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VIOLÊNCIA, SOCIEDADE, AMOR E ÓDIO, PSICANÁLISE

(O CICLO "AUTOBIOGRÁFICO" DE W. R. BION: "A MEMOIR OF THE FUTURE", " THE LONG WEEK-END" E "WAR MEMOIRS")

Paulo Cesar Sandler

"O "amor apaixonado" é a coisa mais próxima que consigo chegar de uma transformação verbal que "representa" a coisa-nela-mesma, a realidade última, o "O" como eu o denominei" (Bion, Uma Memória do Futuro, 1977, pp. 197).

INSTITUIÇÕES E GUERRA


Destituída dos milharais, a mesmice só fazia incrementar no ar condicionado, no clac-clac do diesel, na lisura da auto-estrada. Conforto desafinado de um cheiro de perigo. Tento acordar pelo humor: será que rodei tanto assim, a ponto de ter cruzado o oceano sem perceber? Essa desolação e descuido, tão familiares. O incômodo recrudesce. Longe-perto, nova esperança e novo insucesso de espantar a sonolência: rastro laranja, "TGV", como eles o denominam por aqui com orgulho. Train à grande vitesse. Deve fazer mais de duzentos e cinqüenta quilômetros por hora, pensei. Nas poltronas do carro, minha família. Quase meio dia e acho tudo rápido demais. Desde manhãzinha, estamos "cruzando" a 150. Menos do que de repente o pontinho no retrovisor infla em borrão que já é uma grade ofuscando mais na pressa do que nos cromados. Não mais, aquilo que pensei tão "europeu", pedir passagem "piscando" os faróis. Hoje, exige-se a pista, qual patrão, usando o klaxon com estridência que, há poucos anos, podia dar cadeia. Como disse um economista, "brazilianization"? Antes-que-depressa, cedo passagem. O Renault sofre com o deslocamento de ar. O enorme sedã negro ou azul deve ir a uns 190, talvez bem mais. Para os motoristas daqui, 150 é pouco. Esses europeus fazem estradas às raias da perfeição: tão suaves...automóveis tão estáveis, trens tão velozes. No átimo do abuso, eliminam a recém adquirida reserva de segurança. Para onde correm assim? Qualquer acidente já se iniciará letal. Dois meses depois dessa viagem, morre a princesa dos ingleses em um sedã, me pareceu, similar ao que me ultrapassara naquele dia. Poucos dias depois, um acidente com um trem tipo TGV, também na britânica ilha, mata e fere pessoas.


Nos mostradores do painel, procuro checar o nível de combustível e a velocidade, mas o número que leio está na memória: de 1945 a 1985, cinqüenta milhões de pessoas morreram no trânsito, no mundo inteiro. As duas bestas do Século, conhecidas por "Hitler" e "Stalin" eliminaram uns oitenta milhões de 1920 a 1945. E a incômoda sensação de perigo? Virá da imaginação, idiossincrasia patológica conjugada ao verde desbotado, à extinção dos girassóis, das vinhas, do jardim perpétuo dos dias anteriores na Borgonha, Champanhe, Alsácia, agora pouco mesmo na Ille-de-France? No temor, a pergunta infantil, "Por que"? Novo apelo ao conhecido: penso faltar por aqui, para completar a semelhança almejada enquanto calmante, as favelas -- e gente.


Placa gigantesca como tudo nessas terras: "Amiens". Funciona como clarão no anencéfalo suceder dos "rápidos" e maquinaria inanimada de todos os tipos. Trecho único nessa viagem, pois não fora planejado. Contingência: a necessidade de chegar a Bruxelas por via terrestre. Amiens, então é aqui...O automóvel emerge, ainda que suave; agora fica possível apreender uma enorme depressão no terreno, talvez meia dúzia de quilômetros de extensão. E outra, e outra, separadas por outros tantos. A imaginação olhou para o platô mais elevado e as estatísticas mostraram sua razão. Transmutaram-se em uma porção de silhuetas de soldados surgindo no horizonte, como nas imagens cinematográficas que eu vira tempos antes. Tudo calmo. De repente, um exército invasor? Como é isso? Não sei, por falta de experiência. O que acho que sei de guerra se resume à sorte de escapar daqueles bastões (casse-têtes) de mais de um metro da temível guarda-marinha. De correr de militares montados que usaram seus rifles. Nesse dia houve estampidos. Inconseqüente, estúpida passeata nos "politizados" anos sessenta. Eu apenas escutara os líderes, na minha guerra particular contra a realidade. Nesse época eu não ouvia, embora em retrospectiva ficasse claro, que aqueles líderes eram tanto ou mais perigosos que os policiais. Desses, pelo menos, podíamos correr. O magnetismo das juras dos que, com fuga garantida, ordenavam pelos megafones "Não dispersem", acrescentando a explicação "Não são tiros, são apupos do povo".. No devido tempo esses líderes obtiveram seus mártires, já na segurança do exílio. Dos cadáveres reais ninguém ficou nem sabendo direito. Uns ainda deambulam; amigos menos afortunados, torturados, uma amiga que perdeu um membro. Um outro colega, hoje psicanalista, para o qual fora reservado, após sua saída de dois meses na prisão, a surpresa preparada pelo diretor da faculdade, ávido de satisfazer os então donos do poder: teria que dar quarenta plantões seguidos de dia inteiro, se não quisesse ser expulso do curso médico. Cotizamo-nos, solidários, e demos os plantões por ele. Mas essa guerra de evasores não serve para dizer o que é estar em uma guerra de invasores.


Também não serve o duro, frio cano da automática encravado por uns minutos-horas no meu flanco direito. Ficou a lembrança do imobilismo lívido seguindo a ordem dada aos berros, "Num óia-prámimnão, hein, ômeu, óia prochão", aferrado à consciência do estrago que uma bala pode fazer em um abdômen. Endêmica guerra banalizada, essa modalidade urbana (urbana?) desde os anos setenta, importada da Sicília ou de Chicago. No seqüestro-assalto, o alguém-ninguém não acionou o gatilho. Nosso medo maior era se a polícia chegasse. Ela acionava o gatilho.


Também não serve a lembrança de um avô querido e seus netos. Ficávamos aterrorizados quando ele adormecia, sabe-se lá como, de pálpebras semicerradas. No meu aprendizado médico, anos depois, surgia-me a nunca respondida pergunta, "como ele não cultivara uma úlcera de córnea?". Sotaque ainda carregado, "Soldados dorrmia de olho aberta no trincheirra. Quando a alemom pulava, pensava que tudo mundo erra acorrdado -- fugiam correndo bem deprressa...". Outra história parecia menos fantástica, contada por beneficiados em testemunho grato: como seus conhecimentos militares e coragem o permitiram ajudar outros da família "a passar pela fronteira". Desmobilizado, sua aldeia havia sido destruída por um pogrom tardio. "No Rússia, o gêntchi comia até pedra", exortava os netos, para que parássemos com as "manhas" na hora da refeição. Eram as únicas histórias de guerra que ouvíamos. Anos depois, aprendi: a "guerra de quatorze", entre outros recordes de interesse dúbio, deixou menos relatos do que qualquer outra na história ocidental. Nosso sobressalto noturno tinha variantes e companhia: vizinhos atestavam terem despertado sob os urros inumanos numa língua estranha porem familiar no desespero. Ouvi então dizer que meu avô era um "neurótico de guerra". Alguém da família, mais velho e mais sabido nas línguas jurava distinguir alertas, a nós pequenos, ininteligíveis. Ele gritava em russo, em iídiche e em português, tudo ao mesmo tempo. Meu avô "avisava" o seu melhor amigo, com cinqüenta anos de atraso, que saísse -- rápido -- da trincheira. O amigo havia sido decepado ao seu lado ou na sua frente em algum buraco no fronte oriental em 1917 e ele gritava seu nome.


Também não servem, perguntas de infância, porque não temos nenhum parente, como todo mundo tem? Resposta rápida e triste, "Morreram todos em campos de extermínio nazistas. Os irmãos e irmãs do vovô preferiram ir para França, não o Brasil. Achavam que a América era muito violenta, com índios e cobras nas ruas", complementada por memórias imemoriais, "o anti-semitismo vai voltar". Um dia, meu pai, médico esporadicamente chamado pelos vizinhos, às pressas atendeu o "Seu" Ângelo. Quando voltou, "Edema agudo de pulmão, dessa ele escapou", ouvi meus pais rememorando, misto de tristeza e perplexidade, que esse homem, dono de um botequim ao lado, uns oito anos antes, bravateara na rua, barrigão descoberto pela camiseta rota, barba sempre por fazer, sandálias à guisa de sapatos, "Cosí, quando il Duce arriva a Brasile, questa casa sará mia", apontando para onde nossa família morava desde a década de vinte. Violência ávida, que apareceu de outros modos: um dia voltei da escola e perguntei à minha mãe, "o que são judeus?". Pois a professora de catecismo advertira às crianças para tomar "cuidado com judeus. Nascem com chifres na cabeça". Ao longo dos anos, repetido pelas pessoas que cruelmente usam e abusam de negação, "Não tenho preconceitos -- até tenho amigos judeus" ou "Meu melhor amigo, quase meu irmão, é um judeu".


Essa tal de "segunda guerra", terminada dez anos antes desse dia, seria onipresente na minha infância, não só nas histórias e medos da família. Havia um rombo feio no deltóide esquerdo de meu pai. Marca do impedimento: o tenente-médico, especializado em aplicações duma tal "sulfa", não embarcaria com a FEB. Ferido em exercício de guerra, disparo acidental do seu próprio ordenança, ao tropeçar feliz com o aviso do braço erguido daquele que cinco anos depois seria meu pai, "caminho livre", desastrado treino inventado por um capitão irresponsável, anos depois general afamado na sanguinária ditadura militar, com uma bala de verdade em cada cem - sem aviso. A guerra para meu pai resumiu-se ao tiro e seu ricochete, uma agressão física ao capitão com o braço bom que lhe restara. Sua baixa incluiu rebaixamento: de oficial a segundo-sargento.


Quando trabalhei em uma unidade de pronto socorro, conheci bem os resultados de ‘guerras de trânsito’. Pessoas -- especialmente jovens -- morrendo como moscas em cima, em baixo ou dentro de veículos automotores, assim como guerras pessoais resolvidas na covardia do metal das armas. Enquanto psicanalista, penso poder reconhecer a mãe de todas as guerras: a escravização ao Desejo, origem real da guerra contra a realidade e da avidez por satisfação absoluta. Penso conhecer outro resultado dessa escravatura: a derrota quase completa da esperança de ver algum dia disciplinada a avidez naqueles que parecem possuí-la em grau excessivo, inata ou adquirida; de ver algum controle sobre a pseudo-dignidade de uns poucos sendo mantida às custas da indignidade de muitos. Parece que a pessoa começa tudo isso pela introdução de mentiras em sua própria mente, por exemplo com o que Freud denominou de repressão, ou criando um falso self e não sendo amigo de si mesmo(a). Conheço alguns dos resultados dessa guerra não-sensorial: o estrago que o homem inflige ao agir contra si mesmo, o desrespeito em relação à Mulher, ao Par Criativo Parental; o abandono dos filhos; a máscara da sanidade, a ferocidade do covarde, a ingratidão do pseudo-amigo, o interesseirismo substituindo o interesse.


Estou mencionando uma guerra contra a Natureza tal como ela é, contra a Biologia; uma guerra contra Édipo. Há a guerra dos pais que não reconhecem seus filhos, ou nutrem expectativas em relação a eles, ou os odeiam ao ponto de tentarem evitar seu sofrimento de dor. Sua contrapartida na prole: filhos e filhas que odeiam a suprema criatividade da dupla parental ou invejam o seio nutriente. Existe a guerra de PS contra D, proveniente da guerra do princípio do prazer/desprazer contra o princípio da realidade: emoções depressivas coloridas de perseguição e emoções esquizo-paranóides coloridas por depressão. As pessoas usam uma arma formidável, a evasão da dor e da frustração e uma busca infindável por prazer. Esta guerra explode a ponte que permite um trânsito mais livre entre as Posições. Taquigraficamente, PSð ï D substitui PSó D. Mas suponho que tudo isso continua não tendo muita utilidade para saber mesmo como é uma guerra sensório-concreta, mesmo que me seja claro que as primeiras sejam semente da últimas.(Nota do editor: o autor usa PS para indicar a configuração mental descrita por M. Klein como "posição esquizoide" e D, igualmente, como a "posição depressiva").


Devem ser alucinações, essas memórias que povoaram minha imaginação na auto-estrada. Ou não? Será algum contato real com uma das aparentemente infinitas formas da violência intrínseca do ser humano, fantasias de superioridade que dizem "alguns seres humanos são melhores do que os outros", "estou pouco me lixando", ou "o ser humano não vale nada", ou "o que é meu é meu e o que é seu é meu também"? Para alguns parece importar o triunfo do cinismo, acumular provas que amar inexiste, que a verdade é "uma mentira muito bem contada daquelas que ninguém desconfia" (Emília, de Monteiro Lobato), o triunfo da idéia que vida não é algo que mereça consideração. Borra o retrovisor...o automóvel move-se automaticamente, estremecendo outra vez mais na guinada que não evita o vácuo de novo rojão nos ultrapassando.


Mais claro, agora: o "moderno" e "seguro" automóvel de hoje, parente dos "modernos" e "seguros" tanques de guerra introduzidos em 1917. Ambos foram projetados conscientemente para um máximo de segurança - conteúdo manifesto, produto da mente racional. Subjacente, principalmente em seu uso, a dolorosa verdade: o máximo de insegurança. "Dead-traps", armadilhas, como logo se percebeu na época dos tanques. O carro adentra a mais uma depressão. Só agora me dou conta: é uma daquelas crateras de bombas no Somme, Passchendaele. Apreendo melhor essa rodovia curiosa, com subidas e descidas suaves mas excessivamente rasas e próximas entre si para constituir um monte natural. Umas poucas dezenas de quilômetros quadrados e lá morreram em um ano e pouco, 250.000 franceses e britânicos (entre eles, indianos, australianos, canadenses, irlandeses e escoceses) e 200.000 alemães. A maior parte, jovens de 17 a 25 anos de idade.


Diviso Beaumetz, o ponto de encontro do batalhão de Bion, sede do QG das forças expedicionárias. E agora, Arras, Cambrai, local de estréia dos batalhões de tanques: a "autoroute" passa entre as duas. Armentieres, Hazebrouk. Ypres, palco de três carnificinas (eufemisticamente, "batalhas") reconhecidas pelo próprio Ludendorff, um de seus promotores, "aquilo já não era mais vida, era um indescritível sofrimento". Os nomes das cidades me pareciam tão familiares...cinco dias antes, acabara de revê-los no "War Memoirs". Por uma dessas coincidências da vida, a falta de planejamento me levara a trafegar nos locais da irrealidade real do relato de Bion. Agora era fatual, além do que até então não passava de nomes impressos no papel. Tinha existência? Alguma marca, ainda que inanimada, ficara? Todo o horror da descrição de Bion assumia com redobrada força a possibilidade daquilo que é real.


Não terminou nem se circunscreve a certos períodos onde o que imagino ser formidável cesura, ribombar de armas, o "odor adocicado" do sangue na lama ou o assassínio em massa expressa com maior clareza a desconsideração pela vida, falta de compaixão e desamor à verdade O cinismo, o desprezo e o uso "explorador" do objeto, como disse Donald Winnicott (em The Use of an Object) prevalecem nos relacionamentos interpessoais e nas instituições quando há guerra. Qualquer guerra. As sociedades no modernismo pós primeira guerra, tão bem apontado por Eksteins em "A Sagração da Primavera", desprezam e atacam profissões ligadas ao "cuidar", como o Magistério e a Medicina. "Homens espertos", como diz Bion em Uma Memória do Futuro, podem ver que uma obra de arte rende dinheiro. A destruição não passível de disfarce, que chamamos "guerra", espreita travestida na "pequena" mesquinhez do cotidiano, no esquecimento, na inveja do seio que nutre, na ingratidão, na avidez e em todas as manifestações da posição esquizo-paranóide que não pode transitar para a depressiva. Como disse o então prefeito de Hamburgo, Von Dohnany, ele mesmo filho-de-uma-guerra, abrindo o Congresso de Psicanálise com uma frase altamente psicanalítica, "Nosso Freud, nosso Marx, nosso Bach, nosso Hitler". Isso não é "privilégio" de "boches", no pejorativo adjetivo que os europeus dedicam aos alemães. Talvez aquela região, os Flandres franco-flamengos, seja realística e coerente. Monumento vivo, fenômeno diverso do mesmo númeno, como "Auschwitz", ou "centro de Hiroshima", para tentar não deixar esquecer? "Aqui se trucidou", poderia estar escrito nas placas, ou "Aqui se morreu por nada". A guerra é uma canseira; uma perda de tempo, não serve para mais nada alem de servir ao próprio nada. Talvez seja o triunfo do inanimado, do estado de ausência de mente que desconsidera a vida mesma: establishments em qualquer nível.


A inveja, inveja a vida mesma. Prossegue em outras formas, as institucionalizações de todos os tipos, a tendência ao esquecimento, ou a tornar inanimado o que era animado, sendo inanimado agora o próprio funcionamento mental, no desamor à verdade e no "doce" escorregar para a falsidade, insensibilidade, clivagem, negação e triunfo ainda que alucinatório, sobre a própria mente, as sensações de sua ejeção por meio de identificações projetivas.


"Eu-Mesmo Você não pensa que seus superiores imediatos tinham temores que também precisavam ser mascarados? Eles também tinham pessoas que lhes eram superiores em hierarquia e tempo.

Bion Eles morreram; nós fomos mortos.

Eu-Mesmo Não fico simpático a isso, de algum modo. Talvez eu tenha ficado muito esquecido, ou muito confortável; sua auto-piedade não fermenta em mim, mas em você: ela é flatulenta.

Bion: Em Oxford, quando escrevi o relato, não éramos tão críticos. Não penso que era porque fossemos insubordinados, mas era menos terrível pensar que estava tudo bem do que acreditar que nosso maior inimigo era aquilo que você depois chamou.....

Eu-Mesmo: .....o Establishment. Certas palavras rudes teriam sido -- e ainda são -- mais apropriadas" (Bion, 1972, p. 205)


"Será que sou um maestro tão ruim que agora vou ter que me tornar um político?", perguntou Kurt Masur, um homem de paz, ante à pressão para que ele se candidatasse a algum posto elevado na Alemanha Oriental, após sua corajosa atuação contra a brutalidade de Hönecker durante a abertura de 1989 (Scherer, 1997). Talvez percebeu a tempo a cooptação do "místico" (Bion, 1970). Essa "primeira guerra mundial" havia sido uma guerra dos políticos. Em outras palavras: mania (no sentido de Klein), avidez, fantasias de superioridade, alucinação institucionalizada.


"Não via naquela época e não vejo agora, porque aquele amigo e tantos como ele deveriam ter sido arrancados de seus lares Ingleses (e Alemães) para morrer por uma disputa que não compreendiam e não poderiam alcançar o sentido. Era simplesmente a desconfiança, tão frivolamente semeada por crianças crescidas que queriam satisfazer suas ambições infantis, que nos mandaram para o Inferno e miséria para tantos lares. O quão mais rápido as pessoas se derem conta da loucura criminosa de seus líderes, melhor será" (Grifos meus; Bion, 1920, p. 127, sobre o destino de seu mensageiro)


JUÍZOS DE VALOR, ESTADOS DE AUSÊNCIA DE MENTE, AMOR E ÓDIO


Contraste doloroso com outras biografias com as quais eu tinha tido contato, as do Field Marshall Bernard Montgomery, súdito britânico como Bion, e Adolf Hitler, nascido Schicklgrüber; todos três vagaram nessa região de morte do Somme, nos mesmos anos e dias; todos três foram condecorados. A diversidade nos relatos e no modo que usaram suas experiências, qual impressões digitais, varia. As sensibilidades de Bion se aproximam mais daquelas de Siegfrid Sassoon, Wilfred Owen e Rupert Brooke.


War Memoirs ilumina bastante as duas obras publicadas anteriormente, A Memoir of The Future e The Long Week End. Ultrapassa de muito um "relato de guerra". É a descrição de uma vida real, de uma análise real, do "mar de dificuldades" na sintética formulação de Shakespeare em Hamlet. Tudo isso, a vida de cada um, não me parece diferir dessas descrições do jovem capitão e seu tanque. A Memoir of the Future, The Long-Week End e War Memoirs relembraram-me obras muito raras, como o ciclo de Wilhelm Meister (que penso começar com Werther e inclui Dichtung und Varheit (Poesia e Verdade) e o ciclo de Faust na obra de Goethe. Não são autobiografias individualistas, mas mítico-universais. Freud mesmo, que foi a fonte inspiradora de Bion, mantinha como Goethe, visceral e incondicional amor à verdade. Ciência, em outras palavras. Penso também que não se pode dizer, em relação causal linear, que as experiências de guerra de Bion "instrumentaram" sua prática posterior enquanto psicanalista. Antes disso, o que houve foi que a própria psicanálise se beneficiou de alguém que aprendeu de forma peculiar com suas experiências – inclusive essa, da guerra.


O relato do capitão Bion mostra um jovem provavelmente tomado por um surto psicótico ao ponto de, como quase dois milhões de europeus, no espaço de uma semana, nas principais capitais do velho continente, ter se alistado para lutar "pela verdade" e "contra o mal". "Juízos de valor". Norte fica simbolicamente equacionado (no sentido de Klein) a Certo. Parece-me que hetero-crítica foi se transmutando em auto-crítica. Ele vai mudando seu orgulho (com uniformes, desempenhos militares) e críticas sobre colegas, para uma visão onde reconhece ter tido pura sorte, no modo que ganhou as honrarias militares, na sua própria sobrevivência, que segundo sua opinião ocorreu mais por obra do acaso do que por qualquer qualidade intrínseca que possuísse; tanto ele como Francesca Bion registram a opinião que ajudou-o sua constituição genética, portanto, probabilística. (Por exemplo, à página 98 do Diary, na perda do monte Kemmel). Haveria de passar muito tempo para Bion poder adquirir e formular o que me parece um dos seus mais sérios legados ao analista praticante: o "senso de verdade" (Bion, 1962a). Sem esse senso, Bion percebeu que as pessoas perdem o contato com a realidade (verdade "O"). Sentido como tábua de salvação, o náufrago mental acaba tentando se orientar através de juízos de valor. "Certo" ou "errado" parecem alucinatoriamente poder substituir "verdadeiro" e "falso". Trata-se de um splitting, explicitado em A Theory of Thinking, na carência de "senso de verdade", que se introduz quando a pessoa percebe que o objeto amado e o objeto odiado são o mesmo e único objeto. Como a palma da mão e o dorso da mão -- é tudo "mão" -- "O".


"Eu-Mesmo Penso que o seu comentário sobre aqueles que iam para os Tanques para evitar a luta foi de cair o queixo em sua insolência denegritória. Você ainda acha isso?

Bion Deixe-o ficar, como a minha falta de cultura [referência à sua deficiência na língua inglesa, quando jovem] à guisa de um monumento à minha insolência desavergonhada. Estou envergonhado, hoje, e gostaria de apagar isso.

Eu-Mesmo Na medida que serve de um lembrete de como nós realmente somos, e não como uma insinuação sobre "eles"

Bion Sinto que muito desse diário vai aparecer, sob essa leitura, como um exercício de abrigar minha auto-complacência perante ao gelado sopro da verdade" (Bion, 1972, p. 201)


"Eu-Mesmo É sem dúvida evocativa, a sua descrição de Méaulte...reconhecidamente um campo horrível em um Natal horrível, e um período de baixa moral entre os soldados, mas fico desagradavelmente impressionado pela seu santificado moralismo -- não apenas no Exército, mas em Oxford, quando você escreveu o relato. Não posso crer que seus amigos no Exército fossem tão ruins. Não surpreende que Cook, Homfray e Clifford gostassem tão pouco de você como você deles.

Bion Penso que o "diário" é uma reflexão muito razoável de mim mesmo" (p. 208; grifo meu)


Dúvidas a respeito da existência de Amor e Verdade prevalecem, quase como vetor de todo o ciclo "autobiográfico". Aqui ele é explícito, inclusive no questionamento de sua possibilidade em termos sociais.


"Ah, sim", Hauser falava amargamente, "essa guerra, como a última, é para ser a guerra que vai acabar com a guerra, e a próxima, como essa, vai ser uma guerra para acabar com todas as guerras, e assim por diante, ad infinitum. E todos os rompimentos das linhas inimigas são sempre, absolutamente, os últimos, que rompem com tudo, é natural".

"Vejo que você continua em boa forma -- sarcástico como sempre. Mesmo assim, simpatizo com você. Não posso dizer que acredite honestamente que essa vai ser mesmo a última guerra e na realidade acho que seria uma porcaria de coisa ruim caso fosse"

Hauser empalideceu. "Seria melhor você tomar cuidado no que fala para o contingente Cristão. Acho que, se eu fosse você, evitaria ficar falando o que penso ao Bion e aos amigos dele. "É", disse Carter, "Acho que eu não devia. Mesmo assim, até que não são uma turminha ruim lá do modo deles. A encrenca com esses diabos de Cristãos, é claro, é que apesar deles serem tão cheios de altos ideais, e tão entusiasmados, e tão determinados que o certo vai triunfar, que acabam fracassando em se dar conta dos lados mais difíceis do negócio. E quando finalmente isso entra na cabeça deles, eles tem um modo repelente de ficarem malucos -- na minha opinião. Recordo-me de um pobre diabo. Todos pensavam mundos e fundos dele, mas ele ficou p. da vida ao descobrir que o seu coronel estava tentando passá-lo para trás pelo fato do coronel ter ficado receoso que ao promover um oficial tão promissor, estaria arriscando seu próprio posto. O sujeito ficou perturbado e seu ato seguinte foi ter um tipo de colapso. Isso teve o efeito de provar que o Coronel estava totalmente certo quando na verdade ele estava totalmente errado" (Bion, 1958, p. 232)


"Amor apaixonado" ou seu par complementar, "Ódio bestial".


"Eu-Mesmo: O que te perturba mais do que tudo?

Bion: Acho que é o seu sucesso. Hesito em dizê-lo, pois soa ingrato. Não posso imaginar o que estava errado, mas jamais me recuperei de ter sobrevivido da batalha de Amiens. A maior parte do que não gosto em você pareceu ter se iniciado nessa época............................................................................................

Bion: Eu me recordo. Asser estava para morrer -- recusando se render. Vai ver que ele estivera lutando por algo que eu não estava consciente. Mas sua morte me matou. No mínimo, fez-me sentir que eu jamais poderia ser um homem com tal intensidade a ponto de abraçar a morte indubitável.

Eu-Mesmo: Anos depois, muitos anos depois, aprendi que dificilmente poderia reivindicar que amava uma mulher porque o amor da mulher incluía seu amor pelo pai de seus filhos. Não sei. Posso apenas aspirar a tal amor e sofrer a incerteza de ser unicamente uma aspiração que não posso alcançar.

Bion: Eu não tinha nenhuma dúvida -- não me pergunte porque, mas eu repito, nenhuma dúvida -- que Asser, quase um ano mais novo do que eu, era tal homem. Não sinto isso a seu respeito, aquele quem sobrevivi para me tornar.

Eu-Mesmo: Não reivindico isso, com certeza. Continuo "tornando-me", entretanto. Depende se a morte vai impedir meu crescimento. Não posso reivindicar ter direito a mais tempo" (Bion, 1972, p. 209-210)


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REFERÊNCIAS

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Paulo Cesar Sandler

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