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Aspectos do Encaminhamento da Questão da Cientificidade
da Psicanálise no Movimento Psicanalítico
Octavio Souza
Desde a reavaliação crítica de Lacan do sentido
e das conseqüências da insistência de Freud em
incluir a psicanálise no conjunto das ciências da natureza,
a questão da cientificidade da psicanálise, em nosso
meio, vem sendo substituída pela da linha de demarcação
entre ciência e psicanálise. Quase que como conseqüência
disto, ciência e psicanálise passaram a ser consideradas
como fazeres detentores de éticas conflituosas, o que compele
os psicanalistas a adotarem uma rota que os leva, alternadamente,
ao exercício da crítica dos efeitos dessubjetivantes
da hegemonia do discurso científico na sociedade contemporânea,
por um lado, e à busca de definições rigorosas
da especificidade da psicanálise, por outro. No presente
trabalho procurarei evitar esta rota da “ética da psicanálise”.
Embora acredite que a questão da cientificidade da psicanálise
comporte aspectos éticos relevantes, não creio que
as coisas se resolvam com a simples contraposição
entre Ciência e Psicanálise, concebidas, cada uma das
duas, como modalidades homogêneas do fazer humano. No que
diz respeito à ciência, no pensamento epistemológico
mais recente, não existe mais unanimidade quanto ao interesse
no estabelecimento de critérios gerais de cientificidade.
O fazer científico não é mais abordado pelo
prisma de sua unidade. No que diz respeito à psicanálise,
eu, particularmente, não acredito que a tarefa mais premente
no momento atual seja a de responder à questão “O
que é a psicanálise?” Prefiro pensar a psicanálise
na pluralidade das orientações que compõem
seu campo e buscar matéria de reflexão em alguns dos
problemas que estiveram na origem da sua diversificação.
E, sem dúvida alguma, dentre estes problemas, o da cientificidade
da psicanálise foi um dos que mais animou as discussões
dos psicanalistas ao longo da história. Minha proposta é
a de retomar alguns pontos do percurso da questão da cientificidade
da psicanálise na história do movimento psicanalítico,
procurando destacar alguns aspectos clínicos nela envolvidos.
A questão da relação entre ciência e
psicanálise teria um interesse apenas acadêmico se
não desembocasse de maneira direta em modos de conceber a
prática clínica em seus aspectos mais concretos e
cotidianos.
Metapsicologia e Significação
No livro As Controvérsias Anna Freud – Melanie Klein,
que reúne as discussões que ocorreram na Sociedade
Britânica de Psicanálise entre 1941 e 1945 dedicadas
à avaliação das inovações clínicas
e metapsicológicas contidas na obra de M. Klein, as discussões
entre Marjorie Brierley e os psicanalistas kleinianos, Susan Isaacs
principalmente, sobre o lugar da subjetividade nos enunciados metapsicológicos,
são de especial interesse para averiguar o modo pelo qual
o tópico da cientificidade da psicanálise incide diretamente
sobre a clínica psicanalítica. Tomemos os argumentos
em detalhe. A discussão tem por ponto de partida o texto
de Isaacs, “A Natureza e a função da fantasia”,
no qual a autora, inaugurando o debate em torno das inovações
propostas por M. Klein, propõe a ampliação
do conceito de fantasia. Ao contrário da orientação
anna-freudiana que preferia reservar o termo de fantasia para os
devaneios conscientes que surgem paralelamente à aquisição
da fala, e o termo de fantasia inconsciente para as fantasias que
sofreram o processo de recalcamento, para Isaacs a fantasia é
de início inconsciente e surge nos primeiros dias de vida
do bebê, concomitantemente às primeiras experiências
de satisfação pulsional. Além disso, considera
a fantasia como estando presente em todos os processos psíquicos,
com eles chegando a se confundir. Afirma, portanto, que não
é apenas, como em geral se considerava, o desejo sexual que
a fantasia informa, mas também os processos de introjeção
e projeção, os mecanismos de defesa em geral, os desapontamentos
narcísicos, a alucinação primitiva, e assim
por diante. Para Isaacs, “as fantasias inconscientes são
o conteúdo primário de todos os processos mentais”
e “constituem a base de todos os processos de pensamento conscientes
e inconscientes”[1]. Para ela é apenas o reconhecimento
deste fato que permite evidenciar o caráter psíquico
dos processos que a psicanálise estuda, pois, e esta é
a idéia mais importante em torno da qual gira todo o seu
texto, o que distingue os processos psíquicos dos processos
físicos é o fato de possuírem significação.
Diz-se dos processos físicos que eles existem, mas não
que eles significam. Um termo tão neutro quanto o de “processo”,
útil de muitas maneiras, ou quanto o de “energia”,
necessário para certas proposições, não
exprimem esta qualidade essencial e distintiva da significação.
É esta a razão pela qual devemos constantemente dizer
“processo mental”, “energia mental”. A palavra
“fantasia” serve para nos lembrar de modo permanente
esse caráter distintivo da significação na
vida mental.[2]
Para os kleinianos, portanto, afirmar que a fantasia é
o conteúdo primário de todos os processos psíquicos
equivale a afirmar a primazia da significação no psiquismo.
É importante frisar o alcance da idéia avançada.
Não se trata somente de afirmar que os mecanismos psíquicos
são sempre desencadeados por significações,
ou seja, por experiências psíquicas, mas de afirmar,
além disto, que os mecanismos psíquicos são
eles mesmos, neles mesmos, experiências psíquicas,
expressões significativas, e não apenas reações
diante de significações. É este mesmo tipo
de preocupação em enfatizar a natureza simbólica
dos mecanismos psíquicos que virá, por exemplo, a
orientar a interpretação lacaniana dos processos psíquicos
primários em termos de metáfora e de metonímia.
No artigo de que nos ocupamos, para esclarecer as idéias
que defende, Isaacs passa a se referir a um artigo prévio
de Brierley no qual as idéias de M. Klein eram criticadas.
Neste artigo, Brierley afirmava que “uma das maiores dificuldades
de compreender as idéias de M. Klein diz respeito ao fato
de que elas tendem a ser expressas em termos perceptivos mais do
que em termos conceituais”[3]. Brierley não era a única
psicanalista a criticar o vocabulário expressivo de M. Klein,
muito pelo contrário, mas de toda a longa série de
psicanalistas que se manifestam a esse respeito no decorrer das
Controvérsias, é ela quem melhor percebe o ponto a
partir do qual as escolhas da escola kleiniana realmente passam
a trazer sérios problemas para o estatuto epistemológico
da metapsicologia freudiana conforme era concebido por aqueles que,
como ela, eram conseqüentes com a exigência de Freud
de inserir a psicanálise no conjunto das ciências da
natureza. É claro que afirmar explicitamente o lugar da significação
como cerne irredutível de todo o psiquismo e desdobrar as
conseqüências disto não pode deixar de trazer
problemas para o projeto freudiano da psicanálise como ciência
da natureza, pois, como se sabe, tradicionalmente a significação
é a dimensão na qual se movem as ciências do
espírito, e não as ciências da natureza. Não
se está querendo dizer com isso que Isaacs esteja perto de
conceber a psicanálise como ciência do espírito.
A própria tradição epistemológica em
que se insere a robustez das teses metapsicológicas da escola
kleiniana a afastam desta trilha, mas a verdade é que toca
em temas e propõe soluções que dificultam a
manutenção do projeto de inclusão da psicanálise
no conjunto das ciências da natureza. Como já foi dito,
Brierley percebe com agudeza a amplitude da questão. Antes
de retornarmos ao desdobramento do ponto de vista de Isaacs vamos,
portanto, nos deter mais detalhadamente na exposição
dos argumentos de Brierley tal como podemos encontrá-los
não só nas citações oferecidas por Isaacs,
mas ao longo de todas as suas intervenções nas Controvérsias.
As Descrições Subjetivas e as Descrições
Objetivas
O ponto sobre o qual Brierley sempre vai insistir é o da
natureza das descrições que podem ser feitas dos fatos
psíquicos. Para ela existem dois modos de descrever um fato
psíquico: as descrições subjetivas dos fatos
psíquicos e as descrições objetivas destes
mesmos fatos. As descrições subjetivas se apresentam
como a maneira mais intuitiva de lidar com o fato de não
se poder observar diretamente os processos psíquicos. Com
elas, descreve-se os processos psíquicos através de
analogias com os processos físicos acessíveis à
percepção. Na opinião de Brierley, as descrições
oferecidas pelos kleinianos, por seus próprios pressupostos,
sempre se enquadram na categoria das descrições subjetivas.
Isto se aplica tanto às descrições dos objetos
internos, sempre feita com um vocabulário muito mais adequado
à descrição de objetos concretos do que de
objetos constituídos por representações mentais,
quanto às descrições dos mecanismos de introjeção
e projeção, tais como a formulada por Paula Heimann
no artigo “Alguns aspectos do papel da introjeção
e da projeção no desenvolvimento precoce”, incluído
no mesmo volume das Controvérsias. Ali, Heimann afirma serem
a introjeção e a projeção “mecanismos
mentais que se modelam sobre as experiências corporais de
tomar no interior e de expulsar, e que lhes correspondem”.[4]
Esta formulação traz consigo, muito mais do que uma
simples questão de vocabulário e de emprego de metáforas,
uma verdadeira concepção da gênese do psíquico
a partir do biológico. Os comentários de Brierley
contidos nas Controvérsias não deixam muito claro
se ela se opõe à gênese do psíquico a
partir do biológico, ou se apenas requer para o psíquico,
uma vez constituído em sua especificidade, um tipo de descrição
que lhe seja particular. De qualquer modo, os comentários
que fornece à descrição de Heimann são
bastante demonstrativos de seu modo de pensar.
Penso que evitaríamos uma discussão inútil
se reconhecêssemos que se trata de uma descrição
subjetiva, quer dizer, de uma definição formulada
não somente a partir dos dados da experiência, mas
do ponto de vista da experiência. A modelização
de um mecanismo mental a partir de uma experiência corporal,
à qual ele corresponderia, é uma ação
imaginária, [...] Esta definição corresponde
à concepção subjetiva do psiquismo enquanto
totalidade incessantemente crescente de experiências pessoais
segundo o vivido do indivíduo. A estrutura psíquica,
desse ponto de vista, é o sistema complexo de modelos reacionais
resultantes da experiência.[5] (grifos meus)
Tais descrições, reconhece a autora, são
legítimas e, além disso, muito úteis para o
contato terapêutico requerido pela clínica psicanalítica:
Na vida cotidiana, a significação pessoal específica
de cada situação governará nossas reações
tanto mentais quanto motoras. Subjetivamente a vida é uma
sucessão de reações face às significações
das situações, e a terapia diz respeito, sobretudo,
à reconstituição dos modelos de reação
do paciente nos termos de sua própria experiência,
consciente e inconsciente. Sendo assim, as definições
subjetivas têm um lugar próprio e necessário
em clínica.[6] (grifos meus)
Como se pode verificar, Brierley está perfeitamente ciente
do valor da dimensão da significação para a
experiência subjetiva, experiência esta que ela não
confunde com a experiência consciente, uma vez que reconhece
a existência de experiências inconscientes e, portanto,
de significações inconscientes. No entanto, isto tudo
não é suficiente, aos seus olhos, para atribuir à
experiência subjetiva, ou às significações
inconscientes, um papel mais determinante na vida psíquica,
causal no sentido forte do termo. Como a seqüência de
seu raciocínio deixará claro, a experiência
subjetiva é concebida como obediente à variação
de um “modelo de reação” regido, ele mesmo,
por mecanismos psíquicos, estes sim detentores do lugar da
causa psíquica. É verdade que na maior parte das vezes
Brierley parece se limitar a apontar para a importância da
descrição objetiva da vida psíquica –
distinta da descrição imaginária do ponto de
vista subjetivo – para a constituição da psicanálise
enquanto ciência natural. Contudo, parece que o que tem em
mente não se restringe à diferenciação
de dois modos de descrever um mesmo objeto, mas implica na diferenciação
de dois objetos fundamentalmente distintos que têm entre si
uma relação de causa e efeito : os mecanismos psíquicos
e as experiências psíquicas. Sua questão parece
não ser apenas epistemológica, mas também ontológica.
Senão vejamos:
Mas se Freud tivesse se limitado à abordagem subjetiva,
ele jamais teria chegado à concepção do Inconsciente
como sistema psíquico e ele jamais teria escrito “O
Ego e o id”.
Os mecanismos mentais podem também ser objetivamente descritos
enquanto processos mentais específicos provocando modificações
particulares na organização mental. Essas definições
se formulam também a partir dos dados da experiência
e a partir do ponto de vista do observador que procura conhecimentos
sobre os fatores mentais que condicionam a natureza da própria
experiência e do desenvolvimento dos modelos de reação.
[...]. Essas definições impessoais dos mecanismos
são acompanhadas pelas correspondentes concepções
objetivas do psiquismo, como as do tipo daquelas propostas por Freud
em sua definição do psiquismo como aparelho de regulação
da tensão pulsional.[7] (grifos meus)
Fica claro nesta passagem que o papel efetivamente causal é
atribuído aos processos psíquicos que só podem
ser apropriadamente descritos de modo objetivo, sem nenhuma referência
à experiência psíquica. Em sua função
causal tais processos provocam, como é afirmado, “modificações
particulares na organização mental”. Através
destas modificações, “condicionam a natureza
da própria experiência” – a significação
mesma das experiências, vale lembrar – e o “desenvolvimento
dos modelos de reação”. Deste modo, todo o circuito
experiencial das significações das reações
psíquicas às significações das experiências
psíquicas, não apenas conscientes, mas também
inconscientes, é concebido como sendo causado por processos
ou mecanismos psíquicos eles mesmos desprovidos de significações
e que, por isso mesmo, são melhor descritos numa linguagem
objetiva e impessoal. Desprovida de significação,
a causalidade psíquica é, ela mesma, concebida como
não-experiencial. Ou então, como veremos com mais
detalhe no que se segue, com uma qualidade experiencial tão
monótona que dificilmente pode ser considerada como psíquica.
Ora, como vimos, a proposta de Isaacs de considerar a fantasia
como o conteúdo primário de todos os processos psíquicos
é fundamentalmente contrária às concepções
de Brierley. Para ela, os mecanismos psíquicos, para serem
considerados psíquicos, devem possuir uma significação
e, portanto, devem ser considerados, neles mesmos, como tipos de
experiências subjetivas. Tal concepção tem muitas
implicações, mas antes de desenvolvermos a que nos
parece ser a principal delas, vamos concluir a exposição
da discussão entre as duas psicanalistas que nos ocupam para
melhor compreender as conseqüências da proposta de Isaacs
para a questão da causa psíquica que ainda não
terminamos de tratar.
Brierley, no já referido artigo citado por Isaacs, critica
não só a descrição, mas a própria
concepção de objeto interno proposta por M. Klein,
nos seguintes termos:
É imperativo, na ótica científica, distinguir
o modo perceptivo do modo conceitual de pensamento. A natureza não
sensível dos processos mentais e psíquicos torna obrigatória
sua discussão em termos abstratos. [...]. ... é possível
pensar numa mãe como realmente desmembrada, mas é
impossível conceber um objeto mental como estando literalmente
em pedaços – é impossível bater num objeto
mental com um martelo... Se nós concebemos o objeto como
mental, como uma organização no interior do eu, essa
enorme dificuldade é evitada. É possível pensar
em um sistema de objetos mentais não em termos de totalidades,
partes ou pedaços, mas em termos de integração
ou de desintegração.[8]
Respondendo de modo direto à provocação de
que “é impossível bater num objeto mental com
um martelo”, Isaacs objeta:
a) A criança sente (e mais tarde imagina) que ela realmente
bate em sua mãe (sentida ou imaginada) com um martelo (sentido
ou imaginado). Mme Klein não afirma que o objeto é
total ou está em pedaços como o veria um observador.
Ela diz que ele está assim para a criança. Ela fala
da experiência da criança no nível dos seus
desejos ou ações fantasiadas e de suas intenções
ou resultados fantasiados. E:
b) (É o mais importante) – quando a criança
sente que ela desmembrou sua mãe, sua vida mental fica clivada
e desintegrada – ela manifesta a mais aguda angústia,
ela fica confusa e se comporta de maneira caótica, ela não
pode nem ver, nem escutar, nem controlar o que faz e diz, e assim
por diante. Não se trata de modo algum que de início
sua vida mental se desintegre e que a seguir ele interprete isso
como um desmembramento de sua mãe. É porque ela quer
desmembrar sua mãe, porque ela tem a intenção
de fazê-lo, tenta fazer e o faz em sua imaginação,
é que sente seu próprio eu como clivado e desintegrado.
Ela manifesta por seu comportamento essa “desintegração
mental” que nós podemos descrever, nomear e discutir.[9]
Com estes comentários, Isaacs torna manifesto o alcance
de sua proposta de ampliação do significado do conceito
de fantasia. Considerar a fantasia o conteúdo de todos os
processos psíquicos, implica em afirmar, em primeiro lugar,
como já vimos, a fantasia e/ou a significação
como o elemento mínimo do psiquismo. Em segundo lugar, conseqüentemente,
implica também em dizer que no psiquismo não existe
causa que não seja psíquica, e que portanto é
a fantasia que desencadeia os mecanismos psíquicos, os quais
são, eles mesmos, fantasias. De tudo isto decorre a valorização
da idéia de experiência psíquica em detrimento
da noção de mecanismo psíquico, valorização
esta que tem vastas conseqüências para a psicanálise
contemporânea, o comentário das quais ultrapassa os
limites deste trabalho[10]. Para nos atermos às repercussões
mais imediatas, é importante ressaltar que para o pensamento
metapsicológico tradicional os efeitos do posicionamento
de Isaacs e dos kleinianos são estonteantes, pois ele implica
em uma inversão da relação entre tipos de enunciado
e vetores de causalidade usualmente encontrados nas ciências
naturais e, conseqüentemente, na metapsicologia. Nas ciências
naturais, as descrições se afastam do plano fenomênico
em direção às instâncias causais adotando
formas “impessoais e abstratas”, para empregar os termos
de Brierley. Em psicanálise, segundo Isaacs e os kleinianos,
a relação se inverte, pois o distanciamento do plano
fenomênico em direção às instâncias
causais se dá pelo emprego de descrições “passionais
e concretas”, pois passional e concreto é o plano causal
das fantasias. De um certo modo, poder-se-ia até mesmo dizer
que em psicanálise, “impessoal e abstrato” é,
em muitos aspectos, o próprio campo fenomênico de que
ela parte, como é o caso, por exemplo, da relação
que o sujeito tem com seu sintoma. Nada mais impessoal e abstrato.
Se é verdade que toda esta reviravolta não conduz
obrigatoriamente ao abandono do projeto científico encarnado
pela metapsicologia, conduz pelo menos, como o final da citação
de Isaacs deixa entrever, a uma aproximação entre
os construtos metapsicológicos e as descrições
clínicas, que é aliás o que se observa fartamente
nos escritos de M. Klein e de seus seguidores. Não é
à toa que Brierley se preocupa e abre o berreiro, apesar
de ser necessário acrescentar para lhe fazer justiça
que, ao contrário do grupo anna-freudiano, sua crítica
não lhe impede de admitir a importância clínica
das teorizações kleinianas, e mesmo de admirá-las
em muitos aspectos. Seu posicionamento teórico é próximo
do de Edward Glover, o que lhe confere uma proximidade pelo menos
histórica de certas temáticas kleinianas[11].
As Características Mínimas do Psíquico
Ao longo da leitura das Controvérsias, a pergunta que fica
por ser feita a Brierley, que não toca diretamente no assunto
em nenhum momento, diz respeito à sua concepção
de psíquico. Quais são as características que
a levam a considerar como psíquico um mecanismo ou um processo
concebido apenas em termos objetivos, despido de qualquer significação
e esvaziado de qualquer experiência subjetiva. Apesar de estar
justificada pela própria tradição metapsicológica,
que está cheia de descrições objetivas de processos
considerados como psíquicos, a ausência de resposta
a essa questão deixa a posição de Brierley
sob suspeita de epifenomenalismo. Brierley entende que esta acusação
está implicada na crítica de suas posições
feita por Isaacs – o que efetivamente é o caso –
e a recusa vigorosamente[12]. Insiste em que o mesmo objeto pode
ter dois tipos distintos de descrição, e que o fato
de que um mecanismo possa ser descrito de modo subjetivo não
libera o psicanalista da tarefa de descrevê-lo de modo objetivo.
Porém, como já foi dito, a impressão que fica
é a de que o que está em jogo não é
apenas uma ordem de realidade descrita de dois modos distintos,
mas de duas ordens distintas de realidade. A discussão deste
problema da independência entre os planos epistemológico
e ontológico nos distanciaria muito do nosso assunto, mas
do mesmo modo que poderíamos perguntar sobre o quê
de químico é designado por uma descrição
poética de uma reação química em um
tubo de ensaio, se aceitamos a tese de Isaacs sobre as características
mínimas do psíquico também podemos perguntar
a Brierley sobre o quê de psíquico é designado
por uma descrição objetiva de um mecanismo ou de um
processo desprovido de qualquer significação e de
qualquer traço de experiência subjetiva. O quê
de psíquico é designado, por exemplo, pela “definição
do psiquismo como aparelho de regulação da tensão
pulsional”?
Antes de abordar a pergunta, um pequeno contorno. Com a exceção
da psicologia do ego, que permaneceu fiel ao ideário cientificista
da ortodoxia anna-freudiana, praticamente todos os remanejamentos
clínicos e metapsicológicos propostos pelo conjunto
das orientações psicanalíticas que se sucederam
a Freud originaram-se de um certo repúdio da concepção
de psiquismo implicada pelas descrições “impessoais
e abstratas” requeridas por Brierley. Mais especificamente,
toda a psicanálise pós-freudiana em sua diversidade
– aí incluída a orientação lacaniana
que prefere não se considerar pós-freudiana mas que
o é – tem em comum a crítica direta ou indireta
dos aspectos biológicos e energéticos da teoria da
pulsão. Todas as orientações psicanalíticas
vão remanejar a teoria da pulsão de alguma forma,
quer seja como os kleinianos e os lacanianos, redefinindo a pulsão
em termos mais próximos da significação e da
expressão comunicativa do que da economia energética,
quer seja como os psicanalistas da relação de objeto
(Balint, Fairbairn, Winnicott) e da psicologia do self (Kohut),
propondo uma dimensão não-pulsional da experiência
psíquica como mais primordial para a constituição
do psiquismo do que a experiência pulsional, quer seja, ainda,
como os psicanalistas interpersonalistas americanos (Schafer, Stolorow,
Atwood, Brandchaft, Marcia Cavell), abandonando o próprio
conceito de pulsão junto com toda a perspectiva metapsicológica.
Curiosamente, de todas as correntes acima mencionadas, apenas aos
kleinianos é, muitas vezes, atribuída uma concepção
da pulsão próxima do biológico, que inclui
o aspecto econômico da quantidade energética. Certamente
isto se deve ao caráter acentuadamente internalista das concepções
kleinianas, que parecem reduzir o papel desempenhado pelo meio ambiente
e acentuar o papel atribuído ao fator inato da constituição
pulsional para todo o desenvolvimento psíquico, desenvolvimento
este considerado como determinado, em última instância,
pela proporção entre as quantidades de pulsão
de vida e de morte encontradas em cada indivíduo. Sobre o
caráter ambíguo da teoria kleiniana, a meio caminho
entre a manutenção dos pressupostos mecanicistas do
projeto científico de Freud e a valorização
da abordagem fenomenológica das ciências do espírito,
pode-se consultar o interessante artigo de Nigel Macckay, “Melanie
Klein’s methapsychology: phenomenological and mechanistic
perspective”[13]. Ali o autor procura analisar o fato da teoria
kleiniana receber avaliações radicalmente contrárias
por parte de psicanalistas que, por outro lado, compartilham a mesma
perspectiva de crítica radical da metapsicologia. Ora julga-se
que M. Klein se distancia da crueza da visão mecanicista
da teoria tradicional, ora julga-se que leva a concepção
mecanicista da mente ao seu paroxismo. Macckay, por seu lado, procura
mostrar em que medida ambas as avaliações são
plausíveis, mas, aparentemente solidário com o projeto
de crítica radical da metapsicologia, tende a considerar
a teoria kleiniana como representando uma iniciativa não
completamente bem sucedida de abandono dos pressupostos metapsicológicos.
Sua análise do kleinismo é precisa e equilibrada,
e o panorama que descortina bastante instrutivo sobre os pressupostos
da crítica norte-americana da metapsicologia. Contudo, não
consigo acompanhar o espírito mais profundo de sua avaliação,
na medida em que não estou de modo algum convencido de que
o abandono do projeto freudiano da psicanálise como ciência
natural requeira o abandono do pensamento metapsicológico.
A espinha dorsal da sucessão freudiana representada pelas
obras de Melanie Klein, Bion, Lacan e Winnicott, dá mostras
disso de modo veemente. As construções metapsicológicas
são instrumentos importantes para a apreensão e diferenciação
de tipos de experiência psíquica distintas e distantes
das experiências psíquicas mais comuns do eu consciente.
Retornando ao caso específico da teoria kleiniana das pulsões,
a verdade é que, apesar do cunho biológico e da razão
econômica que evidentemente contém, o modo pelo qual
Isaacs trata a questão da fantasia não deixa dúvidas
quanto ao esforço kleiniano de adicionar uma dimensão
significativa e expressiva ao caráter predominantemente energético
da concepção freudiana de pulsão. As fantasias,
no seu começo, diz Isaacs, são “pensamento implícito,
pensamento latente na impulsão[14], afeto e sensação”[15],
ou ainda, em outra passagem, são “uma expressão
das impulsões agressivas e libidinais”[16] Como deixa
entender Jean-Michel Petot em seu monumental Melanie Klein, enquanto
em Freud as pulsões governam o psiquismo sem estarem diretamente
ali presentes, mas apenas representadas por representações
e por afetos, em M. Klein elas parecem ali se manifestar não
por representação, mas de modo direto, nas qualidades
pulsionais da voracidade, inveja, gratidão, assim como também
nas fantasias, concebidas sem referência necessária
às representações, mas como já se manifestando
no plano primário das sensações[17].
A Alteridade como Intersubjetividade
Sem nos estendermos a respeito dos remanejamentos que os conceitos
kleiniano de pulsão e isaacsiano de fantasia operam sobre
o conceito freudiano de representação, é importante
notar que aqueles conceitos trazem, senão uma crítica
do solipsismo subjetivo implicado pelo conceito freudiano de representação,
ainda tributário da concepção clássica
de sujeito da representação[18], pelo menos a indicação
de uma possibilidade de saída desse solipsismo. Implícita
nas dimensões de significação e expressão
que a concepção de Isaacs de fantasia empresta imediatamente
à pulsão, encontra-se a idéia muito mais radical,
da qual Isaacs não parece se dar conta em toda sua extensão,
de vincular o início do psiquismo com a experiência
da intersubjetividade[19]. Vale à pena dizer, tal idéia
é muito mais difícil de ser assimilada pelo projeto
da metapsicologia como ciência natural do que a de significação,
ou, pelo menos, do que a de uma certa idéia simplificada
de significação. Se formos prestar atenção,
para Brierley a idéia de significação como
característica mínima do psíquico não
trazia nenhum problema. O que ela não aceitava é que
se igualasse significação à fantasia, o que
equivaleria a dizer que toda significação é
intersubjetiva, pois não há fantasia sem a idéia
de uma alteridade subjetiva.
Senão vejamos. Na sua crítica a Isaacs, Brierley
afirma: “A Sra. Isaacs, sem se dar conta, indicou uma palavra
melhor [do que fantasia]. Ela sublinhou que o caráter distintivo
da realidade psicológica é que ela tem uma significação”.
Logo depois revela sua idéia de significação
ao concluir:
e por que então não dizer que a experiência
do bebê, desde o início tem para ele uma significação
que provém das fontes de realidade ao mesmo tempo internas
e externas. A significação, mesmo primitiva ou muito
elaborada, é uma síntese dos fatores internos e externos.[20]
Pode-se então deduzir sem muito esforço que para
Brierley, assim como para a ortodoxia anna-freudiana, a característica
mínima do psíquico que interrogávamos se confunde
com o exercício do princípio do prazer em sua função
de regulação das tensões energéticas
oriundas tanto da pulsão quanto da realidade, alheio a qualquer
experiência de alteridade. Deste modo, o que confere ao psiquismo
do bebê sua “significação primitiva”
são, pura e simplesmente, as sensações de prazer
e de desprazer. Deste ponto de vista, a intersubjetividade só
se estabelece quando o outro é percebido como um dado de
realidade ao qual a criança tem acesso através do
amadurecimento do aparelho nervoso e da complexificação
associativa das inscrições da realidade (representações)
no aparelho psíquico. A alteridade é concebida como
sendo progressivamente percebida pelo aparelho psíquico,
e não como constitutiva do aparelho psíquico.
No que diz respeito à intersubjetividade em M. Klein, temos
que levar em conta algumas peculiaridades para melhor avaliar seu
estatuto, na medida em que ela é concebida como sendo experienciada
quase que exclusivamente no âmbito do “mundo interno”.
É verdade que depois da introdução da reflexão
sobre a linguagem na crítica filosófica contemporânea,
não existe nada mais difícil de conceber do que a
idéia de um “mundo interno”, e é esta
dificuldade que anima as críticas mais pertinentes que o
internalismo kleiniano não cessa de receber. É verdade
também que o “mundo interno” kleiniano pode ser
visto como um mundo construído todo ele a partir do estoque
pulsional inato de cada sujeito, sem que qualquer aspecto que seja
por parte de uma realidade tida como compartilhada venha a desempenhar
algum papel relevante em sua contituição. Apesar de
tudo isto, paradoxalmente, a expressividade que a idéia de
fantasia inconsciente precoce empresta à pulsão não
deixa de ter por base uma suposição de experiência
de intersubjetividade anterior. Se tomarmos as coisas por esse aspecto,
as fortes distorções que as pulsões, através
dos mecanismos de clivagem, introjeção e projeção,
impõem ao objeto, perdem importância diante da abertura
para o outro que elas não podem deixar de pressupor para
que tenham um suporte sobre o qual se aplicar. Mas mesmo que a alteridade
seja constituída apenas pela projeção da agressividade
decorrente da frustração da pulsão –
o objeto mau como sujeito –, o que importa é que a
pulsão traz, nela mesma, ou através dela, a dimensão
da intersubjetividade.[21] Na teoria kleiniana, a pulsão
não investe apenas as representações dos objetos,
mas constitui os objetos eles mesmos em sua subjetividade. Ela é
nela mesma, nos seus fatores de voracidade, de inveja e de gratidão,
abertura ao outro.
Por isto mesmo, e a despeito do papel quase que onipotente desempenhado
pelo estoque pulsional inato, o mundo interno kleiniano, com seus
objetos internos eles mesmos dotados de subjetividade, se mostra
como uma concepção de aparelho psíquico no
qual a intersubjetividade desempenha um papel interno e primário
muito mais importante do que nas concepções freudianas
de aparelho psíquico, nas quais ela só aparece de
modo externo e secundário. O objeto kleiniano da pulsão
é, ele mesmo, um sujeito, o que faz com que a concepção
de psíquico de M. Klein requeira, como característica
mínima, a dimensão da intersubjetividade. Em Freud,
apenas na segunda tópica, com o aparecimento do superego,
se pode encontrar uma instância de alteridade constitutiva
do aparelho psíquico. Mas, justamente, a metapsicologia kleiniana
se molda a partir da decisão, já esboçada por
Abraham, de dar conseqüência à lógica freudiana
da construção do superego. Daí a valorização
dos mecanismos de introjeção e de projeção,
o surgimento das noções de objeto interno, de mundo
interno e, finalmente, de fantasia inconsciente como natureza do
tecido do mundo interno.
Ao propor a fantasia como conteúdo primário de todos
os processos psíquicos, Isaacs nada faz senão insistir
na necessidade de conceber a dimensão intersubjetiva como
característica mínima do psíquico. O corolário
disto é o recuo do surgimento da fantasia para o início
da vida do bebê, o que implica em dizer que o bebê é
um ser aberto ao outro enquanto outro desde o seu nascimento. Este,
certamente, foi o ponto da teoria kleiniana mais difícil
de ser aceito, e o que mais provocou a oposição dos
anna-freudianos, de Brierley e mesmo dos analistas da teoria da
relação de objeto, como veremos a seguir.
A Alteridade na Dependência Amorosa
Levando-se em consideração o que já foi dito
até agora, a discussão entre kleinianos e anna-freudianos
sobre a questão da data de surgimento da fantasia não
guarda muitas surpresas. Enquanto os kleinianos procuravam justificar
a concepção de um bebê intersubjetivo, aberto
para a alteridade desde o início da vida pela via de mecanismos
psíquicos extremamente complexos, os anna-freudianos se batiam
pela manutenção do quadro de referência da vulgata
freudiana. Robert Wälder, um dos expoentes do grupo de Anna
Freud, afirmava que a experiência psíquica do bebê
no primeiro ano de vida é restrita a processos psíquicos
“relativamente simples e pouco numerosos” [22], todos
eles próximos do funcionamento simplificado do princípio
do prazer. Os anna-freudianos insistiam ainda, e este é um
ponto importante, no caráter auto-erótico e narcísico
do início do desenvolvimento libidinal infantil, caráter
este que impedia, segundo seu modo de ver, admitir que o bebê
possuísse qualquer tipo de representação de
alteridade, o que por conseguinte também impedia, ainda segundo
seu modo de ver, admitir a existência de qualquer tipo de
relação com qualquer instância de alteridade
subjetiva.
No que tange o estatuto da alteridade no início da vida
do bebê, talvez a questão mais interessante para a
psicanálise contemporânea não se encontre implicada
nas divergências entre as posições de Anna Freud
e Melanie Klein, mas sim nas divergências entre as posições
de Klein e as dos psicanalistas da teoria da relação
de objeto, Michael Balint entre eles[23]. Como já foi mencionado,
não foi apenas a obra de M. Klein que representou uma revisão
da teoria pulsional. Muito pelo contrário, como já
vimos, sua revisão se dá de um modo subliminar, muitas
vezes não percebido em suas conseqüências mais
radicais. De fato, desde pelo menos 1935, Balint já criticava
a teoria ortodoxa da pulsão em sua acepção
biológica e energética de um modo muito mais explícito
que o de M. Klein. Embora reconhecesse a coragem desta última
por ter sido a primeira em insistir na existência de relações
objetais desde o início da vida, Balint tendia a considerar
a teoria kleiniana como uma tentativa artificial de adaptação
da teoria ortodoxa da pulsão às evidências clínicas
da existência de relações objetais precoces[24].
Como já foi dito, diferentemente de M. Klein que preferiu
redefinir o conceito de pulsão em termos expressivos, os
psicanalistas da relação de objeto preferiram propor
como característica mínima do psíquico uma
dimensão não-pulsional da experiência, anterior
à experiência pulsional, dimensão esta que se
constituía como o terreno sobre o qual todo o psiquismo se
enraíza. Para Balint este terreno é o do amor primário.
Balint parte da crítica da teoria das fases pulsionais de
Abraham que na época se impunha como grade de referência
obrigatória para a abordagem do período pré-edipiano
do desenvolvimento infantil. Segundo ele, a simples consideração
das mudanças das zonas erógenas e dos objetivos pulsionais
é insuficiente para explicar as mudanças na qualidade
das relações objetais da criança. Faz-se necessário,
portanto, tratar de modo independente o desenvolvimento pulsional
e o desenvolvimento amoroso das relações de objeto.
Apoiando-se numa leitura criteriosa de Freud, e dando seqüência
ao pensamento de Ferenczi que é sua principal referência,
Balint insiste em que a primeira posição da libido
é terna, não-pulsional, e tem por objeto a mãe
nutridora. Ou seja: ao contrário do que pensam os anna-freudianos,
o bebê não é narcísico e nem é
auto-erótico. Esta primeira posição da libido
ele denomina de amor primário. O amor primário é
caracterizado por um traço paradoxal que diferencia a posição
de Balint da posição de M. Klein: ele é objetal
a despeito da criança não ter nenhuma representação
do objeto.
É verdade que o mundo da criança ainda não
foi separado entre o eu e o mundo externo. [...]. Até mesmo
objetos externos que são indispensáveis para a vida,
o seio materno, p. ex., ainda não estão separados
psiquicamente do eu. Mas libidinalmente a criança é
completamente dependente dos cuidados do mundo externo, sem os quais
ela simplesmente morreria.[25]
Toda a dificuldade que Balint enfrenta com uma decisão que
beira a obstinação é esta: caracterizar como
abertura para a alteridade uma relação não
mediada por nenhuma representação do outro. Nos termos
clássicos da teoria abrahamiana do desenvolvimento pulsional,
neste estágio teríamos, do lado da pulsão,
a fase oral, e do lado do objeto, o auto-erotismo anobjetal e logo
depois o narcisismo. Balint recusa o caráter anobjetal ou
narcísico desta fase. Considera que todo narcisismo é
patológico e secundário em relação ao
amor primário. Recusa também que se possa considerar
as características psíquicas desta fase apenas em
termos pulsionais, ou seja, apenas em termos da descarga da tensão
pulsional proporcionada pela experiência de satisfação.
Insiste no caráter amoroso da relação mãe-bebê.
Insiste no valor psíquico da qualidade dos cuidados maternos.
Insiste na existência de uma relação apesar
da inexistência da representação do outro.
A base biológica desta relação objetal primária
é a interdependência pulsional da mãe e da criança,
ambas são dependentes uma da outra, mas ao mesmo tempo estão
sintonizadas uma com a outra ...[26] (grifo meu).
A idéia de uma sintonia que se acrescenta à dependência
do plano da satisfação pulsional é o modo pelo
qual procura introduzir uma dimensão de experiência
de alteridade, paralela à experiência de satisfação
pulsional, mas que não se confunde com ela. Balint reconhece
as dificuldades de sua posição, mas insiste em sua
importância e na comprovação que encontra na
clínica e na observação de bebês. Não
cabe nos limites do presente trabalho rastrear suas dificuldades
e os argumentos que emprega para contorná-las. Basta procurar
cernir sua significação para o problema de que nos
ocupamos.
Tanto a fantasia precoce inconsciente dos kleinianos quanto o amor
primário de Balint encontram sua razão mais radical
na instalação da alteridade como instância constitutiva
do psiquismo. Contudo, a maneira pela qual cada um concebe o estatuto
da alteridade na constituição do psiquismo difere
de modo significativo. Os kleinianos, como já foi visto,
concebem a alteridade constitutiva do psiquismo em termos de intersubjetividade:
é na relação com um sujeito (objeto mau) que
pode me tomar para si como objeto pulsional que a fantasia se constitui
e a experiência psíquica se inaugura. Para Balint as
coisas se passam de outro modo. Para ele, a alteridade constitutiva
do psiquismo é concebida não em termos intersubjetivos,
mas em termos de dependência amorosa. Deste modo, não
é necessário que o pequeno sujeito tenha uma representação
ou uma sensação da existência de um outro sujeito
diante si, mas apenas que tenha um certo tipo de sintonia em relação
ao outro que faça com que o seu psiquismo se forme, desde
o início, na dependência estreita da presença
do psiquismo do outro. Esta maneira de conceber o nascimento do
psiquismo implica na desvalorização da pulsão
de morte: as frustrações pulsionais não são
traduzidas como privação infligida pelo sujeito-objeto-mau,
como em M. Klein. Dependendo de sua amplitude, as frustrações
podem ou não ter nenhuma conseqüência, ou prejudicar
em maior ou menor extensão a estrutura do ego, na forma do
que Balint chama de “falha básica”, mas jamais
serão vividas como persecutórias, uma vez que a distinção
entre eu e não-eu ainda não teve lugar.
As posições de M. Klein e de Balint aqui indicadas,
e que dizem respeito ao estatuto da alteridade na constituição
do sujeito, tiveram uma posteridade extremamente importante na história
do movimento psicanalítico. Aceitando-se um certo grau de
esquematismo, talvez se possa dizer que entre elas se dividem e
se cruzam as principais orientações psicanalíticas
atuais. Para finalizar, gostaria de fazer algumas observações
a respeito da maneira como dois autores, Winnicott e Lacan, se posicionam
nessa constelação.
Winnicott e a Experiência Pré-Subjetiva
Embora Winnicott não faça muitas referências
a Balint, a proximidade entre os dois autores é enorme. A
concepção de Winnicott do início da experiência
psíquica em termos de identificação primária
e não em termos de relação de objeto parece
trazer uma boa perspectiva de solução para os impasses
de Balint. Para Winnicott o sujeito se enraíza na experiência
do ser, antes de poder experimentar as experiências pulsionais
do fazer. Na primeira relação com o seio, a criança
é o seio. Esta experiência de ser antecede a experiência
da diferenciação entre sujeito e objeto, antecede
a experiência do eu.
O importante é notar que eu sou não significa nada
a menos que eu no início seja junto com um outro ser humano
que ainda não se diferenciou. Por esta razão é
mais verdadeiro falar sobre ser do que usar as palavras eu sou,
que pertencem à próxima etapa.[27]
Esta concepção acompanha a intuição
balintiana de uma dimensão não-pulsional da experiência,
anterior a, e, agora com Winnicott, também possibilitadora
de toda a experiência pulsional. Winnicott chama a experiência
identificatória do ser de elemento puro feminino, e a experiência
pulsional do fazer de elemento puro masculino.
Quero dizer que o elemento que estou chamando masculino age em
termos do relacionar-se ativo ou do ser relacionado passivo, cada
um sustentado pela pulsão. É no desenvolvimento desta
idéia que falamos de pulsão na relação
do bebê com o seio... Minha sugestão é que,
por contraste, o elemento puro feminino se relaciona com o seio
(ou com a mãe) no sentido do bebê se tornar o seio
(ou mãe), no sentido de que o objeto é o sujeito.
Não posso ver nenhuma pulsão [instinct drive] nisto.[28]
Tanto Balint quanto Winnicott concebem a dimensão não-pulsional
da experiência como anterior à diferenciação
eu–não-eu. Balint, contudo, ao insistir na idéia
de uma relação primária amorosa de objeto,
no sentido de uma sintonia entre sujeito e objeto, não pôde
se livrar de uma certa concepção de sujeito já
dado, anterior ao relacionamento com o objeto. A concepção
de Winnicott de uma dimensão pré-subjetiva da experiência,
anterior à diferenciação eu–não-eu,
sustentada pela identificação primária, permite
conceber de um modo mais simples aquilo mesmo que Balint pretendia,
ou seja, atribuir à alteridade um papel constitutivo para
o psíquico sem a necessidade de hipóteses de mecanismos
muito complexos logo no início da vida[29], como era o caso
das teorizações kleinianas que tanta oposição
geraram no meio da comunidade psicanalítica em geral.
O sentido que Winnicott empresta à misteriosa e pouco explorada
noção freudiana de identificação primária,
e a dimensão de experiência que nela descortina, é
rica no que diz respeito à busca de saídas para as
dificuldades que a concepção de sujeito clássico
da representação traz para a psicanálise. Em
uma série de artigos dedicados à novidade que a obra
de Winnicott representa para o pensamento psicanalítico,
Zeljko Loparik faz observações preciosas a esse respeito[30].
Para os limites do presente trabalho é suficiente notar que
a idéia de uma dimensão primária não-pulsional
da experiência, e, principalmente, a idéia de dependência
psicossomática que se encontra a ela conjugada, estão
na raiz de modificações essenciais na concepção
que os psicanalistas fazem sobre seu próprio papel no tratamento
analítico: ao lado da importância da interpretação
dos sintomas, a qualidade da relação analítica
como continente para as partes não-apenas-neuróticas
do sujeito passa a atrair o principal dos esforços clínicos
e teóricos da maioria dos psicanalistas contemporâneos.
Lacan entre a Experiência e a Metapsicologia
Na época de que nos ocupamos no presente trabalho, a posição
de Lacan em relação às concepções
do papel da alteridade na constituição do psiquismo
avançadas por Balint (e posteriormente por Winnicott), por
um lado, e pelos kleinianos, por outro, é bastante clara.
No início de seu ensino, a despeito da admiração
manifesta pela intuição clínica de Balint,
Lacan se posiciona sem ambigüidades do lado dos kleinianos,
contra Balint. A dimensão primeira da experiência psíquica,
para Lacan, é intersubjetiva.
Vocês vêem ao mesmo tempo que, ao contrário
da perspectiva de Balint, e é muito mais conforme nossa experiência,
que nós sempre devemos partir de uma intersubjetividade radical,
da admissão total do sujeito pelo outro sujeito. É
retrospectivamente, nachträglich, a partir da experiência
adulta que nós devemos abordar as experiências originais
supostas, marcando as degradações, sem jamais sair
do domínio da intersubjetividade. Na medida em que permanecemos
no registro analítico, é necessário admitir
a intersubjetividade na origem.[31]
Um pouco mais adiante, sustentando posição contra
a tendência anna-freudiana de considerar a satisfação
pulsional simplesmente nos termos econômicos do princípio
do prazer, e enfatizando, nos moldes kleinianos, a dimensão
intersubjetiva implicada em qualquer frustração pulsional,
assinala:
Algo sempre escapa quando se fala de frustração.
Por causa de uma tendência naturalista da linguagem, ...,
omite-se de assinalar que o sujeito sente a frustração.
A frustração não é um fenômeno
que se possa objetivar no sujeito sob a forma de um desvio do ato
que o une a este objeto. Não se trata de uma aversão
animal. Tão prematuro quanto ele seja, o sujeito sente ele
mesmo o mau objeto como uma frustração. E, ao mesmo
tempo, a frustração é sentida no outro[32]
(grifo meu).
A referência ao pensamento de M. Klein, como sempre, é
críptica, mas a alusão à idéia kleiniana
da transformação da frustração em privação,
característica da posição esquizo-paranóide,
é bem clara: a utilização do termo “mau
objeto” não deixa dúvidas a esse respeito. Três
anos depois, no seminário sobre as relações
de objeto, Lacan virá a modificar de modo sistemático
a teoria kleiniana das posições esquizo-paranóide
e depressiva. As três categorias da falta propostas por Lacan
no referido seminário – frustração, privação
e castração – podem ser compreendidas, sem muita
dificuldade, como uma reelaboração da teoria kleiniana
da transformação da frustração em privação
na posição esquizo-paranóide, em um primeiro
momento, e de sua transcrição, através da culpabilidade,
na síntese da posição depressiva, em um segundo
momento. Tal reelaboração se dá, basicamente,
pela substituição dos mecanismos pulsionais de projeção
e introjeção pelas operações que a linguagem
impõe à ordem vital. As diferenças e semelhanças
clínicas entre as experiências das posição
esquizo-paranóide com as experiências da frustração
e da privação, e as experiências da posição
depressiva com as experiências da castração
ainda não foram objeto de estudos que tivessem a difusão
requisitada pela importância do assunto. Os lacanianos preferem,
nesse ponto, se limitar a avalizar a propensão de Lacan,
notada por Elizabeth Roudinesco, de diminuir sua dívida em
relação aos psicanalistas que o antecederam na reelaboração
do pensamento de Freud para melhor se colocar como seu único
herdeiro. Os kleinianos que realmente entenderam o pensamento de
Lacan, por sua vez, se transformaram em lacanianos, o que nos remete
ao caso anterior e redobra as dificuldades de um trabalho criterioso
de comparação das duas teorias.
No que diz respeito à intersubjetividade em Lacan, é
necessário ainda observar que o fato de que seja concebida
como precedida e possibilitada pela identificação
simbólica formadora do ideal de eu não lhe retira
o lugar de experiência inaugural do psíquico. O tempo
de instalação da identificação simbólica
não é tematizado, por Lacan, em termos experienciais,
mas sim como uma operação que possibilita a instalação
da experiência intersubjetiva. É somente em um segundo
momento, o do pacto simbólico, no seminário I, ou
da castração, a partir do seminário IV, que
a instância simbólica que estruturalmente condiciona
o imaginário da experiência intersubjetiva pode vir
a ser traduzida em uma tonalidade experiencial mais consoante com
seu próprio estatuto ternário. De modo geral, contudo,
Lacan tende a considerar que é apenas como efeito da cura
psicanalítica que os fatores estruturais condicionantes da
experiência imaginária podem vir a ser efetivamente
experimentados. Daí o fato de que a maior parte das referências
de Lacan ao plano da experiência sejam feitas em termos de
“experiência analítica”. Tudo isso deriva
da diferenciação, encontrada no pensamento de Lacan,
entre o plano da estrutura e o plano da experiência. Neste
ponto ele se diferencia tanto de Winnicott, quanto também
de M. Klein, cujos modos de pensar pressupõem que é
apenas a experiência do que antecede que prepara o terreno
para a experiência do que sucede. Dito de outro modo, para
estes últimos a gênese do psíquico é
psíquica, enquanto que para Lacan, a gênese do psíquico
é lógico-estrutural, o que faz com que a resolução
dos impasses da experiência não se encontre na experiência,
mas sim na estrutura.
A partir destas observações pode-se melhor perceber
a ressonância dos diversos planos implicados nas questões
discutidas nas Controvérsias sobre o pensamento de Lacan.
Grande parte das elaborações de seus seminários
iniciais podem ser melhor compreendidas quando vistas como um esforço
de síntese dos diversos posicionamentos presentes no cenário
psicanalítico da época, principalmente o inglês.
Se, por um lado, é verdade, como afirmamos, que Lacan acompanha
o movimento mais amplo da crítica pós-freudiana da
teoria clássica do sujeito da representação
ao considerar a relação com a alteridade como característica
mínima do psíquico, e que além disso acompanha
mais especificamente M. Klein ao postular a intersubjetividade como
primeiro modo de relação com a alteridade, é
também verdade, por outro lado, que não deixa de acompanhar
Marjorie Brierley e a ortodoxia anna-freudiana na fidelidade ao
projeto de Freud de inclusão da psicanálise no conjunto
das ciências naturais. Apenas em seu caso tal fidelidade não
se expressa pela manutenção literal do projeto, mas
pela interpretação do seu espírito. Deste modo,
apesar de sua sintonia com a sensibilidade de M. Klein a respeito
das características do início da vida psíquica,
não deixará de compartilhar com Brierley e com a ortodoxia
anna-freudiana a aversão pelo caráter imaginário
das descrições kleinianas e o sentimento da necessidade
de dar continuidade à invenção metapsicológica
através de descrições das condições
objetivas da experiência subjetiva. Tais descrições,
como insiste Brierley, devem ser feitas a partir de um ponto de
vista externo à experiência subjetiva que constitui
o objeto a ser descrito, devendo para tanto empregar um vocabulário
distinto do das emoções e sentimentos que compõem
a palheta qualitativa da experiência subjetiva. Contudo, como
o vocabulário da metapsicologia freudiana é composto
a partir de concepções de energia e de representação
alheias à dimensão da relação com a
alteridade, sua manutenção acrítica sempre
incorrerá no perigo de epifenomenalismo tão bem visto
por Isaacs. Para contornar esta dificuldade sem cair no perigo do
imaginário kleiniano das descrições subjetivas,
Lacan vai recompor o vocabulário da metapsicologia freudiana
substituindo progressivamente sua base energético-representativa
por uma lógica do significante cujos elementos mínimos
já se encontram, eles mesmos, no campo gravitacional da alteridade
em sua relação constitutiva com o sujeito. No momento
do Seminário I, o plano de distanciamento em relação
à experiência subjetiva que, na acepção
de Brierley, qualquer enunciado metapsicológico deve possuir,
é garantido pelo lugar do simbólico enquanto instância
determinante do imaginário da experiência subjetiva
(egóica). O curioso em Lacan, como já foi visto, é
que sua concepção de instâncias determinantes
da estrutura e instâncias determinadas da experiência
não impede que se pense na qualidade experiencial das próprias
instâncias determinantes: o registro ternário do simbólico
que determina à distância o plano dual da experiência
imaginária virá posteriormente orientar mais diretamente
a experiência ternária do pacto simbólico (Seminário
I) ou da castração (Seminário IV). Do mesmo
modo, a experiência analítica é concebida, grosso
modo, como experiência de redução do imaginário
a seus determinantes simbólicos. Ao mesmo tempo que afasta
o perigo do epifenomenalismo, tal peculiaridade abre a possibilidade
da discussão sobre os lugares da experiência no pensamento
de Lacan. Pelo momento basta dizer que tudo se passa como se Lacan,
com suas teorias dos três registros, da diferença entre
ego e sujeito do inconsciente e da lógica do significante,
tivesse procurado se manter num estreito caminho entre os abismos
kleinianos da emoção subjetiva e as desoladas abstrações
do objetivismo da ortoxia anna-freudiana. Sei que a idéia
de um Lacan do juste millieu não agradará muito aos
ardorosos defensores da “ética da psicanálise”,
no entanto devo insistir, pois acho muito mais proveitosa para a
reflexão a faceta do Lacan temperado, procurando caminho
nas questões de que se ocupavam os psicanalistas de sua época,
do que a do Lacan radical, herói de um patriarca traído.
Octavio de Souza é psicanalista,
pesquisador Adjunto do Instituto Fernandes Figueira – FIOCRUZ,
Professor Assistente do Departamento de Psicologia – PUC-Rio.
N o t a s
1 Pearl King et Riccardo Steiner, Les Controverses Anna Freud Mélanie
Klein. PUF. Paris, 1996 : p. 260. (Nota do Editor de « Gradiva
» : há uma tradução brasileira feita
pela editora Imago).
2 Idem, ibidem.
3 Idem, p. 261.
4 Idem, p. 457.
5 Idem, p. 483.
6 Idem, p. 483.
7 Idem, 483-484.
8 Idem, p. 261.
9 Idem, p. 263. Cf. também, no mesmo sentido, os comentários
de Paula Heimann, p. 511-514.
10 Cf. D. Meltzer., « The Kleinian expansion of Freud’s
metapsychology », International Journal of Psycho-Analysis,
nº 62, 1981.
11A respeito do papel de Glover ao longo das controvérsias,
reportar-se aos importantes artigos de Luis Eduardo Prado de Oliveira,
tradutor francês das Controverses, « Du Bruit et du
silence » e « Un Transfert venu d"ailleurs : réevaluation
des controverses entre Melanie Klein et Anna Freud », a serem
publicados na coleção Histoire de la Psychanalyse,
PUF.
12Cf. Controverses, p. 310.
13 Nigel Macckay, « Melanie Klein’s methapsychology:
phenomenological and mechanistic perspective », International
Journal of Psycho-Analysis, nº 62, 1981.
14Impulse ou impulsion, aqui traduzidos por « impulsão
», como observa o tradutor francês das Controvérsias,
são um dos cinco termos que na época serviam para
traduzir o Trieb alemão para o inglês. Cf. Controverses,
p. 20.
15Controverses, p. 271.
16 Id., p. 275.
17 Cf. Jean Michel Petot, Melanie Klein v.II. The Ego and the good
object 1932-1960, International Universities Press. Connecticut.
1991, p.192-193. Na mesma passagem, o autor faz interessantes comentários
sobre algumas diferenças entre os vocabulários de
Isaacs e Klein para a descrição da vida pulsional.
Nota do editor de « Gradiva » :há uma edição
brasileira, em dois volumes, pela editora Perspectiva.
18 Cf., a respeito da relação de Freud com a concepção
clássica do sujeito da representação, duas
obras que, embora partindo de pressupostos filosóficos bastante
diferentes, sustentam apreciações aproximáveis
: Marcia Cavell, The Psychoanalytic mind. Harvard University Press.
Massachusetts. 1996 ; Mikkel Borsch-Jacobsen, Le Sujet Freudien.
Flammarion. Paris. 1982.
19No presente trabalho não tratarei da questão do
quanto a noção de intersubjetividade acaba por pressupor
a existência prévia de subjetividades não-intersubjetivas.
Até mesmo Lacan, talvez o único psicanalista a fazer
uma crítica explícita da noção de intersubjetividade,
iniciou seu percurso enfatizando a dimensão da intersubjetividade
para criticar o ponto de vista biológico e energético
da pulsão. Para a época em que procuro me limitar,
a noção da intersubjetividade tem uma potencialidade
crítica importante o suficiente para que possamos permanecer
nos seus limites.
20Controverses, p. 309-310.
21Sobre o papel da voracidade na transformação da
frustração pulsional em privação fantasística
por parte do objeto mau, cf. Melanie Klein v.II, p. 191-196.
22Controverses, p. 278.
23No que segue, deixaremos a obra de Fairbairn de lado, embora
ela comporte posicionamentos muito próximos dos de Balint
no que concerne os pontos aqui abordados.
24Cf. Balint, Michael. Primary love and psycho-analytic technique.
Da Capo Press. New York. 1986, p. 38 e 92-94.
25Primary love, p. 63.
26Primary Love, p. 102.
27D. W. Winnicott, apud Jan Abram, The Language of Winnicott. Jason
Aronson. Northvale. 1997, p. 58.
28D. W. Winnicott, Playing and reality. Penguin Books. Harmondsworth.
1974, p. 93.
29“Do lado feminino, no entanto, a identidade requer tão
poucas estruturas mentais que esta identidade primária pode
ser uma característica desde muito cedo, e a fundação
para simplesmente ser pode estar presente desde a data do nascimento,
ou antes, ou logo depois ...” Playing and reality, p. 94-95.
30Cf. de Zeljco Loparic, entre outros: “Winnicott e o pensamento
pós-metafísico”. Psicologia USP, v. 6. São
Paulo. 1995; “Winnicott: uma psicanálise não-edipiana”.
Percurso no 17. São Paulo. 1996
31Jacques Lacan, Les Écrits techniques de Freud, 1953-1954.
Seuil. Paris. 1975, p. 242.
32Les Écrits techniques de Freud, p. 247.
--------------------------------------------------------------------------------
[1] Pearl King et Riccardo Steiner, Les Controverses Anna Freud
Mélanie Klein. PUF. Paris, 1996 : p. 260. (Nota do Editor
de « Gradiva » : há uma tradução
brasileira feita pela editora Imago).
[2] Idem, ibidem.
[3] Idem, p. 261.
[4] Idem, p. 457.
[5] Idem, p. 483.
[6] Idem, p. 483.
[7] Idem, 483-484.
[8] Idem, p. 261.
[9] Idem, p. 263. Cf. também, no mesmo sentido, os comentários
de Paula Heimann, p. 511-514.
[10] Cf. D. Meltzer., « The Kleinian expansion of Freud’s
metapsychology », International Journal of Psycho-Analysis,
nº 62, 1981.
[11] A respeito do papel de Glover ao longo das controvérsias,
reportar-se aos importantes artigos de Luis Eduardo Prado de Oliveira,
tradutor francês das Controverses, « Du Bruit et du
silence » e « Un Transfert venu d"ailleurs : réevaluation
des controverses entre Melanie Klein et Anna Freud », a serem
publicados na coleção Histoire de la Psychanalyse,
PUF.
[12] Cf. Controverses, p. 310.
[13] Nigel Macckay, « Melanie Klein’s methapsychology:
phenomenological and mechanistic perspective », International
Journal of Psycho-Analysis, nº 62, 1981.
[14] Impulse ou impulsion, aqui traduzidos por « impulsão
», como observa o tradutor francês das Controvérsias,
são um dos cinco termos que na época serviam para
traduzir o Trieb alemão para o inglês. Cf. Controverses,
p. 20.
[15] Controverses, p. 271.
[16] Id., p. 275.
[17] Cf. Jean Michel Petot, Melanie Klein v.II. The Ego and the
good object 1932-1960, International Universities Press. Connecticut.
1991, p.192-193. Na mesma passagem, o autor faz interessantes comentários
sobre algumas diferenças entre os vocabulários de
Isaacs e Klein para a descrição da vida pulsional.
Nota do editor de « Gradiva » :há uma edição
brasileira, em dois volumes, pela editora Perspectiva.
[18] Cf., a respeito da relação de Freud com a concepção
clássica do sujeito da representação, duas
obras que, embora partindo de pressupostos filosóficos bastante
diferentes, sustentam apreciações aproximáveis
: Marcia Cavell, The Psychoanalytic mind. Harvard University Press.
Massachusetts. 1996 ; Mikkel Borsch-Jacobsen, Le Sujet Freudien.
Flammarion. Paris. 1982.
[19] No presente trabalho não tratarei da questão
do quanto a noção de intersubjetividade acaba por
pressupor a existência prévia de subjetividades não-intersubjetivas.
Até mesmo Lacan, talvez o único psicanalista a fazer
uma crítica explícita da noção de intersubjetividade,
iniciou seu percurso enfatizando a dimensão da intersubjetividade
para criticar o ponto de vista biológico e energético
da pulsão. Para a época em que procuro me limitar,
a noção da intersubjetividade tem uma potencialidade
crítica importante o suficiente para que possamos permanecer
nos seus limites.
[20] Controverses, p. 309-310.
[21] Sobre o papel da voracidade na transformação
da frustração pulsional em privação
fantasística por parte do objeto mau, cf. Melanie Klein v.II,
p. 191-196.
[22] Controverses, p. 278.
[23] No que segue, deixaremos a obra de Fairbairn de lado, embora
ela comporte posicionamentos muito próximos dos de Balint
no que concerne os pontos aqui abordados.
[24] Cf. Balint, Michael. Primary love and psycho-analytic technique.
Da Capo Press. New York. 1986, p. 38 e 92-94.
[25] Primary love, p. 63.
[26] Primary Love, p. 102.
[27] D. W. Winnicott, apud Jan Abram, The Language of Winnicott.
Jason Aronson. Northvale. 1997, p. 58.
[28] D. W. Winnicott, Playing and reality. Penguin Books. Harmondsworth.
1974, p. 93.
[29] “Do lado feminino, no entanto, a identidade requer tão
poucas estruturas mentais que esta identidade primária pode
ser uma característica desde muito cedo, e a fundação
para simplesmente ser pode estar presente desde a data do nascimento,
ou antes, ou logo depois ...” Playing and reality, p. 94-95.
[30] Cf. de Zeljco Loparic, entre outros: “Winnicott e o
pensamento pós-metafísico”. Psicologia USP,
v. 6. São Paulo. 1995; “Winnicott: uma psicanálise
não-edipiana”. Percurso no 17. São Paulo. 1996
[31] Jacques Lacan, Les Écrits techniques de Freud, 1953-1954.
Seuil. Paris. 1975, p. 242.
[32] Les Écrits techniques de Freud, p. 247.
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