| |
<
voltar
Rio de Janeiro; 1 de novembro de 2001
ROSA BEATRIZ EM HAVANA (JULHO, 1986)
ALGUMAS ANOTAÇÕES, RECORDAÇÕES
E UMA GRANDE SAUDADE
Ney Marinho
A SBPRJ tomou a feliz iniciativa de escolher como forma de homenagem
à sua ex-Presidente e ex-Diretora do Instituto, Rosa Beatriz
Pontes de Miranda Ferreira, a apresentação de um de
seus trabalhos: A Consideração (Havana, 1986). Um
pequeno texto, não mais do que quatro páginas, escrito
para uma comunicação de poucos minutos, dentre outras
inúmeras contribuições que qualquer participante
do Encontro Latino-Americano de Psicologia Marxista e Psicanálise
poderia apresentar para o debate. Contudo, naquelas parcimoniosas
palavras encontramos muito do que foi Rosa Beatriz e, mais ainda,
a sua fertilidade, simples e generosa. Extraio da memória
e de um velho caderno de viagem algumas recordações
e notas que talvez esclareçam a felicidade da homenagem.
Tudo se passou em 1986. Há pouco mais de quinze anos que
hoje nos parecem longínquos e, paradoxalmente, próximos.
O processo de rediscussão do projeto socialista estava recém
iniciado, através da política de Perestroika e Glasnost
– Reestruturação e Transparência –
desencadeado na União Soviética, com a ascensão
de Gorbachov. Cuba, por sua vez, tentava romper o asfixiante e criminoso
bloqueio a que se via condenada, procurando desenvolver uma maior
aproximação – política e ideológica
– com a América Latina. Havia resistências internas,
por parte de grupos dogmáticos, e externas, pelos países
que apoiavam o bloqueio. Basta dizer que, então, ainda não
havíamos reatado as relações diplomáticas
e vivíamos os primeiros anos de um governo civil, após
vinte e um de ditadura militar. A idéia do Encontro entre
psicólogos marxistas e psicanalistas nascera de contatos
entre representantes da Universidade de Havana e profissionais de
esquerda de nossa área, nos diversos países latino-americanos.
Ao contrário da União Soviética, a história
da psicanálise em Cuba não era tão carregada
de hostilidade por parte do governo e quadros dirigentes. Com a
revolução os poucos psicanalistas que existiam na
ilha abandonaram o país, assim como muitos professores universitários,
deixando um vácuo que não foi ocupado pela reflexologia,
mas por uma psicologia peculiar que pretendia estar consoante com
a ideologia marxista sem, contudo, ter um compromisso organicista.
Sendo tudo muito recente havia um bom espaço para o diálogo.
Ao lado disso, Cuba vivia um momento de desafogo, driblando as restrições
que lhe eram impostas, através da retomada de sua vocação
turística, atraindo visitantes de vários países
inclusive daqueles que eram forçados a manter o bloqueio
por pressão norte-americana.
O tema do Encontro era amplo – o diálogo entre a
Psicologia Marxista e a Psicanálise – o que dava margem
a ricas e variadas discussões que se realizavam em grupos
multi-profissionais (psicanalistas, psiquiatras, psicólogos,
assistentes sociais e educadores) e que podem ser melhor avaliadas
no cuidadoso e informativo número especial que Gradiva dedicou
ao mesmo (segundo semestre de 1986). Gostaríamos de registrar
que vivemos uma espécie de revival dos debates que ocorreram,
nas décadas de 20 e 30, entre os primeiros psicanalistas
e filósofos e cientistas políticos de orientação
marxista, na Alemanha. Debates em que participaram, por exemplo,
Ferenczi, Franz Alexander, Adorno, Horkheimer, Fenichel, que percorriam
temas análogos: como transformar nossas relações
sociais de mesquinhas e predatórias em solidárias
e fraternas?; o fim da exploração do trabalho traria
necessariamente a desalienação?; a paz e o internacionalismo
seriam uma quimera romântica ou teriam fundamentos sólidos
desvelados por uma rigorosa análise econômica e histórica
desmistificadora das alegações da inevitável
beligerância e agressividade dos grupos humanos? Em suma:
questões que teimam em retornar, não encontram respostas
satisfatórias, mas insistem em não se calar e minam
qualquer tentativa dogmática de explicar os homens e seus
bizarros comportamentos. Uma resenha erudita, marcada pela competência
e clareza em lidar com temas tão complexos pode ser encontrada
na obra de Sérgio Paulo Rouanet: Teoria Crítica e
Psicanálise, a qual remetemos os interessados a fim de não
nos alongarmos na descrição do clima que reinou em
nossos francos, livres e sinceros debates que cobriam todas as manhãs
e estendiam-se nas conversas intermináveis entre novos e
velhos companheiros. Havíamos saído do Rio, com Franklin
e Cléa Rubinstein, sua filha Luciana e D. Doba (mãe
de Cléa, uma histórica e saudosa militante comunista),
Carlos Castellar e Maria Cristina Amendoeira, lá encontramos
outros colegas brasileiros (Marília Daher, Maria do Carmo
e João Szpilman, entre outros), além de Marcelo Viñar
(uruguaio e atual presidente da FEPAL), Saul Peña (peruano,
ex-presidente da FEPAL) e Marie Langer, dentre mais de cem profissionais
latino-americanos. Pelo Brasil, os organizadores eram colegas de
São Paulo (Fábio Landa e outros que não me
recordo). Com Langer tivemos uma longa entrevista e assistimos a
uma belíssima conferência sua sobre seu trabalho na
Nicarágua, dando supervisões mensais aos companheiros
sandinistas, em condições das mais adversas (como
sobre a reação de equipes hospitalares e pacientes
aos bombardeios dos contra-revolucionários aos hospitais).
Langer estava então exilada, no México.
O Encontro teve a duração formal de uma semana,
mas esticou-se por uma outra através de reuniões,
visita ao Hospital Psiquiátrico de Havana e, nós quatro
(Fernanda, Rosa, Jorge e eu) visitamos Santiago de Cuba. Recordo-me
da disposição e esforço, de Rosa e Jorge, debaixo
de um sol de mais de quarenta graus, percorrendo os muros do Quartel
de Moncada. A viagem era também uma “peregrinação”
em solidariedade aos nossos ideais comuns que ali estavam sendo
vividos, realizados, com todos os equívocos, falhas, desacertos
com que costumeiramente a realidade trata nossos melhores sonhos,
mas com uma dignidade que nos comovia. Fomos a primeira delegação
brasileira a chegar a Cuba, após o reatamento. Tivemos lá
a notícia. Brindamos e festejamos, o que não nos poupou
de ter que retornar via Caracas e passar toda uma noite nos salões
do aeroporto, no ritual cruel e perverso que nos impunha o bloqueio.
Nossa viagem fazia parte também de um movimento de pressão
para que o Brasil reatasse logo as relações com Cuba.
É importante lembrar que não havendo vôos diretos
a viagem levava mais de doze horas, o que tornava qualquer projeto
turístico, por exemplo, inviável. Alguns países
não davam visto para idas a Cuba; a Argentina negou a vários
participantes.
Rosa escrevia pouco, ou melhor, publicava pouco; fazendo sempre
anotações que por vezes nos lia, mas relutava em transformá-las
em textos. Alegava os mais diversos motivos, sobretudo, as dificuldades
com o problema do sigilo necessário, mas o que predominava
era a sua excessiva modéstia, julgando triviais o que nos
parecia importantes contribuições (recordo de interessantíssimas
notas sobre a utilização que fazia, na clínica,
da teoria das transformações de Bion). Além
deste trabalho, somente a vi realmente entusiasmada – graças
sem dúvida ao estímulo carinhoso e incansável
de Diva Farias – ao escrever para o Centenário de Bion.
Seu trabalho, a rigor, um sofisticado ensaio, A Importância
Fundamental da Grade na Obra de Bion, foi considerado um dos mais
significativos do Simpósio de Torino (1997), sendo publicado
recentemente pela Karnack (in, W. R. Bion – Between Past and
Future). Esta foi outra viagem, outra “peregrinação”,
que fizemos juntos – com Jorge e Francisco (seu filho) –
um esforço quase insuportável, dadas as dores que
sentia, mas um dever a que se impôs para prestar sua homenagem,
sua gratidão àquele que considerava um dos maiores
pensadores de nossos tempos: W. R. Bion.
A importância do texto que foi apresentado reside, a meu
ver, na sugestão de que investiguemos um ponto de interseção
entre o marxismo e a psicanálise, sempre procurado e, muitas
vezes, perdido em correlações que padecem de uma notória
artificialidade, pois, ignoram aquilo que moveu gerações,
e ainda nos move, muito além de discutíveis propostas
econômicas ou políticas, rígidas e dogmáticas,
que é a de levar às últimas conseqüências,
radicalmente, o desafio de construirmos uma sociedade baseada em
relações de respeito e consideração.
Consideração, por sua vez, como o texto mostra é
um conceito limite entre o afeto e o pensamento, sem o qual não
é possível o desenvolvimento criativo do último.
Não cabe, neste momento, uma discussão científica
de um tema tão amplo. Quisemos apenas descrever o cenário
em que surgiu. Da mesma forma não pretendemos ocupar um tempo
maior, cientes que muitos dos presentes desejam falar e despedir-se
de Rosa. Gostaríamos somente de fazer também a nossa
despedida.
Agradecemos à Melanie Klein, a Bion, à Rosa Beatriz
terem nos dado os instrumentos para levar adiante nossos sonhos,
sem acanhamento de sermos tomados por ingênuos ou tolos. De
Rosa podemos dizer que sua própria vida foi um testemunho,
o testemunho de como uma vida vale a pena ser vivida. Podemos dizer
também que para nós foi um privilégio com ela
trabalhar e conviver por mais de trinta anos, assim como com Jorge,
seu marido, e Francisco, seu filho, que muito explicam do segredo
de sua criatividade, vitalidade e generosidade: Rosa foi muito amada.
Amada por pessoas também dotadas das mesmas características.
Formou-se um círculo virtuoso, de amplo diâmetro, acolhedor,
aberto a todos que como eles nunca perderam a esperança na
construção de um mundo melhor, mais alegre, mais justo,
mais fraterno e solidário.
(Texto lido na homenagem que a SBPRJ prestou à Dra. Rosa
Beatriz Pontes de Miranda Ferreira, em 9 de novembro de 2001)
< voltar
|
|