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O PAI NO RASTRO DA SAUDADE *

Helena D’Elia

"Todas as nações são mistérios, e cada nação, para si mesma, um outro mistério."

Fernando Pessoa

A amplidão das migrações, como mal estar próprio de nossa época, nos leva a questionar nosso modo de abordagem teórica e ética do sofrimento, em particular no exílio, e por conseqüência nossa posição na cura. Como considerar, na singularidade do discurso clínico, elementos que fazem sentido porque referidos ao cultural sem trair a escuta que nos remete para um sujeito estruturalmente clivado pelo não-sentido e pelos efeitos daquilo que ele não pode saber. Trata-se de uma impossibilidade estrutural em torno da qual o inconsciente se constitui. A partir desse questionamento pareceu-me necessário trabalhar a noção do sujeito em sua relação com o Outro da cultura, articulado ao modo de representação do Pai, modo de que tratarei, em seguida, dentro da cultura portuguesa no rastro da saudade.

Introduzo-me neste debate apoiando-me na teoria e na ética psicanalíticas pelo que elas revelam em seu próprio advento na cultura moderna, a saber que a condição humana se funda numa falta, numa hiância. A possibilidade de tal afirmação remove o homem de sua crença de ser sujeito do conhecimento assim como de ser lugar da totalização do saber. Essa última concepção é antes constitutiva da psicologia que se apoia em uma lógica do homem como sendo uma pessoa global, unidade lógica que mascara a béance estrutural da condição humana em seu modo de fazer uso da linguagem.

A psicanálise opõe-se a tal concepção por ter descoberto, com o inconsciente, o paradoxo do sujeito constituído por aquilo que não pode saber, de um sujeito perfurado no lugar do saber da verdade original, ou seja, do gozo. Essa noção de gozo foi extraída na teoria freudiana do modelo do prazer que se pode encontrar na relação sexual. Trata-se do modelo da felicidade. Entretanto, a satisfação obtida está aquém daquela que se acredita poder esperar, ou seja, uma satisfação absoluta sempre referida a uma demanda incestuosa. A estruturação edipiana, concebida em relação ao pai, que vem impor sua lei da proibição do incesto, é um modo de significar e de simbolizar a impossibilidade estrutural dessa satisfação. Impossibilidade que, segundo Freud, encontra seu fundamento na diferença sexual.

Lacan retoma o termo de gozo enquanto referido ao campo do direito, que remete para a idéia de distribuir, de repartir ou de retribuir o gozo de um bem. Não estamos no campo da necessidade pois o gozo é o que não serve para nada. Entretanto a palavra usufruto utilizada pelo direito mostra que o que é da ordem da utilidade é vinculado ao que é da ordem do fruto, do proveito, ou seja, do gozo. Estamos presos à utilidade porque temos a ilusão de que ela pode preencher a insatisfação. Mas a experiência denuncia que o útil não consegue fazer com que pare a demanda que insiste mais e mais..., porque nesse ponto estamos no registro do desejo, registro que diferencia o humano do animal.

A respeito desse registro, Lacan nos remete a um sujeito do gozo que segue em direção de seu advento. Tal sujeito, também chamado de mítico, situa-se por esse nada que não é sequer a falta de algo. Esse nada, esse furo que Lacan também chama de perda e mesmo privação nesse momento inicial da instituição do sujeito não é senão "essa tendência ao nada" ou pulsão de morte em Freud. Ele é esse "Um" de um amor absoluto que ele por pouco fora, esse "Um" que ele nunca terá sido.

O universo da linguagem que preexiste ao sujeito mítico imprime sobre este sua marca, diferenciando-o dele próprio. Essa diferenciação resulta em uma perda de gozo, um "menos" (-) como o avesso do sujeito que se encontra a partir de então em posição de assujeitado à lei da linguagem. Esse nada, essa privação na origem de uma fala que daria consistência ao sujeito insiste enquanto verdade sempre alhures com relação a todo sentido. Insistência que produz efeito de falta e suscita todo sujeito que fala a buscar um sentido que incessantemente escapa.

Na constituição do sujeito, encontramos duas operações: a alienação e a separação, onde paradoxalmente coincidem a ancoragem na linguagem e a privação do gozo. Tal descoberta ancora o sujeito a uma profunda dependência para com a ordem do discurso, pois ele não pode compreender-se senão no âmbito desse universo estruturalmente arbitrário. Por outro lado, tal privação inscreve a limitação estrutural do poder da linguagem no cerceamento de um significante que signifique um sujeito na busca de seu ser. Isso nos leva ao outro aspecto desse ponto de inserção do sujeito na linguagem, ou seja, que essa inserção ocorre "descompletando" o Outro enquanto lugar da rede dos significantes.

O primeiro Outro tem uma relação com a mãe, mas é um Outro que o sujeito apreende na imagem totalizada de si mesmo que ele capta. Ele é o um-duplo, esse duplo que ele constitui com a mãe. Ao mesmo tempo, é a mãe que dá possibilidade ou não à separação do um-duplo. Isso ocorre quando ela não se impõe a exigência de responder a todas as demandas de satisfação do sujeito, quando ela se posiciona não apenas como desejante de outra coisa que dele próprio, mas simplesmente como desejante, quer dizer atingida em sua potência. Isso será para o sujeito mais decisivo do que tudo: a mãe apresenta-se também "descompletada". Eis o "não", a ruptura operada pela mãe. O sujeito passa da palavra-som à palavra-vocábulo, e assim submete-se à lei da linguagem. O acesso à linguagem permite ao homem se representar a si e a partir de sua imagem, representar o mundo. Ao ser separado de sua própria opacidade primeira, separa as palavras das coisas. Nesse momento o sujeito subjetiva-ve. No entanto, nenhum humano pode se representar ou representar o mundo se não for referido. Tal função é a essência mesmo do poder político. Trata-se pois dessa experiência fundadora na qual o sujeito enfrenta a dificuldade de fazer ouvir uma demanda dirigida não ao um-duplo, mas ao Outro na ordem da cultura. Aqui ocorre a virada para o simbólico. Virada em que encontram as apostas da vida subjetiva e da vida política, cruzamento do sujeito e do cidadão, onde a psicanálise situa o mais essencial da função paterna.

Esse Outro, vindo de alhures, é lugar fundamental de referência para o sujeito e paradoxalmente é também onde ele encontra o mais íntimo de si mesmo. Antes de se tornar sujeito falante, o sujeito é falado pelo Outro. É como se a voz de um oráculo se abatesse sem ordem, sem gesto e sem insulto. Voz que fala dele de várias maneiras. Há uma história inteira de gerações... Lendas familiares são evocadas, esperanças são mais ou menos formuladas. Seu destino está inscrito nessas palavras que precedem seu nascimento. Falas que, destilando um temor feliz, arrancam o homem da falsa infinitude de seu ser. Nele elas abrem avenidas que não levam a nenhum jardim e inundam de luz um espaço Outro que não tem nome, mas no qual o sujeito sente que ele se torna outro que ele próprio. Esse espaço Outro onde o divino e o discurso político se religam é a metáfora de todos os nomes, metáfora que atrai o sujeito em seu círculo, que o domina ao mesmo tempo que o liberta. Todo campo simbólico aí é tecido, onde se situa o que chamamos de metáfora paterna.

Lacan, ao utilizar o S(A), nos diz "que nesse lugar de fala, onde repousa sob uma forma desenvolvida, ou sob uma forma envolvida, o conjunto do sistema dos significantes, ou seja, na linguagem, algo falta. Algo que pode ser apenas um significante ali falta". Assim nos diz que não há no Outro nenhum significante que possa responder pelo que é o ser do sujeito. A essência da verdade atribuída ao Outro é apenas suposta. Na economia psíquica do homem a verdade será dada pela mediação da idéia de pai, no papel da significante. Enquanto tal, é desencadeador da existência do símbolo, chamado por Lacan "significante puro", significante que, embora independente da significação, é fonte de todas as significações. Opera uma passagem contínua do "dentro" para a mais radical exterioridade. "Sem a categoria do significante, a função paterna não seria pensável na experiência humana", nada ali de natural intervém. Uma vez tomado pela linguagem, o elemento biológico, no homem, é coberto pelo sistema simbólico, marca da linguagem que ultrapassa a vida e a morte, ao determinar todo o sujeito, de um como do outro sexo, como filho de..., filha de ..., de geração em geração. Este outro, lugar da fala, que será doravante o nome do lugar do pai, enquanto simbólico na estrutura, supõe o axioma do inconsciente estruturado como linguagem. Trata-se de uma estrutura lacunar em que nenhum significante vem representar o sujeito senão para um Outro significante. A organização significante permanece e se impõe na e sobre a ordem das significações.

O mito do assassinato do pai é uma hipótese freudiana que tenta tornar legível o impossível de ser dito sobre a origem do mundo dos homens. Ao operar a inversão do pai animal do Totem em pai da lei e do desejo, Freud indicia a instauração do significante na ordem natural. Nesse ponto Lacan designa o mito enquanto "presença do significante no real".

Pierre Legendre lembra-nos que "toda humanidade inventou e inventará, segundo inúmeras apelações e variantes a representação da separação com a mãe" – ou seja, a construção da Proibição do incesto e de matar. Tal é a forma com que toda civilização, seja qual for a cultura considerada, tem de aceder a sua própria representação do pai. Disso resulta que a estrutura da linguagem é o espaço em que a dimensão edipiana vai ser reinscrita. Dimensão em que o sujeito se apreende na relação com o parentesco. A partir do momento em que lidamos com o sujeito falante, com o "falaser" [parlêtre], pai e mãe não são mais redutíveis à qualidade biológica de genitores, são determinados pelo lugar que ocupam em função do sistema simbólico que designa o princípio do pai. Legendre sublinha que em termos de estrutura, "não existe Édipo – não existe sujeito do desejo edipiano – se não há discurso da cité". Trata-se de um discurso que põe em cena o princípio do pai, em posição de organizador dos múltiplos estilos de arranjo simbólico que torna possível a reprodução da vida humana em sistema de filiação et de troca entre os homens como fundamento do laço social.

Esse percurso conduz-nos a ver como a cultura atravessa o sujeito e a interrogar sobre o que causa seu sofrimento quando ele se desloca de uma cultura para outra. Cultura aqui compreendida como o que se tece no lugar do Outro.

Partirei do princípio de que o sofrimento causado pela mudança de
cultura está comprometido com a incidência particular da função paterna
sobre o sujeito. Inscrita na organização simbólica de sua origem cultural, tal
função é determinada pela sucessão das gerações. Esse modo de incidência,
que o sujeito transporta consigo, irá determinar o fato de ele se sentir ao
abrigo ou exposto ao sofrimento, quando confrontado com
referências e novos modos de representações simbólicas no país de
acolhimento. Sustento ainda que o modo de ruptura para alguns ou de separação para outros aqui é determinante. O exilado político não questiona seu exílio do mesmo modo que um emigrante por razões econômicas e além disso, aqueles que encontramos hoje na errância nos trazem outras problemáticas. Entretanto podemos dizer que perda e luto constituem um ponto comum a toda experiência de exílio, mas sobretudo remetem para a cena original do recalque, que todo sujeito atravessa. Podemos acrescentar a isso o mal-estar de nossa cultura ocidental moderna que está carente de referenciais simbólicos, por que voltada para a eficácia em termos de gestão e de objetividade científica. Mas esse não é o assunto de hoje.

Para melhor compreender essa problemática do exílio, proponho uma possibilidade de análise, sobre a maneira do português representar sua inscrição na função paterna. Toda essa análise evidentemente não exclui a abordagem de cada sujeito em sua singularidade na experiência analítica, o que no entanto não nos impede de propor uma articulação do que é singular ao que é universal. Ouvem-se com freqüência na clínica, tratando-se de portugueses emigrados, sobretudo os da primeira geração, alguns elementos a respeito do modo de vida no exílio relacionados particularmente à temporalidade. Quero dizer com isso que o exílio para eles é um tempo presente suspenso por um passado que nunca deixaram e um futuro sonhado de reencontro. Investem aqui em suas vidas, como meio de um dia viver o retorno. Como veremos adiante, a cultura de origem é quem dá sentido, ao longo de sua história, a esse modo de vida. Na clínica, os ouvimos se queixarem do tédio de uma existência carregada de sentido e de gozo e ao mesmo tempo, nutrem tal sonho mantendo-o na inacessibilidade.

Ao percorrer a história cultural de Portugal, tomarei emprestado algumas reflexões propostas pelo ensaísta Eduardo Lourenço sobre os portugueses pois atravessam a singularidade dos discursos que ouvimos freqüentemente na clínica junto à emigração portuguesa.

O conjunto de conquistas que determinam a fundação de Portugal como território independente se justifica a partir de uma lenda baseada na influência divina. Tal lenda, que se tornou prova jurídica, é tida como verdade em nome da qual condenar-se-á como inimigo e detrator das glórias lusitanas todo aquele que ousar designá-la como fábula. Eduardo Lourenço afirma ainda hoje que "o sentimento que o português sempre teve de estar legitimado em seu ser nacional por um poder superior, algo como a mão de Deus, advém de uma lucidez mais profunda que todas as explicações positivas". À influência do céu sobre o destino acrescenta-se a do olhar que se volta para o mar. Esta faz nascer a vocação marítima e a grandeza futura. Nascimento considerado pelo rei que Fernando Pessoa nomeou poeticamente rei "plantador dos navios por vir". Também chamado rei-poeta, ele é aquele que institui o português como língua oficial e que funda a universidade. Os cânticos deixados pelo rei-poeta são verdadeiros tratados do singular lirismo nacional. É nesse registro que toda a história dos portugueses e de seu olhar sobre o mundo se encontram definitivamente inscritos. Os Lusíadas de Camões constituem ao mesmo tempo uma cosmogonia nacional e a memória coletiva de um passado fabuloso onde a lenda se mescla incessantemente à realidade. Uma espécie de "evangelho cívico". A mística como crença popular do destino coletivo expressa a relação histórica afetiva que os portugueses sempre mantiveram com eles próprios enquanto entidade nacional. Ela reflete a consciência de uma fraqueza e a convicção mágica de uma proteção absoluta capaz de poupar essa fragilidade às oscilações de qualquer projeto humano. Tal junção entre fragilidade e superioridade nunca foi desfeita ao longo de sua vida e sua história. Uma ou outra aflora segundo as contingências da situação, com mais freqüência porém as duas aparecem ao mesmo tempo, imagem invertida uma da outra. A consciência dessa junção em sua vida projeta seus fantasmas simultaneamente para o passado e o futuro. Um passado sempre ligado ao brilho de uma fé vivida como luz e dom de Deus e um futuro investido de um sonho ao mesmo tempo imperial e messiânico. Não são os únicos a se investirem nesse sonho que pertence a todos os povos que desempenharam um papel importante na História, como o de Roma e de Israel.

Entre o passado mítico e glorioso para sempre perdido e um futuro sonhado de reencontros, há um presente sem relevo particular que os portugueses vivem como uma ferida invisível aos olhos de oútrem, presente do qual tentam fugir. A exemplo de Fernando Pessoa, preferem ausentarem-se de si mesmos e se outorgarem o próprio estatuto da ausência pois "eles não suportam ser olhados por quem ignore ou tenha esquecido sua vida imaginária". Sua longa história é a de uma deriva e de uma fuga sem fim. "Portugal vive-se por dentro, numa espécie de isolamento sublimado, e por fora, como exemplo dos povos de vocação universal, indo ao ponto de dispersar o seu corpo e sua alma pelo mundo inteiro." Ora, sabemos que a emigração portuguesa, ao mesmo tempo que é a mais numerosa na França, é a que menos faz falar dela. Diz-se com segurança que eles se adaptam, que têm uma aptidão para se confundir com a paisagem. Sua terra, ligada ao continente europeu na beira do Atlântico, os portugueses a deixaram ao longo de séculos, por necessidade ou ambição, não raro sem esperança de retorno. Entretanto nem essa deriva nem essa fuga explicam a singularidade dos portugueses. Para eles, sua pátria não se situa num mapa geográfico, é o lugar "de um sonho adormecido, esse lugar ao abrigo do mundo, esse passado presente que a alma portuguesa nunca apagou no fundo de seu ser". Esse lugar que é "eles", ao mesmo tempo banal e onírico, é o que os torna tão naturalmente estrangeiros em sua terra ou em qualquer lugar.

Sua singularidade se deve à sua maneira de se voltar para o passado em geral, para os seus em particular. Tal maneira é o que evoca a palavra "saudade", palavra sem equivalente em latim ou em outra língua e que expressa um sentimento complexo. Uma palavra particular, uma entre outras, que tenta explicar uma maneira de ser no mundo, uma das modalidades de nossa relação com a memória e com a sensibilidade à temporalidade. Uma temporalidade outra que a da sucessão irreversível. Um "tempo humano" que permite o retorno de um passado, em uma suspensão fictícia causando simultaneamente sentimentos opostos. A etimologia da palavra mescla ao mesmo tempo solidão e salvação acompanhada de saúde. Causa um mal de que se gosta e um bem de que se sofre. Nela tristeza e alegria se encontram.

Raridade da palavra, raridade do sentimento, isso bastará para ancorar no espírito dos portugueses a idéia de que sua alma vive e experimenta, com uma intensidade sem igual, um estado que só tal palavra intraduzível pode expressar. No rastro da saudade, tal cultura, voltada para ela própria, atravessa a história de Camões a Pessoa tentando decifrar sua enigmática relação com o Outro, em busca de sua alteridade individual e coletiva. Como a arte é a forma de expressão que mais se aproxima do silêncio originário, para arrancar-lhe uma fala criadora, a saudade falará enquanto tal inscrevendo a cultura portuguesa em seu raio. Lembremos aqui que pertencer a uma cultura é, para cada povo, a maneira de sustentar sua organização simbólica na crença ao pai, como Unidade de adesão coletiva. Significa dar referenciais sobre os quais se desenvolve a vida subjetiva e a vida política de cada pertencimento. Parece-me então que esta modalidade da saudade é a maneira pela qual os portugueses desvelam seu modo de inscrição na crença do Pai.

Camões nos fará isso ouvir como "um canto dedicado a uma ausência que não somente a do ser amado ou da pátria perdida, mas angústia do ser que se vive pela primeira na cultura, como filho do tempo". Canto de uma voz sem verbo que pela sua presença nos aproxima da sombra da morte ao mesmo tempo que exige a promessa de vida. Podemos dizer que a saudade torna-se aqui puro significante de uma experiência mais radical, que a do espaço afetivo. É ao mesmo tempo a experiência mais universal e a mais pessoal de um vivido que nos remete sempre a essa operação alienação/separação da formação subjetiva do sujeito. Assim pode ser evocada como símbolo da aventura do homem que, a partir de uma ausência jamais abolida, parte em busca de sua alteridade dirigindo-se ao Outro da cultura, enquanto lugar de um conjunto de falas e de representações do mundo, perpetuamente recortado pelo jogo "ausência-presença".

Aliado a essa aventura no rastro da saudade, Pessoa nos diz que "tudo o que existe – como os homens para os quais tudo existe – é da ordem do evanescente, mas de um evanescente que se torna real através de uma espécie de rememoração criativa, a única que possa conferir ao que não mais existe uma plenitude às avessas que o fenômeno saudade representa". As palavras dos poetas enquanto discurso do Outro na cultura são pontos de referência e de perdição, são ao mesmo tempo íntimas e estranhas, próximas e sempre alhures. Permitem a cada um se olhar como em uma espécie de espelho e nele compreender os elementos que lhe fazem sentido, mas remetem também para o nada, o não-sentido. É nesse contexto paradoxal que a saudade se apresenta como potência criadora. Entretanto, nenhum sujeito está ao abrigo de um deslizamento em direção ao lado nefasto que ela contém. É o caso do portugues que, trancado em uma identidade imaginária, com caráter universal e messiânico, não pôde assumir uma posição de exterioridade em relação ao Outro, que identifica como sendo ele próprio. Rejeitam o encontro com a alteridade, fazendo de seu sonho de potência uma realidade possível de encontrar, um sonho que não se sabe sonhado. Ora, "a alteridade não é o que não está mais ali, mas o que ainda não está ali". Então, confrontados às conjunturas políticas das últimas décadas, os portugueses levaram esse sonho para-além do possível e o sonho revelar-se-á pesadelo. A esse respeito, Lacan nos lembra que somente a renúncia ao gozo e ao poder absoluto funda o direito e com ele toda comunidade social, a qual põe em jogo então, de acordo com seu princípio, uma "fraternidade da impotência". Aos portugueses, tomados no doloroso paradoxo de fragilidade e grandeza restou uma nação humilhada e ofendida. Como testemunha, o ultimato inglês no final do século XIX ao qual o governo português foi obrigado a ceder.

A saudade perdia sua força criadora ao voltar-se para seu aspecto nefasto, ou seja, a melancolia. Esta última é tentativa de "destruir o próprio ato através do qual o Outro se manifestou como realmente ausente". A melancolia revela que um luto não foi assumido diante de uma renúncia ao gozo e ao poder, renúncia exigida pelo reconhecimento da morte. Essa tendência melancólica nutre nos portugueses um ressentimento que enclausura sua existência individual e sua vida coletiva, numa rede de servidão como forma de laço social. Portugal passará por longos anos de ditadura ao cabo dos quais um êxodo se produzirá. Pessoa no "Guardador de Rebanhos" nos conta que: "No lugar da infância o que nos esperava era um longo reino da infantilização sistemática da nossa imagem, o triunfo do culto ao folclore, da minoridade cívica obrigatória, do paternalismo implacável, que encontrou na ‘ordem do dia’ (pronunciada por Salazar) seu evangelho sem ressurreição, um culto ditirâmbico de todas as superstições, do conformismo, dos anacronismos maquiavélicos cultivados..., como se nenhum desses grandes poetas nunca tivesse existido nesse país." Essa servidão os impede de vislumbrar o universo como uma ilusão, onde a totalidade não passa de um fantasma, e sustenta, a partir de mecanismos de identificação em particular quanto a efeitos de grupo, o pai ideal como estatuto intocável. Tais mecanismos, são descritos por Freud como próprios a exercer um fechamento sobre o inconsciente.

Esse vindo de alhures que se torna estrangeiro, tal poderia ser uma denominação entre outras para dar conta da posição daquele que na estrutura, seja neurótica seja psicótica ou perversa, se encontra exilado, ou perdido na enganação do Outro que viria significá-lo, ou do objeto como podendo ser resgatado no tempo para compensar a falta. Como um barco sem leme num vasto mar [m-e/è-r-e]que parece tragá-lo em um naufrágio, ele se orienta graças à regularidade e à constância do retorno dos astros para o mesmo ponto visível. Assim, adere à perfeição do círculo ou da esfera e atribui às razões contextuais da vida, o fato de ele ser privado do que lhe falta. Esse ponto de retorno não é outro senão o da metáfora do corpo da mãe, ponto enigmático de toda origem, cujo movimento contínuo de circularidade assiná-la as perversões (père-vertions) da função paterna carente da função simbólica. Dimensão que se inscreve graças à descontinuidade da fala na medida em que o sujeito se encontra em continuidade com esse lugar Outro da linguagem.

O trabalho em psicanálise não é o de remeter o sujeito ao sentido preso em sua cultura, mas conduzi-lo, na descontinuidade e no equívoco da fala a decifrar as significações imaginárias, correlatas às feridas internas de sua existência. Bem como aquela suspensão temporal que o impede de viver lá onde ele habita. De uma certa forma, favorecer a dimensão criadora da saudade. Isso merece toda nossa atenção porque tais significações, quando permanecem intocadas, resultam em conseqüências psíquicas nefastas para as gerações seguintes.

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* Esse texto foi apresentado numa jornada temática em março de 1999 em Paris, organizada pelo Centre François Minkowiska sobre a a "Parentalit dans l’immigration : être ou ne pas naître français".

Notas

LACAN, Jacques. Sem. Inédit transcriptions. Livre VI – Le désir et son interprétation, 1958-59 – Leçon 08/04/59.

LACAN, Jacques. Sem. III – Les Psychoses, 1955-56. Ed. Seuil.

Idem p.226.

LEGENDRE, Pierre – revue INTERSIGNE nº. 8/9 in Restitution p. 192 ed. L'aube 1994.

Idem, p. 188.

LOURENÇO, Eduardo – Mythologie de la Saudade, p.79 ed. Chandeigne 1997.

Idem p.10.

Idem p.8.

Idem p.11.

Idem p.12.

Idem p.37.

Idem p.172.

DIDIER-WEILL, Alain – Invocations p. 137 – ed. Calmann Levy 1998.

Idem, p.75.

LOURENÇO, Eduardo – Mythologie de la Saudade p. 190.

 

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