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DIALÉTICA DO PRAZER NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

Luis Querolim

O tema de hoje sugere que cogitemos de forma simultânea três tempos: passado, presente e futuro. Entendemos que para salientarmos a "Dialética do Prazer na Sociedade Contemporânea", é mister que façamos um passeio a tempos imemoriais. Alertamos que muito do que discutiremos não passa de especulações e de reconstruções a partir de fragmentos da história e mesmo da pré-história.

O HOMEM DO NOSSO TEMPO

O homem contemporâneo é alguém assoberbado por mudanças sociais que acontecem de forma veloz. É alguém que vem arrancando os seus pés do solo, aliás, libertando os seus pés do solo, ávido por deslocar-se dos atos úteis para os atos últimos. Atos úteis significa, como o nome sugere, aqueles presos a proficuidade, por exemplo: ao olharmos um pássaro e pensarmos na quantidade de carne que ele pode oferecer, os travesseiros que podem vir a ser feitos com a sua plumagem, nos seus ossos e a possibilidade de fabricação de remédios cálcio, etc.,... Há, entretanto, o que chamamos de ato último que consiste em contemplarmos o vôo da ave, a sinuosidade ditada pelo seu ritmo, a leveza dos seus movimentos, a poesia descrita no enlevo das idas e vindas das suas asas, etc..

Pensamos que o homem, desde que foi "vitimado" pelo real com a (última) glaciação, tornou-se conseqüência desse fato geológico. Por ter se feito vitima do real, tornou-se um ente útil transformando tudo e todos em ferramentas para lidar com o inóspito produzido pela glaciação. Assim entendemos o percurso do homem que vai da utilidade do ato ao ato último que, acreditamos, começa a ser esboçado na contemporaneidade.

O ato derradeiro coincide com o que fora perdido com a invenção da Horda e o Estado.

A cultura nasce com o ato útil marcado em seu âmago pelo ato último. Esse germe, o do ato último, consiste na nostalgia que marca todos nós e corresponde ao momento onde não havia a interdição, o momento em que o homem não era um sujeito barrado. Não estava sujeito á lei, era, por assim dizer, comunitário e não societário. Esse instante refere-se a condição nômade-coletora do homem. E a esse germe, o ato último, chamaremos de: pulsão básica de des/arraigamento. Destarte, na contemporaneidade, mais do que nunca, começa a ser esboçado essa propensão via a cibernética e a informática. O homem começa a se tornar um ente do universo em constante dispersão, e com isso efetua-se o sepultamento do sedentarismo e de forma curiosa, começa a inventar um novo nomadismo.

O homem hodierno é um ente que se liberta progressivamente do "axioma mater", qual seja, da fixação ao lugar, é alguém ansioso que almeja, não um retorno às origens, mas a re/invenção dessa origem. Desta forma, por esforçar-se por reinventar as origens entendemo-o como essencialmente ético.

DO PARAÍSO AO ESTADO

Desde que o homem foi forçado a abandonar o paraíso, entenda-se o período que antecedeu a ultima glaciação, que ele se fez sedentário em potencial. Enquanto sedentário, padece o homem de uma nostalgia notável de novamente ser coletor e com isso viver de forma nômade.

Nessa perspectiva, vamos agora discutir a gênese do homem em termos filogenéticos. Teremos em foco a triste passagem do sujeito coletor a condição sedentária.

Com a glaciação, acerca de 1 milhão de anos no pleistoceno, encontraremos a espécie humana primitiva. Esse período é chamado de paleolítico inferior. É quando o homem já possui a linguagem falada, sepulta os seus mortos, conhece o fogo, fabrica algumas armas e utensílios de pedra. Esse período estende-se de 1 milhão de anos até 25.000 a.C.

Será, possivelmente, nesse ambiente que o homem começará a exibir características de fixação á terra e, segundo entendemos, é quando surgira a horda e o macho despótico que tudo possuirá e comandar .

Na gênese da hominização à sexualidade será atribuído um horror especial. Sabemos, de forma corroborada pela paleobiologia, que a fixação do homem a terra foi uma invenção resultante das agruras da glaciação, onde a fome foi o cruel maestro, forçando-o a inventar o primado da lei a fim de coibir a procriação.

Com a sexualidade genital interditada, o homem desvia a libido da genitalidade para a pré-genitalidade. Inventou-se, assim, o primeiro método contraceptivo, a perversão. De resto, inventou-se o homem, que é essencialmente sujeito da perversão já que somos falantes e a fala é, por si, o desvio do ato. Diria melhor, é o ato possível, visto que o ato em si não realiza.

Da impossibilidade de copular os machos saem em expedição a fim de buscar algo equivalente ao ato sexual e, mergulhados em avidez, encontram a caça onde se fazem penetradores através da lança, e marcados pela interdição primeva, fez-se lei só ser permitido caçar animais machos. Homens e mulheres não podiam mais se enlaçarem amorosamente, em substituição à amorosidade surge o Estado.

O Estado, ou melhor, os primórdios do Estado, acontece a partir da interdição da sexualidade genital e a subseqüente invenção do tabu do incesto, tanto nas sociedades totêmicas quanto nas sociedades onde o totemismo foi substituído pela família. O tabu do incesto, segundo definição sociológica, consiste em um expediente que pretende a relativa estabilidade social. É verdade que ao longo do tempo, para corroborar a pertinência do tabu do incesto, e, ao mesmo tempo livrar esse termo da mácula referente a magia, a medicina genética passou a considerar que relacionamentos endogâmicos resultariam em prole defeituosa, emprestando com isso um horror especial a tal violação, um horror mais atualizado já que nos encontramos na contemporaneidade, em outros tempos estaria em questão a penalidade divina a tal hybris. Se recuarmos mais ainda no tempo encontraremos os participes do clã executando com as próprias mãos a punição ao violador. Ora, devemos com segurança, então admitir, de uma vez por todas que, desde a invenção da Horda chegando até o Estado, que o homem exibe um terror notável no tocante à violação do tabu do incesto. É possível, assim, aceitarmos que houve um momento onde o incesto não era objeto de punição. Esse momento, possivelmente, residiu no ambiente que antecedeu a glaciação e começou a esvair-se com a horda onde o macho despótico não permitia a prole acessar as fêmeas.

O homem vive de mal com o Estado pois a função deste é barrá-lo no que tange ao incesto, no que tange, portanto, à amorosidade .

Pensamos que o controle, a eficácia da lei, em termos da sua aplicação tenha sido outro fator que nos levou a renunciar ao nosso imanente ciganismo. Só com o homem fixo ao lugar, segundo acreditamos, a lei poderia ser aplicada com eficiência. A ojeriza ao forasteiro, supomos, resulta do desejo de ocuparmos o seu sem lugar. O forasteiro realiza o desejo recalcado em todos nós, o desejo de sermos ciganos, o desejo de sermos desejantes, de sermos andarilhos.

DO PARAÍSO À FIXAÇÃO AO LUGAR

Exige-se que saibamos que a fixação ao lugar esta ligada a uma visão de mundo. Sabemos que sob a égide da concepção geocêntrica do universo o posicionamento do homem relaciona-se à promessa de que ele é estável num universo em deslocamento, em modificação. Ele é o centro de tudo. As concepções de Ptolomeu contemplaram o homem com a suposição de que dele tudo emana, tudo se lhe orbita. A terra, sob essa concepção, é uma substância fixa, o homem, senhor magno da terra, é fixo. Vale lembrar que as concepções de Ptolomeu foram precedidas pelas de Nicolau de Samo, filósofo e astrônomo Helenista que preconizava o heliocêntrismo. As concepções de Samo foram sepultadas por uma argumentação muito mais consentânea para a época, as concepções de Ptolomeu.

A noção que Ptolomeu traz é uma dádiva à um mundo em vias de ser cristianizado. Com Nicolau Copêrnico começa o desmoronamento da visão de mundo baseado no geocentrismo. O fato de Copêrnico ter encontrado tanta resistência aos seus achados, isso depõem em favor da noção de mundo pretendida pelo homem. Somos sujeitos que queremos a estabilidade, conseguimos isso através de uma negação insigne do que é essencial ao homem, qual seja: somos entes em constante dispersão com episódios provisórios de estabilidade. Somos sujeitos da imprevisibilidade atômica, somos sujeitos do Clinâmen, somos sujeitos da pulsão.

A inquisição, talvez, tenha marcado o epílogo de uma era. Foi a tentativa desesperada de um sistema religioso em vias de esfacelamento de resguardar o seu império. Fez-se a caça a bruxas numa Europa em crise de axiomas. A inquisição foi, em verdade, uma argumentação em defesa de uma visão de mundo em vias de modificação.

A dialética nesta sociedade acontecia em consonância com os processos sócio-politicos acima expostos. Qual seja: o prazer consistia numa instância a ser alcançada não nessa vida, mas na que se seguia. O homem estava convicto da perenidade, essa certeza o levava a postergar o prazer (realização-fruição) para o além vida. O homem pretendia um mais gozar.

DO PARAÍSO À REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

Com a Revolução Industrial, o homem, passa a produzir um excedente que deve ser consumido, dai a íntima associação entre a Revolução Industrial e as grandes navegações, em particular a invenção do vapor. Com esses fatos a noção de fronteira tende progressivamente a se diluir. Sabemos que esses fatos associados levaram ao mais extenso etnocídio. E o momento onde o homem dilui as diferenças com o extermínio dessas. O sujeito produtor impõem, constrói o sujeito do consumo e subordina-o baseado na ideologia de que "é quem tem em excesso", os demais "não são". Essa perspectiva está baseada na acusação à Idade Média, como idade das trevas, idade dos mistérios tenebrosos, do suposto lamaçal fétido que o homem se encontrava quando do mundo artesanal. A Revolução surge como redentora, como salvadora de um homem perdido, um homem subordinado à escassez, um homem não iluminado pela ciência.

Este momento também co-incide com a Revolução Anatomopatológica, que consiste no assenhoramento da ciência no tocante aos corpos que até então, por serem consideradas instâncias sagradas, eram invioláveis. Com a Revolução Industrial / anatomopatológica os corpos e as almas são iluminados pela luz da ciência e pela noção de utilidade que herdamos dos burgos.

O corpo é um campo de experimentação e consumo. Pensamos que com esses fatos os corpos são irremediavelmente estuprados em nome de uma ideologia expansionista e torpe. Na esteira da Revolução Pato/Industrial chegamos num salto fabuloso à década de sessenta, já em nosso século, quando foi propagada a dita Revolução sexual. A indústria de fármacos inventara algo fantástico, a pílula anticoncepcional. Em nome da mesma fez-se, em nosso entender, a absoluta violação dos corpos quando os homens foram levados a crer, para consumirem bem entendido, que a sexualidade poderia ser vivida inconseqüentemente. Chamaremos esse momento de "pseudo-des/arraigamento". Assim, numa comunhão sórdida, o homem em nome da negação da morte, alia-se a mídia e o capital. Essa aliança o leva a ser um ente útil na dialética acima citada, qual seja: a dialética mídia/capital. O homem servo do capital, supondo-se des/arraigado, arraiga-se mais do que nunca iludindo-se com a noção de propriedade.

DO PARAÍSO AO PARAÍSO

O homem moderno é alguém que começa a destituir-se de ilusões. É alguém, em certa proporção, melancólico perante a falência de modelos existências até então experimentados. A Revolução Industrial não o libertou da miséria, pelo contrário, deixou-o mais sedento. A Revolução anatomopatológica não salvaguardou o seu corpo das intempéries cruéis do devir. Percebeu, entretanto, que a vida é provisória, é curta em demasia, e que a vida post-mortem é no mínimo duvidosa. O homem do nosso tempo é alguém em vias de descobrir a escassez da existência. Sabe, ou está próximo de saber, aliás, aceitar, que o próprio universo é provisório, e que a pretendida estabilidade é um episódio fugaz. Desvela o homem do nosso tempo, que nada é definitivo, e que quando se fizer definitivo, ele, o homem, não mais será. O desvelamento dessas vicissitudes, torna-o angustiado. Torna-o ciente de sua temporalidade, e que ao cabo de tudo aguarda-o a não existência, e, por conseguinte a quietude absoluta.

O homem moderno é alguém que progressivamente dá-se conta que a vida não é útil, mas, pelo contrário absolutamente última. Descobre de forma cruel que, em verdade, nada lhe interessa acerca do que sobrevier após a sua morte, entretanto, aguarda a perenidade dos seus como condição para a sua própria perenidade. Desvela o homem que se Deus existe, esse, não o contemplou senão com uma existência.

Pensamos a partir do que foi anteriormente dito que o homem passa admitir o nomadismo de sua existência. Somos potencialmente coletores. Colhemos tão somente uma existência e nada mais. Queremos crer que desse nomadismo deva nascer um senso ético baseado, não na promessa divina, ou na promissão cientifica/industrial de bem estar, mas num senso ético ancorado na efemeridade própria do viver, nos percalços do subsistir, enfim no desamparo.

O homem do nosso tempo começa a re/inventar o nomadismo que antecedeu o Estado. É alguém que sofre com isso. Padece com a descoberta de que a sua saga é a des/arraigar-se, e que a vida é uma grande aventura, única, saborosa, acre.

DO TORMENTO AO PRAZER

Acreditamos que ao longo do percurso histórico do homem, sempre tenham existido entes úteis e espíritos últimos. Platão refere-se ao último, assim entendemos, em sua alegoria da caverna, quando designa o papel do filósofo. Pensamos que a experiência humana seja última e não útil. Cogitamos que a trajetória humana está em conquistar este último do ato.

A sexualidade, por conseguinte, não é útil e se faz bizarra quando assim a tornamos. Diremos mais, a vida não é útil em si, e, se assim tentamos torná-la, tornamo-a enfadonha, entediante. Destarte o homem, aliás, ao homem restam dois lugares, ou o tédio ou a agonia.

Em nossa sessão de trabalho de hoje procuramos demonstrar algumas mudanças históricas com repercussão em tudo no que tange ao homem. A sexualidade, a dialética do prazer, entendemos, seja conseqüência sempre de uma visão especifica de mundo. Nesse sentido, entendemos, ou queremos crer de que o último seja possível. Pensamos o homem como um elogio ao nada. Esse nada é tudo que nos resta. É o valioso resto que nos constitui.

Psicanalista;
Diretor de Ensino e Pesquisa da SPAG.RJ;
Vice-presidente da ABPAG;
Coordenador Geral do Curso de Pós-graduação em Teoria e Terapia de Família e Casais UGF;
Livre Docente em Psicologia Clínica;
Mestre em Psicologia Social;
Especialista em História da Filosofia;
<querolim@ugf.br>

Rio de Janeiro, abril de 1992

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