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O PAI NO RASTRO DA SAUDADE *
Helena D’Elia
"Todas as nações são mistérios,
e cada nação, para si mesma, um outro mistério."
Fernando Pessoa
A amplidão das migrações, como mal estar
próprio de nossa época, nos leva a questionar nosso
modo de abordagem teórica e ética do sofrimento, em
particular no exílio, e por conseqüência nossa
posição na cura. Como considerar, na singularidade
do discurso clínico, elementos que fazem sentido porque referidos
ao cultural sem trair a escuta que nos remete para um sujeito estruturalmente
clivado pelo não-sentido e pelos efeitos daquilo que ele
não pode saber. Trata-se de uma impossibilidade estrutural
em torno da qual o inconsciente se constitui. A partir desse questionamento
pareceu-me necessário trabalhar a noção do
sujeito em sua relação com o Outro da cultura, articulado
ao modo de representação do Pai, modo de que tratarei,
em seguida, dentro da cultura portuguesa no rastro da saudade.
Introduzo-me neste debate apoiando-me na teoria e na ética
psicanalíticas pelo que elas revelam em seu próprio
advento na cultura moderna, a saber que a condição
humana se funda numa falta, numa hiância. A possibilidade
de tal afirmação remove o homem de sua crença
de ser sujeito do conhecimento assim como de ser lugar da totalização
do saber. Essa última concepção é antes
constitutiva da psicologia que se apoia em uma lógica do
homem como sendo uma pessoa global, unidade lógica que mascara
a béance estrutural da condição humana em seu
modo de fazer uso da linguagem.
A psicanálise opõe-se a tal concepção
por ter descoberto, com o inconsciente, o paradoxo do sujeito constituído
por aquilo que não pode saber, de um sujeito perfurado no
lugar do saber da verdade original, ou seja, do gozo. Essa noção
de gozo foi extraída na teoria freudiana do modelo do prazer
que se pode encontrar na relação sexual. Trata-se
do modelo da felicidade. Entretanto, a satisfação
obtida está aquém daquela que se acredita poder esperar,
ou seja, uma satisfação absoluta sempre referida a
uma demanda incestuosa. A estruturação edipiana, concebida
em relação ao pai, que vem impor sua lei da proibição
do incesto, é um modo de significar e de simbolizar a impossibilidade
estrutural dessa satisfação. Impossibilidade que,
segundo Freud, encontra seu fundamento na diferença sexual.
Lacan retoma o termo de gozo enquanto referido ao campo do direito,
que remete para a idéia de distribuir, de repartir ou de
retribuir o gozo de um bem. Não estamos no campo da necessidade
pois o gozo é o que não serve para nada. Entretanto
a palavra usufruto utilizada pelo direito mostra que o que é
da ordem da utilidade é vinculado ao que é da ordem
do fruto, do proveito, ou seja, do gozo. Estamos presos à
utilidade porque temos a ilusão de que ela pode preencher
a insatisfação. Mas a experiência denuncia que
o útil não consegue fazer com que pare a demanda que
insiste mais e mais..., porque nesse ponto estamos no registro do
desejo, registro que diferencia o humano do animal.
A respeito desse registro, Lacan nos remete a um sujeito do gozo
que segue em direção de seu advento. Tal sujeito,
também chamado de mítico, situa-se por esse nada que
não é sequer a falta de algo. Esse nada, esse furo
que Lacan também chama de perda e mesmo privação
nesse momento inicial da instituição do sujeito não
é senão "essa tendência ao nada" ou
pulsão de morte em Freud. Ele é esse "Um"
de um amor absoluto que ele por pouco fora, esse "Um"
que ele nunca terá sido.
O universo da linguagem que preexiste ao sujeito mítico
imprime sobre este sua marca, diferenciando-o dele próprio.
Essa diferenciação resulta em uma perda de gozo, um
"menos" (-) como o avesso do sujeito que se encontra a
partir de então em posição de assujeitado à
lei da linguagem. Esse nada, essa privação na origem
de uma fala que daria consistência ao sujeito insiste enquanto
verdade sempre alhures com relação a todo sentido.
Insistência que produz efeito de falta e suscita todo sujeito
que fala a buscar um sentido que incessantemente escapa.
Na constituição do sujeito, encontramos duas operações:
a alienação e a separação, onde paradoxalmente
coincidem a ancoragem na linguagem e a privação do
gozo. Tal descoberta ancora o sujeito a uma profunda dependência
para com a ordem do discurso, pois ele não pode compreender-se
senão no âmbito desse universo estruturalmente arbitrário.
Por outro lado, tal privação inscreve a limitação
estrutural do poder da linguagem no cerceamento de um significante
que signifique um sujeito na busca de seu ser. Isso nos leva ao
outro aspecto desse ponto de inserção do sujeito na
linguagem, ou seja, que essa inserção ocorre "descompletando"
o Outro enquanto lugar da rede dos significantes.
O primeiro Outro tem uma relação com a mãe,
mas é um Outro que o sujeito apreende na imagem totalizada
de si mesmo que ele capta. Ele é o um-duplo, esse duplo que
ele constitui com a mãe. Ao mesmo tempo, é a mãe
que dá possibilidade ou não à separação
do um-duplo. Isso ocorre quando ela não se impõe a
exigência de responder a todas as demandas de satisfação
do sujeito, quando ela se posiciona não apenas como desejante
de outra coisa que dele próprio, mas simplesmente como desejante,
quer dizer atingida em sua potência. Isso será para
o sujeito mais decisivo do que tudo: a mãe apresenta-se também
"descompletada". Eis o "não", a ruptura
operada pela mãe. O sujeito passa da palavra-som à
palavra-vocábulo, e assim submete-se à lei da linguagem.
O acesso à linguagem permite ao homem se representar a si
e a partir de sua imagem, representar o mundo. Ao ser separado de
sua própria opacidade primeira, separa as palavras das coisas.
Nesse momento o sujeito subjetiva-ve. No entanto, nenhum humano
pode se representar ou representar o mundo se não for referido.
Tal função é a essência mesmo do poder
político. Trata-se pois dessa experiência fundadora
na qual o sujeito enfrenta a dificuldade de fazer ouvir uma demanda
dirigida não ao um-duplo, mas ao Outro na ordem da cultura.
Aqui ocorre a virada para o simbólico. Virada em que encontram
as apostas da vida subjetiva e da vida política, cruzamento
do sujeito e do cidadão, onde a psicanálise situa
o mais essencial da função paterna.
Esse Outro, vindo de alhures, é lugar fundamental de referência
para o sujeito e paradoxalmente é também onde ele
encontra o mais íntimo de si mesmo. Antes de se tornar sujeito
falante, o sujeito é falado pelo Outro. É como se
a voz de um oráculo se abatesse sem ordem, sem gesto e sem
insulto. Voz que fala dele de várias maneiras. Há
uma história inteira de gerações... Lendas
familiares são evocadas, esperanças são mais
ou menos formuladas. Seu destino está inscrito nessas palavras
que precedem seu nascimento. Falas que, destilando um temor feliz,
arrancam o homem da falsa infinitude de seu ser. Nele elas abrem
avenidas que não levam a nenhum jardim e inundam de luz um
espaço Outro que não tem nome, mas no qual o sujeito
sente que ele se torna outro que ele próprio. Esse espaço
Outro onde o divino e o discurso político se religam é
a metáfora de todos os nomes, metáfora que atrai o
sujeito em seu círculo, que o domina ao mesmo tempo que o
liberta. Todo campo simbólico aí é tecido,
onde se situa o que chamamos de metáfora paterna.
Lacan, ao utilizar o S(A), nos diz "que nesse lugar de fala,
onde repousa sob uma forma desenvolvida, ou sob uma forma envolvida,
o conjunto do sistema dos significantes, ou seja, na linguagem,
algo falta. Algo que pode ser apenas um significante ali falta".
Assim nos diz que não há no Outro nenhum significante
que possa responder pelo que é o ser do sujeito. A essência
da verdade atribuída ao Outro é apenas suposta. Na
economia psíquica do homem a verdade será dada pela
mediação da idéia de pai, no papel da significante.
Enquanto tal, é desencadeador da existência do símbolo,
chamado por Lacan "significante puro", significante que,
embora independente da significação, é fonte
de todas as significações. Opera uma passagem contínua
do "dentro" para a mais radical exterioridade. "Sem
a categoria do significante, a função paterna não
seria pensável na experiência humana", nada ali
de natural intervém. Uma vez tomado pela linguagem, o elemento
biológico, no homem, é coberto pelo sistema simbólico,
marca da linguagem que ultrapassa a vida e a morte, ao determinar
todo o sujeito, de um como do outro sexo, como filho de..., filha
de ..., de geração em geração. Este
outro, lugar da fala, que será doravante o nome do lugar
do pai, enquanto simbólico na estrutura, supõe o axioma
do inconsciente estruturado como linguagem. Trata-se de uma estrutura
lacunar em que nenhum significante vem representar o sujeito senão
para um Outro significante. A organização significante
permanece e se impõe na e sobre a ordem das significações.
O mito do assassinato do pai é uma hipótese freudiana
que tenta tornar legível o impossível de ser dito
sobre a origem do mundo dos homens. Ao operar a inversão
do pai animal do Totem em pai da lei e do desejo, Freud indicia
a instauração do significante na ordem natural. Nesse
ponto Lacan designa o mito enquanto "presença do significante
no real".
Pierre Legendre lembra-nos que "toda humanidade inventou e
inventará, segundo inúmeras apelações
e variantes a representação da separação
com a mãe" – ou seja, a construção
da Proibição do incesto e de matar. Tal é a
forma com que toda civilização, seja qual for a cultura
considerada, tem de aceder a sua própria representação
do pai. Disso resulta que a estrutura da linguagem é o espaço
em que a dimensão edipiana vai ser reinscrita. Dimensão
em que o sujeito se apreende na relação com o parentesco.
A partir do momento em que lidamos com o sujeito falante, com o
"falaser" [parlêtre], pai e mãe não
são mais redutíveis à qualidade biológica
de genitores, são determinados pelo lugar que ocupam em função
do sistema simbólico que designa o princípio do pai.
Legendre sublinha que em termos de estrutura, "não existe
Édipo – não existe sujeito do desejo edipiano
– se não há discurso da cité". Trata-se
de um discurso que põe em cena o princípio do pai,
em posição de organizador dos múltiplos estilos
de arranjo simbólico que torna possível a reprodução
da vida humana em sistema de filiação et de troca
entre os homens como fundamento do laço social.
Esse percurso conduz-nos a ver como a cultura atravessa o sujeito
e a interrogar sobre o que causa seu sofrimento quando ele se desloca
de uma cultura para outra. Cultura aqui compreendida como o que
se tece no lugar do Outro.
Partirei do princípio de que o sofrimento causado pela mudança
de
cultura está comprometido com a incidência particular
da função paterna
sobre o sujeito. Inscrita na organização simbólica
de sua origem cultural, tal
função é determinada pela sucessão das
gerações. Esse modo de incidência,
que o sujeito transporta consigo, irá determinar o fato de
ele se sentir ao
abrigo ou exposto ao sofrimento, quando confrontado com
referências e novos modos de representações
simbólicas no país de
acolhimento. Sustento ainda que o modo de ruptura para alguns ou
de separação para outros aqui é determinante.
O exilado político não questiona seu exílio
do mesmo modo que um emigrante por razões econômicas
e além disso, aqueles que encontramos hoje na errância
nos trazem outras problemáticas. Entretanto podemos dizer
que perda e luto constituem um ponto comum a toda experiência
de exílio, mas sobretudo remetem para a cena original do
recalque, que todo sujeito atravessa. Podemos acrescentar a isso
o mal-estar de nossa cultura ocidental moderna que está carente
de referenciais simbólicos, por que voltada para a eficácia
em termos de gestão e de objetividade científica.
Mas esse não é o assunto de hoje.
Para melhor compreender essa problemática do exílio,
proponho uma possibilidade de análise, sobre a maneira do
português representar sua inscrição na função
paterna. Toda essa análise evidentemente não exclui
a abordagem de cada sujeito em sua singularidade na experiência
analítica, o que no entanto não nos impede de propor
uma articulação do que é singular ao que é
universal. Ouvem-se com freqüência na clínica,
tratando-se de portugueses emigrados, sobretudo os da primeira geração,
alguns elementos a respeito do modo de vida no exílio relacionados
particularmente à temporalidade. Quero dizer com isso que
o exílio para eles é um tempo presente suspenso por
um passado que nunca deixaram e um futuro sonhado de reencontro.
Investem aqui em suas vidas, como meio de um dia viver o retorno.
Como veremos adiante, a cultura de origem é quem dá
sentido, ao longo de sua história, a esse modo de vida. Na
clínica, os ouvimos se queixarem do tédio de uma existência
carregada de sentido e de gozo e ao mesmo tempo, nutrem tal sonho
mantendo-o na inacessibilidade.
Ao percorrer a história cultural de Portugal, tomarei emprestado
algumas reflexões propostas pelo ensaísta Eduardo
Lourenço sobre os portugueses pois atravessam a singularidade
dos discursos que ouvimos freqüentemente na clínica
junto à emigração portuguesa.
O conjunto de conquistas que determinam a fundação
de Portugal como território independente se justifica a partir
de uma lenda baseada na influência divina. Tal lenda, que
se tornou prova jurídica, é tida como verdade em nome
da qual condenar-se-á como inimigo e detrator das glórias
lusitanas todo aquele que ousar designá-la como fábula.
Eduardo Lourenço afirma ainda hoje que "o sentimento
que o português sempre teve de estar legitimado em seu ser
nacional por um poder superior, algo como a mão de Deus,
advém de uma lucidez mais profunda que todas as explicações
positivas". À influência do céu sobre o
destino acrescenta-se a do olhar que se volta para o mar. Esta faz
nascer a vocação marítima e a grandeza futura.
Nascimento considerado pelo rei que Fernando Pessoa nomeou poeticamente
rei "plantador dos navios por vir". Também chamado
rei-poeta, ele é aquele que institui o português como
língua oficial e que funda a universidade. Os cânticos
deixados pelo rei-poeta são verdadeiros tratados do singular
lirismo nacional. É nesse registro que toda a história
dos portugueses e de seu olhar sobre o mundo se encontram definitivamente
inscritos. Os Lusíadas de Camões constituem ao mesmo
tempo uma cosmogonia nacional e a memória coletiva de um
passado fabuloso onde a lenda se mescla incessantemente à
realidade. Uma espécie de "evangelho cívico".
A mística como crença popular do destino coletivo
expressa a relação histórica afetiva que os
portugueses sempre mantiveram com eles próprios enquanto
entidade nacional. Ela reflete a consciência de uma fraqueza
e a convicção mágica de uma proteção
absoluta capaz de poupar essa fragilidade às oscilações
de qualquer projeto humano. Tal junção entre fragilidade
e superioridade nunca foi desfeita ao longo de sua vida e sua história.
Uma ou outra aflora segundo as contingências da situação,
com mais freqüência porém as duas aparecem ao
mesmo tempo, imagem invertida uma da outra. A consciência
dessa junção em sua vida projeta seus fantasmas simultaneamente
para o passado e o futuro. Um passado sempre ligado ao brilho de
uma fé vivida como luz e dom de Deus e um futuro investido
de um sonho ao mesmo tempo imperial e messiânico. Não
são os únicos a se investirem nesse sonho que pertence
a todos os povos que desempenharam um papel importante na História,
como o de Roma e de Israel.
Entre o passado mítico e glorioso para sempre perdido e
um futuro sonhado de reencontros, há um presente sem relevo
particular que os portugueses vivem como uma ferida invisível
aos olhos de oútrem, presente do qual tentam fugir. A exemplo
de Fernando Pessoa, preferem ausentarem-se de si mesmos e se outorgarem
o próprio estatuto da ausência pois "eles não
suportam ser olhados por quem ignore ou tenha esquecido sua vida
imaginária". Sua longa história é a de
uma deriva e de uma fuga sem fim. "Portugal vive-se por dentro,
numa espécie de isolamento sublimado, e por fora, como exemplo
dos povos de vocação universal, indo ao ponto de dispersar
o seu corpo e sua alma pelo mundo inteiro." Ora, sabemos que
a emigração portuguesa, ao mesmo tempo que é
a mais numerosa na França, é a que menos faz falar
dela. Diz-se com segurança que eles se adaptam, que têm
uma aptidão para se confundir com a paisagem. Sua terra,
ligada ao continente europeu na beira do Atlântico, os portugueses
a deixaram ao longo de séculos, por necessidade ou ambição,
não raro sem esperança de retorno. Entretanto nem
essa deriva nem essa fuga explicam a singularidade dos portugueses.
Para eles, sua pátria não se situa num mapa geográfico,
é o lugar "de um sonho adormecido, esse lugar ao abrigo
do mundo, esse passado presente que a alma portuguesa nunca apagou
no fundo de seu ser". Esse lugar que é "eles",
ao mesmo tempo banal e onírico, é o que os torna tão
naturalmente estrangeiros em sua terra ou em qualquer lugar.
Sua singularidade se deve à sua maneira de se voltar para
o passado em geral, para os seus em particular. Tal maneira é
o que evoca a palavra "saudade", palavra sem equivalente
em latim ou em outra língua e que expressa um sentimento
complexo. Uma palavra particular, uma entre outras, que tenta explicar
uma maneira de ser no mundo, uma das modalidades de nossa relação
com a memória e com a sensibilidade à temporalidade.
Uma temporalidade outra que a da sucessão irreversível.
Um "tempo humano" que permite o retorno de um passado,
em uma suspensão fictícia causando simultaneamente
sentimentos opostos. A etimologia da palavra mescla ao mesmo tempo
solidão e salvação acompanhada de saúde.
Causa um mal de que se gosta e um bem de que se sofre. Nela tristeza
e alegria se encontram.
Raridade da palavra, raridade do sentimento, isso bastará
para ancorar no espírito dos portugueses a idéia de
que sua alma vive e experimenta, com uma intensidade sem igual,
um estado que só tal palavra intraduzível pode expressar.
No rastro da saudade, tal cultura, voltada para ela própria,
atravessa a história de Camões a Pessoa tentando decifrar
sua enigmática relação com o Outro, em busca
de sua alteridade individual e coletiva. Como a arte é a
forma de expressão que mais se aproxima do silêncio
originário, para arrancar-lhe uma fala criadora, a saudade
falará enquanto tal inscrevendo a cultura portuguesa em seu
raio. Lembremos aqui que pertencer a uma cultura é, para
cada povo, a maneira de sustentar sua organização
simbólica na crença ao pai, como Unidade de adesão
coletiva. Significa dar referenciais sobre os quais se desenvolve
a vida subjetiva e a vida política de cada pertencimento.
Parece-me então que esta modalidade da saudade é a
maneira pela qual os portugueses desvelam seu modo de inscrição
na crença do Pai.
Camões nos fará isso ouvir como "um canto dedicado
a uma ausência que não somente a do ser amado ou da
pátria perdida, mas angústia do ser que se vive pela
primeira na cultura, como filho do tempo". Canto de uma voz
sem verbo que pela sua presença nos aproxima da sombra da
morte ao mesmo tempo que exige a promessa de vida. Podemos dizer
que a saudade torna-se aqui puro significante de uma experiência
mais radical, que a do espaço afetivo. É ao mesmo
tempo a experiência mais universal e a mais pessoal de um
vivido que nos remete sempre a essa operação alienação/separação
da formação subjetiva do sujeito. Assim pode ser evocada
como símbolo da aventura do homem que, a partir de uma ausência
jamais abolida, parte em busca de sua alteridade dirigindo-se ao
Outro da cultura, enquanto lugar de um conjunto de falas e de representações
do mundo, perpetuamente recortado pelo jogo "ausência-presença".
Aliado a essa aventura no rastro da saudade, Pessoa nos diz que
"tudo o que existe – como os homens para os quais tudo
existe – é da ordem do evanescente, mas de um evanescente
que se torna real através de uma espécie de rememoração
criativa, a única que possa conferir ao que não mais
existe uma plenitude às avessas que o fenômeno saudade
representa". As palavras dos poetas enquanto discurso do Outro
na cultura são pontos de referência e de perdição,
são ao mesmo tempo íntimas e estranhas, próximas
e sempre alhures. Permitem a cada um se olhar como em uma espécie
de espelho e nele compreender os elementos que lhe fazem sentido,
mas remetem também para o nada, o não-sentido. É
nesse contexto paradoxal que a saudade se apresenta como potência
criadora. Entretanto, nenhum sujeito está ao abrigo de um
deslizamento em direção ao lado nefasto que ela contém.
É o caso do portugues que, trancado em uma identidade imaginária,
com caráter universal e messiânico, não pôde
assumir uma posição de exterioridade em relação
ao Outro, que identifica como sendo ele próprio. Rejeitam
o encontro com a alteridade, fazendo de seu sonho de potência
uma realidade possível de encontrar, um sonho que não
se sabe sonhado. Ora, "a alteridade não é o que
não está mais ali, mas o que ainda não está
ali". Então, confrontados às conjunturas políticas
das últimas décadas, os portugueses levaram esse sonho
para-além do possível e o sonho revelar-se-á
pesadelo. A esse respeito, Lacan nos lembra que somente a renúncia
ao gozo e ao poder absoluto funda o direito e com ele toda comunidade
social, a qual põe em jogo então, de acordo com seu
princípio, uma "fraternidade da impotência".
Aos portugueses, tomados no doloroso paradoxo de fragilidade e grandeza
restou uma nação humilhada e ofendida. Como testemunha,
o ultimato inglês no final do século XIX ao qual o
governo português foi obrigado a ceder.
A saudade perdia sua força criadora ao voltar-se para seu
aspecto nefasto, ou seja, a melancolia. Esta última é
tentativa de "destruir o próprio ato através
do qual o Outro se manifestou como realmente ausente". A melancolia
revela que um luto não foi assumido diante de uma renúncia
ao gozo e ao poder, renúncia exigida pelo reconhecimento
da morte. Essa tendência melancólica nutre nos portugueses
um ressentimento que enclausura sua existência individual
e sua vida coletiva, numa rede de servidão como forma de
laço social. Portugal passará por longos anos de ditadura
ao cabo dos quais um êxodo se produzirá. Pessoa no
"Guardador de Rebanhos" nos conta que: "No lugar
da infância o que nos esperava era um longo reino da infantilização
sistemática da nossa imagem, o triunfo do culto ao folclore,
da minoridade cívica obrigatória, do paternalismo
implacável, que encontrou na ‘ordem do dia’ (pronunciada
por Salazar) seu evangelho sem ressurreição, um culto
ditirâmbico de todas as superstições, do conformismo,
dos anacronismos maquiavélicos cultivados..., como se nenhum
desses grandes poetas nunca tivesse existido nesse país."
Essa servidão os impede de vislumbrar o universo como uma
ilusão, onde a totalidade não passa de um fantasma,
e sustenta, a partir de mecanismos de identificação
em particular quanto a efeitos de grupo, o pai ideal como estatuto
intocável. Tais mecanismos, são descritos por Freud
como próprios a exercer um fechamento sobre o inconsciente.
Esse vindo de alhures que se torna estrangeiro, tal poderia ser
uma denominação entre outras para dar conta da posição
daquele que na estrutura, seja neurótica seja psicótica
ou perversa, se encontra exilado, ou perdido na enganação
do Outro que viria significá-lo, ou do objeto como podendo
ser resgatado no tempo para compensar a falta. Como um barco sem
leme num vasto mar [m-e/è-r-e]que parece tragá-lo
em um naufrágio, ele se orienta graças à regularidade
e à constância do retorno dos astros para o mesmo ponto
visível. Assim, adere à perfeição do
círculo ou da esfera e atribui às razões contextuais
da vida, o fato de ele ser privado do que lhe falta. Esse ponto
de retorno não é outro senão o da metáfora
do corpo da mãe, ponto enigmático de toda origem,
cujo movimento contínuo de circularidade assiná-la
as perversões (père-vertions) da função
paterna carente da função simbólica. Dimensão
que se inscreve graças à descontinuidade da fala na
medida em que o sujeito se encontra em continuidade com esse lugar
Outro da linguagem.
O trabalho em psicanálise não é o de remeter
o sujeito ao sentido preso em sua cultura, mas conduzi-lo, na descontinuidade
e no equívoco da fala a decifrar as significações
imaginárias, correlatas às feridas internas de sua
existência. Bem como aquela suspensão temporal que
o impede de viver lá onde ele habita. De uma certa forma,
favorecer a dimensão criadora da saudade. Isso merece toda
nossa atenção porque tais significações,
quando permanecem intocadas, resultam em conseqüências
psíquicas nefastas para as gerações seguintes.
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* Esse texto foi apresentado numa jornada temática em março
de 1999 em Paris, organizada pelo Centre François Minkowiska
sobre a a "Parentalit dans l’immigration : être
ou ne pas naître français".
Notas
LACAN, Jacques. Sem. Inédit transcriptions. Livre VI –
Le désir et son interprétation, 1958-59 – Leçon
08/04/59.
LACAN, Jacques. Sem. III – Les Psychoses, 1955-56. Ed. Seuil.
Idem p.226.
LEGENDRE, Pierre – revue INTERSIGNE nº. 8/9 in Restitution
p. 192 ed. L'aube 1994.
Idem, p. 188.
LOURENÇO, Eduardo – Mythologie de la Saudade, p.79
ed. Chandeigne 1997.
Idem p.10.
Idem p.8.
Idem p.11.
Idem p.12.
Idem p.37.
Idem p.172.
DIDIER-WEILL, Alain – Invocations p. 137 – ed. Calmann
Levy 1998.
Idem, p.75.
LOURENÇO, Eduardo – Mythologie de la Saudade p. 190.
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