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Aspectos do Encaminhamento da Questão da Cientificidade da Psicanálise no Movimento Psicanalítico


Octavio Souza

Desde a reavaliação crítica de Lacan do sentido e das conseqüências da insistência de Freud em incluir a psicanálise no conjunto das ciências da natureza, a questão da cientificidade da psicanálise, em nosso meio, vem sendo substituída pela da linha de demarcação entre ciência e psicanálise. Quase que como conseqüência disto, ciência e psicanálise passaram a ser consideradas como fazeres detentores de éticas conflituosas, o que compele os psicanalistas a adotarem uma rota que os leva, alternadamente, ao exercício da crítica dos efeitos dessubjetivantes da hegemonia do discurso científico na sociedade contemporânea, por um lado, e à busca de definições rigorosas da especificidade da psicanálise, por outro. No presente trabalho procurarei evitar esta rota da “ética da psicanálise”. Embora acredite que a questão da cientificidade da psicanálise comporte aspectos éticos relevantes, não creio que as coisas se resolvam com a simples contraposição entre Ciência e Psicanálise, concebidas, cada uma das duas, como modalidades homogêneas do fazer humano. No que diz respeito à ciência, no pensamento epistemológico mais recente, não existe mais unanimidade quanto ao interesse no estabelecimento de critérios gerais de cientificidade. O fazer científico não é mais abordado pelo prisma de sua unidade. No que diz respeito à psicanálise, eu, particularmente, não acredito que a tarefa mais premente no momento atual seja a de responder à questão “O que é a psicanálise?” Prefiro pensar a psicanálise na pluralidade das orientações que compõem seu campo e buscar matéria de reflexão em alguns dos problemas que estiveram na origem da sua diversificação. E, sem dúvida alguma, dentre estes problemas, o da cientificidade da psicanálise foi um dos que mais animou as discussões dos psicanalistas ao longo da história. Minha proposta é a de retomar alguns pontos do percurso da questão da cientificidade da psicanálise na história do movimento psicanalítico, procurando destacar alguns aspectos clínicos nela envolvidos. A questão da relação entre ciência e psicanálise teria um interesse apenas acadêmico se não desembocasse de maneira direta em modos de conceber a prática clínica em seus aspectos mais concretos e cotidianos.

Metapsicologia e Significação

No livro As Controvérsias Anna Freud – Melanie Klein, que reúne as discussões que ocorreram na Sociedade Britânica de Psicanálise entre 1941 e 1945 dedicadas à avaliação das inovações clínicas e metapsicológicas contidas na obra de M. Klein, as discussões entre Marjorie Brierley e os psicanalistas kleinianos, Susan Isaacs principalmente, sobre o lugar da subjetividade nos enunciados metapsicológicos, são de especial interesse para averiguar o modo pelo qual o tópico da cientificidade da psicanálise incide diretamente sobre a clínica psicanalítica. Tomemos os argumentos em detalhe. A discussão tem por ponto de partida o texto de Isaacs, “A Natureza e a função da fantasia”, no qual a autora, inaugurando o debate em torno das inovações propostas por M. Klein, propõe a ampliação do conceito de fantasia. Ao contrário da orientação anna-freudiana que preferia reservar o termo de fantasia para os devaneios conscientes que surgem paralelamente à aquisição da fala, e o termo de fantasia inconsciente para as fantasias que sofreram o processo de recalcamento, para Isaacs a fantasia é de início inconsciente e surge nos primeiros dias de vida do bebê, concomitantemente às primeiras experiências de satisfação pulsional. Além disso, considera a fantasia como estando presente em todos os processos psíquicos, com eles chegando a se confundir. Afirma, portanto, que não é apenas, como em geral se considerava, o desejo sexual que a fantasia informa, mas também os processos de introjeção e projeção, os mecanismos de defesa em geral, os desapontamentos narcísicos, a alucinação primitiva, e assim por diante. Para Isaacs, “as fantasias inconscientes são o conteúdo primário de todos os processos mentais” e “constituem a base de todos os processos de pensamento conscientes e inconscientes”[1]. Para ela é apenas o reconhecimento deste fato que permite evidenciar o caráter psíquico dos processos que a psicanálise estuda, pois, e esta é a idéia mais importante em torno da qual gira todo o seu texto, o que distingue os processos psíquicos dos processos físicos é o fato de possuírem significação.

Diz-se dos processos físicos que eles existem, mas não que eles significam. Um termo tão neutro quanto o de “processo”, útil de muitas maneiras, ou quanto o de “energia”, necessário para certas proposições, não exprimem esta qualidade essencial e distintiva da significação. É esta a razão pela qual devemos constantemente dizer “processo mental”, “energia mental”. A palavra “fantasia” serve para nos lembrar de modo permanente esse caráter distintivo da significação na vida mental.[2]

Para os kleinianos, portanto, afirmar que a fantasia é o conteúdo primário de todos os processos psíquicos equivale a afirmar a primazia da significação no psiquismo. É importante frisar o alcance da idéia avançada. Não se trata somente de afirmar que os mecanismos psíquicos são sempre desencadeados por significações, ou seja, por experiências psíquicas, mas de afirmar, além disto, que os mecanismos psíquicos são eles mesmos, neles mesmos, experiências psíquicas, expressões significativas, e não apenas reações diante de significações. É este mesmo tipo de preocupação em enfatizar a natureza simbólica dos mecanismos psíquicos que virá, por exemplo, a orientar a interpretação lacaniana dos processos psíquicos primários em termos de metáfora e de metonímia.

No artigo de que nos ocupamos, para esclarecer as idéias que defende, Isaacs passa a se referir a um artigo prévio de Brierley no qual as idéias de M. Klein eram criticadas. Neste artigo, Brierley afirmava que “uma das maiores dificuldades de compreender as idéias de M. Klein diz respeito ao fato de que elas tendem a ser expressas em termos perceptivos mais do que em termos conceituais”[3]. Brierley não era a única psicanalista a criticar o vocabulário expressivo de M. Klein, muito pelo contrário, mas de toda a longa série de psicanalistas que se manifestam a esse respeito no decorrer das Controvérsias, é ela quem melhor percebe o ponto a partir do qual as escolhas da escola kleiniana realmente passam a trazer sérios problemas para o estatuto epistemológico da metapsicologia freudiana conforme era concebido por aqueles que, como ela, eram conseqüentes com a exigência de Freud de inserir a psicanálise no conjunto das ciências da natureza. É claro que afirmar explicitamente o lugar da significação como cerne irredutível de todo o psiquismo e desdobrar as conseqüências disto não pode deixar de trazer problemas para o projeto freudiano da psicanálise como ciência da natureza, pois, como se sabe, tradicionalmente a significação é a dimensão na qual se movem as ciências do espírito, e não as ciências da natureza. Não se está querendo dizer com isso que Isaacs esteja perto de conceber a psicanálise como ciência do espírito. A própria tradição epistemológica em que se insere a robustez das teses metapsicológicas da escola kleiniana a afastam desta trilha, mas a verdade é que toca em temas e propõe soluções que dificultam a manutenção do projeto de inclusão da psicanálise no conjunto das ciências da natureza. Como já foi dito, Brierley percebe com agudeza a amplitude da questão. Antes de retornarmos ao desdobramento do ponto de vista de Isaacs vamos, portanto, nos deter mais detalhadamente na exposição dos argumentos de Brierley tal como podemos encontrá-los não só nas citações oferecidas por Isaacs, mas ao longo de todas as suas intervenções nas Controvérsias.

As Descrições Subjetivas e as Descrições Objetivas

O ponto sobre o qual Brierley sempre vai insistir é o da natureza das descrições que podem ser feitas dos fatos psíquicos. Para ela existem dois modos de descrever um fato psíquico: as descrições subjetivas dos fatos psíquicos e as descrições objetivas destes mesmos fatos. As descrições subjetivas se apresentam como a maneira mais intuitiva de lidar com o fato de não se poder observar diretamente os processos psíquicos. Com elas, descreve-se os processos psíquicos através de analogias com os processos físicos acessíveis à percepção. Na opinião de Brierley, as descrições oferecidas pelos kleinianos, por seus próprios pressupostos, sempre se enquadram na categoria das descrições subjetivas. Isto se aplica tanto às descrições dos objetos internos, sempre feita com um vocabulário muito mais adequado à descrição de objetos concretos do que de objetos constituídos por representações mentais, quanto às descrições dos mecanismos de introjeção e projeção, tais como a formulada por Paula Heimann no artigo “Alguns aspectos do papel da introjeção e da projeção no desenvolvimento precoce”, incluído no mesmo volume das Controvérsias. Ali, Heimann afirma serem a introjeção e a projeção “mecanismos mentais que se modelam sobre as experiências corporais de tomar no interior e de expulsar, e que lhes correspondem”.[4] Esta formulação traz consigo, muito mais do que uma simples questão de vocabulário e de emprego de metáforas, uma verdadeira concepção da gênese do psíquico a partir do biológico. Os comentários de Brierley contidos nas Controvérsias não deixam muito claro se ela se opõe à gênese do psíquico a partir do biológico, ou se apenas requer para o psíquico, uma vez constituído em sua especificidade, um tipo de descrição que lhe seja particular. De qualquer modo, os comentários que fornece à descrição de Heimann são bastante demonstrativos de seu modo de pensar.

Penso que evitaríamos uma discussão inútil se reconhecêssemos que se trata de uma descrição subjetiva, quer dizer, de uma definição formulada não somente a partir dos dados da experiência, mas do ponto de vista da experiência. A modelização de um mecanismo mental a partir de uma experiência corporal, à qual ele corresponderia, é uma ação imaginária, [...] Esta definição corresponde à concepção subjetiva do psiquismo enquanto totalidade incessantemente crescente de experiências pessoais segundo o vivido do indivíduo. A estrutura psíquica, desse ponto de vista, é o sistema complexo de modelos reacionais resultantes da experiência.[5] (grifos meus)

Tais descrições, reconhece a autora, são legítimas e, além disso, muito úteis para o contato terapêutico requerido pela clínica psicanalítica:

Na vida cotidiana, a significação pessoal específica de cada situação governará nossas reações tanto mentais quanto motoras. Subjetivamente a vida é uma sucessão de reações face às significações das situações, e a terapia diz respeito, sobretudo, à reconstituição dos modelos de reação do paciente nos termos de sua própria experiência, consciente e inconsciente. Sendo assim, as definições subjetivas têm um lugar próprio e necessário em clínica.[6] (grifos meus)

Como se pode verificar, Brierley está perfeitamente ciente do valor da dimensão da significação para a experiência subjetiva, experiência esta que ela não confunde com a experiência consciente, uma vez que reconhece a existência de experiências inconscientes e, portanto, de significações inconscientes. No entanto, isto tudo não é suficiente, aos seus olhos, para atribuir à experiência subjetiva, ou às significações inconscientes, um papel mais determinante na vida psíquica, causal no sentido forte do termo. Como a seqüência de seu raciocínio deixará claro, a experiência subjetiva é concebida como obediente à variação de um “modelo de reação” regido, ele mesmo, por mecanismos psíquicos, estes sim detentores do lugar da causa psíquica. É verdade que na maior parte das vezes Brierley parece se limitar a apontar para a importância da descrição objetiva da vida psíquica – distinta da descrição imaginária do ponto de vista subjetivo – para a constituição da psicanálise enquanto ciência natural. Contudo, parece que o que tem em mente não se restringe à diferenciação de dois modos de descrever um mesmo objeto, mas implica na diferenciação de dois objetos fundamentalmente distintos que têm entre si uma relação de causa e efeito : os mecanismos psíquicos e as experiências psíquicas. Sua questão parece não ser apenas epistemológica, mas também ontológica. Senão vejamos:

Mas se Freud tivesse se limitado à abordagem subjetiva, ele jamais teria chegado à concepção do Inconsciente como sistema psíquico e ele jamais teria escrito “O Ego e o id”.

Os mecanismos mentais podem também ser objetivamente descritos enquanto processos mentais específicos provocando modificações particulares na organização mental. Essas definições se formulam também a partir dos dados da experiência e a partir do ponto de vista do observador que procura conhecimentos sobre os fatores mentais que condicionam a natureza da própria experiência e do desenvolvimento dos modelos de reação. [...]. Essas definições impessoais dos mecanismos são acompanhadas pelas correspondentes concepções objetivas do psiquismo, como as do tipo daquelas propostas por Freud em sua definição do psiquismo como aparelho de regulação da tensão pulsional.[7] (grifos meus)

Fica claro nesta passagem que o papel efetivamente causal é atribuído aos processos psíquicos que só podem ser apropriadamente descritos de modo objetivo, sem nenhuma referência à experiência psíquica. Em sua função causal tais processos provocam, como é afirmado, “modificações particulares na organização mental”. Através destas modificações, “condicionam a natureza da própria experiência” – a significação mesma das experiências, vale lembrar – e o “desenvolvimento dos modelos de reação”. Deste modo, todo o circuito experiencial das significações das reações psíquicas às significações das experiências psíquicas, não apenas conscientes, mas também inconscientes, é concebido como sendo causado por processos ou mecanismos psíquicos eles mesmos desprovidos de significações e que, por isso mesmo, são melhor descritos numa linguagem objetiva e impessoal. Desprovida de significação, a causalidade psíquica é, ela mesma, concebida como não-experiencial. Ou então, como veremos com mais detalhe no que se segue, com uma qualidade experiencial tão monótona que dificilmente pode ser considerada como psíquica.

Ora, como vimos, a proposta de Isaacs de considerar a fantasia como o conteúdo primário de todos os processos psíquicos é fundamentalmente contrária às concepções de Brierley. Para ela, os mecanismos psíquicos, para serem considerados psíquicos, devem possuir uma significação e, portanto, devem ser considerados, neles mesmos, como tipos de experiências subjetivas. Tal concepção tem muitas implicações, mas antes de desenvolvermos a que nos parece ser a principal delas, vamos concluir a exposição da discussão entre as duas psicanalistas que nos ocupam para melhor compreender as conseqüências da proposta de Isaacs para a questão da causa psíquica que ainda não terminamos de tratar.

Brierley, no já referido artigo citado por Isaacs, critica não só a descrição, mas a própria concepção de objeto interno proposta por M. Klein, nos seguintes termos:

É imperativo, na ótica científica, distinguir o modo perceptivo do modo conceitual de pensamento. A natureza não sensível dos processos mentais e psíquicos torna obrigatória sua discussão em termos abstratos. [...]. ... é possível pensar numa mãe como realmente desmembrada, mas é impossível conceber um objeto mental como estando literalmente em pedaços – é impossível bater num objeto mental com um martelo... Se nós concebemos o objeto como mental, como uma organização no interior do eu, essa enorme dificuldade é evitada. É possível pensar em um sistema de objetos mentais não em termos de totalidades, partes ou pedaços, mas em termos de integração ou de desintegração.[8]

Respondendo de modo direto à provocação de que “é impossível bater num objeto mental com um martelo”, Isaacs objeta:

a) A criança sente (e mais tarde imagina) que ela realmente bate em sua mãe (sentida ou imaginada) com um martelo (sentido ou imaginado). Mme Klein não afirma que o objeto é total ou está em pedaços como o veria um observador. Ela diz que ele está assim para a criança. Ela fala da experiência da criança no nível dos seus desejos ou ações fantasiadas e de suas intenções ou resultados fantasiados. E:

b) (É o mais importante) – quando a criança sente que ela desmembrou sua mãe, sua vida mental fica clivada e desintegrada – ela manifesta a mais aguda angústia, ela fica confusa e se comporta de maneira caótica, ela não pode nem ver, nem escutar, nem controlar o que faz e diz, e assim por diante. Não se trata de modo algum que de início sua vida mental se desintegre e que a seguir ele interprete isso como um desmembramento de sua mãe. É porque ela quer desmembrar sua mãe, porque ela tem a intenção de fazê-lo, tenta fazer e o faz em sua imaginação, é que sente seu próprio eu como clivado e desintegrado. Ela manifesta por seu comportamento essa “desintegração mental” que nós podemos descrever, nomear e discutir.[9]

Com estes comentários, Isaacs torna manifesto o alcance de sua proposta de ampliação do significado do conceito de fantasia. Considerar a fantasia o conteúdo de todos os processos psíquicos, implica em afirmar, em primeiro lugar, como já vimos, a fantasia e/ou a significação como o elemento mínimo do psiquismo. Em segundo lugar, conseqüentemente, implica também em dizer que no psiquismo não existe causa que não seja psíquica, e que portanto é a fantasia que desencadeia os mecanismos psíquicos, os quais são, eles mesmos, fantasias. De tudo isto decorre a valorização da idéia de experiência psíquica em detrimento da noção de mecanismo psíquico, valorização esta que tem vastas conseqüências para a psicanálise contemporânea, o comentário das quais ultrapassa os limites deste trabalho[10]. Para nos atermos às repercussões mais imediatas, é importante ressaltar que para o pensamento metapsicológico tradicional os efeitos do posicionamento de Isaacs e dos kleinianos são estonteantes, pois ele implica em uma inversão da relação entre tipos de enunciado e vetores de causalidade usualmente encontrados nas ciências naturais e, conseqüentemente, na metapsicologia. Nas ciências naturais, as descrições se afastam do plano fenomênico em direção às instâncias causais adotando formas “impessoais e abstratas”, para empregar os termos de Brierley. Em psicanálise, segundo Isaacs e os kleinianos, a relação se inverte, pois o distanciamento do plano fenomênico em direção às instâncias causais se dá pelo emprego de descrições “passionais e concretas”, pois passional e concreto é o plano causal das fantasias. De um certo modo, poder-se-ia até mesmo dizer que em psicanálise, “impessoal e abstrato” é, em muitos aspectos, o próprio campo fenomênico de que ela parte, como é o caso, por exemplo, da relação que o sujeito tem com seu sintoma. Nada mais impessoal e abstrato.

Se é verdade que toda esta reviravolta não conduz obrigatoriamente ao abandono do projeto científico encarnado pela metapsicologia, conduz pelo menos, como o final da citação de Isaacs deixa entrever, a uma aproximação entre os construtos metapsicológicos e as descrições clínicas, que é aliás o que se observa fartamente nos escritos de M. Klein e de seus seguidores. Não é à toa que Brierley se preocupa e abre o berreiro, apesar de ser necessário acrescentar para lhe fazer justiça que, ao contrário do grupo anna-freudiano, sua crítica não lhe impede de admitir a importância clínica das teorizações kleinianas, e mesmo de admirá-las em muitos aspectos. Seu posicionamento teórico é próximo do de Edward Glover, o que lhe confere uma proximidade pelo menos histórica de certas temáticas kleinianas[11].

As Características Mínimas do Psíquico

Ao longo da leitura das Controvérsias, a pergunta que fica por ser feita a Brierley, que não toca diretamente no assunto em nenhum momento, diz respeito à sua concepção de psíquico. Quais são as características que a levam a considerar como psíquico um mecanismo ou um processo concebido apenas em termos objetivos, despido de qualquer significação e esvaziado de qualquer experiência subjetiva. Apesar de estar justificada pela própria tradição metapsicológica, que está cheia de descrições objetivas de processos considerados como psíquicos, a ausência de resposta a essa questão deixa a posição de Brierley sob suspeita de epifenomenalismo. Brierley entende que esta acusação está implicada na crítica de suas posições feita por Isaacs – o que efetivamente é o caso – e a recusa vigorosamente[12]. Insiste em que o mesmo objeto pode ter dois tipos distintos de descrição, e que o fato de que um mecanismo possa ser descrito de modo subjetivo não libera o psicanalista da tarefa de descrevê-lo de modo objetivo. Porém, como já foi dito, a impressão que fica é a de que o que está em jogo não é apenas uma ordem de realidade descrita de dois modos distintos, mas de duas ordens distintas de realidade. A discussão deste problema da independência entre os planos epistemológico e ontológico nos distanciaria muito do nosso assunto, mas do mesmo modo que poderíamos perguntar sobre o quê de químico é designado por uma descrição poética de uma reação química em um tubo de ensaio, se aceitamos a tese de Isaacs sobre as características mínimas do psíquico também podemos perguntar a Brierley sobre o quê de psíquico é designado por uma descrição objetiva de um mecanismo ou de um processo desprovido de qualquer significação e de qualquer traço de experiência subjetiva. O quê de psíquico é designado, por exemplo, pela “definição do psiquismo como aparelho de regulação da tensão pulsional”?

Antes de abordar a pergunta, um pequeno contorno. Com a exceção da psicologia do ego, que permaneceu fiel ao ideário cientificista da ortodoxia anna-freudiana, praticamente todos os remanejamentos clínicos e metapsicológicos propostos pelo conjunto das orientações psicanalíticas que se sucederam a Freud originaram-se de um certo repúdio da concepção de psiquismo implicada pelas descrições “impessoais e abstratas” requeridas por Brierley. Mais especificamente, toda a psicanálise pós-freudiana em sua diversidade – aí incluída a orientação lacaniana que prefere não se considerar pós-freudiana mas que o é – tem em comum a crítica direta ou indireta dos aspectos biológicos e energéticos da teoria da pulsão. Todas as orientações psicanalíticas vão remanejar a teoria da pulsão de alguma forma, quer seja como os kleinianos e os lacanianos, redefinindo a pulsão em termos mais próximos da significação e da expressão comunicativa do que da economia energética, quer seja como os psicanalistas da relação de objeto (Balint, Fairbairn, Winnicott) e da psicologia do self (Kohut), propondo uma dimensão não-pulsional da experiência psíquica como mais primordial para a constituição do psiquismo do que a experiência pulsional, quer seja, ainda, como os psicanalistas interpersonalistas americanos (Schafer, Stolorow, Atwood, Brandchaft, Marcia Cavell), abandonando o próprio conceito de pulsão junto com toda a perspectiva metapsicológica.

Curiosamente, de todas as correntes acima mencionadas, apenas aos kleinianos é, muitas vezes, atribuída uma concepção da pulsão próxima do biológico, que inclui o aspecto econômico da quantidade energética. Certamente isto se deve ao caráter acentuadamente internalista das concepções kleinianas, que parecem reduzir o papel desempenhado pelo meio ambiente e acentuar o papel atribuído ao fator inato da constituição pulsional para todo o desenvolvimento psíquico, desenvolvimento este considerado como determinado, em última instância, pela proporção entre as quantidades de pulsão de vida e de morte encontradas em cada indivíduo. Sobre o caráter ambíguo da teoria kleiniana, a meio caminho entre a manutenção dos pressupostos mecanicistas do projeto científico de Freud e a valorização da abordagem fenomenológica das ciências do espírito, pode-se consultar o interessante artigo de Nigel Macckay, “Melanie Klein’s methapsychology: phenomenological and mechanistic perspective”[13]. Ali o autor procura analisar o fato da teoria kleiniana receber avaliações radicalmente contrárias por parte de psicanalistas que, por outro lado, compartilham a mesma perspectiva de crítica radical da metapsicologia. Ora julga-se que M. Klein se distancia da crueza da visão mecanicista da teoria tradicional, ora julga-se que leva a concepção mecanicista da mente ao seu paroxismo. Macckay, por seu lado, procura mostrar em que medida ambas as avaliações são plausíveis, mas, aparentemente solidário com o projeto de crítica radical da metapsicologia, tende a considerar a teoria kleiniana como representando uma iniciativa não completamente bem sucedida de abandono dos pressupostos metapsicológicos. Sua análise do kleinismo é precisa e equilibrada, e o panorama que descortina bastante instrutivo sobre os pressupostos da crítica norte-americana da metapsicologia. Contudo, não consigo acompanhar o espírito mais profundo de sua avaliação, na medida em que não estou de modo algum convencido de que o abandono do projeto freudiano da psicanálise como ciência natural requeira o abandono do pensamento metapsicológico. A espinha dorsal da sucessão freudiana representada pelas obras de Melanie Klein, Bion, Lacan e Winnicott, dá mostras disso de modo veemente. As construções metapsicológicas são instrumentos importantes para a apreensão e diferenciação de tipos de experiência psíquica distintas e distantes das experiências psíquicas mais comuns do eu consciente.

Retornando ao caso específico da teoria kleiniana das pulsões, a verdade é que, apesar do cunho biológico e da razão econômica que evidentemente contém, o modo pelo qual Isaacs trata a questão da fantasia não deixa dúvidas quanto ao esforço kleiniano de adicionar uma dimensão significativa e expressiva ao caráter predominantemente energético da concepção freudiana de pulsão. As fantasias, no seu começo, diz Isaacs, são “pensamento implícito, pensamento latente na impulsão[14], afeto e sensação”[15], ou ainda, em outra passagem, são “uma expressão das impulsões agressivas e libidinais”[16] Como deixa entender Jean-Michel Petot em seu monumental Melanie Klein, enquanto em Freud as pulsões governam o psiquismo sem estarem diretamente ali presentes, mas apenas representadas por representações e por afetos, em M. Klein elas parecem ali se manifestar não por representação, mas de modo direto, nas qualidades pulsionais da voracidade, inveja, gratidão, assim como também nas fantasias, concebidas sem referência necessária às representações, mas como já se manifestando no plano primário das sensações[17].

A Alteridade como Intersubjetividade

Sem nos estendermos a respeito dos remanejamentos que os conceitos kleiniano de pulsão e isaacsiano de fantasia operam sobre o conceito freudiano de representação, é importante notar que aqueles conceitos trazem, senão uma crítica do solipsismo subjetivo implicado pelo conceito freudiano de representação, ainda tributário da concepção clássica de sujeito da representação[18], pelo menos a indicação de uma possibilidade de saída desse solipsismo. Implícita nas dimensões de significação e expressão que a concepção de Isaacs de fantasia empresta imediatamente à pulsão, encontra-se a idéia muito mais radical, da qual Isaacs não parece se dar conta em toda sua extensão, de vincular o início do psiquismo com a experiência da intersubjetividade[19]. Vale à pena dizer, tal idéia é muito mais difícil de ser assimilada pelo projeto da metapsicologia como ciência natural do que a de significação, ou, pelo menos, do que a de uma certa idéia simplificada de significação. Se formos prestar atenção, para Brierley a idéia de significação como característica mínima do psíquico não trazia nenhum problema. O que ela não aceitava é que se igualasse significação à fantasia, o que equivaleria a dizer que toda significação é intersubjetiva, pois não há fantasia sem a idéia de uma alteridade subjetiva.

Senão vejamos. Na sua crítica a Isaacs, Brierley afirma: “A Sra. Isaacs, sem se dar conta, indicou uma palavra melhor [do que fantasia]. Ela sublinhou que o caráter distintivo da realidade psicológica é que ela tem uma significação”. Logo depois revela sua idéia de significação ao concluir:

e por que então não dizer que a experiência do bebê, desde o início tem para ele uma significação que provém das fontes de realidade ao mesmo tempo internas e externas. A significação, mesmo primitiva ou muito elaborada, é uma síntese dos fatores internos e externos.[20]

Pode-se então deduzir sem muito esforço que para Brierley, assim como para a ortodoxia anna-freudiana, a característica mínima do psíquico que interrogávamos se confunde com o exercício do princípio do prazer em sua função de regulação das tensões energéticas oriundas tanto da pulsão quanto da realidade, alheio a qualquer experiência de alteridade. Deste modo, o que confere ao psiquismo do bebê sua “significação primitiva” são, pura e simplesmente, as sensações de prazer e de desprazer. Deste ponto de vista, a intersubjetividade só se estabelece quando o outro é percebido como um dado de realidade ao qual a criança tem acesso através do amadurecimento do aparelho nervoso e da complexificação associativa das inscrições da realidade (representações) no aparelho psíquico. A alteridade é concebida como sendo progressivamente percebida pelo aparelho psíquico, e não como constitutiva do aparelho psíquico.

No que diz respeito à intersubjetividade em M. Klein, temos que levar em conta algumas peculiaridades para melhor avaliar seu estatuto, na medida em que ela é concebida como sendo experienciada quase que exclusivamente no âmbito do “mundo interno”. É verdade que depois da introdução da reflexão sobre a linguagem na crítica filosófica contemporânea, não existe nada mais difícil de conceber do que a idéia de um “mundo interno”, e é esta dificuldade que anima as críticas mais pertinentes que o internalismo kleiniano não cessa de receber. É verdade também que o “mundo interno” kleiniano pode ser visto como um mundo construído todo ele a partir do estoque pulsional inato de cada sujeito, sem que qualquer aspecto que seja por parte de uma realidade tida como compartilhada venha a desempenhar algum papel relevante em sua contituição. Apesar de tudo isto, paradoxalmente, a expressividade que a idéia de fantasia inconsciente precoce empresta à pulsão não deixa de ter por base uma suposição de experiência de intersubjetividade anterior. Se tomarmos as coisas por esse aspecto, as fortes distorções que as pulsões, através dos mecanismos de clivagem, introjeção e projeção, impõem ao objeto, perdem importância diante da abertura para o outro que elas não podem deixar de pressupor para que tenham um suporte sobre o qual se aplicar. Mas mesmo que a alteridade seja constituída apenas pela projeção da agressividade decorrente da frustração da pulsão – o objeto mau como sujeito –, o que importa é que a pulsão traz, nela mesma, ou através dela, a dimensão da intersubjetividade.[21] Na teoria kleiniana, a pulsão não investe apenas as representações dos objetos, mas constitui os objetos eles mesmos em sua subjetividade. Ela é nela mesma, nos seus fatores de voracidade, de inveja e de gratidão, abertura ao outro.

Por isto mesmo, e a despeito do papel quase que onipotente desempenhado pelo estoque pulsional inato, o mundo interno kleiniano, com seus objetos internos eles mesmos dotados de subjetividade, se mostra como uma concepção de aparelho psíquico no qual a intersubjetividade desempenha um papel interno e primário muito mais importante do que nas concepções freudianas de aparelho psíquico, nas quais ela só aparece de modo externo e secundário. O objeto kleiniano da pulsão é, ele mesmo, um sujeito, o que faz com que a concepção de psíquico de M. Klein requeira, como característica mínima, a dimensão da intersubjetividade. Em Freud, apenas na segunda tópica, com o aparecimento do superego, se pode encontrar uma instância de alteridade constitutiva do aparelho psíquico. Mas, justamente, a metapsicologia kleiniana se molda a partir da decisão, já esboçada por Abraham, de dar conseqüência à lógica freudiana da construção do superego. Daí a valorização dos mecanismos de introjeção e de projeção, o surgimento das noções de objeto interno, de mundo interno e, finalmente, de fantasia inconsciente como natureza do tecido do mundo interno.

Ao propor a fantasia como conteúdo primário de todos os processos psíquicos, Isaacs nada faz senão insistir na necessidade de conceber a dimensão intersubjetiva como característica mínima do psíquico. O corolário disto é o recuo do surgimento da fantasia para o início da vida do bebê, o que implica em dizer que o bebê é um ser aberto ao outro enquanto outro desde o seu nascimento. Este, certamente, foi o ponto da teoria kleiniana mais difícil de ser aceito, e o que mais provocou a oposição dos anna-freudianos, de Brierley e mesmo dos analistas da teoria da relação de objeto, como veremos a seguir.

A Alteridade na Dependência Amorosa

Levando-se em consideração o que já foi dito até agora, a discussão entre kleinianos e anna-freudianos sobre a questão da data de surgimento da fantasia não guarda muitas surpresas. Enquanto os kleinianos procuravam justificar a concepção de um bebê intersubjetivo, aberto para a alteridade desde o início da vida pela via de mecanismos psíquicos extremamente complexos, os anna-freudianos se batiam pela manutenção do quadro de referência da vulgata freudiana. Robert Wälder, um dos expoentes do grupo de Anna Freud, afirmava que a experiência psíquica do bebê no primeiro ano de vida é restrita a processos psíquicos “relativamente simples e pouco numerosos” [22], todos eles próximos do funcionamento simplificado do princípio do prazer. Os anna-freudianos insistiam ainda, e este é um ponto importante, no caráter auto-erótico e narcísico do início do desenvolvimento libidinal infantil, caráter este que impedia, segundo seu modo de ver, admitir que o bebê possuísse qualquer tipo de representação de alteridade, o que por conseguinte também impedia, ainda segundo seu modo de ver, admitir a existência de qualquer tipo de relação com qualquer instância de alteridade subjetiva.

No que tange o estatuto da alteridade no início da vida do bebê, talvez a questão mais interessante para a psicanálise contemporânea não se encontre implicada nas divergências entre as posições de Anna Freud e Melanie Klein, mas sim nas divergências entre as posições de Klein e as dos psicanalistas da teoria da relação de objeto, Michael Balint entre eles[23]. Como já foi mencionado, não foi apenas a obra de M. Klein que representou uma revisão da teoria pulsional. Muito pelo contrário, como já vimos, sua revisão se dá de um modo subliminar, muitas vezes não percebido em suas conseqüências mais radicais. De fato, desde pelo menos 1935, Balint já criticava a teoria ortodoxa da pulsão em sua acepção biológica e energética de um modo muito mais explícito que o de M. Klein. Embora reconhecesse a coragem desta última por ter sido a primeira em insistir na existência de relações objetais desde o início da vida, Balint tendia a considerar a teoria kleiniana como uma tentativa artificial de adaptação da teoria ortodoxa da pulsão às evidências clínicas da existência de relações objetais precoces[24]. Como já foi dito, diferentemente de M. Klein que preferiu redefinir o conceito de pulsão em termos expressivos, os psicanalistas da relação de objeto preferiram propor como característica mínima do psíquico uma dimensão não-pulsional da experiência, anterior à experiência pulsional, dimensão esta que se constituía como o terreno sobre o qual todo o psiquismo se enraíza. Para Balint este terreno é o do amor primário.

Balint parte da crítica da teoria das fases pulsionais de Abraham que na época se impunha como grade de referência obrigatória para a abordagem do período pré-edipiano do desenvolvimento infantil. Segundo ele, a simples consideração das mudanças das zonas erógenas e dos objetivos pulsionais é insuficiente para explicar as mudanças na qualidade das relações objetais da criança. Faz-se necessário, portanto, tratar de modo independente o desenvolvimento pulsional e o desenvolvimento amoroso das relações de objeto. Apoiando-se numa leitura criteriosa de Freud, e dando seqüência ao pensamento de Ferenczi que é sua principal referência, Balint insiste em que a primeira posição da libido é terna, não-pulsional, e tem por objeto a mãe nutridora. Ou seja: ao contrário do que pensam os anna-freudianos, o bebê não é narcísico e nem é auto-erótico. Esta primeira posição da libido ele denomina de amor primário. O amor primário é caracterizado por um traço paradoxal que diferencia a posição de Balint da posição de M. Klein: ele é objetal a despeito da criança não ter nenhuma representação do objeto.

É verdade que o mundo da criança ainda não foi separado entre o eu e o mundo externo. [...]. Até mesmo objetos externos que são indispensáveis para a vida, o seio materno, p. ex., ainda não estão separados psiquicamente do eu. Mas libidinalmente a criança é completamente dependente dos cuidados do mundo externo, sem os quais ela simplesmente morreria.[25]

Toda a dificuldade que Balint enfrenta com uma decisão que beira a obstinação é esta: caracterizar como abertura para a alteridade uma relação não mediada por nenhuma representação do outro. Nos termos clássicos da teoria abrahamiana do desenvolvimento pulsional, neste estágio teríamos, do lado da pulsão, a fase oral, e do lado do objeto, o auto-erotismo anobjetal e logo depois o narcisismo. Balint recusa o caráter anobjetal ou narcísico desta fase. Considera que todo narcisismo é patológico e secundário em relação ao amor primário. Recusa também que se possa considerar as características psíquicas desta fase apenas em termos pulsionais, ou seja, apenas em termos da descarga da tensão pulsional proporcionada pela experiência de satisfação. Insiste no caráter amoroso da relação mãe-bebê. Insiste no valor psíquico da qualidade dos cuidados maternos. Insiste na existência de uma relação apesar da inexistência da representação do outro.

A base biológica desta relação objetal primária é a interdependência pulsional da mãe e da criança, ambas são dependentes uma da outra, mas ao mesmo tempo estão sintonizadas uma com a outra ...[26] (grifo meu).

A idéia de uma sintonia que se acrescenta à dependência do plano da satisfação pulsional é o modo pelo qual procura introduzir uma dimensão de experiência de alteridade, paralela à experiência de satisfação pulsional, mas que não se confunde com ela. Balint reconhece as dificuldades de sua posição, mas insiste em sua importância e na comprovação que encontra na clínica e na observação de bebês. Não cabe nos limites do presente trabalho rastrear suas dificuldades e os argumentos que emprega para contorná-las. Basta procurar cernir sua significação para o problema de que nos ocupamos.

Tanto a fantasia precoce inconsciente dos kleinianos quanto o amor primário de Balint encontram sua razão mais radical na instalação da alteridade como instância constitutiva do psiquismo. Contudo, a maneira pela qual cada um concebe o estatuto da alteridade na constituição do psiquismo difere de modo significativo. Os kleinianos, como já foi visto, concebem a alteridade constitutiva do psiquismo em termos de intersubjetividade: é na relação com um sujeito (objeto mau) que pode me tomar para si como objeto pulsional que a fantasia se constitui e a experiência psíquica se inaugura. Para Balint as coisas se passam de outro modo. Para ele, a alteridade constitutiva do psiquismo é concebida não em termos intersubjetivos, mas em termos de dependência amorosa. Deste modo, não é necessário que o pequeno sujeito tenha uma representação ou uma sensação da existência de um outro sujeito diante si, mas apenas que tenha um certo tipo de sintonia em relação ao outro que faça com que o seu psiquismo se forme, desde o início, na dependência estreita da presença do psiquismo do outro. Esta maneira de conceber o nascimento do psiquismo implica na desvalorização da pulsão de morte: as frustrações pulsionais não são traduzidas como privação infligida pelo sujeito-objeto-mau, como em M. Klein. Dependendo de sua amplitude, as frustrações podem ou não ter nenhuma conseqüência, ou prejudicar em maior ou menor extensão a estrutura do ego, na forma do que Balint chama de “falha básica”, mas jamais serão vividas como persecutórias, uma vez que a distinção entre eu e não-eu ainda não teve lugar.

As posições de M. Klein e de Balint aqui indicadas, e que dizem respeito ao estatuto da alteridade na constituição do sujeito, tiveram uma posteridade extremamente importante na história do movimento psicanalítico. Aceitando-se um certo grau de esquematismo, talvez se possa dizer que entre elas se dividem e se cruzam as principais orientações psicanalíticas atuais. Para finalizar, gostaria de fazer algumas observações a respeito da maneira como dois autores, Winnicott e Lacan, se posicionam nessa constelação.

Winnicott e a Experiência Pré-Subjetiva

Embora Winnicott não faça muitas referências a Balint, a proximidade entre os dois autores é enorme. A concepção de Winnicott do início da experiência psíquica em termos de identificação primária e não em termos de relação de objeto parece trazer uma boa perspectiva de solução para os impasses de Balint. Para Winnicott o sujeito se enraíza na experiência do ser, antes de poder experimentar as experiências pulsionais do fazer. Na primeira relação com o seio, a criança é o seio. Esta experiência de ser antecede a experiência da diferenciação entre sujeito e objeto, antecede a experiência do eu.

O importante é notar que eu sou não significa nada a menos que eu no início seja junto com um outro ser humano que ainda não se diferenciou. Por esta razão é mais verdadeiro falar sobre ser do que usar as palavras eu sou, que pertencem à próxima etapa.[27]

Esta concepção acompanha a intuição balintiana de uma dimensão não-pulsional da experiência, anterior a, e, agora com Winnicott, também possibilitadora de toda a experiência pulsional. Winnicott chama a experiência identificatória do ser de elemento puro feminino, e a experiência pulsional do fazer de elemento puro masculino.

Quero dizer que o elemento que estou chamando masculino age em termos do relacionar-se ativo ou do ser relacionado passivo, cada um sustentado pela pulsão. É no desenvolvimento desta idéia que falamos de pulsão na relação do bebê com o seio... Minha sugestão é que, por contraste, o elemento puro feminino se relaciona com o seio (ou com a mãe) no sentido do bebê se tornar o seio (ou mãe), no sentido de que o objeto é o sujeito. Não posso ver nenhuma pulsão [instinct drive] nisto.[28]

Tanto Balint quanto Winnicott concebem a dimensão não-pulsional da experiência como anterior à diferenciação eu–não-eu. Balint, contudo, ao insistir na idéia de uma relação primária amorosa de objeto, no sentido de uma sintonia entre sujeito e objeto, não pôde se livrar de uma certa concepção de sujeito já dado, anterior ao relacionamento com o objeto. A concepção de Winnicott de uma dimensão pré-subjetiva da experiência, anterior à diferenciação eu–não-eu, sustentada pela identificação primária, permite conceber de um modo mais simples aquilo mesmo que Balint pretendia, ou seja, atribuir à alteridade um papel constitutivo para o psíquico sem a necessidade de hipóteses de mecanismos muito complexos logo no início da vida[29], como era o caso das teorizações kleinianas que tanta oposição geraram no meio da comunidade psicanalítica em geral.

O sentido que Winnicott empresta à misteriosa e pouco explorada noção freudiana de identificação primária, e a dimensão de experiência que nela descortina, é rica no que diz respeito à busca de saídas para as dificuldades que a concepção de sujeito clássico da representação traz para a psicanálise. Em uma série de artigos dedicados à novidade que a obra de Winnicott representa para o pensamento psicanalítico, Zeljko Loparik faz observações preciosas a esse respeito[30]. Para os limites do presente trabalho é suficiente notar que a idéia de uma dimensão primária não-pulsional da experiência, e, principalmente, a idéia de dependência psicossomática que se encontra a ela conjugada, estão na raiz de modificações essenciais na concepção que os psicanalistas fazem sobre seu próprio papel no tratamento analítico: ao lado da importância da interpretação dos sintomas, a qualidade da relação analítica como continente para as partes não-apenas-neuróticas do sujeito passa a atrair o principal dos esforços clínicos e teóricos da maioria dos psicanalistas contemporâneos.

Lacan entre a Experiência e a Metapsicologia

Na época de que nos ocupamos no presente trabalho, a posição de Lacan em relação às concepções do papel da alteridade na constituição do psiquismo avançadas por Balint (e posteriormente por Winnicott), por um lado, e pelos kleinianos, por outro, é bastante clara. No início de seu ensino, a despeito da admiração manifesta pela intuição clínica de Balint, Lacan se posiciona sem ambigüidades do lado dos kleinianos, contra Balint. A dimensão primeira da experiência psíquica, para Lacan, é intersubjetiva.

Vocês vêem ao mesmo tempo que, ao contrário da perspectiva de Balint, e é muito mais conforme nossa experiência, que nós sempre devemos partir de uma intersubjetividade radical, da admissão total do sujeito pelo outro sujeito. É retrospectivamente, nachträglich, a partir da experiência adulta que nós devemos abordar as experiências originais supostas, marcando as degradações, sem jamais sair do domínio da intersubjetividade. Na medida em que permanecemos no registro analítico, é necessário admitir a intersubjetividade na origem.[31]

Um pouco mais adiante, sustentando posição contra a tendência anna-freudiana de considerar a satisfação pulsional simplesmente nos termos econômicos do princípio do prazer, e enfatizando, nos moldes kleinianos, a dimensão intersubjetiva implicada em qualquer frustração pulsional, assinala:

Algo sempre escapa quando se fala de frustração. Por causa de uma tendência naturalista da linguagem, ..., omite-se de assinalar que o sujeito sente a frustração. A frustração não é um fenômeno que se possa objetivar no sujeito sob a forma de um desvio do ato que o une a este objeto. Não se trata de uma aversão animal. Tão prematuro quanto ele seja, o sujeito sente ele mesmo o mau objeto como uma frustração. E, ao mesmo tempo, a frustração é sentida no outro[32] (grifo meu).

A referência ao pensamento de M. Klein, como sempre, é críptica, mas a alusão à idéia kleiniana da transformação da frustração em privação, característica da posição esquizo-paranóide, é bem clara: a utilização do termo “mau objeto” não deixa dúvidas a esse respeito. Três anos depois, no seminário sobre as relações de objeto, Lacan virá a modificar de modo sistemático a teoria kleiniana das posições esquizo-paranóide e depressiva. As três categorias da falta propostas por Lacan no referido seminário – frustração, privação e castração – podem ser compreendidas, sem muita dificuldade, como uma reelaboração da teoria kleiniana da transformação da frustração em privação na posição esquizo-paranóide, em um primeiro momento, e de sua transcrição, através da culpabilidade, na síntese da posição depressiva, em um segundo momento. Tal reelaboração se dá, basicamente, pela substituição dos mecanismos pulsionais de projeção e introjeção pelas operações que a linguagem impõe à ordem vital. As diferenças e semelhanças clínicas entre as experiências das posição esquizo-paranóide com as experiências da frustração e da privação, e as experiências da posição depressiva com as experiências da castração ainda não foram objeto de estudos que tivessem a difusão requisitada pela importância do assunto. Os lacanianos preferem, nesse ponto, se limitar a avalizar a propensão de Lacan, notada por Elizabeth Roudinesco, de diminuir sua dívida em relação aos psicanalistas que o antecederam na reelaboração do pensamento de Freud para melhor se colocar como seu único herdeiro. Os kleinianos que realmente entenderam o pensamento de Lacan, por sua vez, se transformaram em lacanianos, o que nos remete ao caso anterior e redobra as dificuldades de um trabalho criterioso de comparação das duas teorias.

No que diz respeito à intersubjetividade em Lacan, é necessário ainda observar que o fato de que seja concebida como precedida e possibilitada pela identificação simbólica formadora do ideal de eu não lhe retira o lugar de experiência inaugural do psíquico. O tempo de instalação da identificação simbólica não é tematizado, por Lacan, em termos experienciais, mas sim como uma operação que possibilita a instalação da experiência intersubjetiva. É somente em um segundo momento, o do pacto simbólico, no seminário I, ou da castração, a partir do seminário IV, que a instância simbólica que estruturalmente condiciona o imaginário da experiência intersubjetiva pode vir a ser traduzida em uma tonalidade experiencial mais consoante com seu próprio estatuto ternário. De modo geral, contudo, Lacan tende a considerar que é apenas como efeito da cura psicanalítica que os fatores estruturais condicionantes da experiência imaginária podem vir a ser efetivamente experimentados. Daí o fato de que a maior parte das referências de Lacan ao plano da experiência sejam feitas em termos de “experiência analítica”. Tudo isso deriva da diferenciação, encontrada no pensamento de Lacan, entre o plano da estrutura e o plano da experiência. Neste ponto ele se diferencia tanto de Winnicott, quanto também de M. Klein, cujos modos de pensar pressupõem que é apenas a experiência do que antecede que prepara o terreno para a experiência do que sucede. Dito de outro modo, para estes últimos a gênese do psíquico é psíquica, enquanto que para Lacan, a gênese do psíquico é lógico-estrutural, o que faz com que a resolução dos impasses da experiência não se encontre na experiência, mas sim na estrutura.

A partir destas observações pode-se melhor perceber a ressonância dos diversos planos implicados nas questões discutidas nas Controvérsias sobre o pensamento de Lacan. Grande parte das elaborações de seus seminários iniciais podem ser melhor compreendidas quando vistas como um esforço de síntese dos diversos posicionamentos presentes no cenário psicanalítico da época, principalmente o inglês. Se, por um lado, é verdade, como afirmamos, que Lacan acompanha o movimento mais amplo da crítica pós-freudiana da teoria clássica do sujeito da representação ao considerar a relação com a alteridade como característica mínima do psíquico, e que além disso acompanha mais especificamente M. Klein ao postular a intersubjetividade como primeiro modo de relação com a alteridade, é também verdade, por outro lado, que não deixa de acompanhar Marjorie Brierley e a ortodoxia anna-freudiana na fidelidade ao projeto de Freud de inclusão da psicanálise no conjunto das ciências naturais. Apenas em seu caso tal fidelidade não se expressa pela manutenção literal do projeto, mas pela interpretação do seu espírito. Deste modo, apesar de sua sintonia com a sensibilidade de M. Klein a respeito das características do início da vida psíquica, não deixará de compartilhar com Brierley e com a ortodoxia anna-freudiana a aversão pelo caráter imaginário das descrições kleinianas e o sentimento da necessidade de dar continuidade à invenção metapsicológica através de descrições das condições objetivas da experiência subjetiva. Tais descrições, como insiste Brierley, devem ser feitas a partir de um ponto de vista externo à experiência subjetiva que constitui o objeto a ser descrito, devendo para tanto empregar um vocabulário distinto do das emoções e sentimentos que compõem a palheta qualitativa da experiência subjetiva. Contudo, como o vocabulário da metapsicologia freudiana é composto a partir de concepções de energia e de representação alheias à dimensão da relação com a alteridade, sua manutenção acrítica sempre incorrerá no perigo de epifenomenalismo tão bem visto por Isaacs. Para contornar esta dificuldade sem cair no perigo do imaginário kleiniano das descrições subjetivas, Lacan vai recompor o vocabulário da metapsicologia freudiana substituindo progressivamente sua base energético-representativa por uma lógica do significante cujos elementos mínimos já se encontram, eles mesmos, no campo gravitacional da alteridade em sua relação constitutiva com o sujeito. No momento do Seminário I, o plano de distanciamento em relação à experiência subjetiva que, na acepção de Brierley, qualquer enunciado metapsicológico deve possuir, é garantido pelo lugar do simbólico enquanto instância determinante do imaginário da experiência subjetiva (egóica). O curioso em Lacan, como já foi visto, é que sua concepção de instâncias determinantes da estrutura e instâncias determinadas da experiência não impede que se pense na qualidade experiencial das próprias instâncias determinantes: o registro ternário do simbólico que determina à distância o plano dual da experiência imaginária virá posteriormente orientar mais diretamente a experiência ternária do pacto simbólico (Seminário I) ou da castração (Seminário IV). Do mesmo modo, a experiência analítica é concebida, grosso modo, como experiência de redução do imaginário a seus determinantes simbólicos. Ao mesmo tempo que afasta o perigo do epifenomenalismo, tal peculiaridade abre a possibilidade da discussão sobre os lugares da experiência no pensamento de Lacan. Pelo momento basta dizer que tudo se passa como se Lacan, com suas teorias dos três registros, da diferença entre ego e sujeito do inconsciente e da lógica do significante, tivesse procurado se manter num estreito caminho entre os abismos kleinianos da emoção subjetiva e as desoladas abstrações do objetivismo da ortoxia anna-freudiana. Sei que a idéia de um Lacan do juste millieu não agradará muito aos ardorosos defensores da “ética da psicanálise”, no entanto devo insistir, pois acho muito mais proveitosa para a reflexão a faceta do Lacan temperado, procurando caminho nas questões de que se ocupavam os psicanalistas de sua época, do que a do Lacan radical, herói de um patriarca traído.

Octavio de Souza é psicanalista,

pesquisador Adjunto do Instituto Fernandes Figueira – FIOCRUZ,

Professor Assistente do Departamento de Psicologia – PUC-Rio.

N o t a s

1 Pearl King et Riccardo Steiner, Les Controverses Anna Freud Mélanie Klein. PUF. Paris, 1996 : p. 260. (Nota do Editor de « Gradiva » : há uma tradução brasileira feita pela editora Imago).

2 Idem, ibidem.

3 Idem, p. 261.

4 Idem, p. 457.

5 Idem, p. 483.

6 Idem, p. 483.

7 Idem, 483-484.

8 Idem, p. 261.

9 Idem, p. 263. Cf. também, no mesmo sentido, os comentários de Paula Heimann, p. 511-514.

10 Cf. D. Meltzer., « The Kleinian expansion of Freud’s metapsychology », International Journal of Psycho-Analysis, nº 62, 1981.

11A respeito do papel de Glover ao longo das controvérsias, reportar-se aos importantes artigos de Luis Eduardo Prado de Oliveira, tradutor francês das Controverses, « Du Bruit et du silence » e « Un Transfert venu d"ailleurs : réevaluation des controverses entre Melanie Klein et Anna Freud », a serem publicados na coleção Histoire de la Psychanalyse, PUF.

12Cf. Controverses, p. 310.

13 Nigel Macckay, « Melanie Klein’s methapsychology: phenomenological and mechanistic perspective », International Journal of Psycho-Analysis, nº 62, 1981.

14Impulse ou impulsion, aqui traduzidos por « impulsão », como observa o tradutor francês das Controvérsias, são um dos cinco termos que na época serviam para traduzir o Trieb alemão para o inglês. Cf. Controverses, p. 20.

15Controverses, p. 271.

16 Id., p. 275.

17 Cf. Jean Michel Petot, Melanie Klein v.II. The Ego and the good object 1932-1960, International Universities Press. Connecticut. 1991, p.192-193. Na mesma passagem, o autor faz interessantes comentários sobre algumas diferenças entre os vocabulários de Isaacs e Klein para a descrição da vida pulsional. Nota do editor de « Gradiva » :há uma edição brasileira, em dois volumes, pela editora Perspectiva.

18 Cf., a respeito da relação de Freud com a concepção clássica do sujeito da representação, duas obras que, embora partindo de pressupostos filosóficos bastante diferentes, sustentam apreciações aproximáveis : Marcia Cavell, The Psychoanalytic mind. Harvard University Press. Massachusetts. 1996 ; Mikkel Borsch-Jacobsen, Le Sujet Freudien. Flammarion. Paris. 1982.

19No presente trabalho não tratarei da questão do quanto a noção de intersubjetividade acaba por pressupor a existência prévia de subjetividades não-intersubjetivas. Até mesmo Lacan, talvez o único psicanalista a fazer uma crítica explícita da noção de intersubjetividade, iniciou seu percurso enfatizando a dimensão da intersubjetividade para criticar o ponto de vista biológico e energético da pulsão. Para a época em que procuro me limitar, a noção da intersubjetividade tem uma potencialidade crítica importante o suficiente para que possamos permanecer nos seus limites.

20Controverses, p. 309-310.

21Sobre o papel da voracidade na transformação da frustração pulsional em privação fantasística por parte do objeto mau, cf. Melanie Klein v.II, p. 191-196.

22Controverses, p. 278.

23No que segue, deixaremos a obra de Fairbairn de lado, embora ela comporte posicionamentos muito próximos dos de Balint no que concerne os pontos aqui abordados.

24Cf. Balint, Michael. Primary love and psycho-analytic technique. Da Capo Press. New York. 1986, p. 38 e 92-94.

25Primary love, p. 63.

26Primary Love, p. 102.

27D. W. Winnicott, apud Jan Abram, The Language of Winnicott. Jason Aronson. Northvale. 1997, p. 58.

28D. W. Winnicott, Playing and reality. Penguin Books. Harmondsworth. 1974, p. 93.

29“Do lado feminino, no entanto, a identidade requer tão poucas estruturas mentais que esta identidade primária pode ser uma característica desde muito cedo, e a fundação para simplesmente ser pode estar presente desde a data do nascimento, ou antes, ou logo depois ...” Playing and reality, p. 94-95.

30Cf. de Zeljco Loparic, entre outros: “Winnicott e o pensamento pós-metafísico”. Psicologia USP, v. 6. São Paulo. 1995; “Winnicott: uma psicanálise não-edipiana”. Percurso no 17. São Paulo. 1996

31Jacques Lacan, Les Écrits techniques de Freud, 1953-1954. Seuil. Paris. 1975, p. 242.

32Les Écrits techniques de Freud, p. 247.

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[1] Pearl King et Riccardo Steiner, Les Controverses Anna Freud Mélanie Klein. PUF. Paris, 1996 : p. 260. (Nota do Editor de « Gradiva » : há uma tradução brasileira feita pela editora Imago).

[2] Idem, ibidem.

[3] Idem, p. 261.

[4] Idem, p. 457.

[5] Idem, p. 483.

[6] Idem, p. 483.

[7] Idem, 483-484.

[8] Idem, p. 261.

[9] Idem, p. 263. Cf. também, no mesmo sentido, os comentários de Paula Heimann, p. 511-514.

[10] Cf. D. Meltzer., « The Kleinian expansion of Freud’s metapsychology », International Journal of Psycho-Analysis, nº 62, 1981.

[11] A respeito do papel de Glover ao longo das controvérsias, reportar-se aos importantes artigos de Luis Eduardo Prado de Oliveira, tradutor francês das Controverses, « Du Bruit et du silence » e « Un Transfert venu d"ailleurs : réevaluation des controverses entre Melanie Klein et Anna Freud », a serem publicados na coleção Histoire de la Psychanalyse, PUF.

[12] Cf. Controverses, p. 310.

[13] Nigel Macckay, « Melanie Klein’s methapsychology: phenomenological and mechanistic perspective », International Journal of Psycho-Analysis, nº 62, 1981.

[14] Impulse ou impulsion, aqui traduzidos por « impulsão », como observa o tradutor francês das Controvérsias, são um dos cinco termos que na época serviam para traduzir o Trieb alemão para o inglês. Cf. Controverses, p. 20.

[15] Controverses, p. 271.

[16] Id., p. 275.

[17] Cf. Jean Michel Petot, Melanie Klein v.II. The Ego and the good object 1932-1960, International Universities Press. Connecticut. 1991, p.192-193. Na mesma passagem, o autor faz interessantes comentários sobre algumas diferenças entre os vocabulários de Isaacs e Klein para a descrição da vida pulsional. Nota do editor de « Gradiva » :há uma edição brasileira, em dois volumes, pela editora Perspectiva.

[18] Cf., a respeito da relação de Freud com a concepção clássica do sujeito da representação, duas obras que, embora partindo de pressupostos filosóficos bastante diferentes, sustentam apreciações aproximáveis : Marcia Cavell, The Psychoanalytic mind. Harvard University Press. Massachusetts. 1996 ; Mikkel Borsch-Jacobsen, Le Sujet Freudien. Flammarion. Paris. 1982.

[19] No presente trabalho não tratarei da questão do quanto a noção de intersubjetividade acaba por pressupor a existência prévia de subjetividades não-intersubjetivas. Até mesmo Lacan, talvez o único psicanalista a fazer uma crítica explícita da noção de intersubjetividade, iniciou seu percurso enfatizando a dimensão da intersubjetividade para criticar o ponto de vista biológico e energético da pulsão. Para a época em que procuro me limitar, a noção da intersubjetividade tem uma potencialidade crítica importante o suficiente para que possamos permanecer nos seus limites.

[20] Controverses, p. 309-310.

[21] Sobre o papel da voracidade na transformação da frustração pulsional em privação fantasística por parte do objeto mau, cf. Melanie Klein v.II, p. 191-196.

[22] Controverses, p. 278.

[23] No que segue, deixaremos a obra de Fairbairn de lado, embora ela comporte posicionamentos muito próximos dos de Balint no que concerne os pontos aqui abordados.

[24] Cf. Balint, Michael. Primary love and psycho-analytic technique. Da Capo Press. New York. 1986, p. 38 e 92-94.

[25] Primary love, p. 63.

[26] Primary Love, p. 102.

[27] D. W. Winnicott, apud Jan Abram, The Language of Winnicott. Jason Aronson. Northvale. 1997, p. 58.

[28] D. W. Winnicott, Playing and reality. Penguin Books. Harmondsworth. 1974, p. 93.

[29] “Do lado feminino, no entanto, a identidade requer tão poucas estruturas mentais que esta identidade primária pode ser uma característica desde muito cedo, e a fundação para simplesmente ser pode estar presente desde a data do nascimento, ou antes, ou logo depois ...” Playing and reality, p. 94-95.

[30] Cf. de Zeljco Loparic, entre outros: “Winnicott e o pensamento pós-metafísico”. Psicologia USP, v. 6. São Paulo. 1995; “Winnicott: uma psicanálise não-edipiana”. Percurso no 17. São Paulo. 1996

[31] Jacques Lacan, Les Écrits techniques de Freud, 1953-1954. Seuil. Paris. 1975, p. 242.

[32] Les Écrits techniques de Freud, p. 247.

 

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