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Forum da SBPRJ


IMPASSES ÉTICOS NAS INSTITUIÇÕES PSICANALÍTICAS1

Daniel Kupermann2


Lembro de um ditado familiar: "kleine Kinder, kleine Sorgen, grosse Kinder, grosse Sorgen - "crianças pequenas, pequenos problemas, crianças grandes, grandes problemas". A associação que a mim se impôs em relação a essa noite foi: "instituições menores, menores impasses; instituições maiores, maiores impasses". Dentre uma série de motivos, certamente o gentil convite que recebi de Miguel Calmon em nome do Fórum da SBPRJ para participar da "provocação" ao debate dessa noite com Dr. René Major, contribuiu bastante para esta associação de idéias. Sabia que dentre meus colegas de mesa haveria representantes de instituições vinculadas à IPA, de instituições lacanianas... e eu, que defenderia alguns argumentos publicados no livro Transferências Cruzadas, bem como testemunharia a vivência dos impasses éticos de uma instituição, a Formação Freudiana, que não se enquadra nas tendências maiores do campo psicanalítico - a IPA e o lacanismo - sendo assim uma instituição Menor.

A idéia de "menoridade", inspirada nas filosofias da diferença e certamente em Freud, constitui uma espécie de instrumento interessante para se pensar alguns dos impasses éticos nas instituições psicanalíticas3. Grosso modo, o que a lógica do Menor vem indicar, segundo o princípio de que a verdade é sempre parcial, é que os discursos universalistas e mesmo transcendentais em nome do Bem geralmente escamoteiam que este Bem está a serviço dos interesses e desejos daqueles que o formulam, encarnados nas instituições como os detentores do discurso Maior. Não vou insistir nos conhecidos exemplos do papel exercido pelo discurso institucional do Maior em nome da "sobrevivência da psicanálise" nas concessões que foram feitas à instituição psicanalítica alemã durante o nazismo ou às cariocas durante a ditadura militar brasileira. Os efeitos funestos nós todos já conhecemos. Vou me deter apenas em dois fenômenos que me parecem produzir os mais importantes impasses éticos vividos nas instituições psicanalíticas, ambas referentes à questão da transmissão da psicanálise, motivo maior da existência de instituições: 1. a impossibilidade de rompimento das relações transferenciais e também de dissolução institucional; e 2. a pobreza existencial de grande parte dos analistas em sua própria vivência institucional.

É um fato que as instituições maiores não podem ser dissolvidas. Freud o fez com a Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras em 1907; Lacan, com muita luta jurídica, é verdade, também o fez em sua Escola em 1980. Não me parece que a IPA ou mesmo a AMP, liderada por Jacques-Alain Miller, possam fazer o mesmo agora. E quanto às análises? Me detenho à IPA. Uma análise didática pode ser rompida? Mesmo na sua versão modernizada, onde o didata não mais detém a palavra final sobre a habilitação do candidato, qual o custo desse rompimento? Claro que a interrupção brusca de uma análise não é seu desfecho ideal; por outro lado: existe uma real escuta do inconsciente onde essa possibilidade está de antemão abortada? Em outra ocasião, aproximei a fórmula transferencial que é assim produzida da fórmula veiculada pela ditadura militar brasileira nos anos 70: Brasil, ame-o ou deixe-o; onde deixá-lo não passava de um exercício vazio de retórica, uma vez que em seu horizonte habitava a morte, a tortura ou, na melhor das hipóteses, o exílio.

Nas instituições menores como a Formação Freudiana, o controle privilegiado é feito na prática de supervisão e em outras formas de intercâmbio da prática clínica. Há, claro, exigência de análise com analista reconhecido na polis psicanalítica, mas sobre ela o próprio analista em formação deve responder. Posso testemunhar que acontecem rupturas em análises feitas dentro da instituição, e que são difíceis de vivenciar, principalmente por parte do analista. Mas decerto não há necessidade de segredo em relação às análises ou reanálises que se queira fazer, e muito menos de selecionar o que pode ou não ser dito em análise. Talvez esse sistema Menor esteja mais próximo da formulação freudiana de que o homem é um animal de horda, e não de rebanho; ou dos porcos-espinho-narcísicos de Schopenhauer. A regra princeps adotada para a manutenção institucional é simplesmente a amizade ao saber e a convivência com os outros... intermediada, é claro, por um belo estatuto! Mas nada além disso, ou seja, do real investimento de seus membros, garante a perenidade de uma instituição Menor.

Quanto ao 2º fenômeno, faço mais uma vez referência a uma feliz coincidência ocorrida nesta Semana René Major. Junto a Pedro Henrique Rondon, da SPCRJ, participei da aprovação da estética do folder e cartazes preparados para o evento, que apresenta uma ilustração de Pavel Filonov, artista russo. Não tivemos dúvida quanto a pertinência da obra: um belo quadro que descreve a condição trágica de desamparo e de condenação à criação e à inventividade próprias do homem moderno, cujo título, Man in the world, não podia ser mais adequado para receber René Major e retratar o espírito dos Estados Gerais da Psicanálise. No entanto, o autor nos era totalmente desconhecido. Foi quando Helena Vianna, em suas pesquisas na internet, nos revelou que Filonov, morto em 1941, era um rebelde e excêntrico representante da vanguarda artística russa, descomprometido com o realismo-socialista exigido aos artistas pelo sistema, deixando assim de receber o reconhecimento do público de seu tempo. Um artista Menor, poderíamos dizer, no contexto das "aspirações ideológicas maiores" da revolução soviética.

Pergunto: será apenas uma feliz coincidência entre o valor da obra e o estilo de vida do artista? Quanto ao campo das artes, prefiro guardar cautela. Mas e quanto à psicanálise? Será possível aplicar a ela o ditado "o homem passa, a instituição fica"? É possível psicanalisar e reinventar a teoria psicanalítica cultivando uma existência medíocre, low profile, em sua vivência institucional? Me refiro aqui ao sintoma denunciado desde os anos 40 na figura do candidato à psicanalista excessivamente "normal" e obediente (o "normal" candidate), presente especialmente nas instituições psicanalíticas Maiores (talvez hoje também nas Menores), nas quais é notório que pessoas criativas e talentosas em outras esferas da vida se mostrem inibidas, deixando de lançar mão de suas virtudes sublimatórias como questionar, criar e rir, justamente onde isso não deveria acontecer, ou seja, em sua relação com a psicanálise. René Major, na conferência de Segunda-feira, apontava um paradoxo produzido pela institucionalização da psicanálise: "para ser fiel à transmissão, é preciso resistir à inovação". Será que essa renúncia às singularidades em nome do bom funcionamento institucional, pretenso guardião da Causa Maior Psicanalítica, produz mesmo o Bem da psicanálise? Será que vale a pena?

Enfim, como me foi pedido uma "provocação" - no sentido etimológico, provocar é "chamar adiante" - concluo por ora: "instituição menor, impasse menor; instituição maior, impasse MAJOR.

NOTAS

1. Contribuição ao Debate no Fórum da SBPRJ durante a Semana René Major, em 20/08/98.

2. Psicanalista, membro da Formação Freudiana e da Société Internationale D`Histoire de la Psychanalyse et de la Psychiatrie, Coordenador da pós-graduação em teoria psicanalítica do IBMR e autor de Transferências Cruzadas - uma história da psicanálise e suas instituições (Revan, 1996).

3. A esse respeito ver Katz, Chaim Samuel. "Formação e menoridade: novíssimas notas", Cadernos de psicanálise, ano XVI, No. 8, CPRJ, 1994.

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