita no cumprimento de uma missão meramente paliativa, outros por estarem jurados de morte, enquanto muitos outros , há tempos, se corrompem.

Em sua audaciosa escalada, os bem armados traficantes tripudiam, colocando-nos a todos de joelhos diante deles. Walter Benjamin, diz Leandro Konder, tinha especial carinho por um personagem de Brecht, o Sr. Keuner, protagonista de estórias curtas. Numa delas, diz Konder, a casa do Sr. Keuner é invadida por um opressor muito mais forte do que ele, que se instala no local e pergunta, com arrogância: “Queres servir-me?” O Sr. Keuner, em silêncio, passa a trazer comida e bebida para o invasor, até que, depois de alguns anos, o opressor, obeso, tem uma embolia e morre. O Sr. Keuner limpa a casa, remove o cadáver, joga-o no lixo e responde, com força: “Não.” (Brecht, Kalendergeschichten).

O ‘não’ dos inaquianos, livres de Saddam Hussein, está se mostrando caótico: “Vou levar deles tudo o que der para levar, desde comida e bebida a colchões; vou fornir minha casa com tudo aquilo que sobrava aos dominadores, vou pisar nos cacos de Saddam!” Os saques, aliás, são desdobramentos inevitáveis que se seguem a situações de pânico e se respaldam no triunfo da sobrevivência e na euforia da esperança. Já imaginaram a Revolução Francesa se desenrolando diante dos nossos olhos, na TV? A imprensa divulga, “en passant”, que soldados americanos também estão a levar algumas lembrancinhas, como se estivessem participando da pilhagem. E completam: Levam consigo cacos das estátuas de Saddam, que conseguiram derrubar...

Na primeira versão de “Suicidas e suicidas”, publicada na seção de Opinião, de “Gradiva”, fiz alusão aos efeitos, junto ao banditismo brasileiro, do fracasso da Toda Poderosa Potência Americana, com seu sofisticado aparato militar, no esforço inútil para localizar Bin Laden. Já apoiados por treinadores colombianos para a guerra de guerrilha, os bem armados criminosos brasileiros tornaram-se realmente mais atrevidos depois desse fato: deram sumiço ao corajoso jornalista Tim Lopes, que somente com a pressão da mídia teve seus restos mortais resgatados; foram para as ruas explodir quartéis, aproximaram-se da Bolsa de Valores em São Paulo, incendeiam ônibus, impõem o fechamento de lojas até na presumida intocável Zona Sul do Rio. Hotéis recebem bombas e os tiros não respeitam alvos.

No jornal “O Globo”, de 11 de abril de 2003, encontra-se o seguinte trecho: “(...) na casa de Caju e Docinho, foram encontradas também camisas com a imagem de Osama bin Laden e o nome da organização terrorista Al-Qaeda. (...)”. Bem, eu não estava tão errada ao fazer constar daquele artigo essa, até então, suposta associação, por parte dos “destaques” do crime, entre suas atividades e as dos terroristas, nesse desfile macabro que estamos presenciando, e que dura o ano inteiro.

Quanto aos reflexos dos saques em Bagdah, que os americanos preferiram não reprimir, pelo menos de saída, talvez para evitar mais baixas de ambas as partes, bem podem se fazer sentir por aqui. Caso o caos observado por lá seja interpretado pela extensa família mafiosa brasileira como uma mera impossibilidade de se conter a multidão, aquela horda de miseráveis injustiçados, reprimidos e sem a educação necessária, tal como ocorre em grande parte de nosso país. Aos espertos, as jóias e peças raras do museu que os iraquianos não foram capazes de reconhecer como parte do patrimônio cultural e histórico de seu país e, sim, como parte da riqueza concentrada há tantos anos nas mãos daqueles que foram os donos do Iraque.

Não é preciso ser uma cassandra para imaginar o que nos aguarda por aqui... Talvez, primeiro, os supermercados, depois, as lojas de eletrodomésticos e, quem sabe, decidam entrar em nossas casas? Será tudo uma grande paranóia??? De qualquer maneira, é de bom alvitre, nos dias de hoje, ter uma dispensa com água e alimentos não perecíveis, mesmo não se estando, como quer nos fazer crer nosso Governo, em guerra!

Thaïs Sá Pereira e Oliveira

Psicanalista da Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle (SPID)

E-mail: th.spo@terra.com.br

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