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"A FORMAÇÃO NO INÍCIO E AO FINAL DO SÉCULO: INÉRCIA E CRIATIVIDADE - UMA REFLEXÃO"

RELATÓRIO OFICIAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICANÁLISE DO RIO DE JANEIRO

XVII PRÉ-CONGRESSO DIDÁTICO

FEPAL/98

Fernanda Marinho*
Jane Kezen*
Ney Marinho*

1 - INTRODUÇÃO

Entendemos o convite dos organizadores deste Congresso como o de uma reflexão sobre a experiência acumulada em quase um século de tentativas de transmissão da psicanálise visando formar novos psicanalistas. Entendemos também que não se trata de uma reflexão ociosa, comemorativa ou lamuriosa. Estamos, certamente, interessados em pensar a formação analítica no contexto deste final de século, quando a psicanálise passa por uma de suas mais sérias crises. Crise em que não está solitária, acompanhada por todas as demais ciências humanas e, segundo alguns, pelo próprio projeto civilizatório proposto pela modernidade (13)*

Consideramos a noção de crise como inerente aos processos evolutivos, marca de um conflito entre forças inerciais e criativas. Utilizaremos na maior parte das vezes em nosso texto, crise em sua conotação coloquial: como uma ameaça de mudança iminente da ordem estabelecida. Nossa proposta de trabalho se baseia na hipótese de que há uma crise na formação psicanalítica (11) e, que esta se insere na crise da psicanálise, que por sua vez, é uma dimensão da crise da modernidade. Um outro parâmetro de nossa reflexão consiste no uso da noção de longa duração; privilegiaremos o tempo lento para a compreensão do tema (6). Assim, julgamos que a crise da psicanálise antecede o próprio surgimento da psicanálise. Esclarecemos: a psicanálise surge para dar conta, sob um determinado vértice, das três questões que a modernidade nos coloca: a universalidade, a individualidade e a autonomia (13). Se formos fiéis a uma compreensão em termos de longa duração poderíamos lembrar a religião como a tentativa mais antiga e duradoura de lidar com a questão que subjaz a todos estes projetos e formulações: o desamparo essencial do ser humano (10d). Lançaremos mão do termo establishment, tal como Bion o define**, para a investigação das vicissitudes da institucionalização da formação analítica, assim como para a compreensão das relações indivíduo/grupo.

Não temos a pretensão de abarcar todos esses temas, mas não podemos deixar de citá-los, pois correríamos o grave risco de reduzir nossa reflexão a discussões de prosaicas questões institucionais. Standards, regulamentos, requisitos, podem sem que percebamos tornar-nos entorpecidos burocratas, encarregados de vigiar e regular a psicanálise, destituindo-a de sua vitalidade e força revolucionária, isto é: uma consistente possibilidade de pensar o fracasso da tradição. Não somos ingênuos de que como membros de uma instituição - Associação Internacional de Psicanálise - temos a responsabilidade de institucionalizar a psicanálise; propor normas e regras para o seu exercício. Contudo, estas só terão sentido como fruto de um amplo e profundo debate sobre seus fundamentos, com a participação de todos os interessados. Esta é a contrapartida de todo este pano de fundo teórico que apresentamos. Tudo o que se segue tem também o aspecto prático de contribuir para a fundamentação de melhores condições para formarmos novos psicanalistas, psicanalistas à altura dos desafios de nossos tempos. Qualquer proposta, a nosso entender, deve estar comprometida com a aventura da criatividade e não o destrutivo conservadorismo da inércia. Adiantamos nosso ponto de vista: a psicanálise não é neutra, é revolucionária, é questionadora; entre a inércia, o conservadorismo, a tradição e a criatividade, a revolução, a ruptura do futuro, a psicanálise não titubeia: ela está com a aventura do novo.

Estamos cientes de que corremos o risco de um discurso grandiloqüente e inócuo, até mesmo utópico e, portanto, fora de moda, caso não fundamentemos suas hipóteses. Desejamos mesmo ir até um pouco mais longe do que uma necessária fundamentação, ou seja, sugerir alguns dos elementos de crise que sempre se encontraram latentes na psicanálise. Caso sejamos exitosos, talvez possamos conjecturar futuros desdobramentos da atual crise.

2 - A FORMAÇÃO INFORMAL. PRECURSORES/PIONEIROS. AVENTUREIROS/MILITANTES.

Sugerimos a configuração do seguinte quadro: temos um pensamento ainda não formulado pairando no ar, um pensamento à procura de um pensador; a idéia nova à espera de um gênio que a acolha e formule. Este gênio foi Freud, a idéia, a psicanálise. Esta convida, atrai e seduz o precursor, aquele que enfrentando os mais poderosos desafios se põe em ação para o estudo, a divulgação e a prática da idéia nova; mas não se detem em sua instituição, ao contrário, esta é sua maior ameaça. Caberá aos pioneiros, fundadores e analistas contemporâneos a institucionalização da psicanálise e sua manutenção. Inicialmente e, mesmo agora, a institucionalização se confunde com a transmissão da psicanálise. Se por um lado, é a instituição que permite aos comuns o acesso à idéia nova, por outro, ela é essencialmente conservadora, insurgindo-se sempre contra algo que ameace os seus dogmas, as suas leis. Temos já aí delineado o campo de tensão entre inércia e criatividade. Pretendemos fazer um paralelo entre o perfil do precursor e do aventureiro em contraste com o analista militante no período de e pós-institucionalização. Situamos o precursor no período de formação informal, quando observamos a formação do humanista com vasto campo de interesses, com uma variedade enorme de temas em suas abordagens psicanalíticas, aquele que viajou pelas mais remotas e diversificadas regiões do espírito humano em sua aventura psicanalítica (1).

Algumas vezes vamos recorrer a Michael Balint (3), ele próprio um precursor-pioneiro, pois, o que nos surpreende é a sua atualidade após 51 anos, o que nos remete de pronto ao terror da inércia. Balint inicia seu texto falando da resistência inicial à experiência traumática para a humanidade da descoberta por Freud de um novo mundo: o mundo do inconsciente, aos poucos substituida por um genuino interesse, logo transformado numa demanda de informação e orientação pelos psicanalistas. Diz-nos então: "Talvez a mais relevante, embora não a única função de nossa atividade de orientar e ensinar, seja a formação de futuros analistas. Como nos desempenhemos nesta tarefa, que resultados alcancemos neste campo, influenciará profundamente não só o futuro de nossa profissão e de nossa ciência, mas todo o destino da humanidade". A passagem desses 51 anos nos permite um seguimento dessa afirmação profética de Balint. Se menos otimistas que o autor quanto ao destino da humanidade, pensamos que efetivamente a transmissão da psicanálise, com os seus problemas inerentes à própria proposta da psicanálise e à institucionalização desta, em meio a todo um contexto cultural como veremos adiante, tem trazido sérias consequências para a profissão e a ciência psicanalíticas. Mas mais importante que isto, aumenta enormemente a nossa responsabilidade, já que o entusiasmo, o senso de verdade que a psicanálise nos desperta em nada diminuiu, colocando-nos diante de um grande desafio, um desafio de nossos tempos.

Bem, retornando ao modelo proposto: o que caracteriza o precursor? o que o faz diferente dos demais? Com certeza algo o distingue do gênio - Freud - mas tambem é distinto daqueles que pertencem a algo já instituido ou mesmo que promovem de forma sistematizada essa instituição. "Poeta, romancista, político, jornalista, administrador, erudito trabalhador, tudo foi nesta terra e tudo desprezou, para viver dentro da liberdade do pensamento e nas expansões de sentimento, únicos princípios a que obedecia como o imperativo categórico de sua personalidade singular" (12). Pensamos encontrar nesta descrição de um dos precursores no Brasil, mais fielmente retratados os traços que melhor esboçam o perfil do precursor em seu espírito aventureiro. Solitário em sua singularidade, apaixonado pela ideia nova, revolucionária, aventureiro na paixão pela causa enquanto ação, pois é esta que o tira de seu isolamento. Armada de curiosidade perscrutadora a ação logo encontra um novo fim para seu servo. O fim não a justifica, ela prescinde de justificação, justifica-se por si mesma, aquele - o fim - apenas lhe presta serviços, é seu escravo. Podemos aqui fazer uma analogia com a ação transformadora da experiência emocional na aventura psicanalítica. Desgarrada de um fim determinado, logo atem-se a novos objetos que se apresentam para o exercício da tarefa que ela própria se dá.

Sartre no prefácio do livro de Roger Stéphane "Portrait de l’Aventurier" (14) nos diz: "Bem pequeno, Gide se atira aos braços de sua mãe gritando: ‘Eu não sou como os outros’... Ser é primeiramente não ser como o vizinho, é ser um original". Nesse sentido o aventureiro se contrapõe ao militante e não somente como duas ideias abstratas. Voltando a Sartre: "É necessário que a entrada no partido - sociedade psicanalítica - corresponda muito exatamente ao reino humano; o seu eu, bem longe de despojá-lo, ele - ela - lho dá. Eu o digo sem ironia: é doce, certamente, descobrir-se nos olhos fraternais dos outros... Antes de qualquer coisa será reconhecido como um semelhante, isto é, como um membro do partido: é uma consagração".

Todos nós militantes nos confortamos no reconhecimento alheio. No compartir de ideias e ideais comuns ganhamos personalidade, sabemos quem somos, pelo que lutamos e esta é a causa sã ou santa. Arrancados deste meio irmão onde encontramos o olhar acolhedor de aprovaçào, de pacto implícito, muitas vezes sentimo-nos lançados à arena, ameaçados de forma vital na crença comum, pois esta é tambem o nosso eu. O precursor-aventureiro, ao contrário do militante, prescinde e mesmo evita a doação de seu eu pelo grupo; neste será olhado com desconfiança, resistência, alvo de hostilidade. -- "É diferente, não é como um de nós", dirão.

Ouçamos mais uma vez Balint sobre o sistema de formação e observemos a semelhança com as ideias expostas: "Toda a atmosfera é fortemente reminiscente das cerimônias primitivas de iniciação. Da parte dos iniciadores - o comitê e os analistas de formação - nós observamos o sigilo sobre nosso conhecimento esotérico, pronunciamentos dogmáticos de nossas exigências e o uso de técnicas autoritárias. Da parte dos candidatos, isto é, esses a serem iniciados, observamos a aceitação das fábulas exotéricas, submissão obzequiosa ao tratamento autoritário e dogmático sem muito protesto e comportamento por demais respeitoso. Nós sabemos que o objetivo geral de todos os ritos de iniciação é forçar o candidato a identificar-se com seu iniciador, introjetar o iniciador e seus ideais, e construir a partir dessas identificações um forte super-ego que o influenciará toda a sua vida".

Um pouco além encontramos: "... qualquer contradição imediatamente põe em evidência o candidato, que a partir de então tem que enfrentar um grupo conformista como um indivíduo não-conformista* , uma força a que só uns poucos podem e ousam resistir".

Dissemos acima que a instituição é essencialmente conservadora, podemos dizer agora que todo grupo é essencialmente conformista, sempre conforme à sua sobrevivência. Nesse sentido é hostil ao indivíduo, é indiferente ao destino deste, atento apenas à ameaça que este representa à sua preservação. A tendência dominante é sufocar o indivíduo em sua originalidade, desvitalizar a capacidade criativa, o indivíduo não-conformista. Caberá ao establishment manter a vitalidade do grupo, ao mesmo tempo que zela por sua sobrevivência. Essencial para isto é o ambiente propício ao surgimento de gênios, uma das funções precípuas do grupo. Deverá, portanto, o establishment, regular a tensão permanente resultante do novo, da criação que se insurge contra o instituído, suportando o choque disruptivo e cuidando das consequências de modo a preservar o grupo. Muitas vezes em detrimento da expansão criativa.

Esta configuração se dá igualmente no interior do indivíduo, ele próprio sede de uma associação grupal conformista, lutando contra a irrupção do gênio, "um flash de gênio" (4), que venha a subverter a ordem instituída, docemente familiar, de sua organização interna. É o paciente, o aluno, o analista, precursor-aventureiro, ousando sua curiosidade perscrutadora, voltando-se para o novo, o desconhecido, dando-lhe abrigo, livre no pensamento e nas expansões de sentimento.

Freud precisou isolar-se do grupo para desenvolver com liberdade as suas ideias revolucionárias. Mas tambem precisou reunir-se a seus pares, ter deles o reconhecimento, assegurar a transmissão de suas descobertas e a fidelidade aos princípios básicos da psicanálise por ele preconizados. São duas tendências opostas e inescapáveis do ser humano, a satisfação decorrente de seu vínculo emocional com o indivíduo, e a satisfação que advem de sua necessária inserção no grupo e do vínculo emocional com este. Recorramos às palavras de Sartre que, julgamos, bem expressam o aparente paradoxo e a nossa posição a respeito: "Aventureiro ou militante: eu não creio neste dilema. Sei bem que um ato tem duas faces: a negatividade que é aventureira e a construção que é disciplina. Nós só ganhamos se extraimos todas as consequências deste círculo vicioso: o homem está por ser feito e é o homem sozinho quem pode fazer o homem".

3 - A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA FORMAÇÃO. A QUESTÃO DA ANÁLISE LEIGA.

No processo de institucionalização da psicanálise e de sua transmissão surge um momento que nos parece paradigmático da relação do establishment com o gênio. Referimo-nos à questão da análise leiga.

Neste momento o establishment determina os limites de movimentos e expansão da idéia psicanalítica, uma espécie de "nec plus ultra". A limitação do exercício da psicanálise a médicos adotada por vários institutos, crise deflagrada pelos norte-americanos, sinalizou um limite também ao pensamento psicanalítico. A aventura psicanalítica tinha seus riscos e o grupo decidia refreá-la, em nome de sua preservação (preservação do grupo). A argumentação científica era pobre, a legal irrecorrível.

A acusação de charlatanismo dirigida a Theodor Reik propiciou, além de um belìssimo trabalho de Freud (10c), uma boa oportunidade de adesão do establishment psicanalítico à cultura. Afinal, entregar ao "poder médico" a transmissão da psicanálise significava, em contra-partida, a sua aceitação pela ordem cultural. Isto não escapou ao arguto Freud que, no Posfácio da obra mencionada, chama atenção para o curioso fato da classe médica, que antes recebera tão mal a psicanálise, estar naquele momento, cortejando-a e propondo-se a monopolizá-la.

O episódio é mais dramático e revelador, uma vez que apesar da sólida e consistente argumentação de Freud, de sua irrecusável autoridade, nada impediu a adesão de boa parte das instituições psicanalíticas a esta exigência cultural. Vale lembrar que em muitos lugares não havia qualquer ameaça legal. Foi uma auto-limitação espontânea. Não pretendemos dar excepcional importância ao fato, pois, situações semelhantes vão ocorrer, com desdobramentos diversos, na história do movimento psicanalítico ( com Melanie Klein, Bion, Lacan). O ponto, em nossa linha de reflexão, que desejamos evidenciar é que cabe ao establishment - com maior ou menor competência - determinar os limites de difusão da idéia messiânica. O episódio da "Análise Leiga", hoje um anacronismo consensual, presta-se a que compreendamos as complexas relações psicanálise/establishment psicanalítico/establishment cultural. Julgamos que foi um ponto de inflexão, um desvio indicativo do prêço a pagar pela absorção pela cultura. Uma "vitória de Pirro" do movimento psicanalítico que repercute até os nossos dias. A longa discussão que Bion realiza sobre o modelo médico (4c) é um brilhante desenvolvimento das questões mais profundas que Freud tenta discutir com seu "imparcial interlocutor". Questões que foram atropeladas, muitas vezes com truculência, pelas instituicões psicanalíticas que tinham determinado o limite suportável de seu acolhimento da idéia da psicanálise.

Não atribuimos ao establishment malignidade, nem limitamos a noção às instituições, o que seria uma grave equívoco. O establishment não-institucional pode por vezes ser mais autoritário e conformista que nossas tradicionais instituições. Lembramos que no plano individual podemos ver o fenômeno psicótico como um fracasso na construção de um establishment interno. Qualquer limitação, que poderia dar sentido à experiência, desperta ansiedades claustrofóbicas insuportáveis. Por outro lado, a contínua projeção de impulsos e conteúdos mentais (quando chegam a se formar) acarreta ansiedades agorafóbicas (4c).

4 - A CRISE DA TRANSMISSÃO DA PSICANÁLISE E O FIM DO "LONGO SÉCULO XX".

Freud dedica uma de suas principais obras a um rigoroso exame crítico da religião (10d), assim como inicia seu texto subsequente, quando vai tratar de uma crise em termos de longa duração, "O Mal-Estar na Civilização" (10e), voltando ao tema. Repete, alí, que a força da religião se radica no essencial desamparo do ser humano. Entre os temas centrais elegemos - "o essencial desamparo do ser humano" - como o ponto de articulação da crise da formação analítica, da psicanálise e da modernidade. "A psicanálise privilegia o indivíduo" (4e). Contudo, suas necessidades, desejos, expectativas, pré-concepções só se realizam no grupo. A afirmação de Aristóteles, a rigor o fundamento da própria paidéia grega, de que "o homem é um animal político", ganha vida em toda a obra de Bion (4a,4b,4c,4d,4e).

Um dos pontos fundamentais da proposta da modernidade é a valorização do indivíduo, expressa na crença de sua progressiva autonomia. Portanto, autonomia e progresso surgem como um programa a ser realizado, cujo êxito ou fracasso determinará o futuro do próprio projeto civilizatório que o pensamento ocidental propõe, pretendendo mesmo sua universalidade. Neste sentido é que nos parece que a psicanálise despontou como a esperança de dar conta daquilo que parecia irredutível a qualquer outra compreensão: o que há de inusitado no pensar e agir humanos.

Não precisamos perder muito tempo para falar do desencanto que o último quarto do século revelou quanto a este projeto. O que se vê é um crescente processo de massificação que culmina, neste final de século, num paradoxal individualismo sem singularidade. Ou seja: conhecemos muito mais sobre nós mesmos ao mesmo tempo em que nos sentimos impotentes para qualquer afirmação individual significativa, criativa, capaz de realizar a autonomia própria ao indivíduo. Cumprimos um destino, não mais traçado por Deus, ou por algum tirano enlouquecido, mas por complexos projetos econômicos que, em nome de rigorosa cientificidade, determinam o que devemos desejar, comprar, trabalhar, ou, o que é pior, não trabalhar, pois, pode fazer parte de tais projetos um necessário e estrutural desemprego. Em suma: convidam-nos à inércia e bane-se a criatividade, decretando-se o fim das utopias, em nome de uma razão que não reflete, um novo Deus, como o de Schreber que era incapaz de compreender os homens vivos, só cadáveres, almas assassinadas.

4.1 - Se por um lado a idéia da psicanálise foi pensada como uma forma de dar conta da questão da autonomia, a genialidade de Freud em abrigá-la, desenvolvê-la e transmití-la, com a integridade própria de seu gênio, revelou-nos também outras facetas do fenômeno humano, incompatíveis com qualquer proposta de um sistema de pensamento fechado, auto-suficiente, definitivo, único. Desta forma, sua grande aceitação pelo establishment - tanto grupal como individual - foi sempre ambivalente, melhor dizendo, seletiva. Aceitou-se o palatável e rejeitou-se, precocemente, o indigesto. Como vimos, este processo seletivo alcançou a própria seleção daqueles que poderiam receber, exercer e transmitir a psicanálise. A manifestação desta intolerância à psicanálise é tão grosseira que alguns (5) chegam a considerar que a crise da psicanálise se radica em sua transmissão, onde a formação de escolas com características de verdadeiras seitas revela a abolição de qualquer tentativa de autonomia e criatividade e estimula a produção reiterativa.

4.2 - A autonomia com que Freud nos acena é humilde, conflitiva e precária. Uma autonomia humana, talvez, demasiadamente humana. Por outro lado, é crítica e, no nosso entender, cética mas potente. O conhecimento não basta, a experiência analítica precisa ser vivida. Na experiência clínica reside a aventura psicanalítica. Esta nos revela que a autonomia não é uma dádiva, sua possibilidade sim, precisando ser conquistada a cada momento, no permanente embate com o conservadorismo de nossas pulsões. Seu exercício é o de uma permanente crítica, não no sentido do certo ou errado, mas do discernimento entre o verdadeiro e o falso como uma proposta regulativa, um compromisso constante com a busca da verdade inalcançável. O que foi excluído na institucionalização da psicanálise foi a sua dimensão de aventura e é justamente a dimensão clínica que se encontra, no momento, mais ameaçada. Não por acaso, a vida nos faz retornar ao excluído como fonte de energia e vitalidade num momento de melancolia.

Concordamos com Balint (3) ao sugerir que a formação analítica visa mais desenvolver um ego crítico do que qualquer sucedâneo de super-ego. Ao mencionarmos este ponto, pensamos estar indicando um campo de pesquisa para a compreensão de um elemento básico, uma constante, da crise da psicanálise. Pensamos na necessidade de uma maior elaboração das distinções entre funções egóicas e super-egóicas. Padrões, valores, tradições fazem parte de nosso patrimônio pessoal, ou grupal, mas são inúteis, obstrutivos ou, em muitos momentos, violentos, caso não sejam objeto de nossa reflexão. Pode-se argumentar que esta será também regida por padrões, valores e tradições. Nada temos a opor a este poderoso argumento cético, sugerimos apenas que façamos tal exercício. Em suma: a psicanálise é uma crítica da cultura, grupal ou individual, e a formação analítica, no nosso entender, deve exercitar tal crítica, sem pretensão a atingir qualquer meta.

4.3 - Com as considerações acima, julgamos ter chegado ao limite do risco que previamos na Introdução: um discurso grandiloquente, utópico e inócuo.

A veemência é apenas a do óbvio que, de fato, precisa ser gritado para ser ouvido. Não estamos trazendo grandes novidades, afinal o texto de Balint aponta para a maior parte das questões práticas que mencionamos. Contudo, suspeitamos que o alerta de Balint foi sepultado por aplausos e honrarias, tornando-se um clássico. Neste impasse há tradicionalmente uma alternativa: afastar-se para um "esplêndido isolamento" (10b), opção salutar do ponto de vista pessoal (Freud, Bion), mas com evidentes sacrifícios institucionais. Observamos hoje em dia uma preocupante evasão de criativos colegas, desiludidos com qualquer forma de atividade institucional. Gostaríamos de partilhar esta preocupação com os congressistas.

A questão do caráter utópico de nossa proposta do resgate da aventura na formação psicanalítica merece um reflexão mais detida. A noção de utopia contém um paradoxo. "A utopia é necessária à história e a utopia é impossível à história" (7). Gostaríamos de chamar a atenção para como vivemos o paradoxo utópico neste final de século, e suas implicações para a psicanálise.

Não por acaso os mesmos arautos do fim da história são os que decretam o fim das utopias. Entretanto, não se trata de anúncio pesaroso de que afinal a barbárie venceu, que o brado do general franquista - "Viva la muerte, abajo la inteligencia" - triunfou. O caráter eufórico do anúncio nos indica que, segundo seus pregoeiros, foi realizada a utopia da modernidade: os princípios democrático-liberais foram universalmente aceitos, as barreiras entre as nações cederam a uma comunidade universal e o indivíduo foi liberado de qualquer constrangimento social, decretando-se o fim do estado. A falácia de tais afirmações não mereceriam que perdessemos nosso tempo, caso não se expressassem objetivamente em políticas científicas, culturais e assistenciais que nos dizem diretamente respeito (11) apresentando-se como um dos fatores da crise da formação analítica, quando não nos contaminam internamente, entorpecendo-nos. Na realidade o projeto utópico da modernidade não foi repensado no seu fracasso, foi meramente abandonado e perversamente travestido, com roupas triunfais. Ou seja: onde estaria a universalidade, encontra-se a globalização. Conceito vago (9) que a exame mais atento (2) revela fundamentalmente a hegemonia do capital financeiro, este sim globalizado e capaz de, por sua grande mobilidade, determinar o apogeu ou a falência de nações. A comunidade universal é uma espécie de humor negro, pois, dos 30/40 países do início do século, hoje temos duas centenas, disputando acirradamente o capital circulante excedente através de monótonas e bárbaras guerras nacionais. O contingente de excluídos cresce, tanto entre as nações como no interior delas. Por exclusão entendemos uma ampla conjuntura que abrange tanto condições sócio-econômicas, quanto emocionais, atingindo todos os setores da sociedade. O vértice psicanalítico oferece uma posição privilegiada nesta questão, cabendo-nos ocupá-la ou não.

A valorização do indivíduo, como já foi dito, surge nesta utopia negativa (para outros, positiva) como sua grande realização, desde que ele abra mão de pretensões à cidadania, noção que não caberia num mundo de estado mínimo regulado pelo mercado, e sobretudo de qualquer pretensão à singularidade. A supressão desta ocorre das formas mais sutís, dentre elas destacamos um ponto que nos ajudará a compreender a nossa crise, referimo-nos ao pensamento único. Este é um ponto em que a psicanálise tem muito a oferecer e que diz respeito à formação analítica. Afinal, todas as utopias pretendem alcançar um pensamento único: um dia todos concordarão que o melhor é isso ou aquilo. Daí a sugestão de alguns quanto à necessidade de novas utopias, que contemplem novas necessidades, a permanente reinvenção da utopia. No plano mental, a diversidade, a singularidade, sempre encontrou obstáculos nesta aberta ou simulada proposta do pensamento único. Em nosso entendimento, aí se encontra a base das seitas e correntes psicanalíticas. O pluralismo se impõe como uma necessidade epistemológica e ética. Epistemológica porque o pensamento só pode surgir do confronto de idéias; ética porque é o reconhecimento do outro como um outro, no pleno exercício de sua liberdade, um fim em si mesmo. Cabe ao establishment, enquanto grupo (Institutos, Sociedades, Associações Nacionais ou Internacionais), assegurar o exercício da diversidade. Este é o seu desafio e sua razão de ser. No plano individual pensamos que corresponde à proposta do analista em se abster de memória, desejo, compreensão. É uma proposta audaciosa, talvez demasiadamente verdadeira, pois, sua implicação é a da experiência de uma solidão essencial, quer para o analista, quer para o paciente, este, por ventura aluno de um Instituto. Em suma, estamos formulando em outros termos a mesma proposta de Balint de desenvolvimento de um ego crítico. Outras propostas são mais tentadoras. Podemos formular uma formação em moldes religiosos. O convite é tentador, pois, desde Freud (10a) até Bion (4b) sabemos que pensar e frustração formam um par conjugado. Curiosamente, esta é a arena onde a utopia negativa da modernidade encontra seu ponto mais fraco, pois neste terreno tem rivais poderosìssimos: os fundamentalismos religiosos e as drogas. Retornamos assim à questão do desamparo esssencial do ser humano, questão que como assinalamos tanto preocupou Freud.

Quanto à terceira crítica, a inocuidade deste tipo de discurso: seria aparentemente contraditório com nosso texto a apresentação de propostas, uma vez que valorizamos em todo o nosso percurso a diversidade de opções, a importância da formação informal. Contudo, também falso seria supor que não temos nossas opções para a formação de um psicanalista para os nossos tempos. Não temos em relação ao establishment psicanalítico uma posição ingênua, não lhe atribuimos exclusiva responsabilidade pelas vicissitudes da idéia psicanalítica, nem pela sua transmissão. Em consequência, alinharemos alguns princípios que, talvez, possam estimular o debate sobre uma formação para os nossos dias:

O resgate da dimensão humanista da psicanálise; O pluralismo como opção; A participação de todos os envolvidos e interessados no processos de formação: professores, alunos, comunidade; Uma maior aproximação com outras disciplinas e, em particular, com a vida social; A preservação do lugar privilegiado da clínica, que fundamenta e alimenta nossa específica visão do fenômeno humano.

Norteamos toda nossa apresentação nas relações psicanálise e establishment, uma necessária tensão, uma crise de "longa duração", inerente, repetimos, aos processos de evolução (8), que entretanto pede decisões políticas, opções. A responsabilidade está em nossas mãos, o futuro dependerá da opção que agora fizermos: inércia ou criatividade.

A FORMAÇÃO NO INÍCIO E AO FINAL DO SÉCULO: INÉRCIA E CRIATIVIDADE - UMA REFLEXÃO.

RESUMO

Os autores desenvolvem seu trabalho a partir do ponto de vista de que há uma grave crise na formação analítica e que esta seria uma dimensão da crise da psicanálise, a qual por sua vez será estudada dentro do contexto da crise da modernidade que caracterizaria o final do século. Consideram crise como uma noção inerente aos processos evolutivos, comportando elementos de inércia e criatividade, próprios dos momentos de transição. Utilizam a noção de "longa duração" (Braudel) e exploram as relações entre o establishment e a idéia da psicanálise, assim como do indivíduo com o grupo, a partir de certas formulações de Bion, para compreender as vicissitudes da transmissão da psicanálise.

Delineiam a primitiva formação informal, fazendo uma correlação entre os perfis dos precursores e pioneiros com os dos aventureiros e militantes, baseados em dados biográficos e históricos dos primeiros analistas e num ensaio de Sartre. A seguir, conjecturam acerca do papel da institucionalização da formação, partindo de um texto de Balint sobre o tema. Tomam a questão da análise leiga como momento paradigmático para o estudo das relações do "establishment" psicanalítico com a psicanálise e a ordem cultural vigente. Sublinham a crítica do modelo médico, feita por Freud ("A Questão da Análise Leiga") e Bion ("Atençào e Interpretação"), chamando atenção para a reação do "establishment" ante a mesma, ignorando-a e impondo limites exemplares à psicanálise.

A última seção do trabalho é uma tentativa de relacionar a crise da transmissão da psicanálise com o fim do "longo século XX" (Arrighi). É discutido o fracasso do projeto civilizatório moderno e a questão do "fim das utopias". A idéia de crise é tematizada, assim como a de "establishment", procurando-se resgatar estes conceitos no que têm de permanente. Há sugestões de princípios para serem discutidos que poderiam fundamentar a formação de psicanalistas para o nosso tempo. A dimensão humanista da psicanálise é realçada, como consittuinte de seu corpo teórico e clínico. Inércia e criatividade para os autores constituiriam o dilema com que nos defrontamos, em um momento difícil mas capaz de permitir a retomada da aventura psicanalítica em toda a sua plenitude: revolucionária, utópica e apaixonante.

TRAINING AT THE BEGINNING AND END OF THIS CENTURY:

INERTIA AND CREATIVITY - A REFLECTION

SUMMARY

The authors have developed their paper based on the point of view that there is a grave crisis in analytical training and that this is a dimension of the crisis in psychoanalysis, which, in turn, is to be studied within the context of the crisis of modernity characterising the latter part of this century. They consider crisis as a notion inherent to evolutionary processes, bearing elements of inertia and creativity featured at moments of transition. They use the notion of long duration (Braudel) and explore the relationship between the establishment and the idea of psychoanalysis, as well as that between the individual and the group, founded on certain Bion formulations, in order to understand the vicissitudes of the conveyance of psychoanalysis.

They delineate the primitive informal training, making a correlation between the profiles of the precursors and pioneers with those of the aventurers and militants, on the basis of the biographical and historical data about the first analysts and on an essay by Sartre. Subsequently, they conjecture on the role of the institutionalisation of training, a text about the theme by Balint serving as reference. They take the question of lay analysis as a paradigmatic moment for studies of the relationship of the psychoanalytical establishment with psychoanalysis and the prevailing cultural order. They highlight the criticism of the medical model made by Freud ("The Question of Lay Analysis") and Bion ( "Attention and Interpretation"), drawing attention to the reaction of the establishment in the face of this, ignoring it and imposing exemplary limits on psychoanalysis.

The last section of the paper is an endeavour to relate the crisis of the conveyance of psychoanalysis with the end of the long XX century (Arrighi). It discusses the faillure of the modern civilising project and the questions of the end of the utopias. The idea of the crisis is treated as a theme, as well as that of the establishment, seeking to restore these concepts in what there is of permanence. There are suggestions to be brought under discussion of principles that could form the foundation of the psychoanalyst training for our times. The humanistic dimension of psychoanalysis is enhanced in importance as a constituent of its theoretical and clinical body. For the authors, inertia and criativity constitute the dilemma we confront at a difficult moment, one more likely, in fact, to permit resumption of the psychoanalytical adventure in all its plenitude - revolutionary, utopian and highly enthusing.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 - Alexander, F., Eisenstein, S., Grotjahn, M. - (1981) "A História da Psicanálise Através dos seus
Pioneiros", Rio de Janeiro: Imago Editora, 1981.

2 - Arrighi, G. - (1994) "O Longo Século XX", Rio de Janeiro: Ed. Contraponto/UNESP, 1997.
3 - Balint, M. - (1947) "On the Psycho-Analytic Training System", Int. J. Psycho-anal. 29: 163-173.


4 - Bion, W. R.
a - (1948-51) "Experiências com Grupos", Rio de Janeiro: Imago Editora, 1975.
b - (1962) "A Theory of Thinking", in Second Thoughts, London: Heinemann, 1967.
c - (1970) "Attention and Interpretation", London: Tavistock.
d - (1975) "Uma Memória do Futuro. I. O Sonho", São Paulo: Martins Fontes, 1989. (Trad. de Paulo Cesar Sandler).
e - (1980) "Bion in New York and São Paulo", Perthshire: Clunie Press.


5 - Birman, J. - (1997) "Mesa Redonda sobre a Crise da Psicanálise", Fita cassete, Rio de Janeiro:

Biblioteca da SBPRJ.

6 - Braudel, F. - (1958) "A Longa Duração", in História e Ciências Sociais (Braudel, F.), Lisboa: Ed. Presença, 1990.
7 - Fernandes, R.C. - (1972) "Apresentação de Jerzy Szaki aos Leitores Brasileiros", in As Utopias (Jerzy Szacki), Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1972
8 - Chebabi, W. - (1995) "Crise (Declínio?) na Psicanálise", in "A Crise da Psicanálise e/ou de suas Instituições", Rio de Janeiro: Biblioteca da SBPRJ, 1995.
9 - Fiori, J. L. - (1997) "Globalização, Hegemonia e Império", in Poder e Dinheiro (Conceição Tavares e Fiori, org.), Petrópolis: Ed. Vozes, 1997.

10 - Freud, S.
a - (1911) "Formulations on the Two Principles of Mental Functioning". S.E. 12.
b - (1914) "On the History of Psycho-Analytic Movement". S.E.

14.
c - (1926) "The Question of Lay Analysis". S.E. 20.
d - (1927) "The Future of an Illusion". S.E. 21.
e - (1930) "Civilization and its Discontents". S.E. 21.

11 - House of Delegates - (1996) "The Actual Crisis of Psychoanalysis: Challenges and Perspectives", Report of the House of Delegates.
12 - Marinho, F. - (1985) "Comentário ao Trabalho da Dra. Marialzira Perestrello - "Primeiros Encontros com a Psicanálise - Os Precursores no Brasil (1899-1937)", in Boletim do Departamento de Pesquisa da SBPRJ, v. 1, n.1, 1986.
13 - Rouanet, S.P. - (1993) "O Mal-estar na Modernidade", São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
14 - Sartre, J.P. - (1950) Prefácio, in "Portrait de l’Aventurier" (Roger Stéphane), Paris: Sagittaire, 1950.

Fernanda de Medeiros Arruda Marinho (SBPRJ)
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