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Pierre Fedida, grande figura da Psicanálise e da Universidade
Texto de Elisabeth Roudinesco, para “Le Monde”(06/11/2002)
Tradução de Sylvia Loeb
O psicanalista Pierre Fédida morreu em Paris, no dia 1º
de Novembro, vítima de um acidente vascular cerebral. Exerceu
no seio da universidade francesa ensino fecundo de psicanálise
durante quarenta anos.
Nascido em 30 de Outubro de 1934, veio de meio modesto. O pai,
judeu sefardita de origem algeriana, exercia ofício de carpinteiro
e a mãe, católica de Lyon, era bordadeira de vestimentas
sacerdotais.
É em Lyon, sua cidade natal, que faz parte de seus estudos
universitários.Gradua-se em filosofia antes de doutorar-se
em letras e ciências humanas, orientado por uma tradição
da psicopatologia que tinha em Ludwig Binswanger um mestre.
Junto com Binswanger, Henri Maldiney, e as primeiras obras de Foucault,
Fédida recebe sólida formação clínica
e teórica entre 1958 e 1966, formação essa
que o acompanha tanto em sua carreira de ensino quanto na psicanálise.
Após analisar-se com George Fuvez, filia-se a Association
Psychanalitique de France (APF).
Lado a lado com Daniel Lagache, Didier Anzieu, Jean Laplanche,
Fédida considera que a disciplina freudiana não deve
ser transmitida exclusivamente nas associações psicanalíticas
particulares.
Para se laicizar, é necessário que ela se confronte
com outros domínios do saber. Desse modo abre um verdadeiro
diálogo com os lacanianos por um lado, e por outro, com a
universidade, permitindo que ela se torne um lugar de confronto
entre as diversas correntes freudianas e entre essas correntes e
outras disciplinas.
A ofensiva dos científicos
Desde o início Fédida multiplica as atividades e
com zelo, sedução, inteligência e cortesia chega
a desenvolver um espaço de discussão que fará
dele o defensor de um humanismo freudiano tão cuidadoso do
respeito das diferenças quanto de um ideal de racionalidade
e de universalidade.
Criador do Laboratório de Psicopatologia da Universidade
Paris VII em 1979, tendo a seu cargo a formação de
futuros psicólogos clínicos e principalmente de pesquisadores
e professores, enfrenta adversários temíveis vindos
da neurociência, do cognitivismo, da psicologia experimental
e comportamental, correntes essas que se imbuíram da missão
de fazer bascular a psicologia, evacuando toda referência
ao psíquico.
Para responder a essa ofensiva – que hoje é denunciada
pelos próprios científicos – Fédida cria
em 1993 o Centro de Estudos do Vivente através do qual organiza
vastos debates sobre temas comuns à biologia, medicina, psiquiatria,
filosofia e psicanálise. Édouard Zarifian, conhecido
por seu trabalho em psicofarmacologia, fornece sustentação
ativa na crítica dos excessos do organicismo nos tratamentos
psíquicos.
Numerosas obras coletivas nascem desses encontros, entre as quais
L´Embryon humain est-il humain? (PUF, 1996), La Fin de la
vie, qui em décide? (PUF, 1997), Demain les psychotropes?
(PUF, 1988).
Paralelamente Fédida estabelece laços com importantes
universidades latino-americanas, assegurando a cada dois anos, no
Brasil, um seminário mensal.
Uma obra abundante
Preocupado em unir em um projeto comum de pesquisa e de formação
todas as tendências da psicanálise francesa, funda
em 1999 com seu amigo Roland Gori, professor da Universidade de
Aix-Marseille o seminário interuniversitário de pesquisa
em psicopatologia e psicanálise, reagrupando uma centena
de professores até então dispersos ou divididos por
suas querelas de escolas. Finalmente, não negligenciando
a importância das belas letras, decide participar no ano de
2000, da criação do Instituto do Pensamento Contemporâneo,
ao lado de Julia Kristeva e François Julien.
Clínico respeitado, Fédida é autor de obra
abundante onde se mesclam estudos sobre arte, literatura, corpo,
exílio ou despossessão de si mesmo. Em Crise et contre-transfert
(PUF, 1992), estudou a gênese desse conceito na perspectiva
de uma abertura da psicanálise a novos campos de investigação.
Três anos mais tarde, em Le Site de l´etranger (PUF,
1995), Fédida continua essa reflexão mostrando que
a posição do analista implica em ausência, e
que pela sua própria condição de estrangeiro,
o analista favorece o avanço da cura.
Finalmente em sua última obra Les Bienfaits de la dépression
(Odile Jacob, 2001), dedica-se à elucidação
desse sintoma para daí deduzir que a depressão impede
o sujeito de entrar na melancolia. E que sem dúvida, esse
sujeito procura um benefício que os adeptos do tratamento
químico estariam equivocados se tentassem eliminar o benefício
que ele traz.
Sua última conferência, soberba, proferida em Outubro
tinha por título As figuras da Pietá. O corpo da virgem
e o corpo de Cristo.
Tradução livre de um texto que saiu no Le Monde,
no dia 6 de Novembro de 2002, de autoria de Elisabeth Roudinesco.
Silvia Loeb é psicanalista.
Pierre Fédida
Notícia de Falecimento
Com profunda tristeza, anunciamos o falecimento de Pierre Fédida,
no dia primeiro de Novembro. Nosso querido e inesquecível
companheiro de trabalho, nos deixou vitimado por um acidente vascular
cerebral, aos 68 anos feitos no dia 30 de Outubro. Foi membro do
comitê de preparação da primeira reunião
dos Estados Gerais da Psicanálise, realizada em Paris, no
ano de 2000 e já havia nos informado, há poucos dias
atrás, a sua decisão de vir ao Rio de Janeiro, para
a Segunda Reunião Mundial, em 2003. Membro da Association
Psychanalytique de France e com vida universitária intensa,
gerou uma importante contribuição à Psicanálise.
O seu trabalho é, internacionalmente, considerado relevante.
Tendo sido um grande amigo do Brasil e dos brasileiros, durante
quase quarenta anos, sistematicamente, nos dedicou seu tempo. Nos
transmitiu a principal característica de seu trabalho: rigor
e liberdade.
Maria Cristina Rios Magalhães
PIERRE FEDIDA (1932-2002)
Faleceu em Paris, França, no dia 01 de novembro de 2002,
aos 68 anos completados no dia 30 de outubro, o Professor Doutor
Pierre Fédida. Filósofo, psicólogo, psicanalista,
Agrégee em Filosofia e Docteur d'Etat, membro da Association
Psychanalytique de France (APF), tendo sido seu presidente (1988)
foi, também, professor da Université Paris 7 - Denis
Diderot onde dirigiu a Formation Doctorale de Psychopathologie Fondamentale-Psychanalyse-Biologie,
fundou o Laboratoire de Psychopathologie Fondamentale et Psychanalyse
e o Centre du Vivant, membro fundador da Associação
Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental,
editor responsável da Revue Internationale de Psychopathologie
(Paris, Presses Universitaires de France), membro do Conselho Científico
da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, autor
de numerosos artigos e diversos livros em colaboração
com outros autores. Escreveu Le concept et la violence (Paris, Union
Générale d'Éditions, 1977), Corps du vide et
espace de séance (Paris, Jean-Pierre Delarge, 1977), L'Absence
(Paris, Gallimard, 1978), Crise et contre-transfert (Paris, Presses
Universitaires de France, 1992), Le site de l'etranger. La situation
psychanalytique (Paris, Presses Universitaires de France, 1995)
e Des bienfaits de la dépression. Éloge de la psychothérapie
(Paris, Editions Odile Jacob, 2001). Estes livros tem sido traduzidos
em diversas línguas e, em português, estão publicados
Clínica psicanalítica: estudos (São Paulo,
Escuta, 1988), Nome, figura e memória. A linguagem na situação
psicanalítica (São Paulo, Escuta, 1988), O sítio
do estrangeiro. A situação psicanalítica (São
Paulo, Escuta, 1996), Depressão (São Paulo, Escuta,1999),
e Dos benefícios da depressão. Elogio da psicoterapia
(São Paulo, Escuta, 2002).
Nascido em Lyon, de pai algerino e judeu sefaradin, o rigoroso
pensamento de Pierre Fédida encontra suas raízes mais
profundas e marcantes na atividade clínica e em suas manifestações
psicopatológicas. Por ser, antes de tudo, um pensador do
vivido na clínica, encontrou em Freud os fundamentos mais
sólidos de sua posição. Não tendo sido
um lacaniano, manteve boas relações com Jacques Lacan
e com sua obra. Finalmente, não descuidou do estudo e da
compreensão da técnica e da metapsicologia de Sándor
Ferenczi - que freqüentemente estava presente em seu pensamento
-, Melanie Klein, Bion e Winnicott, que também visitavam
seu pensamento sobre a atividade clínica.
As principais influências filosóficas sofridas por
Fédida passam, por um lado, por Sócrates, Platão
e, menos, por Aristóteles assim como por Husserl, Heidegger
e Merleau-Ponty. Vivamente interessado na estética, Pierre
Fédida era profundo conhecedor da obra de Paul Klee, a quem
dedicou uma pesquisa sistemática, e seu pensamento era marcado
pelo de Henri Maldiney, a quem se referia como seu mestre, e pelo
de Georges Didi-Huberman, de quem se dizia amigo. Assim, em 1987,
ofereceu um brilhante curso na Sociedade Brasileira de Psicanálise
de São Paulo - SBPSP sobre o A caminho em direção
à palavra, de Heidegger.
A filosofia e a estética sempre estiveram, em Fédida,
a serviço do pensamento sobre o pathos psíquico e
freqüentemente se articulavam à psiquiatria fenomenológica,
outra sólida fonte de sua posição. Ludwig Binswanger,
com quem estudou e praticou em Zurique, na Suíça,
certamente foi a principal influência psiquiátrica
sofrida por Fédida, com quem consolidou uma forte disposição
para a escuta clínica e para a liberdade de pensamento, tanto
própria como da do outro. Essa disposição,
talvez a manifestação mais marcante da maneira de
Fédida estar no mundo, encontrou fundamento e apoio, também,
nos demais psiquiatras alemães - Karl Jaspers, von Gebsattel,
Tellenbach - e, na França, em Eugène Minkowski, Henri
Ey, Roland Kuhn e Arthur Tatossian e no Japão, com Kimura
Bin. A influência do pensamento psiquiátrico fenomenólogo
em Fédida revela-se na coletânea denominada Phénoménologie,
psychiatrie et psychanalyse (Paris, Echos-Centurion) que organizou
e fez publicar em 1986.
Uma das questões clínicas que mais interessavam Fédida
era a contratransferência e, sobre esse tema, a respeito do
qual escreveu vários trabalhos, ele citava Harold Searles
como um interlocutor privilegiado.
Em torno de 1964, quando foi à Brasília e tornou-se
amigo do Dr. Luiz Meyer, Pierre Fédida passou a se interessar
pelo Brasil e pelo pensamento clínico dos brasileiros e voltou,
numerosas vezes, ao nosso país, primeiro por convite do psicanalista
Durval Cecchinato, no âmbito do Departamento de Psicologia
Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas
da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP e, a partir de 1987,
por um grupo de psicanalistas coordenados pelo Dr. Luiz Carlos Menezes,
de quem era amigo próximo. A partir dessa vinda, Fédida
passou a trabalhar na Sociedade Brasileira de Psicanálise
de São Paulo - SBPSP, onde Menezes era o anfitrião,
formando-se, também, uma forte ligação entre
ele, Manoel Tosta Berlinck e Maria Cristina Rios Magalhães
que o hospedaram diversas vezes e com quem ele e outros ilustres
psicanalistas trabalharam na Livraria Pulsional - Centro de Psicanálise.
Esse intenso e, muitas vezes, prolongado trabalho tinha a forma
de seminários clínicos onde fragmentos de casos eram
apresentados e pensados por grupos de psicanalistas que se constituíam
especialmente para essas ocasiões. Foi aí que o estilo
de Fédida se revelou de maneira a mais florescente e foi
aí, também, que os que deste trabalho tomaram parte
puderam testemunhar a maneira original e produtiva de um homem que
respeitava as palavras do outro e fazia delas um recurso rigoroso
para sua própria atividade de pensamento. Ia, também,
à Campinas trabalhar com o grupo reunido em torno do Prof.
Dr. Mário Eduardo Costa Pereira, na UNICAMP.
Fédida esteve no Brasil, pela última vez, em 1998,
a convite do Laboratório de Psicopatologia Fundamental do
Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica
da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo - PUC-SP e com apoio da Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP. Realizou, então,
um brilhante seminário sobre depressão que resultou
em artigo em co-autoria com Manoel Tosta Berlinck publicado em Psicopatologia
fundamental (São Paulo, Escuta, 2000) e em seu último
livro Dos benefícios da depressão. Elogio da psicoterapia.
Nessa oportunidade trabalhou, também, em seminários
clínicos na Sociedade Brasileira de Psicanálise de
São Paulo, na Livraria Pulsional e na UNICAMP.
Pretendia voltar ao Brasil em 2003 para participar do II Congresso
Mundial dos Estados Gerais da Psicanálise, que será
realizado no Rio de Janeiro.
A influência de Pierre Fédida na psicanálise
praticada no Brasil não termina assim. Diversos ilustres
psicanalistas brasileiros, dentre os quais se destacam o Prof. Dr.
Mário Eduardo Costa Pereira, o Prof. Dr. José Luiz
Caon, o Prof. Dr. Edson Luis André de Sousa, o Dr. Fabio
Landa, a Profa. Dra. Maria Helena Fernandes, a Dra. Ivanise Fontes,
o Prof. Dr. Nelson da Silva Jr., a Dra. Cristina Lindenmeyer Saint-Martin
e a Dra. Adriana Campos de Cerqueira Leite realizaram seus doutorados
sob sua orientação, na Université Paris 7 -
Denis Diderot.
Revela-se, assim, uma concepção peculiar de formação
do psicanalista, onde a Universidade ocupa um papel central. Fédida
tinha um elaborado pensamento a esse respeito e, por isso, foi trabalhar,
desde 1979, na Université Paris 7 - Denis Diderot.
Em homenagem a esse pensamento e visando estimular a emergência
de jovens autores de textos de psicopatologia fundamental, a Associação
Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental criou
o Prêmio Pierre Fédida de Ensaios Inéditos de
Psicopatologia Fundamental que terá sua quarta edição
em 2004.
Pierre Fédida era um espírito inquieto, verdadeiramente
universitário e sempre atento com a política. A sua
preocupação com o sofrimento humano provocado pelas
diversas formas de totalitarismo e pela miséria na África,
na Índia e na América Latina freqüentemente estava
presente em suas conversas. Acreditava que, no discurso miscigenado
e exótico dos psicanalistas brasileiros, encontra-se o futuro
da psicanálise. Mas, acima de tudo, dava testemunho de uma
grande liberdade de rigoroso pensamento voltada para o pathos psíquico,
a respeito do qual dizia não haver um único discurso
que pudesse esgotar esse assunto.
S.Paulo, 09 de novembro de 2002.
Manoel Tosta Berlinck
(Transcrições do site dos Estados Gerais da Psicanálise)
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