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O REAL DA ÉTICA
Helena Besserman Vianna
Nota do editor: Esta conferência foi pronunciada em Tours,
em 17 de Outubro de 1998, e foi o último trabalho de Helena
Besserman Vianna publicado em “Gradiva”. Ele termina
com uma citação de James Baldwin, que ilustra tão
bem o espírito combativo e incansável de nossa inesquecível
colaboradora: "Nem tudo que se enfrenta pode ser modificado.
Mas nada pode ser modificado até que seja enfrentado".
Muito provavelmente minha participação nesta tão
organizada jornada, como prévia dos Estados Gerais da Psicanálise,
que será realizado em julho de 2000, em Paris, deve-se à
publicação de livro de minha autoria – Não
Conte a Ninguém... (Imago,1994), que, na tradução
ampliada em francês, intitula-se "Politique de la Psychanalyse
face à la Dictature et à la Torture – N’en
parlez à personne", com prefácio de René
Major, e, em castelhano, com prefácio de Horacio Etchegoyen,
"No se lo Cuente a Nadie" (Polemos, 1998).
Aprendi com meu pai, estudioso do Talmud, a resposta a uma de suas
instigantes perguntas: "O que é que vive durante séculos,
mas pode morrer ainda antes de ter nascido?" Resposta: um livro.
"Nasce a cada vez que alguém o lê e pode morrer
nas brumas do esquecimento, no assassinato da memória, nas
deformações e omissões que se fazem de sua
leitura". Ou ainda, em se tratando do real da ética,
o que inclui os impasses éticos da instituição
psicanalítica, esta leitura pode ser realizada com angélica
postura de cordeiro, propondo que questionar o comportamento ético
dos psicanalistas face ao social, é apenas tentar uma tal
denominada etificação calamitosa, como fez Allouch
em seu livro sobre o caso Amilcar Lobo (Cahiers de l’Unebévue,1997).
Creio não ser necessário relatar-lhes o histórico
do envolvimento de um candidato de uma das sociedades psicanalíticas
do Rio de Janeiro (Rio1) filiada a IPA, Amilcar Lobo, em equipe
de tortura a prisioneiros políticos em época de ditadura
militar e a proteção que recebeu de seu analista-didata
(Leão Cabernite), que teve, por sua vez como analista-didata
a Werner Kemper. Kemper, que durante a Segunda Guerra Mundial trabalhou
COMPROMETIDO com o regime nazista, na qualidade de diretor do Instituto
Göring, chefiado por Matthias Göring, primo do famoso
general de Hitler. Werner Kemper chegou ao Brasil em 1948, apoiado
por Ernest Jones, então presidente da IPA. Também
não vou detalhar pormenores quanto a participação
ativa e/ou passiva de outros dirigentes da sociedade internacional
fundada por Freud ou sobre aspectos éticos de algumas de
suas afiliadas, pois a documentação de suas respectivas
transgressões éticas consta pormenorizadamente nos
livros que citei anteriormente.
Existem temas que possuem significado, representação
e propriedades particulares: – real, ética, institucionalização,
se inserem neste espaço. São conceitos polissêmicos
, questionados por filósofos, antropólogos, historiadores,
cientistas sociais, e, evidentemente, também por psicanalistas.
Sabemos que diferentemente do que acontece com outros animais e
seus agrupamentos, o sistema sócio-político de qualquer
sociedade humana não pode ser prognosticado a partir de conhecimentos
sobre a espécie Homo Sapiens, por mais amplos que sejam os
saberes utilizados. Por exemplo, especialistas no assunto podem
descrever com minúcias as abelhas e seu sistema institucional,
podendo constatar que, se uma sociedade de abelhas modificar seu
comportamento sócio-político-ético, esta sociedade
caminhará para sua desintegração e possível
extermínio, enquanto abelhas.
O mesmo não se aplica às comunidades humanas.
O conhecimento das origens e primórdios da cultura e dos
sistemas sócio-políticos de seu passado não
me permite prever como evoluirá cada instituição,
sua cultura e sua ética. Isto porque a cultura de cada sociedade
é exercida e utilizada pelo conjunto de seus componentes.
Cada ser humano opera e funciona sob a influência de alguma
cultura. Por outro lado, o comportamento de cada indivíduo
também tem seu efeito cultural.
Deixo de lado deliberadamente certos aspectos específicos
da ética psicanalítica, em especial no encontro psicanalista-analisante,
e o que indago agora, não é tanto sobre o real da
ética para o psicanalista, mas sim, quando e a propósito
de que, falamos de ética no espaço em extensão
(no sentido de "estension" de Lacan) do psicanalista no
mundo , - esteja o psicanalista se penteando em banheiro público
(exemplo de Allouch), praticando tortura a presos políticos,
ou ainda apoiando direta e/ou indiretamente medidas institucionais
atrabiliárias e totalitárias, seja em tempos de tirania
ou de "soi-disant" poderes democráticos.
Sem pretender esgotar o assunto, formulo algumas hipóteses
iniciais como encaminhamento para novas contribuições
no que concerne aos impasses éticos que com freqüência
se repetem em diferentes instituições psicanalíticas.
1. a manutenção de segredos e ocultação
de fatos institucionais, na grosseira pretensão de sustentar
como verdade e como real, o poder do esquecimento;
2. a notificação de ocorrências institucionais
da mais alta importância social e política, como se
nada de mais se tivesse passado;
3. Concordo, em termos gerais com as opiniões de Eric Santner,
apresentadas em seu livro "My own Private Germany" (Daniel
Paul Schreber’s Secret History of Modernity – Princeton
Univ.Press,1966), de que impasses e conflitos individuais e coletivos,
surgem quando há mudanças na matriz fundamental da
relação do indivíduo com a autoridade social
e institucional, e ao modo como cada um responde às exigências
do poder e das autoridades ditas "oficiais". Nas investiduras
de poder, alguns, senão muitos psicanalistas, se enquadram
no que Santner denomina de "investidura simbólica",
na qual fica dotado de novo status social e investido de um mandato
simbólico que, desse momento em diante, impregna sua identidade
na comunidade. Nesses casos, a estabilidade institucional bem como
o equilíbrio emocional e o comportamento ético real
de seus membros, fica submisso ao simbólico social e ao poder
que a este se atribui, através de títulos, postos,
honrarias e atributos similares.
Penso que somente através do esclarecimento transparente
e sempre documentado de fatos que de alguma forma atingem a comunidade
é que se pode estabelecer as responsabilidades individuais
e/ou coletivas nas passagens ao ato que geram impasses maléficos
ético-institucionais, ainda que, por particularidades inerentes
ao nosso ofício, estes atos estejam quase sempre intimamente
aprisionados ao uso indevido da transferencia e a questões
que remetem aos problemas relacionados ao que se quer significar
com "transmissão da psicanálise".
Vou citar-lhes exemplos até bem conhecidos que corroboram
os itens que acabei de mencionar.
A intervenção direta dos princípios e leis
nazistas na Sociedade Psicanalítica alemã (DPG), iniciou-se
em 1935, quando ficou estabelecido que as autoridades nazistas governamentais
só admitiriam a existência da psicanálise na
Alemanha, se "todos os seus representantes fossem arianos".
Nestas circunstancias, Ernest Jones, na qualidade de presidente
da IPA, reúne-se em Berlim com os membros não-judeus
da sociedade psicanalítica alemã (entre eles Werner
Kemper – fundador da primeira sociedade psicanalítica
do Rio de Janeiro, a qual pertencia Amilcar Lobo, analisante em
formação de Leão Cabernite, que por sua vez,
foi analisante de Kemper) e, em reunião realizada em dezembro
de 1935, concordam com que "os poucos judeus ainda remanescentes
na sociedade deveriam apresentar suas demissões "espontaneamente",
para impedir a dissolução da sociedade e assim, "salvar
a psicanálise". Real de nova ética... Este episódio
terrífico e vergonhoso para a instituição psicanalítica
alemã e mundial, é descrito por alguns psicanalistas,
entre eles Kemper, de forma escamoteada e eufemística, dando
a entender que os psicanalistas judeus teriam liberdade para decidir,
por vontade própria, se podiam ou se deviam demitir-se da
sociedade psicanalítica alemã.
Outro exemplo: terminada a Segunda Guerra Mundial, a revista oficial
da IPA, apresenta uma relação dos psicanalistas alemães
falecidos durante a guerra, sem nenhuma menção ao
fato de que grande parte deles eram judeus que foram assassinados
ou exterminados em fornos crematórios dos campos de concentração
construídos pelos nazistas.
Um último exemplo: em 1989, Amilcar Lobo escreve suas memórias
em livro intitulado – "A Hora do Lobo e a Hora do Carneiro"(seu
codinome na equipe de tortura). Em resposta a crítica que
fiz a esse livro, Lobo diz o seguinte: "...Dra. Helena Besserman
Vianna escreve que em nenhum momento me mostro envergonhado pelo
que cometi ou assisti nos quatro anos que fiz o serviço militar.
No entanto...parece esquecer que o Homem utiliza a tortura e os
assassinatos há milhares de anos, desde que se organizou
em sociedades. Há bem pouco tempo, a Inquisição
torturou e matou inúmeros judeus e há pouco mais de
quarenta anos o regime nazista alemão procedeu da mesma forma.
Assim é o Homem na sua total estrutura mental e eu não
me envergonho de ser um deles...".
Convido-os a refletir e questionar no que esta declaração
de Lobo contem de anti-ético mas, especialmente, de transmissão
deformada do pensamento freudiano, dentro e fora do "setting"
analítico ou a postura ética dos psicanalistas face
ao real da ética.
Este tipo de declaração feita por Lobo é,
evidentemente, eivada de aspecto político (e qual ato não
é político?), e enseja a vontade de, em parodiando
Freud, chegar a poder dizer – "...estes psicanalistas
são, portanto, os únicos a não serem ...psicanalíticamente
éticos!".
É bem verdade que ao contar o que se pede que não
seja contado a ninguém, fica presente o risco de se incorrer
em erros de interpretação. Entretanto, a ocorrência
destes erros é amplamente menor que os perigos da ignorância
sistemática. Na pior das conseqüências, os erros
de interpretação poderão ser retificados, enquanto
que o silencio sobre as origens dos impasses éticos e seus
desdobramentos em muitas instituições psicanalíticas
só podem servir a especulações inconfessáveis
que não terão certamente, sequer, o mérito
de se sustentarem diante dos fatos.
Para chegarmos ao ético nos dias de hoje, onde o mal-estar
da civilização se faz sentir em crises de alma e –mercado,
podemos observar, mesmo entre os psicanalistas, que grande parte
das instituições psicanalíticas, simultaneamente
a aparência de coesão entre seus associados, desenvolve
uma nova relação e orientação no que
concerne ao tempo social. Cada vez mais, generaliza-se a temporalidade
que governa o mundo atual – o presente.
Neste sentido, ocorre-me ressaltar que o que denominamos convencionalmente
de atualidade, não deixa de recordar a lembrança.
Assim, pergunto: se é sempre oportuno lembrarmos que esquecemos,
será também oportuno, em rememorando, restaurar tanto
o objeto do esquecimento quanto o da lembrança? Penso que
sim.
Não lembrar do passado leva ao risco de ter o pensamento
e a postura ética do psicanalista e, de qualquer ser humano,
em qualquer regime político, voltar-se para o discurso apologético,
buscando justificativas, defesas, ou mesmo louvando atos inconfessáveis
do passado, ou ao risco de resguardar-se em arquivos que permanecem
secretos, as transgressões éticas e os documentos
que comprovam as devidas responsabilidades.
Não rememorar cobra tributo à capacidade de pensar
e questionar, especialmente a ética face aos Direitos do
Homem.
A ameaça de esquecer que esquecemos leva a construções
de inverídicas reconstruções. O que se pretende
com os "assassinatos da memória" não é
destruir a verdade. O que certamente se pretende obter é
destruir a memória da lembrança e a consciência
da verdade. Quero significar com estas palavras que "não
esquecer" quase sempre pressupõe uma espécie
de vingança pessoal ou institucional, enquanto que recordar
favorece os aspectos positivos por uma vida construtiva e com amplitude
de criatividade e de diálogo entre diferentes. Em outras
palavras, não esquecer é a guerra permanente, ao passo
que rememorar é uma das possibilidades mais eficazes de desenvolvimento
criativo nas posturas éticas e realísticas das instituições.
No desenvolvimento muitas vezes contraditório, lento e desigual
de obter através do processo psicanalítico subjetividades
mais livres, a psicanálise não é, evidentemente,
o único caminho. O futuro ainda é enigmático
no que concerne aos rumos que tomarão os indivíduos
para obter sua autonomia.
No que tange à lucidez, resta ainda muito a conquistar,
pois a ilusão e a obstinação aos dogmas psicanalíticos
já estabelecidos, tal qual Phénix, renascem sempre
de suas cinzas. Ainda assim, a ética psicanalítica
tem contribuído de forma grandiosa para desarraigar, especialmente
no Ocidente, o obscurantismo e o fanatismo, contribuindo éticamente,
ainda que modestamente, a buscar uma humanidade menos narcísica,
apesar de seus paradoxos: o conhecimento do inconsciente, pode favorecer
o consciente, na medida em que a responsabilidade individual na
passagem ao ato é nomeada, levando ao respeito e prática
dos Direitos do Homem.
Parafraseando Churchill, talvez, neste conturbado final de século,
questionando os dogmas instituídos na ética dos psicanalistas,
possamos nos dar conta de que a psicanálise e o exercício
de sua ética seja um dos piores caminhos a trilhar, a exceção
de todos os outros.
Termino com James Baldwin: "Nem tudo que se enfrenta pode
ser modificado. Mas nada pode ser modificado até que seja
enfrentado".
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