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RESENHA
A palheta do mais-de-olhar
Regina Teixeira da Costa
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Um olhar a mais: ver e ser visto em psicanálise. Rio de
Janeiro: Editora Jorge Zahar, 2002. 312 p.
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Um olhar a mais: ver e ser visto em psicanálise é
o mais recente livro do psiquiatra, psicanalista e doutor em Filosofia
Antonio Quinet.
O volume foi elaborado a partir de sua tese de doutorado, defendida
na Universidade de Paris VIII, em 1996, sob a orientação
do filósofo Alain Badiou, e foi recebido com grande interesse
e aceitação pela comunidade psicanalítica que
acompanha o autor desde suas primeiras publicações.
Um olhar a mais agrada também ao público interessado
em conhecer um pouco mais sobre o instigante e difícil tema
que é o olhar. Essa obra confirma mais uma vez que o trabalho
de Quinet ensina e transmite a psicanálise de maneira atual
e criativa às mais diversas áreas de atuação.
O livro é o resultado de uma extensa pesquisa e expõe
a idéia de que somos seres vivos atuando no mundo com máscaras
e sintomas sob o olhar do outro. Mostra o olhar como personagem
principal do universo de Narciso e como fator preponderante na sociedade
contemporânea teleguiada pela razão paranóica.
Antonio Quinet percorre a teoria psicanalítica e seus conceitos
fundamentais a partir da perspectiva do olhar. Descreve os conceitos
com os quais trabalha e os ilustra amplamente, utilizando a literatura,
a pintura, a mitologia, letras de músicas, fatos diversos
e, sobretudo, a clínica.
Também ressalta cenas de filmes em que capta os jogos de
olhares capazes de conduzir as intenções e fascinar
o espectador. Tais momentos são por ele apontados com inequívoca
precisão, perspicácia e com a sensibilidade vibrante
de um intérprete. O autor registra o percurso de seu objeto
de estudo, o olhar, percebido sob diversos ângulos e momentos
históricos, ressaltando sua grande influência e significação
na subjetividade e na sociedade contemporânea.
Essa sociedade é batizada pelo autor de escópica
por sustentar-se principalmente no ver e ser visto, fato que abala
o sujeito submetido à presença de um olho observador,
presente em locais os mais diversos e às vezes acompanhado
do imperativo: Sorria, você está sendo filmado! Quinet
propõe considerar como cogito de nossa sociedade escópica
“sou visto logo existo”, em lugar do cogito cartesiano
“penso logo existo”.
O autor aponta para o rompimento da psicanálise com a tradição
filosófica ao diferenciar o olhar e a visão. O olhar
destacado por Lacan é considerado como objeto da pulsão
escópica, descrita por Freud como impulso a ver e a ser visto,
aliado ao campo do prazer e do desejo.
Em suas perspectivas filosóficas, aborda desde a Paideia
platônica e a aristotélica Ética a Nicômaco,
as quais entendem a contemplação como uma espécie
de saturação da falta-a-ser, um encontro com a felicidade
perfeita, com o objeto a de Lacan, (cortei pedaco)até Descartes,
que inaugura a ciência moderna e, com ela, o mundo do olhar
desaparece para dar lugar ao da razão. Aqui os raios do olhar
passam pela física, métrica e geometria, reduzindo-se
à metáfora do conhecimento.
Inaugurando o Iluminismo, Kant afirma que os objetos sensíveis
ou fenômenos seriam aqueles acessíveis ao sentido da
visão. São esses os objetos que nos são oferecidos
na experiência; a coisa em si, das Ding, não é
jamais apreendida pela percepção visual nem pela representação
e não pode portanto ser conhecida, mas pode, contudo, ser
pensada. Cisão entre conhecer e pensar, esquize entre olho
e olhar. O fenômeno está no campo do olhar, mas o lugar
do que não é representável, do excluído
do campo da percepção, será destacado por Lacan
como lugar topológico do olhar, estando mais próximo
do númeno e da coisa em si do que do fenômeno, que
não deixa de ser uma emergência da coisa escópica.
O mundo visível só será retomado com a fenomenologia
de Husserl e Merleau-Ponty, com quem Lacan dialoga. Pode-se pensar
que a percepção visual inclui um gozo manifesto na
afetação do sujeito como um ser visto. O olhar fenomenológico
estuda a essência através da suspensão dos objetos
empíricos, fatos e acontecimentos, e tal não aceitação
da realidade imediata abre caminho às cogitações,
estados da consciência, sempre intencionais, ligados a um
objeto. O olhar fenomenológico é um olhar de dentro,
já que o sujeito da percepção faz parte do
fenômeno.
Lacan adota a orientação de Husserl quanto à
inclusão do sujeito no fenômeno, embora a critique.
Para elaborar o objeto a, retoma Kant e seu conceito de coisa em
si, em sua dimensão irrepresentável, aproximando-o
do das Ding freudiano, mas não para restabelecer o ser. O
ser aqui é nada, é semblant, é gozo, e faz
do olhar o segredo do modo escópico do ser.
Merleau-Ponty concebe o sujeito encarnado no fenômeno em
si; para ele, toda experiência vem pela via da palavra, e
o objeto só é entendido após ser conhecido,
isto é, não há uma concepção
antipredicativa do objeto anterior à experiência. Porém,
a percepção da realidade depende do ponto de vista.
Para ele, o olhar veste as coisas com sua carne e esta é
“o enrolamento do visível sobre o corpo que vê”.
Antecipa, assim, nas palavras de Quinet, um ponto central da teoria
lacaniana, a saber, a preexistência de um olhar no espetáculo
do mundo: “Nesse mundo que vejo, sou, antes de tudo, visto”.
Ambos, Lacan e Merleau-Ponty, com suas pesquisas, criaram a idéia
do olhar para além do espelho, da relação entre
semelhantes, permitindo pensar que o sujeito se encontra no lugar
do objeto em torno do qual a pulsão escópica circula.
Ela está na base do dar a ver do sujeito e o afeta por um
olhar que o objetiva mesmo estando excluído da visão.
Feita essa incursão pela Filosofia, Quinet passa a perseguir
o objeto olhar com a precisão e determinação
de um minucioso observador. Inicia esse percurso remetendo-se ao
objeto agalmático, que está no campo escópico
como jóia que brilha. Olhar como objeto a, mais-de-gozo e
causa do desejo. Lembra ainda que a pulsão escópica
não está escorada na necessidade, mas em um objeto
a evanescente sem consistência material. Segundo afirma, “o
olhar não pode se ver senão ao preço da cegueira
ou do desaparecimento do sujeito, o que aponta para o fato de que
toda pulsão é pulsão de morte”.
O conceito de pulsão escópica permitiu à
psicanálise restabelecer uma função de atividade
para o olho, não mais como fonte de visão, mas como
fonte de libido. A psicanálise descobre a libido de ver,
o prazer de ver, e o objeto olhar como manifestação
da vida sexual. Como formula Quinet, “lá onde estava
a visão Freud descobre a pulsão”. Para Lacan,
o olhar como objeto a — objeto invisível que se encontra
no fundamento da visibilidade, faz do sujeito que percebe o objeto
percebido.
Aqui o olhar não faz parte do sujeito e sim dos objetos
e, ao mesmo tempo, não se encontra entre aqueles do mundo
sensível. Ele apresenta apenas uma consistência lógica:
como objeto, está ligado ao gozo, inapreensível ao
eu, promovendo o brilho, o interesse, o fascínio do mundo
da visão.
Nesse estudo, veremos que o olhar não é um atributo
do sujeito, que dele se serve como instrumento; ao contrário,
é o sujeito que é afetado pelo olhar enquanto objeto.
O olhar é trabalhado aqui como objeto ativo pelo qual o sujeito
é subvertido. É o objeto que causa seu desejo e que
não está ausente quando a angústia se faz presente.
Um olhar a mais apresenta a teoria psicanalítica desenvolvida
em torno do olhar, aqui descrito como furo iluminado do lugar do
Outro para o sujeito. Quinet utiliza-se da banda de Moebius para
apontar que o laço da pulsão escópica “olhar
- ser olhado” se articula com a castração do
Outro, que divide o sujeito e que repercute na realidade como um
véu por sobre a falta fálica e sobre o olhar que escapa
à percepção dessa realidade.
A pulsão escópica confere ao olho a função
háptica de tocar com o olhar, despir e acariciar com os olhos.
Segundo o autor, “o campo visual é ótico, mas
a pulsão sexual o torna háptico”. Quinet utiliza-se
de uma metáfora quando lembra que o quadro da fantasia é
para o neurótico “a obra de arte de uso interno do
sujeito”. Aponta o buraco vazio deixado pelo objeto perdido
como um vazio na janela, que é a falta do Outro. A estratégia
do sujeito é trazer esse objeto de volta para o vazio, utilizando
a imagem narcísica i(a), envelope imaginário do objeto
ou a fantasia $<>a com a qual encena sua relação
com o objeto. Nesse sentido, o sujeito aloja um quadro ou um espelho
no vazio da janela, no vazio deixado pela extração
do objeto a no campo do Outro.
É interessante ressaltar a forma como Quinet relaciona
o olhar às estruturas clínicas: no neurótico,
haveria uma suposição de um Outro reduzido a outro
como suporte do olhar para causar seu desejo ou sua angústia;
o perverso pretende devolver ao Outro o olhar para fazê-lo
gozar; e finalmente, o psicótico não teria o olhar
como objeto separado, mas como atributo de um Outro com poder de
vigiar e punir. Em todos os casos, o “olhar é objeto
de gozo atribuído ao Outro e é a face da morte que
se desvenda como sua expressão última”.
O mais-de-olhar de Quinet faz alusão ao mais-de-gozar,
extraído da teoria dos quatro discursos de Jacques Lacan,
que, por sua vez, vai buscá-lo na mais-valia proposta por
Marx, que marca, na relação do mestre com o escravo,
o valor de gozo do qual o sujeito está excluído embora
seja por ele causado.
Antonio Quinet parte dos ensinamentos da clínica psicanalítica
e da observação da vida cotidiana, apreendendo, com
Freud e Lacan, os modos de satisfação dessa pulsão:
o gozo do olhar. Propõe o olhar como objeto que representa
o mal-estar da civilização, captado por Freud a partir
da construção do supereu e de sua função
de vigilância e crítica. Aponta uma ética do
olhar, mostrando que o olhar é um furo, que o Outro é
inconsistente e por isso cego. O olhar é uma faísca
que acende o desejo escópico.
Encontram-se também incluídos nessa obra temas superinteressantes
ligados à função do olhar, como o olhar da
Medusa, compondo a terceira parte do estudo. Nesse momento, aborda-se
a questão da castração pela via do escópico,
a castração ótica. O olhar da Medusa é
mortífero e suscita a ereção do desejo. O significante
falo é lembrado como central nessa discussão, pois
incidem sobre ele o véu e as estratégias através
das quais o sujeito se esconde do olhar que lhe vem do Outro, nesse
momento entendido como agente do olhar e da castração.
Aponta-se ainda que, na saída do Édipo, duas instâncias
estarão ligadas ao escópico: o ideal do eu, ponto
em que o sujeito se vê como amável, e o supereu, olhar
que vigia e pune. Aqui se mostra que o olhar é objeto causa
de angústia, evocando o conto de Hoffmann, “O homem
de areia”.
A partir do olhar medusante, expressão de Quinet, isto
é, da castração que esse representa, o sujeito
responde com o recalque, desmentido e foraclusão. Tais formas
de posicionamento frente à castração farão
a distinção entre as três estruturas: neurose,
perversão e psicose. No Capítulo V discorre sobre
a neurose e a perversão, abordando tais estruturas e perseguindo
as manifestações do olhar como objeto a, objeto que,
pela inclusão da castração, é objeto
causa de desejo. Na clínica, Quinet ressalta que seja na
imagem, na fantasia, no sonho, no sintoma ou como objeto fetiche
o olhar aponta inevitavelmente para a presença do desejo
e do gozo no nível escópico. Conclui com a construção
do caso clínico de Pierre Rey, escritor jornalista e analisante
de Lacan que relata sua análise em um livro de sua autoria.
Esse caso nos permite captar a consistência lógica
do objeto escópico.
Para a perversão, enfoca o filme Peeping Tom, de Michael
Powell, cujo personagem é um serial killer que mata as mulheres
e as fotografa na hora da morte, captando seu olhar de pavor diante
de sua própria morte, que pode ser vista pelo espelho instalado
pelo assassino diante delas. Este tenta fotografar o inapreensível
olhar de morte e capturar esse olhar como objeto a.
No campo da psicose, o delírio de observação
aponta que o objeto olhar pode ser visto e faz parte da realidade
do sujeito, uma vez que não pode ser barrado pelo simbólico.
A paranóia, como sabem aqueles que acompanham Antonio Quinet,
constitui uma seara fértil. Sua pesquisa atenta percorre
um caso clínico de Meynert, mestre de psiquiatria de Freud.
Em uma época de desaparecimento do interesse da psiquiatria
por estudos desse tipo, Freud resgata o delírio de observação
como fenômeno no qual a emergência, no campo da realidade,
de um olhar que provoca angustia e pânico no sujeito psicótico.
Olhar do Outro diante do qual não fugir.
Também veremos a vergonha, o mau-olhado, a inveja, o ciúme,
apontados aqui e articulados à pulsão escópica.
O livro discorre ricamente os mais variados temas referentes ao
olhar, mostrando, nas palavras do autor, que, diante do “excesso
comandado de gozo da sociedade escópica, a psicanálise
opõe uma ética do olhar como causa do desejo. Pois
a ética da psicanálise é uma ética do
desejo e não uma ética do gozo, como a ética
de Sade”.
Quem quer que pretenda entender mais sobre a pulsão escópica
em psicanálise, sobretudo naquilo que se refere à
vertente do olhar, não poderá deixar de incluir em
seu percurso esse rigoroso tratado, que vem elucidar, com suas ricas
articulações, a complexidade concernente a esse tema,
sob o risco de estar ignorando o inestimável valor dessa
contribuição.
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Regina Teixeira da Costa é psicanalista de Belo Horizonte,
professora da “Faculdade de Psicologia Newton Paiva”
e tem uma coluna semanal no Jornal "O Estado de Minas".
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