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O SUPER-EGO E SUAS VICISSITUDES
(Uma diatribe winnicottiana – sem superego)

Davy Bogomoletz

Para começo de conversa, este é um artigo que não precisa ser lido. Porque aos que concordam com o que aqui digo, não preciso mais convencer. E porque aos que discordam do que aqui exponho, a esses dificilmente convencerei. Fico, então, condenado ou a chover no molhado, ou a pregar no deserto.

É que se trata, aqui, de mais um dos "rabos" das famosas "grandes controvérsias" ocorridas na British Psycho-Analytical Society, na década de 40. Naquela época, kleinianos e annafreudianos lutavam entre si com tal fragor, que nem sempre ouviam as bombas alemãs caindo sobre Londres. Um novo Homero um dia cantará essa nova Ilíada ("Londríada"), mas não agora: a guerra pela posse da verdade psicanalítica está longe de chegar ao fim.

Falo o que adiante vem por experiência própria: fiz análise de grupo com um analista egresso do movimento kleiniano, que hoje é notável por suas posturas existencialistas e pós-ipeanas. Depois, fui para a individual com uma "monstra", uma feroz kleiniana legítima que, por pouco, não me levou ao hospício: quando lhe disse que eu havia me candidatado à formação no Círculo, primeiro, ela questionou o fato de que eu era psicólogo, e não lhe pareceu suficiente saber que o Círculo aceitava psicólogos. Depois, vencido este primeiro argumento, ela sugeriu simplesmente que eu talvez devesse procurar o Pinel. Assim. Explicitamente. Fugi. No Círculo, fiz análise com um analista que começou como kleiniano, mas logo passou a trabalhar na linha de Winnicott. Até hoje não sei se fui que o obriguei a mudar de estratégia, ou se ele já estava mudando espontaneamente, e eu apenas ajudei com um empurrãozinho. Até hoje, estou convencido de que se não fosse por essa análise winnicottiana, eu teria morrido (por doença ou por morte voluntária) em algum momento desse percurso. Foram mais de 30 anos "struggling for my sanity", como diz Don MacLean na canção "Vincent".

Se os freudianos interpretam (isto é, tratam de interditar) a resistência e as intensões edípicas, se os kleinianos interpretam (idem) a voracidade, a destrutividade e a inveja, e os lacanianos, a demanda (isto é, a mentira, o engodo, a contrafação), temos como resultado global que o psicanalista que eu chamo de "ortodoxo" (assim mesmo, entre aspas, porque sua pretensão à "opinião correta", significado original dessa expressão, não passa, na verdade, de pretensão) visa acima de tudo atingir, com suas intervenções, o id do paciente. Talvez os lacanianos não visem tanto o id. Afinal, a vigarice é coisa do ego. No entanto, a postura desse tipo de "psicanalista" "lacaniano" – sim, ambos os termos entre aspas – é de quem desanca um usurpador. Ainda que o paciente seja do tipo "toupeira", pois nesse caso ele estará usurpando uma paz à qual não tem direito. E a ambição, convenhamos, é sempre da ordem do id. Ergo… Não deve ser à toa que Lacan fala em "examinar o fundo falso da mala do paciente", e em outro lugar fala do psicanalista como um "violador de túmulos"… Os "psicanalistas" "lacanianos" (com aspas nas duas palavras) são aqueles que levam Lacan ao pé da letra, e mesmo sem ter estudado Lacan nem mesmo um pouco, a mim deu para entender que Lacan pode ser tudo, menos um literal. E pensar que é o próprio Lacan quem diz que ao psicanalista – agora sem aspas – são permitidos todos os pecados, menos o da ingenuidade…

Para os "freudianos", o paciente é um parricida incestuoso, a quem é preciso demover de suas horrendas intenções. Para os kleinianos (sem aspas. Winnicott deixava claro, ainda nos tempos heróicos do movimento kleiniano, que se Melanie Klein não impedia seus seguidores de formarem uma seita fundamentalista, era porque ela não queria. Ver "O Gesto Espontâneo", correspondência de D.W.Winnicott, editado por F.Robert Rodman, Ed. Artes Médicas, P. Alegre) ele é um monstro de indescritível selvageria, uma fera dificilmente domável caracterizada não apenas por um apetite insaciável, mas pela implacável satisfação com que estraçalha suas vítimas. E para os "lacanianos", o paciente é um idiota – um idiota que não sabe do que está falando, ou que pretende levar vantagem, e cuja cara é preciso esfregar na sujeira que ele sempre deixa sobre o tapete. (Ah, que saudade de um texto que guardei durante vinte e tantos anos – e por fim perdi – do saudoso Eduardo Mascarenhas, em que ele fazia um estudo antropológico desse tipo sobre cada uma das escolas da psicanálise).

Num sentido bem genérico, o "psicanalista" acima descrito não faz outra coisa, portanto, que bancar o superego do paciente. E um superego, convenhamos, dos mais canalhas, justamente porque entrou na história a pretexto de ajudar – e de libertar!

Sei que a declaração acima é um tanto exagerada. Conheço muitos colegas dessas três escolas que em nada se parecem com o "psicanalista" que acabei de descrever. Mas algumas experiências pessoais de análise, diversos textos e muitos "causos" contados por colegas me convenceram de que o alvo da psicanálise "séria" era sempre o id do paciente. A doença do paciente seria provocada, portanto, por seus impulsos socialmente intoleráveis (coisas do id…) ou por sua percepção inteiramente distorcida da realidade (aparentemente coisas do ego, pois isto se refere à análise "lacaniana", mas como tentei mostrar, é no id com suas maquinações que será "encontrada" a origem dessa "contrafação".)

Dois episódios servirão de "provas" para o que estou argumentando.

Primeiro: como sabemos, nem sempre os psicanalistas escrevem (ou relatam em público) exatamente o que ocorre em seus consultórios. Fui desancado certa vez, durante a apresentação de um caso clínico no Círculo, por um sério (sem aspas) intelectual da psicanálise, por ter tido a audácia de ter sido excessivamente pessoal com meu paciente. Na saída do encontro clínico, queixei-me com um amigo comum, e ele me disse: "Ele disse isso? Cara, aquele lá vende a mãe para que o paciente dele melhore!"

Segundo: uma amiga de longa data, psicanalista winnicottiana veterana e bastante talentosa, resolveu fazer uma re-análise – e desta vez uma análise lacaniana. Foi, pois, e depois de um certo tempo de análise, houve um período de férias. Na volta, minha amiga entrou no consultório e disse: "Puxa, senti tanto a sua falta". A analista interveio (isto é, "interpretou"): "A sessão está encerrada". Saiu minha amiga do consultório, tonta, cambaleou até a esquina, agarrou-se a um poste, quase vomitou, e conseguiu de algum modo chegar em casa. Ao contar esse episódio (para um grupo do qual eu fazia parte), arrematou com um sorriso feliz: "Isto sim é que é análise! Tenho melhorado tanto!…" E mais não disse. Se faltava demonstrar alguma coisa sobre a "análise" "lacaniana", esse episódio é suficiente.

E quando se trata de discutir a questão da percepção da realidade, surge a pergunta: que realidade? Ah, mas essa é uma pergunta que não é bom fazer, porque dependendo de quem a faça – se o tal "psicanalista", se o seu interlocutor (paciente ou não) – a resposta será diferente. Quando é o "psicanalista" que faz essa pergunta, ele naturalmente sabe qual é a realidade, e apenas questiona as ilusões do outro. Se é o interlocutor que a faz, nesse caso ele naturalmente não tem idéia do que seja a "realidade", e por isso será visto mais como psicótico ou como portador da famosa "reação terapêutica negativa", o que quer que isto signifique.

Pelo que tenho visto até hoje, essas minhas diatribes infelizmente ainda funcionam.

A psicanálise "séria" ainda privilegia o id como fonte da doença, e disso resulta que a velha acusação – de que a psicanálise trata de adaptar o homem à sociedade – continua a valer. Os americanos que chamam os psicanalistas de head shrinkers nem sempre estão motivados apenas pela "reação terapêutica negativa".

Por todos esses motivos, achei muito, mas muito interessante o pequeno artigo de Paulo Sérgio Lima e Silva sobre "Por que Superego?", no "Circulando" deste mês.

Claro que observo no seu texto um respeito reverente demais (para o meu gosto) por Freud e suas bíblicas sentenças. (Desculpe, Paulo Sérgio – a minha intenção não é agredir). Mas percebo que o uso que ele faz dessa "Toráh vinda do céu", como dizem os judeus sobre a sua Bíblia, é na verdade subversivo. Sua tão cuidadosa e reverente exposição de motivos deixa a nu um fato incontestável – se levarmos em conta que Paulo Sérgio Lima e Silva é um psicanalista sério – não no sentido entre aspas que utilizei acima, mas no sentido próprio, digno e responsável da palavra – o de que minhas diatribes e estripulias têm pelo menos alguma razão de ser.

Ele diz (num texto que o que tem de sucinto tem de belo e preciso): "Em quantos tratamentos o discurso frágil e inseguro do paciente é abafado pela voz estereotipada e cruel do superego?" E mais: "Quais as vicissitudes do superego no decorrer de uma análise, e como se apresenta na finalização do processo?"

Ora, não sou nenhum talmudista, mas nas entrelinhas das indagações de Lima e Silva vislumbro os contornos do problema que já há tempos vem me ineressando: a psicanálise oficial (leia-se IPA) bem faria se voltasse suas baterias contra o superego, e deixasse o id pelo menos de lado, se não for capaz de deixá-lo em paz.

Alguém me disse certa vez que o que Winnicott fez, em termos da psicanálise freudiana, foi abandonar a segunda tópica e voltar à primeira. Ou seja: deixou de lado a divisão da psique em id-ego-superego, e retomou as noções de consciente – inconsciente (sem muito lugar, na sua teoria, para o pré-consciente – como se este não fosse muito necessário – a não ser que por "pré-consciente" entendamos aquilo que Winnicott chamou de espaço potencial – aquele que não existe a priori, que passa a existir à medida em que vai sendo preenchido por experiências na relação com o ambiente).

Em recente trabalho levantei a hipótese de que o que Winnicott chama de "falso self" teria certas características que o assemelhavam bastante ao que Freud chamava de "super-ego". A saber: molda-se de acordo com a visão de mundo dos pais. Winnicott diz, inclusive, que o falso self desenvolve-se em acordo com o desejo da mãe, passando a funcionar como um "disfarce" para o self verdadeiro – que se sente rejeitado por ela (fisicamente, no gesto de impedir o gesto do bebê, ou de empurrar-lhe algo que ele não queira); atua sobre o self verdadeiro (que passaria a englobar, neste caso, o que Freud chamava de id e parte do chamado ego), reprimindo-o e impedindo-o de atrapalhar o relacionamento do indivíduo com o mundo externo e com os que Bowlby chama de "figuras de apego".

Tendo em vista tais circunstâncias, por que não imaginar que, se o falso self exerce esse poder de polícia sobre o self verdadeiro, cuja característica básica é a espontaneidade, haveria mais do que uma casual semelhança entre os fenômenos (ou os constructos) que chamamos "falso self" e "superego"? A espontaneidade, não esqueçamos, deve ser descrita em termos de um comportamento que surge "de dentro para fora", não sendo moldado pelo desejo do outro. Ao "outro" cabe, no início da vida, acolher ou rejeitar o gesto espontâneo, legitimando o self verdadeiro ou impondo ao novo ser a criação do "disfarce" – o self falso.

Mas não devemos esquecer que Winnicott descreve o desenvolvimento emocional do bebê de um modo que inclui o surgimento do que ele chama de concern – a capacidade de preocupar-se espontaneamente pelo bem estar do outro. Nahman Armony discorre sobre esse processo em seu trabalho "Poderiam Freud e Winnicott nos ajudar a compreender as transformações morais e éticas de nossos tempos?" – publicado na Revista do Círculo em 1997.

É interessante notar que, de todas as noções utilizadas por Winnicott, a que se refere ao "self" é a menos definida, e de fato é a menos definível. O "self", por tudo que pude entender até hoje – depois de longos anos de estudo e reflexão a esse respeito – é o "motor" da existência individual – e também a sua "âncora". Winnicott não encontra para ele uma definição precisa – e na verdade não precisa dela, pois, segundo ele, não é esse – o self – o problema da psicanálise. Da mesma forma poderíamos dizer: O id não é problema da psicanálise – pelo fato de ele ser um problema mais da psicologia geral, ou até da biologia. O id, repositório das pulsões, está lá, age, funciona, e nada tem a ver conosco aqui, do lado de fora. Se o id é o duto por onde passa o impulso (as potencialidades para a ação) que vem do interior do corpo, a psicanálise deveria lidar necessariamente com o que está para lá desse duto, mas não com ele próprio. Ocorre-me uma reflexão: Quando a escola kleiniana clássica alveja os elementos do id – voracidade, inveja, agressividade – ela está, na verdade, ensinando o ego do paciente a lidar com esses elementos, ou seja, construindo um superego capaz de dar conta desse id – coisa que qualquer mãe faz enquanto cria o seu bebê. Portanto, pode-se dizer que os kleinianos (clássicos) faziam o contrário do que Freud havia proposto: reprimiam, em vez de liberar.

O próprio Freud, aliás, talvez se tenha desencantado com a idéia da desrepressão – e talvez não tenha sido por acaso que em "Moisés e o Monoteísmo" ele houvesse feito a apologia do superego judaico – o "bom" superego, o elemento civilizatório por excelência. Talvez a intenção de Freud naquele trabalho tenha sido, na verdade, a de des-divinizar a cultura produzida pelos judeus, tornando-os mais seus autores que seus herdeiros (ou seus "receptores", já que os judeus sempre se referem à Toráh como tendo sido "entregue" no Sinai). Louvável intenção: Num momento em que Stalin estava no auge de seu mortífero poder, Mussolini arrotava arrogância e chacinava "gloriosamente" populações primitivas, e Hitler já estava tão próximo de deflagrar a grande hecatombe mundial, Freud louva justamente a figura do "Grande Homem", aquele que, como Moisés em seu tempo, traça os destinos de seu povo e instaura o superego coletivo que dá origem à cultura e à identidade de uma nação.

Mas que superego, que cultura, que nação! O povo judeu, segundo Freud, era justamente aquele que, graças a esse gigante Moisés, e ao superego essencialmente espiritualizado por ele incutido, alcançou um patamar de cultura e civilização que nenhum outro povo iria alcançar depois! Pois a partir do mandamento que proibe a confecção de estátuas, ídolos e imagens para fins de adoração, não era apenas o mono-teísmo abstrato que estava sendo inaugurado em seu sentido mais elevado, mas ao mesmo tempo eram remetidos a um segundo plano as percepções sensoriais do homem – ensinando-o a "ver com o olho interior", como se diria poeticamente. (A importância desse mandamento é ressaltada, na Bíblia, pelo fato de que logo em seguida à outorga ao povo dos Dez Mandamentos, que funcionariam doravante como uma "constituição" do povo judeu, Moisés volta a subir ao monte Sinai, para, segundo o Êxodo, receber os demais mandamentos e todo o relato restante do Pentatêuco. Ele se demora ali por quarenta dias, e num dado momento o povo que o espera lá embaixo desiste de esperar – perde o que a psicanálise chamaria depois de "traço mnemônico" de sua existência – e consequentemente perde a fé tanto nele quanto na sua mensagem – e constrói a célebre figura do Bezerro de Ouro – imagem visível, palpável, concreta de uma "divindade" que, esta sim, pode ser cultuada, diz o povo, pois ali está ela, ao alcance da mão (e da mente ainda desacostumada com o pensar – essa sofisticação extraordinária do raciocínio abstrato).

Freud faz a apologia desse tipo de superego – que leva à espiritualização da vida psíquica, elevando-a para cima da materialidade das funções fisiológicas e das percepções sensoriais. Claro que, em comparação com a teoria marxista, que proletarizava toda a população e a "impedia de pensar", como ele diz em "Futuro de uma Ilusão", e comparado com as "teorias" nazistas que pregavam um culto quase pagão ao "sangue alemão" e ao "solo germânico", o Judaísmo revelava-se – nessa análise de Freud – um processo civilizatório muito superior. Neste sentido, o "caso" Moisés serviu como uma luva para o esforço de Freud de comprovar as suas teorias psicológicas: A criação do superego ‘espiritualizante’ funcionou, para ele, como um modo de reafirmar a verdade de tudo o que ele havia construído até então. (Baseio-me, para estas considerações, na edição israelense de "O Homem Moisés e a Fé Monoteísta", com tradução e um interessantíssimo epílogo – "O Testamento de Freud" – de Moshêh Atar, um psicanalista israelense, Editora Dvir, Tel Aviv, 1978).

Freud infelizmente esqueceu, porém, que enquanto enraizado em sua terra, o povo judeu não havia se afastado nem do arado nem da espada, e vivia na bruta (ainda que não grosseira) materialidade de qualquer outro povo enraizado e soberano. Os profetas – herdeiros tardios de Moisés, e antecessores de Jesus – espiritualizaram ao máximo a mensagem religiosa judaica, mas foi a diáspora – e isso Freud textualmente reconhece – que levou o povo judeu a agarrar-se ao livro – e a aceitar de tão bom grado os outros "produtos" do superego: a relativa continência sexual – nada tendo a ver com abstinência (ver Eros and the Jews, de David Biale, Basic Books, 1992), a quase ausência de delinquência, e a renúncia quase total à violência). Mas tudo isto lembra o comentário maldoso de Konrad Lorenz – criador da Etologia, o esudo dos animais em seu habitat natural – sobre a história de Pavlov e de seu cão que salivava: "Claro – disse Lorenz – o cão só podia salivar, pois Pavlov o amarrava de ponta a ponta e lhe impedia todo e qualquer outro movimento. Se ele o tivesse deixado solto, veria o cão – uma vez aprendida a relação entre a campainha e a carne – correr até a campainha e latir para ela até que a carne aparecesse…" Na diáspora os judeus dispunham de uma única "área livre de conflito": o pensamento. Ergo…

Ou seja: Por mais belo que fosse o princípio civilizatório que levava à espiritualização e ao amor pela cultura, na verdade ele não passava de uma resposta imposta pelo meio, e não de um desenvolvimento natural. O judeu magrinho, curvado, quase cego de tanto estudar foi subsituído, assim que se tornou possível, no retorno à Palestina ainda sob domínio otomano, pelo agricultor bronzeado e musculoso, e mais tarde pelo soldado ainda mais bronzeado e musculoso na preferência do povo. E os dois acabaram substituídos – no moderno Israel – pelo playboy e pelo executivo com carro importado, assim que isto também se tornou possível. Claro que o amor pelo livro e pela cultura continuou existindo no povo judeu – Israel foi o quarto país do mundo, com seus cinco milhões de habitantes, em número de títulos novos publicados naquele ano, há uns cinco anos atrás (não disponho de estatísticas mais recentes). Mas para um país tão celebremente assolado por guerras, por atentados terroristas e por sabotagens de todo tipo, o número de mortos em acidentes de trânsito era o que mais alarmava as autoridades ao longo dos últimos anos.

O que deu errado, então, com a linda teoria de Freud? O que diria ele desse moderno Israel dos nossos dias? Diria que o belo superego judaico "enguiçou"? Ou reconheceria ele que o superego não é, afinal, a resposta ao enigma do homem? (Sei muito bem que Freud não afirmou as suas idéias desse modo tão simples. Mas não posso agora entrar nos detalhes dessa complexidade. A fim de prosseguir em meu raciocínio, preciso recorrer a essa simplificação, ainda que grosseira. Perdão.)


Em conversa com Nahman Armony há alguns meses, descobrimos que tínhamos ambos imaginado a mesma possibilidade teórica: Que a divisão em id, ego e superego da segunda tópica talvez só pudesse existir se estivéssemos pressupondo um indivíduo não integrado – no sentido winnicottiano do termo.

No indivíduo integrado – ou melhor dizendo, ao modo sempre cuidadoso de Winnicott – no indivíduo em vias de integração, as três instâncias deixam de funcionar como aspectos discerníveis, e a outra classificação – em selves verdadeiro e falso – entra em cena, bem como as duas outras fases de desenvolvimento proporstas por ele: a ruthlessness (substituindo a "fase esquizo-paranóide" de Melanie Klein, e o concern, substituindo tanto a "posição depressiva" kleiniana quanto a "ultrapassagem do Édipo" de Freud – embora Winnicott tenha reservado um lugar muito especial para o conflito edípico explícito, deixando claro que ele existe, é inteiramente normal, isto é, natural, e dizendo ainda por cima que "feliz a criança que alcança essa etapa e a vive plenamente, tendo um pai e uma mãe a quem amar e com quem brigar – e a quem perdoar!… – ver "Natureza Humana", Imago, Rio, 1990).

Claro que esta é uma discussão quase ociosa. Sempre se poderá dizer que uma coisa é uma coisa e não a outra, ou que uma coisa e a outra são a mesma e não duas coisas distintas. Isto porque, em se tratando de psicanálise, as fronteiras entre os diversos elementos – descritos sempre mais para fins didáticos que para fins de territorialização objetiva – são necessariamente ambíguas, sob pena de cairmos num mecanicismo do qual todo e qualquer psicanalista – com aspas ou não – deveria sempre fugir. Mas não custa discutir os pressupostos clássicos da psicanálise, porque esta é uma ciência na qual tudo aquilo que não se discute acaba por tornar-se não um fóssil, mas um veneno.)

Por tudo isso, creio poder dizer que a discussão sobre a natureza e o papel do superego no universo psicanalítico, enquanto conceito dos mais centrais, é – indo um pouco além do que sugerio Lima e Silva – de uma urgência atróz.

Eu mesmo havia sugerido, num comentário ao final de meu trabalho anterior – "Holocausto – a Mega Fabricação do Desamparo", (Revista do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro, Dezembro de 1998), que à psicanálise cabia, já há muito tempo, deixar de considerar o id como seus "inimigo", e assestar suas baterias sobre essa outra instância, o superego. A psicanálise clássica, que não lida com a noção de falso self, não faz o trabalho de resgate do self verdadeiro realizado pelos analistas winnicottianos. Claro que, por se tratar de fenômenos facilmente detectáveis em qualquer pessoa, mesmo sem serem chamados por esses nomes os dois selves acabam sendo tratados por qualquer psicanalista, na verdade por qualquer psicoterapêuta. O self falso é geralmente "trabalhado" em meio à discussão da resistência, da desconfiança e da defesa (o paciente se comportando "bem", ou evitando revelar ao analista o seu lado "sombrio" (como diria Jung). Ainda que não queiram, os psicanalistas mais responsáveis de outras escolas sempre acabam por erodir o falso self do paciente, e por promover o crescimento do self verdadeiro – como quando os lacanianos legitimam o gesto insubordinado, transgressivo do paciente. (Parece contradição com o que afirmei anteriormente, mas não: Ouvi muitos relatos desse tipo de analistas lacanianos. Meu questionamento anterior referia-se a situações acontecidas dentro da análise, em que o paciente busca legitimação por parte do analista, e não a encontra. Esse outro tipo de situação supõe que o paciente "rebela-se" – em geral rompendo o setting – e então o analista legitima o seu gesto.)

O Judaísmo desenvolveu uma "teoria" psicológica bastante interessante. Segundo a sabedoria judaica, operam no homem dois princípios: o Impulso do Bem (yétzer hatóv) e o Impulso do Mal (yézer hará). O termo ‘impulso’ surge aqui como tradução possível, pois na verdade o vocábulo yétzer possui, em hebraico, um sentido que mais o aproxima de ‘pulsão’ (algo equivalente a trieb, que em inglês existe sob a forma de drive: Yétzer vem da raiz yatzór, que também dá origem ao verbo ‘criar’.) Mas traduzir yétzer pelo termo técnico psicanalítico ‘pulsão’, em vez do vernáculo ‘impulso’, soaria como um horrível elitismo. Fica, então, ‘impulso’.

Os impulsos do bem e do mal agem como os anjinhos dos desenhos animados. De um lado o anjinho bom, vestido de idiota, sussurando no ouvido do indivíduo as melosas palavras de contenção e temperança. De outro, o anjinho mau, vestido de celerado, sibilando no outro ouvido convites ao pecado, à maldade e à transgressão. Mas há um aspecto nessa "teoria" judaica muito curioso. O Impulso do Mal é visto como eterno, não erradicável, mas não necessariamente invencível. O homem é convidado a confrontá-lo, resistir a ele, e se possível vencê-lo. E ele é tido como um "servo" do Senhor, o Deus Único. Uma famosa história chassídica conta que, certo dia, um grande rabino encontrou seu filho cometendo um ato de transgressão. "Por que fizeste aquilo?", perguntou o pai. "Pai, o Impulso do Mal veio e me tentou, e eu caí", disse o menino. Aconselhou o pai: "Filho, da próxima vez faça como ele: Assim como o Impulso do Mal, no fim das contas, não faz mais do que obedecer ao Criador, trate você também de obedecer ao Criador." "Sim, pai, concordo", concluíu o menino, "mas não se esqueça de que para ele é mais fácil, porque o Impulso do Mal não tem um Impulso do Mal que o convide o tempo todo a agir errado…"

Do Impulso do Bem pouco se fala, talvez porque não seja preciso. Mas há uma história no Talmud sobre o Impulso do Mal que bem merece ser contada aqui: Está escrito que os sábios judeus na antiga Babilônia (o centro intelectual judaico por mil e quinhentos anos, (580 a.C. a 1000 d.C., aprox., sendo que entre 300 a.C. e 150 d.C. a comunidade da Judeia exerceu a liderança) um dia reuniram-se e decidiram que, se era possível aprisionar o Impulso do Mal e impedi-lo de funcionar, eles o fariam. Usaram todos os poderes dos céus e da terra por eles conhecidos, e por fim o agarraram. Trancaram-no num armário (é assim que a história é contada…) e foram embora para casa, felizes da vida. No dia seguinte confirmaram as suas expectativas: Ninguém brigou, não houve crimes, nenhum pecado havia sido cometido. Mas antes da noite chegar, começaram a surgir notícias inquietantes: Nenhuma galinha pôs ovos. Os namorados não se aproximaram um do outro. Ninguém pegou nas ferramentas, e nenhum tijolo fora acrescentado às construções. Os sábios reuniram-se de novo, deliberaram, e decidiram libertar o Impulso do Mal. Moral (implícita): O id não pode ser suprimido.

Nem mesmo pela fórmula de Freud – "Onde está o id, e ego deverá estar". Mas essa fórmula dá, na verdade, a chave do enigma: Quando Freud diz "o ego", ele não diz "o superego" – e não me consta que ele tenha alguma vez modificado tal formulação. Por "ego" Freud indicava algo muito próximo do que Winnicott acabaria chamando de "verdadeiro self", se não me falha a erudição. (Winnicott reservou o termo "ego" para indicar mais o conjunto de mecanismos de comunicação com o mundo externo). Então, se o id é necessário, e cabe ao ego assumir as suas funções sempre que possível, a idéia de que é o superego que regula a vida psíquica perde em substância. Como disse antes, pode ser que o superego o faça, mas para entender as coisas desta forma teremos que postular um indivíduo onde a integração não avançou muito em seu trabalho.

Aqui surge uma questão que só pode ser abordada por vias indiretas, mas resolve, quando formulada, um grande problema. Trata-se da questão: Qual a sede original da cultura – o ego ou o superego? Digamos que, no sentido freudiano da noção de sublimação, esteja embutida a idéia de que é pela sublimação que se instala a cultura na mente humana. Desnecessário dizer que, nesse caso, o portão de acesso pelo qual a cultura "entra" é o superego, pai da sublimação. Para Freud, então, a cultura não seria um fenômeno primário, mas um fenômeno secundário. Henrique Honigsztejn, num belíssimo trabalho intitulado "O Superego Estético", no qual a questão principal é a gênese do interesse pela beleza, lembra que para Winnicott "arte, religião e ciência (e seria lícito acrescentar – também todo o resto que chamamos ‘cultura’ no sentido elevado da palavra – D.B.) não são modos de escapar às angústias intrapsíquicas ou interpessoais, mas meios de desenvolvimento, possibilitadores de novas criações num encontro com o que um "gênio" (no sentido de "gênio da lâmpada" – D.B.) como essa mãe sensível, oferece." Ou seja, em poucas palavras: Pode até existir um fenômeno que chamaríamos de "sublimação", mas não é ele o ponto de partida para o interesse pela cultura. O interesse é despertado pela experiência da onipotência, da ilusão de um controle mágico sobre a mãe, que a mãe na fase da preocupação materna primária confirma, para só depois desmentir. Essa experiência da onipotência dá origem ao brincar, que por sua vez dá origem ao interesse pelos "brinquedos" da cultura.

Por que é importante essa discussão aqui, num trabalho sobre o superego? Ora, porque o superego funciona como agente de controle do id, e portanto da onipotência, e portanto do processo primário. É exatamente aí que entra Winnicott, com o que chamarei aqui de "revolução da onipotência": Para Winnicott, a onipotência não é um mal, não é a origem da doença, mas ao contrário, é a origm da saúde. Na base da saúde está uma sólida, auto-confiante e quase concreta ilusão!, diria ele. Ou seja: Justamente o contrário de tudo aquilo que a psicanálise clássica tratava de "curar".

Pois se a psicanálise clássica dirige-se ao id, se a idéia é levar o paciente a abdicar da onipotência, se o tratamento é realizado com a intenção de levar o processo secundário a submeter o processo primário, e o id a submeter-se ao superego, permitindo assim a sublimação, etc., então a formulação de Winnicott – embora ele não o afirmasse abertamente (vide meu trabalho "Era Winnicott Homossexual?"), pois não lhe agradava a idéia de tornar-se um maldito da psicanálise ipeana – então a formulação de Winnicott, eu dizia, virou a psicanálise clássica de cabeça para baixo (ou upside down, uma das mais deliciosas expressões da língua inglesa).

Honigsztejn ainda presta em seu artigo uma homenagem indevida a Freud, (a meu ver), pois ele o descreve como um homem "delicado", em comparação com o que se fazia até então com os "doentes dos nervos". E cita "O Humor", de 1927, para mostrar que Freud fala de um superego que "tenta, por meio do humor, consolar o ego e protegê-lo do sofrimento, isso não contradiz a sua origem a partir da instância parental". Pois sim: Não foi esse o superego que os "freudianos" (e não ser qual deles não mereceria as aspas…) adotaram, com sua rigidez cadavérica, com sua célebre "poker face", com sua "neutralidade" inabalável que se tornou por fim motivo de piada.

Tudo em nome do "combate ao id" (ou à onipotência) em que a psicanálise foi transformada pelos "clássicos".

A revolução winnicottiana – e aqui eu assumo a expressão, já sugerida informalmente por mim em outro texto – entende que se o paciente dá sinais de que é o princípio do prazer que o governa, é porque o princípio da realidade não teve a chance de brotar de dentro dele. A técnica, então, consistiria em permitir que o princípio do prazer entrasse em funcionamento abertamente, (até onde não coloque em risco o tratamento, o paciente ou o analista, obviamente), para que dali emerja o princípio da realidade, que é a conquista última do princípio do prazer – e não a sua refutação. Em outras palavras, mais winnicottianas: É preciso deixar o falso self em paz, sem ameaçá-lo, até que o verdadeiro self, escondido lá dentro, emerja. Sem esquecer que o verdadeiro self que precisou esconder-se dentro da armadura do falso self emergirá necessariamente imaturo, o que implica em ter que "aturar" a sua imaturidade tanto quanto possível, pois o verdadeiro self imaturo está ainda necessariamente na fase da ruthlessness, do repúdio ao não eu, e portanto agarrado ao princípio do prazer, que aqui chamamos onipotência. Depois que o verdadeiro self emerge é preciso respeitá-lo, dialogar com ele (antes que pulem os críticos, é o núcleo do verdadeiro self que permanece incomunicável!), acolhê-lo, até que ele próprio se desenvolva ao ponto de alcançar o concern – a capacidade de se importar com o outro, e portanto de aceitar o mundo externo como um bem, não como um intruso ou um assaltante.

A teoria de Winnicott casa-se maravilhosamente com sua técnica. A regressão, pois, é o objetivo inicial da análise, para então ocorrer o desenvolvimento. O analista winnicottiano permite que isso aconteça – não provoca o acontecimento. O analista winnicottiano confia em que isto irá acontecer. Permitir, confiar, que termos anti-científicos, subjetivos, inapreensíveis… Pois é: Ou a psicanálise é isso, ou o Behaviorismo de Watson e seus asseclas não lhe deve nada.

Por sorte, encontro no livro de Jan Abram, "The Language of Winnicott", (Karnac Books, Londres, 1998) à pág. 287, uma citação de Bruno Bettelheim, extraída do livro "Freud e a Alma Humana", publicado no Brasil pela Imago. Bettelheim discute a tradução britânica do termo freudiano "das Ich" (o ‘eu’) por "o ego", argumentando que "das Ich" aponta para a subjetividade, enquanto "ego", no seu latim "técnico" (da medicina) possui uma carga de objetividade que modifica inteiramente a conotação pretendida por Freud (e, acrescento eu, enfatizada ao máximo por Winnicott. D.B.) O fim da citação diz o seguinte: "Ao ler ou falar sobre o Eu, a pessoa é forçada a olhar para si mesma introspectivamente. Em contraste, um "ego" que usa mecanismos perfeitamente definidos, tais como o deslocamento e a projeção, a fim de alcançar seus objetivos em seu combate contrao "id", eis aí algo que pode ser examinado de fora, pela observação de outros. Com esta tradução inadequada e – até onde nos leve a nossa reação emocional à mesma – capaz de nos desviar de nosso caminho, uma psicologia introspectiva transformou-se numa psicologia comportamental (behavioural), observando os fenômenos de fora para dentro."

E Jan Abram arremata: "Um estudo cuidadoso da obra de Winnicott mostra que ele usou o termo "ego" para indicar uma função específica do self. O termo inglês "me" (moi) foi por ele usado precisamente pelas mesmas razões que levaram Freud a empregar o termo "das Ich" – ou seja, para acentuar o caráter interno e subjetivo da experiência. De fato, todo o trabalho de Winnicott pode ser percebido como dedicado à evocação da subjetividade. Assim, é profundamente irônico o fato de que, ao descrever o self já no final mesmo de sua vida, Winnicott ainda insistia em que o ego não era o self. Uma explicação possível para esse enigma é a de que ele refletiria as tensões políticas dentro da British Psycho-Analytical Society, onde era necessário mostrar-se leal a Freud, bem como o fato de que o seu primeiro analista foi justamente James Strachey, o tradutor da obra de Freud."

Q.E.D

 

Rio, Maio de 1999.

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