| |
<
voltar
MENTE E SIGNIFICADO
A AVALIAÇÃO FILOSÓFICA DE MARCIA CAVELL DA
TEORIA PSICANALÍTICA
Ney Marinho (SBPRJ, 2004)
A discreta repercussão em nosso meio, tanto no ambiente
psicanalítico como no filosófico, da avaliação
de Marcia Cavell da teoria psicanalítica, nos faz julgar
conveniente uma melhor divulgação de seu trabalho,
uma vez entendermos que o mesmo abre uma nova e importante via de
diálogo entre a psicanálise e a filosofia, particularmente,
a filosofia da linguagem.
O trabalho de Marcia Cavell veio à luz de forma mais sistematizada,
em seu livro: The Psychoanalytic Mind, from Freud to Philosophy
(Cavell, 1993). Este é fruto de uma pesquisa que vinha realizando
há mais de dez anos, a partir inicialmente da proposta: “uma
criança se torna um ‘sujeito’ ou um ‘self’
somente através de relações com outras pessoas”
(Cavell, 1993:IX). Como a autora nos conta, esta era mais uma “posição”
do que um “argumento”. Por sinal uma posição
já familiar aos psicanalistas na medida em que seria um dos
postulados do que ficou conhecido como “teoria das relações
de objeto”[1]. Chamava a atenção de Cavell que
tal noção era muito compatível com sua orientação
filosófica, abrindo caminho para uma compreensão mais
abrangente da psicanálise do que as tradicionais abordagens
filosóficas a respeito. Restava-lhe, contudo, fundamentar
sua hipótese. Naquela ocasião teve contato com a obra
de Richard Rorty: Philosophy and the Mirror of Nature, o que a levou
ao estudo de Donald Davidson e a uma releitura de Wittgenstein.
Declara ter se dado conta de que necessitava articular a discussão
da linguagem com a da mente, uma vez que para aqueles três
autores tais noções seriam interdependentes e “...
assim como a linguagem é uma atividade comunitária,
da mesma forma a mente é um fenômeno mais interpessoal
do que estamos propensos a pensar” (Cavell, 1993: IX). Esta
passou então a ser sua tese básica para o desenvolvimento
ulterior da pesquisa.
Como vemos, o trabalho de Cavell tem duas fontes: do ponto de
vista psicanalítico, a “teoria das relações
de objeto”; do filosófico, a moderna filosofia da linguagem,
principalmente, as contribuições de Donald Davidson
e Ludwig Wittgenstein.
No presente texto, procuraremos apenas apresentar a metodologia,
argumentos e algumas implicações do empreendimento
de Cavell, evitando uma discussão mais detalhada de sua leitura,
quer dos filósofos citados, quer da teoria psicanalítica,
deixando para outro momento um exame crítico do texto de
Cavell. Entretanto, nas Considerações Finais, adiantaremos
algumas observações a respeito, sugerindo o que entendemos
poderiam ser desdobramentos férteis da avaliação
de Cavell. Adiantamos nossa concordância com o enfoque adotado
que consideramos dos mais promissores para o exame filosófico
da teoria psicanalítica, dada a ênfase que empresta
à intersubjetividade na compreensão da teoria e prática
da psicanálise.
Como utilizaremos fundamentalmente o texto de Cavell, as indicações
de páginas, nas citações sem indicação
de autor, referem-se sempre a The Psychoanalytic Mind – From
Freud to Philosophy.
1 – FUNDAMENTOS DA AVALIAÇÃO DE CAVELL
A autora parte da suposição de que “a psicanálise
é essencialmente uma teoria acerca de criaturas que têm
mentes.”(p.1) Portanto, a noção de mente ocupa
um lugar privilegiado para qualquer discussão da teoria psicanalítica.
Sua abordagem desta questão será simultânea
à da noção de significado. Chama a atenção
para o parentesco de tais conceitos, assim como a forma com que
foram tratados, tanto pela tradição filosófica
como pela psicanalítica. Freud tendeu, preocupado com a cientificidade
da psicanálise, a reduzir a mente a algo fundamentalmente
biológico; ao passo que muitos dos seus seguidores partiram
em direção oposta no sentido de uma compreensão
hermenêutica. Por outro lado, a tradição filosófica,
desde Descartes, priorizou a concepção de mente sobre
a de significado. É a partir da discussão dos impasses
que tal postura acarreta que a autora vai preparar terreno para
a apresentação de sua perspectiva.
A posição cartesiana encontra um forte suporte intuitivo,
uma vez que estabelece uma autoridade para o ponto de vista da primeira
pessoa, capaz de assegurar que o conhecimento obtido pela introspecção
seria auto-evidente. A literatura designa como internalista, tal
concepção. A crítica ao internalismo e suas
implicações no entendimento da teoria psicanalítica
acompanhará todo o texto de Cavell.
Antes de apresentar sua crítica à autoridade da
primeira pessoa, expõe ao leitor o papel crucial que desempenham
as noções de crenças e desejos nas descrições
lingüísticas de atos intencionais, como bases de ações.
A importância para a teoria psicanalítica é
exemplificada pelas diferentes descrições: “Édipo
acredita que matou um ancião na encruzilhada para Tebas”
e “Édipo acredita que matou seu pai na encruzilhada
para Tebas.” Ambas as descrições falam do mesmo
evento, embora tenham significados muito diversos. Com este exemplo
paradigmático dos eventos mentais, Cavell introduz a discussão
dos fundamentos epistemológicos de nossas crenças
e desejos. Qual a natureza do conhecimento que possuímos
acerca de nossas crenças e desejos? Agrupa as diversas respostas
a tal questionamento em duas grandes linhas: o ponto de vista da
primeira pessoa e a perspectiva do intérprete.
O PONTO DE VISTA DA PRIMEIRA PESSOA – Embora atribua a Descartes
o papel de principal representante da autoridade da primeira pessoa
como fonte de conhecimento irrecusável, estende a uma vasta
gama de filósofos a mesma perspectiva na investigação
do mental. Entre eles cita: Locke, Berkeley, Hume, Kant, Russell
e, entre os contemporâneos; John Searle e Thomas Nagel. Na
medida em que se trata de uma ampla generalização,
a autora não examina as peculiaridades de cada autor ao tratar
do tema. Desta forma, vai tomar Descartes como modelo – a
ser criticado – de uma determinada forma de apreensão
de conteúdos mentais. Recordando as duas primeiras meditações
cartesianas sublinha o aspecto auto-evidente dos dados obtidos pela
introspecção, em contraposição à
possibilidade de por em dúvida todas as crenças provenientes
da experiência:
“Observem que as dúvidas de Descartes acerca da existência
das coisas que suas idéias parecem representar de forma alguma
ameaçam – assim ele pensa – sua habilidade para
representar, nem para conhecer o que suas idéias representam.
Assim, Descartes deve implicitamente manter que o caráter
Intencional de um pensamento é interno a ele, que o conteúdo
mental em nada depende de algo externo à mente que o entretém.
... Esta é a suposição que Putnam ... chama
‘solipsismo metodológico’, segundo a qual ‘nenhum
estado psicológico ... pressupõe a existência
de qualquer outro indivíduo que o sujeito a quem este estado
é atribuído.’” (p.12)
A denominação de internalista para esta concepção
prende-se ao fato de que embora suponha que uma interação
entre o cérebro e o mundo exterior possa determinar que crenças
temos, seu conteúdo é determinado por fatos internos
ao corpo. “Um estado mental é alguma espécie
de estrutura – talvez uma estrutura sintática, uma
inscrição em uma ‘linguagem de pensamento’
(Fodor), um quadro, ou uma representação – no
cérebro.” (p.12) Os conteúdos dos pensamentos
prescindiriam de uma avaliação no mundo exterior,
ou do questionamento de outros, mas seriam alcançados pelo
ato de introspecção. Resumindo as principais conseqüências
do internalismo, Cavell lista:
- O ceticismo sobre o mundo exterior.
- O “solipsismo metodológico”.
- A suposição de que nossa mente nos é transparente,
enquanto a de outros nos é opaca.
- A equação: uma mente, um corpo.
Apesar da rejeição de Freud a certas noções
cartesianas – como a separação mente/corpo e
o acesso imediato aos conteúdos da consciência por
introspecção - a autora lembra duas citações
de Freud, de dois distantes períodos de sua obra, que bem
ilustram a influência do pensamento cartesiano:
“A consciência nos faz cientes somente de nossos próprios
estados mentais; que outras pessoas também possuam uma consciência
é uma inferência que tiramos por analogia de seus pronunciamentos
observáveis e ações, a fim de tornar este comportamento
inteligível para nós ... a suposição
de uma consciência neles [nossos semelhantes] repousa numa
inferência e não pode partilhar a certeza imediata
que temos de nossa própria consciência.” (Freud,
1915:169)
A outra citação, de 23 anos depois, diz:
“Em nossa ciência como em outras o problema é
o mesmo: atrás dos atributos (qualidades) do objeto sob exame
que são apresentados diretamente à percepção,
temos que descobrir algo mais que é mais independente da
particular capacidade receptiva de nossos órgãos sensoriais
e que se aproxima mais daquilo que pode ser suposto ser o real estado
de coisas. Não esperamos ser capazes de alcançar o
último, desde que é evidente que cada coisa nova que
nós inferimos deve contudo ser traduzida na linguagem de
nossas percepções, da qual é simplesmente impossível
libertar-nos.” (Freud, 1940a [1938]:196)
Cavell sintetiza suas críticas à abordagem através
da primeira pessoa, em três pontos: a natureza global do ceticismo
acarretado[2]; a dificuldade em dar conta do “êxito”
da linguagem e, finalmente, a dificuldade em explicar crenças
e desejos inconscientes. Um sumário de suas críticas
ao internalismo está na seguinte passagem:
“A perspectiva da primeira pessoa conduz ao ceticismo acerca
do mundo material. A existência de outras mentes torna-se
mais um problema, uma vez que mesmo que possamos acreditar em nossos
sentidos acerca da existência de um outro corpo em um dado
caso, o fato de que o mental seja tomado como radicalmente privado,
só contingentemente expresso em comportamento, e cognoscível
apenas para a mente a qual pertence, significa que nossa crença
que outro corpo é habitado por uma mente é uma inferência
a mais. (Como Descartes coloca, o que nós tomamos como uma
outra pessoa poderia ser um autômato.)” (p.15)
A PERSPECTIVA DO INTÉRPRETE – Ao discutir a perspectiva
do intérprete, em contraposição à da
autoridade da primeira pessoa, Cavell apresenta sua proposta que
denomina de externalista. Deste ponto de vista, vê as atividades
de pensar e falar como inter-relacionadas, sem um privilégio
temporal. Na medida que a linguagem é uma atividade pública,
argumenta a autora, fundada num mundo compartilhado, assim são
também os pensamentos que expressa. Desta forma constitui-se
a perspectiva do intérprete, ou, da terceira pessoa, em oposição
às concepções subjetivistas que procuram dar
um caráter privado a crenças e desejos. Curiosamente,
tal posição anti-subjetivista, contrária, poderíamos
dizer, a uma tradição psicanalítica, encontra
respaldo no desenvolvimento da teoria psicanalítica, como
já mencionamos (através da teoria de relações
de objeto), assim como fornece um instrumental muito valioso para
a superação de impasses peculiares à epistemologia
da psicanálise.
Cavell parte das contribuições de Wittgenstein,
através da nova aproximação que este autor
faz do problema do significado na segunda fase de sua obra, onde
a noção pragmática de significado, o papel
dos “jogos de linguagem” e a crítica à
linguagem privada vão fornecer os pilares de uma nova abordagem
epistemológica das ciências. A autora resume, com felicidade,
o contraste entre a tradição do privilégio
da primeira pessoa e a nova perspectiva, no seguinte texto:
“Descartes e a tradição filosófica mantinham
que o discurso público se seguia ao privado; as palavras
configuram, mas de forma alguma permitem criar as idéias
que elas comunicam. O movimento revolucionário de Wittgenstein
consistiu em minar a noção que podemos divorciar o
privado do público desta forma. Em suas passagens acerca
do pensamento como o discurso silencioso ele adverte contra a idéia
que a linguagem é um véu lançado sobre os pensamentos
que simultaneamente esconde e parcialmente os revela ... Levanta,
pelo contrário, que o discurso silencioso é um derivativo
do discurso ouvido. Assim como aprendemos a calcular de cabeça
através de calcular no papel, assim aprendemos como individualizar
algo em nossas mentes, como pensá-lo como uma face, uma farsa,
uma sedução, como contar e ouvir coisas. (p.24)
Lembra Agostinho como um dos precursores da primazia da primeira
pessoa, do pensamento privado:
Agostinho escreveu:
‘Pouco a pouco eu comecei a me dar conta onde eu estava e
que desejava tornar conhecidos meus desejos aos outros, que poderiam
satisfazê-los. Mas isto eu não podia fazer, porque
meus desejos estavam dentro de mim, enquanto as outras pessoas estavam
fora e elas não tinham a faculdade de penetrar em minha mente.
Assim, eu mexia meus braços e pernas e fazia ruídos,
na esperança de que tais sinais que podia fazer mostrassem
meu intuito, ainda que fossem muito diferentes do que eles tencionavam
mimetizar.’
Primeiro há um pensamento privado – incluindo querer
e desejar – Agostinho supõe; depois um ajuste do pensado
com o discurso público. Este é um quadro, observamos,
que somente uma criatura que possa tanto pensar e falar poderia
apresentar. Neste quadro Wittgenstein traça a direção
em outro sentido: primeiro há a introdução
da criança numa forma de vida, que ao mesmo tampo é
seu aprendizado de uma linguagem, e com esta introdução
uma entrada no pensamento. Uma linguagem de símbolos que
é usada para o pensar deve ser necessária também
para ser uma linguagem usada para comunicar. No tocante à
referência, ela é socialmente fixada, não determinada
por entidades privadas em mentes/cérebros individuais.”
(p.24-25)
Estendemo-nos nesta citação, pois, resume pontos
que serão importantes ao discutirmos as implicações
da proposta de Cavell, na seção seguinte deste trabalho.
Além de Wittgenstein, a autora utiliza para sua análise
do empreendimento psicanalítico as contribuições
de Quine e de Davidson para a filosofia da linguagem e a teoria
da ação. Esposa a teoria holística do significado
de Quine, com as modificações trazidas por Davidson,
ou seja: a passagem da tradução radical (Quine) à
interpretação radical (Davidson).[3] A importância
desta passagem se revela pelas implicações que terá
em sua compreensão da teoria psicanalítica. Pois,
não se trata apenas de compreendermos o discurso do outro
(Quine) mas como nossos discursos falam do mundo (Davidson):
“Onde Quine construiu um modelo de tradução
que nos diria como traduzir sentenças do discurso do outro
para o nosso, o modelo de Davidson focaliza mais explicitamente
o que é entender pensamentos do outro, daí o movimento
da ‘tradução radical’ para a ‘interpretação
radical’. Quine me diz como conectar pronunciamentos de outra
pessoa com os meus, Davidson me diz como conectar aqueles pronunciamentos
com o mundo. É uma teoria voltada para a fundamental questão
da semântica, ou seja, como as palavras se relacionam com
as coisas. A estratégia de Davidson também é
a de indagar como um interprete sem o auxílio de dicionários
e manuais de tradução poderia empreender a tentativa
de compreender outra criatura ou comunidade. ‘Como o filósofo
tradicional que aspira uma resposta ao cético’, escreve
Rorty, Davidson ‘aspira colocar-nos fora de nosso jogo de
linguagem e vê-lo a uma distância’, não,
contudo, pelo movimento em direção a algum ponto de
vista fora de todos os jogos de linguagem (digamos, imaginando algum
conhecedor perfeito e assemelhado a Deus), mas ‘a partir do
ponto de vista mundano do campo lingüístico, procurando
dar sentido ao nosso comportamento lingüístico’
(1985:339)” (p.28)
A solução de Davidson supõe como condição
para a interpretação que intérprete e falante
considerem como verdadeiras um conjunto de crenças em comum.
Somente a partir deste pano de fundo comum é possível
a diferença, ou, divergências. Cavell chama a atenção
que para a prática psicanalítica, tal concepção
é útil uma vez que esclarece o papel de um dos pilares
da terapêutica psicanalítica mais criticado: o método
da “associação livre”. Comenta a respeito:
“O que um analista supõe quando ele usa a associação
livre como guia para a interpretação?” (p.32)
Responde que além da “regra” de não censurar
qualquer de seus pensamentos, permitindo o surgimento daqueles inconscientes
e reprimidos, supõe também que estaríamos então
em condições de compreender o significado do discurso
do paciente, descobrindo a conexão entre suas sentenças
e pensamentos com outros, iluminando assim uma rede mais ampla na
qual eles estariam inseridos. A autora se refere à necessidade
que temos de utilizar o princípio da boa-vontade (“principle
of charity”)[4] para dar sentido ao discurso. Tal posição
tem conseqüências várias, desde uma fundamentação
lógica para o exame daqueles discursos que são, prima
facie, incompreensíveis, como é o caso dos delírios
ou outras manifestações menos dramáticas de
irracionalidade, passando pela discussão de noções
como a de incomensurabilidade (esposadas em filosofia da ciência,
em particular, por Kuhn e Feyerabend), até a própria
discussão de nossos padrões de racionalidade que devem
sempre acompanhar a identificação de irracionalidades.
Voltaremos a este ponto quando discutirmos a proposta de Cavell
para a questão da irracionalidade sob o ponto de vista psicanalítico.
Cavell sublinha duas importantes conseqüências da aceitação
da proposta de Davidson, para o exame da prática psicanalítica.
A primeira seria uma concepção de empatia que, diferindo
da tradicional (psicológica, de natureza intuitiva), seria
baseada na descoberta e ampliação da base comum com
que partilhamos crenças e desejos, o que torna razoável
o comportamento do outro. Em segundo lugar, registra uma conexão
de duas tradicionais noções de verdade: a coerentista
e a correspondentista, opções que têm implicações
nas estruturação de correntes psicanalíticas
(Hanly, 1995)[5]. Considera que o dilema entre as duas noções
é um falso dilema, fruto de uma concepção internalista
de significado, a qual dissociaria significado de conhecimento.
Ao discutir esta interação – conhecimento e
significado – introduz a questão da intersubjetividade:
Se dizemos, ‘eu e a coisa em si mesma’, então
a coisa está à mercê de meu capricho. Nada me
dá a idéia dela como um objeto que pode ser visto
de diferentes perspectivas e que eu possa estar certo ou errado.
Nada exceto alguém é necessário para dar conteúdo
a esta idéia (cita Davidson):
‘Ter o conceito de uma mesa ou um sino é reconhecer
a existência de um triângulo, um vértice do qual
é a própria pessoa, outro uma criatura similar a ela,
e o terceiro um objeto (mesa ou sino) localizado em um espaço
assim constituído em comum. A única forma de conhecer
que o segundo vértice – a segunda criatura ou pessoa
– está reagindo ao mesmo objeto como ela mesma, é
saber que a outra pessoa tem o mesmo objeto em mente. Mas então
a segunda pessoa deve também saber que a primeira pessoa
constitui um vértice do mesmo triângulo, no qual um
outro vértice a segunda pessoa ocupa.’ (Davidson, “Second
Person”, inédito).” (1996:38)
A importância dessas observações de Cavell
se evidenciará ao discutir o papel da interpretação
na teoria psicanalítica, suas condições de
validade, ou seja, a relação verdade e interpretação.
É com este instrumental, que procuramos sumariar, que a autora
vai examinar alguns dos temas fundamentais da psicanálise,
como: o inconsciente, a pulsão[6], a fantasia e os estados
mentais da criança. Julgamos que o escrutínio dessas
questões básicas, com esta nova aproximação,
esclarece certos impasses filosóficos que as anteriores não
davam conta, como é o caso da crítica de Adolf Grünbaum
aos fundamentos da psicanálise.
2 – IMPLICAÇÕES E DESDOBRAMENTOS
Cavell se propõe a discutir três questões
filosóficas que considera implícitas na sua abordagem
da teoria psicanalítica, quais sejam:
- Em que sentido os pensamentos são “internos”
?
- As condições de atribuição de conteúdo
mental.
- Como pensar a base de onde o mental surge, ou, a relação
entre mente e corpo.
A autora parte da noção que Freud esposou de “realidade
psíquica”, quando se viu decepcionado em sua tentativa
de atribuir os sintomas neuróticos a reais experiências
traumáticas anteriores. Em suma, ao abrir mão de sua
teoria da sedução, passou a tomar o que antes seriam
memórias por fantasias, estórias refletindo mais desejos
“internos” do que eventos provenientes do mundo exterior.
Tudo isto originou uma tradição, segundo a qual a
interpretação psicanalítica estaria voltada
para o desvelamento da “realidade psíquica”,
a subjetividade como uma forma de um mundo interno, privado, antecedendo
o conhecimento da realidade externa e, conseqüentemente, o
privilégio de uma concepção internalista do
significado. “A idéia de uma forma de pensar pré-lingüística,
imagética, desempenha um papel central nas primeiras descrições
de Freud da repressão (1915b)” (p.47)
Boa parte da argumentação de Cavell será
uma crítica a tais concepções, assim como a
apresentação de alternativas para os impasses a que
aquele modelo conduzia a teoria psicanalítica. Tais impasses
teriam seriam afastados, a seu ver, através de uma crescente
sofisticação da teoria psicanalítica, na obra
de Freud, mas sem alterar uma visão prioritariamente subjetivista;
por outro lado, tal desenvolvimento abria caminho para uma possível
redução do mental, ou do inconsciente, ao biológico,
Isto atenderia a uma preocupação de Freud de dar um
estatuto científico à psicanálise. Nesta linha,
por exemplo, estaria a afirmação de Freud de que “tudo
o que é consciente tem um estágio preliminar inconsciente”,
ou, “um instinto nunca pode tornar-se um objeto da consciência
– somente a idéia (Vorstellung) que o representa”,
ou ainda: “O que nós chamamos de apresentação
consciente de um objeto pode ser dividida em apresentação
da palavra e apresentação da coisa.” Neste último
exemplo, a autora entende que Freud quer diferenciar uma apresentação
consciente de uma apresentação inconsciente, sendo
que a primeira consistiria tanto na apresentação da
coisa como da palavra, enquanto a segunda somente a apresentação
da coisa. Ressalta que apresentação nestas passagens
é uma tradução de Vorstellung. Comenta Cavell:
“Assim leio estas passagens como expressando uma visão
internalista, segundo a qual o papel da linguagem é o de
dar expressão a ‘idéias’ que são
anteriores e logicamente independentes (em relação
à linguagem), idéias que são inteiramente subjetivas
e internas.” (p.47)
Apesar de todos esses esforços de formular uma teoria que
viesse a reivindicar um estatuto científico para a psicanálise,
as críticas se sucederam uma vez que razões têm
um papel explanatório chave na teoria psicanalítica,
enquanto a atividade científica requer causas e razões
não são causas. Cavell vai propor uma outra linha
de superação das críticas à cientificidade
da psicanálise, propondo que: “... ainda que explanações
por razões são explanações causais,
contudo nenhuma psicologia que trata estados mentais como mentais
pode ser uma ciência no sentido que Freud reivindicava para
a psicanálise.” (p.57)
A linha argumentativa de Cavell seguirá a partir de uma
teoria da ação. Utiliza o termo ação
“em seu mais convencional uso filosófico, para especificar
feitos que são intencionais”. (nota, p.242) Lembra
que qualquer teoria sobre a mente deve reconhecer o papel que tanto
crenças como desejos desempenham nas descrições,
quer do que observamos nas ações de outras pessoas
quer em nossos relatos na primeira pessoa. Levanta o argumento de
Wittgenstein de que crenças e desejos não se prestam
a formulações em termos de leis. Cita Wittgenstein:
“’O determinismo se aplica à mente tão
verdadeiramente como a coisas físicas’ (imagina alguém
dizendo). Isto é obscuro porque quando pensamos em leis causais
para coisas físicas, pensamos em experimentos. Não
temos algo como isto em relação a sentimentos e motivação.
E contudo os psicólogos desejam dizer: ‘Deve haver
alguma lei’ – ainda que nenhuma lei tenha sido encontrada.
(Freud: ‘Desejam dizer, senhores, que mudanças em fenômenos
mentais são guiadas pelo acaso?’) Ao passo que para
mim o fato de que realmente não existem tais leis parece
importante.” (1967,p.42) (p.59)
Desenvolvendo o ponto de vista de Wittgenstein, a autora sublinha
que Wittgenstein julgava ser próprio de estados mentais como
crenças e desejos que o agente seja capaz de admiti-los.
Atribui ao fato de usarmos uma única palavra – “por
que” – para investigar tanto causas como motivos a origem
da confusão de que um motivo seria uma causa da qual estamos
imediatamente cientes, uma causa vista e experimentada como se fosse
“de dentro”. Freud, segundo aquele autor, teria sido
uma das vítimas desta confusão.
A resposta de Cavell a este questionamento ocorrerá em
dois momentos, uma vez que vê nesta crítica dois desafios
para a psicanálise: um que diz respeito à noção
de razões inconscientes e outro, no qual vai deter-se, que
é a idéia de que causas instanciam leis ao passo que
o mesmo não ocorre com razões.
Primeiramente, diz que “afirmar que razões são
a espécie de coisa que podemos reconhecer, em nada implica
sobre quando, ou, em que condições.” Lembra
que Freud admitia duas possibilidades de reconhecimento: uma meramente
intelectual e outra baseada no alcance de uma crença inconsciente,
um reconhecimento com tonalidade afetiva bem diversa da do anterior.
Lembra Cioffi quando diz que o que Wittgenstein considerou a confusão
de Freud, pode ter sido mais “um ‘faro gramatical’
do que uma ‘atrapalhada gramatical’” (p.60) Pois,
razões podem ser ditas constituir causas precisamente quando
o indivíduo ignora as razões para as suas ações,
embora as reconheça em determinado momento.
O segundo estágio de argumentação de Cavell
mantém a distinção wittgensteiniana entre causas
e razões – no que diz respeito a leis – mas por
outros motivos. Ou seja, considera que “as ações
são eventos que têm causas como qualquer outro evento,
mas ao descrevermos um evento como uma ação, na qual
motivos e razões desempenham um papel explanatório,
localizamos o evento numa espécie particular de mapa.”
(p.61) Esta posição peculiar dos eventos mentais seria
fundamental para a explanação psicanalítica,
ao mesmo tempo que a afastaria das ciências “duras”.
Cavell rebate quatro objeções usualmente levantadas
contra a concepção de razões como causas de
ações. Isto é: (1) Crenças e desejos
não são eventos, mas estados ou disposições,
e somente eventos podem causar eventos. Lembra que disposições
– como a fragilidade de um cristal – entram normalmente
nos relatos causais; (2) A causa de um evento deve ser logicamente
independente de seu efeito. Recorda que desejar dobrar à
direita e dobrar à direita são logicamente distintos.
Descrever algo como uma ação implica em falarmos em
intenções que visam certos efeitos; (3) Se as ações
têm causas então somos vítimas sem recursos,
sem necessidade de um agente. Replica: se tive que fazer o que fiz,
depende da espécie de causas em jogo e não de que
tenha, ou não, havido alguma; e, finalmente, (4) As razões
não somente explicam uma ação, elas também
algumas vezes a justificam; e tal não ocorreria na física
ou mesmo na biologia. A autora reconhece que esta é uma genuína
diferença, mas que “... não questiona que razões
não sejam causas, somente ... que elas são uma particular
espécie de causas, isto é, uma espécie que
algumas vezes justifica.” (p.62) Este último ponto
já indica a linha que a autora desenvolverá mais adiante:
o caráter anômalo do mental, dentro da perspectiva
do monismo anômalo, concepção desenvolvida por
Donald Davidson, que Cavell sintetiza da seguinte forma:
“O dualismo metafísico cartesiano está errado,
pois a realidade é uma; contudo Mente e Corpo articulam um
único e mesmo reino de processos e eventos materiais em diferentes
e irredutíveis linguagens que podem nunca se harmonizarem,
resultando que nenhum sistema de leis causais pode capturar estados
psicológicos.” (p.73)
Cavell através de vários exemplos triviais, em que
ordinariamente usamos o termo razão como causa de nossas
ações, embora em muitos casos, estas últimas
possam ser fruto de causas fortuitas, podendo equivocarmo-nos acerca
de nossas razões, ou, surpreendentemente agirmos contra nossas
admitidas razões. Introduz, no correr de seus exemplos, a
questão da “super-determinação”
das ações que pedem, para sua compreensão,
uma multiplicidade de combinações de crenças-desejos.
Chama a atenção para o fato de que o conceito psicanalítico
de “racionalização” – atribuição
pelo agente de “falsas razões” para a sua ação
– se justifica quando as razões falham em cobrir os
dois critérios para a “explicação por
razões” que propõe:
“Uma explicação por razões explica uma
ação de duas formas, ambas necessárias para
a explicação ser válida. Primeiro, ela ‘racionaliza’
uma ação ao mostrar como, dado um certo desejo ou
objetivo do agente, e certas crenças (geralmente implícitas)
acerca de como tal objetivo pode ser alcançado, a ação
em questão ‘faz sentido’ ou foi racional à
luz daquelas crenças e desejos, mesmo que ela tenha sido
irracional à luz de outras. ... Segundo, as crenças
e desejos que explicam a ação devem de fato estar
entre aquelas que movem o agente para a ação; em sua
ausência ele não teria agido. É este segundo
aspecto que nos faz dizer que as razões que explicam um ato
devem também tê-lo causado.” (p.63)
A autora acrescenta à sua argumentação as
características lógicas das descrições
de eventos mentais, que pedem sentenças contendo predicados
mentais que não permitem substituição por termos
co-referentes. Sua exposição é baseada nas
contribuições de Chisholm ao discutir a noção
de intencionalidade reintroduzida por Brentano[7] no debate filosófico,
no contexto da discussão do estatuto das ciências humanas.
As principais implicações da aproximação
de Cavell à teoria psicanalítica, referem-se à
questão da aquisição da linguagem e todo um
vasto trabalho existente acerca de observações de
bebês e teorias a respeito dos primórdios da vida mental;
e ao problema da irracionalidade. Estes dois tópicos recebem
um tratamento extensivo, sendo-lhes dedicadas duas partes do livro,
onde mais especificamente serão discutidos os fundamentos
da clínica e teoria psicanalíticas. Dados os propósitos
do presente trabalho apresentaremos de uma forma extremamente sucinta
a abordagem e propostas de elucidação destes dois
temas – aquisição da linguagem e irracionalidade
– feitas pela autora, uma vez que sua linha argumentativa
exige um acompanhamento passo a passo dado o grande número
de questões que procura responder. Neste caso a leitura do
livro de Cavell é insubstituível.
2.1 – A AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM
É uma questão freqüente nas discussões
psicanalíticas as diversas conjecturas quanto à vida
emocional dos bebês, principalmente quando remontamos a este
estágio de desenvolvimento as fontes de compreensão
da vida adulta, quer em seus aspectos normais ou patológicos.
As inúmeras questões que se colocam podem ser referidas
à indagação central quanto à origem
da subjetividade, do self, independente das diversas definições
que se tenha sobre tais conceitos. Em outros termos: o que seria
ser um bebê? Seria algo tão incompreensível
como ser um morcego? Haveria intencionalidade nos diversos comportamentos
dos bebês? Ou ainda: haveria algum significado a ser descoberto
nas manifestações do bebê, ou, o significado
seria construído através da relação
do bebê com a mãe ou quem o atende?
Desde o ponto de vista que Cavell sustenta, ou seja, que a subjetividade
é algo que uma criatura alcança, pelo menos na forma
de estados mentais interpretáveis, a autora procura dar conta
das questões mencionadas partindo de outra indagação:
como descrever o que ocorre antes (de uma auto-consciência)?
Sua estratégia recorre a uma citação de Wittgenstein:
“a luz surge gradualmente sobre o todo”. Assim, na medida
em que liga pensamento e linguagem considera que o aprendizado da
linguagem é um meio observável para investigarmos
o surgimento do pensar.
“Tanto a reflexão filosófica como a observação
de bebês nos dizem que muito antes que um bebê possa
realmente falar ele aprende uma grande quantidade de coisas que
o prepara para a linguagem, e muito deste aprendizado é de
uma natureza especificamente interpessoal. Esta é uma das
implicações da idéia de Wittgenstein que aprender
uma linguagem é aprender uma forma de vida, o que eu leio
como dizendo que muito acerca das maneiras de uma comunidade deve
já ser partilhados antes que se possa interpretar os outros
e ser por eles interpretados; e são estas maneiras partilhadas
que não podem elas mesmas ser colocadas em palavras, ainda
que nada pudesse ser dito sem elas.” (p.130)
Cavell ao desenvolver suas conjecturas sobre os primórdios
da linguagem cita a famosa passagem de Winnicott quando este chama
a atenção para um fato aparentemente trivial: a fisionomia
da mãe como o espelho do bebê. Um espelho peculiar
que Cavell vê como constitutivo da subjetividade do bebê,
nascida desta inter-relação.
A autora procura nesta longa e detalhada discussão dialogar
com outras concepções, como as sugeridas por Stern,
Lacan, e Derrida. Com todos estes interlocutores questionará
a suposição de “algo atrás do véu
da linguagem”. Ao discutir as vicissitudes da constituição
de um self, introduz o clássico trabalho de Ferenczi: “A
Confusão de Línguas entre o Adulto e a Criança
(A Linguagem da Ternura e a da Paixão)”, para sustentar
a usual concepção que radica, sob o ponto de vista
psicanalítico, em períodos pré-verbais as origens
de distúrbios que mais tarde serão vistos como próprios
da esquizofrenia. Contudo, realça o papel de uma linguagem
entre o adulto e a criança que está na base da construção
mais ou menos distorcida da realidade, ou seja, está na base
da construção de um peculiar sistema de crenças.
Faz então a transição do segundo tópico
que seleciona como fundamental para a teoria psicanalítica:
o tema da irracionalidade.
2.2 – A IRRACIONALIDADE
Cavell aproxima-se da discussão da irracionalidade sob
o ponto de vista psicanalítico, fazendo uma radical crítica
à noção de processo primário, ou seja,
à suposição de uma atividade mental inconsciente,
tolerante a contradições, regida por leis próprias
de funcionamento – como os fenômenos de condensação[8]
e deslocamento[9] – temporalmente primária e com livre
trânsito de energia.
“Como descrito no capítulo VII da Interpretação
dos Sonhos, a satisfação alucinatória do desejo
é o melhor modelo de funcionamento do processo primário,
a maneira pela qual o organismo regride, assim Freud pensa, nos
sonhos, na neurose, na fantasia inconsciente. Como um estado quasi-psicológico,
o desejo nasce quando o bebê experimenta uma necessidade e
através da lembrança de uma experiência de satisfação,
‘alucina’ o objeto pelo qual anseia. Freud pretende
como este modelo exemplificar um arco reflexo, um condicionamento
que não requer para sua explicação qualquer
aquisição conceitual do processo secundário
de pensar. ... Minha tese era (a autora lembra os capítulos
iniciais do livro) a seguinte: uma criatura que pode representar
para si, através de uma via ‘alucinatória’,
o objeto pelo qual anseia, é uma criatura capaz de fazer
julgamentos acerca da realidade, quer exerça ou não
esta capacidade plenamente em uma dada situação de
desejo.” (p.166)
Cavell vai considerar, além de equivocada, como dispensável
a noção de processo primário para a compreensão
psicanalítica de uma série de fenômenos que
a psicanálise investiga: sonhos, sintomas neuróticos,
comportamentos e pensamentos irracionais. A noção
que vai sugerir como uma aproximação que considera
mais fecunda da irracionalidade será a de divisão
do self. Assim, aponta para um ponto de comum interesse entre filósofos
e psicanalistas: um ato ou crença que é “internamente”
irracional, ou seja, “se ele é inconsistente ou indesejável
nos próprios termos do agente, por critérios ou à
luz de fato que ele ou ela implicitamente reconhecem”. (p.193)
Dá como exemplo a crença do “homem dos ratos”
de que suas saídas noturnas seriam vigiadas por seu pai ao
mesmo tempo que ele mesmo sabia que seu pai estava morto. Contrasta
esta situação de “irracionalidade interna”
com outras como a suposição, por bizarra que seja,
de que o mundo foi formado por vermes e queijo, mas que faz sentido
no contexto de quem abriga este tipo de crença.
O desenvolvimento das considerações de Cavell sobre
a questão da irracionalidade procuram ser coerentes com os
fundamentos de sua avaliação filosófica da
psicanálise. Em conseqüência, o que procura manter
é a noção de um holismo mental, ou seja, que
crenças e desejos estão interconectados fazendo parte
de uma rede de racionalidade. Neste sentido diverge de Freud, pois,
ao invés de atribuir os fundamentos da irracionalidade a
impulsos pré-racionais (sic), propõe que a irracionalidade
surge de fissuras em uma ampla base racional.
3 – AS CONCLUSÕES DE CAVELL: GENEALOGIA DA MORAL,
DA MENTE E DO SELF
Cavell reserva para suas conclusões o tema da “valoração
e o self”. Considera questões inseparáveis uma
vez que o processo de valorar faria parte da própria constituição
de um self. Esta posição, coerente com a concepção
holística do mental que como já vimos acompanha toda
a exposição de Cavell, é defendida a partir
de uma aproximação que assinala entre a Genealogia
da Moral (Nietzche) e o Mal-Estar na Civilização (Freud).
Ambos os autores partilham da visão do “sentido moral
como a tensa resolução da dialética entre impotência
e poder, amor e ódio”. Pensa que a solução
freudiana da constituição de um super-ego impregnado
da pulsão de morte reprimida não dá conta de
uma filosofia moral; embora esclarecedor de várias experiências
de culpa, mostra-se insuficiente para um projeto mais amplo. “A
filosofia moral precisa compreender como o sentido moral se estende
não somente àqueles que conhecemos e amamos, mas também
àqueles que não conhecemos nem amamos e mesmo temos
razões para temer e odiar.” (p.219) Cavell assinala
que este é o paradoxo que Mal-Estar na Civilização
coloca, não esclarecido quer pela noção de
“complexo de Édipo” (não explicaria a
extensão a outros da inibição interna da agressão
ao pai) nem pelo apelo à última teoria dos instintos
(oposição entre Eros e Tânatos), pois: “mesmo
que a teoria fosse plausível, não daria qualquer peso
ao papel da culpa psicológica que Freud oferece, um papel
que ele obviamente deseja estabelecer em seus próprios fundamentos
(psicológicos)”.
Cavell vê duas linhas de pensamento em Freud:
1 – Uma que tende a reduzir a mente ao corpo, valores a mecanismos,
todos os interesses ao auto-interesse. Nesta linha de pensamento
a subjetividade seria anterior à objetividade, o self teoricamente
isolável do mundo externo e de outros selves. É a
linha que conduz Freud a tomar a moralidade como o nome de fantasia
do auto-interesse.
2 – Outra linha de pensamento freudiano tomaria a mente como
uma categoria irredutível explicativamente; vê a conexão
entre mentes não como uma imposição vinda de
fora mas como constitutiva do mental. O julgamento moral não
é mais estranho ao ego ou ao self do que a crença.
E tanto como a crença a moralidade pressupõe um self
dividido. Importante conseqüência desta linha de pensamento
seria tomar a relação da criança com os outros
como desempenhando um papel tal que lhe permite imaginar o mundo
do ponto de vista do outro e cuidar deste como é pelo mesmo
cuidado. Neste caso, o caráter do amor – nas situações
de melhor desenvolvimento – repousaria numa identificação
“com os valores e interesses de um outro”, permitindo
o compartilhar de uma comunidade de interesses, metas, valores e
princípios.
Ao esposar esta segunda linha de pensamento de sua leitura de
Freud, a autora vai sugerir que revisitemos uma genealogia da moral,
agora em concomitância com a do mental e a do self. Para realizar
tal empreendimento expõe sua leitura da triangulação
edípica articulando-a com um concomitante processo de individuação,
uma vez que o reconhecimento da situação edípica
implica para a criança numa percepção distinta
de seus três componentes. Cavell lembra ainda dois momentos
da obra de Freud – Os Dois Princípios do Funcionamento
Mental (Freud,1911) e Luto e Melancolia (Freud,1917[1915]) –
em que a questão da intersubjetividade desempenha a seu ver
um papel decisivo para a compreensão do surgimento e estruturação
do self. Dos Dois Princípios realça a ausência
da mãe como fator propulsor da introdução do
Princípio de Realidade, dada a impossibilidade da satisfação
solitária do bebê sob a dominância exclusiva
do Princípio do Prazer. A partir deste ponto vai defender
o caráter essencialmente intersubjetivo do desenvolvimento
do pensar assim como sua imbricação com as emoções
do contexto que o envolve. De Luto e Melancolia, retira conjecturas
análogas as de Melanie Klein, considerando residir na relação
do bebê com o objeto perdido – reconhecido como um outro
ausente – a origem da culpa e a gratidão fruto do reconhecimento
que o objeto uma vez odiado seria o mesmo que o gratificava.
“Sob meu ponto de vista e da maioria dos psicanalistas,
gratidão e luto pressupõem um grau de desenvolvimento
cognitivo que um bebê muito pequeno não possui. Mas
podemos deixar de lado a questão de quando este desenvolvimento
ocorre e focalizar a tese muito instigante de Melanie Klein que
a gratidão e o luto são emoções que
registram cruciais momentos de desenvolvimento. A tese não
é somente psicológica mas filosófica, implicando
que certas emoções morais desempenham um papel constitutivo
no self humano.” (p.227)
4 – CONSIDERAÇÕES FINAIS
A apresentação da obra de Marcia Cavell, num trabalho
como este, desperta-nos necessariamente um sentimento de frustração
e de injustiça com a autora, embora tenhamos procurado ater-nos
exclusivamente a seu texto e manter a fidedignidade possível.
Tais sentimentos se explicam pelo fato da autora apresentar uma
argumentação que se desdobra no decorrer de toda a
sua obra, o que torna qualquer tentativa de resumi-la muito precária.
Como solução alternativa, procuramos destacar e examinar
as linhas básicas de sua proposta de avaliação
da teoria psicanalítica. Da mesma forma listaremos também
os pontos que nos pareceram mais relevantes e propícios a
desdobramentos, quer do vértice filosófico do qual
a autora parte, quer de sua compreensão da teoria psicanalítica:
A CENTRALIDADE DA QUESTÃO DO SIGNIFICADO. O privilégio
que Cavell dá à noção de significado
como o ponto de partida de sua avaliação, evita a
complexidade muitas vezes excessiva que adquiriu a discussão
da teoria psicanalítica, uma vez que concentra neste ponto
a peculiar contribuição do pensamento freudiano, evitando
a polêmica sobre novas entidades trazidas pela psicanálise.
Referimo-nos a noções como inconsciente dinâmico
e pulsões, noções que tomadas como ponto de
partida, muitas vezes, obscureceram o debate filosófico sobre
a teoria psicanalítica. Por outro lado, uma noção
como significado, por mais controversa que seja, não pode
ser facilmente descartada, por já ter sido incorporada ao
temário filosófico contemporâneo, tornando-se
um terreno comum para o diálogo entre psicanalistas e filósofos.
A avaliação de Cavell pode ser vista como um perfeito
contraponto, na literatura filosófica norte-americana, a
de Adolf Grünbaum. Ambas são minuciosas, atentas aos
textos e preocupações epistemológicas de Freud,
apresentam um instrumental bem definido – Grünbaum a
noção de refutabilidade como critério de cientificidade;
Cavell os recursos da análise através moderna filosofia
da linguagem, preocupando-se mais com a noção de racionalidade
– e alcançam resultados opostos. O pessimismo de Grünbaum
quanto ao futuro do empreendimento psicanalítico se contrapõe
ao franco entusiasmo de Cavell quanto às possibilidades da
psicanálise contribuir para a investigação
e terapêutica de um amplo campo de manifestações
mentais que abarca desde atitudes ou condutas desviantes –
consideradas irracionais - até àquelas configurações
usualmente descritas como entidades clínicas (neuroses e
psicoses). Em nosso entendimento, a avaliação de Cavell
supera os inúmeros obstáculos que a tradicional epistemologia
anglo-saxã se defronta quando lida com as ciências
humanas e, em particular, com a psicanálise. Em ocasião
anterior discutimos detalhadamente tais impasses.[10] No momento,
gostaríamos de chamar a atenção para dois pontos
que prejudicaram o exame de Grünbaum da teoria psicanalítica.
Em primeiro lugar, assinalaríamos o emprego da noção
de refutabilidade em sua forma dogmática ou ingênua,
utilizando a terminologia de Lakatos, ou seja: a idéia de
que a refutação de uma teoria componente seria condição
suficiente para invalidar todo o conjunto do empreendimento científico.
Acrescentaríamos também a recusa em admitir explicações
ou teorias ad hoc – amplamente empregadas em qualquer projeto
científico – considerando-as como artifício
para imunizar a teoria quanto qualquer prova refutadora. Ilustramos
este ponto com a formulação de Freud de um “sentimento
inconsciente de culpa” como elemento esclarecedor das “reações
terapêuticas negativas”, ou seja: quando os procedimentos
psicanalíticos empregados corretamente não encontravam
a resposta clínica esperada e, pelo contrário, muitas
vezes um agravamento do quadro. Tomamos este exemplo exatamente
por representar a nosso ver um caso das vantagens e conveniências
de teorias ad hoc que longe de comprometer a núcleo central
da teoria psicanalítica podem permitir o seu desenvolvimento,
como o estudo da nova hipótese – a da existência
de um de um “sentimento inconsciente de culpa”[11] –
se mostrou no desenvolvimento do pensamento psicanalítico.
Importante registrar que o núcleo central – núcleo
duro – de uma teoria não é necessariamente explicitado
e, a nosso ver, talvez nunca possa ser caracterizado. Embora no
contexto deste trabalho não caiba a discussão mais
aprofundada deste ponto que nos levaria longe demais, desejaríamos
apontar para um problema que a avaliação de Cavell
apresenta e que diz respeito ao que estamos discutindo. Referimo-nos
à sua recusa em aceitar a noção de Freud de
processo primário. Muitos analistas poderiam considerar que
tal noção faça parte do núcleo duro
da teoria psicanalítica. Em conseqüência, tal
recusa implicaria na desaprovação de todo arcabouço
teórico da psicanálise. Contudo, pensamos que qualquer
profissional da psicanálise reconhecerá nas formulações
de Cavell que sua abordagem pode ser, legitimamente, considerada
psicanalítica. Em que pese possíveis discordâncias
não é exagero dizer que a substituição
que faz de processo primário pelo emprego da noção
de divisão do self não distancia sua compreensão
da prática psicanalítica de outras mais usuais. Oferece
um novo vértice. Deixamos esta questão em aberto para
o julgamento do leitor. O segundo ponto em que consideramos que
Cavell supera impasses encontrados por Grünbaum consiste em
sua adequada avaliação das importantes implicações
filosóficas trazidas pela teoria de relações
de objeto. Grünbaum afirma textualmente não observar
qualquer elemento indicativo de uma revisão epistemológica
da teoria psicanalítica com tais desenvolvimentos.[12] Em
contrapartida, Cavell soube avaliar as grandes repercussões
que estes desenvolvimentos trouxeram. Acerca deste ponto temos que
nos deter.
A ADOÇÃO DA “TEORIA DAS RELAÇÕES
DE OBJETO” COMO PANO DE FUNDO DA DISCUSSÃO DA TEORIA
PSICANALÍTICA. Esta posição é o que
permite à autora superar impasses que outras abordagens oferecem
como, por exemplo, quando se pretende discutir a teoria freudiana
a partir de noções como inconsciente ou pulsão.
Embora a teoria das relações de objeto não
prescinda daquelas noções, questões básicas
– tanto para a psicanálise como para o debate filosófico
– como: a constituição de um self, identidade
e identificação, ou, a reflexão sobre a racionalidade,
tornam-se mais transparentes e acessíveis para a discussão
entre filósofos e psicanalistas. Esclarecemos:
Diversas correntes psicanalíticas – principalmente
aquelas oriundas da chamada “escola inglesa” (Fairbain,
Melanie Klein, Winnicott, Bion) – apresentam como modelo para
a compreensão das origens da vida mental, a relação
mãe-bebê e a aquisição da linguagem.
Neste sentido, entendemos que haveria um consenso quanto ao necessário
papel das relações na constituição de
uma subjetividade. Como registramos na introdução,
isto coincidiria com o pressuposto papel da linguagem como constitutivo
do sujeito. Julgamos que este ponto escapou na avaliação
de Grünbaum, uma vez que a tradição filosófica
a que se filia relega o papel da linguagem a um plano secundário,
para compreender o que na feliz comparação de Emília
Steuerman teria sido a “virada lingüística”
da psicanálise (Steuerman, 2003:83). A expressão é
feliz, pois, realmente, a partir da teoria das relações
de objeto a questão da linguagem e da intersubjetividade
encontra um papel central na teoria psicanalítica. Importante
registrar que escapou também aos psicanalistas a íntima
correlação: teoria de relações de objeto/linguagem/intersubjetividade.
É nesta linha de pensamento que se abre o entendimento da
proposta terapêutica da clínica psicanalítica
como a possibilidade de re-significação de um mundo,
ou mesmo a criação de um mundo significativo, que
não se desenvolveu, ou, sofreu as vicissitudes que propiciaram
uma “forma de vida” peculiar, insatisfatória,
que não permitiria o convívio criativo, tal como ocorre
com o que tradicionalmente se descreve sob este ou aquele diagnóstico.
As perspectivas assim oferecidas para um aprofundamento do estudo
das psicoses, aquisição da linguagem, psiquismo infantil
são muito promissoras.
IRRACIONALIDADE E RACIONALIDADE COMO UM PAR CONJUGADO. Outro ponto
ilustrativo da fertilidade da abordagem de Cavell consiste na possibilidade
de uma aproximação da irracionalidade sempre em contraposição
com os padrões de racionalidade aceitos. Assim, uma das mais
importantes contribuições de Freud – a superação
do fosso que tradicionalmente dividia o normal do patológico
– fica preservada e com amplas possibilidades de desenvolvimento.
Compreender um sintoma, um delírio ou uma psicose, passa
a ser o campo de investigação de uma “forma
de vida”, ou seja, de uma linguagem que foi destruída,
não foi construída ou revela restos – lembremo-nos
da metáfora do arqueólogo – de relações
perdidas. Estamos utilizando a expressão “forma de
vida” segundo a noção esboçada por Wittgenstein
que, embora seja compreendida das mais diversas formas por seus
comentadores, está necessariamente imbricada na concepção
de “jogos de linguagem”. “É fácil
imaginar uma linguagem que consista apenas de comandos e informações
durante uma batalha. – Ou uma linguagem que consista apenas
de perguntas e expressões de afirmação e negação.
E muitas outras. – E imaginar uma linguagem significa imaginar
uma forma de vida.” (Wittgenstein,1968 parag.19) Não
caberia aqui discutir o amplo leque de interpretações
que tais afirmações de Wittgenstein propiciaram. Entretanto,
podemos supor que entre elas comporta a utilização
desta relação: linguagem/forma de vida como instrumental
para o exame de situações que cotidianamente ocorrem
a qualquer profissional de psicanálise ou psiquiatria, que
é o desafio de compreender uma forma de vida ou linguagem
que prima facie soem como extravagantes, bizarras ou incompreensíveis.
São problemas que a vida nos coloca. E, lembremos que a atitude
que tomarmos nestas situações, considerando-as como
indicativas de um estado confusional, de um delírio, de uma
idéia obsessiva, ou, de uma mera opinião divergente
da nossa (por razões culturais, ideológicas ou outras)
será decisiva para a continuação do diálogo,
sua interrupção ou outras atitudes de maiores ou menores
conseqüências. Lembremo-nos ainda que historicamente
o grande impacto da teoria freudiana foi o de oferecer uma racionalidade
(por exemplo: as primeiras descrições de casos de
histeria) onde o que se recusava era dotar de qualquer significado
aquele comportamento, linguagem ou forma de vida. “Quando
se encontram dois princípios que não podem conciliar-se
um com outro, os que defendem um declaram os outros loucos e heréticos.”
(Wittgenstein,1990 parag.611)
Assim, vemos como extremamente valiosa a contribuição
de Cavell, ficando nossas restrições limitadas mais
ao que não explorou, especialmente, no campo da literatura
psicanalítica das psicoses e das contribuições
de W.R.Bion, autor que menciona em sua bibliografia mas cujas contribuições
não utiliza, o que poderia enriquecer sua proposta. Em conseqüência,
vários desdobramentos da abordagem apresentada poderiam ser
imaginados. Citaremos algumas das possibilidades que nos ocorrem,
quer através da própria obra de Freud, quer pelas
contribuições de Melanie Klein, além das de
Bion. Sumariamente, a título de exemplo mencionaríamos:
EM FREUD. O necessário papel do grupo na formação
da subjetividade. Temos em mente a menção que faz,
em Psicologia das Massas e Análise do Ego, do fato da psicologia
grupal anteceder a individual. Freud conferia ao complexo de Édipo
uma dimensão antropológica, configurador ao mesmo
tempo do psiquismo humano. Desta forma estamos autorizados a pensar
a intersubjetividade como um pressuposto do próprio indivíduo.
Parafraseando Winnicott, diríamos que da mesma forma que
não existe um bebê sem sua mãe, não existiria
um indivíduo independente de um grupo e, conseqüentemente
de sua comunidade lingüística. O estudo da psicologia
grupal a partir das noções esboçadas por Freud,
mais tarde desenvolvidas por uma vasta literatura sobre grupos,
utilizando-se o instrumental que Cavell expõe, abre sem dúvida
um campo tão promissor como o da investigação
das relações mãe-bebê, do qual a autora
se utiliza amplamente.
EM MELANIE KLEIN. Cavell trabalha, em suas conclusões,
com algumas das idéias de Melanie Klein. Examina de forma
criativa e competente, uma noção kleiniana básica:
o sentimento de gratidão. Cavell observa que tal sentimento
é essencialmente interpessoal: alguém sente gratidão
em relação a algo que foi dado ou propiciado por um
outro. Lembra a autora a estreita conexão que Melanie Klein
faz entre gratidão e luto. É tradicionalmente reconhecida
a origem da teoria das relações de objeto a partir
do texto de Freud Luto e Melancolia, onde os estados melancólicos
são compreendidos tomando como modelo a experiência
normal do luto. Seriam experiências básicas que exigem
um reconhecimento da realidade, portanto um componente cognitivo,
e que só podem ser imaginadas numa relação
interpessoal. Contudo, há muito a ser pesquisado, com o apoio
das contribuições kleinianas, no que diz respeito,
sobretudo, às sempre obscuras fontes de nossos sentimentos
éticos. O recém traduzido texto de Maria Emília
Steuermann – Os Limites da Razão – Habermas,
Lyotard, Melanie Klein e a Racionalidade – é um excelente
exemplo do amplo campo de investigação que as contribuições
kleinianas, quando associadas à moderna filosofia da linguagem,
podem trazer ao atual debate sobre a questão ética
e a discussão da condição moderna e pós-moderna.
EM BION. A obra de Bion, principalmente pelo fato de oferecer
uma nova visão sobre o pensar, a racionalidade e a irracionalidade,
se apresenta como outro campo de utilização da metodologia
proposta por Cavell para um maior desenvolvimento das contribuições
psicanalíticas. Infelizmente, a autora não o explorou,
embora o cite em sua bibliografia e numa curta passagem. Pensamos,
sobretudo, na discussão que Cavell levanta sobre a inevitável
associação afeto/pensamento. Esta íntima relação
poderia ser melhor se examinada à luz da teoria dos vínculos
de Bion, a qual leva sempre em consideração os fatores
Amor, Ódio e Conhecimento – e suas respectivas distorções
pela presença da pulsão de morte: -Amor, -Ódio
e –Conhecimento - como constituintes do contexto em que o
pensamento se dá. Talvez, este seja um tópico ainda
virgem de investigação conjunta por parte de filósofos
e psicanalistas. Recordemos que segundo a concepção
pragmática de significado este seria sempre contextual, podendo
evoluir, mudar, transformar-se segundo as circunstâncias em
que ocorre a comunicação, a prática social
que permite a sua apreensão e o êxito da linguagem.
Contudo, no campo específico dos distúrbios mentais
embora não soe estranha a afirmação precedente,
para qualquer profissional desta área, falta um instrumental
que nos permita esclarecer em que consistiria aquele determinado
“contexto”. É neste sentido que pensamos que
a proposta de Bion – ou qualquer outra que se apresente com
o mesmo intuito – possa ser de grande valia para o discernimento
de situações que fogem aos rótulos diagnósticos
usais, revelando suas insuficiências, e lança luz a
fenômenos que antes ou seriam afastados como irracionais,
incompreensíveis, pelos filósofos (Descartes é
um dos exemplos[13]), ou, aprisionados em esquemas psiquiátricos
tradicionais que não dão conta de sua sutileza e complexidade.[14]
A título de conclusão diríamos que o grande
mérito do livro de Cavell é o de oferecer um novo
instrumental que nos permite pensar a psicanálise e desenvolver
suas inesgotáveis possibilidades de contribuir para a compreensão
de questões muito atuais. Não consideramos fortuita
a concomitância do que ficou conhecido como a “crise
da psicanálise” com a “crise da modernidade”,
o fracasso do projeto iluminista ao lado da persistência (e
diríamos mesmo, exacerbação) dos problemas
que o mesmo projeto evidenciou. Concordamos com Rouanet quando considera
a psicanálise como “a consciência infeliz do
iluminismo” (Rouanet, 1993:101). Entretanto, o caráter
instrumental da teoria psicanalítica, agora aliado às
contribuições da moderna filosofia da linguagem, oferece
novas esperanças não de uma solução
– intuito historicamente falido por qualquer proposta –
mas de uma elucidação, um “novo esclarecimento”
capaz de permitir-nos continuar pensando, com mais humildade e mais
perspicácia, as novas e velhas questões do homem –
a sexualidade, a destrutividade, a razão ou a loucura –
que parecem resistir a qualquer solução definitiva.
Donald Levy conta-nos que certa vez Wittgenstein, em resposta
a seu amigo Drury que se mostrava fortemente surpreso perante alguns
sintomas de seus pacientes psiquiátricos, disse: “Você
nunca deve deixar de ficar surpreso perante os sintomas que os pacientes
apresentam. Se eu enlouquecesse a coisa que eu mais temeria seria
sua atitude de senso-comum. Que você tomasse tudo como uma
matéria evidente de que eu estaria sofrendo de delírios.”
(Levy, D. 1996:24). Penso que Marcia Cavell dá uma importante
contribuição a todos os que mantêm a capacidade
de espantar-se e continuar indagando e dialogando com a loucura
em busca de nosso solo comum.
5 – REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Bion, W. R. Seven Servants. New York, Aronson, 1974.
Cavell, M. The Psychonalytical Mind, from Freud to Philosophy.
Cambridge, Harvard
University Press, 1996.
Descartes, R. Obra Escolhida. São Paulo, Difel, 1973.
Freud, S. (1911). Formulations on the Two Principles of Mental
Functioning. S.E. XII.
_______. (1915). Papers on Metapsychology. S.E. XIV.
_______. (1917 [1915]). Mourning and Melancholia. S.E. XIV.
_______. (1921c). Group Psychology and the Analysis of the Ego.
S.E. XVIII.
_______. (1940a [1938]). An Outline of Psychoanalysis. S.E. XXIII.
Grünbaum, A. “Is Object-Relations Tehory Better Founded
than Orthodox
Psychoanalysis? A Reply to Jane flax.” Journal of Philosophy
80
(1983):46-51.
Hanly, C. O Problema da Verdade na Psicanálise Aplicada.
Rio, Imago, Ed., 1995.
Lakatos, I. “O Falseamento e a Metodologia dos Programas
de Pesquisa Científica”. In A
Crítica e o Desenvolvimento do Conhecimento, Lakatos, I.
& Musgrave (org.). São
Paulo, Cultrix e EDUSP, 1979.
Laplanche, J. & Pontalis, J. B. Vocabulário da Psicanálise.
Lisboa, Moraes Editores, 1979.
Levy, D. Freud among the philosophers. New York, Yale University
Press, 1996.
Marinho, N. O Amor como Vínculo – Reflexões
sobre os Vínculos L (Amor) e –L (-
Amor). In, Revista Brasileira de Psicanálise, vol. 31,
no. 4, 1997.
____ .A Psicanálise entre o Passado e o Futuro – Notas
sobre o “Pensar” em Hannah
Arendt e W. R. Bion. IN, Revista Brasileira de Psicanálise,
vol. 34, no. 3, 2000.
____. Discussão da Racionalidade da Teoria Psicanalítica
a partir da
Epistemologia de Karl Popper – Avaliações
– Impasses – Alternativas. Dissertação
de
Mestrado em Filosofia. Departamento de Filosofia PUC/RJ, Rio,
2001.
Popkin, R. Historia do Ceticismo, de Erasmo a Spinoza. Rio de Janeiro,
Francisco Alves,
2000.
Rouanet, S.P. Mal-Estar na Modernidade. São Paulo, Cia.
das Letras, 1993.
Steuerman, M. E. Os Limites da Razão - Habermas, Lyotard,
Melanie Klein e a
Racionalidade. Rio, Imago Ed., 2003.
Wittgenstein, L. Philosophical Investigations. New York, Macmillan,
1968.
___________. Da Certeza. Lisboa, Edições 70, 1990.
--------------------------------------------------------------------------------
[1] A Teoria das Relações de Objeto foi inicialmente
formulada na Inglaterra, por Fairbain e Melanie Klein, com características
diferentes, assim como apresenta certas variações
quando adotada por outras correntes psicanalíticas. Contudo,
em linhas gerais, tal teoria privilegia para a compreensão
psicanalítica dos conflitos mentais, as relações
inconscientes que o paciente mantém com suas figuras internas
significativas (seus objetos)– mãe, pai, irmãos,
ou com objetos parciais: seio, pênis, mãe-boa (gratificadora),
mãe-má (frustradora), etc. – que constituiriam
o mundo interno do paciente. As correntes que utilizam, fundamentalmente,
as relações de objeto para a compreensão clínica
e mesmo para o entendimento da estruturação mental,
dão relevo às últimas formulações
de Freud, em que divide o psiquismo em: ego, id e super-ego. Acrescentaríamos
que os objetos internos teriam também um papel constitutivo
na organização do sujeito. Este se estruturaria, segundo
tal concepção, a partir de seus objetos.
[2] Para uma discussão mais ampla do ceticismo em Descartes,
sugerimos o livro de Richard Popkin: História do Ceticismo,
de Erasmo a Spinoza (Rio. Francisco Alves, 2000) e, em especial,
o capítulo “Descartes: Sceptique Malgré Lui”.
[3] A autora se refere à discussão introduzida por
Quine quanto à impossibilidade de construirmos um único
e preciso manual de tradução – entre a nossa
língua e outra então inteiramente desconhecida –
obtido a partir de dados observacionais, empíricos. Haveria
sempre uma indeterminação da tradução.
A construção de qualquer manual teria também
um caráter holístico, isto é, teria necessariamente
de levar em consideração o conjunto de crenças
daquela comunidade lingüística para qualquer tentativa
de dar um significado aos pronunciamentos observados. No curso desta
discussão, Davidson levanta questão análoga
porém referindo-se a falantes de uma mesma língua:
como poderíamos determinar uma interpretação?
Conclui no mesmo sentido que Quine pela indeterminação
da interpretação.
[4] Tal princípio, utilizado por Quine e Davidson, é
expresso pela autora nos seguintes termos: “Para que alguém
nos faça sentido devemos exercer um princípio de caridade
que atribua àquela pessoa normas racionais, normas como:
acreditar somente nas proposições que julgue verdadeiras;
não acreditar em proposições contraditórias;
tirar inferências indutivas na base de toda a evidência
relevante; não agir de modo contrário ao seu melhor
julgamento. Estas não seriam normas que as pessoas conscientemente
sustentem, mas estão implícitas em seu pensamento
e comportamento ... O princípio especifica algumas condições
necessárias para que o comportamento de uma outra pessoa
faça sentido, condições que são constitutivas
dos conceitos de crença, desejo e ação.”
(p.32)
[5] O psicanalista e filósofo Charles Hanly procurou estabelecer
uma relação entre as diversas correntes psicanalíticas
e suas respectivas posições no que diz respeito à
noção de verdade. Aquelas que supõem a verdade
como “correspondência entre um objeto e sua descrição”
(as correspondentistas e, conseqüentemente realistas, admitindo
um mundo externo independente de nossas consciências) e as
que supõem que a verdade seja uma noção própria
a um determinado sistema de crenças, portanto, “a teoria
da coerência é compatível com a concepção
de que há mais de uma descrição verdadeira
do mundo” (ver: Hanly, 1995:17-40).
[6] Termo atualmente adotado, em português, para a tradução
do alemão “Trieb” usado por Freud e que recebeu
a tradução inglesa de “instinct” que obscurece
sua dimensão “mental”, o que será objeto
de discussão na investigação de Cavell.
[7] É conhecida a influencia em Freud da concepção
de Brentano, cujas conferências assistiu, em Viena.
[8] “Um dos modos essenciais do funcionamento dos processos
inconscientes: uma representação única representa
por si só várias cadeias associativas, em cuja intersecção
se encontra. Do ponto de vista econômico, é então
investida das energias que, ligadas a estas diferentes cadeias,
se adicionam nela.” (Laplanche e Pontalis, 1970:129)
[9] “Facto de a acentuação, o interesse, a
intensidade de uma representação ser susceptível
de se soltar dela para passar a outras representações
originariamente pouco intensas, ligadas à primeira por uma
cadeia associativa.” (Ibidem, 1970:162)
[10] Ver Marinho, N. (2001)
[11] O ponto de vista aqui defendido vem ao encontro de observações
assinaladas por Lakatos, para as teorias de um modo geral, e exemplificadas
por Klimovsky, no caso específico da psicanálise,
ao mesmo tempo, que é rejeitado por Grünbaum que, esposando
um ponto de vista antagônico, vai questionar a cientificidade
da psicanálise pelo uso de teorias desta natureza. A abordagem
de Cavell nos poupa deste tipo de discussão que embora possa
ser útil e ilustrativo dos problemas epistemológicos
que a psicanálise levanta, tornou-se muitas vezes um estéril
obstáculo para o diálogo da psicanálise com
a filosofia da ciência. Nesta linha vemos a obra de Cavell
como um salutar contraponto à avaliação de
Grünbaum da teoria psicanalítica.
[12] Ver Grünbaum (1983)
[13] Ver o “argumento da loucura” na Primeira Meditação
(Descartes, 1973)
[14] Em dois textos procuramos expor, a título de uma espécie
de exercício teórico-clínico, a utilização
da teoria dos vínculos para a compreensão de casos
limítrofes. Estudamos em particular os vínculos L
(Amor) e –L (-Amor) e H (Ódio) e –H (-Ódio),
ver Marinho, 1997 e Marinho, 2000.
< voltar
|
|