< voltar

A ROUPA NOVA DO REI

(Elaborações Teóricas Transdisciplinares a Propósito de Clamores “Sociais” no Movimento Psicanalítico: Toda Novidade não passa de Esquecimento)

Paulo Cesar Sandler[1]

“O Social” Merecerá cuidado, o uso do termo, demandando considerações de ordem sociológica, psicanalítica, epistemológica e histórica? Nenhum de nós gostaria de se envolver no mau uso de uma boa teoria ou abordagem[2]. “Devemos levar em conta o social”: impropriedade e lassidão semântica que maravilha o leigo e faz sorrir o perito?[3] “O social”, oposto a “o individual”: palavra de ordem messiânica, perspectiva de salvação para nossos problemas mais domésticos (institucionais-políticos e teórico-técnicos[4])? Parece-me haver evidências sugestivas de que “o social”, conforme está sendo usado no nosso meio, pode constituir droga epistemológica, produto de esquecimento, abuso transcendental (ver nota de rodapé 18), senso-concretização e identificação projetiva.

Ciência e Política Há evidências de desfechos tragicamente destrutivos causados por interferências políticas sobre os caminhos da Ciência e da Arte. Elas perdem o sentido de busca da verdade, ou apreensão da realidade. Passam a formar, servir, representar ou instrumentar ideologias – produtos da mente tornados leis. Seus criadores e adeptos ficam perplexos, quando a Natureza não segue estas leis mentais. Exemplos eloqüentes: a destruição de aquisições que levaram séculos para serem feitas, levando à mendicância artística e científica das sociedades stalinista, nazista e consumista. O “mix” Institucionalização + “extraordinários delírios populares” transforma aquilo que poderia ser ciência em “movimentos”, do partisan ao religioso, altamente dependentes de autoridade e propaganda, alérgicos a fatos, em desacordo com movimentos Naturais.

Ciência e Prática Verdades profundas do acontecer humano são “invisíveis ao olho mortal” [5]; “emergem” da realidade para serem captadas pelo investigador atento, por acaso e não por desígnio consciente humano - política. Compondo a essência do inconsciente, não nos são dadas diretamente. Podem ser expressas, verbalmente ou não, pela Ciência, como já o eram pela arte. Isto se dá usando sistemas simbólicos quase-verbais na Matemática, Física e Química; analogias metafóricas e aforísticas verbais na Sociologia, Psicanálise; meios (“mídias”) sensorialmente dependentes, principalmente acústicos e visuais, na arte. A percepção e a possibilidade de expressar (formular) estas verdades exige formação pessoal: atenção, intuição, experiência ampla [6]. Na metáfora de Michelangelo, a escultura já está na pedra, e ele apenas a desbastava. A penicilina já estava lá, no bolor, até um Fleming percebê-la. Não houve uma associação dos escultores ou de laboratórios que decidiu, nem a mente de Michelangelo ou Fleming que inventou uma tarefa; existiam necessidades naturais, história, formação e intuição.

Esquecimento: um ciclo na história da psicanálise A história da busca por modelos externos, extra-psicanalíticos para a psicanálise é quase tão longa quanto a da própria psicanálise; compondo um ciclo: Terapias Rivais – O Social – Organicismo – Psicanalismo - Terapias Rivais – etc.[7]. Há uma tendência para suplantar, ao invés de suplementar a psicanálise. Esquecemos que modelos causais e terapêuticos – interessam-nos agora os sociais -- têm consistentemente falhado em constituir um corpo teórico e uma prática úteis, a despeito do esforço, preparo sociológico, psicanalítico e seriedade científica dos profissionais envolvidos[8]. Transplantes heterólogos fadados à rejeição, falta-lhes a capacidade de captar fatores subjacentes, “invisíveis ao olho mortal”, cuja transcendência dota-os de alcance generalizante e, ao mesmo tempo, capacidade de abarcar casos individuais, força científica. Nem todas, mas muitas alternativas não nasceram empiricamente, da clínica, da “mãe necessidade”, como dizia Freud: o sofrimento humano e a observação intuitiva e participante deste. Da escaldante forja da realidade tal como ela é surgiram conceitos-chave duráveis por conseguirem, ainda que precária, parcial e transitoriamente, lampejar o campo numênico do inconsciente, o Processo Primário, e descrever fenômenos subjacentes, mais além do espectro abarcado pelos órgãos sensoriais: “transferência”, “dois princípios do funcionamento mental”, “realidade psíquica”, “posição esquizo-paranóide e depressiva”, “falso self”, “fenômeno transicional”, entre outros. Nos grupos, intuiu-se três “pressupostos básicos”[9].

Se pouco se sabe de cientificamente confiável das relações entre dinâmica social e a estrutura da personalidade, apesar de mais de meio século de tentativas, penso que há muito ainda por aprender das tentativas de inserir psicanálise em contextos sociais. Será viável aplicar os princípios psicanalíticos[10] aos grandes grupos? Há contradições que a experiência mostra ser útil considerar. Entre elas: i. Grupos agem mais facilmente por impulsos; psicanálise depende de processos de pensar. ii. Grupos freqüentemente ficam mais voltados à destruição mútua. Psicanálise, filha da Medicina, nutre consideração pela vida e baseia-se em colaboração mútua. iii. Lidamos com pessoas que foram ensinadas a não confiarem naquilo que lhes é dito. Como podemos esperar, então, que elas levem a sério alguém que se propõe a lhes dizer a verdade? Será possível inserir o vértice psicanalítico de respeito à verdade em organizações sociais caracterizadas por redes políticas alicerçadas em avidez, evasão e alucinação, alcançando tantas vezes a delinqüência? A mais comum destas parece ser a crença da superioridade de alguns seres humanos sobre outros, expressa por anseios de imortalidade e fama, “semente que não cresce em solo mortal” ? [11] Como inserir as raisons d’être da psicanálise no grupo social pleno de interesses que não podem ser transparentes, rivalidades que jamais podem ser elucidadas, alucinações de superioridade cuja emergência arrisca o suicídio e o homicídio?

Há evidências que não existe nada de novo sobre a face da terra; que todo conhecimento não passa de lembrança; e que portanto, toda novidade não passa de esquecimento e pretensão à originalidade não passa de onipotência [12]. Em vários domínios, como o da ciência e dos grupos, talvez seria prudente detectar a presença de Moda -- a ardilosa vestimenta do demônio [13]. Moda -- humilde serva e depois impiedosa senhora do Pouco Saber, algo perigoso [14]. Compartilha a natureza das drogas, é substituto empregado por quem não pode esperar [15]. O que não estamos podendo esperar?

A Resposta. Na miragem do horizonte do Deserto do Desespero e Desamparo, o multicor hipnótico da aurora do esquecimento, quando não temos, Ainda Não??, lacrimejaria a criança, a resposta. Nenhum psicanalista quereria lucrar com o esquecimento, nutrindo a capacidade humana de se iludir em busca de curas, panacéias, soluções. Mas o inconsciente também existe para o analista, assim como limites de sua própria análise. Todos nós, seres humanos, ocasionalmente agimos de modo inadvertido -- principalmente quando movidos por boas intenções, já que não há amor sem ódio. “Através da repetição, o vício nega o desconhecido” [16], ou, toda novidade não passa de esquecimento. Com certo pesar e trepidação, proponho discutir minha idéia, baseada em observação, que desamparo, pressa, esquecimento, pouco saber, moda, ódio ao desconhecido ligam-se ao fascínio por modelos exteriores ao nosso ofício psicanalítico: biológicos, sociais, culturais, filosóficos, quaisquer que sejam. Eles “conseguem”, alucinatoriamente, respostas. Que caem, não por uma característica intrínseca e elogiável da ciência como desejam os positivistas[17]. Caem por lhes faltar alcance transcendente, verdade e sintonia (analógica) com a realidade. “A resposta é a infelicidade da questão” [18]. Se coloco estes alertas, é por imaginar que a oportunidade que temos agora, se for feita sem tentar substituir a psicanálise, sem expectativas e desejos, sem amadorismo, sem esquecimento e sem moda, tem maiores chances de ser melhor sucedida. Mais uma vez, está em jogo o respeito que nós e a sociedade possam ter por psicanálise. O problema não me parece se restringir à resposta “O social”, mas a “respostas”, sejam elas quais forem: a sensação que se adquiriu a resposta. No ciclo descrito, quando não é “o sociaI”, periodicamente surge o “organicismo”. Da lobotomia à estereotaxia, da insulinoterapia aos inibidores ou facilitadores sinápticos: a tecnologia sofistica o nível de atuação ao microscopizá-lo, mas não se avança no problema de natureza psicótica, que provoca o problema epistemológico, a esperança básica pela resposta causal. Como “o social”, a história real da abordagem organicista conta mais hipóteses tomadas prematuramente como verdades, fracassos, ridículos científicos e desilusão do que sucessos. Expressão de predominância do princípio do prazer/desprazer, da evasão da dor e do desconhecido que é sentido como doloroso, a resposta “satisfaz”, em alucinação, demandas narcisistas e onipotentes. É indistinguível da posse da verdade última. A psicanálise não é a resposta para a extinção da dor? Procure-se outra. “Rei morto, rei posto”. A falsidade intrínseca da tentativa dota o transplante de um caráter evanescente, condenando-o ao esquecimento. Tem a natureza da Droga, exige novas doses dela mesma. Descrença em psicanálise reflete inexperiência em introjetá-la, através de análise pessoal e atender pacientes? Penso que uma análise fica muito limitada caso não inclua o exame cuidadoso do ódio à análise, à verdade de quem se é. Isto não é uma limitação específica do analista X ou Y, é da espécie humana e de todos os analistas. A questão me parece ser desconhece-la, clivá-la, negá-la. Percebo uma contemporaneidade do clamor pelo social com um declínio da ênfase e atenção à análise pessoal do analista; a “sociedade psicanalítica básica e fundamental”, o paciente e o analista. Mera coincidência? O que poderá ocorrer conosco, se, com base em seus desenganos, a análise (inclusive a do analista) seja menosprezada e substituída por saídas que se afiguram salvadoras?

Psicanaliticamente, a resposta contém aspectos ligados a dificuldades de elaboração do narcisismo e da posição esquizo-paranóide, ocorrendo senso-concretização. Reificações, senso-concretizações, idéias transcendentais, parecem se originar da imperiosidade de satisfação de desejo, busca irritável por fato e razão, prevalência de núcleos narcísicos e congelamento na posição esquizo-paranóide. Refletem-se por acting–out[1].. Epistemologicamente, corresponde a um “abuso transcendental”[19] No desamparo infantil há uma deflexão idealizada dos instintos de morte. Cliva-se bom e mau, escolhe-se objetos idealizados – a “comunidade”, o “social” seriam, hoje, os de plantão? “Todos estes fatores podem levar a um vínculo compulsivo a certos objetos ou --- outro desfecho – a um retraimento em relação a pessoas para impedir tanto uma intrusão destrutiva para dentro delas e o temor de sua retaliação”[20]. O objeto que estamos lidando é a “comunidade” e o objeto sentido como mau, por frustrador, o “divã”, a própria psicanálise. Clivagens sempre implicam em juízos de valor, daí recomendações, pressões, ordens e até bandeiras institucionalmente patrocinadas a favor de caminhos vistos como “certos”[21]. Minha experiência sugere que a ação em comunidade evita contatos mais íntimos. Uma formulação psicanalítica sobre “narcisismo e social-ismo” [22] mostra a relevância da direção para onde está desaguando um grupo instinctual. Se o grupo dos instintos de vida está operando em direção ao narcisismo, os instintos de morte, ou pólo paradoxal aos instintos de vida estará operando social-isticamente [23]. Exemplos práticos: o casal apaixonado geralmente se fecha para o meio exterior. Um casal psicanalítico abriga-se dentro de uma sala fechada. Um líder político, voltado para a sociedade e seus contemporâneos, geralmente tem sua vida pessoal muito prejudicada; um médico pode morrer da doença que tenta tratar e pode sofrer a ingratidão dos pacientes. Uma mãe cuidando de seu bebê não leva praticamente nenhuma vida social, além de sua sociedade com o bebê. Líderes sociais que se consideravam conscientemente “social-istas” e implementaram tal idéia, desde níveis paroquiais a níveis mundiais. Eles me parecem ter clivado e negado o ódio em tal magnitude, que a deflexão narcisista de seus instintos de morte, no ponto de fusão dos dois grupos de instintos, acabou ocasionando as duas maiores hecatombes do século. Seu extermínio pessoal, dos indivíduos e das sociedades, culturas e comunidades que suas juras de amor faziam crer serem de proteção, nos dá elementos de reflexão[24]. “E não é apenas a veemência do ódio incontrolável do indivíduo mas também a de seu amor que coloca o objeto em perigo”[25] Um analista deixa de contribuir com a comunidade se procurar a melhor análise que possa ter para si mesmo e cuidar de pacientes sem falsidade, subterfúgio, sedução ou evasão? Teremos suficiente experiência que pode ser avaliada e investigar se há, na realidade, vantagens em suplantar, substituir psicanálise por ação comunitária? É possível integração não rival, isenta de moda? Talvez possamos investigar se muitas de nossas atuais dificuldades de mercado, institucionais e políticas não são conjunturais[26], mas derivam de nós mesmos e da prática que temos feito durante este século[27]. Talvez envolvimentos mais maduros na engrenagem social possam ser úteis no que tange a sérios problemas institucionais que temos tido em nosso movimento, caso os primeiros não sejam usados como diversionismo evasivo para enfrentar os últimos.

-oOo-

1 Mestre em Medicina pela USP; Analista Didata da SBPSP; Professor do Curso de Pós-Graduação Lato Senso em Psicoterapia Psicanalítica da USP (Serviço do Prof. Ryad Simon)

2 Delinqüência e destruição de boas teorias ocorre por desinformação, banalização e interesses políticos. “Pouco saber é algo perigoso”, disse Alexander Pope um dos mestres do Iluminismo. Basta ver o que os nazistas fizeram com as observações de Nietzsche e Darwin. No campo da ciência, para tristeza de seus idealizadores, como por exemplo Hans Selye e a teoria do stress, o fenômeno da banalização e uso indevido leva certos termos significarem o oposto de sua finalidade inicial!

3 As impropriedades de ordem semântica podem ser reparadas se atentarmos para definições feitas pelos cientistas sociais do que eles entendem por social, cultural e comunitário

4 1. problemas do movimento psicanalítico, ditos “crises”: escassez de pacientes e de candidatos bem dotados, sentidas em países anglo-saxões desde a década de oitenta, como atestam documentos da IPA (Monografia #4), e a partir da década de noventa em países de fala latina, até então imunes à questão. Incluem-se neles as guerras intestinas, travestidas de teóricas, que dilaceram nosso movimento, abrindo flancos para o sucesso de ataques externos de ódio à psicanálise. Este ódio pode ser cooptante, no entusiasmo adesista impensado, ou críticas destrutivas, que sempre caracterizaram as relações da psicanálise com parte da intelligentsia. Exemplos: o meio Médico de Viena; o establishment positivista cujos paradigmas foram Eisenck e Popper e 2. problemas da psicanálise como desilusão quanto a curas, limitações de sistemas teóricos causais e explicativos que elucidem completamente os fatores intervenientes no sofrimento psíquico, dificuldades inerentes ao ofício de investigação da realidade psíquica, requerendo convívio continuado, escolasticismos que criam as guerras intestinas referidas na nota anterior, já na transmutação entre psicanálise e movimento psicanalítico, na base de rivalidades invejosas entre doutrinas, re-alimentando os problemas do movimento psicanalítico.

5 Expressão emprestada de uma poesia de William Wordsworth

6 Constituiu momentos especiais na história da civilização ocidental, como o “trivium” e o “quatrivium” clássicos, o Biedermeier e o Bildung do movimento romântico, a formação psicanalítica.

7 Terapias Rivais tentaram preencher a mesma ilusão que se nutriu em relação à psicanálise, apesar dos alertas de Freud. Inevitavelmente perderam o appeal e começou a temporada de Modelos Sociais. Nova frustração; começa a procura no Organicismo e o ciclo se fecha com o retorno da esperança com a PsicanáliseApós quase nove anos de quase euforia no apelo para o Organicismo, na década de noventa, a inevitável desilusão e descoberta do engano já tem trazido os jovens profissionais de volta para algo que eles pensam ser psicanálise, como se constata em alguns centros de formação. Modelos alternativos nascem de amplo espectro de desejos, rivalidades e meio-aprendizados: estudiosos capazes de raciocínios talentosos ficam insatisfeitos com uma psicanálise que não entendem – pois não há nada para entender em psicanálise, como na vida -- se recusam vivenciar; profissionais intolerantes às altas doses de frustração desejam se livrar de limitações reais e imaginárias da psicanálise.

8 Apenas como exemplo: Bronislaw Malinowsky, Abraham Kardiner, Georges Devereux, Eric Erickson, Erich Fromm, Harry S. Sullivan, Karen Horney, Gregory Bateson, Herbert Marcuse, até que o interesse arrefecesse, no final da década de sessenta; em nosso meio, Ruy Coelho, Roger Bastide e Claude Lévy-Strauss, com seus estudos sobre dinâmica social e estrutura da personalidade, a sociologia das doenças mentais e relações familiares in status nascendi. Minha experiência sugere que a pesquisa das relações entre sociedade, cultura e mente são mais formadas por Processo Secundário, dependentes de raciocínios e racionalizações é mãe adolescente de prole prematura: Psicologia e Psiquiatria Social Pertinente à especulação acadêmica em seu nascedouro, a primeira não parece ter, até agora, aplicações práticas muito além de um quase-behaviorismo, talvez útil à propaganda em massa, a anos-luz do intuito de cuidar de pessoas que sofrem. A segunda se associou a sérios fracassos teóricos e práticos. Há outros “filhos”: sociologia da doença mental, psicologia e psiquiatria transcultural, comunitária, preventiva. E também, um campo mais controverso, o da socioterapia, o que constata a existência de “sociedades doentes”, onde alguns psicanalistas julgaram-se em condições de colocar a comunidade no divã. Epidemiologistas, Cientistas Socais e Políticos dizem saber o que fazer com estas sociedades doentes, mas não há evidências que eles saibam mesmo e muito menos que o psicanalista saiba mais do que eles.

9 Dia-a-dia de um psicanalista, aquilo que é transcendente expressa-se de muitos modos: ir além do Conteúdo Manifesto; captar o detalhe aparentemente insignificante; perceber a Resistência que tanto esconde como revela algo real. Para algo ficar Consciente, necessita ter sido Inconsciente de algum modo: transcendente a qualquer um dos estados que prevaleça. A notação do tandem PSóD é, intrinsecamente, um transcender contínuo. Transcender a lógica formal é alcançar a lógica ilógica do inconsciente[1]; suportar paradoxos, realizando o que vem a ser instintos de vida e morte, realidade psíquica e material, se dar conta que o objeto amado e o odiado são o mesmo objeto, sem splittings. Transcendemos racionalidades; transcendemos verdades absolutas.

10 1. natureza científica, de respeito à verdade e consideração pela vida (funções da capacidade de amar); 2. Apresentação da pessoa a ela mesma, e que ajuda a ela a se tornar ou retornar a ser ela mesma, o que pode ter um alto custo em desilusão, culpa e percepção da limitação humana e individual: elaboração de núcleos narcísicos e aspectos da posição esquizo-paranóide).

11“Fame is a seed that does not grow in mortal soil ” (John Milton).

12Francis Bacon, 1625, modificado e acrescido

13“Fashion -- the cunning livery of hell”. William Shakespeare, Measure for Measure, III, i, 95

14Little learning is a dangerous thing, Alexander Pope

15Drugs are a substitute employed by those who cannot wait (Bion, 1968)

16Through repetition, addiction denies the unknown (Bion, 1968)

17Ganharam enorme popularidade Karl Popper e Thomas Kuhn; mais recentemente, Feyrabend e Imre Lakatos

18La réponse est le malheur de la question. (Maurice Blanchot) Prossegue despercebido ou negado por ser sentido como excessivamente dolorosa, a metáfora de Blanchot, trazida a Bion por Green.

19Kant diferenciou “transcendente” de “idéias transcendentais”[1]. “O social”, “o biológico”, “o neurocientífico“, “o psicossomático”, “o psicológico”: idéias transcendentais, inviabilizando a ciência, o “uso transcendente” de uma descoberta real. “Transcendente” caracteriza o transcender sensorialidades. A psicanálise elucidou transcendências sem usá-las como idéias transcendentais e mantém-se como atividade útil quando “toca” transcendências, no sentido musical do termo, que “sobrevoam” e “permeiam” a um só tempo tudo que é do ser humano. São atemporais, anespaciais, independentes de sociedades, culturas, desejos, indivíduos -- e científicas, ao permitirem generalizações, simultaneamente abarcando individualidades. “Humanas, demasiadamente humanas”[1]. Um exemplo é a dimensão mítica utilizada na prática por Freud, quando ele intuiu a respeito do triângulo edipiano: algo universal e comum a todos os seres humanos: transcendente à individualidade e ao grupo. Cada Édipo é individual, mas a transcendência “Édipo”, a qualidade “Edípica”, ou "edipice" mostram que há uma invariância transcendente ao indivíduo.

20Klein, 1946, p. 306

21Bion, 1962a

22Bion, 1960, p. 106, 122

23E vice-versa: quando os instintos de morte são narcisistas, os instintos de vida são social-istas.

24Hitler talvez tenha conseguido destruir o povo alemão; Stalin, o socialismo. Alguns observaram que nosso século já ter garantiu seu registro para a história universal como aquele em que a bestialidade, iniqüidade, inveja, preconceito, violência, desrespeito e falta de escrúpulos no uso do semelhante ocasionaram uma destruição em massa em recordes jamais igualados; e esperaram que o consolo disto fosse a esperança destes recordes jamais serem igualados novamente (Bion, 1947). Paradigmas de pressa e pouco saber, os dois artífices das hecatombes se declararam muito interessados “no social”

25Klein, 1934, p. 286

26heterocrítica, que segundo T.S.Elliott produz retórica

27autocrítica, que segundo o mesmo autor, produz poesia

REFERÊNCIAS (páginas citadas nas notas de rodapé)

BACON, F. (1625). Of Vicissitudes of Things, In The Essays. Ed. J. Pitcher, p. 229. Londres: Penguin Books, 1985.

BION, F. (1997). Introduction. In War Memoirs. London: Karnac Books. 1997

BION, W. R. (1916-18). Diary. In War Memoirs. London: Karnac Books. 1997.

__________ . (1947). Psychiatry at a time of crisis. Brit. J. Med. Psych. 21: 81-89.

__________ . (1958). Amiens. In War Memoirs. London: Karnac Books. 1997.

__________ . (1961). Experiencias en Grupos. Versão castelhana. Buenos Aires: Paidós, 1963.

__________ . (1962a). A Theory of Thinking. In “Second Thoughts”. Londres: Heinemann Medical Books, 1967.

__________ . (1962b). Learning from Experience. Londres: Heinemann Medical Books.

__________. (1968). Sem data. In Cogitations, p. 299. Francesca Bion, ed. Londres: Karnac Books, 1992.

__________ . (1972). In War Memoirs. London: Karnac Books. 1997.

__________ . (1975). Uma Memória do Futuro. Volume I: “O Sonho”. São Paulo: Martins Fontes, 1990

__________ . (1976). Evidência. Rev. Bras. Psicanal. ; 19: 129, 1985

__________ . (1977a). Two Papers: The Grid and Caesura. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltada.

__________ . (1977b). Uma Memória do Futuro. Volume II: “O Passado Apresentado”. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltada., 1996.

__________ . (1977c). Turbulência Emocional e Sobre uma Citação de Freud. Rev. Bras. Psicanal. ; 21: 121, 1987

__________ . (1979a). Uma Memória do Futuro. Volume III: “A Aurora do esquecimento”. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltada., 1996.

__________ . (1982). The Long Week End. Abingdon: The Fleetwood Press

__________ . (1985). All My Sins Remembered. Abingdon; The Fleetwood Press.

__________ . (1987). Clinical Seminars and Four Papers. Abingdon: Fleetwood Press

BOND, B. (1968). Passchendaele. In Historia do Século XX., vol II. Editado por J.M.Roberts. Versão Brasileira, São Paulo, Abril Cultural, 1974.

BRACHER, K. (1968). The German Dictatorship. New York: Penguin Books, 1991.

EKSTEINS, M. (1989). A Sagração da Primavera. Versão brasileira, por R. Eichenberg. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.

GREEN, A. (1992). Book Review: Cogitations. Int. J. Psycho-Anal. 73: 243.

KLEIN, M. (1946). Notes on Some Schizoid Mechanisms. In Developments in Psycho-Analysis. M. Klein, P. Heimann, S. Isaacs, J. Riviere, ed. Londres; The Hogarth Press and the Institute of Psycho-Analysis, 1952

MONTGOMERY, B. (1958). The Memoirs of the Field-Marshal The Viscount Montgomery of Alamein. New York: Signet Books.

BIRD, O. (1997). The Liberal Arts of Words and Numbers. In The Great Ideas Today. Chicago: The Enciclopaedia Britannica Inc.

CHARLTON, J. (ed., 1994). A little learning is a dangerous thing. Londres: Robert Hale

CLECKLEY, (1950). The Mask of Sanity.

FENICHEL, O. (1945). Neurotic Acting-Out. In The Collected Papers of Otto Fenichel. New York: W.W.Norton & Co., 1954.

FREUD, S . (1909). Notes upon a Case of Obsessional Neurosis. S.E. X

________ . (1914). On the History of the Psycho-Analytic Movement. S.E. XIV

________ . (1937). Constructions in Analysis. S.E. XXIII

KANT, I. (1781). Crítica da Razão Pura. Versão brasileira, In Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

KLEIN, M . (1934). A Contribution to the Psycho-Genesis of the Manic-Depressive States. In Contributions to Psycho-Analysis. Londres: The Hogarth Press and the Institute of Psycho-Analysis, 1950.

________ . (1946). Notes on Some Schizoid Mechanisms. In Developments in Psycho-Analysis. M. Klein, P. Heimann, S. Isaacs, J. Riviere, ed. Londres; The Hogarth Press and the Institute of Psycho-Analysis, 1952

MACKAY, C. (1841). Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds. Introduction by N. Stone. Hertfordshire: Wordsworth Editions, 1995.

MATTE-BLANCO, I. (1975). The Unconscious as Infinite Sets. Londres: Duckworth.

MELTZER, D. (1981). Memorial Meeting to Dr. W. R. Bion Int. J. Psycho-Anal.

POPPER, K.R. (1963). A Lógica da Pesquisa Científica. Versão brasileira. São Paulo: Cultrix, 1974

SEGAL, H. (1981). Memorial Meeting to Dr. W. R. Bion. Int. J. Psycho-Anal.

_________. (1987). Comunicação Pessoal, por carta.

SANDLER, P.C. (1984). A Ilusão do Concreto e Algumas de suas Manifestações na Sociedade Atual. Alter. 14: 101.

____________ . (1987a) The Long-Week End. Int. Rew. Psycho-Anal.14: 273

____________ . (1987b). Grade? Rev. Bras. Psicanál. 21;203, 1987

____________ . (1988). Introdução a “Uma Memória do Futuro”, de W.R.Bion. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda.

. (1990). Fatos: a tragédia do conhecimento em psicanálise. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda.

____________ . (1997a). The Apprehension of Psychic Reality: Extensions of Bion’s theory of alpha-function. Int. J. Psycho-Anal. 78: 43.

_____________ . (1997b)

_____________ . (1999). Uma Grid trid.

--------------------------------------------------------------------------------

[1] Mestre em Medicina pela USP; Analista Didata da SBPSP; Professor do Curso de Pós-Graduação Lato Senso em Psicoterapia Psicanalítica da USP (Serviço do Prof. Ryad Simon)

[2] Delinqüência e destruição de boas teorias ocorre por desinformação, banalização e interesses políticos. “Pouco saber é algo perigoso”, disse Alexander Pope um dos mestres do Iluminismo. Basta ver o que os nazistas fizeram com as observações de Nietzsche e Darwin. No campo da ciência, para tristeza de seus idealizadores, como por exemplo Hans Selye e a teoria do stress, o fenômeno da banalização e uso indevido leva certos termos significarem o oposto de sua finalidade inicial!

[3] As impropriedades de ordem semântica podem ser reparadas se atentarmos para definições feitas pelos cientistas sociais do que eles entendem por social, cultural e comunitário

[4] 1. problemas do movimento psicanalítico, ditos “crises”: escassez de pacientes e de candidatos bem dotados, sentidas em países anglo-saxões desde a década de oitenta, como atestam documentos da IPA (Monografia #4), e a partir da década de noventa em países de fala latina, até então imunes à questão. Incluem-se neles as guerras intestinas, travestidas de teóricas, que dilaceram nosso movimento, abrindo flancos para o sucesso de ataques externos de ódio à psicanálise. Este ódio pode ser cooptante, no entusiasmo adesista impensado, ou críticas destrutivas, que sempre caracterizaram as relações da psicanálise com parte da intelligentsia. Exemplos: o meio Médico de Viena; o establishment positivista cujos paradigmas foram Eisenck e Popper e 2. problemas da psicanálise como desilusão quanto a curas, limitações de sistemas teóricos causais e explicativos que elucidem completamente os fatores intervenientes no sofrimento psíquico, dificuldades inerentes ao ofício de investigação da realidade psíquica, requerendo convívio continuado, escolasticismos que criam as guerras intestinas referidas na nota anterior, já na transmutação entre psicanálise e movimento psicanalítico, na base de rivalidades invejosas entre doutrinas, re-alimentando os problemas do movimento psicanalítico.

[5] Expressão emprestada de uma poesia de William Wordsworth

[6] Constituiu momentos especiais na história da civilização ocidental, como o “trivium” e o “quatrivium” clássicos, o Biedermeier e o Bildung do movimento romântico, a formação psicanalítica.

[7] Terapias Rivais tentaram preencher a mesma ilusão que se nutriu em relação à psicanálise, apesar dos alertas de Freud. Inevitavelmente perderam o appeal e começou a temporada de Modelos Sociais. Nova frustração; começa a procura no Organicismo e o ciclo se fecha com o retorno da esperança com a PsicanáliseApós quase nove anos de quase euforia no apelo para o Organicismo, na década de noventa, a inevitável desilusão e descoberta do engano já tem trazido os jovens profissionais de volta para algo que eles pensam ser psicanálise, como se constata em alguns centros de formação. Modelos alternativos nascem de amplo espectro de desejos, rivalidades e meio-aprendizados: estudiosos capazes de raciocínios talentosos ficam insatisfeitos com uma psicanálise que não entendem – pois não há nada para entender em psicanálise, como na vida -- se recusam vivenciar; profissionais intolerantes às altas doses de frustração desejam se livrar de limitações reais e imaginárias da psicanálise.

[8] Apenas como exemplo: Bronislaw Malinowsky, Abraham Kardiner, Georges Devereux, Eric Erickson, Erich Fromm, Harry S. Sullivan, Karen Horney, Gregory Bateson, Herbert Marcuse, até que o interesse arrefecesse, no final da década de sessenta; em nosso meio, Ruy Coelho, Roger Bastide e Claude Lévy-Strauss, com seus estudos sobre dinâmica social e estrutura da personalidade, a sociologia das doenças mentais e relações familiares in status nascendi. Minha experiência sugere que a pesquisa das relações entre sociedade, cultura e mente são mais formadas por Processo Secundário, dependentes de raciocínios e racionalizações é mãe adolescente de prole prematura: Psicologia e Psiquiatria Social Pertinente à especulação acadêmica em seu nascedouro, a primeira não parece ter, até agora, aplicações práticas muito além de um quase-behaviorismo, talvez útil à propaganda em massa, a anos-luz do intuito de cuidar de pessoas que sofrem. A segunda se associou a sérios fracassos teóricos e práticos. Há outros “filhos”: sociologia da doença mental, psicologia e psiquiatria transcultural, comunitária, preventiva. E também, um campo mais controverso, o da socioterapia, o que constata a existência de “sociedades doentes”, onde alguns psicanalistas julgaram-se em condições de colocar a comunidade no divã. Epidemiologistas, Cientistas Socais e Políticos dizem saber o que fazer com estas sociedades doentes, mas não há evidências que eles saibam mesmo e muito menos que o psicanalista saiba mais do que eles.

[9] Dia-a-dia de um psicanalista, aquilo que é transcendente expressa-se de muitos modos: ir além do Conteúdo Manifesto; captar o detalhe aparentemente insignificante; perceber a Resistência que tanto esconde como revela algo real. Para algo ficar Consciente, necessita ter sido Inconsciente de algum modo: transcendente a qualquer um dos estados que prevaleça. A notação do tandem PSóD é, intrinsecamente, um transcender contínuo. Transcender a lógica formal é alcançar a lógica ilógica do inconsciente[9]; suportar paradoxos, realizando o que vem a ser instintos de vida e morte, realidade psíquica e material, se dar conta que o objeto amado e o odiado são o mesmo objeto, sem splittings. Transcendemos racionalidades; transcendemos verdades absolutas.

[10] 1. natureza científica, de respeito à verdade e consideração pela vida (funções da capacidade de amar); 2. Apresentação da pessoa a ela mesma, e que ajuda a ela a se tornar ou retornar a ser ela mesma, o que pode ter um alto custo em desilusão, culpa e percepção da limitação humana e individual: elaboração de núcleos narcísicos e aspectos da posição esquizo-paranóide).

[11] “Fame is a seed that does not grow in mortal soil ” (John Milton).

[12] Francis Bacon, 1625, modificado e acrescido

[13] “Fashion -- the cunning livery of hell”. William Shakespeare, Measure for Measure, III, i, 95

[14] Little learning is a dangerous thing, Alexander Pope

[15] Drugs are a substitute employed by those who cannot wait (Bion, 1968)

[16] Through repetition, addiction denies the unknown (Bion, 1968)

[17] Ganharam enorme popularidade Karl Popper e Thomas Kuhn; mais recentemente, Feyrabend e Imre Lakatos

[18] La réponse est le malheur de la question. (Maurice Blanchot) Prossegue despercebido ou negado por ser sentido como excessivamente dolorosa, a metáfora de Blanchot, trazida a Bion por Green.

[19] Kant diferenciou “transcendente” de “idéias transcendentais”[19]. “O social”, “o biológico”, “o neurocientífico“, “o psicossomático”, “o psicológico”: idéias transcendentais, inviabilizando a ciência, o “uso transcendente” de uma descoberta real. “Transcendente” caracteriza o transcender sensorialidades. A psicanálise elucidou transcendências sem usá-las como idéias transcendentais e mantém-se como atividade útil quando “toca” transcendências, no sentido musical do termo, que “sobrevoam” e “permeiam” a um só tempo tudo que é do ser humano. São atemporais, anespaciais, independentes de sociedades, culturas, desejos, indivíduos -- e científicas, ao permitirem generalizações, simultaneamente abarcando individualidades. “Humanas, demasiadamente humanas”[19]. Um exemplo é a dimensão mítica utilizada na prática por Freud, quando ele intuiu a respeito do triângulo edipiano: algo universal e comum a todos os seres humanos: transcendente à individualidade e ao grupo. Cada Édipo é individual, mas a transcendência “Édipo”, a qualidade “Edípica”, ou "edipice" mostram que há uma invariância transcendente ao indivíduo.

[20] Klein, 1946, p. 306

[21] Bion, 1962a

[22] Bion, 1960, p. 106, 122

[23] E vice-versa: quando os instintos de morte são narcisistas, os instintos de vida são social-istas.

[24] Hitler talvez tenha conseguido destruir o povo alemão; Stalin, o socialismo. Alguns observaram que nosso século já ter garantiu seu registro para a história universal como aquele em que a bestialidade, iniqüidade, inveja, preconceito, violência, desrespeito e falta de escrúpulos no uso do semelhante ocasionaram uma destruição em massa em recordes jamais igualados; e esperaram que o consolo disto fosse a esperança destes recordes jamais serem igualados novamente (Bion, 1947). Paradigmas de pressa e pouco saber, os dois artífices das hecatombes se declararam muito interessados “no social”

[25] Klein, 1934, p. 286

[26] heterocrítica, que segundo T.S.Elliott produz retórica

[27] autocrítica, que segundo o mesmo autor, produz poesia

 

< voltar