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O PACIENTE FAZ O ANALISTA**[1]
Neville Symington
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Nota do editor: Neville Symington é psicanalista formado
pela Sociedade Britânica de Psicanálise e atual presidente
da Sociedade Australiana de Psicanálise. Realizou seminário
clínico e conferência na Sociedade Brasileira de Psicanálise
do Rio de Janeiro no último dia 10. Trata-se de psicanalista
com refinamento clínico, pensamento independente e original,
apesar das influências de Winnicott e Bion.
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Eu havia terminado minha análise. Meus dois casos de supervisão
(training cases) tinham satisfeito tanto meus supervisores quanto
a Comissão de Ensino da Sociedade Psicanalítica Britânica.
Eu era, portanto, um analista credenciado. Eu havia mudado muito
em minha própria análise, logo sabia, por experiência
própria, que a psicanálise é capaz de causar
mudanças profundas na personalidade. Esse julgamento foi
logrado a partir da perspectiva de minha vida emocional na época.
Confrontei-me então com alguém com quem minha análise
não me havia provido os meios necessários para tanto.
Essa pessoa foi uma paciente que tentarei descrever.
Ela procurou-me no auge de uma alucinação na qual,
enquanto fundida com sua mãe, estava estrangulando seu namorado.
Havia sido recusada por dois prestigiosos psicanalistas clínicos
antes de ser-me encaminhada. Naquela época, estava trabalhando
em um centro psicoterápico pouco conhecido. Ela estava zangada
por não ter sido aceita por nenhuma daquelas clínicas
e entendia que eu era o seu último recurso. Se ela me rejeitasse**[2],
sabia que não haveria nenhum outro tratamento disponível
para ela. Era extremamente pobre, e um tratamento particular estava
fora de cogitação. Portanto, lá estava ela
atada a mim - a quem achava frio e severo, mas que opções
tinha ela a não ser aceitar o que se lhe fora oferecido?
Oliver Twist**[3] não se deu tão bem quando pediu
um segundo prato de sopa. Ela começou o tratamento no início
de Janeiro, logo após o Ano Novo e, durante três meses,
até a Páscoa, uma singela harmonia dominou o tratamento,
sentindo-se o jovem analista muito satisfeito consigo mesmo. Imaginei
que as coisas continuariam neste tom até que o tratamento
se completasse com sucesso, mas, após o feriado da Páscoa,
um choque me aguardava.
Penso que naqueles três meses ela estava testando-me para
ver se ousava arriscar-se a confiar-me o seu self demente. Aprendi
que alguns pacientes, na fase inicial do tratamento, realmente fazem
este escrutínio do seu analista. Isso também dá
ao analista uma oportunidade para avaliar se está preparado
para uma busca mais desafiadora.
Por que fui aprovado nesse teste, não sou capaz de dizer,
excluído como estava de tal demência. Em retrospecto
penso que ela intuíra um potencial que não tinha sido
posto em prática.
Após aquele primeiro intervalo fui lançado em um
mundo clínico novo e assustador. Minha análise e supervisão
não me tinham preparado para tal susto. Tentarei contar-lhes
a experiência com a qual então me defrontei. Ela entrou
e após um longo silêncio disse:
-Gnomo
Houve então um silêncio de dez minutos. Olhou para
um ponto no chão e disse,
- Brinquedo
Eu estava atônito com esta súbita mudança de
direção. Não tinha experiência suficiente
para tanto. Não haveria por acaso alguém que pudesse
atender essa paciente? Mas quem, eu me perguntava? Essa era uma
pergunta que ela certamente se tinha feito. Eu poderia recorrer
a um supervisor, mas algo dentro de mim se manifestou e me disse
para encarar o desafio. Na época, estava freqüentando
um seminário clínico de pós-graduação
de quinze dias com Herbert Rosenfeld. Então, ali era certamente
o lugar para apresentar essa paciente e, no entanto, quando chegou
minha vez, escolhi apresentar o caso de uma mulher cujas psicose
era camuflada por obsessões. Tive também o pressentimento
que deveria seguir minha intuição e me sentia, na
época, inseguro demais para não me deixar desviar
do curso por uma renomada autoridade. Como foi possível então,
que mais tarde ousasse apresentar o caso a Bion? Penso que fui capaz
de diferenciar conhecimento de sabedoria. Tomei então uma
resolução: atenderei essa paciente para o que der
e vier. Disse a mim mesmo:
O que quer que ela diga ou faça, devo continuar em comunicação
com ela.
Portanto, tendo dito Gnomo e depois Brinquedo eu incertamente esmiucei
minha mente e disse:
“Você se sente como uma criança pequena e quer
ir para o chão brincar com seus brinquedos e quer que eu
brinque com você.”
Não tive nenhuma confirmação ou negação.
Sessão após sessão ela se comunicou desta maneira.
Eu não tinha nada em que me apoiar a não ser na minha
própria imaginação e nela depositei toda a
minha confiança. Fiquei muito contente ao descobrir, anos
depois, que Kant dissera que na imaginação reside
o cerne do entendimento. Aprendi por experiência própria
que a imaginação é a ferramenta do engenho
analítico. Através da imaginação, uni
o que vim a chamar de unidades telegráficas (telegraphic
bits). Quando olho para trás, para a maneira como os uni,
fico envergonhado de minha ingenuidade. Estou certo que setenta
e cinco por cento do que eu disse a ela estava errado, mas continuei
a tecer um modelo ou uma fábula narrativa (narrative tale)
do material que ela me fornecia. Penso que ela sabia que eu era
um neófito que não poderia fazer melhor do que estava
fazendo. Entretanto, ela estava determinada que eu deveria fazer
melhor e acreditava que eu poderia fazê-lo. Esse seu julgamento
estava correto. Ela deleitava-se com este período em que
eu tecia modelos em forma narrativa. Eu sabia disso porque algumas
vezes havia uma insinuação de sorriso em seu rosto.
Vocês estão provavelmente frustrados por não
haver transcrições dessas sessões iniciais.
Elas eram tão bizarras e desconexas que eram impossíveis
de serem registradas. Eram todas dessa natureza de unidades telegráficas.
Ela costumava olhar fixamente para um ponto na sala e dizer: “Círculo
azul” e então dez minutos depois, olhar fixamente para
outro ponto e dizer “Girafa” e assim por diante. Este
processo perturbador prosseguiu durante aproximadamente um mês,
quando depreendi, pela intensa maneira pela qual ela olhava em direção
a diferentes pontos da sala, que as unidades telegráficas
eram objetos que ela “via” em meu consultório.
Percebi então que ela estava alucinando. Estranho o quão
confortadora foi para mim tal compreensão. Por quê?
Penso que deve ser análogo ao que Bion disse, citando Milton:
The rising world of waters dark and deep
Won from the void and formless infinite**[4]
- quando algo é conquistado da informidade para a forma,
é de grande conforto aos seres humanos à busca de
um lar. Similarmente foi confortante para mim quando, mais tarde
em sua análise, pouco a pouco des-velava-se em mim (dawned
on me) a compreensão de que eu estava sob o guante de uma
transferência psicótica.
Muitos de seus objetos alucinatórios no meu consultório
eram animais, sugerindo ela a um colega, que minha sala havia se
transformado no domicílio da Arca de Noé. Também
observei que ela nunca olhava para mim. Começou a ver um
demônio acima da minha escrivaninha. Compreendi, intelectualmente,
que isso era um deslocamento do que ela não ousava ver diretamente
em mim. Quando, mais tarde, o demônio saltou para dentro de
mim, um tempo muito duro me aguardava.
Experimentei que aquilo que é descrito na entrevista inicial,
a respeito das crises na vida amorosa de uma pessoa, é re-vivido
(re-enacted) na transferência. Havia experienciado isso antes,
mas não esperava que isso fosse também verdadeiro
para a experiência alucinatória, que ela teve de estrangular
seu namorado enquanto em uníssono com sua mãe.
Eu olhava para ela um dia quando fui subitamente tomado por um
medo muito estranho. Havia, uma ou duas vezes, pensado que ela se
parecia um pouco com uma namorada que eu tivera. Naquela sessão
eu repentinamente pensei que ela (a namorada) era a paciente. Tentei
dizer a mim mesmo para não ser tolo, mas o delírio
(delusion) persistiu:
A é ela .”
Estava eu certo ou estava eu louco? Minha cabeça girava
em embriagante estupor. Na sessão seguinte, o horror possuiu-me
uma vez mais. Durante esta parte inicial da análise, ela
estava ainda amalgamada a seu namorado David (a quem alucinatoriamente
estrangulava), mas somente mais tarde, é que ela me contou
que naqueles meses iniciais do tratamento havia acreditado que eu
era David. Além disso, ela tinha uma vívida lembrança
do momento em que tinha abandonado essa convicção,
daí deduzi que fora na mesma semana em que eu acreditara
que ela era essa minha namorada do passado. Foi uma experiência
muito desalentadora (unnerving). Confortante foi também ser
capaz de rotular essa experiência como uma contra-transferência
psicótica. Devido ao fato de ter sido uma vivência
tão assustadora, experimentei na pele o porquê todos
nós evitamos assumir pacientes psicóticos e comecei
a ponderar que talvez os dois clínicos que a tinham passado
adiante foram mais sábios do que eu. Também compreendi
melhor, que no início, ela esteve me testando, para ver se
eu seria capaz de suportar a violência de suas psicóticas
projeções.
O dardejar dessas unidades telegráficas continuou por aproximadamente
três meses. Por exemplo, em uma outra ocasião ela entrou,
olhou intensamente para a parede, e após um silêncio
de dez minutos disse:
“O gato de Cheshire**[5] B o sorriso dele.”
Eu disse:
“O corpo, a cara do gato e a última sessão,
tudo passou... Somente um traço permanece: algo que lhe deu
prazer.”
Eu não tinha idéia se tal interpretação
estava correta. A única coisa que eu sabia era que surgiu
de dentro de mim B de minha própria loucura. Voltei-me para
Alice no Pais das Maravilhas para guiar-me na direção
certa B era a minha única enciclopédia. Uma vez pensei:
se colegas estivessem observando esse estranho encontro através
de uma tela unilateral, tanto eu como ela, seriamos despachados
para o hospício mais próximo. Uma coisa eu realmente
aprendi sobre a psicose com a experiência desses estranhos
acontecimentos: somente aquelas comunicações que são
genuínas do analista, de suas profundezas infinitas, surtem
algum efeito. O próprio momento em que o paciente precisa
mais desesperadamente de uma comunicação que parta
do coração do analista, é, paradoxalmente,
o exato momento em que o analista mais propício está
em imaginar o que diria seu supervisor. Tudo bem que se recorra
a um supervisor, desde que o analista seja capaz respeitar, agarrar-se
a suas próprias intuições e esteja preparado
para dizer a si mesmo:
“AApesar do nome desse supervisor ser Rosenfeld, penso que
ele está errado.”
Naquele tempo não era o suficientemente flexível
para ser capaz de dizê-lo a mim mesmo. Somente anos que por-vieram
vim a compreender ser o paciente psicótico torturado pelos
ditames de uma voz que ordena:
“Faça isto.”
ou:
“Faça aquilo; Diga isto, Diga aquilo.”
A intuição sensível de um paciente psicótico,
tal como a mulher que estou descrevendo, sabe instantaneamente quando
digo o que penso e quando digo aquilo que me foi ditado a pensar.
Então, Bion veio a Londres em uma de suas viagens vindo
da Califórnia e procurei-o para supervisão. Ele tinha
o raro dom de ser capaz de fazer comentários sem interferir
com o mim-mesmo (me-ness) das interpretações. Mal
tinha começado a apresentar a paciente quando ele disse:
“E ela pensou que você seria capaz de ajudá-la?”
Murmurei embaraçadamente supor que sim. Disse-me isso sem
a menor insinuação de condenação. Penso,
realmente, estar ele querendo chamar minha atenção
para a fantasia dela de que eu, este irrequieto (exalted) ser, seria
capaz de ajudá-la! A fantasia do analista, como um ser divino,
está sempre presente, creio eu, na parte psicótica
da personalidade. É uma projeção no analista
da parte onipotente da personalidade. Quando expliquei a Bion as
unidades telegráficas por ela usadas e que não sabia,
absolutamente nada, sobre o que se passava em sua vida fora do consultório,
ele me disse:
“Você precisa dizer a ela: se é para você
analisá-la, ela tem que mantê-lo informado.”
Lá estava eu determinado a ser capaz de decodificar essa
linguagem criptográfica. Bion fez-me compreender que estava
eu de conluio com a sua fantasia ao considerar-me divino. Disse-me
outra coisa, fazendo-me respirar aliviado.
Ela vinha se comunicando por unidades telegráficas aproximadamente
há quatro ou cinco meses. Estava começando a ficar
cheio disso. Tinha lido a respeito em algum lugar, talvez em um
tratado filosófico, talvez em um dos textos de Bion, mas
em algum lugar de minha mente, reverberava o pensamento de que a
consciência é a forma para um conteúdo de distintas
e primitivas imagens. Subitamente emergiu o pensamento de que estava
gratuitamente preenchendo o papel de consciência para ela,
e já estava cansado desse papel para o qual ela me impelira.
Isso aconteceu cerca de dois anos antes de ir para aquelas supervisões
com Bion, e não tinha outro guia que não meus próprios
sentimentos, combinados com o pensamento de que me tornara o agente
de sua consciência. Nada pude detectar, no conteúdo
de suas comunicações, que sugerisse uma mudança
de direção - exceto minha própria intuição
(feeling) somada àquele pensamento. Decidi, para o bem ou
para o mal, agir com base nessa intuição (feeling).
Então, na sessão seguinte, quando ela começou
com sua primeira unidade telegráfica, prendendo a respiração
disse a ela:
“Você quer que eu teça isso em uma narrativa
significativa para você, porque acredita não ser capaz
de fazê-lo por si mesma.”
Foi o fim de nossa lua-de-mel. Sua repugnância e ódio
por mim se intensificaram. Aprendi que um paciente nunca se libera
do narcisismo e seus componentes psicóticos, sem antes experimentar
um longo período, durante o qual, odeia sem cessar seu analista.
Isso acontece porque o que é odiado é a realidade
do eu, a realidade do outro, a qual agora entrincheira-se em mundo
ilusório fechado em si mesmo. Quando expliquei essa interpretação,
e, como não tinha evidência alguma para ela - a não
ser o meu próprio sentimento de estar farto, e a idéia
do que é a consciência - Bion perguntou-me qual tinha
sido sua resposta. Retransmiti a ele seu ódio adamantino
e sua fúria cristalina; seus olhos de coruja penetraram em
mim enquanto ela ponderava, pelo que me pareceu um século.
Então, sua voz profunda e estrondeante falou, como que extraindo
a verdade de sua ancestral (ancient) toca:
“Penso que foi uma correta interpretação.”
O demônio, que até então estivera seguramente
alojado na parede acima de minha mesa, havia agora, muito bem e
verdadeiramente, sido depositado para dentro de mim. Isso me despedaçou
por dentro. Naquela época, eu não tinha os recursos
para suportar um ataque de fúria psicótica e recorri
à interpretações clichês. Eram, na maior
parte, interpretações semelhantes àquelas que
meu próprio analista as fizera para mim. Apresentarei o registro
de uma sessão que ocorreu logo após aquela crucial
intervenção minha:
“A única coisa é: eu a detesto. Você
é completamente inumana.”
Seguiu-se um silêncio muito longo e então ela disse,
AApenas elaborações sobre o mesmo tema. É
exatamente como estar com um computador B intelecto mas nenhum sentimento.”
Outro silêncio e então:
“E o robô de uma dona de casa fazendo a limpeza.”
Outro silêncio e então eu disse:
“Você experiencia-me como um computador e isso a faz
sentir um robô.”
Outro silêncio:
“Eu não sei quem é um robô.”
Outro silêncio e então ela disse:
“Eu sempre me pergunto como aqueles macacos fazem as coisas
tão bem naquelas armações de pano.”
Um longo silêncio e então ela disse:
“E violência e destruição.”
Um silêncio e então ela disse:
“E uma brincadeira na qual carteiras escolares estão
sendo despedaçadas.”
Silêncio e então eu disse:
“Seu ódio é devido à frustração
de que você não recebe sentimento de mim.”
Ela respondeu:
“Si-sim”, com um leve sorriso pretensioso, seguido
por outro silêncio e então disse:
“Nenhuma surpresa que eu divirta a mim mesmo com alucinações.”
E assim terminou a sessão.
Em muitas das sessões subseqüentes ela queixou-se
amargamente por ter de ser responsável por minhas reações.
Foi somente mais tarde que eu compreendi que ela estava me paralisando
e que naquele ponto eu estava somente dando interpretações
>espelhadas=, as quais eram deploravelmente inadequadas, se não
inúteis. Quando ela disse que era ela a responsável
por minha reação, isso foi absolutamente preciso.
Eu não estava respondendo a partir de minha própria
liberdade, mas a partir de uma temerosa reação a sua
fúria emocional. Fazia as interpretações espelhadas
que acabei de mencionar por que estava tão amedrontado e
assustado internamente para responder com coragem àquilo
que ela dizia. Ela estava em calamitosa dificuldade na época
e aterrorizada com a violência que nela havia. Temia que pudesse
ferir alguém, especialmente seu namorado David. Não
me envolvi com nada disso, mas apenas espelhei seus comentários
dirigidos a mim, qual coelho assustado. Penso agora que as interpretações
de espelho geralmente fluem desta paralisia interna. Tais interpretações
nunca fazem uma análise avançar, mas em um paciente
que é psicótico tornam as coisas piores porque induzem
à culpa. Ela, a paciente psicótica, sabia que estas
interpretações espelhadas vinham de um analista que
ela tinha desintegrado internamente. O progresso analítico,
nessa análise, dependia inteiramente do processo sintético
que acontecia dentro de minha própria psique. Ela precisava
de algo mais provindo de mim, e, quanto mais ela sentia que estava
tendo esse efeito paralisante sobre mim, mais acometida de pânico
e mais sádica se tornava. Assim, quando relatei tudo isto
a Bion, ele disse com sua perspicacidade característica:
“Sadismo só funciona quando a vítima é
indefesa.”
O que vim a compreender através do processo dessa análise
é: o fundamental (concern) para o paciente psicótico,
ou para a parte psicótica de cada paciente, não é
o que o analista diz, mas sim sua atitude emocional dentro de seu
coração. Que essa paciente estivesse em sintonia com
meus estados emocionais interiores, era coisa certa. Passei a compreender
(realize) que o lugar onde a psicanálise ocorre é
no mundo interno do paciente e no mundo interno do analista, e que
a linguagem é apenas o meio de troca entre os dois.
Darei um exemplo de uma outra sessão que aconteceu mais
tarde, mas enquanto ela estava ainda cheia de ódio em relação
a mim. A sessão foi pouco antes do Natal. Comecei lembrando-a
que esta era a última sessão antes do feriado. Ela
disse:
“O rosto de uma menina de quem eu não gosto; um alarme
que fala e um dispositivo que impede as pessoas de roubarem motocicletas.”
Repliquei a isto da seguinte maneira:
-“Que você não gosta de meu rosto desde que
eu absorvi você. Sou como um alarme que fala quando digo a
você que esta é a última sessão; e você
precisa de um dispositivo para me impedir de roubar sessões
de você.”
Ela disse:
“Criativo (ingenious).”
Eu respondi:
-“Mas talvez verdadeiro.”
Ela disse:
“Bem, a primeira parte a respeito do rosto da menina é.”
Fiz-lhe uma pergunta:
-“Do que você não gostou nela?”
Ela respondeu:
“Ela foi incorporada (absorbed into) e transformou-se numa
menina com o rosto atrás.”
Eu disse:
Que desde que eu a incorporei (I have take you in), como você
estava dizendo...”
Ela interrompeu:
“Eu não disse coisa alguma sobre isto.”
Eu disse:
-“Você disse: Se você está se referindo
a minha mãe...“
Ela disse:
“Sim, que eu desapareci para dentro de você (disapperead
into) há muito tempo atrás.”
Então ela disse:
“Apenas um pegajoso contínuo (sticky continuum).”
Seguiu-se um longo silêncio após o qual eu disse:
-“Implica que eu não posso sair para fora (extricate)
sem ser autoritário com você.”
Depois de dizer isso compreendi (realized) que não poderia
suportar essa transferência empacada (stuck tranference).
Então ela disse:
“Eu não posso sentir você.”
Eu repliquei:
-“Que existe somente eu, e que não há como
escapar para fora.”
Ao que ela imediatamente replicou:
“Eu vi uma imagem de uma cabeça nesse momento.”
Eu repliquei:
-“Do meu eu pegajoso flutuam pensamentos.”
E ela disse interrogativamente:
“Eu?”
Eu respondi:
-“Ou os pegajentos você-e-eu fundidos juntos em flutuantes
pensamentos.”
Ela respondeu:
“Sim, é isso.”
Houve uma pausa durante a qual mudei minha posição
na cadeira e ela disse:
“Você não precisa ficar tão impaciente.
Só tem que suportar isso durante cinqüenta minutos.”
Senti-me imensamente triste e disse:
-“Ao passo que você tem que suporta isso o tempo todo.”
Ela replicou com amargura:
“E não porque o queira profissionalmente.”
E assim terminou a sessão. Penso que desta sessão
vocês verão que eu estava mais em contato com o seu
estado emocional e comunicando-me melhor. Eu raramente sinto tal
tristeza por alguém. Passei a compreender que ela estava
mentalmente fundida comigo e que não poderia, por si só,
separar-se. Isso levou-a à confusão mas foi também
extremamente difícil para mim entrar em contato com o que
eu pensava e sentia, e foi precisamente isso que ela estava mais
ansiosa por descobrir. Não podia descobrir qual pedaço
do pântano era eu e qual era ela. No entanto, vocês
verão a partir disso, que eu não tinha ainda, nessa
fase de minha carreira, o entendimento de qual objeto interno era
uma carga tão opressiva para ela. Quando ela disse que eu
tinha que suportá-lo somente por cinqüenta minutos,
a aterradora introjeção torna-se óbvia para
mim agora, mas eu não sabia nada sobre isso naquele tempo.
Havia sido treinado e analisado dentro de um modelo interacional.
Nada sabia sobre objetos internos.
* * * * *
Como suponho que também seria possível intitular
esse trabalho de O Aprendizado de um Analista [The Apprenticeship
of an Analyst], escorregarei em outro incidente que estava associado
a essa paciente. Durante os primeiros três anos de tratamento
eu a estava atendendo em um pequeno centro psicoterápico
no centro de Londres. Éramos uma equipe de quatro analistas
não médicos. Uma vez a cada quinze dias um de nosso
colegas médicos, também ele um analista, costumava
vir e participar de nossa reunião clínica quinzenal.
Apresentei essa paciente umas poucas vezes neste foro. Quando ele
ouvia minhas apresentações da mesma, muitas vezes
dizia:
“Você precisa falar francamente com ela sobre a sua
auto-destruição. Quando as pessoas estão sendo
auto-destrutivas é necessário falar com elas com toda
franqueza sobre isso.”
Penso que estas não foram as suas palavras reais, mas este
foi o seu significado. Ele as disse várias vezes e era inteiramente
apropriado pois ele tinha capitado a minha timidez. Eu era o diretor
de uma clínica e tinha contratado seus serviços. Organizávamos
cobertura médica para nossos pacientes nas apresentações
quinzenais e suas visitas eram importantes. Então ele começou
a ficar delinqüente: faltar a sessões, chegar atrasado,
telefonar no último minuto dizendo que não poderia
ir e, em duas ocasiões, chegou de maneira desgrenhada. Eu
tinha também ouvido através de informações
informais (bush telegraph), as quais, como sempre, estavam ativas
no universo psicoterápico, de que ele estava se comportando
provocativamente na clínica principal onde trabalhava e assim
por diante.
Um dia, quando ele disse novamente:
“Você precisa falar francamente com ela a respeito
de sua auto-destruição...”
eu, de repente, compreendi (realized) que ele estava falando de
si próprio. Eu tinha a oportunidade ideal, como diretor da
clínica que eu era, de fazer o que ele estava tão
claramente pedindo, uma vez que ele estava rompendo acordos contratuais
que assumira conosco. Entretanto não o fiz, mas me arrependi
amargamente, quando meses mais tarde, ele se suicidou. Aprendi duas
coisas com esse triste acontecimento:
1) Estar afinado, sintonizado com comunicações inconscientes
não apenas em relação a pacientes, mas em um
espectro social mais amplo.
2_ Nesse dilema: Falar ou não falar B que a primeira alternativa
é geralmente preferível à segunda, não
obstante quão dura ela possa ser. Mal preciso adicionar que
tenho freqüentemente rejeitado este conselho auto-administrado.
* * * * *
Durante um ano ela castigou-me severamente por não tratar
das coisas que precisavam urgentemente de atenção.
Como se eu soubesse que coisas eram essas! Ela falava por frases
elípticas e acreditava, através delas, que eu soubesse
todo o conteúdo de sua mente. Bion me disse:
“Você tem de dizer a ela: se ela espera que você
funcione como analista, ela precisa mantê-lo informado sobre
o que está acontecendo com ela.”
No entanto, ela odiava colocar as coisas em palavras:
“Oh, a divindade das palavras...”
ela uma vez disse com altivo desdém. Era torturante para
ela revelar-me as intimidades de seus estados interiores. Sentia
que isto era repugnante.
Repreendeu-me por não ser empático com os problemas
femininos; disse-me que ela deveria estar com uma analista e que
eu tinha preconceitos em relação a ela. Estas queixas
não foram feitas em um padrão coerente de sentenças
mas aos pedaços, em salvas curtas e afiadas. Eu tinha dois
pensamentos sobre esta queixa:
1_Que ela estava sendo sádica comigo - o macho odiado.
2_Que a sua queixa era correta: eu não estava em contato
com ela.
Uma percepção a posteriori sugeriu que ambas eram
verdadeiras. Ela me atacava tão insistentemente que eu duvidava
de mim mesmo. À medida que eu duvidava e vacilava o poder
do seu sadismo aumentava. Finalmente pedi a uma colega feminina
para vê-la para uma segunda opinião. Minha colega relatou-me
que em duas entrevistas que tinha tido com minha paciente ela falou
de maneira tão florida e com a maior coerência possível.
Apesar disso não me surpreender agora, foi um choque na época.
Foi somente ali que compreendi (realized) que eu estava experimentando
uma transferência psicótica. Minha colega ficou ela
própria em dúvida, mas considerando todos os aspectos
foi a favor de que eu continuasse o tratamento. Ao mesmo tempo eu
tive esse pensamento surpreendente:
“Nunca digo a mim mesmo: >Talvez minha esposa desse melhor
com alguma outra pessoa.”
Repreendi-me por ter um caminhão com lembretes ineficientes.
Como resultado disso decidi prosseguir com a análise e não
tive mais dúvidas pessoais a respeito dessa questão.
Aprendi naquela época uma lição muito importante,
mas contarei primeiro como cheguei a ela. Ela costumava dizer bastante
freqüentemente:
“Não posso mover-me até que você se mova
primeiro.”
Eu me perguntava:
-“O quê isso significa?”
Ela também costumava dizer que eu precisava tentar abordagens
diferentes. Eu pensava que ela queria dizer que eu precisava tentar
alguma outra forma de psicoterapia ou que ela estava solicitando
uma interpretação. De uma certa maneira ela de fato
queria dizer isso, mas não era ao nível de palavras.
Bob Caper, em um trabalho recente**[6] faz o seguinte comentário
sobre uma paciente que ele estava tratando:
“Ela está ciente (apesar de nem sempre conscientemente)
de que minha habilidade para analisá-la depende de estar
em contato com alguma coisa dentro de mim mesmo, e que este contato
a exclui.”
Então a um certo ponto ela começou a se posicionar
atrás de minha cadeira no consultório e eu achei desconcertante
interpretar com ela de pé atrás de mim. Um dia, quando
eu estava caminhando para casa após uma sessão, uma
determinação surgiu em mim de não tolerar isso
por mais tempo. Na próxima sessão quando ela fez o
mesmo eu me mudei para outra cadeira do outro lado da sala, e ela
virou-se para mim em fúria, mas mais tarde se acalmou, e
algum trabalho proveitoso aconteceu. Houveram muitas outras resoluções
internas no curso dessa análise. Até agora apresentei
duas:
1) Quando decidi não continuar funcionando como sua consciência.
2) Quando resolvi que ia continuar conduzindo sua análise
eu mesmo.
E agora aqui está a terceira:
3) Eu não mais toleraria tentar interpretar com ela de pé
atrás da minha cadeira.
Então um dia, num súbito lampejo, compreendi que
ela queria dizer que não poderia se mover adiante emocionalmente
até que eu mesmo tivesse feito uma tal mudança interior,
ou seguindo a formulação de Caper, até que
eu tivesse feito contato comigo mesmo. Esta compreensão fez
com que estas afirmações dela fizessem sentido:
“Atenda você mesmo.”
E:
“Você precisa de mais análise.”
Mas mais crucialmente:
“Eu não posso mover-me até que você se
mova primeiro.”
Agora compreendo que quando fiz um destes movimentos interiores
ela por sua vez foi capaz de mover adiante emocionalmente. Formulei
este entendimento alguns anos mais tarde em um trabalho entitulado:
The Analyst´s Act of Freedom as Agent of Therapeutic Change
[O Ato de Liberdade do Analista como Agente de Mudança Terapêutica].**[7]
Gostaria de aproveitar esta oportunidade para enfatizar o que
eu queria significar e ainda significa um ato interior de liberdade.
Este ato interior claramente tem manifestações externas
mas é o ato interior emocional que é terapêutico.
Tenho sido interpretado como querendo significar algum ato exterior
de intervenção e o que eu tenho dito tem sido mal
usado (misused) neste sentido. Por muitos anos acreditei que o ato
interior por si só era suficiente, que não era necessário
interpretar seu conteúdo, mas concordo agora com Rosenfeld**[8]
que escreve que isso não é suficiente e que a matéria
precisa ser interpretada para o paciente.
Escolhi esta paciente para relatar porque a atendi no início
de minha carreira psicanalítica e, felizmente, antes que
qualquer dogma tivesse se fixado firmemente e porque eu inferia
insights do tratamento dela, os quais têm estruturado meu
pensamento desde então. Muitos outros pacientes expandiram
este entendimento mas esta paciente fez algo mais radical. Ensinou-me
que o trabalho analítico reside em resoluções
internas na mente do analista e também aprendi com ela que
os pacientes psicóticos são capazes de intuir a existência
desses estados interiores; que há conhecimento e comunicação
inconscientes operando o tempo todo na análise. Isso é
a análise. Eu certamente não o sabia até que
finalmente isto penetrou em meu cérebro por volta do terceiro
ano da análise dessa paciente. Eu era um analista no nome
quando fui eleito para Membro Associado mas, na realidade, foi somente
quatro anos mais tarde que me tornei um, após um duro aprendizado
com essa paciente.
* * * * *
O problema central desta paciente era o seu terror do sadismo violento
em relação a homens. Isso se referia ao homem dentro
dela e também aos homens fora dela. Em particular, caso viesse
a dar a luz a um menino no futuro, ela temia que pudesse torturá-lo
da maneira muito cruel. Passei a compreender o que eu era para ela:
aquele menino a quem ela atacava cruelmente, e a quem também
desafiava a atingir a idade adulta - tanto analítica quanto
emocional. Em um estágio posterior na análise, após
uma mudança ocorrida nela de ódio para amor, quando
a culpa reinava suprema e ela estava se repreendendo pela maneira
como me tratava, e pelo seu medo de sua própria crueldade
em relação a bebês do sexo masculino, eu disse
a ela:
“Você tem maternalmente cuidado desse bebê extremamente
bem.”
e eu queria dizer isto mesmo. Ela olhou para mim em dúvida
mas penso que teve um entendimento emocional do meu comentário.
Fui capaz de lidar mais facilmente com seus ataques quando compreendi
que eu era este “homem-criança”, e que quando
ela dizia que não podia se mover até que eu me movesse
primeiro, ela estava também dizendo que não poderia
abandonar o comportamento sádico até que eu tivesse
passado por minhas próprias resoluções interiores.
Ela monitorou meu progresso analítico e a cada nova resolução,
era capaz de seguir adiante. O que é sadismo para alguns
que estão fragmentados por dentro, é o remédio
da cura para aqueles nos quais a integração sintética
está ocorrendo. Kierkegaard é o único pensador
com quem deparei que vê esta espada de dois gumes no fenômeno
da punição. A punição que ela me infligia
tinha um efeito curativo. Isso é o que eu queria dizer quando
disse que ela tinha cuidado muito bem deste bebê.
Compreendo agora que ela pensava que eu estava deliberadamente
me contendo e era portanto o foco de uma intensa paranóia.
No entanto, isso não é inteiramente correto porque
ela também sabia que eu não o fazia porque não
podia, portanto, o paranóico e o deprimido viajavam ombro
a ombro, lado a lado. Quando ela compreendeu, através de
algumas das interpretações que fiz, que tinha de esperar
por mim, que eu não podia efetuar essas mudanças de
acordo com a minha vontade, ela ficou triste. Aqui estava ela com
um homem comum, não com um ser divino. Mesmo no auge de sua
paranóia, ela tinha alguma intuição escondida
de que eu estava lutando. Uma vez, no meio de uma outra orgia de
punição, ela repreendeu-me por ter me distraído
na sessão do dia anterior e então disse:
“Suas interpretações deixaram muito a desejar.
Usualmente elas
são bastante precisas.”
Sorri para mim mesmo. Mesmo no meio da mais amarga batalha, a humana
generosidade irrompe. Lembrei-me de um incidente na Guerra da Península
na Retirada para Corunna. Enquanto as armas francesas eram descarregadas
contra as tropas britânicas que fugiam para seus navios, um
bravo soldado inglês se levantou e fez de si mesmo um alvo
fácil, afim de atrair as balas para si próprio, para
que um maior número de seus compatriotas conseguissem alcançar
os barcos em segurança. Os franceses baixaram suas armas
e deixaram seu alvo fácil ileso. Minha paciente também
baixou suas armas, não porque detectasse bravura, mas porque
sabia intuitivamente que seu adversário-e-auxiliar (adversário
combinado com a pessoa que a estava ajudando) não poderia
administrar a situação a não ser que ela também
o fizesse. Já mencionei a outra vez em que ela baixou suas
armas mas farei-o novamente. Estivera me repreendendo um dia por
ser exatamente como um dos macacos de arame de Harlow**[9]. Então,
no dia seguinte, no meio da sessão, ela disse numa voz sonhadora:
“Surpreendente como aqueles macacos se dão tão
bem naquelas mães de arame.”
Creio que ela sabia que eu era um neófito e que sem uma
ocasional palavra de encorajamento eu não poderia me manter
a rota.
Ela estava ansiosa, não apenas a respeito da crueldade em
relação a um possível futuro bebê, mas
também ao homem dentro dela. Penso que o esquema teórico
de Jung de animus e anima é compreensivamente (insightfully)
correto: de que uma mulher não pode ser uma mulher a não
ser que ame animus dentro dela e, um homem não pode ser um
homem a não ser que ame anima dentro dele, e nenhum casamento
pode ocorrer entre um homem e uma mulher a não ser que esse
casamento interior seja primeiro cimentado em solene consumação.
Quando me revoltei e decidi que não mais seria a consciência
para ela, ela experimentou o ódio interior, do qual não
tivera consciência antes. Esse foi o começo de um processo
que começou em ódio inconsciente, mudou para ódio
consciente e terminou em amor. A mudança de ódio inconsciente
para ódio consciente foi um passo à frente pois ela
estava agora comprometida com o outro e não mais insulada
em uma crisálida aprisionadora.
Ela queixava-se amargamente de eu não a ter ajudado a se
comunicar com as pessoas fora do consultório. Mais uma vez,
no entanto, baixou suas armas por um momento e fez com que eu soubesse
que a tinha ajudado a se comunicar melhor consigo mesma. Penso que
quando ela disse que eu não a ajudara a se comunicar com
o exterior estava dizendo que eu não ajudara no desenvolvimento
do homem dentro dela, mas ela realmente dera um passo naquela direção.
Já mencionei este incidente em outro trabalho**[10] mas o
mencionarei aqui novamente:
Ela disse:
“Você não me ajudou nem um pouco a me comunicar
fora dessa sala sagrada. Ah, sim, você me ajudou a me comunicar
com você, mas com ninguém mais além do seu maravilhoso
você.”
No dia seguinte, ela entrou e andou arrogantemente pela sala (enquanto
isso, eu olhava nervosamente para um vaso de flores que ela acariciava
com a mão direita) e, então, ela olhou penetrantemente
para mim e disse:
“Agora encontrei alguém que realmente compreende (symphathetic)
as mulheres. Falei com ele ontem e ele entendeu o difícil
predicamento das mulheres, ele entendeu como uma mulher se sente.=
Como no dia anterior, minha anatomia interior era uma correnteza
crescente de fúria às suas insinuações.
Estava prestes a apontar seus ataques destrutivos em relação
a mim e seu intento em denegrir o trabalho que tinha sido feito,
mas me contive. Não foi fácil me conter, havia um
cabo de guerra dentro de mim: um lado estava dizendo: AAponte o
ato de denegrir” enquanto o outro lado estava dizendo Acontenha-se”.
O lado Acontenha-se” venceu, e, então, a calma começou
a tomar conta de mim, e, daquele estado, veio um claro pensamento
que eu verbalizei da seguinte forma:
-“Você está me informando que as coisas melhoraram
desde ontem; que agora você é capaz de se comunicar
com os outros fora do consultório.”
Novamente a espada de dois gumes: uma mensagem clara mas revestida
de um tom provocativo que inicialmente me impediu de ouvir. Havia
um cuidado maternal dentro de uma moldura de loba, prostituta (bitchy)
.
A crueldade em relação a ela mesma estava também
diminuindo em sua vida profissional. Quando começou a análise
trabalhava com estatística: quando terminou a análise
tornara-se uma pintora. Estava fazendo, através da análise,
uma importante transição emocional. Uma figura interveio
cruelmente para impedir homem e mulher de se unirem. Houve dois
impulsos opostos: um me afastando para longe e outro clamando para
que eu me aproximasse. O clamor para que eu me aproximasse era claramente
audível, se eu fosse capaz de excluir sua roupagem provocativa;
como alguém que é uma boa mãe mas externamente
parece uma prostituta. Uma vez conheci uma pessoa que era muito
discreta e capaz de guardar segredos, mas exteriormente era extravagante
e dava a impressão de ser um risco paro o Serviço
Secreto Britânico, para o qual trabalhava B mais precisamente
como uma versão feminina do Pimpinela Escarlate (Scarlet
Pimpernel).**[11]
Quando ela me procurou tinha tido um episódio psicótico
com alucinações e na análise ela sucumbiu e
retornou aos elementos primordiais dos quais a fundação
de nossa vida mental é moldada. Os sinais aos quais me referi
como unidades telegráficas eram compostos de imagens visuais.
Cada um dessas unidades encapsulava uma intensa mas discreta experiência
emocional. Naqueles três meses enquanto ela falava sobre as
imagens que apareciam nas paredes do meu consultório, eu
mergulhava em um estranho e amedrontador mundo B um mundo sem significado
que muito me perturbava. Ela projetava essas imagens na parede do
consultório que ficava a nossa frente. Pelo menos aqui havia
algo de sólido e concreto B nenhum símbolo lá,
mas quando o expliquei a Bion, ele me disse:
“Essa é a parede entre os dois de vocês.**[12]“
Este seu comentário atordoou minha mente. Compreendi profundamente
dentro de mim o que Bion queria dizer. A parede fora construída
a partir de sua provocação e do meu narcisismo. Estes
dois elementos construíram uma parede muito sólida.
Logo após eu ter feito aquela intervenção,
quando recusei continuar a funcionar como uma consciência
para ela, ela relatou seu primeiro sonho:
Ela entrou num quarto onde jazia o corpo de sua mãe. Era
feito de poliestireno. Ela o tocou e ele explodiu em uma massa de
partículas.
Quando ela me contou este sonho experimentei um alívio enorme.
O peso do mundo pareceu escorregar dos meus ombros. Compreendi instantaneamente
que a massa de partículas eram as imagens alucinadas daqueles
poucos primeiros meses. Eu tinha saído de um bizarro mundo
Kafkaniano para um lugar de frescura e luz. Penso que aquele sonho
representou um momento de síntese. Foi uma experiência
diferente de qualquer outra que tivera na minha prática clínica.
Logo depois disto, veio a sessão que engloba esse problema
inicial com o qual ela estava violentamente lutando. Ela o tinha
vivido; agora começava a ser possível entendê-lo
e transformá-lo em palavras.
No início houve um longo silêncio mas notei que ela
parecia mais feliz que anteriormente. Havia até um sorriso
em seu rosto. Após um quarto de hora ela disse:
“Os únicos pensamentos que existem são superficiais
e estão em um circuito diferente.”
-“Então eles pertencem a outra pessoa”.
“Diferentemente da última sessão quando eles
absolutamente não me pertenciam.”
SILÊNCIO.
-“Então há alguma diferença desta vez?”
“Eles estão por aqui na coroa de minha cabeça.
Como nata no leite apesar de não serem como nata.”
-“Então quando eu falo faço apenas contato
superficial com você.”
“Há outros contatos que...”
-“Você poderia elaborar esta idéia?”
“Bem, contato físico, contato com toque, contato
com os olhos.”
-“Penso que minhas palavras não têm sentido
porque não são uma expressão de sentimentos
sentidos (feelings held). Quando você olha para mim há
pânico ou medo nos seus olhos. Eu não a sustenho (hold).
Eu a deixo cair.”
“Sentir-me não contida sim, mas não acho que
eu sinta isso aqui. Sinto que sou capaz de causar isso.
Eu disse com obstinada insistência:
-“Eu me pergunto (I wonder) se você não sente
isso aqui. Quando você vem para as suas sessões não
traz nada de fora. Não tenho conhecimento algum de nenhum
fato biográfico atual. Quando você sai eu apenas a
deixo cair.”
LONGO SILÊNCIO.
“É aterrorizante se você existe.”
Então ela disse:
“Meus pensamentos estão em outro lugar - que sentimentalidade
exagerada**[13] tem os seres humanos”
Então ela disse:
“Estou pensando em uma história de Doris Lessing.”**[14]
Perguntei:
-“Você poderia me contá-la, por favor?”
Ela disse:
“É sobre o problema do sentido (meaning)**[15]. Um
homem negro deixa sua cultura e vai para a terra dos brancos. É
tudo misterioso e ele não tem as ferramentas e implementos.”
Aqui eu estava insistentemente forçando uma linha de Winnicott
sobre ser contido (held), quando a situação nada tinha
a ver com isso. Ela expressou perfeitamente qual o era o problema
naquela última sentença. Ela estava no mundo das imagens
sensoriais e não tinha as ferramentas com as quais pudesse
expressá-lo. Estava se movendo para dentro do território
da linguagem: em que os símbolos expressam poderosas emoções
interiores. Finalmente ela conseguiu fazer com que isso penetrasse
em minha cabeça e penso que uma alvorada de entendimento
(dawning understanting) começou a nascer dentro de mim. Entretanto,
falhei completamente em interpretar a sua própria ação
projetiva e destrutiva à qual ela se refere nestas palavras:
“Sinto que sou capaz de causar isso.”
No entanto, apesar de não ter feito isso, eu de fato vim
a compreender o significado dessas minhas resoluções
interiores, as quais me capacitaram a separar meu self destas projeções
destrutivas.Tecnicamente é claramente melhor se tanto as
projeções possam ser interpretadas quanto o próprio
self emocional da pessoa possa ser solidificado. Mas dos dois processos
paralelos o último é, em minha opinião, o mais
importante.
Desde então tive (e venho tendo) outros pacientes que odeiam
palavras que se lhes parecem tão fora de harmonia com as
emoções interiores. Lembro-me de uma vez quando estava
trabalhando em uma enfermaria psiquiátrica, uma paciente
entrou em um estado de pânico e enfiou seu braço pelo
vidro da janela, cortando-se seriamente. Um médico foi chamado
para suturar o ferimento. Ela estava respirando pesadamente sob
o poder de uma profunda emoção interior. O médico
lhe disse despreocupadamente: AVocê assistiu o jogo de Wimbledon
na televisão esta tarde?”
Houve uma outra coisa muito importante que essa paciente me ensinou:
simplicidade de expressão. Quaisquer interpretações
nos moldes de: APenso que você está tentando me dizer...”
etc. eram frases mortas. Aprendi que tinha de dizer o óbvio
em uma linguagem simples. Tinha de interpretar a linguagem visual.
Assim, por exemplo, próximo ao final da análise, ela
entrou com uma aparência bastante diferente. Estava bem vestida
e tinha tomado posse de sua beleza. No entanto dizia quão
terrivelmente mal se sentira e quão ruins as coisas foram.
Naquela altura, tinha então aprendido a confiar nas observações
simples, portanto disse a ela:
“Você está com uma aparência extremamente
boa, portanto, em seus sentimentos você está apartada
(cut off) da maneira como você foi.”
Vocês compreenderão (will realized) que eu a levei
a sério e tomei o visual B o sensorial B como expressão
do seu verdadeiro eu. Eu tinha começado a compreender que
não devia ser enganado pelas palavras.
Foi somente próximo do final da análise que sua extrema
negatividade veio à tona. No passado ela tinha me acusado
tão persistentemente de negatividade que somente agora eu
era capaz de vê-la (a negatividade) dentro dela.
Seu ódio e desprezo por mim foram constantes durante cinco
anos. Sentira-me sob considerável tensão durante suas
sessões. Entendia extremamente pouco sobre o que estava acontecendo.
Sentia-me constantemente ansioso e preocupado. Suas sessões
consumiam-me mais energia emocional que a de todos os outros pacientes
meus. Então finalmente a oportunidade surgiu. Ela experienciou
uma ansiedade cataclísmica e os dois lados: o masculino e
o feminino, o esquerdo e o direito, o adulto e a criança,
o intelectual e o sensorial, o provocativo e o carinhoso colidiram.
Ela teve de ser hospitalizada por alguns dias. Estava agora explodindo
de amor por mim, sentia extrema culpa e preocupação
de que pudesse ter me feito algum mal. No meio de um desses intensos
momentos de recriminação a respeito de sua crueldade
em relação a mim, decidi contraditar isso com todo
o peso destas palavras:
-“Em minha vida conheci umas poucas (handful) pessoas, certamente
não mais do que seis, e conhecê-las trouxe-me grande
enriquecimento pessoal e por essas pessoas tenho um respeito permanente.
Incluo você como uma das seis.”
Ela chorou e disse que estava triste por ter de haver uma separação.
Hoje sei algo sobre o mundo interior e pensava que sabia como interpretar
a negatividade e mostrar algo sobre sua origem, mas naquela época
eu não estava familiarizado com isso. Em minhas análises
e em minha formação não tinha aprendido a respeito
de atividades emocionais internas. Acreditava na época que
tinha de contraditar-me a esta negatividade e trouxe à tona
a afirmação pessoal que mencionei a vocês. Acredito
que naquela época eu era um psicoterapeuta e não um
analista. Aquela afirmação que fiz poderia ser bastante
aceitável em um modelo interacional de psicoterapia mas não
era análise. Dadas as ferramentas que eu tinha à mão
naquela época, eu tinha de deixar suas declarações
negativas passarem ou contrapor-me a elas da maneira como fiz. Penso
que a última alternativa foi melhor que a primeira.
Ela queria parar. Eu a tinha atendido por quase seis anos. Não
sei se estava certo em concordar com aquele término mas suspeito
que sim. Penso que ela tinha atingido dentro de mim todos os recursos
e conhecimento que estavam disponíveis na época. Na
última sessão ela me trouxe um desenho que tinha feito
de uma mulher em posição de repouso. Naquela sessão
ela disse que podia ser uma mulher agora, que era capaz de reconhecer
o homem dentro de si.
Houve um outro incidente que relatei em The Analytic Experience
(A Experiência Analítica)**[16]:
Ela vinha me punindo sessão após sessão, semana
após semana, mês após mês e eu tinha estado
ocupado me defendendo do ataque e apontando a sua destrutividade.
Ela foi então para uma cidade no campo e falou com a primeira
orientadora que tinha consultado e confiou-lhe sua preocupação
sobre o modo pelo qual a análise estava se desenvolvendo.
Ela me contou o quê essa mulher lhe disse: >Ele não
pode ouvir um bebê que chora.= Quando ela disse isso, tocou
numa corda que soou direto dentro de mim. Subitamente ouvi a seqüência
da sessão após sessão, semana após semana,
mês após mês sob uma luz diferente. Ouvi um desesperado
bebê chorando. Eu estava fulminado. Disse a ela: “O
que ela lhe disse é inteiramente correto”, e ela rompeu
em choro.
Ela me procurou porque estava desesperada. Eu a atendi no Serviço
Nacional de Saúde da Inglaterra. Muito poucas vagas para
análise eram disponíveis em hospitais e clínicas
da Inglaterra. Ela não tinha dinheiro e recebia pensão
do governo para desempregados. Tinha me oferecido para atendê-la;
ela me aceitou porque não tinha outra alternativa. Tinha
sido rejeitada por duas clínicas. Eu era o último
recurso. Ela também sabia que eu não era suficientemente
maduro tanto profissional quanto emocionalmente para conseguir tratá-la.
Compreendia (she realized) que sua única opção
era forçar-me com todas as suas energias de seu ser, para
transformar-me no analista que ela precisava. Antes de atendê-la
eu não tinha idéia do que era uma análise.
Quando terminei seu tratamento comecei a ter os primeiros vislumbres.
Isso também acionou desenvolvimentos emocionais que foram
favoráveis em outras áreas de minha vida, além
da profissional.
Em uma ocasião estava com um grupo de pessoas que discutiam
a melhor maneira de conduzir meninos adolescentes através
de uma fase homossexual para a maturidade heterossexual. Havia uma
jovem senhora francesa no grupo. Após uma considerável
intelectual e requintada discussão, esta senhora disse estridentemente:
“Fui certa vez a governanta de um jovem chamado Pierre. Quando
atingiu a idade de 14 anos expliquei-lhe tudo sobre sexo e fazer
amor...”
Então ela olhou ao redor para todos nós, estufou
o peito com orgulho e disse:
“Mas quando ele fez 16 anos B em seu aniversário B
eu fiz dele um homem.”
Eu havia passado por uma análise, tido meus casos supervisionados
e freqüentado muitos seminários clínicos. Tinha
sido orientado sobre como conduzir uma análise, mas aquela
paciente fez de mim um analista.
Comentário
O paciente psicótico está em contato com as emoções
íntimas do analista. Eu não tinha compreendido isso
antes de tratar essa paciente. Aprendi isso através do meu
relacionamento com ela. Sei agora que é absolutamente crucial
compreender isso quando está ocorrendo o contato com a parte
psicótica da personalidade. Entretanto, penso que a lição,
humanamente possível, mais valiosa que essa experiência
me ensinou, foi estar em contato com a comunicação
do paciente em sua direta nudez, e não ser seduzido para
longe dela por teorias baseadas em repressão, resistência
ou defesas. Compreendi que interpretações baseadas
em tais suposições teóricas reforçam
a avaliação negativa que já estão tão
fortemente estabelecida interiormente.
Daquela época em diante minha atenção esteve
sempre voltada para a área psicótica da personalidade,
mas em particular para a parte saudável que estava lutando
para restaurar o ego - como Bion salientou.
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[1]** Traduzido do original inglês pela Prof0 Margarida Troncon
Busatto, revisão técnica do Prof1 Amauri Faria de
Oliveira Filho e de Dr. J. A. Junqueira Mattos e lido e aprovado
pelo autor Dr. Neville Symington.
[2]** A frase original de Dr. Symington é: AIf she turned
me down she knew that no other treatment would be available for
her.@ Penso que essa frase não faz sentido, desde que: tendo
ela sido já rejeitada por dois eminentes psicanalistas, o
seu (dela) temor é de que Dr. Symington a rejeitasse também,
e não de que ela o rejeitasse!
Nota de J. A. Junqueira Mattos.
[3]** Oliver Twist é a principal personagem da obra de Charles
Dickens, de mesmo nome.
Nota de J. A. Junqueira Mattos.
[4]** O nascente mundo de escuras e profundas águas
Nascidas do infinito vazio e informe.
Tradução de J. A. Junqueira Mattos.
[5]** A paciente de Dr. Symington faz aqui referência a uma
personagem de AAlice no País das Maravilhas@ de Lewis Carroll:
o Gato de Cheshire. Penso que é uma referência ao seguinte
trecho: AI didn't know that Cheshire cats always grinned; in fact,
I didn't know that cats COULD grin.@ Cuja tradução
para o português é a seguinte: AEu não sabia
que gatos de Cheshire sempre sorriam; de fato, eu não sabia
que gatos podiam sorrir.@ ATo grin@, antes de um sorriso, é
um esgar de dentes, uma grimaça.@ Grin e grimaça têm
a mesma etmologia, a qual remonta ao Francês antigo - século
XIV.
Nota de J. A. Junqueira Mattos.
[6]** CAPER, Robert. (1996) On Having a Mind of One´s Own.
Boletim da Sociedade Britânica de Psicanálise. Vol
32, No. 6, p.22
[7]** SYMINGTON, N. (1983). The Analyst´s Act of Freedom
as Agent of Therapeutic Change. Na Revista Internacional de Psicanálise
v.10 pp.283-291.
[8]** ROSENFELD, H. (1952) Notes on the Psycho-Analysis of the
Superego Conflict in an Acute Schizophrenic Patient. In Psychotic
States p. 76. London: Hogarth Press.
[9]** A fim de estudar o desenvolvimento de respostas afetivas
de macacos neonatais e infantis, durante mais de 15 anos, H.F.Harlow,
do Centro de Pesquisas com Primatas de Madison, Wisconsin, separou
macacos de suas mães após o nascimento. Em seus experimentos,
cada bebê teve acesso a duas mães artificiais, uma
delas sendo uma armação de arame com rosto de madeira
com uma mamadeira à altura do peito, e a outra, mais ou menos
semelhante, porém revestida de um tecido felpudo e com a
mamadeira na mesma posição. Os bebês ficavam
com ambas as mães, mas a medida que cresciam, mostravam uma
forte ligação com a mãe de pano. Quando deparavam
com um intruso, por exemplo, um urso mecânico de pelúcia,
fugiam para junto da mãe de pano, agarravam-se à ela
e, então, confortados e sem medo, examinavam o urso. Do mesmo
modo, quando colocados numa sala estranha, procuravam imediatamente
a mãe de pano e se agarravam a ela em busca de consolo, antes
de iniciarem a exploração. Os bebês de macaco
criados sem as suas verdadeiras mães, ou as substitutas de
pano felpudo, mostraram-se incapazes de relações sociais
normais. Um macaquinho criado em solidão apresentava um quadro
muito grave, evitava todo contato social, parecia sempre muito amedrontado,
tinha uma postura de encolhimento: abraçar-se a si mesmo,
semelhantemente a um bebê autista. Harlow ficou impressionado
com a possibilidade de, além da fonte de alimento obtida
pelo leite na mamadeira, a busca pelo conforto psíquico pudesse
ser uma variável importante no desenvolvimento do afeto dos
bebês macacos com as suas mães. De acordo com ele:
"a estimulação tátil (pela mãe)
é tão importante quanto o alimento no desenvolvimento
dos comportamentos". (Dados obtidos via pesquisa na Internet.)
Penso que poderíamos afirmar que às mães de
pano guardam analogias com os objetos transicionais de Winnicott.
Nota de J. A. Junqueira Mattos.
[10]** SYMINGTON, Neville. (1990). The Possibility of Human Freedom
and its Transmission [A Possibilidade de Liberdade Humana e sua
Transmissão] (com especial referência ao pensamento
de Bion). I.J.P-0 p.101.
[11]** Personagem criado pela Baronesa Emmuska Orczy, AEmma Orczy@(1865-1947)
. Fez parte de inúmeros filmes, musicais na Brodway, e peças
de teatro.
Nota de J. A. Junqueira Mattos.
[12]** A frase original em Inglês é: AThat=s the wall
between the two of you@, ou seja, Atwo of you@, significa que existem
dois Aeus@ que se aproximam; mas que, ao mesmo tempo, conservam
sua individualidade; e que, ainda ao mesmo tempo, constroem a parede
entre os dois.
Nota de J.A. Junqueira Mattos.
[13]** A expressão original Inglesa é: Agooey mess@,
que pode significar tanto Abagunça pegajosa@ quanto Asentimentalidade
exagerada@.
Nota de J.A. Junqueira Mattos.
[14]** LESSING (Doris), escritora inglesa de origem iraniana (Kermanchah,
1919). Seu teatro e seus contos analisam os conflitos humanos e
raciais e a condição da mulher. Obras: Os filhos da
violência, O terrorista, O carnê de ouro etc. 81999
Enciclopédia Koogan-Houaiss Digital
Nota de J. A. Junqueira Mattos.
[15]** Meltzer faz uma importante diferenciação entre
Ameaning@ e Ato signify@ ou Asignificance@, sobre a qual penso valer
a pena ponderar. Diz ele na Introdução dos AStudies
in Extended Metapsychology@: Se formos fiéis em nossa linguagem
a essa diferenciação teríamos de reservar a
palavra >sentido= (meaning) para a representação
de estados emocionais pelos símbolos criados pela função
alfa quando usada em construção de pensamentos-sonhos.
Às palavras usadas para dar nomes aos fatos do mundo externo,
aos sinais convencionais de comunicação, deveriam
ser usadas, da mesma forma: >significar= ou ter >significado=.
As construções gramaticais obedecem as leis da lógica
e tem sua base nas palavras externas de casualidade, um mundo finito
onde quantidade é discernível, ou pelo menos onde
quantificação é útil. Pode parecer um
desperdício (uma pena) associar uma palavra tão amável
(encantadora, graciosa) como >significado= a essa função
menos poética, mas o fato de conter a palavra >signo=
na sua raiz, requer que o façamos (p. 10). Mais à
frente à página 26 ele retoma e expande o assunto.
Studies in Extended Metapsychology - Clinical Applications of Bion=s
Ideas 1986, Clunie Press for The Roland Harris Trut Library No.13.
Nota de J. A. Junqueira de Mattos.
[16]** Symington, Neville (1986). The Analytic Experience. London:
Free Association Press.
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