| |
<
voltar
Quando Superbrinquedos duram mais que um verão [1]
texto para debate sobre
AS VICISSITUDES DO SELF E AS CONSTRUÇÕES
DO AMOR
a partir do filme “A.I. – Inteligência
Artificial ”
Luiz Fernando Gallego[2]
INTRODUÇÃO
Após quatro anos de gestação, em 1968 Stanley
Kubrick lançou “2001, uma Odisséia no Espaço”,
obra que o inscreveria definitivamente na história do Século
XX como um daqueles criadores capazes de sintetizar antigas e novas
conquistas de sua forma de expressão artística e,
a partir desta síntese, produzir algo diferente, inusitado,
surpreendente e renovador.
Também podemos pensar “2001” como parte de uma
trilogia – digamos, “futurista” – que teria
se iniciado com “Dr. Fantástico” em sua antevisão
(em tom de humor negro) do apocalipse nuclear a partir do ridículo
da estupidez humana, e que se concluiria com “Laranja Mecânica”,
onde o futuro já estava tão próximo quanto
o paroxismo de violência que vinha se anunciando para as décadas
seguintes, desfazendo a imagem ideal de nossa suposta civilização,
tal como a eclosão da I Guerra Mundial desmascarou os bons-modos
da belle époque.
Aliás, a primeira grande obra-prima de Kubrick era exatamente
sobre a Guerra de 1914 (“Glória feita de Sangue”,
1958), que deixava em maus lençóis a alta hierarquia
militar de tal modo que permaneceu com problemas diplomáticos,
políticos ou mesmo de franca censura por muitos anos: tanto
na Espanha franquista como na Bélgica, Suíca e até
mesmo na França, já que a trama se passava nas casernas
francesas. Enquanto um outro filme antibelicista, de Joseph Losey,
inédito comercialmente no Brasil, abordando o exército
inglês na I Guerra (“King and Country” [Pelo Rei
e pela Pátria”],1964) foi muito prestigiado na França,
o libelo antimilitarista de Kubrick só chegou às telas
de Paris em 1975 !
Em 1987 Kubrick retornaria aos campos de guerra, agora no cenário
vietnamita de “Nascido para Matar”, onde a questão
não era apenas antimilitarista, mas a mesma violência
destrutiva com a qual fizera humor em “Dr.Fantástico”
e que faria parte de elementares potencialidades humanas, tal como
Freud constatara em “Por que a Guerra?” (carta de Freud
a Einstein) e em “Mal-Estar na Civilização”.
O mal-estar da sexualidade reprimida seria tema de um outro projeto
de Kubrick, datado originalmente de 1957 e que veio a ser seu último
filme, “De Olhos Bem Fechados”, retirado do “Breve
Romance de Sonho” (Traumnovelle, 1926) de Arthur Schnitzler,
considerado pelo próprio Freud sua “alma gêmea”,
por abordar, em literatura, temas que Freud pesquisava em Psicanálise.
Podemos perceber, no conjunto da obra de Kubrick, que alguns filmes
como que abrem caminho para outros: seu projeto de filmar “A.I.”
daria continuidade a um tema aberto em “2001” através
do “personagem” computador HAL9000, uma forma de inteligência
artificial que aparentava mais nuances emocionais do que os astronautas
humanos. O mal-estar das vicissitudes narcísicas para a constituição
do self seria o seu desafio subseqüente.
Não sabemos quando Kubrick, um leitor voraz e obsessivo,
terá tido acesso ao pequeno conto de Brian Aldiss “Supertoys
last all sumer long” publicado inicialmente numa revista no
ano seguinte ao do lançamento de “2001”. O autor
da história diz[3] que em “meados dos anos 70”
foi procurado pelo cineasta, dando a entender que Kubrick teria
ficado lisonjeado a partir de elogios de Aldiss aos seus três
filmes de science-fiction em um livro sobre este gênero. E
que só após ter recebido do escritor um livro que
incluía o conto é que o diretor teria se interessado
em adquirir os direitos de filmagem. Isto, em 1982, quando começaram
a trabalhar em um roteiro que desenvolvesse aquilo que o próprio
autor considera como “uma vinheta”. Diz ainda que, embora
Kubrick a tomasse como um ótimo ponto de partida também
não tinha idéia de como ampliar aquilo em um enredo
de longa-mentragem.
Logo no início dos trabalhos o cineasta quis estabelecer
paralelos entre o boneco de madeira Pinóquio, que se transforma
em “menino de verdade”, e o menino-andróide imaginado
por Aldiss – e isto sempre foi do desagrado do escritor. Kubrick
queria materializar a Fada Azul que inicialmente atendera o desejo
do marceneiro sem filhos, Gepetto, no sentido de dar vida ao fantoche
que ele esculpira; e que, posteriormente, vai transformar a madeira
do boneco em carne e osso - e alma?. Para tal, Pinóquio deve
minorar o egoísmo e abandonar o princípio do prazer,
demonstrando ser capaz de considerar a alteridade cuidando de outras
pessoas, o que ele faz quando salva seu “pai” Gepetto
de um monstro marinho. Pinóquio também terá
que aceitar ter uma “consciência” [4], ainda que
inicialmente splittada e projetada fora de si, em um grilo falante;
e ainda elaborar o luto e a culpa ligada à morte de uma menina
que se confunde com a Fada Azul no livro de Collodi. Lembremos que
a história criada por Carlo Collodi tem grandes diferenças
da versão em desenho animado de Walt Disney, embora esta
a tenha sobrepujado no imaginário de todos nós desde
que estreou há 60 anos. Com esta aproximação,
Kubrick também tangenciava a forma de Steven Spielberg se
apropriar de referências tais como a imagem do navio de Peter
Pan voando no céu do desenho de Disney para formular a famosa
imagem da bicicleta em silhueta de encontro à lua cheia em
“E.T.”. Ou de utilizar a canção-tema do
filme “Pinóquio”, When you wish upon a star em
“Contatos Imediatos de 30. Grau”.
O roteiro Kubrick-Aldiss nunca chegaria a um bom termo. Para afastar
definitivamente a relação de sua história com
a de Pinóquio, Aldiss, em 1999, após a morte de Kubrick,
escreveu dois contos onde dava seqüência às desventuras
dos “superbrinquedos”, o menino-andróide David
e o ursinho Teddy, num enredo completamente divergente das intenções
do cineasta. É verdade que algumas situações
destes contos-temporões foram aproveitadas por Spielberg
ao realizar o projeto de seu falecido colega: a idéia de
David se ver multiplicado em vários outros bonecos com seu
mesmo rosto teve seus direitos comprados pelo novo diretor. A “cirurgia”
em David no final do último conto pode ter sido reutilizada
no início do filme e em outro contexto, assim como robôs
dançarinos de um dos contos podem ter contribuído
na composição do robô-amante, Gigolo Joe, que
só existe no filme, a partir de uma idéia de Kubrick.
Um lugar chamado ‘Refugo’ com uma (loja?) “Damos-um-Jeito-em-Você”
aparece nas telas sem este nome como o lixão de ferro-velho
onde os robôs vão buscar próteses para seus
circuitos e “partes corporais” danificados.
Mas certamente “A.I.” não é o filme que
Brian Aldiss desejava ver a partir de seu conto, embora talvez nem
ele soubesse em que filme gostaria de ver sua “vinheta”
transformada. Por outro lado, muitas pessoas acharam que o filme
que Spielberg fez não era o filme que Kubrick faria, o que
fica em cheque se vemos o storyboard (espécie de roteiro
visual em quadrinhos) que um desenhista desenvolveu para o próprio
Kubrick quando este hesitava em dirigir ou produzir o filme para
Spielberg filmar.
Aldiss demonstra em seu prefácio incluído na edição
brasileira de seus contos um enorme mal-entendido dos argumentos
de Kubrick relativos a “2001” ter nascido de um conto
mínimo de Arthur C. Clarke: Aldiss acha que o conto de Clarke
(“The Sentinel”, 1948) “olha para fora, fala de
um mistério em outra parte do mundo” enquanto Supertoys
“fala de um mistério interior”. Kubrick recorrera
ao exemplo do pequeno conto de Clarke transformado em um filme de
mais de duas horas porque Aldiss parecia não estar acreditando
(nem nunca ter acreditado) que sua “vinheta” pudesse
render um longa metragem.
O que Aldiss certamente não sabia era que, em 1962, Kubrick
manifestara suas idéias sobre qual seria “a ficção
perfeita de que se pode fazer um filme: não uma história
de ação, mas sim aquela que se preocupa essencialmente
com a vida interior dos personagens (grifo nosso), dando ao adaptador
um apoio, como que permitindo saber o que o personagem está
pensando e sentindo em cada momento da história. A partir
daí pode-se inventar alguma ação que tenha
uma correlação objetiva com o conteúdo psicológico
do livro e que o dramatize de modo implícito através
de um caminho paralelo e sem ter que recorrer ao fato dos atores
oferecerem explicações literárias do significado.”
Do mesmo modo, em 1970, Kubrick fazia o elogio de sua forma de expressão
artística, dizendo que “o cinema trabalha num nível
mais próximo da música e da pintura do que da palavra
impressa, oferecendo a possibilidade de transmitir conceitos e abstrações
complexas sem o apoio tradicional da palavra.” [5] A cena
de David no fundo do mar, olhando eternamente para uma imagem que
representa a “Fada Azul” em um parque de diversões
submerso talvez seja um bom exemplo disto.
E é deste olhar expectante que gostaríamos de falar
daqui por diante, pois é do olhar dele e do olhar que tivermos
sobre ele que se construirá o filme que guardarmos dentro
de nós. Se Aldiss tem razão em dizer que o que comoveu
Kubrick foi o fato de que seu conto é “a história
de um garotinho que não consegue agradar à mãe,
por mais que se esforce; e que fica confuso com as reações
dela por não perceber que ele é um andróide”,
é neste desencontro que proponho pensarmos.
Para Aldiss, a história “simples”(sic) que atraiu
Kubrick foi “a história de um menino que nunca conseguiu
agradar sua mãe: uma história de amor rejeitado”.
Portanto, não é possível pensar em David sem
pensar em sua “mãe”, ou sem refletirmos, do ponto
de vista dela, sobre o porque de sua rejeição: Monica
seria, a rigor, a mãe adotiva de um andróide que já
nasceu com seus 8 ou 9 anos de idade, construído para amar.
No livro e no filme, a natalidade humana é rigidamente controlada
pelas autoridades: no conto, o casal Henry e Monica está
na fila de espera para a autorização de conceberem
uma criança; no filme eles já tiveram sua única
chance, mas o filho veio a adoecer gravemente e foi congelado enquanto
os pais e os médicos aguardam progressos científicos
para curá-lo.
Em Aldiss, anuncia-se a vez do casal poder conceber; no filme,
o filho orga (orgânico) se recupera enquanto o meca (mecânico)
terá que enfrentar o que para ele é uma nova realidade:
um “novo” irmão que, no entanto, já existia
antes dele.
“REALIDADE” de um Meca ou METÁFORA do Humano?
A questão básica dos contos de Brian Aldiss, queira
ele ou não, é a questão de um “casal-Gepetto”
que não tem seu filho. Ou (o que o escritor admite) a questão
da criatura a quem o Barão Frankenstein “deu vida”.
Já aquilo que motiva os personagens humanos (“orgas”)
do filme é a questão dos lutos terríveis que
envolvem as perdas dos filhos pelos seus pais. Próximo ao
final do filme vamos saber que o “meca” David havia
sido criado à imagem e semelhança de um falecido David-orga,
filho de um cientista, o Professor Hobby; e que o “meca”
é tão-somente o protótipo de “Davids”
em série, ofertado a Henry e Monica por não estarem
mais sabendo como lidar com a situação de ter seu
filho congelado por criogenia. O menino-orga pode voltar a viver
- mas também pode morrer definitivamente. Como lidar com
esta vida “em suspensão”?
O filho congelado, mesmo com a vida “em suspenso”,
está vivo em Monica que vai ao “hospital” ler
para o menino como se o estivesse pondo para dormir.[6] Mas os homens
(Henry e um médico) temem que ela não esteja contando
com a possibilidade da morte definitiva do menino.
Visto deste modo, o “meca” David é fruto de
uma passagem ao ato, uma atuação paterna, tal como
Édipo era fruto de uma transgressão de Laio, amaldiçoado
a não ter nenhum filho sob pena de vir a ser morto pelo filho
que gerasse. Laio engravida Jocasta e, temeroso da profecia, quer
que Édipo morra. Mas o “drama” do andróide
David é anterior à situação edípica,
é pré-edípico, é ainda na relação
dual com a mãe.
E esta mãe, Monica, sempre estranhou o andróide como
uma manifestação Unheimlich, um estranho familiar.
Tal como seria para ela, em um futuro hipotético em que seu
filho orga viesse mesmo a morrer, encontrar este mesmo filho, eternamente
com a mesma idade, um Peter Pan que não crescerá nunca
jamais, um vivo que é um morto, um morto que está
vivo, um luto não elaborado e congelado nela mesma. David
funciona para ela, supomos, como um “fantasma” de um
filho que ainda não morreu, a antecipação de
uma perda, a substituição que não seria feita
se o filho vivesse – que é o que vem a acontecer.
Aceitar David deixou-a perplexa por corresponder a renunciar um
pouco ao filho criogenizado, deixá-lo morrer em seu mundo
interno antes que morresse biológicamente. Ela não
pode amar David pois ele representa um tanto de sua renúncia
materna ao filho concebido em suas entranhas em favor de um “superbrinquedo”
da fábrica onde seu marido trabalha: um “filho”
concebido apenas por homens, sem participação da mulher,
hobbies do tal Professor Hobby que também oculta um luto
não elaborado.
Esta é a personagem Monica criada por Aldiss: a que não
pode retribuir o amor de um boneco programado ou “nascido”
para amar[7]. Embora nunca encontre Gigolo Joe, para Monica deve
ser tão estranho receber o amor de um “filho”
meca quanto ser amada sexualmente por um robô-amante profissional.
Ambos os mecas foram feitos para amar: Gigolo Joe na linguagem genital
dos adultos; David, na linguagem da ternura própria das crianças.
[8]
Se concebemos o filme vendo David como andróide, a “Monica”
do filme será mais semelhante à “Monica”
do conto[9]
Mas se vemos o filme como uma metáfora do nascimento psicológico
dos seres humanos dentro de uma matriz de relacionamentos interpessoais
e intersubjetivos, estaremos vendo um outro filme, identificados
com os sofrimentos de David por não conseguir experimentar
a interação, por não conseguir vivenciar esta
matriz de intersubjetividade, “matriz” que, no final
das contas é um termo correlato ao mesmo radical da palavra
“mãe”.
Uma mulher em análise, sem condições de gestar
por um sério problema de doença, pondera como elaboração
favorável a uma futura adoção: “Se ser
pai e mãe fosse apenas doar genes...”
Por mais que nos curvemos às evidências do peso genético
no destino de cada um, não podemos nos considerar apenas
“um epifenômeno de nossas entranhas” em uma feliz
expressão que escutei de Jurandir Freire Costa em uma palestra
em um Congresso de psiquiatria no Rio de Janeiro em 2.000.
Os fatores genético, congênito e adquirido formam
a gangorra da série complementar que o velho Freud sempre
considerou na etiologia das doenças. A Psicanálise
pode agir nos extremos da curva onde encontramos os fatores “adquiridos”,
advindos do ambiente: no caso, do ambiente psicológico que
todos nós fomos feitos para receber, tal como fomos feitos
para encontrar oxigênio. Pois de outro modo, seremos natimortos.
Físicamente, na falta de oxigênio. Psiquicamente, na
ausência de um ambiente empático para com as nossas
necessidades, físicas e afetivas.
David pode ser considerado, metaforicamente, um “semi-natimorto”
antes de ter seu circuito “amar” ativado por Monica
(tal como está, de fato, semi-morto/semi-vivo, no início
do filme, o filho biológico de Henry e Monica). Feito para
estabelecer, ter e manter um vínculo – amar -, tem
este chip “ativado” por Monica que passa a ser, para
ele, sua mãe. O vínculo não é ativado
por Henry que delega, mais uma vez, tal responsabilidade a “Eva”.
Mas David não encontra, advindo de Monica, o vínculo
de filiação como contrapartida.
Se no filme o andróide for experimentado como uma metáfora
do humano com o qual nos identificamos, condição humana
esta que só pode ser construída e desenvolvida plenamente
na intersubjetividade, a personagem Monica do filme não é
o de uma mãe lúcida que não aceita totalmente
o delírio onipotente de substituir o filho semi-morto por
um “semi-filho”: é, sim, a mãe obstaculizada
por não encontrar no filho as realizações fantasiosas
da imagem pré-concebida que idealizara. Findo “o verão”
de relação quase exclusiva com Monica, David terá
ciúmes do irmão como todas ou quase todas as crianças,
e cometerá atos de risco: por querer se assemelhar aos demais
(na tentativa de alimentação oral que o leva a precisar
de uma intervenção “cirúrgica”);
por medo (como no episódio da piscina quando é agredido
por outros meninos orgas e tenta se escudar no “irmão”
com um ‘abraço de afogado’); ou por ter sido
ludibriado (induzido a cortar o cabelo de Monica, suposta e falaciosamente
para que ela o ame mais[10]). Ele passa a ser um estorvo e não
mais o (super)brinquedinho que não incomodava e que distraía;
não mais o equivalente a um animalzinho de estimação
treinado e adestrado (como Teddy representa) e que só atende
ao narcisismo de seus “donos”.
Henry, como Laio, leva Monica ao papel de Jocasta no sentido de
devolver David à fábrica (para ser destruído,
ou seja, “morto”, já que, se ela ativou o circuito
de David para amar, ele não pode amar outra pessoa –
e para que serviriam bonecos-crianças que não amarão
um novo “dono”, mas permanecerão sempre vinculados
ao antigo?)
Tal como Jocasta, Monica substitui a morte do menino pelo abandono.
Tal como os pais de “João e Maria” deixados na
floresta, Henry e Monica disparam o processo probatório deste
Pinóquio pós-moderno em seu caminho para maior humanização,
que passará pela ilusão do “Mágico de
Oz”. Em vez de ser um Édipo adotado pelos reis de Corinto,
David irá, bem mais adiante, encontrar seu “pai”
mais original ainda, o Professor Hobby numa segunda metade do filme.
Cabe destacar que a “primeira parte” do filme é
uma bela homenagem de Spielberg a Kubrick. Tal como em “2001”
há outros tripulantes da nave, criogenizados, temos aqui
uma criança em idêntica suspensão de vida; há
trechos musicais dissonantes como os que Kubrick inseriu na trilha
sonora de “2001”, assim como há trechos orquestrais
com cordas que remetem ao Adágio de Khachaturian também
utilizado em “2001”; o estilo do filme é algo
“frio”, “clean”, seco. Spielberg mimetiza
Kubrick tal como o meca mimetiza os orgas.
Já na segunda parte, ele vai parodiar a si mesmo: a bela
lua cheia de “E.T.” surge pervertida em balão
de perseguição aos mecas e os cães negros de
perseguição nazista ganham forma mecânica -
mas continuam ameaçando aqueles que ferem nosso “narcisismo
das pequenas diferenças”[11]: se não mais os
judeus como em “Lista de Schindler”, nem negros como
em “Amistad”, nem homossexuais, ou outros “estrangeiros”
do imaginário tradicional, capturam os mecas que, em vez
de encontrarem fornos crematórios, serão aniquilados
no “Circo de Carne” (e não de “peles”
como foi traduzido), misto de ambiente de “rodeio” e
de programa popular de TV, previsão de um futuro reality
show onde a próxima atração poderá ser
a morte “ao vivo”, nem tão improvável
reedição dos espetáculos de mortes nos antigos
circos romanos.
Os mecas sofrem duplamente: por um lado, ainda que sem pânico,
demonstram um “instinto de sobrevivência” que
equivale à mesma angústia de aniquilamento dos orgas
– os quais, entretanto, como ironiza um meca, acreditam no
que não pode ser visto ou medido: sem fé nem transcendência
os mecas podem sofrer uma eternidade de limbo, mesmo tentando manter
suas vidas, como se constata na busca de “próteses”
no lixão. Mas um orga, pai de uma menina que toma David como
se também fôsse orgânico, surpreso com a perfeição
com que aquele andróide mimetiza um menino “de verdade”,
deduz que ele foi feito “com muito amor”. Este detalhe
nos permite inferir que a relação primária
de David não se passou através de Monica, mas do professor
Hobby e seu amor louco e inconseqüente ao brincar com os sentimentos
de seus mecas e ao tamponar seu luto pelo filho morto, o David-orga
modelo.
Assinalemos que, em algum grau, de algum modo, e até saudávelmente,
todos fazemos substituições: o problema é quando
somos apenas um estepe.
O “circo de carne” corresponde ao teatro de fantoches
de Stromboli em “Pinóquio”, onde os bonecos servem
ao proprietário como artistas mas também podem servir
como lenha para a lareira aquecê-lo. A “Ilha dos Prazeres”
para onde Pinóquio foge a fim de evitar aprendizado escolar,
compromisso, etc. tem seu equivalente na Rouge City deste filme,
mas nada ali atrai David, a não ser como meio de tentar reencontrar
Monica a quem ele está aderido indelevelmente. Neste ponto,
a história fantástica-referência do filme é
“O Mágico de Oz” substituído pelo suposto
saber do “Dr. Know”: ‘know’ de ‘saber‘
ou ‘no’ de ‘não’?
Tal como os personagens de história de Oz já tinham
em si as qualidades que esperavam receber “de fora”,
a partir de outra pessoa, David traz em si os elementos para resolver
as charadas que o levarão à Fada Azul - que passara
a ser a sua única esperança: se ela havia transformado
Pinóquio em menino de verdade, poderia fazer o mesmo com
ele. E como um menino real, ele supõe que vai ser amado por
Monica.
Como em várias histórias infantis, David retorna,
por meios próprios e de um processo de amadurecimento, ao
lugar de onde saiu, no caso, a fábrica onde Hobby trabalha
e o “criou”, onde ele encontra o que seria mesmo a “sua”
fada azul, que, portanto, é Hobby. E realiza que a Fada Azul
mítica e mágica não existe. A decepção
é ainda maior com a descoberta de que ele é apenas
um entre tantos “Davids”, o que provoca uma reação
de fúria narcísica seguida de desalento suicida. Joga-se
no mar uterino que nunca teve (ou no ventre da baleia de “Pinóquio”)
e lá encontra o simulacro concreto que esperava encontrar:
uma imagem submersa de Fada Azul, junto à qual permanecerá
esperando ser transformado em “menino de verdade” por
uma eternidade.
Muitos espectadores disseram que apreciariam mais o filme se neste
ponto se interrompesse, se este fosse o final da história.
Mas penso que este não é um filme sobre a busca apenas,
a falta, a castração apriorística, a incompletude
– mas sim, sobre a possibilidade do encontro, ainda que com
os objetos e funções internalizadas.
Heinz Kohut(1913-1981)[12] postula a necessidade de um ambiente
empático que espelhe nossos potenciais, reflita e acate nossas
aspirações e ambições; que nos acolha
e acalme numa vivência de que estamos fusionados a um outro
idealizado e poderoso que nos protegerá, imaginado como parte
de nós mesmos. E que ainda encontremos a vivência de
não sermos tão estranhos ou peculiares em nossa singularidade:
que haja uma ponte de assemelhamento que permita a pertinência,
o pertencimento a uma confraria que é a própia espécie
humana. O que David não pôde tolerar foram os “duplos”
que lhe subtraem a singularidade e ferem o narcisismo arcaico.
Ora, David não pôde ambicionar crescer, ele não
é orgânico: ele é um “mecânico”
; nunca encontrou nos “pais” abandonantes (Henry ou
Hobby) um ideal para se fusionar e posteriormente se individualizar.
Henry e o “irmão”, assim como a própria
Monica, nunca lhe transmitiram um direito de pertencimento ou assemelhamento.
Orgas. Mecas.
Já Gigolo Joe, até por uma certa ingenuidade e limitação,
propicia a David a ilusão de que ele possa crescer (e encaminhar
clientes para ele) ao acompanhar parte de sua busca-trajetória;
lhe dá proteção pelo seu formato “adulto”;
permite a David a experiência selfobjetal de espelhamento
e idealização.
Ao longo desta trajetória, David desenvolve atributos de
um narcisismo que, de alguns aspectos arcaicos, se transforma em
maduro e permite a constituição do ser criativo, com
sabedoria, humor e empatia pelo outro. E até mesmo a aceitação[13]
da finitude, Joe lhe transmite na sua despedida: “I am. I
was.”
David pode reencontrar a mãe que traz dentro de sua memória,
mesmo que por um único dia. Ele sabe que vai perdê-la,
mas para tal, precisa, primeiro, tê-la; e tal como a idealizou,
tal como o seu amor a criou ou recriou em seu mundo interno. Para
o bem ou para o mal, Chico Buarque já confirmou que pode
bastar um dia, “não mais que um dia, um meio dia; me
dá só um dia e eu faço desatar a minha fantasia,
pois (...)se cura a dor na orgia da luz do dia. É só
o que eu queria: um dia pra aplacar minha agonia, toda sangria de
um pequeno dia.”[14]
“Já que aprouve ao dia findar, aceito a noite”,
disse um poeta. A fábula triunfa no momento em que chega
a noite e Monica voltará a dormir para sempre, nunca mais
uma ‘bela adormecida’ a ser redespertada. E David, agora,
pode também dormir, não ser mais o simulacro de um
“bom menino(robô)” que pode ficar quietinho como
se dormisse. (Como experimentaria a cena primária, mais do
que imaginada?)
Não é sonhar nem amar que o fez mais humano, como
supunha o pretensioso e onipotente cientista Hobby, mas, sim, aceitar
a finitude, a transitoriedade[15], morrer. Já pôde
experimentar ser único e especial, já pôde fundir
seu rosto com o da “Fada Azul”, ainda que estátua,
através do vidro da cápsula submarina, já pôde
se sentir um semelhante através do vínculo e subseqüente
afiliação[16] - ainda que por apenas um dia, um momento
atemporal equivalente a uma nova eternidade. Apenas se vincular,
sem evoluir para a filiação pode ser insatisfatoriamente
danoso para a estruturação do self.
David não poderia ficar no final deste filme como o outro
menino (orga) no início, congelado. E este filme, que não
mereceu crédito nem de Brian Aldiss, seu proto-criador, mesmo
após a morte de seu insistente gerador Stanley Kubrick, pôde
vir à luz através de Steven Spielberg.
Tal como seu personagem, precisa ser amado, até nas suas
possíveis falhas. Como cada um de nós.
Rio de Janeiro, julho de 2002
[1]Projeto Psicanálise & Cinema da Sociedade Brasileira
de Psicanálise do Rio deJaneiro, Rua David Campista,80, Humaitá,
30 de Agosto de 2002
[2] Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise
do Rio de Janeiro.
[3] “Superbrinquedos duram o verão todo e outros contos
de um tempo futuro”, Companhia das Letras, 2001, tradução
de Beth Vieira. O título do prefácio de onde retiramos
a mairia das informações referentes ao escritor, suas
opiniões e relatos, é significativamente intitulado
por ele “Tentando Agradar”, o que tanto pode se referir
ao drama do menino-robô querendo ser amado por sua “mãe”
como a uma ironia post morten para com Kubrick a quem as idéias
de Aldiss para o roteiro abortado que escreveriam juntos nunca agradaram,
tanto quanto Aldiss nunca aprovou o que Kubrick pretendia e que
Spielberg finalmente roteirizou.
[4] Que poderíamos associar ao sistema Cs na primeira tópica
freudiana ou ao Superego na segunda tópica.
[5] Ambas as citações foram livremente traduzidas
de material em espanhol do livro “Stanley Kubrick” de
Esteve Riambau,, 3ªedição, Ediciones Cátedra,
1999, Madrid. Coleção Signo e Imagen/Cineastas, vol.3.
[6] Zuzu Angel, impossibilitada de elaborar o luto pelo filho “desaparecido”
durante a ditadura militar brasileira dizia que filhos só
morrem se morrem na lembrança de suas mães.
[7] Embora não fosse o título original (“Full
Metal Jack”), ‘Nascido para Matar’ é o
título brasileiro do penúltimo filme de Kubrick, expressão
antitética a que utilizamos acima.
[8] Como já apontava Ferenczi.em seu famoso texto de 1932,
“A Confusão de línguas entre adultos e crianças”.
[9] E poderemos estar vendo o próprio filme como o “filho”
que Kubrick morreu antes de poder gestá-lo; e sua efetivação
por Steven Spielberg como algo decorrente da hybris que não
tolerou os limites da finitude do cineasta Kubrick. Afinal, a história
do cinema chega a dar origem a livros sobre cineastas importantes
chamados “Os filmes que não fiz”; projetos abortados
costumam a ser em número maior do que os projetos realizados
por gênios como Orson Welles e Luchino Visconti, dentre outros.
Kubrick teve vários projetos que nunca vieram - nem virão
mais à luz, como um ambicioso “Napoleão”.
Por que este “A.I.” não teve o mesmo destino
tão funesto?
[10] Paradoxalmente, é este ato que dará ensejo à
“solução” desejada e que será “atendida”
deus ex machina do desfecho da fábula, no epílogo.
[11] Freud (1930 a), Cap.V de “O Mal-Estar na Civilização”,
Vol.XXI, ESB, p.136. Ver também Freud (1921c), “Psicologia
das Massas e Análise do Eu”, Cap. VI.
[12] “Análise do Self”(1971) e “Restauração
do Self”(1977) foram traduzidos pela Imago Ed. Os livros póstumos
“Como a Análise Cura?” e “Psicologia do
Self e a Cultura Humana” foram publicados pela Artes Médicas.
Infelizmente permanecem sem publicação em livro a
enorme maioria dos trabalhos compilados nos 4 volumes de “The
Search for the Self”, embora muitos estejam disponíveis
em um site na internet.
[13] Estas são as cinco características do que Kohut
considera como “narcisismo transformado”. Ver “Formas
e Transformações do Narcisismo”, trabalho de
1966 publicado no Brasil no livro “Psicologia do Self e a
Cultura Humana - reflexões sobre uma nova abordagem psicanalítica”,
Editora Artes Médicas, 1988.
[14] Trechos de uma das canções da peça “Gota
d’Água” de Paulo Pontes e Chico Buarque.
[15] Ver Freud: “Sobre a Transitoriedade”(1916[1915]),
vol.:XIV da ESB, Imago Ed. Os anteriormente mencionados “Mal-Estar
na Civilização” e “Por que a Guerra?”
(Carta de Freud a Einstein) encontram-se nos volumes XXi e XXII,
respectivamente.
[16] Um dos sistemas motivacionais propostos por Joseph Lichtemberg
desde 1988. Para maiores detalhes, ver seu texto publicado no I.J.P.
(1999) 80, 719-725.
< voltar
|
|