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A ROUPA NOVA DO REI
(Elaborações Teóricas Transdisciplinares a
Propósito de Clamores “Sociais” no Movimento
Psicanalítico: Toda Novidade não passa de Esquecimento)
Paulo Cesar Sandler[1]
“O Social” Merecerá cuidado, o uso do termo,
demandando considerações de ordem sociológica,
psicanalítica, epistemológica e histórica?
Nenhum de nós gostaria de se envolver no mau uso de uma boa
teoria ou abordagem[2]. “Devemos levar em conta o social”:
impropriedade e lassidão semântica que maravilha o
leigo e faz sorrir o perito?[3] “O social”, oposto a
“o individual”: palavra de ordem messiânica, perspectiva
de salvação para nossos problemas mais domésticos
(institucionais-políticos e teórico-técnicos[4])?
Parece-me haver evidências sugestivas de que “o social”,
conforme está sendo usado no nosso meio, pode constituir
droga epistemológica, produto de esquecimento, abuso transcendental
(ver nota de rodapé 18), senso-concretização
e identificação projetiva.
Ciência e Política Há evidências de desfechos
tragicamente destrutivos causados por interferências políticas
sobre os caminhos da Ciência e da Arte. Elas perdem o sentido
de busca da verdade, ou apreensão da realidade. Passam a
formar, servir, representar ou instrumentar ideologias – produtos
da mente tornados leis. Seus criadores e adeptos ficam perplexos,
quando a Natureza não segue estas leis mentais. Exemplos
eloqüentes: a destruição de aquisições
que levaram séculos para serem feitas, levando à mendicância
artística e científica das sociedades stalinista,
nazista e consumista. O “mix” Institucionalização
+ “extraordinários delírios populares”
transforma aquilo que poderia ser ciência em “movimentos”,
do partisan ao religioso, altamente dependentes de autoridade e
propaganda, alérgicos a fatos, em desacordo com movimentos
Naturais.
Ciência e Prática Verdades profundas do acontecer
humano são “invisíveis ao olho mortal”
[5]; “emergem” da realidade para serem captadas pelo
investigador atento, por acaso e não por desígnio
consciente humano - política. Compondo a essência do
inconsciente, não nos são dadas diretamente. Podem
ser expressas, verbalmente ou não, pela Ciência, como
já o eram pela arte. Isto se dá usando sistemas simbólicos
quase-verbais na Matemática, Física e Química;
analogias metafóricas e aforísticas verbais na Sociologia,
Psicanálise; meios (“mídias”) sensorialmente
dependentes, principalmente acústicos e visuais, na arte.
A percepção e a possibilidade de expressar (formular)
estas verdades exige formação pessoal: atenção,
intuição, experiência ampla [6]. Na metáfora
de Michelangelo, a escultura já está na pedra, e ele
apenas a desbastava. A penicilina já estava lá, no
bolor, até um Fleming percebê-la. Não houve
uma associação dos escultores ou de laboratórios
que decidiu, nem a mente de Michelangelo ou Fleming que inventou
uma tarefa; existiam necessidades naturais, história, formação
e intuição.
Esquecimento: um ciclo na história da psicanálise
A história da busca por modelos externos, extra-psicanalíticos
para a psicanálise é quase tão longa quanto
a da própria psicanálise; compondo um ciclo: Terapias
Rivais – O Social – Organicismo – Psicanalismo
- Terapias Rivais – etc.[7]. Há uma tendência
para suplantar, ao invés de suplementar a psicanálise.
Esquecemos que modelos causais e terapêuticos – interessam-nos
agora os sociais -- têm consistentemente falhado em constituir
um corpo teórico e uma prática úteis, a despeito
do esforço, preparo sociológico, psicanalítico
e seriedade científica dos profissionais envolvidos[8]. Transplantes
heterólogos fadados à rejeição, falta-lhes
a capacidade de captar fatores subjacentes, “invisíveis
ao olho mortal”, cuja transcendência dota-os de alcance
generalizante e, ao mesmo tempo, capacidade de abarcar casos individuais,
força científica. Nem todas, mas muitas alternativas
não nasceram empiricamente, da clínica, da “mãe
necessidade”, como dizia Freud: o sofrimento humano e a observação
intuitiva e participante deste. Da escaldante forja da realidade
tal como ela é surgiram conceitos-chave duráveis por
conseguirem, ainda que precária, parcial e transitoriamente,
lampejar o campo numênico do inconsciente, o Processo Primário,
e descrever fenômenos subjacentes, mais além do espectro
abarcado pelos órgãos sensoriais: “transferência”,
“dois princípios do funcionamento mental”, “realidade
psíquica”, “posição esquizo-paranóide
e depressiva”, “falso self”, “fenômeno
transicional”, entre outros. Nos grupos, intuiu-se três
“pressupostos básicos”[9].
Se pouco se sabe de cientificamente confiável das relações
entre dinâmica social e a estrutura da personalidade, apesar
de mais de meio século de tentativas, penso que há
muito ainda por aprender das tentativas de inserir psicanálise
em contextos sociais. Será viável aplicar os princípios
psicanalíticos[10] aos grandes grupos? Há contradições
que a experiência mostra ser útil considerar. Entre
elas: i. Grupos agem mais facilmente por impulsos; psicanálise
depende de processos de pensar. ii. Grupos freqüentemente ficam
mais voltados à destruição mútua. Psicanálise,
filha da Medicina, nutre consideração pela vida e
baseia-se em colaboração mútua. iii. Lidamos
com pessoas que foram ensinadas a não confiarem naquilo que
lhes é dito. Como podemos esperar, então, que elas
levem a sério alguém que se propõe a lhes dizer
a verdade? Será possível inserir o vértice
psicanalítico de respeito à verdade em organizações
sociais caracterizadas por redes políticas alicerçadas
em avidez, evasão e alucinação, alcançando
tantas vezes a delinqüência? A mais comum destas parece
ser a crença da superioridade de alguns seres humanos sobre
outros, expressa por anseios de imortalidade e fama, “semente
que não cresce em solo mortal” ? [11] Como inserir
as raisons d’être da psicanálise no grupo social
pleno de interesses que não podem ser transparentes, rivalidades
que jamais podem ser elucidadas, alucinações de superioridade
cuja emergência arrisca o suicídio e o homicídio?
Há evidências que não existe nada de novo
sobre a face da terra; que todo conhecimento não passa de
lembrança; e que portanto, toda novidade não passa
de esquecimento e pretensão à originalidade não
passa de onipotência [12]. Em vários domínios,
como o da ciência e dos grupos, talvez seria prudente detectar
a presença de Moda -- a ardilosa vestimenta do demônio
[13]. Moda -- humilde serva e depois impiedosa senhora do Pouco
Saber, algo perigoso [14]. Compartilha a natureza das drogas, é
substituto empregado por quem não pode esperar [15]. O que
não estamos podendo esperar?
A Resposta. Na miragem do horizonte do Deserto do Desespero e Desamparo,
o multicor hipnótico da aurora do esquecimento, quando não
temos, Ainda Não??, lacrimejaria a criança, a resposta.
Nenhum psicanalista quereria lucrar com o esquecimento, nutrindo
a capacidade humana de se iludir em busca de curas, panacéias,
soluções. Mas o inconsciente também existe
para o analista, assim como limites de sua própria análise.
Todos nós, seres humanos, ocasionalmente agimos de modo inadvertido
-- principalmente quando movidos por boas intenções,
já que não há amor sem ódio. “Através
da repetição, o vício nega o desconhecido”
[16], ou, toda novidade não passa de esquecimento. Com certo
pesar e trepidação, proponho discutir minha idéia,
baseada em observação, que desamparo, pressa, esquecimento,
pouco saber, moda, ódio ao desconhecido ligam-se ao fascínio
por modelos exteriores ao nosso ofício psicanalítico:
biológicos, sociais, culturais, filosóficos, quaisquer
que sejam. Eles “conseguem”, alucinatoriamente, respostas.
Que caem, não por uma característica intrínseca
e elogiável da ciência como desejam os positivistas[17].
Caem por lhes faltar alcance transcendente, verdade e sintonia (analógica)
com a realidade. “A resposta é a infelicidade da questão”
[18]. Se coloco estes alertas, é por imaginar que a oportunidade
que temos agora, se for feita sem tentar substituir a psicanálise,
sem expectativas e desejos, sem amadorismo, sem esquecimento e sem
moda, tem maiores chances de ser melhor sucedida. Mais uma vez,
está em jogo o respeito que nós e a sociedade possam
ter por psicanálise. O problema não me parece se restringir
à resposta “O social”, mas a “respostas”,
sejam elas quais forem: a sensação que se adquiriu
a resposta. No ciclo descrito, quando não é “o
sociaI”, periodicamente surge o “organicismo”.
Da lobotomia à estereotaxia, da insulinoterapia aos inibidores
ou facilitadores sinápticos: a tecnologia sofistica o nível
de atuação ao microscopizá-lo, mas não
se avança no problema de natureza psicótica, que provoca
o problema epistemológico, a esperança básica
pela resposta causal. Como “o social”, a história
real da abordagem organicista conta mais hipóteses tomadas
prematuramente como verdades, fracassos, ridículos científicos
e desilusão do que sucessos. Expressão de predominância
do princípio do prazer/desprazer, da evasão da dor
e do desconhecido que é sentido como doloroso, a resposta
“satisfaz”, em alucinação, demandas narcisistas
e onipotentes. É indistinguível da posse da verdade
última. A psicanálise não é a resposta
para a extinção da dor? Procure-se outra. “Rei
morto, rei posto”. A falsidade intrínseca da tentativa
dota o transplante de um caráter evanescente, condenando-o
ao esquecimento. Tem a natureza da Droga, exige novas doses dela
mesma. Descrença em psicanálise reflete inexperiência
em introjetá-la, através de análise pessoal
e atender pacientes? Penso que uma análise fica muito limitada
caso não inclua o exame cuidadoso do ódio à
análise, à verdade de quem se é. Isto não
é uma limitação específica do analista
X ou Y, é da espécie humana e de todos os analistas.
A questão me parece ser desconhece-la, clivá-la, negá-la.
Percebo uma contemporaneidade do clamor pelo social com um declínio
da ênfase e atenção à análise
pessoal do analista; a “sociedade psicanalítica básica
e fundamental”, o paciente e o analista. Mera coincidência?
O que poderá ocorrer conosco, se, com base em seus desenganos,
a análise (inclusive a do analista) seja menosprezada e substituída
por saídas que se afiguram salvadoras?
Psicanaliticamente, a resposta contém aspectos ligados a
dificuldades de elaboração do narcisismo e da posição
esquizo-paranóide, ocorrendo senso-concretização.
Reificações, senso-concretizações, idéias
transcendentais, parecem se originar da imperiosidade de satisfação
de desejo, busca irritável por fato e razão, prevalência
de núcleos narcísicos e congelamento na posição
esquizo-paranóide. Refletem-se por acting–out[1]..
Epistemologicamente, corresponde a um “abuso transcendental”[19]
No desamparo infantil há uma deflexão idealizada dos
instintos de morte. Cliva-se bom e mau, escolhe-se objetos idealizados
– a “comunidade”, o “social” seriam,
hoje, os de plantão? “Todos estes fatores podem levar
a um vínculo compulsivo a certos objetos ou --- outro desfecho
– a um retraimento em relação a pessoas para
impedir tanto uma intrusão destrutiva para dentro delas e
o temor de sua retaliação”[20]. O objeto que
estamos lidando é a “comunidade” e o objeto sentido
como mau, por frustrador, o “divã”, a própria
psicanálise. Clivagens sempre implicam em juízos de
valor, daí recomendações, pressões,
ordens e até bandeiras institucionalmente patrocinadas a
favor de caminhos vistos como “certos”[21]. Minha experiência
sugere que a ação em comunidade evita contatos mais
íntimos. Uma formulação psicanalítica
sobre “narcisismo e social-ismo” [22] mostra a relevância
da direção para onde está desaguando um grupo
instinctual. Se o grupo dos instintos de vida está operando
em direção ao narcisismo, os instintos de morte, ou
pólo paradoxal aos instintos de vida estará operando
social-isticamente [23]. Exemplos práticos: o casal apaixonado
geralmente se fecha para o meio exterior. Um casal psicanalítico
abriga-se dentro de uma sala fechada. Um líder político,
voltado para a sociedade e seus contemporâneos, geralmente
tem sua vida pessoal muito prejudicada; um médico pode morrer
da doença que tenta tratar e pode sofrer a ingratidão
dos pacientes. Uma mãe cuidando de seu bebê não
leva praticamente nenhuma vida social, além de sua sociedade
com o bebê. Líderes sociais que se consideravam conscientemente
“social-istas” e implementaram tal idéia, desde
níveis paroquiais a níveis mundiais. Eles me parecem
ter clivado e negado o ódio em tal magnitude, que a deflexão
narcisista de seus instintos de morte, no ponto de fusão
dos dois grupos de instintos, acabou ocasionando as duas maiores
hecatombes do século. Seu extermínio pessoal, dos
indivíduos e das sociedades, culturas e comunidades que suas
juras de amor faziam crer serem de proteção, nos dá
elementos de reflexão[24]. “E não é apenas
a veemência do ódio incontrolável do indivíduo
mas também a de seu amor que coloca o objeto em perigo”[25]
Um analista deixa de contribuir com a comunidade se procurar a melhor
análise que possa ter para si mesmo e cuidar de pacientes
sem falsidade, subterfúgio, sedução ou evasão?
Teremos suficiente experiência que pode ser avaliada e investigar
se há, na realidade, vantagens em suplantar, substituir psicanálise
por ação comunitária? É possível
integração não rival, isenta de moda? Talvez
possamos investigar se muitas de nossas atuais dificuldades de mercado,
institucionais e políticas não são conjunturais[26],
mas derivam de nós mesmos e da prática que temos feito
durante este século[27]. Talvez envolvimentos mais maduros
na engrenagem social possam ser úteis no que tange a sérios
problemas institucionais que temos tido em nosso movimento, caso
os primeiros não sejam usados como diversionismo evasivo
para enfrentar os últimos.
-oOo-
1 Mestre em Medicina pela USP; Analista Didata da SBPSP; Professor
do Curso de Pós-Graduação Lato Senso em Psicoterapia
Psicanalítica da USP (Serviço do Prof. Ryad Simon)
2 Delinqüência e destruição de boas teorias
ocorre por desinformação, banalização
e interesses políticos. “Pouco saber é algo
perigoso”, disse Alexander Pope um dos mestres do Iluminismo.
Basta ver o que os nazistas fizeram com as observações
de Nietzsche e Darwin. No campo da ciência, para tristeza
de seus idealizadores, como por exemplo Hans Selye e a teoria do
stress, o fenômeno da banalização e uso indevido
leva certos termos significarem o oposto de sua finalidade inicial!
3 As impropriedades de ordem semântica podem ser reparadas
se atentarmos para definições feitas pelos cientistas
sociais do que eles entendem por social, cultural e comunitário
4 1. problemas do movimento psicanalítico, ditos “crises”:
escassez de pacientes e de candidatos bem dotados, sentidas em países
anglo-saxões desde a década de oitenta, como atestam
documentos da IPA (Monografia #4), e a partir da década de
noventa em países de fala latina, até então
imunes à questão. Incluem-se neles as guerras intestinas,
travestidas de teóricas, que dilaceram nosso movimento, abrindo
flancos para o sucesso de ataques externos de ódio à
psicanálise. Este ódio pode ser cooptante, no entusiasmo
adesista impensado, ou críticas destrutivas, que sempre caracterizaram
as relações da psicanálise com parte da intelligentsia.
Exemplos: o meio Médico de Viena; o establishment positivista
cujos paradigmas foram Eisenck e Popper e 2. problemas da psicanálise
como desilusão quanto a curas, limitações de
sistemas teóricos causais e explicativos que elucidem completamente
os fatores intervenientes no sofrimento psíquico, dificuldades
inerentes ao ofício de investigação da realidade
psíquica, requerendo convívio continuado, escolasticismos
que criam as guerras intestinas referidas na nota anterior, já
na transmutação entre psicanálise e movimento
psicanalítico, na base de rivalidades invejosas entre doutrinas,
re-alimentando os problemas do movimento psicanalítico.
5 Expressão emprestada de uma poesia de William Wordsworth
6 Constituiu momentos especiais na história da civilização
ocidental, como o “trivium” e o “quatrivium”
clássicos, o Biedermeier e o Bildung do movimento romântico,
a formação psicanalítica.
7 Terapias Rivais tentaram preencher a mesma ilusão que
se nutriu em relação à psicanálise,
apesar dos alertas de Freud. Inevitavelmente perderam o appeal e
começou a temporada de Modelos Sociais. Nova frustração;
começa a procura no Organicismo e o ciclo se fecha com o
retorno da esperança com a PsicanáliseApós
quase nove anos de quase euforia no apelo para o Organicismo, na
década de noventa, a inevitável desilusão e
descoberta do engano já tem trazido os jovens profissionais
de volta para algo que eles pensam ser psicanálise, como
se constata em alguns centros de formação. Modelos
alternativos nascem de amplo espectro de desejos, rivalidades e
meio-aprendizados: estudiosos capazes de raciocínios talentosos
ficam insatisfeitos com uma psicanálise que não entendem
– pois não há nada para entender em psicanálise,
como na vida -- se recusam vivenciar; profissionais intolerantes
às altas doses de frustração desejam se livrar
de limitações reais e imaginárias da psicanálise.
8 Apenas como exemplo: Bronislaw Malinowsky, Abraham Kardiner,
Georges Devereux, Eric Erickson, Erich Fromm, Harry S. Sullivan,
Karen Horney, Gregory Bateson, Herbert Marcuse, até que o
interesse arrefecesse, no final da década de sessenta; em
nosso meio, Ruy Coelho, Roger Bastide e Claude Lévy-Strauss,
com seus estudos sobre dinâmica social e estrutura da personalidade,
a sociologia das doenças mentais e relações
familiares in status nascendi. Minha experiência sugere que
a pesquisa das relações entre sociedade, cultura e
mente são mais formadas por Processo Secundário, dependentes
de raciocínios e racionalizações é mãe
adolescente de prole prematura: Psicologia e Psiquiatria Social
Pertinente à especulação acadêmica em
seu nascedouro, a primeira não parece ter, até agora,
aplicações práticas muito além de um
quase-behaviorismo, talvez útil à propaganda em massa,
a anos-luz do intuito de cuidar de pessoas que sofrem. A segunda
se associou a sérios fracassos teóricos e práticos.
Há outros “filhos”: sociologia da doença
mental, psicologia e psiquiatria transcultural, comunitária,
preventiva. E também, um campo mais controverso, o da socioterapia,
o que constata a existência de “sociedades doentes”,
onde alguns psicanalistas julgaram-se em condições
de colocar a comunidade no divã. Epidemiologistas, Cientistas
Socais e Políticos dizem saber o que fazer com estas sociedades
doentes, mas não há evidências que eles saibam
mesmo e muito menos que o psicanalista saiba mais do que eles.
9 Dia-a-dia de um psicanalista, aquilo que é transcendente
expressa-se de muitos modos: ir além do Conteúdo Manifesto;
captar o detalhe aparentemente insignificante; perceber a Resistência
que tanto esconde como revela algo real. Para algo ficar Consciente,
necessita ter sido Inconsciente de algum modo: transcendente a qualquer
um dos estados que prevaleça. A notação do
tandem PSóD é, intrinsecamente, um transcender contínuo.
Transcender a lógica formal é alcançar a lógica
ilógica do inconsciente[1]; suportar paradoxos, realizando
o que vem a ser instintos de vida e morte, realidade psíquica
e material, se dar conta que o objeto amado e o odiado são
o mesmo objeto, sem splittings. Transcendemos racionalidades; transcendemos
verdades absolutas.
10 1. natureza científica, de respeito à verdade
e consideração pela vida (funções da
capacidade de amar); 2. Apresentação da pessoa a ela
mesma, e que ajuda a ela a se tornar ou retornar a ser ela mesma,
o que pode ter um alto custo em desilusão, culpa e percepção
da limitação humana e individual: elaboração
de núcleos narcísicos e aspectos da posição
esquizo-paranóide).
11“Fame is a seed that does not grow in mortal soil ”
(John Milton).
12Francis Bacon, 1625, modificado e acrescido
13“Fashion -- the cunning livery of hell”. William
Shakespeare, Measure for Measure, III, i, 95
14Little learning is a dangerous thing, Alexander Pope
15Drugs are a substitute employed by those who cannot wait (Bion,
1968)
16Through repetition, addiction denies the unknown (Bion, 1968)
17Ganharam enorme popularidade Karl Popper e Thomas Kuhn; mais
recentemente, Feyrabend e Imre Lakatos
18La réponse est le malheur de la question. (Maurice Blanchot)
Prossegue despercebido ou negado por ser sentido como excessivamente
dolorosa, a metáfora de Blanchot, trazida a Bion por Green.
19Kant diferenciou “transcendente” de “idéias
transcendentais”[1]. “O social”, “o biológico”,
“o neurocientífico“, “o psicossomático”,
“o psicológico”: idéias transcendentais,
inviabilizando a ciência, o “uso transcendente”
de uma descoberta real. “Transcendente” caracteriza
o transcender sensorialidades. A psicanálise elucidou transcendências
sem usá-las como idéias transcendentais e mantém-se
como atividade útil quando “toca” transcendências,
no sentido musical do termo, que “sobrevoam” e “permeiam”
a um só tempo tudo que é do ser humano. São
atemporais, anespaciais, independentes de sociedades, culturas,
desejos, indivíduos -- e científicas, ao permitirem
generalizações, simultaneamente abarcando individualidades.
“Humanas, demasiadamente humanas”[1]. Um exemplo é
a dimensão mítica utilizada na prática por
Freud, quando ele intuiu a respeito do triângulo edipiano:
algo universal e comum a todos os seres humanos: transcendente à
individualidade e ao grupo. Cada Édipo é individual,
mas a transcendência “Édipo”, a qualidade
“Edípica”, ou "edipice" mostram que
há uma invariância transcendente ao indivíduo.
20Klein, 1946, p. 306
21Bion, 1962a
22Bion, 1960, p. 106, 122
23E vice-versa: quando os instintos de morte são narcisistas,
os instintos de vida são social-istas.
24Hitler talvez tenha conseguido destruir o povo alemão;
Stalin, o socialismo. Alguns observaram que nosso século
já ter garantiu seu registro para a história universal
como aquele em que a bestialidade, iniqüidade, inveja, preconceito,
violência, desrespeito e falta de escrúpulos no uso
do semelhante ocasionaram uma destruição em massa
em recordes jamais igualados; e esperaram que o consolo disto fosse
a esperança destes recordes jamais serem igualados novamente
(Bion, 1947). Paradigmas de pressa e pouco saber, os dois artífices
das hecatombes se declararam muito interessados “no social”
25Klein, 1934, p. 286
26heterocrítica, que segundo T.S.Elliott produz retórica
27autocrítica, que segundo o mesmo autor, produz poesia
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[1] Mestre em Medicina pela USP; Analista Didata da SBPSP; Professor
do Curso de Pós-Graduação Lato Senso em Psicoterapia
Psicanalítica da USP (Serviço do Prof. Ryad Simon)
[2] Delinqüência e destruição de boas
teorias ocorre por desinformação, banalização
e interesses políticos. “Pouco saber é algo
perigoso”, disse Alexander Pope um dos mestres do Iluminismo.
Basta ver o que os nazistas fizeram com as observações
de Nietzsche e Darwin. No campo da ciência, para tristeza
de seus idealizadores, como por exemplo Hans Selye e a teoria do
stress, o fenômeno da banalização e uso indevido
leva certos termos significarem o oposto de sua finalidade inicial!
[3] As impropriedades de ordem semântica podem ser reparadas
se atentarmos para definições feitas pelos cientistas
sociais do que eles entendem por social, cultural e comunitário
[4] 1. problemas do movimento psicanalítico, ditos “crises”:
escassez de pacientes e de candidatos bem dotados, sentidas em países
anglo-saxões desde a década de oitenta, como atestam
documentos da IPA (Monografia #4), e a partir da década de
noventa em países de fala latina, até então
imunes à questão. Incluem-se neles as guerras intestinas,
travestidas de teóricas, que dilaceram nosso movimento, abrindo
flancos para o sucesso de ataques externos de ódio à
psicanálise. Este ódio pode ser cooptante, no entusiasmo
adesista impensado, ou críticas destrutivas, que sempre caracterizaram
as relações da psicanálise com parte da intelligentsia.
Exemplos: o meio Médico de Viena; o establishment positivista
cujos paradigmas foram Eisenck e Popper e 2. problemas da psicanálise
como desilusão quanto a curas, limitações de
sistemas teóricos causais e explicativos que elucidem completamente
os fatores intervenientes no sofrimento psíquico, dificuldades
inerentes ao ofício de investigação da realidade
psíquica, requerendo convívio continuado, escolasticismos
que criam as guerras intestinas referidas na nota anterior, já
na transmutação entre psicanálise e movimento
psicanalítico, na base de rivalidades invejosas entre doutrinas,
re-alimentando os problemas do movimento psicanalítico.
[5] Expressão emprestada de uma poesia de William Wordsworth
[6] Constituiu momentos especiais na história da civilização
ocidental, como o “trivium” e o “quatrivium”
clássicos, o Biedermeier e o Bildung do movimento romântico,
a formação psicanalítica.
[7] Terapias Rivais tentaram preencher a mesma ilusão que
se nutriu em relação à psicanálise,
apesar dos alertas de Freud. Inevitavelmente perderam o appeal e
começou a temporada de Modelos Sociais. Nova frustração;
começa a procura no Organicismo e o ciclo se fecha com o
retorno da esperança com a PsicanáliseApós
quase nove anos de quase euforia no apelo para o Organicismo, na
década de noventa, a inevitável desilusão e
descoberta do engano já tem trazido os jovens profissionais
de volta para algo que eles pensam ser psicanálise, como
se constata em alguns centros de formação. Modelos
alternativos nascem de amplo espectro de desejos, rivalidades e
meio-aprendizados: estudiosos capazes de raciocínios talentosos
ficam insatisfeitos com uma psicanálise que não entendem
– pois não há nada para entender em psicanálise,
como na vida -- se recusam vivenciar; profissionais intolerantes
às altas doses de frustração desejam se livrar
de limitações reais e imaginárias da psicanálise.
[8] Apenas como exemplo: Bronislaw Malinowsky, Abraham Kardiner,
Georges Devereux, Eric Erickson, Erich Fromm, Harry S. Sullivan,
Karen Horney, Gregory Bateson, Herbert Marcuse, até que o
interesse arrefecesse, no final da década de sessenta; em
nosso meio, Ruy Coelho, Roger Bastide e Claude Lévy-Strauss,
com seus estudos sobre dinâmica social e estrutura da personalidade,
a sociologia das doenças mentais e relações
familiares in status nascendi. Minha experiência sugere que
a pesquisa das relações entre sociedade, cultura e
mente são mais formadas por Processo Secundário, dependentes
de raciocínios e racionalizações é mãe
adolescente de prole prematura: Psicologia e Psiquiatria Social
Pertinente à especulação acadêmica em
seu nascedouro, a primeira não parece ter, até agora,
aplicações práticas muito além de um
quase-behaviorismo, talvez útil à propaganda em massa,
a anos-luz do intuito de cuidar de pessoas que sofrem. A segunda
se associou a sérios fracassos teóricos e práticos.
Há outros “filhos”: sociologia da doença
mental, psicologia e psiquiatria transcultural, comunitária,
preventiva. E também, um campo mais controverso, o da socioterapia,
o que constata a existência de “sociedades doentes”,
onde alguns psicanalistas julgaram-se em condições
de colocar a comunidade no divã. Epidemiologistas, Cientistas
Socais e Políticos dizem saber o que fazer com estas sociedades
doentes, mas não há evidências que eles saibam
mesmo e muito menos que o psicanalista saiba mais do que eles.
[9] Dia-a-dia de um psicanalista, aquilo que é transcendente
expressa-se de muitos modos: ir além do Conteúdo Manifesto;
captar o detalhe aparentemente insignificante; perceber a Resistência
que tanto esconde como revela algo real. Para algo ficar Consciente,
necessita ter sido Inconsciente de algum modo: transcendente a qualquer
um dos estados que prevaleça. A notação do
tandem PSóD é, intrinsecamente, um transcender contínuo.
Transcender a lógica formal é alcançar a lógica
ilógica do inconsciente[9]; suportar paradoxos, realizando
o que vem a ser instintos de vida e morte, realidade psíquica
e material, se dar conta que o objeto amado e o odiado são
o mesmo objeto, sem splittings. Transcendemos racionalidades; transcendemos
verdades absolutas.
[10] 1. natureza científica, de respeito à verdade
e consideração pela vida (funções da
capacidade de amar); 2. Apresentação da pessoa a ela
mesma, e que ajuda a ela a se tornar ou retornar a ser ela mesma,
o que pode ter um alto custo em desilusão, culpa e percepção
da limitação humana e individual: elaboração
de núcleos narcísicos e aspectos da posição
esquizo-paranóide).
[11] “Fame is a seed that does not grow in mortal soil ”
(John Milton).
[12] Francis Bacon, 1625, modificado e acrescido
[13] “Fashion -- the cunning livery of hell”. William
Shakespeare, Measure for Measure, III, i, 95
[14] Little learning is a dangerous thing, Alexander Pope
[15] Drugs are a substitute employed by those who cannot wait (Bion,
1968)
[16] Through repetition, addiction denies the unknown (Bion, 1968)
[17] Ganharam enorme popularidade Karl Popper e Thomas Kuhn; mais
recentemente, Feyrabend e Imre Lakatos
[18] La réponse est le malheur de la question. (Maurice
Blanchot) Prossegue despercebido ou negado por ser sentido como
excessivamente dolorosa, a metáfora de Blanchot, trazida
a Bion por Green.
[19] Kant diferenciou “transcendente” de “idéias
transcendentais”[19]. “O social”, “o biológico”,
“o neurocientífico“, “o psicossomático”,
“o psicológico”: idéias transcendentais,
inviabilizando a ciência, o “uso transcendente”
de uma descoberta real. “Transcendente” caracteriza
o transcender sensorialidades. A psicanálise elucidou transcendências
sem usá-las como idéias transcendentais e mantém-se
como atividade útil quando “toca” transcendências,
no sentido musical do termo, que “sobrevoam” e “permeiam”
a um só tempo tudo que é do ser humano. São
atemporais, anespaciais, independentes de sociedades, culturas,
desejos, indivíduos -- e científicas, ao permitirem
generalizações, simultaneamente abarcando individualidades.
“Humanas, demasiadamente humanas”[19]. Um exemplo é
a dimensão mítica utilizada na prática por
Freud, quando ele intuiu a respeito do triângulo edipiano:
algo universal e comum a todos os seres humanos: transcendente à
individualidade e ao grupo. Cada Édipo é individual,
mas a transcendência “Édipo”, a qualidade
“Edípica”, ou "edipice" mostram que
há uma invariância transcendente ao indivíduo.
[20] Klein, 1946, p. 306
[21] Bion, 1962a
[22] Bion, 1960, p. 106, 122
[23] E vice-versa: quando os instintos de morte são narcisistas,
os instintos de vida são social-istas.
[24] Hitler talvez tenha conseguido destruir o povo alemão;
Stalin, o socialismo. Alguns observaram que nosso século
já ter garantiu seu registro para a história universal
como aquele em que a bestialidade, iniqüidade, inveja, preconceito,
violência, desrespeito e falta de escrúpulos no uso
do semelhante ocasionaram uma destruição em massa
em recordes jamais igualados; e esperaram que o consolo disto fosse
a esperança destes recordes jamais serem igualados novamente
(Bion, 1947). Paradigmas de pressa e pouco saber, os dois artífices
das hecatombes se declararam muito interessados “no social”
[25] Klein, 1934, p. 286
[26] heterocrítica, que segundo T.S.Elliott produz retórica
[27] autocrítica, que segundo o mesmo autor, produz poesia
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