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UMA IMPRESSÃO PARTICULAR DE UM ESTADO GERAL

Rachel Sztajnberg

O cenário solene do majestoso anfiteatro da Sorbonne já refletia , de saída, a grandeza de tão esperado evento. Fora dos padrões convencionais de um congresso, como já alguns indícios denunciavam – padrão internet da divulgação dos trabalhos, por exemplo – uma experiência ainda enigmática tinha início, cuja apreciação final só poderia ser formulada a posteriori. Quiçá com um bom tempo ainda de maturação depois que a poeira baixasse. Os brasileiros se fizeram representar por um contingente significativo, seguido de outros representantes, latinos, argentinos, peruanos,colombianos. Os norte-americanos, canadenses incluídos, marcaram igualmente uma presença expressiva, apontando a difusão atual da psicanálise para muito além do seu berço original, o continente europeu, cuja resposta à convocação também se fazia notar em larga escala. Uma experiência inédita, portanto, já dava sinais de seu caráter vanguardista, ainda mais se considerarmos a proposta declaradamente desinstitucionalizante do encontro.

A partir daí pode-se dizer que aconteceu de tudo, ou quase. O mínimo que se pode considerar é a carga intensa das sensações vividas. Tédio, decepção , vibração , manifestações apaixonantes, outras desvairadas, tentativas autoritárias de conter o descarrilamento caótico, a sensatez tentanto se impor. Poder-se-ia mesmo dizer que a própria Psicanálise alí estava presente, tentando dar conta do movimento errático do aparato psíquico, a emergência da pura pulsão desordenada tendendo à descarga e à dissolução alternando-se com elaborações criativas em busca de novos caminhos. O exercício impossível, formulado por Freud, mais uma vez tendo que ser levado adiante, expondo o desafio contido na proposta desse saber que já nasce marcado por essa trágica viscissitude, e que , ainda assim, deve se sustentar vivo , apontando para um lugar ao qual já se sabe de antemão não se chegará nunca. Sua maior virtude consiste mesmo em continuar tentando o frágil equilíbrio na construção e desconstrução.

Por isso mesmo, lá estavam expostas, no Forum, muito mais catártico do que de debates, muitas de nossas angústias , nossas inquietações compartilhadas e salpicadas, aqui e alí, dessa irresistível curiosidade que nos empurra para mais além. O ímpeto para ousar, vencendo, uma que outra vez, não muitas, a tendência ao viciado caminho morto da repetição. Tivemos que nos deparar com a arrogância , os conluios perversos e a politicagem, inevitáveis contrapontos dos insights das novas lideranças a forçar o desdobramento de outros destinos.

Dialogamos pouco, o que foi lastimável , mas muitas idéias circularam, carregadas de uma vitalidade que certamente semearão alternativas mais libertárias.

A esperada comunicação de Jacques Derrida reafirmou o brilhantismo desse pensador que, centrando sua alocução na crueldade como constitutiva do humano, sustentou com eloquência o valor da construção metapsicológica freudiana, a qual dedicou um estudo crítico minucioso, obviamente veiculando seu respeito pela construção psicanalítica enquanto uma vertente humanista crucial e definitiva inserida no pensamento contemporâneo. O privilégio de uma experiência única de duas horas e vinte minutos ininterruptos de um discurso vigoroso reavivou nossa responsabilidade na função terapêutica de cunhar um destino o mais benigno possível a esta força pulsional radical. O que inclui a inquestionável inserção social desse ofício “quase” inviável.

No computo geral, valeu

Agosto/2000

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