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"A FORMAÇÃO NO INÍCIO E AO FINAL
DO SÉCULO: INÉRCIA E CRIATIVIDADE - UMA REFLEXÃO"
RELATÓRIO OFICIAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICANÁLISE
DO RIO DE JANEIRO
XVII PRÉ-CONGRESSO DIDÁTICO
FEPAL/98
Fernanda Marinho*
Jane Kezen*
Ney Marinho*
1 - INTRODUÇÃO
Entendemos o convite dos organizadores deste Congresso como o de
uma reflexão sobre a experiência acumulada em quase
um século de tentativas de transmissão da psicanálise
visando formar novos psicanalistas. Entendemos também que
não se trata de uma reflexão ociosa, comemorativa
ou lamuriosa. Estamos, certamente, interessados em pensar a formação
analítica no contexto deste final de século, quando
a psicanálise passa por uma de suas mais sérias crises.
Crise em que não está solitária, acompanhada
por todas as demais ciências humanas e, segundo alguns, pelo
próprio projeto civilizatório proposto pela modernidade
(13)*
Consideramos a noção de crise como inerente aos processos
evolutivos, marca de um conflito entre forças inerciais e
criativas. Utilizaremos na maior parte das vezes em nosso texto,
crise em sua conotação coloquial: como uma ameaça
de mudança iminente da ordem estabelecida. Nossa proposta
de trabalho se baseia na hipótese de que há uma crise
na formação psicanalítica (11) e, que esta
se insere na crise da psicanálise, que por sua vez, é
uma dimensão da crise da modernidade. Um outro parâmetro
de nossa reflexão consiste no uso da noção
de longa duração; privilegiaremos o tempo lento para
a compreensão do tema (6). Assim, julgamos que a crise da
psicanálise antecede o próprio surgimento da psicanálise.
Esclarecemos: a psicanálise surge para dar conta, sob um
determinado vértice, das três questões que a
modernidade nos coloca: a universalidade, a individualidade e a
autonomia (13). Se formos fiéis a uma compreensão
em termos de longa duração poderíamos lembrar
a religião como a tentativa mais antiga e duradoura de lidar
com a questão que subjaz a todos estes projetos e formulações:
o desamparo essencial do ser humano (10d). Lançaremos mão
do termo establishment, tal como Bion o define**, para a investigação
das vicissitudes da institucionalização da formação
analítica, assim como para a compreensão das relações
indivíduo/grupo.
Não temos a pretensão de abarcar todos esses temas,
mas não podemos deixar de citá-los, pois correríamos
o grave risco de reduzir nossa reflexão a discussões
de prosaicas questões institucionais. Standards, regulamentos,
requisitos, podem sem que percebamos tornar-nos entorpecidos burocratas,
encarregados de vigiar e regular a psicanálise, destituindo-a
de sua vitalidade e força revolucionária, isto é:
uma consistente possibilidade de pensar o fracasso da tradição.
Não somos ingênuos de que como membros de uma instituição
- Associação Internacional de Psicanálise -
temos a responsabilidade de institucionalizar a psicanálise;
propor normas e regras para o seu exercício. Contudo, estas
só terão sentido como fruto de um amplo e profundo
debate sobre seus fundamentos, com a participação
de todos os interessados. Esta é a contrapartida de todo
este pano de fundo teórico que apresentamos. Tudo o que se
segue tem também o aspecto prático de contribuir para
a fundamentação de melhores condições
para formarmos novos psicanalistas, psicanalistas à altura
dos desafios de nossos tempos. Qualquer proposta, a nosso entender,
deve estar comprometida com a aventura da criatividade e não
o destrutivo conservadorismo da inércia. Adiantamos nosso
ponto de vista: a psicanálise não é neutra,
é revolucionária, é questionadora; entre a
inércia, o conservadorismo, a tradição e a
criatividade, a revolução, a ruptura do futuro, a
psicanálise não titubeia: ela está com a aventura
do novo.
Estamos cientes de que corremos o risco de um discurso grandiloqüente
e inócuo, até mesmo utópico e, portanto, fora
de moda, caso não fundamentemos suas hipóteses. Desejamos
mesmo ir até um pouco mais longe do que uma necessária
fundamentação, ou seja, sugerir alguns dos elementos
de crise que sempre se encontraram latentes na psicanálise.
Caso sejamos exitosos, talvez possamos conjecturar futuros desdobramentos
da atual crise.
2 - A FORMAÇÃO INFORMAL. PRECURSORES/PIONEIROS. AVENTUREIROS/MILITANTES.
Sugerimos a configuração do seguinte quadro: temos
um pensamento ainda não formulado pairando no ar, um pensamento
à procura de um pensador; a idéia nova à espera
de um gênio que a acolha e formule. Este gênio foi Freud,
a idéia, a psicanálise. Esta convida, atrai e seduz
o precursor, aquele que enfrentando os mais poderosos desafios se
põe em ação para o estudo, a divulgação
e a prática da idéia nova; mas não se detem
em sua instituição, ao contrário, esta é
sua maior ameaça. Caberá aos pioneiros, fundadores
e analistas contemporâneos a institucionalização
da psicanálise e sua manutenção. Inicialmente
e, mesmo agora, a institucionalização se confunde
com a transmissão da psicanálise. Se por um lado,
é a instituição que permite aos comuns o acesso
à idéia nova, por outro, ela é essencialmente
conservadora, insurgindo-se sempre contra algo que ameace os seus
dogmas, as suas leis. Temos já aí delineado o campo
de tensão entre inércia e criatividade. Pretendemos
fazer um paralelo entre o perfil do precursor e do aventureiro em
contraste com o analista militante no período de e pós-institucionalização.
Situamos o precursor no período de formação
informal, quando observamos a formação do humanista
com vasto campo de interesses, com uma variedade enorme de temas
em suas abordagens psicanalíticas, aquele que viajou pelas
mais remotas e diversificadas regiões do espírito
humano em sua aventura psicanalítica (1).
Algumas vezes vamos recorrer a Michael Balint (3), ele próprio
um precursor-pioneiro, pois, o que nos surpreende é a sua
atualidade após 51 anos, o que nos remete de pronto ao terror
da inércia. Balint inicia seu texto falando da resistência
inicial à experiência traumática para a humanidade
da descoberta por Freud de um novo mundo: o mundo do inconsciente,
aos poucos substituida por um genuino interesse, logo transformado
numa demanda de informação e orientação
pelos psicanalistas. Diz-nos então: "Talvez a mais relevante,
embora não a única função de nossa atividade
de orientar e ensinar, seja a formação de futuros
analistas. Como nos desempenhemos nesta tarefa, que resultados alcancemos
neste campo, influenciará profundamente não só
o futuro de nossa profissão e de nossa ciência, mas
todo o destino da humanidade". A passagem desses 51 anos nos
permite um seguimento dessa afirmação profética
de Balint. Se menos otimistas que o autor quanto ao destino da humanidade,
pensamos que efetivamente a transmissão da psicanálise,
com os seus problemas inerentes à própria proposta
da psicanálise e à institucionalização
desta, em meio a todo um contexto cultural como veremos adiante,
tem trazido sérias consequências para a profissão
e a ciência psicanalíticas. Mas mais importante que
isto, aumenta enormemente a nossa responsabilidade, já que
o entusiasmo, o senso de verdade que a psicanálise nos desperta
em nada diminuiu, colocando-nos diante de um grande desafio, um
desafio de nossos tempos.
Bem, retornando ao modelo proposto: o que caracteriza o precursor?
o que o faz diferente dos demais? Com certeza algo o distingue do
gênio - Freud - mas tambem é distinto daqueles que
pertencem a algo já instituido ou mesmo que promovem de forma
sistematizada essa instituição. "Poeta, romancista,
político, jornalista, administrador, erudito trabalhador,
tudo foi nesta terra e tudo desprezou, para viver dentro da liberdade
do pensamento e nas expansões de sentimento, únicos
princípios a que obedecia como o imperativo categórico
de sua personalidade singular" (12). Pensamos encontrar nesta
descrição de um dos precursores no Brasil, mais fielmente
retratados os traços que melhor esboçam o perfil do
precursor em seu espírito aventureiro. Solitário em
sua singularidade, apaixonado pela ideia nova, revolucionária,
aventureiro na paixão pela causa enquanto ação,
pois é esta que o tira de seu isolamento. Armada de curiosidade
perscrutadora a ação logo encontra um novo fim para
seu servo. O fim não a justifica, ela prescinde de justificação,
justifica-se por si mesma, aquele - o fim - apenas lhe presta serviços,
é seu escravo. Podemos aqui fazer uma analogia com a ação
transformadora da experiência emocional na aventura psicanalítica.
Desgarrada de um fim determinado, logo atem-se a novos objetos que
se apresentam para o exercício da tarefa que ela própria
se dá.
Sartre no prefácio do livro de Roger Stéphane "Portrait
de l’Aventurier" (14) nos diz: "Bem pequeno, Gide
se atira aos braços de sua mãe gritando: ‘Eu
não sou como os outros’... Ser é primeiramente
não ser como o vizinho, é ser um original". Nesse
sentido o aventureiro se contrapõe ao militante e não
somente como duas ideias abstratas. Voltando a Sartre: "É
necessário que a entrada no partido - sociedade psicanalítica
- corresponda muito exatamente ao reino humano; o seu eu, bem longe
de despojá-lo, ele - ela - lho dá. Eu o digo sem ironia:
é doce, certamente, descobrir-se nos olhos fraternais dos
outros... Antes de qualquer coisa será reconhecido como um
semelhante, isto é, como um membro do partido: é uma
consagração".
Todos nós militantes nos confortamos no reconhecimento alheio.
No compartir de ideias e ideais comuns ganhamos personalidade, sabemos
quem somos, pelo que lutamos e esta é a causa sã ou
santa. Arrancados deste meio irmão onde encontramos o olhar
acolhedor de aprovaçào, de pacto implícito,
muitas vezes sentimo-nos lançados à arena, ameaçados
de forma vital na crença comum, pois esta é tambem
o nosso eu. O precursor-aventureiro, ao contrário do militante,
prescinde e mesmo evita a doação de seu eu pelo grupo;
neste será olhado com desconfiança, resistência,
alvo de hostilidade. -- "É diferente, não é
como um de nós", dirão.
Ouçamos mais uma vez Balint sobre o sistema de formação
e observemos a semelhança com as ideias expostas: "Toda
a atmosfera é fortemente reminiscente das cerimônias
primitivas de iniciação. Da parte dos iniciadores
- o comitê e os analistas de formação - nós
observamos o sigilo sobre nosso conhecimento esotérico, pronunciamentos
dogmáticos de nossas exigências e o uso de técnicas
autoritárias. Da parte dos candidatos, isto é, esses
a serem iniciados, observamos a aceitação das fábulas
exotéricas, submissão obzequiosa ao tratamento autoritário
e dogmático sem muito protesto e comportamento por demais
respeitoso. Nós sabemos que o objetivo geral de todos os
ritos de iniciação é forçar o candidato
a identificar-se com seu iniciador, introjetar o iniciador e seus
ideais, e construir a partir dessas identificações
um forte super-ego que o influenciará toda a sua vida".
Um pouco além encontramos: "... qualquer contradição
imediatamente põe em evidência o candidato, que a partir
de então tem que enfrentar um grupo conformista como um indivíduo
não-conformista* , uma força a que só uns poucos
podem e ousam resistir".
Dissemos acima que a instituição é essencialmente
conservadora, podemos dizer agora que todo grupo é essencialmente
conformista, sempre conforme à sua sobrevivência. Nesse
sentido é hostil ao indivíduo, é indiferente
ao destino deste, atento apenas à ameaça que este
representa à sua preservação. A tendência
dominante é sufocar o indivíduo em sua originalidade,
desvitalizar a capacidade criativa, o indivíduo não-conformista.
Caberá ao establishment manter a vitalidade do grupo, ao
mesmo tempo que zela por sua sobrevivência. Essencial para
isto é o ambiente propício ao surgimento de gênios,
uma das funções precípuas do grupo. Deverá,
portanto, o establishment, regular a tensão permanente resultante
do novo, da criação que se insurge contra o instituído,
suportando o choque disruptivo e cuidando das consequências
de modo a preservar o grupo. Muitas vezes em detrimento da expansão
criativa.
Esta configuração se dá igualmente no interior
do indivíduo, ele próprio sede de uma associação
grupal conformista, lutando contra a irrupção do gênio,
"um flash de gênio" (4), que venha a subverter a
ordem instituída, docemente familiar, de sua organização
interna. É o paciente, o aluno, o analista, precursor-aventureiro,
ousando sua curiosidade perscrutadora, voltando-se para o novo,
o desconhecido, dando-lhe abrigo, livre no pensamento e nas expansões
de sentimento.
Freud precisou isolar-se do grupo para desenvolver com liberdade
as suas ideias revolucionárias. Mas tambem precisou reunir-se
a seus pares, ter deles o reconhecimento, assegurar a transmissão
de suas descobertas e a fidelidade aos princípios básicos
da psicanálise por ele preconizados. São duas tendências
opostas e inescapáveis do ser humano, a satisfação
decorrente de seu vínculo emocional com o indivíduo,
e a satisfação que advem de sua necessária
inserção no grupo e do vínculo emocional com
este. Recorramos às palavras de Sartre que, julgamos, bem
expressam o aparente paradoxo e a nossa posição a
respeito: "Aventureiro ou militante: eu não creio neste
dilema. Sei bem que um ato tem duas faces: a negatividade que é
aventureira e a construção que é disciplina.
Nós só ganhamos se extraimos todas as consequências
deste círculo vicioso: o homem está por ser feito
e é o homem sozinho quem pode fazer o homem".
3 - A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA FORMAÇÃO.
A QUESTÃO DA ANÁLISE LEIGA.
No processo de institucionalização da psicanálise
e de sua transmissão surge um momento que nos parece paradigmático
da relação do establishment com o gênio. Referimo-nos
à questão da análise leiga.
Neste momento o establishment determina os limites de movimentos
e expansão da idéia psicanalítica, uma espécie
de "nec plus ultra". A limitação do exercício
da psicanálise a médicos adotada por vários
institutos, crise deflagrada pelos norte-americanos, sinalizou um
limite também ao pensamento psicanalítico. A aventura
psicanalítica tinha seus riscos e o grupo decidia refreá-la,
em nome de sua preservação (preservação
do grupo). A argumentação científica era pobre,
a legal irrecorrível.
A acusação de charlatanismo dirigida a Theodor Reik
propiciou, além de um belìssimo trabalho de Freud
(10c), uma boa oportunidade de adesão do establishment psicanalítico
à cultura. Afinal, entregar ao "poder médico"
a transmissão da psicanálise significava, em contra-partida,
a sua aceitação pela ordem cultural. Isto não
escapou ao arguto Freud que, no Posfácio da obra mencionada,
chama atenção para o curioso fato da classe médica,
que antes recebera tão mal a psicanálise, estar naquele
momento, cortejando-a e propondo-se a monopolizá-la.
O episódio é mais dramático e revelador, uma
vez que apesar da sólida e consistente argumentação
de Freud, de sua irrecusável autoridade, nada impediu a adesão
de boa parte das instituições psicanalíticas
a esta exigência cultural. Vale lembrar que em muitos lugares
não havia qualquer ameaça legal. Foi uma auto-limitação
espontânea. Não pretendemos dar excepcional importância
ao fato, pois, situações semelhantes vão ocorrer,
com desdobramentos diversos, na história do movimento psicanalítico
( com Melanie Klein, Bion, Lacan). O ponto, em nossa linha de reflexão,
que desejamos evidenciar é que cabe ao establishment - com
maior ou menor competência - determinar os limites de difusão
da idéia messiânica. O episódio da "Análise
Leiga", hoje um anacronismo consensual, presta-se a que compreendamos
as complexas relações psicanálise/establishment
psicanalítico/establishment cultural. Julgamos que foi um
ponto de inflexão, um desvio indicativo do prêço
a pagar pela absorção pela cultura. Uma "vitória
de Pirro" do movimento psicanalítico que repercute até
os nossos dias. A longa discussão que Bion realiza sobre
o modelo médico (4c) é um brilhante desenvolvimento
das questões mais profundas que Freud tenta discutir com
seu "imparcial interlocutor". Questões que foram
atropeladas, muitas vezes com truculência, pelas instituicões
psicanalíticas que tinham determinado o limite suportável
de seu acolhimento da idéia da psicanálise.
Não atribuimos ao establishment malignidade, nem limitamos
a noção às instituições, o que
seria uma grave equívoco. O establishment não-institucional
pode por vezes ser mais autoritário e conformista que nossas
tradicionais instituições. Lembramos que no plano
individual podemos ver o fenômeno psicótico como um
fracasso na construção de um establishment interno.
Qualquer limitação, que poderia dar sentido à
experiência, desperta ansiedades claustrofóbicas insuportáveis.
Por outro lado, a contínua projeção de impulsos
e conteúdos mentais (quando chegam a se formar) acarreta
ansiedades agorafóbicas (4c).
4 - A CRISE DA TRANSMISSÃO DA PSICANÁLISE E O FIM
DO "LONGO SÉCULO XX".
Freud dedica uma de suas principais obras a um rigoroso exame crítico
da religião (10d), assim como inicia seu texto subsequente,
quando vai tratar de uma crise em termos de longa duração,
"O Mal-Estar na Civilização" (10e), voltando
ao tema. Repete, alí, que a força da religião
se radica no essencial desamparo do ser humano. Entre os temas centrais
elegemos - "o essencial desamparo do ser humano" - como
o ponto de articulação da crise da formação
analítica, da psicanálise e da modernidade. "A
psicanálise privilegia o indivíduo" (4e). Contudo,
suas necessidades, desejos, expectativas, pré-concepções
só se realizam no grupo. A afirmação de Aristóteles,
a rigor o fundamento da própria paidéia grega, de
que "o homem é um animal político", ganha
vida em toda a obra de Bion (4a,4b,4c,4d,4e).
Um dos pontos fundamentais da proposta da modernidade é
a valorização do indivíduo, expressa na crença
de sua progressiva autonomia. Portanto, autonomia e progresso surgem
como um programa a ser realizado, cujo êxito ou fracasso determinará
o futuro do próprio projeto civilizatório que o pensamento
ocidental propõe, pretendendo mesmo sua universalidade. Neste
sentido é que nos parece que a psicanálise despontou
como a esperança de dar conta daquilo que parecia irredutível
a qualquer outra compreensão: o que há de inusitado
no pensar e agir humanos.
Não precisamos perder muito tempo para falar do desencanto
que o último quarto do século revelou quanto a este
projeto. O que se vê é um crescente processo de massificação
que culmina, neste final de século, num paradoxal individualismo
sem singularidade. Ou seja: conhecemos muito mais sobre nós
mesmos ao mesmo tempo em que nos sentimos impotentes para qualquer
afirmação individual significativa, criativa, capaz
de realizar a autonomia própria ao indivíduo. Cumprimos
um destino, não mais traçado por Deus, ou por algum
tirano enlouquecido, mas por complexos projetos econômicos
que, em nome de rigorosa cientificidade, determinam o que devemos
desejar, comprar, trabalhar, ou, o que é pior, não
trabalhar, pois, pode fazer parte de tais projetos um necessário
e estrutural desemprego. Em suma: convidam-nos à inércia
e bane-se a criatividade, decretando-se o fim das utopias, em nome
de uma razão que não reflete, um novo Deus, como o
de Schreber que era incapaz de compreender os homens vivos, só
cadáveres, almas assassinadas.
4.1 - Se por um lado a idéia da psicanálise foi pensada
como uma forma de dar conta da questão da autonomia, a genialidade
de Freud em abrigá-la, desenvolvê-la e transmití-la,
com a integridade própria de seu gênio, revelou-nos
também outras facetas do fenômeno humano, incompatíveis
com qualquer proposta de um sistema de pensamento fechado, auto-suficiente,
definitivo, único. Desta forma, sua grande aceitação
pelo establishment - tanto grupal como individual - foi sempre ambivalente,
melhor dizendo, seletiva. Aceitou-se o palatável e rejeitou-se,
precocemente, o indigesto. Como vimos, este processo seletivo alcançou
a própria seleção daqueles que poderiam receber,
exercer e transmitir a psicanálise. A manifestação
desta intolerância à psicanálise é tão
grosseira que alguns (5) chegam a considerar que a crise da psicanálise
se radica em sua transmissão, onde a formação
de escolas com características de verdadeiras seitas revela
a abolição de qualquer tentativa de autonomia e criatividade
e estimula a produção reiterativa.
4.2 - A autonomia com que Freud nos acena é humilde, conflitiva
e precária. Uma autonomia humana, talvez, demasiadamente
humana. Por outro lado, é crítica e, no nosso entender,
cética mas potente. O conhecimento não basta, a experiência
analítica precisa ser vivida. Na experiência clínica
reside a aventura psicanalítica. Esta nos revela que a autonomia
não é uma dádiva, sua possibilidade sim, precisando
ser conquistada a cada momento, no permanente embate com o conservadorismo
de nossas pulsões. Seu exercício é o de uma
permanente crítica, não no sentido do certo ou errado,
mas do discernimento entre o verdadeiro e o falso como uma proposta
regulativa, um compromisso constante com a busca da verdade inalcançável.
O que foi excluído na institucionalização da
psicanálise foi a sua dimensão de aventura e é
justamente a dimensão clínica que se encontra, no
momento, mais ameaçada. Não por acaso, a vida nos
faz retornar ao excluído como fonte de energia e vitalidade
num momento de melancolia.
Concordamos com Balint (3) ao sugerir que a formação
analítica visa mais desenvolver um ego crítico do
que qualquer sucedâneo de super-ego. Ao mencionarmos este
ponto, pensamos estar indicando um campo de pesquisa para a compreensão
de um elemento básico, uma constante, da crise da psicanálise.
Pensamos na necessidade de uma maior elaboração das
distinções entre funções egóicas
e super-egóicas. Padrões, valores, tradições
fazem parte de nosso patrimônio pessoal, ou grupal, mas são
inúteis, obstrutivos ou, em muitos momentos, violentos, caso
não sejam objeto de nossa reflexão. Pode-se argumentar
que esta será também regida por padrões, valores
e tradições. Nada temos a opor a este poderoso argumento
cético, sugerimos apenas que façamos tal exercício.
Em suma: a psicanálise é uma crítica da cultura,
grupal ou individual, e a formação analítica,
no nosso entender, deve exercitar tal crítica, sem pretensão
a atingir qualquer meta.
4.3 - Com as considerações acima, julgamos ter chegado
ao limite do risco que previamos na Introdução: um
discurso grandiloquente, utópico e inócuo.
A veemência é apenas a do óbvio que, de fato,
precisa ser gritado para ser ouvido. Não estamos trazendo
grandes novidades, afinal o texto de Balint aponta para a maior
parte das questões práticas que mencionamos. Contudo,
suspeitamos que o alerta de Balint foi sepultado por aplausos e
honrarias, tornando-se um clássico. Neste impasse há
tradicionalmente uma alternativa: afastar-se para um "esplêndido
isolamento" (10b), opção salutar do ponto de
vista pessoal (Freud, Bion), mas com evidentes sacrifícios
institucionais. Observamos hoje em dia uma preocupante evasão
de criativos colegas, desiludidos com qualquer forma de atividade
institucional. Gostaríamos de partilhar esta preocupação
com os congressistas.
A questão do caráter utópico de nossa proposta
do resgate da aventura na formação psicanalítica
merece um reflexão mais detida. A noção de
utopia contém um paradoxo. "A utopia é necessária
à história e a utopia é impossível à
história" (7). Gostaríamos de chamar a atenção
para como vivemos o paradoxo utópico neste final de século,
e suas implicações para a psicanálise.
Não por acaso os mesmos arautos do fim da história
são os que decretam o fim das utopias. Entretanto, não
se trata de anúncio pesaroso de que afinal a barbárie
venceu, que o brado do general franquista - "Viva la muerte,
abajo la inteligencia" - triunfou. O caráter eufórico
do anúncio nos indica que, segundo seus pregoeiros, foi realizada
a utopia da modernidade: os princípios democrático-liberais
foram universalmente aceitos, as barreiras entre as nações
cederam a uma comunidade universal e o indivíduo foi liberado
de qualquer constrangimento social, decretando-se o fim do estado.
A falácia de tais afirmações não mereceriam
que perdessemos nosso tempo, caso não se expressassem objetivamente
em políticas científicas, culturais e assistenciais
que nos dizem diretamente respeito (11) apresentando-se como um
dos fatores da crise da formação analítica,
quando não nos contaminam internamente, entorpecendo-nos.
Na realidade o projeto utópico da modernidade não
foi repensado no seu fracasso, foi meramente abandonado e perversamente
travestido, com roupas triunfais. Ou seja: onde estaria a universalidade,
encontra-se a globalização. Conceito vago (9) que
a exame mais atento (2) revela fundamentalmente a hegemonia do capital
financeiro, este sim globalizado e capaz de, por sua grande mobilidade,
determinar o apogeu ou a falência de nações.
A comunidade universal é uma espécie de humor negro,
pois, dos 30/40 países do início do século,
hoje temos duas centenas, disputando acirradamente o capital circulante
excedente através de monótonas e bárbaras guerras
nacionais. O contingente de excluídos cresce, tanto entre
as nações como no interior delas. Por exclusão
entendemos uma ampla conjuntura que abrange tanto condições
sócio-econômicas, quanto emocionais, atingindo todos
os setores da sociedade. O vértice psicanalítico oferece
uma posição privilegiada nesta questão, cabendo-nos
ocupá-la ou não.
A valorização do indivíduo, como já
foi dito, surge nesta utopia negativa (para outros, positiva) como
sua grande realização, desde que ele abra mão
de pretensões à cidadania, noção que
não caberia num mundo de estado mínimo regulado pelo
mercado, e sobretudo de qualquer pretensão à singularidade.
A supressão desta ocorre das formas mais sutís, dentre
elas destacamos um ponto que nos ajudará a compreender a
nossa crise, referimo-nos ao pensamento único. Este é
um ponto em que a psicanálise tem muito a oferecer e que
diz respeito à formação analítica. Afinal,
todas as utopias pretendem alcançar um pensamento único:
um dia todos concordarão que o melhor é isso ou aquilo.
Daí a sugestão de alguns quanto à necessidade
de novas utopias, que contemplem novas necessidades, a permanente
reinvenção da utopia. No plano mental, a diversidade,
a singularidade, sempre encontrou obstáculos nesta aberta
ou simulada proposta do pensamento único. Em nosso entendimento,
aí se encontra a base das seitas e correntes psicanalíticas.
O pluralismo se impõe como uma necessidade epistemológica
e ética. Epistemológica porque o pensamento só
pode surgir do confronto de idéias; ética porque é
o reconhecimento do outro como um outro, no pleno exercício
de sua liberdade, um fim em si mesmo. Cabe ao establishment, enquanto
grupo (Institutos, Sociedades, Associações Nacionais
ou Internacionais), assegurar o exercício da diversidade.
Este é o seu desafio e sua razão de ser. No plano
individual pensamos que corresponde à proposta do analista
em se abster de memória, desejo, compreensão. É
uma proposta audaciosa, talvez demasiadamente verdadeira, pois,
sua implicação é a da experiência de
uma solidão essencial, quer para o analista, quer para o
paciente, este, por ventura aluno de um Instituto. Em suma, estamos
formulando em outros termos a mesma proposta de Balint de desenvolvimento
de um ego crítico. Outras propostas são mais tentadoras.
Podemos formular uma formação em moldes religiosos.
O convite é tentador, pois, desde Freud (10a) até
Bion (4b) sabemos que pensar e frustração formam um
par conjugado. Curiosamente, esta é a arena onde a utopia
negativa da modernidade encontra seu ponto mais fraco, pois neste
terreno tem rivais poderosìssimos: os fundamentalismos religiosos
e as drogas. Retornamos assim à questão do desamparo
esssencial do ser humano, questão que como assinalamos tanto
preocupou Freud.
Quanto à terceira crítica, a inocuidade deste tipo
de discurso: seria aparentemente contraditório com nosso
texto a apresentação de propostas, uma vez que valorizamos
em todo o nosso percurso a diversidade de opções,
a importância da formação informal. Contudo,
também falso seria supor que não temos nossas opções
para a formação de um psicanalista para os nossos
tempos. Não temos em relação ao establishment
psicanalítico uma posição ingênua, não
lhe atribuimos exclusiva responsabilidade pelas vicissitudes da
idéia psicanalítica, nem pela sua transmissão.
Em consequência, alinharemos alguns princípios que,
talvez, possam estimular o debate sobre uma formação
para os nossos dias:
O resgate da dimensão humanista da psicanálise; O
pluralismo como opção; A participação
de todos os envolvidos e interessados no processos de formação:
professores, alunos, comunidade; Uma maior aproximação
com outras disciplinas e, em particular, com a vida social; A preservação
do lugar privilegiado da clínica, que fundamenta e alimenta
nossa específica visão do fenômeno humano.
Norteamos toda nossa apresentação nas relações
psicanálise e establishment, uma necessária tensão,
uma crise de "longa duração", inerente,
repetimos, aos processos de evolução (8), que entretanto
pede decisões políticas, opções. A responsabilidade
está em nossas mãos, o futuro dependerá da
opção que agora fizermos: inércia ou criatividade.
A FORMAÇÃO NO INÍCIO E AO FINAL DO
SÉCULO: INÉRCIA E CRIATIVIDADE - UMA REFLEXÃO.
RESUMO
Os autores desenvolvem seu trabalho a partir do ponto de vista
de que há uma grave crise na formação analítica
e que esta seria uma dimensão da crise da psicanálise,
a qual por sua vez será estudada dentro do contexto da crise
da modernidade que caracterizaria o final do século. Consideram
crise como uma noção inerente aos processos evolutivos,
comportando elementos de inércia e criatividade, próprios
dos momentos de transição. Utilizam a noção
de "longa duração" (Braudel) e exploram
as relações entre o establishment e a idéia
da psicanálise, assim como do indivíduo com o grupo,
a partir de certas formulações de Bion, para compreender
as vicissitudes da transmissão da psicanálise.
Delineiam a primitiva formação informal, fazendo
uma correlação entre os perfis dos precursores e pioneiros
com os dos aventureiros e militantes, baseados em dados biográficos
e históricos dos primeiros analistas e num ensaio de Sartre.
A seguir, conjecturam acerca do papel da institucionalização
da formação, partindo de um texto de Balint sobre
o tema. Tomam a questão da análise leiga como momento
paradigmático para o estudo das relações do
"establishment" psicanalítico com a psicanálise
e a ordem cultural vigente. Sublinham a crítica do modelo
médico, feita por Freud ("A Questão da Análise
Leiga") e Bion ("Atençào e Interpretação"),
chamando atenção para a reação do "establishment"
ante a mesma, ignorando-a e impondo limites exemplares à
psicanálise.
A última seção do trabalho é uma tentativa
de relacionar a crise da transmissão da psicanálise
com o fim do "longo século XX" (Arrighi). É
discutido o fracasso do projeto civilizatório moderno e a
questão do "fim das utopias". A idéia de
crise é tematizada, assim como a de "establishment",
procurando-se resgatar estes conceitos no que têm de permanente.
Há sugestões de princípios para serem discutidos
que poderiam fundamentar a formação de psicanalistas
para o nosso tempo. A dimensão humanista da psicanálise
é realçada, como consittuinte de seu corpo teórico
e clínico. Inércia e criatividade para os autores
constituiriam o dilema com que nos defrontamos, em um momento difícil
mas capaz de permitir a retomada da aventura psicanalítica
em toda a sua plenitude: revolucionária, utópica e
apaixonante.
TRAINING AT THE BEGINNING AND END OF THIS CENTURY:
INERTIA AND CREATIVITY - A REFLECTION
SUMMARY
The authors have developed their paper based on the point of view
that there is a grave crisis in analytical training and that this
is a dimension of the crisis in psychoanalysis, which, in turn,
is to be studied within the context of the crisis of modernity characterising
the latter part of this century. They consider crisis as a notion
inherent to evolutionary processes, bearing elements of inertia
and creativity featured at moments of transition. They use the notion
of long duration (Braudel) and explore the relationship between
the establishment and the idea of psychoanalysis, as well as that
between the individual and the group, founded on certain Bion formulations,
in order to understand the vicissitudes of the conveyance of psychoanalysis.
They delineate the primitive informal training, making a correlation
between the profiles of the precursors and pioneers with those of
the aventurers and militants, on the basis of the biographical and
historical data about the first analysts and on an essay by Sartre.
Subsequently, they conjecture on the role of the institutionalisation
of training, a text about the theme by Balint serving as reference.
They take the question of lay analysis as a paradigmatic moment
for studies of the relationship of the psychoanalytical establishment
with psychoanalysis and the prevailing cultural order. They highlight
the criticism of the medical model made by Freud ("The Question
of Lay Analysis") and Bion ( "Attention and Interpretation"),
drawing attention to the reaction of the establishment in the face
of this, ignoring it and imposing exemplary limits on psychoanalysis.
The last section of the paper is an endeavour to relate the crisis
of the conveyance of psychoanalysis with the end of the long XX
century (Arrighi). It discusses the faillure of the modern civilising
project and the questions of the end of the utopias. The idea of
the crisis is treated as a theme, as well as that of the establishment,
seeking to restore these concepts in what there is of permanence.
There are suggestions to be brought under discussion of principles
that could form the foundation of the psychoanalyst training for
our times. The humanistic dimension of psychoanalysis is enhanced
in importance as a constituent of its theoretical and clinical body.
For the authors, inertia and criativity constitute the dilemma we
confront at a difficult moment, one more likely, in fact, to permit
resumption of the psychoanalytical adventure in all its plenitude
- revolutionary, utopian and highly enthusing.
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